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12/02/15

EVANGELIZAÇÃO PELOS PORTUGUESES - AGIOLÓGIO LUSITANO (III)

(continuação da II parte)

Portugal na Etiópia
Para concluirmos o que nos falta da África, nos restam o Patriarcado de Etiópia, e os dois Bispados de Niceia, e Hierapoli; e para in perpetuum tirar prelados para eles, fez ElRei D. João III eleição da religião [refere-se a ordem religiosa] da Companhia, apresentando logo ao Papa Júlio III o Pe. João Nunes Barreto por Patriarca, e os padres Belchior Carneiro, e Andrade de Oviedo para Bispos, que o primeiro sucedesse naquela dignidade por morte do Patriarca, e o segundo ao companheiro na mesma contingência, os quais a Companhia aceitou com a devida submissão posto que repugnavam a seus estatutos; por constar manifestamente, que as honras, e rendas deles haviam de ser até morte excessivos trabalhos, largas peregrinações, e conhecidos perigos da vida. Contudo o Pe. João Nunes não aceitou sem consentimento de Sto. Inácio. De uma e outra coisa se edificou muito Sumo Pontífice, que logo expediu as letras com beneplácito do santo. E no mosteiro da Trindade desta cidade foram sagrados os Patriarca, e Andrade de Oviedo no ano 1555, assistindo a este solene acto o mesmo Rei, e toda a Corte, que o Pe. Carneiro foi sagrado na Índia. os frutos, que destas dignidades, e missões tirou a Companhia foram os mesmos que no princípio prometiam, e mui avantajados, pois amplificaram grandemente a glória de Cristo, e de sua Igreja naquelas dilatadas regiões, e na conversão de muitas almas, até finalmente alguns darem as vidas, como o ilustre Pe. Gonçalo da Silveira, que depois de baptizar ao Imperador da Etiópia, a Rainha sua Mãe, e 300 fidalgos de sua côrte, enganados pelos mouros, deram cruel morte, a quem com tanto zelo lhes tinha mostrado o caminho da salvação. Tem nossos dias o Pe. Apolinario de Almeida, Bispo de Niceia, conseguiu na mesma Etiópia igual aureola (pois testemunhou com o próprio sangue a verdade de nossa Fé, que prégava àquela cismática, e inconstante gente com um prolongado martírio. Porque depois de estar algumas horas no patíbulo despido, e à vergonha (trazendo ditosa companhia outros padres da própria família) antes de expirar, conspiraram contra ele os cismáticos, descarregando tremenda chuva de pedras sobre seus santos corpos, que todos ficaram debaixo sepultados. Esta breve digressão, devemos à boa memória deste bemaventurado padre, pois temos por grande felicidade haver gozado, alguns anos sua santa conversão, e familiaridade; que seus devidos louvores reservamos para o próprio dia.

(a continuar)

04/02/15

EVANGELIZAÇÃO PELOS PORTUGUESES - AGIOLÓGIO LUSITANO (I)

Urbano VIII

 §VIII
DA PROMULGAÇÃO DO SAGRADO EVANGELHO FEITA PELOS PORTUGUESES NOS DESCOBRIMENTOS E CONQUISTAS DESTE REINO

Para maior distinção, e clareza da matéria deste parágrafo o dividimos em três partes, segundo outras tantas segundo o orbe a que se estendem nossas conquistas. A primeira de África, a segunda de Ásia, a terceira de América. Quanto à de África, ganhada por ElRei D. João I, a cidade de Ceuta, querendo sublimá-la com Sé Catedral, o comunicou com o Papa Martinho V que por suas bulas deu faculdade aos Arcebispos D. Fernando (de Braga), e D. Pedro (de Lisboa), para a intitularem cidade, e lhe designar diocese própria. Sagrou-se a mesquita em igreja católica, e [teve] por seu primeiro bispo D. Fr. Aimaro, inglês, frade menor (confessor da Rainha D. Filipa que então era titular de Marrocos). A graça se expediu no ano 1421 nomeando-se-lhe em território, todo o Reino de Fez, e lugares mais propinquos, além do Estreito. Depois, no ano de 1444, o Papa Eugénio IV a fez Primaz da África, assegurando-lhe mais para sustento de seus prelados as duas administrações de Valença do Minho, e de Olivença; aquela pertencia a Tuy, esta a Badajoz ficando imediata da Sé Apostólica (passando alguns anos Sisto IV, no de 1474, a fez sufragânea a Braga, e por vários casos ultimamente veio ficar de Lisboa).

