06/01/11

"SILABÁRIO DO CRISTIANISMO" - (Capítulo I) Recapitulação


(Capítulo I)
"A ignorância religiosa"

Numa da "Las más bellas leyendas cristianas", recentemente coleccionada por Guido Batelli, lê-se o que sucedeu aos sete dormidos de Éfeso.

Durante a perseguição de Décio, sete fieis, "vendo o estrago que se fazia ente os cristãos, afligidos extremamente e desprezando os sacrifícios aos ídolos, permaneciam abrigados discretamente em suas casas, jejuando, fazendo vigílias e santas orações. Mas, posteriormente, foram acusados perante o Imperador Décio, como verdadeiros cristãos, o qual, tendo em conta que eram nobres e grandes da cidade, deu-lhes um prazo de vinte dias para que deliberassem".

Passando por alto as coisas estranhas referidas: direi apenas que fugiram "para um áspero e elevado monte" onde havia uma caverna. Os escudeiros do perseguidor em vão tentaram entrar. Deus protegeu os seus, e "primeiro enviou do céu trovões, ventos, granizo e água com grande tempestade. Depois apareceram à entrada uma multidão de animais ferozes: lobos, serpentes e outros que os obrigaram a abandonar a investida.

O Imperador então ordenou que a entrada da gruta fosse tapada, tal como se fez.

Depois de pouco tempo, os sete prisioneiros caíram num sono profundo e dormiram profundamente durante centenas de anos. Só despertaram, crendo ter adormecido apenas por uma noite, quando o Senhor inspirou a um cidadão de Éfeso a efectuar escavações naquela montanha. Pode imaginar-se a surpresa que tiveram ao ver a cidade muito transformada e com o sinal da Cruz nas portas, com uma população cristã jamais vista nem sonhada por eles. Tinham dormido 388 anos! Era natural que ficassem estupefactos e nem dessem crédito aos seus olhos.

Esses sete adormecidos são semelhantes às mais elementares verdades cristãs. Também elas dormem nos livros da Sagrada Escritura e dos Padres. Também elas parecem fugir perseguidas por teorias contrárias e épocas nefastas e guardam a hora de despertar, mas de um despertar que não vá - como o dos perseguidos de Éfeso - seguido de uma plácida morte no Senhor, senão que dure em forma permanente em todas as consciências.

- Os homens não me amam, porque não me conhecem - , é a queixa do Sagrado Coração de Jesus dirigida à sua serva Santa Margarida Maria. É espantosa a ignorância sobre a religião. Poucos, por exemplo, em Itália, conhecem os primeiros princípios do dogma cristão, que irei expandindo em capítulos sucessivos. Na nossa terra (Itália), cheia de sagradas tradições e inumeráveis basílicas, os pontos fundamentais do catecismo estão ocultos como se fossem os dormidos de Éfeso na gruta do esquecimento. Que estranho é então que o problema da vida não se resolva cristãmente!

1 - TRIPLA FORMA DE IGNORÂNCIA RELIGIOSA

Podemos dividir em três categorias os contemporâneos que, à pergunta de um inquérito "a que religião pertence?", respondem "à religião católica".

1ª Categoria: A primeira categoria é composta pelos que nada sabem de catecismo, não frequentam a igreja nem os sacramentos. Por vezes podem ser até pessoas cultas em determinado ramo de saber; quiçá escritores brilhantes ou articulista de grandes jornais (sucedeu que, não há muito tempo, num grande jornal de Milão, que ao descrever com vivas cores uma procissão, narra que "era conduzida a estátua do SSmo. Sacramento"). Há filósofos e pedagogos de primeira ordem que têm a petulância de afirmar que o cristianismo admite a eternidade do Diabo tal como a eternidade de Deus [uma versão negativa de Deus]. São por vezes funcionários com um presidente da Câmara Municipal italiano que, antes de dar permissão para uma procissão eucarística, perguntou:
- "Que hinos vão cantar nela?"
- "O Pange lingua, senhor Presidente."
- "Esse Pange lingua é alguma música subversiva?"
- "Não senhor, esteja descansado."

