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17/12/16

TÍTULO PATRIARCAL

 Agora a 14 de Dezembro foram nomeados novos Cónegos para Lisboa, e calhou ter visto por um amigo o comunicado. Destacou-se-me a formulação inicial com o título patriarcal, a qual é oportuno e interessante partilhar:
 
Dom Manuel III, Cardeal-Presbítero da Santa Igreja Romana, do Título de Santo António dos Portugueses no Campo de Marte, por Mercê de Deus e da Sé apostólica, Patriarca de Lisboa.
 
É bom ver usar os nomes certos.
 
 

05/08/16

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 27 (III)

(continuação da II parte)

Enquanto pois a Maçonaria se cansou em despregar todos os seus furores contra a Igreja Patriarcal, género este de vingança que lhes pareceu o mais fácil, e o mais expedito para se desembaraçarem do Atleta invencível, que desde a França os incomodava e assombrava; enquanto concebiam o desatinado plano de extinguirem a própria Dignidade Patriarcal, a fim de ressuscitarem o Arcebispado de Lisboa, talvez já destinado para algum dos adeptos do Maçonismo (nota: Na obrinha estatística de Adriano Balbi, que lhe foi encomendada pela Facção liberal, e de que a seu tempo farei mais larga menção, T. 2. pag. 8 se lê "O Congresso acaba de extinguir a Dignidade Patriarcal, e aplicou-lhe os rendimentos para a dívida nacional. Espera-se de Roma a Bula resectiva a esta abolição, e ao reestabelecimento da Dignidade Arquipiscopal, etc.." Oh vanas hominum curas!!!), remunerava a Providência a olhos vistos a constância insuperável de seu servo, deparando-lhe a maior das consolações que podiam suavizar-lhe o seu desterro. Aludo nesta parte ao Breve do Santo Padre Pio VII, monumento dos mais honrosos para o Senhor Cardeal Patriarca, e de que nas idades futuras se tirará um argumento inrrefragável de que os trabalhos de um Português, de um Cardeal, foram tão crescidos na tormenta constitucional, que o Pai comum dos Fiéis, e Suprema Cabeça da Igreja universal, assentou que era de seu dever animar e consolar quem prescindiu de honras, grandezas, e de tudo, por sustentar a boa causa. Bem desejariam os Pedreiros Livres que nunca transpirasse neste Reino sequer a notícia deste procedimento da Sua Santidade, que os despedia eternamente de verem realizado o seu plano de extinção da Patriarcal, e punha em toda a luz o que devia esperar a nossa Santa Religião da insolente audácia de tais reformadores; mas quis a boa fortuna dos amantes da Religião e do Trono que eles soubessem o que os Pedreiros mais quereriam ter oculto; e para que este novo argumento da inocência do Pastor desterrado não fizesse maior abalo na opinião geral, nesse tempo já sobejamente pronunciada contra os malévolos autores da nossa degradação aos olhos de toda a Europa, e da nossa estranha decadência a todos os respeitos, fizeram uma espécie de Contra-Bula, ousando ensinar ao Mestre da Igreja universal o estilo e indústria maçónica, de que (diziam eles) era mais a propósito que Sua Santidade usasse em tais circunstâncias. Duvidei largo tempo se havia de patentear mais este hediondo testemunho da perversidade maçónica, não por ele ser extremamente ridículo, e apenas um tecido de frioleiras e desconchavos, pois tais obras agora publicadas são o açoite mais terrível para uma seita, que desejaria se queimassem e nunca mais aparecessem as infames produções dos seus confrades; mas por ver quanto foi injuriada a pessoa do Eminentíssimo Cardeal Patriarca já nos últimos paroxismos do sistema. Seguindo pois um meio termo, escolherei as passagens mais célebres, que apesar de se combaterem, e de se destruírem por si mesmas, dão seu lugar a que apareceram novos argumentos de uma constância digna dos mais famosos tempos do Cristianismo..... Os miseráveis Redactores do Censor Lusitano, folha desconhecida, e que não obstante os esforços do Maçonismo para a fazerem comprar e ler da parte de ElRei, ainda no tempo constitucional era geralmente desprezada, e porventura já então se vendia a peso, embutiram na folha de 21 de Outubro (1822) esta descompostura legal, e sancionada pelo Ministério, a um Sumo Pontífice e um Soberano, ditando-lhe as palavras com que Sua Santidade deveria estranhar o Patriarca de Lisboa.

Texto


"Amado Filho, saúde e bênção Apostólica. Grande foi a dor que pungiu nosso terno coração, quando soubemos que tu, esquecido do teu lugar, da tua dignidade, da honra de Cidadão Português, do exemplo que nos deu Jesus Cristo e seus Apóstolos de não resistir nas coisas temporais aos poderes do século, antes viver-lhes sujeitos segundo o ditame da nossa consciência, guiado pela tua ignorância, e pelos estultos conselhos dos fanáticos Sacerdotes que formavam a tua côrte, levaste o teu arrojo e animosidade até ao ponto de encontrares o voto de toda a Nação Portuguesa, calcar aos pés dois artigos das Bases da Constituição política, e mais magoado por largar o lugar que indignamente ocupavas na Regência do Reino Fidelíssimo, do que por abandonar o Rebanho, que te fora confiado, levaste o teu capricho a tal ponto, que obrigaste a religiosa Nação Portuguesa a lançar-te fora das suas raias, e riscar teu nome do número dos honrados Cidadãos Lusitanos."