D. Afonso V
Foi Tânger fundação do gigante Antheo, e antiga colónia de romanos, em cujo tempo padeceu nela glorioso martírio S. Cassiano, seu natural, e patrono: e não faltam autores que afirmem que foi pátria do Sol dos Doutores, o grande Padre Sto. Agostinho, por muitas conjecturas que nós em seu dia trocaremos. E assim reservou o Céu para o dia do mesmo Santo do ano de 1471 franquearem os mouros a entrada desta quase inexpugnável praça, a ElRei D. Afonso V que então se achava em África com suas victoriosas armas da conquista de Arzila. Entrada a cidade se espiou logo a mesquita, e se arvorou nela o victorioso estandarte da Santa Cruz. E o Prior de S. Vicente de Lisboa, D. Nuno Alvares, Bispo titular da dita cidade (que acompanhava a ElRei) tomou posse dela, aplicando-se-lhe competentes rendas. Tem convento de Pregadores, e Cepta de Franciscanos, Trinos, que todos fazem grande fruto em seus moradores. Este Bispado de Tânger por razões que houve, depois se encorporou no de Cepta. Não falamos de Arzila, que tanto que ElRei D. Afonso a conquistou, se purificou a mesquita em Templo com título de Assumpção de N. Senhora; nem [falemos] de Azamor, dado que tomado aos mouros pelo Duque de Bragança, D. Jaime, no ano 1513, sua mesquita foi purificada e celebrou nela a primeira Missa o Mestre Fr. João de Chaves franciscano, que depois foi Bispo de Viseu; nem menos de Safim, que ganhando com maravilhosa indústria no ano 1506, por Diogo de Azambuja, e feito Bispado durou por alguns anos - ultimamente (por conveniências de estado) se largaram estas praças - e com não termos de presente em África, mais que as de Cepta, Tânger, Mazagão, se conservam neste Reino Bispos titulares de Marrocos, Fez, Salé, Nicomédia, e Targa, nas sés de Lisboa, Braga, Évora, e Coimbra, por serem conquistas desta Coroa, [e foram] deixadas Orão, Tunes, Mámora, e outras, que pertencem à de Castela: o que o Sumo Pontífice Urbano VIII tinha mui presente: pois no ano de 1639 presentando-se-lhe bulas em nome de D. Francisco de Faria para Bispo de Anel de Braga, e a título de Tunes, Sua Sanidade advertidamente não admitiu tal nomeação, dizendo que Tunes era da Coroa de Castela, e em seu lugar substituiu Marrocos, por ser conquista de Portugal.

(continuação, II parte)

19/05/14

INDÍCIOS DE UMA ANTIGA CRISTANDADE NA ÍNDIA?

Goa, séc. XVI
Indícios de Cristandades Antigas na Índia

"18. Vejamos agora, se ou nesta Cidade [Goa] ou na vastidão desta primeira conquista podemos descobrir alguns indícios de Cristandade antes de virem os portugueses à Índia. E começando pelas terras mais próximas ao rio Indo, diz o grande historiador João de Barros, que os povos Resutos, os mais antigos e valentes de Cambaia, metidos numa corda de serranias e matas, que correm ao Norte e Nordeste do cabo de Jaquete até ao Reino Mandou, ainda que são gentios, adoram um só Deus e três Pessoas, e veneram a Virgem Maria Senhora nossa. Como os nossos missionários nunca chegaram a entrar por estas brenhas, não se pode aprovar esta notícia, que sendo verdadeira, dá claro indício da pregação de S. Tomé por aquelas partes, depravada depois por falta de cultura com a comunicação dos mais gentios. E assim como os Assírios, que ficaram povoando as terras de Samaria em tempo de Salmanazar, adoravam juntamente o verdadeiro Deus e os ídolos das suas terras, assim pode ser que o façam os Resbutos. No ano do Senhor de 1320, como dizem os cronistas de S. Francisco, passaram à Pérsia quatro frades menores, Fr. Tomás de Tolentino, Fr. Jacome de Pádua, sacerdotes, Fr. Dometrio e Fr. Pedro, irmãos leigos, movidos do zelo da conversão dos persas; porém como estes cerrassem as orelhas às verdades do Evangelho, demandaram a Ilha de Ormuz, donde embarcados para a costa de Choromandel, à força de ventos contrários entraram pela enseada de Bombaim, e defronte da Tama foram martirizados por se não quererem fazer mouros. Deu sepultura aos sagrados corpos o Pe. Fr. Jordão da Ordem dos Pregadores, que andava por aquelas partes prégando contra a maldita seita de Mafamede, e por não querer deixar de prégar acabou às mãos de mouros com gloriosa coroa de martírio. Sentiram muito esta morte os gentios da ilha de Salsete edificados da vida do santo missionário; e para perpetuar lembrança de um varão tão admirável, lhe colocaram a imagem entre os seus ídolos. Com o decorrer do tempo se arruinou o pagode onde estava colocada esta imagem, ficando ela enterrada. Depois de muitos anos querendo um fidalgo português, chamado António de Sousa o Langará, fabricar casas no mesmo lugar do pagode, mandou limpar e cavar o chão, e indo cavando deram com a imagem de Fr. Jordão tão limpa, e lustrosa como se naquela hora fosse sepultada. Esta de pau preto, com um palmo de alto, com as mãos metidas debaixo do escapulário e com o capelo até ao meio da cabeça. Bem provam estes dois sucessos que antes do nosso descobrimento andaram por estas partes religiosos missionários, mas quando vieram à Índia já não achámos notícia de Cristandade alguma, que fizessem. Da ilha de Salsete do Norte passamos a Goa, onde poucos dias depois de ganharmos, se achou no grosso de uma parede a imagem de Cristo crucificado de metal, que se mandou a ElRei D. Manuel pela mais rica pérola do Oriente, e ainda hoje se conserva a memória desta invenção na sua do Crucifixo. Daqui se não infere Cristandade em Goa, porque foi fundada trinta e um anos antes deste acontecimento, e antes de sua fundação, segundo a tradição dos mouros, era um mato da caça, onde não havia senão as casas de recreação do Sabyo, deputados hoje no Tribunal do Santo Ofício, e se houvesse Cristandade, era impossível perder-se a memória dela em tão breves anos. Algum Cristão estrangeiro livrou por aquele modo a santa imagem da perfídia maometana. Mais eficaz indício é o seguinte:

