Transcrito:
INDIVIDUALISMO E COLECTIVISMO NA GÈNESE
DE NACIONALIDADE PORTUGUESA
pelo Dr. SÉRGIO DA SILVA PINTO
______________
Foi proferida esta conferência no salão nobre da Biblioteca Pública de Braga, em 24 de Maio de 1957, e promovida pela Associação Jurídica de Braga e Delegação bracarense da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. Presidiu a este acto cultural o Senhor Governador Civil do Distrito, fez a apresentação do conferente o Presidente daquela Delegação, Sr. Coronel José Baptista Barreiros, e comentou-a no fim o Presidente da Associação Jurídica, Sr. Dr. Luís de Almeida Braga, ambos em termos eloquentes. Assistiu em lugar de honra o Senhor D. Francisco Maria da Silva, Bispo de Telmisso.
A Redacção de BRACARA AUGUSTA, independentemente da vontade do A., entendeu não dever deixar os leitores desta revista no desconhecimento do texto que segue, em que o Director dela como que formula em traços vincados as conclusões de um labor de crítica e investigação histórica, empreendido através desta publicação. Assim, com a devida vénia, reproduza-se da revista INDEPENDÊNCIA (ano XVII, nº 17, Dezembro de 1957).
______________
A oeste do Tâmega, em anfiteatro voltado ao mar, entre os rios Minho e Douro, inscreve-se a província primaz da nossa Pátria.
Neste pedaço da Lusitânia natural, pré-romana, retalho da Galiza histórica, nasceu, no século XII, o Estado português. E é nele, segundo veremos, que germina também, em dado momento, o espírito da Nacionalidade.
Símbolo da Casa Lusitana, profundamente penetrada pelo Oceano, Estre-Douro-e-Minho foi o palco histórico onde se desenrolou o primeiro acto de uma peça grandiosa, que forma a história de Portugal de continuidade perene.
Com ser o núcleo da germinação política portuguesa, guarda os monumentos heurísticos, os tombos heráldicos do passado.
Seus confins de norte a sul correspondem aos do Convento jurídico romano de Braga, que, a oriente, incluía parte de Trás-os-Montes, justapondo-se ao espaço físico e étnico dos Populi bracari.
A cidade teocrática da nossa história, a nobre Bracara Augusta, logo se divisa como um dos centros cristãos iniciais. Sede do Conventus, com jurisdição em 24 civitates, transforma-se, no tempo do Imperador Caracela, em capital da nova província da Galécia, limitada entre o Cantábrico e o Douro.
Quando em tropel vitorioso entram os Suevos, encerrando o ciclo romano, instalam-se na região de Entre-Douro-e-Minho e fazem de Braga a sede da sua corte. A província durimínia, por quase dois séculos, será o centro de toda a história da Monarquia sueva (1).
Catolicizado o Reino, definitivamente, pela acção apostólica de S. Martinho de Braga, sob a primazia dele se reúnem as dioceses daquém e dalém Douro, formando uma unidade eclesiástica contra o esquema provincial romano, a prefigurar, à distância de séculos, a área da primitiva Igreja portuguesa, da época do Conde D. Henrique e de S. Geraldo (2).
O tempo escoa-se. No seu fluir irreversível passam os Godos. Sobrevêm as correrias dos Árabes.
D. Afonso I, rei da Galiza e das Astúrias, tendo conduzido até ao Douro os seus exércitos, segundo rezam as antigas Crónicas, destruiu as cidades, passou à espada os Mouros e levou consigo os Cristãos. Contudo não se formou, nesta região, a cintura de desertos, a zona defensiva despovoada, que ALEXANDRE HERCULANO concebia. O Prof. PIERRE DAVID demonstrou que nem as gazivas árabes, nem as migrações dos Cristãos para o Norte, ermaram em absoluto e despovoaram o Minho. A terra continuou habitada e cultivada, embora fracamente habitada e mediocremente cultivada (3).

Sem comentários:
Enviar um comentário