Censura

Que indecência, que atrocidade!! Ninguém se lembrou do seu lugar, da sua dignidade, e da honra de Cidadãos Portugueses como Sua Eminência. Tomou o lugar de Apóstolo, e a dignidade de um Pastor zeloso das prerrogativas essenciais da Igreja Católica, e manteve ilesa a honra de Cidadão Português, visto que Cidadão Português é um homem, que não crê na fantástica Soberania do povo, e que se horroriza de ser desleal e traidor a um Rei tão benigno, e tão amante dos seus povos, como é o Senhor D. João VI. Nem Jesus Cristo, nem os Apóstolos ensinaram nunca aos povos, que tinham obrigação de prestar obediência a qualquer aventureiro, que usurpasse o Ceptro e a Coroa, que lhe não pertenciam. A Censura das más doutrinas, ou impressas, ou manuscritas, ou prégadas de viva voz, como direito essencial dos Bispos, não é coisa temporal, e menos o é a indevida exclamação das palavras única, sendo, como era, bem sabida a tendência dos Mações para a liberdade de consciência. Se estes dois casos não são daqueles que põem qualquer sucessor dos Apóstolos nas inevitáveis circunstâncias de se opor qual muro de bronze, e de exaltar a sua voz como se fosse uma trombeta, então fiquem mudos para sempre, e condenem os Ciprianos, os Ambrósios, os Agostinhos, e todos os mais, que por muito menos resistiam à ingerência do poder secular me matérias Eclesiásticas!!! Importa reduzirmos à sua verdadeira significação as palavras maçónicas, de que o texto vai recheado "Ignorância equivale a ciência Cristã, pois esta acusada há muito de profana, desterrou-se para sempre das subterrâneas moradas da luz". Sacerdotes fanáticos vêm a dizer o mesmo que Sacerdotes Católicos, pois desde a correspondência de Voltaire com os Ateus Frederico, Damainville, etc. até aos princípios da Revolução Francesa, desde as proclamações de Junot até às suas irmãs gémeas ou às do Governo Supremo do Porto, e enfim desde 24 de Agosto de 1820 até aos faustíssimos princípios de Junho de 1823 nunca tiveram outro sentido as palavras fanático e fanatismo, que a palavra superstição calça mais alto no Dicionário dos Mações. É necessário ter junto, e bem junto, a si o apoio de doze mil baionetas, para mentir à face do mundo com tal descaramento e audácia. A Nação Portuguesa nunca deu procurações para que a sua antiga crença fosse postergada e insultada por mil artes e modos, e para que nos viesse aí um rancho de Judeus e de Mouros para levantar Sinagogas e Mesquitas. A Nação foi passiva em tudo; a menos que a palavra se entenda em sentido maçónico. Nação é a sociedade dos Pedreiros, que logo que decidam em loja que o preto é branco, não há remédio senão obedecer-lhe, é um exercício de Soberania da Nação, é vontade nacional...

As últimas palavras merecem uma paródia em vez de refutação - magoada justamente por veres que um Fernandes Tomás, um Ferreira Borges, e outros que tais, vinham depor-te de um lugar que eles te não podiam conferir nem tirar, e que não era outra coisa mais do que uma verdadeira e execrada rebelião contra ElRei Fidelíssimo; sofrerias tudo isto de bom grado se os maiores interesses do teu rebanho não estivessem a ponto de sofrer a quebra mais funesta. Abençoado sejas de levar tua constância ao extremo de obrigares o Grande Oriente e a sua Delegação nas Côrtes, a que te lançassem fora dos Domínios Portugueses, e mais que obedecer aos ímpios, quiseste ser expulso, e riscado da lista dos Cidadãos Lusitanos, de que um Pároco, defensor dos Pedreiros Livres, fez o molde e o elogio.

Texto

"Maior dor nos magoou, quando soubemos que deportado em Baiona ainda pretendeste seduzir à rebelião aqueles mesmos a que devias dar os primeiros exemplos de obediência e humildade, enviando-lhes uma Carta, onde as autoridades da Escritura e dos Padres não provam senão a tua rebeldia e desobediência à Nação. Se nossos Pais, os Mártires, e os Confessores, que a Igreja conta no número dos seus Santos, resistiam às autoridades, foi só, e unicamente, quando estas mandavam contra a lei de Deus; fora deste caso a Igreja tem horror a semelhante comportamento. Exigiste à Nação Portuguesa que declarasse única a Religião Cristã... Maus conselhos, falta de instrução a isso vos levou. A Nação Portuguesa diz que a Religião dos Portugueses é a Católica Apostólica Romana. E que mais querias, amado filho? Há porventura outra verdadeira? ou há outra que possa ao menos assemelhar-se a esta? Quem designa esta Religião tão francamente, não tem necessidade de acrescentar-lhe única, porque era por em dúvida o aferro dos Portugueses a esta Religião, à qual tem sido fidelíssimos em todos os tempos, era inculcar violência, era dar ideia de força numa coisa, que só por amor e convicção se abraça."

Censura

Todo o mundo leu a Pastoral de Sua Eminência datada de Baiona a 8 de Setembro de 1821, tirou lágrimas dos olhos habitualmente mais enxutos, e a Gazeta Universal desde esse tempo ficou sendo a Gazeta dos Católicos, em frase pedreiral Corcundas; pois ser Católico na frase destes alumbrados é o mesmo que andar às escuras, ou trazes uma deformidade intelectual, de que apenas é sombra a deformidade física de uma corcova. Todos aí leram e entenderam as palavras obedecei às autoridades constituídas; e por mais que se revolva e torne a revolver toda, nem visos aí se encontram de uma só palavra, que pretendesse seduzir à rebelião, como diz o texto. Falemos claro, sem usarmos de rodeio. A Pastoral recomendava muitas vezes a frequência dos Sacramentos, e com especialidade do Sacramento da Penitência, levantava os interesses eternos acima dos temporais, chorava a monstruosa devassidão de costumes, que é a peste dos Impérios e das Repúblicas. Tudo na frase dos Pedreiros é soprar o fogo da sedição, pois chegando-se a fazer bons Católicos, necessariamente se fazem óptimos vassalos, que têm as mãos quebradas para insultarem e deporem os Reis, que para um Católico são ungidos do Senhor. Debaixo do mesmo espírito, e das mesmas ideias, é que os Pedreiros Constitucionais se doíam muito de que alguém combatesse os erros contra o dogma, e contra a moral de Jesus Cristo, que mandavam propagar pelos seus adeptos; e quem trovejava sobre os Pedreiros Livres era forçosamente inimigo da pátria, e chamava-os povos à sedição!!!