No ano de 1532, na mesma cidade, foi apresentada em juizo uma doação feita a certo pagode por Mantrazar Rei gentio no ano de 1391, aberta com letras canarinas numa lâmina de metal, no princípio da qual invocava o Rei a Deus Criador dos Céus, e terra, que por amor do seu povo fôra servido de vir tomar carne a este mundo, e quando se assinava, confessava a Trindade em unidade. Esta combinação dos dois principais mistérios de nossa Fé a respeito do mesmo Deus, e principalmente o motivo da Encarnação tão expresso, grande fundamento nos dá para dizer que na Cidade de Goa velha fundada para a parte Sul, onde reinava Manatraz, ouve antigamente Cristandade, já declinada naquele tempo à veneração dos pagodes, e depois tão apagada, que quando os portugueses senhorearam a ilha, já não havia notícia destes mistérios, se por ventura era verdadeira e não fábula a Trindade, e Encarnação confessada por Mantrazar. Falo com este receio, porque todo este gentilismo reconhece certa trindade de naturezas realmente distintas, e separadas, procedidas da primeira causa, a que chamam um só Deus, e admite um milhão de encarnações, e nestas fábulas devia crer quem fazia doações aos pagodes. O mesmo podíamos dizer dos Resbutos, senão obstasse a grande autoridade de João de Barros.

19. Desçamos mais ao Sul e acharemos nos mares da Mangalor um claro sinal de Cristandade. Pelos anos de 1493, pouco mais ou menos, foram uns pescadores sobre tarde lançar as redes no mar, e quando as quiseram recolher no outro dia, nem um só peixe prenderam nelas, mas acharam uma Cruz, pesca de maior estima que a trempe de ouro embaraçada nas malhas dos pescadores milessios. Não fizeram então a devida estimação do lanço, por não conhecerem o preço da sua pescaria; mas vendo logo ferver o mar no mesmo lugar em que pescaram a Cruz, e conhecendo ser cardume de peixes, tornaram a estender as redes com tão boa fortuna, que carregaram as almadias de várias sortes de pescado. E suspeitando algum mistério naquele lenho, o levaram com grande alvoroço e alegria ao Régulo do Banguel senhor da terra, o qual o recebeu com muita veneração, e o depositou entre as mais ricas joias do seu tesouro. Era a Cruz de pau de Oliveira bem lavrado, de palmo e meio de comprimento, e cheia de relíquias da Terra Santa. Indo depois no ano de 1611 Miguel de Almeida cidadão de Goa ao Banguel, e travando amizade com o Régulo, lhe mostrou ele o seu tesouro, como costumam fazer estes reis da Ásia em sinal de grande benevolência, e como fez Ezequias aos embaixadores de Berodac. Entre as várias joias lhe apresentou a S. Cruz, herança dos seus ascendentes, e lhe contou a história referida. Adorou o português como católico o instrumento de nossa redenção, e o pediu encarecidamente ao Régulo, que finalmente o largou a troco de outras peças. Voltou (...) alegre e triunfante por ter resgatado das mãos de um príncipe asiático tão infiel como Coiroas. Prova-se com este caso, que antes dos portugueses navegaria por estes mares algum arménio; porque o pau de oliveira de que a Cruz era feita não é natural da Índia. Se por ventura não quis declarar o mar com este prodígio, que cedo passariam à Índia os pescadores da Cruz a recolher nas redes de S. Pedro copiosos cardumes de infiéis. Passemos de Mangalor ao Reino de Calecut. Não faltou quem escrevesse que junto à cidade de Calecut havia um templo onde se venerava uma imagem da Virgem Maria Senhora nossa, diante da qual se prostravam os primeiros descobridores da Índia. Mas como entre os Malvares se não descobre memória de tal imagem, dou mais crédito às notícias de João de Barros. Atribui este autor o sucesso a engano de alguns portugueses, que movidos com as informações da Cristandade de S. Tomé, e levados de semelhança das imagens que viram numa charola, veneraram ídolos por santos, e a respeito da imagem da Senhora podia ser mais fácil esta confusão por se equivocar no traje asiático com as deusas da gentilidade. Nos confins do mesmo Reino de Calecut pelo interior do sertão havia algumas povoações de cristãos no lugar chamado Todamala; e segundo a notícia do Sinodo de Diamper celebrado nas serras do Malavar por D. Aleixo de Menezes, digníssimo Primaz da Índia, procediam dos antigos cristãos de S. Tomé, que na perseguição geral daquela Igreja vieram fugindo de Meliapor pela terra dentro até pararem naquele lugar; e como distavam dos outros cristãos da serra quarenta, ou mais léguas, não tinham prelados, nem sacerdotes, com o tempo se esqueceram totalmente da Lei de Cristo e conservando só o nome de cristãos, seguiram em tudo o mais os erros gentílicos. Seguem-se as relíquias da Cristandade de S. Tomé, espalhadas pelas serras do Malavar de Cranganor até Coulão; e esta foi a única Cristandade que os portugueses acharam na Índia, depravada porém, havia já muitos séculos, com os dogmas de Nestório. (...)" (Oriente Conquistado a Jesus Christo... . Volume I)

07/04/14

EVANGELIZAÇÃO NA SERRA LEOA

Serra Leoa
CAPÍTULO XXIII

"Parte da Serra leoa para a Ilha de Santiago, arriba à costa da Guiné, e do que obrou até chegar à dita Ilha.

1. Depois de ter o Padre Baltazar Barreira como um novo Sol alumiando as espessas trevas da Serra Leoa, feito laboriosas peregrinações naqueles Reinos, das quais recolheu copiosos frutos, lhe foi necessário voltar à Ilha, como para outras muitas coisas do serviço de Deus, que dependiam de sua presença. No caminho se lhe deram cartas de seus Superiores, que o mandavam voltar a Cabo Verde; com isto se consolou muito, por entender ser esta jornada toda de Deus, por apenas disposição sua, mas da santa obediência, que é o norte dos homens Religiosos. Ao terceiro dia depois de sair do porto, se tornou a recolher a ele, por lhe quebrar o mastro grande com a força do vento. Concertado o mastro, se fez na mesma viagem; e posto que os ventos eram pouco favoráveis, e as águas os encaminhavam para uns baixos perigosos, foi Deus servido, que se livrassem.