Isto sobre um olhar atento que esquadrinhava o rosto dos interrogados para ver se diziam a verdade! Por vezes são os operários e mulheres simples (...) - o sucedido recentemente numa paróquia de Milão - que pensavam que os santos Óleos eram uma espécie de óleo de castor para os doentes. "Perdoe, reverendo - observavam muito compungidos - quer dar-lhe os "santos óleos"? É que é impossível que o doente os engula. Faz dias que não come". Encontra-mo-nos nas escuridão completa e dignas de lástima!

2ª Categoria: Esta segunda categoria é formada pelos indivíduos que se crêem verdadeiros cristãos. Quanto pequenos a mãe ensinava-lhes algumas orações. Ainda crianças, assistiram à introdução catequética em preparação para a Confirmação e primeira Comunhão. Na escola básica aprenderam algumas noções religiosas. De tarde vão à igreja a ouvir o sermão. É domingo? Ouvem Missa. É Pascoa?. Acodem a confessar-se e a comungar e cumprem o preceito pascal. Nasce uma criança lá em casa? Leva-o a baptizar.  Vão casar-se? Querem a bênção nupcial do Sacerdote. A morte arrebata algum ser querido? O funeral tem de ser religioso. Mas que mais!? Religião sim, mas para ele até certo ponto, pois não haveria de ser-se "excessivamente exigente". São como os definiu Manzoni "os cavaleiros do ne quid nimis": Até aí, não mais que isso... os quais, nas nas questões de Fé querem que "não se passem os limites", ou seja, estes são os seus limites.

Façam um teste: digam a tais cavaleiros: "É necessário divinizar as próprias actividades com a graça; crer implica ordenar pela Fé todas as acções, incluso o comércio, a política, a leitura, as relações pessoais; não é  é cristão apenas quando se assiste à missa solene, senão em todas as contingências da vida". E ouvireis cada reposta! "A religião -dizem-, é uma coisa, e outra são os negócios. Os padres nas sacristias; fora da sacristia não impera Jesus Cristo, imperam os interesses, o prazer, as ambições. Passaram os tempos da "velha senhora". Nós não somos santos nenhuns, ninguém é santo, não há cá santinhos. Deixai-os no púlpito à vontade com a sua eloquência de oradores sagrados e não os coloqueis a apontar o caminho no andar febril da vida moderna".

Se lhes fizerdes a observação de que ideia de religião é a mais absoluta deformação do cristianismo, farão cara de desagrado.

Naturalmente, à medida que passa o tempo, muitos deles, sobretudo se são jovens ou se se vão adiantando nos negócios ou nos vícios, um dia começam a não ir à Missa, nem sequer pela Pascoa, e são capazes de dizer até que perderam a Fé. Coitados, esses nunca a tiveram, pois nunca a conheceram na realidade.

3ª Categoria: Eis-nos aqui na terceira categoria, que compreende os mais animados e valentes entre os cristãos, muitos dos quais estão munidos duma cédula de filiação a uma boa Associação, ou inscritos até numa congregação religiosa. Estes saberão ao menos o catecismo? Não, com raras excepções.

Nem uma única vez, estando em reuniões juvenis - encontrando-me eu entre jovens que frequentam a comunhão e merecem toda a classe de elogios pela valentia e audaz franqueza com que professam a Fé publicamente - ousei perguntar: "Que é a graça?" Ou então, em que consiste a "ordem sobrenatural"? E qual a sua diferença da ordem natural? As repostas obtidas convenceram-me sempre de que é enorme a ignorância dos princípios do cristianismo, até nos melhores e mais praticantes dos católicos.

Vós que me leis, se tivesses que explicar o que entendei por "graça" e por "ordem sobrenatural", responderíeis "ai... não sei quê, e tal..."?

Ao fim desta órbita, todos ou quase todos os meus leitores estão convencidos de que tinham uma necessidade insuspeitável e enorme de aprender os elementos do catecismo que acreditavam conhecer e afinal não conheciam!