E ainda se gabam estes arlequins de que era desnecessário meter no artigo a palavra única!! Desta palavra dependia o maior favor, com que os Imperantes podem acolher a Religião verdadeira nos seus Estados. Decretar que a Religião Católica Apostólica Romana é a Religião dos Portugueses é o mesmo que decretar que a Religião, ou Seita de Mafoma [Maomé], é a crença do Império Turco. Quando muito é uma simples declaração de que o Catolicismo lhes não poderia ficar obrigado. Se decidissem que o Catolicismo era a Religião única dos Portugueses, decidiam que nenhum Português, que professasse outra Religião, gozaria dos direitos de cidadão; e já se vê que as coisas por este modo levariam outro andamento. É sim de agradecer o bom conceito que merece ao autor a Nação Portuguesa, mas todo esse afinco de Sua Eminência ao acrescento da palavra única procedeu de que ele sabia, e como ele meia cidade de Lisboa, que a seita dos Pedreiros Livres se tinha propagado neste Reino, e que por causa deles tinha perdido esta Nação o atributo de Fidelíssima à crença de seus maiores, que lhe coube sem quebra ou míngua por espaço de seus séculos; e por isso não bastava para contentar Sua Eminência, nem os bons Portugueses, a simples declaração histórica, de que tantas vezes se tem armado para serem tidos por bons Católicos, ao que repugnam todas as forças da evidência moral. E o medo que tinham estas almas piedosas de que se julgasse que eles queriam violentar os Portugueses a serem Católicos! Ah! podem estar seguros e descansados que ninguém os acusa deste gravíssimo crime... Antes lhes fazia toda a justiça, e eles bem o mostraram em tudo, que se dissesse, escrevesse, e publicasse que era livre a cada um seguir a Religião que muito quisesse... Bocas Sacerdotais o vomitaram no Congresso, e a Gazeta Mouro-Tomaziana (o Independente) pôs em linguagem tudo o que anda impresso em Lock e em Collins, e outros da mesma estofa, sobre liberdade de pensar, e de seguir a crença que parecer mais agradável.

(continuação, IV parte)

01/08/16

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 27 (II)

(continuação da I parte)

Darei todavia, se acaso é possível, algumas tréguas à vivíssima indignação que concebi nesse tempo, e que só acabará com a minha vida, para oferecer aos meus leitores, sequer em miniatura, o quadro de insolências e atrocidades, que se ofereceu ao público no memorável dia 2 de Abril de 1822.


Comecemos por quem dispunha e mandava tudo no Congresso. "Se ele (Patriarca) julgou que entende alguma coisa com a sua consciência, para que foi tão emisso Pastor, para que mandou ao seu Clero e a todos que obedecessem?... Manda aos outros que jurem, e não quer jurar?" E a isto é que se chamava nesse tempo rectidão e justiça!! Não bastava perseguirem um chamado réu, que só merecia respeitos, e obséquios, arrancarem-no às suas ovelhas, fazerem tudo quanto neles era para quebrarem o laço indestrutível que o prendia à Santa Igreja de Lisboa, de que todos eles, ao menos na aparência, eram súbditos, senão acrescentarem a mais destinada impostura, como se o Eminentíssimo Cardeal Patriarca tivesse mandado jurar os Pastores de segunda ordem? Todo o empenho da seita foi tirar ao heroísmo de Sua Eminência, quando não fosse todo, o que lhes era impossível, ao menos uma parte do seu brilho, que dava luz tão clara aos Portugueses iludidos, e poderia ter desastrosas consequências para o Maçónismo. Daqui veio que não fizeram ler no Congresso, ou publicar no Diário, como importava num caso de tanta ponderação, os fundamentos a que recorreu Sua Eminência para dar uma absoluta negativa. Não disse simplesmente Sua Eminência "Não juro os artigos 10 e 17, porque sou Bispo, e dou Católico, nem prescindo dos meus direitos, nem atraiçoo a minha Fé", acrescentou mais coisas, motivou a sua repulsa, de que todavia nunca se fez menção nos papeis públicos. Temeram sem dúvida que a seita fosse desmascarada por Sua Eminência, o que é tão certo, que apenas se divulgou a Pastoral, ou Saudação do Eminentíssimo Cardeal Patriarca, logo a tacharam de sediciosa e incendiária, como se verá no lugar competente. Seguiu-se a Fernandes Tomás outro declamador, que não se pejou de avançar mais este delírio: "Dizia-se ao Cardeal Patriarca que jurasse que a Religião da Nação Portuguesa era a Católica Apostólica; dizer que não quer jurar este artigo é dizer que não quer observar que a Religião Portuguesa é a Católica". E chama a este procedimento "ignorância crassa e supina"!!!

Que juízo se deverá fazer do que se lê na pag. 411, que ainda é mais curioso, por descobrir as verdadeiras causas do extermínio há muito resolvido nas tenebrosas conferências? "A Bula relativa a comer-se carne para se evitar o sair dinheiro para a Inglaterra, e tão interessante ao nosso estado público; o Governo recomendou a execução dela, e o Cardeal Patriarca, não devendo reputar-se mais religioso que os outros Prelados do Reino, obstou à publicação da Bula; o que tem sido ocasião de discórdias entre as famílias, e discórdias de que ele é o culpado.
Vamos aos dois artigos das Bases em que ele embirra: Que a verdadeira Religião é a Católica Apostólica Romana.... ao menos, querendo que se acrescentasse a palavra única, dá a entender que o Congresso não quer que ela seja a única, quando pelo contrário o Congresso decretou que ela havia de ser única, e... não pôs esta palavra, em razão das modificações que se hão de fazer relativamente aos estrangeiros. O artigo.... dele não se pode seguir o perigo de se ofender em alguma coisa o dogma e a moral."