2. Oito dias depois lhe sobreveio um acidente repentino, durou-lhe poucos dias, mas com grandes febres, e fastio. Não lhe aplicou remédio humano, porque ali só havia o da confiança em Deus; esta lhe assistiu, e por ela o livrou Deus de um inchaço de estranha grandeza, que lhe tinha causado o acidente. Dezanove dias gastou em chegar até à altura da Ilha; mas nem a de Santiago, nem alguma outra encontravam; porque a corrente das águas os fez descair para a parte do levante, ficando-lhe as ilhas atrás para a parte do Poente. Vendo os marinheiros, serem os ventos contrários, e ir-se acabando a matalotagem, puseram proa na terra firme, que corre do rito Cenega para Cacheo. Em menos de vinte e quatro horas chegaram à vista dela. Depois quando o Padre dali a tempos chegou à Ilha, contando este desvio da jornada, lhe disseram, que fôra uma grande Providência de Deus; por quanto naquele tempo andava um corsário á vista da Ilha, e se o Padre chegara, sem dúvida lhe cairia nas mãos. isto sentiram os naturais da Ilha; porém ao Padre lhe pareceu, que Deus o levara à terra firme, para bem de muitas almas, como se viu no futuro, que nelas fez. Assim o diziam também os Portugueses, depois que viram os proveitos, que se seguiam nas vidas, e costumes dos que negociavam na terra firme. Aquela costa é habitada de gente infectada com a maldita seita de Mafoma [Maomé]. Tem dois portos principais, um se chama Ale, outro Joala. neles comerciavam Ingleses, Holandeses, Franceses, e Portugueses. Em Joala saíram em terra. Festejaram muito os Portugueses a vinda do Padre. Deram-lhe casas junto a uma como Igreja, que ali tinham. Um deles tomou à sua conta prover o Padre; e o fez com tanta largueza, que lhe não custou pouco ao moderar.

3. Os dias que ai esteve, se ocupou em confessar, pregar, e fazer doutrinas. Depois sabendo o Visitador do Bispado, que era um Cónego de Cabo Verde, e estava em Aler, ter chegado o Padre àquela costa, o mandou convidar, e pedir, se viesse a Ale, porque se achava indisposto, e necessitava de sua ajuda para o bem dos Cristãos. Saiu a recebê-lo com os Portugueses, e também o Governador Mouro. Ao passar na praia por uma Cruz grande, que nela estava arvorada, ajoelhou, o mesmo fizeram os Cristãos. Para maior glória da Santa Cruz, ali costumou daí por diante ir fazer as doutrinas. Também por ser paragem muito frequentada de toda a sorte de gente. os hereges, e Mouros, que concorriam, eram mais, que os Cristãos. Dizia o Padre muitas coisas na doutrina dos erros, assim dos Hereges, como dos Mouros. Todos estavam com tanta atenção, como se fossem Cristãos devotos. Desejava o Padre formar procissão da santa Doutrina com solenidade; e isto disse o Visitador, e os mais Cristãos, que como o Rei, e naturais eram mouros, e havia na terra muitos Cassizes, podia isto ter algum efeito em contrário aos seus desejos. Todavia assentiram, que a fizessem uma vez, e esta os ensinaria.

4. Saiu pois um Domingo de tarde com a procissão da santa doutrina pela rua principal da povoação, levando diante a campainha, e depois um Crucifixo de vulto acompanhado dos Portugueses com suas luminárias em duas ordens. Cantavam dois meninos a doutrina, e todos os mais respondiam. Ia por fora das fileiras grande multidão de Mouros; e passando pela praça, as negras que estavam vendo, recolheram em suas gigas, tudo o que nelas trouxeram, e pondo-as à cabeça, foram seguindo a procissão.. Fez a sua doutrina, e voltou com a mesma solenidade, como se a terra fora de Cristãos. Alegraram-se muito os Portugueses com o bom sucesso contra os seu receio. Depois falou o Padre por vezes com os Mouros principais. Estes lhe diziam, que só a lei de Cristo era verdadeira, que tudo quanto os seus Cassizes diziam, era embuste. Acrescentavam, que se não temeram perder as rendas, que ElRei lhes dava, todos se baptizariam."

[...]

("Imagem da Virtude, em o Noviciado da Companhia de Jesus do Real Colégio do Espírito Santo de Évora do Reino de Portugal...", Pe. António Franco. Lisboa, M.DCC.XIV)

08/04/13

PORTUGAL NA CAPELA SIXTINA - O RESGATE DOS ESCRAVOS E O ROSÁRIO

"Os dois homens pendurados no rosário do fresco mais famoso da Capela Sixtina,
O Juízo Final, de Miguel Ângelo, simboliza a evangelização portuguesa na Índia e em África."
Os feitos portugueses causaram muita admiração em Roma; e Deus quis que Miguel Ângelo desse testemunho disso, para os que haveriam de vir, no painel principal da Capela Sixtina (sobre o altar mor), pintando a cena "o resgate dos escravos" (na qual Portugal com um longo rosário faz subir a África e a Índia).

Portugal lançando um rosário
"Entre as dezenas de figuras desenhadas por Miguel Ângelo na famosa pintura "Juízo Final" - almas perdidas, anjos, demónios, apóstolos e santos - destacam-se dois homens pendentes num Rosário, em movimento ascendente de salvação.