Houve uma vez intelegentíssimo estudante que não sabendo nada, resolvia o árduo problema dos exames, copiando. Mas, a fim de que o professor não se desse conta, mudava aqui e ali algumas palavras. Podeis imaginar o "colorido" que ficou o texto.

Muitos de nossos associados em organizações católicas, se forem submetidos a um exame de catecismo - não de teologia -, darão, sem querer, idêntico resultado. Ao expor alguns dos pontos fundamentais do dogma - por exemplo, as naturezas e a pessoa de Jesus Cristo - , mudam neles alguma coisa, algum detalhe pequeníssimo, que acaba por comprometer tudo e errar.

Agora, sem o dizermos a ninguém; respondei apenas para vós mesmos em segredo com a vossa consciência: É ou não verdade que vos importaria alguma alguma coisa, na vossa vida, se as pessoas da Santíssima Trindade, em vez de três, fossem apenas uma ou mais de 30? Ainda mais. É ou não verdade que se Deus não tivesse revelado este mistério, vós vivereis tranquilamente sem o mínimo afecto da vossa?

O que significa tudo isto senão uma desconhecimento completo do catolicismo? Não vos parece que a vossa ignorância é afinal mais funda que um penhasco, e tal é a ignorância religiosa que até um dos principais mistérios da Fé deixa-vos olimpicamente indiferentes?

Muitos protestam porque, durante os primeiros séculos, a instrução doutrinal significava, nas escola do catecumenado, converter-se, e os cristãos desse tempo contribuíam para mudar a face da Terra, ou seja, a estabelecer uma nova civilização; na mudança, os cristãos de hoje avançam como o caranguejo e retrocedem ao paganismo.

Não falta quem se queixe de que as Epístulas de S. Paulo não sejam mais lidas, ou que as obras dos Padres da Igreja, esses grandes luzeiros da Igreja, sejam idas quase como proibida por alguns cristãos dos nossos dias. Nada disto admira! Como entender a S. Paulo prescindindo do sobrenatural e da graça? Aquele que não sabe os primeiros elementos da ordem sobrenatural, toma S. Paulo e aos Padres da Igreja e aborrece-se, tal como se colocássemos tabelas de logarítmos nas mãos de um camponês. Há que ter alguma preparação para ler e entender. De outra forma, o arco de Tito terá para nós menos admiração que uma borboleta.

Que mais? Muitos rompem os laços com a católica degradação impiedosa, contra as formas superficiais e inebriante doçura do enganoso sentimentalismo. Nada mal. Mas como querer evitar tais erros carecendo da luz, do conhecimento e do pensamento?

Não em vão, o saudoso Cardial Andrés Ferrari, não fazia um discurso sem repetir com a afligida voz de bom pastor; "Catecismo, catecismo!". Não é em vão que um pensador da talha do beato Belarmino, com a mesma pluma com que tinha escrito as páginas imortais das Controvérsias, escrevia o pequeno Catecismo.

2 - CATECISMO E APOLOGÉTICA

3 - A EXPOSIÇÃO ORGÂNICA DO CRISTIANISMO

Recapitulação 

1 – É enorme a ignorância religiosa. São inumeráveis os que não amam a Jesus Cristo, porque não o conhecem. Estão compreendidos nesta triple categoria:
       - Os completamente ignorantes, que nada sabem do Cristianismo, mesmo quando em noutros ramos do saber possuam uma cultura mais ou menos vasta;
       - Os cristãos “práticos” que não obstante isso, só têm um verniz de religião, sem que ela inspire ou influencie a suas vidas;
     - Muitos católicos que pertencem a Associações ou Confrarias nossas, mas que conhecem superficialmente a Fé que professam e defendem.

2 – Frente a semelhante ignorância religiosa, é bem mais necessário o catecismo que a apologética. Antes de discutir as verdades cristãs, há que estudá-las.

3 – O verdadeiro e único método de estudo consiste, não em examinar separadamente as diversas partes do dogma, da moral ou do culto cristão, mas sim em buscar e compreender o princípio de unidade, o qual nos demonstrará a harmónica conexão dos dogmas entre si e a ligação dos dogmas com a vida.


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