Enfim de todos os Opinantes o mais comedido tachou a Sua Eminência de alucinação; e só por aqui se poderá concluir a que ponto subiram as injúrias, se uma por extremo grave, quando se tratava de pessoa de tão alta hierarquia, passou então aos olhos de toda a Nação como um verdadeiro obséquio, e talvez como ardil para se quebrar de algum modo a fúria da conjuração. É bem para lastimar que o descuidado taquígrafo não ouvisse as falas dos Excelentíssimos Bispos presentes no Congresso, que nunca tiveram ocasião para falar bem alto, como esta, e fez horror que da boca de algum, ou de alguns, saísse o pretexto de alucinação; quando só os que não penetrassem quais eram as vistas de um Congresso ímpio, e revolucionário, é que, não sendo cúmplices da Maçonaria, se podiam chamar alucinados, e bem alucinados, pois a todos que viveram largos anos em Coimbra, se pode acomodar o Sic notus Ullysses!!

Ainda falou segunda e terceira vez o Caudilho Tomás, que assentou da primeira vez que só extravagâncias se deviam esperar de quem zelava tão impavidamente os direitos e prerrogativas da Igreja; o que também era indispensável para a coroa dos trabalhos de Sua Eminência, a fim de que ele também pudesse queixar-se, ou antes gloriar-se, com S. Paulo: Nos stulti propter Christum. Apurou-se mais na terceira fala, que devia arrastar a seita em peso, e obrigá-la a uma lei nova para este crime novo e inaudito; e convém lançar aqui as suas expressões mais notáveis.

"O Cardeal Patriarca cometeu muitos delitos, mais do que eu supunha: primeiramente nega a obrigação de obedecer ao Congresso em tudo o que não seja matérias políticas; já se vê que exclui as matérias meramente Eclesiásticas e Disciplinares, em que o Congresso, como todo e qualquer Soberano, tem poder e direito de legislar. O Cardeal Patriarca nega mais que o Congresso tivesse poder de legislar, e decretar que a Religião dominante do país é a Religião Católica Apostólica Romana, e supõe que isto é um negócio só da sua competência, e que nesta parte ele não é súbdito do Congresso, nem tem obrigação de obedecer. O Patriarca julga mais que o Congresso nos dois decretos que fez deixou em perigo a Religião, não se explicando com toda a clareza que era conveniente, e erigiu-se ele mesmo em legislador nestas matérias, fazendo declarações que esclareçam o Congresso, então o seu crime é maior. O Cardeal Patriarca disse mais que não jurava obedecer ao Decreto das Cortes, quando ele estabeleceu a liberdade da imprensa sem censura prévia eclesiástica. É um absurdo, é um erro o julgar-se que pelas leis do país, que nos governaram até 24 de Agosto, e que hoje nos governam, que os Eclesiásticos tiveram censura prévia dos livros que se imprimiram. Aos Bispos nunca compete senão a censura dos livros impressos, ou não impressos, que se compõem de quaisquer opiniões que ataquem a Religião. Este direito foi salvo aos Bispos; e o Patriarca quer defender o contrário, quer usurpar o poder soberano que compete ao Congresso."