Eles estabelecem uma relação simbólica com Portugal. São um negro e um indiano agarrados a um terço. O primeiro representa o continente africano, o segundo o mundo oriental e o rosário a oração.

Falta um índio da América - facto que talvez se possa atribuir à animosidade que então reinava contra os espanhóis. Mas a mensagem é clara: levado pelos missionários portugueses, o Evangelho salvaria o novo mundo do fim dos tempos." (Vera Moura - blogue Cavalo Selvagem)

Será que foi aqui respeitada a ordem cronológica e o índio é aquela figura na nuvem, de mãos postas, que olha para Portugal mas ainda não está a ser puxado?

07/07/11

O "ONDE" DOS SANTOS (VI)

De cinco títulos pelos quais (conforme o Direito, e viver salvo recebido) pode um Santo, ou varão ilustre em virtude, pertencer a algum reino ou cidade, etc. (VI)





O último título que faz próprio a um santo de algum Reino, ou cidade, é a profissão de seu sagrado corpo, ou de alguma parte principal de duas Relíquias, contratualizando-se com este modo de habitação. A este propósito diz St. Ambrósio: Cuncta Martyres devotissime percodendi, sed specialiter [?] venerandi sunto a nobis, quórum reliquas possidemus. O que com grande ponderação, encomendam os santos Concílios, o Africano cap 13 de onde se tirou o texto do Direito Canónico C. Placuit de consecrat. 1 e o Mogunitino I cap. 36. decretando as festas que se deviam celebrar, depois de apontar as de Crito, N. Senhora, S. Miguel e dos Apóstolos, remata assim: Et festivitates Martyrum, vel Confesorum observare decrevimus, quórum in unaquaque Parochia sancta corpora requiescunt, etc. pela qual razão celebramos os santos Feliz, Adrião, e Natália, e os mais companheiros cujos sagrados corpos enriquecem os antigo convento de Chelas, perto dos rabaldes desta cidade, e o de S. Aucta assim mesmo o convento de Évora; o de S. Tirso Mártir a Meinedo lugar no Bispado do Porto.

28/06/11

O "ONDE" DOS SANTOS (V)

De cinco títulos pelos quais (conforme o Direito, e viver salvo recebido) pode um Santo, ou varão ilustre em virtude, pertencer a algum reino ou cidade, etc. (V)

O quarto título é o nascimento (que chamamos final) por morte, ou natural de Confessores, ou violenta dos Mártires, cujos dias, em que os santos mártires morrendo, venceram os tiranos, como mais próprios, de sua primitiva infância (com grande veneração) celebra a igreja Católica, como dos Santos Padres provam vários autores. Primeiramente de Tertuliano I de coron.milit.c.3.in Job. De S. Gregor. Nisseno in vita Thaumat. De S. Bern.serm.de S. Joanne Bapt.onde diz: Novit enim Eccl.quia melhor dies mortis die nativitatis, et quod ortus hominum tristitia comitetur. Inde est quod diem mortis martyrum non nativitatis solemnizat Ecclesia, mortem tamen erorum natalitiorum nomine nominas, quibus, factus est de morte natalis, Tunc enim coeperunt de morte nasci ad vitam, cum vitam deposuerunt pró vita. De Nicolau I respondeu ado consulta Bulgarum, que nega senão deve jejuar, nem abster de carne nos natais dos principais Mártires, se dairem em sexta-feira, e dando a razão entre outras muitas, toca a seguinte: Quomodo enim usitato modo sicitur nasci, quando quis ex útero materno procedens in hanc lucem exit: sic quoque iure natus appellari potesi, quilibet ad huius faculi teneb ris ad lúmen pertigans viventium. Pró qua erg o re apte consuetudine tenet Eccl ut solemnes B. Martyrum, vel Confesorum Christi dies, quibus de hoc mundo ad adregionem migravere vivorum, nuncupentur natales: sede et eorum solemnia nonfunebria tamquam mo rientum, sed  utpote in veram vitam nascentium, natalitia vocitentur. Haec ibi. De aqui procede, que mais propriamente são os santos dos lugares onde morreram, que dos que em que nasceram, pois claramente se vê quanta vantagem faz um outro nascimento, que no primeiro, e natural, saiem as criaturas das maternas entrenhas inficionadas com mácula do pecado original, sujeitas (segundo a presente justiça) à eterna condenação, expostas para sofrer as inumeráveis misérias, e calamidades deta vida, incertas do fim, que hão de ter, ou de glória perdurável, ou pena eterna; formidável incerteza! E no final nascimento sejam os santos do tempetuoso mar deste mundo para entrar no porto seguros da eterna felicidade, onde por intermináveis séculos gozem da beatífica visão em companhia de todos os bem-aventurados. Portanto, diz S. Eucherio: Beatorum Martyrum pasiones natales cocamus dies, quando eos martyrii vitae, et gloriae fides dum ingerit morti, genuit  aeternitati; et perpetua gaudia brevi dolore parturiit. Mérito plane dicendi natales dies per quos illi qui nati fuerant in hanc fragilitatis humanae miseriam, súbito renaeruntur in gloriam vitae perennis , initium, de morte fumentes, etc. Por esta cabeça todos os Santos de quelquer mação que fossem, que morreram enste Reino de Portugal, e duas conquistas nos pertencem, e são nossos, não deixando juntamente de o ser das pátrias onde nasceram. Por este título tem por seus Girona aos santos Bispos Narciso e João, ambos Portugueses, naturais de Santarém; Granada ao B. João de Deus, outro sim Português de Montemor-o-Novo; e Milão ao nosso B. Amadeu, nascido em Campo Maior; Saragoça a S. Engrácia e Capua a S. Ma[?] ambas estas santas portuguesas filhas de Régulos da Lusitânia.

Ler IV parte 

27/06/11

O "ONDE" DOS SANTOS (IV)

De cinco títulos pelos quais (conforme o Direito, e viver salvo recebido) pode um Santo, ou varão ilustre em virtude, pertencer a algum reino ou cidade, etc. (IV)


"O segundo título, que faz ter uma pessoa, como por natural de algum reino, cidade ou vila, é a dignidade, ou Benefício Eclesiástico, ou ofício político, que nele teve. No político o determinara os romanos imperadores na d.L. Cives C. de incolis lib. 10 L. Senatores eod.tit.onde o provam os Doutores, do qual [?] ao presente não tratamos. No Eclesiástico o Direito Canónico cap. Cum nulus de temp. ordinat. Lib. 6. fazendo súbdito, e diocesano de um Bispado para poder (como natural) tomar Ordens o que nele tem algum benefício, ou Prebeda, o que á fortiori se deve entender do mesmo Bispos, pois é o Benefício, e dignidade maior de todas; assim o prova Barbosa alegado n.2. e 34. e por ser coisa tão geralmente recebida, as Igrejas admitem, e celebram como santos próprios a seus Prelados, e Dignidades, dado que sejam outros os lugares de seus nascimentos e trânsitos. Desta maneira a de Compostela, e Iria solenizam a S. Rozendo seu Bispo, que nasceu na Diocese do Porto, e faleceu no mosteiro de Cella-nova em Galiza; a de Braga  a S. Autberto por pátria francês, que passou desta vida na cidade de Cambrai em Flandres, porque foi seu Arcebispos; a de Toledo a S. Olímpio natural desta cidade de Lisboa, que faleceu em Tárcia, como foi Arcebispos, e outro sim a S. Giraldo francês que faleceu em Braga, respeitando ter sido seu Arcebispos. A isto se junta que aos dias de suas consagrações, chamam os santos Padres de seus nascimentos, e como tais se celebra na Igreja a de muitos, como consta dos Martirológios.

O terceiro é por habitação, morada, e domicílio, que constitui ao que o continua por dez anos (e ainda menos) com ânimo de perseverar nele, por natural da cidade, ou lugar, onde o teve conforme a L.2. das práticas p.4, tit.24. e a nossa Ordenação lib.2.tit.56.in principio, e sobre elas, os Doutore. Por esta razão nos parece o B. F. António de Segóvia, natural da dita cidade, porque foi muitos anos monge de Alcobaça, de onde passou aos Franciscanos, e faleceu em Aquitânia, e o B.F. Pedro de Alcântara, e F. Jerónimo Graciano, outro sim castelhano, carmelita descalço que de assento residiu entre nós e foi Provincial, o Padre André Ricardo de Hibérnia, que depois de ser frade Lóio muitos anos em Portugal, pregando em sua pátria, conseguiu coroa de martírio, e outros muitos, que por brevidade se apontam."

Ler a III parte
Ler a V parte

26/06/11

O "ONDE" DOS SANTOS (III)

De cinco títulos pelos quais (conforme o Direito, e viver salvo recebido) pode um Santo, ou varão ilustre em virtude, pertencer a algum reino ou cidade, etc. (III)


"Suposto isto, o nascimento temporal (como fica dito) é aquele em que cada um dos mortais sai das entranhas da mãe á luz deste mundo, adquirindo por ele o lugar, onde nasceu, título de pátria, e mãe sua, e ele de filho, e natural seu. O que como coisa manifesta não necessita de prova. Pois que Igreja há em toda a Cristandade, que não celebre por Santos próprios, e naturais, os que nascerão nos lugares de suas Dioceses, dado que morressem em outros, ou com violenta morte de mártires, ou pacífica de confessores? E para que não saiamos de Portugal, sirvam de prova domésticos exemplos. A Igreja de Braga, celebra a festa do precaríssimo Pontífice S. Dâmaso por haver nascido em Cinnaina, antiga cidade de seu Arcebispado. A de Évora aos santos mártir Vicente, Cristeta e Sabina seus naturais, posto que padecessem martírio em Ávila. E a de Beja a S. Sisenando Diácono filho seu, que padeceu em Córdova.