Ora vejam que pesada injúria fazia o Eminentíssimo Cardeal Patriarca à facção preponderante no Congresso de os sentir inclinados à tolerância religiosa, e dispostos a admitirem neste Reino toda a espécie de cultos religiosos, inclusa a Maçonaria com os seus aventais nos seus dias clássicos, e de reunião geral!!! Aqui se pode trazer bem ao intento o rifão Português: Quem não quer ser lobo não lhe vista a pele. Ainda que o sucedido nas sessões de 13 a 16 de Fevereiro não abrisse os olhos à pessoa mais cega, e menos advertida de quais são os intentos da Maçonaria, bastava o que se passou nesta mesma, de que vamos tratando, para se concluir que a liberdade da imprensa, até em matérias religiosas, só era benefício dos Irmãos, que se metessem a impugnar as verdades dogmáticas e morais do Cristianismo, como depois mostrou a experiência.... Dizer um homem versado em papeis e livros velhos que nunca os Bispos censuraram livros, senão depois de estarem impressos, não é como esbofetear a gente que sabe que há livros, e que os têm aberto e folheado desde o princípio até ao fim? Que seria uma licença do Ordinário, que vem à frente das obras jurídicas de Pegas, de Caldas, e de todos os mais reinícolas? Não foi por mais de duzentos anos coisa indispensável neste Reino que os Bispos vissem, e censurassem o livro antes de se imprimir? (Agora mesmo neste últimos tempos, quando por extinção da Mesa da Comissão Geral sobre o exame e censura dos livros tornaram as coisas ao pé antigo, não se devolveu aos Ordinários a antiga licença? Não foi sem licença de algum Ordinário que o próprio Fernandes Tomás imprimiu a sua obrinha contra Manuel de Almeida de Lobão, e o seu grande Repertório das Extravagantes; e se os Ordinários censurassem o livro poderia sim haver algum conflito com as autoridades seculares, mas por via de regra não seria fácil que o livro censurado pelo Ordinário se chegasse a imprimir; o que, ainda nesta hipótese, está bem longe de favorecer ou patrocinar a doutrina de Fernandes Tomás.) Decidiu-se numa das causas mais importantes que se têm agitado neste Reino; decidiu-se porém a sabor das paixões frenéticas e exaltadas dos corifeus da Maçonaria..... Gemeram os bons; a piedade cristã seguiu todos os passos da vítima; estremeceu dos perigos que ele teria de encontrar, pisando um território inficionado das mesmas doutrinas ímpias e revolucionárias; e foi-lhe preciso encerrar-se, fugir de testemunhas, recear as paredes de um cubículo, para desafogar em suspiros a sua mágoa e saudade!!! Animou-se todavia de que a passagem através de Castela, bem longe de ser arriscada para o intrépido Confessor da Fé, se tornasse para ele a mais segura e cómoda, e exultou quando leu a Pastoral datada em Baiona, e cobriu de bênçãos e merecidos louvores o impávido redactor da Gazeta Universal, que assim fazia constar ao rebanho quais eram as vezes do seu Pastor ausente, e cada vez mais solícito  por desviá-lo de famintos lobos, e de pastagens venenosas... Não foi esta a primeira vez que a França deu asilo aos Pastores violentamente separados de seu rebanho... Desde Santo Tomás de Cantuária até ao Eminentíssimo Cardeal Patriarca de Lisboa podia tecer-se um catálogo imenso destas vítimas de um apego entranhável à causa do Cristianismo.... Recebemos, enquanto durou a tormenta revolucionária que assolou a França, um crescido número de Sacerdotes, e um Bispo, um Confessor da Fé, um herói Cristão, veio rematar seus dias ao Mosteiro de Alcobaça: pagou-nos a França esta dívida franqueando os seus lares a um Pontífice desterrado pela mesma causa; e já tornando a si de antigos e funestos delírios, se reputou feliz de que já voltasse outra vez a ser o refúgio da inocência oprimida o há pouco ingrato país, que arrojava cruelmente para fora de si os mais constantes defensores do Trono e do Altar... Assim mesmo, que longo foi o desterro de Sua Eminência, não tanto a contar pelo número dos dias, como pelo íntimo desejo de unir à Esposa, com quem contraíra matrimónio espiritual, e indissolúvel a todos os esforços e pretensões do Maçonismo!! Quantas vezes ao lembrar-se de que os males do seu rebanho engraveciam, e ameaçavam tocar o ponto de incuráveis, ele sentiria como abalarem-se-lhes as entranhas, e fugir do seu coração a doce paz, este mimo com que os Céus regalam os que padecem por honra do Evangelho? Quantas vezes o coração de Sua Eminência saíra um eco fiel por extremo das palavras de S. Leão Magno a Fláviano: "Ainda que nos glorifiquemos no Senhor, que nos sustenta pelo poder da sua graça, é de necessidade que choremos o desastre daqueles que combatem a verdade, calcam aos pés a Religião, e abalam os fundamentos da Igreja?" E que recompensa recompensa davam os nossos legisladores a quem lá desde o seu retiro fazia quanto nele era por apagar todo o ressentimento e o menor incentivo da guerra civil, e endereçava ao Céu os mais puros votos pela felicidade da Monarquia Portuguesa? Ele não tinha deixado de ser Patriarca, ainda subsistia firme o laço da sua união com a Igreja Ulisiponense; e quem duvida que lhe tocasse por direito ao menos uma parca substância? A tudo se negaram esses homens liberais, que faziam brindes de 10000 cruzados, à causa de um Reino atenuado e empobrecido, a uns Quixotes aventureiros, e como refugos da espécie humana. Ah! fizeram bem; porque Sua Eminência teria menos esta razão para ser admirado, se os ímpios o tivessem socorrido. Parece que eles só tratavam de cansar-lhe a paciência, a fim de que ele, vencido pelo tédio e privações próprias de um desterro, cantasse ainda a palinódia, e segurasse à causa liberal mais um triunfo, que lhe seria por extremo agradável. Quanto é possível conjecturar de um ânimo grotesco, desinteressado, e só atento aos preciosos interesses do Cristianismo, eu me abalanço a pôr na língua do Eminentíssimo Cardeal Patriarca as formais doutrinas do S. Padre Pio VI, só com uma leve mudança. "Vós tendes todo o poder sobre as rendas da Patriarcal; porém a minha alma, e o meu carácter sagrado estão fora do alcance dos vossos tiros. Eu não careço da vossa pensão. Um bordão, em lugar da Cruz Pastoral, e um vestido de burel são bastantes para quem deve expirar sobre o cilício e cinza. Adoro a Mãe do Todo Poderoso, que castiga o Pastor, e o seu rebanho; podeis saquear a vosso gosto as habitações dos vivos, e até as sepulturas dos mortos; porém a Religião é eterna. Há de existir depois de vós, assim como existiu antes de vós, o seu reino há de perpetuar-se até ao fim dos séculos."

(continuação, III parte)

27/07/16

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 27 (I)

O PUNHAL DOS CORCUNDAS

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Nº. 27
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Ostendam gentibus nuditatem tuam

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O Juramento das Constituições
ou
O Eminentíssimo Senhor Cardeal Patriarca

Que tormento não seria para a Igreja Lusitana, se ao volver seus olhos, ainda mal enxutos, para a desastrosa época de suas maiores calamidades, não visse nem sequer um Bispo desterrado e perseguido? Que inveja lhe não causaria a Igreja Galicana, que fiel companheira do Trono de S. Luís, não se esquivou de se unir com ele na mesma queda, na mesma sepultura? Que inveja lhe não meteria a própria Igreja da Espanha, que na pessoa do Bispo de Wich conta um Mártir, e na do Arcebispo de Valência, e do Bispo de Pamplona, e de outros mais sucessores dos Apóstolos, uma turba numerosa e brilhante de heróicos e denodados Confessores? Bendito seja o Pai das misericórdias, que no mais desfeito da tempestade revolucionária, que deu de golpe sobre as nossas cabeças, suscitou a primeira Dignidade deste Reino para se medir como ela, para afrontar as suas ondas, e zombar do seu poder ilegítimo e usurpado, a quem a maior parte da Nação dobrava os joelhos, e queimava incenso, que só eram devidos às Monarquia legítima, e ao Trono do Senhor D. Afonso Henriques.

D. Carlos I, VI Cardeal Patriarca de Lisboa (1819 - 1825)
Há muito que nas hediondas cavernas do Maçonismo se decidiu o extermínio do Eminentíssimo Cardeal Patriarca de Lisboa, como passo indispensável para que o sistema progredisse franca e desempeçadamente. Pareceu duríssimo a quem vinha desbaratar as superstições e o próprio fanatismo, e que se julgava omnipotente nas suas resoluções e medidas, que um Fidalgo, e um Eclesiástico, e um Governador do Reino, títulos estes que só de per si eram crimes imperdoáveis, se atrevesse a impugnar, ainda que fosse em matérias espirituais, os desprezíveis e ridículos palhaços da comédia de 24 de Agosto. É de pasmar que disfarçassem o caso tão largo tempo, e que não despregassem toda a sua fúria contra quem avisava corajosamente o seu rebanho das fraudes e impostura maçónicas. Não tardou muito tempo que assomasse o pretexto, e foram as memorandas Bases da Constituição "Lusitana" [aspas nossas], que eram conhecidamente as bases da tolerância religiosa, da liberdade da imprensa, e de um absoluto indiferentismo.