O nascimento espiritual faz ao catecúmeno natural daquele lugar, onde recebeu o santo Baptismo pela semelhança que tem como nascimento temporal, assim todos os que  foram convertidos, e catequizados em Portugal, e suas conquistas nos mistérios de N. S. Fé, e receberam o santo Baptismo da mão dos portugueses, ficam por este título pertencendo-nos como naturais nossos de qualquer nação, seita, ou rito, que fossem (de mais do outro título porque nos competem, por serem moradores nos limites das conquistas deste Reino) por aquela celebre regra de S. Jerónimo, no Epitáfio de Nepotiano: Ad eo tempore confemur, ex quo in Christo regeneramur. E se prova das palavras de S. Paulo ad Galat. 4 Filioli mei quos iternum parturio donec formetur Christus in vobis. E por Direito, porque como pelo nascimento temporal se adquire a origem, e naturalidade, ficando a pessoa natural do lugar onde nasceu. L. Cives C. de incolis lib. 10, L. FiliosC. De municipibus, e originar. Lib. 10. L. I.ff. Ad municipialem. E o prova a Orden.Lusit.lib 2. tit. 56. in principio. Da mesma maneira, se adquire pelo Baptismo, pelo qual a pessoa nasce de novo por graça, como disse Cristo a Nicodemus, Oporte vos nasci denuo. E ibi: Nisi quis renatus fuerit ex aqua, e Spiritu Sancto. As quais palavras a este mesmo intento traz o Papa Inocêncio III in Cap. Debitum, vers. In Baptism.  Tit. De Bapt. In Decretalibus, E por isso no Catecismo de Pio V se define: Sacramentum regenerationis. Explicat Suar. Tom. 3. de Sacrament. Sup. 3. p. D. Th q. 66. Provam-no também os textos do Decreto in cap. Qui in maternis e cap. Post Baptismum de consecr.dist.4 E o notam expressamente dos Doutores Juristas Lucas de Pen.in d.L. Civies sub n.3. Rebus.in tracto.de pacis.possessionibus n 21  7. in fine,ubi dicit: Quodsi Judeus externus baptizaretur in regno Franciae, efficeretur statim regnisula [?] probat optimr a L.2.das Partidas partir.4.tit.24.ibi: La nouvena por tornarlo Christiano. Ubi Greg. Lop.glos.12.late.Gonçal,ad reg.s.Cancet. glos. 9. § I.n.106 qui n. 110. addir, quo dista lex debet servari in Rota.Grat.Forens.tom. I. Cons.75.n16.Barb.de Offic. & potest. Episc.p.2.alleg.4.n.3. e outros, que cita. Logo por estas regras de Direito nos ficam por legítimos títulos pertencendo ([?]são nossos naturais) todos os mártires do Japão, que foram convertidos, doutrinados, e baptizados por portugueses, e por conseguinte quaisquer outros que padeceram pela Fé nos limites de nossas conquistas."

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O "ONDE" DOS SANTOS (II)

De cinco títulos pelos quais (conforme o Direito, e viver salvo recebido) pode um Santo, ou varão ilustre em virtude, pertencer a algum reino ou cidade, etc. (II)


"Quanto ao primeiro, por nascimento temporal, são nossos todos os Santos e varões de insigne virtude, que nasceram neste Reino e suas conquistas, como S. Iria, S. Senhorinha, S. António, S. Gonçalo, e outros. Por nascimento espiritual nos pertencem todos os Mártires de nossas conquistas que pela pregação e doutrina dos portugueses receberam a primeira luz do santo Evangelho e foram por eles caracterizados, baptizados, e suficientemente instruídos nos mistérios da N. S. Fé, tivessem sido Africanos, como Gonçalo e João Vaz, irmãos, que sendo Mouros por nascimento, profissão e pátria, foram baptizados em Arzila pelos portugueses e depois padeceram glorioso martírio; ou Brasiis, como as duas mestiças que em tempo do V. P. José de Anchieta triunfando dos Tapuias por defesa da castidade rubricaram suas palmas; ou Lapões, como João e Simão e outros insignes cavaleiros de Cristo daquele Império. Por dignidade (posto que sendo estrangeiros, o primeiro húngaro, o segundo francês, e morada de S. Ancirado, e S. Pedro Gonçalves que sendo aquele alemão, este castelhano viveram muitos anos neste nosso Portugal, dado que morressem em outro reinos. Por morte sirvam de exemplo S. Mâncio, S. Ovidio e o santo Cavaleiro Henrique, aqueles dois Romanos, o último Alemão, natural de Colónia, o primeiro celebra a cidade de Évora, por conseguir nela ilustre coroa do martírio, o segundo Braga pela mesma causa, e o último venera Lisboa, porque morreu gloriosamente em sua conquista. Por possessão de Relíquias, como o nosso mártir, e Patrono desta cidade S. Vicente, S. Pantaleão da do Porto, S. Jacobo Interciso em Braga, por gozar cada um destas cidades o corpo sagrado de um destes três ilustres Mártires."


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04/06/11

O "ONDE" DOS SANTOS (I)


De cinco títulos pelos quais (conforme o Direito, e viver salvo recebido) pode um Santo, ou varão ilustre em virtude, pertencer a algum reino ou cidade, etc. (I)

 
"Como neste Agiológio prometemos tratar dos Santos e varões insignes em virtude, que pertenceram a este Reino de Portugal e suas conquistas, e nele se incluem muitos que são de outras nações e pátrias (que parecerá novidade a quem for pouco versado na lição de semelhantes livros), pareceu-nos precisamente necessário dar razão da causa que tivemos para assim fazer. Para o que se deve saber, que por um de cinco títulos (conforme a Direito, uso, ou costume) pode um santo ou varão ilustre em virtude pertencer a algum reino, cidade, ou lugar (deixada por agora outra mais larga divisão de títulos, que alguns fazem) para se tido por seu, em ordem ao celebrar, e se honrar dele, como de coisa própria. Por nascimento, por dignidade, por habitação, por morte, e finalmente por possessão de suas Relíquias. O primeiro destes títulos inclui dois nascimentos: natura e espiritual. O natural pelo qual saímos a este mundo, o espiritual pela renegação, e graça, que recebemos no santo Baptismo. Não tratando aqui de outro nascimento, quando pela morte, deixando os santos de viver temporalmente e neste mundo e começam a viver eternamente para o Céu, porque este é o quarto título (de que trataremos abaixo) pelo que somente falamos aqui dos primeiros dois." (Agiológio Lusitano - Com a aprovação de Santo Ofício e mais autoridades).