Se o Eminentíssimo Cardeal Patriarca rejeitasse aderir aos pontos, que a sabedoria do século trata de meras temporalidades, como por exemplo a Soberania do Povo, pode ser que tivessem, ao menos para os que ainda seguem tais doutrinas, sequer uma sombra de justiça; porém o digam sucessor dos Apóstolos olhou somente para a causa de Deus, só esta lhe mereceu cuidados, e por mais que ele desejasse dar ao César o que era seu, nem os tempos, nem o ascenso, que parecia geral, permitiam que ele obrasse de outra maneira. Bem conheceu o Eminentíssimo Cardeal Patriarca o iminente perigo a que se expunha, assaz conhecida lhe era a audácia maçónica para deixar de ver e sondar as alturas do precipício em que seria despenhado. Perder honras, direitos de cidadão, e a própria Dignidade Patriarcal era o que se ante-olhava de menos grave e penoso. Outro tanto só havia feito ao mui alto e poderoso Senhor D. João VI, pois faziam e desfaziam leis, deitavam os fundamentos do edifício constitucional sem que ElRei fosse ouvido, nem prestasse o seu consentimento. Devia pois lembrar tudo o que é mais negro e horrível na história dos crimes; e sem um denodo que arrostasse com a morte, e não esmorecesse a vista de um patíbulo, nunca se chegaria a dar passo heróico, que a Graça Divina inspirou ao digno sucessor de outro Cunha, que foi um assombro de lealdade, e primeiro móvel da restauração de 1640. Um facto que pertence à História Eclesiástica da Igreja Lusitana, donde passará para os fastos da Igreja Universal, merece ser tratado conforme está pedindo a gravidade da matéria, e por isso convém trazer à memória tudo o que se passou no Salão das Necessidades no tocante ao extermínio da mais alta Dignidade deste Reino.

Tão ardilosamente foi contado no Diário das Cortes este processo, que por ele nunca se poderá liquidar quais foram os artigos controvertidos; tal era o empenho dos regeneradores por cobrirem de névoa um sucesso que logo à primeira vista nos apresentava uma viva cópia dos Atanásios e dos Crisóstomos. É justo que deixemos falar um pouco a Sua Eminência [Cardeal Patriarca D. Carlos I], até para nos roborarmos, e para nos enchermos da constância que o animava, e que ainda hoje é muito precisa para se contar a sangue frio a que extremo se abalançou a perversidade maçónica:
"Como somos esposáveis (diz ele na sua excelente Pastoral dirigida de Baiona de França em data de 8 de Setembro de 1821) a Deus e aos homens, ainda que a nossa consciência nos não argua a este respeito na presença Divina, é justo, e mui próprio do nosso Ministério, justificar-nos diante dos homens. Na verdade não nos tem sido tão sensíveis às mortificações que temos sofrido, como a sinistra ideia que se tem feito do nosso carácter. Sim, amados filhos, a todos é patente o facto que deu causa ou ocasião a ver-nos separados daqueles que muito amamos em Jesus Cristo: o nosso procedimento em nada se afastou da regra dos nossos deveres, nem envolveu contradição alguma. Quando comunicámos às Autoridades Eclesiásticas as ordens que recebemos para elas darem o juramento sobre as Bases da nova Constituição, não interpusemos o nosso parecer sobre se deviam ou não pretá-lo: não mandámos que se desse (como inadvertidamente se tem publicado), nem de maneira alguma quisemos influir na opinião do nosso Clero; antes deixámos inteiramente a cada um praticar o que a sua consciência lhe ditasse, mandando-lhe junto a cópia do Aviso que tínhamos recebido, para que por ele viessem no conhecimento não ser de nós que a dita ordem tinha emanado, e da qual só éramos executores; facto que se pode verificar pelas participações que às Autoridades competentes fizemos.
Com tudo se na procuração que passámos para darmos o mandado juramento pusemos nos artigos 10 e 17 algumas distinções ou declarações, não foi porque ignorássemos o que nestes mesmos artigos é da competência da Soberania temporal; mas sim porque nunca nos parecerá repreensível, antes o termos sempre como muito conforme ao nosso Ministério Espiritual, mostra nossos desejos, e aplicar nossas diligências a benefício de tudo o que pode concorrer para o esplendor, pureza, e manutenção da Religião que professamos, única em que pode haver salvação, aquela que os Soberanos temporais, como filhos mais nobres da Igreja, têm obrigação de observar fielmente, e respeitar com todo o acatamento; aquela mesma que, a exemplo dos primeiros Imperadores Cristãos, e dos Reis que mais se distinguiram em piedade e sólida virtude, devem propagar, por meio de zelosos e caritativos Ministérios, em todos os seus Estados e Domínios. Quem poderá logo razoavelmente repreender ou criminar um procedimento que se funda na Santa Escritura e Tradição constante? Um procedimento justificado com o exemplo de tantos Santos Padres, que tomaram a defesa da Religião na presença dos mesmos Imperadores Gentios? Não se diga também que o nosso espírito se alucinou a este respeito; porque serias reflexões, e maduros conselhos nos têm em tão críticas e extraordinárias circunstâncias até agora acompanhado. Sabemos que no concurso de diversos sentimentos a consciência deve inclinar-se ao mais seguro; e não ignoramos que o mesmo que em muitos casos é lícito a um particular, deixará de ser conveniente ou permitido a um Pastor; podendo no presente caso apoiar-nos a sentença do Apóstolo: Omnia mihi licent, sed non omnia expediunt."
Nesta exposição sucinta do acontecido há muito mais do que era necessário para a justificação do Eminentíssimo Senhor Cardeal Patriarca; mas para maior glória de Sua Eminência, e vergonha eterna dos cobardes que desfalecem e capitulam à vista da tormenta, nas próprias resoluções do Congresso, nas paróquias medidas violentas que ali tomaram sobre este novo e desusado crime, se pode ver claramente que o chamado Réu seria um desertor da Fé se obrasse de outra maneira.