Tem continuação AQUI

10/04/11

A CIVILIZAÇÃO CATÓLICA LUSITANA NA ÍNDIA - O TESTEMUNHO DE S. FRANSISCO XAVIER

Escolhi o texto “A Autoridade de um Santo”, retirado do livro "Portugal Cruzada Sem Fim”, do Padre Francisco Videira Pires. Escutemos então o que diz um súbdito de Castela, S. Francisco Xavier, a respeito dos portugueses, da atitude dos governadores aportuguese, e do Rei D. João III de Portugal:

A AUTORIDADE DE UM SANTO
S. Francisco Xavier e os seus companheiros recebidos pelo Papa Paulo III
Pintura de André Reinoso 1619
Lisboa, igreja de S. Roque

"Ainda ninguém se lembrou de escrever a monografia da vida quotidiana dos Portugueses no Oriente, em tempos de S. Francisco Xavier. Só as cartas, completadas com os escritos dos primeiros correspondentes e biógrafos, dar-nos-iam um dos livros mais coloridos e exactos sobre esse período tão decisivo da nossa história ultramarina. Além da cor local e do pitoresco do quadro, o que lhe brota da pena fornece-nos, frequentemente, documentos de primeira-mão para a nossa situação nessas longínquas paragens, como quando nos diz, em confissão do ano 1552: «Há oito ou nove annos que forão descubertas estas ilhas do Japão pelos portugueses» (1), num dos mais firmes testemunhos do encontro desse império do Sol Nascente, em 1543. Aqui e além, quase a cada página, saltam informações preciosas acerca da firmeza e lucidez da nossa colonização. Vá de exemplo só esta curta frase relativa ao régulo Hairun: «O rei de Maluco é moiro e vassalo do Rei de Portugal, e honrase muito de o ser, e quando nele fala chama-lhe: o Rei de Portugal meu Senhor. Pala este rei muito bem português» (2).

13/02/11

JESUÍTAS PARA O BRASIL - MARTÍRIO NAS ILHAS CANÁRIAS (1570)

Os mártires do Brasil
Um grupo de Jesuítas constituído por 32 portugueses e 8 espanhóis foram martirizados por piratas protestantes (calvinistas franceses) junto às ilhas canárias, a 15 de julho de 1570. O superior deste grupo, o beato Pe. Inácio de Azevedo, natural do Porto, foi o primeiro a sofrer o martírio, e de forma mais cruel, dizendo: "Todos sois testemunhas como morro pela Fé católica e pela Santa Igreja Romana". Então esvaído em sangue afirmou para os companheiros "Meus filhos, não  tenhais pena. Deus fez-me vosso Pastor. Bem é que o Pastor vá diante das ovelhas. Eu vou à frente preparar-vos o lugar".

Em a 13 e 14 de setembro de 1571 outros 12 Jesuitas foram martirizados de forma idêntica e no mesmo local.

11/09/10

D. TEOTÓNIO DE BRAGANÇA E SANTOS JESUÍTAS

Carta Aos Bemaventurado Padres Francisco Xavier e Simão Rodrigues, Companheiros do Padre Inácio de Loyola Fundador da Religião da Companhia de Jesus

26/03/1598



"Teotónio filho do Duque de Bragança dom James, indigno Arcebispo de Évora.

Havendo Vossas Reverências, vindo a este Reino (Portugal) para passar ambos às Indias Orientais a trabalhar na conversão daquelas grandes Províncias por mandado do Paulo Papa terceiro de boa memória, à instância do Cristianíssimo Rei dom João o terceiro (de Portugal) que Deus tem, e depois por ordenação divina, e com particular devoção do dito rei, tendo dividida entre vós esta missão, embarcando-se um, e ficando neste reino outro, com correspondência entre ambos para criar no real Colégio de Coimbra primeiro da vossa religião, Religiosos perfectíssimos, e desapegados das cousas da terra, e apostados a todos os trabalhos, e perigos, e martírios (a que andam sempre arriscados os que andam naquelas partes) para seguirem a mesma conquista com um mesmo espírito, e com um mesmo zelo da salvação das almas. A Deus se deve a glória disso, e do grande fruto, que se tem colhido na conversão de tão diferentes nações à nossa santa fé católica: e assim como a ambos foi causa de grandes merecimentos, assim tenho por certo que estareis colhendo o primeiro deles, gozando de sua divina visita. E para que eu em parte satisfizesse ao grande amor, e devoção, que a ambos tive para vos acrescentar alguma glória ocidental, e por a afeição que tenho àqueles grandes reinos de Japão, e em particular ao padre Alexandre Valignano Apóstolo verdadeiramente daquele Oriente, e aos padres dom Mantio, dom Miguel, dom Julião, e dom Martinho, primícias do Ilustríssimo sangue de Japão, fiz imprimir estas cartas, umas com que vossas Reverências se comunicaram, e outras de outros padres, que vos sucederam, e em todas se enxerga bem o grande ânimo com que tomastes à vossa conta tão dificultosa, e gloriosa empresa, e a vão agora prosseguindo vossos verdadeiros sucessores, rompendo por a grandes dificuldades, que se lhes oferecem em todas as partes por aquelas brenhas da infidelidade, de que se pode esperar maiores efeitos, aproveitando-se estes dos avisos que nelas se acham, seguindo-vos os que têm esta empresa agora nas mãos, e a tirarem ao diante, e continuando o caminho, que lhes mostrastes e já que não fui tão ditoso com eles, recebei este ofício de filho, e rogai a Deus, me dê graça para que esta parte que me coube em sua sagrada igreja, se supra com ela o muito que me falta para ser bom pastor, e que possa com os trabalhos que me afligem, respirar com ele, e dar a vida por seu amor, e ser predestinado por esta via para sua glória.

Em Évora a vinte e seis de março, de 1598."

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