Já era sobejamente conhecido de Sua Eminência o espírito dos regeneradores. O Catecismo de Volney impresso, e divulgado em Lisboa assaz descobriu que grandes proveitos aguardavam a Fé Católica, e a Igreja Lusitana. Era necessário que Sua Eminência estivesse possuído das mais lastimosa cegueira, para que não visse quais seriam os partos da imprensa já solta e desembaraçada, se ainda em quanto preza se arrojava a vomitar os mais refinados venenos de heresia e de incredulidade. Que outro espírito senão o maçónico, e o da mais remota impiedade, foi o dominante nas sessões de 13, 16, e 21 de Fevereiro? Ouvia-se na primeira um Eclesiástico, um súbdito de Sua Eminência, que alardeando de Liberal rompia nesta sentença: "Nós tratamos de estabelecer o livre exercício dos direitos do cidadão, que é homem e cidadão antes de ser religioso; e assim devemos abstrair da Religião." Tratava-se nessa hora de trevas da censura dos livros, e um corifeu dos regeneradores ergue a voz para nos recomendar que se faça abstracção do Cristianismo! E o Cristianismo deverá ficar patente  e descoberto às feridas de centenas de Pedreiros Livres, que andavam já mortos por divulgarem os seus erros? Tudo se remediava, na frase de um Médico assistente no Congresso: "pois a verdade (dizia ele muito contente e senhor de si) é o símbolo da Religião Cristã, e por isso mesmo ela por si só é capaz de destruir todos os erros." Aquecendo-se a disputa, falou ex cathedra pestilentiae o Pseudo-Patriarca, que havia que regular os destinos da Igreja Lusitana! Ainda se levantou um sócio a tachar de ociosa a declaração de que a censura dos livros maus depois de saírem à luz, correrem de mão em mão, e terem feito males irreparáveis, uma vez que esse direito era inauferível do Episcopado, nem era decente que Legisladores Cristãos mostrassem conceder À Igreja o que há muito era seu, e que só lhe poderá ser disputado pelos que exigem os prasmes de Tibério, de Calígula, e de Nero, porque os Apóstolos ferissem legalmente as más doutrinas dos Nicolaitas, dos discípulos de Simão Mago, e de outras Seitas filosóficas do I século; foi tudo perdido, e a por extremo audaz sabença maçónica obteve ser declarada solenemente protectora do Catolicismo!!! (*) Não foi menos curiosa a disputa sobre desassisada, herética, e ímpia exclusão da palavra única entre os mais títulos que se davam no artigo 17 à verdadeira Igreja de Jesus Cristo. Seria preciso não ter a mínima dose de senso comum, e estar cego de todo, para que não se depreendesse neste artigo a maior Liberdade da Constituição "Portuguesa" [aspas nossas], que desta arte fugia do parecer e ditame de seus Mestres, que mais astutos ou manhosos tinham excluído abertamente do território Hespanhol [entenda-se "península Ibérica] toda a crença religiosa, que não fosse o Catolicismo.

Debalde os representantes de uma grande parte da Nação, pois chegaram a vinte e dois, onde é muito singular a falta dos Bispos assistentes no Congresso, protestaram (nota de D. Fr. Fort.: não deixa de ser muito notável, e digno de passar à posterioridade, que nesses mesmos, que protestavam contra a exclusão da palavra única, aparecessem os que depois tacharam de alucinado o Eminentíssimo Cardeal Patriarca!!) que os seu voto era ajuntar-se a palavra única ao artigo 17 das Bases; as malditas Bases, que já vinham preparadas desde a cidade regeneradora, e que já tinham o passe do Grande Oriente Lusitano, sucedesse o que sucedesse, haviam de ir por diante, ainda que fosse necessário alagar em sangue a Capital do Reino.

Eis aqui em suma o que se passou e decidiu no Congresso relativamente aos artigos contestados; e só por estes indícios, ainda que lhe não sobejassem provas a centos e milhares, de quais eram os intentos da cáfila maçónica preponderante no Congresso, deveria ele ter feito o que fez, de que tanta glória resultou para a Igreja Lusitana, assim como foi uma repreensão de quantos deviam seguir e não seguiram o seu exemplo (nota de D. Fr. Fort.: com toda a razão se lastimava o incomparável Arcebispo de Braga D. Fr. Caetano Brandão de que os Bispos actuais não se correspondessem, e tratassem mutuamente dos interesses da Igreja, comunicando uns aos outros tudo o que acorresse de mais difícil na execução dos deveres Episcopais, e ajudando-se alternativamente com suas luzes e conselhos. Porventura que se a Igreja Lusitana guardasse este uso dos tempos antigos, não se veria em tantas perplexidades e ocasiões de maus passos, como esses em que se viu durante o sistema constitucional. É bem triste cousa que divulgando-se na Capital duma Diocese um escrito ímpio, ninguém saísse a campo, e que só à falta de homens aparecessem uns, como eu, a sustentar a causa da verdade, que lucraria muito e brilharia mais, se os seus defensores natos acudissem à guerra, e dirigissem o combate!!)

Já agora convém seguir todos os passos desta assinalada victoria sobre os furores do Maçonismo, para os confortar com a audácia e tirania dos seus perseguidores; que muito boa é a causa que vai arrancar os seus mais frondosos louros às próprias mãos dos seus mais encarniçados inimigos. Eu já o disse, e direi milhões de vezes, que a inabalável constância do Eminentíssimo Senhor Cardeal Patriarca, no que respeita às Bases da Constituição, e o mais que varonil, ou antes sobre humano esforço, que desenvolveu a mui alta e poderosa Rainha a Senhora D. Carlota Joaquina, são os únicos sucessos que, durante a perseguição trienal, podem servir de grande alívio,  e dar muitas e bem fundadas esperanças aos corações Portugueses e Católicos; e visto que para a multidão, a cujo proveito se endereçam privativamente estes Punhais, valeram sempre mais os exemplos que os raciocínios, levarei de tal modo esta discussão, que os Portugueses menos instruídos possam conhecer perfeitamente que as Bases Constitucionais eram péssimas e abomináveis, por isso mesmo que deram causa aos ilegais e arbitrários procedimentos que se usaram com a primeira Dignidade Eclesiástica do Reino.

Verificado solenemente na Igreja de S. Domingos de Lisboa que o Eminentíssimo Cardeal patriarca tinha que opor aos artigos 10 e 17 das Bases, subiu a estranheza maçónica ao maior auge; e meditando só estragos e ruínas, assentou que um desterro era pena insuficiente para castigar o sucessor dos Apóstolos, que pugnava pelos seus mais incontáveis direitos, e pelo voto da maioria da Nação, visto que só era do interesse dos Pedreiros que a Religião Católica não fosse única em Portugal. Há muito que eu invejava à Nação Espanhola o terem possuído neste século de infâmias e de cobardia um D: Pedro de Quevedo e Quintano, Bispo de Orense, que ao jurar a Constituição Espanhola pôs a restrição de salvos os direitos de ElRei Fernando VII; mas ficamos já bem indemnizados nesta parte com o ainda mais heróico procedimento de um Cardeal Português, cujas restrições foram dirigidas a mais alto e mais importante objecto, e foram seguidas de muito mais rigorosas demonstrações da parte dos nossos reformadores. Quem diria poucos meses antes a homens, que se tinham feito Governadores do Reino, e exercitavam um poder que não era seu, que ainda gozariam de tamanha prepotência, que desterrassem um Fidalgo de primeira grandeza, um Príncipe da Igreja, e um Cardeal da Santa Igreja Romana! Se houve coração Português que não estremecesse de tão desmedido arrojo, saiba que degenerou inteiramente, e que nunca mais se deve arrogar um nome que só pertence a homens probos, honrados, e Católicos!! Nunca os fastos da nossa história haviam apresentado um sucesso desta natureza. Ainda que não era coisa estranha que um Cardeal fosse julgado e sentenciado, como pareceu aos sábios do Congresso, pois não era outra coisa D. Miguel da Silva, quando foi desnaturalizado deste Reino pelo Senhor D. João III, ou que os Bispos fossem castigados, como foi o Bispo de Évora D. Garcia de Meneses, e o próprio Bispo Inquisidor Geral D. Francisco de Castro, não apareceu com tudo no extenso período de seiscentos anos um caso assim, revestido de circunstâncias todas notáveis, e todas horrorosas.

Julgastes, infames Pedreiros, no delírio da vossa presunção, que um Patriarca de Lisboa fosse remetido entre grades, como um facinoroso e um réu de lesa Majestade, para o deserto do Buçaco, acharia em todos os lugares do seu trânsito os povos enfurecidos contra ele, e renovando aqueles insultos de que a vossa perversa e assalariada hoste, que se comunha dos novos Marcelheses, fiel às vossas instruções, cobriu nos lugares mais frequentados de Lisboa o então herói e defensor da verdade o Bispo de Olba [?]? Foram errados os vosso juízos; uma perseguição, um desterro padecido em obséquio da verdade faziam a Sua Eminência cada vez mais respeitável; nem ele poderia ser alvo de desprezos e afrontas num Reino Católico. Sua Eminência nunca pareceu tão digno das bênçãos do Céu, e dos aplausos da terra, como no meio desse trem simples, e dessa escolta de soldados que o seguiam. No maior auge do luzimento das funções Pontificais, e no meio de um cotejo o mais pomposo e magnífico podia ele imitar em Lisboa o que se pratica na própria cabeça do Mundo Cristão; porém no seu caminho para o desterro fazia lembrar o Príncipe dos Pastores, que no meio de guardas e soldadesca Romana foi preso e levado ao último suplício. Ainda me não posso lembrar sem estremecimento da opressão, e como espécie de agonia, porque eu tive de passar quando Sua Eminência se demorou em Coimbra, e vi que não me era possível nem ao menos fitar os meus olhos no sembalante de um tão abalizado Confessor da Fé... Espias maçónicas rondavam de noite e de dia em trono da residência do Prelado... Se a espécie de cortejo invisível, que o acompanhava nessa hora, foi imenso, por constar dos Anjos do Céu e de todos os corações amantes da justiça, Religião, e virtude, não se pode dizer outro tanto da rigorosa solidão, em que ele passou os dias até chegar ao santo deserto, que pareceu alegrar-se de mais esta honra, que deve pertencer aos lugares sinalados pelas vitórias do Cristianismo. Enquanto deixamos a vítima resignada com todo o género de sacrifícios, e amadurecendo as suas heróicas resoluções aos pés da Santa Cruz, que se antolha a cada passo debaixo desses silenciosos e copadas arvoredos, onde não chegam os túmulos da vida secular, voltemos, ainda que nos cause horror, a observar o que se exala desses corações, onde não existem a paz e tranquilidade, que sobejam no coração de Sua Eminência, e pasmemos de que o fanatismo da seita maçónica se exalasse de tal maneira, que julgassem fazer-se temíveis, quando apenas se faziam odiosos, e que se persuadissem de que o sistema se arreigava pelos mesmo golpes da autoridade, que já de longe o minavam e destruíam.

(continuação, II parte)

20/01/15

D. MANUEL III E A TERTÚLIA MAÇONICA!!!

A notícia não é nova (11/11/2014), mas divulgo-a, para que se diga "aí", e assim evitar um "ai, ai, ai" futuro!

D. Manuel III, Cardeal Patriarca de Lisboa
(O Sol) - Patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, vai falar sobre o Papa Francisco no Bar do Além, em Alenquer [aí que bem escolhido...], onde se debatem temas esotéricos e que é frequentado por maçons. O promotor do evento é Luís Nandim de Carvalho, que foi grão-mestre da Grande Loja Legal de Portugal (GLLP), de 1996 a 2001.

“O patriarca vem cá no próximo dia 22. Mas o bar é pequeno e por isso as inscrições para o almoço  já estão esgotadas há algum tempo” [veja-se a raridade da atracção], avança ao SOL Nandim de Carvalho, explicando que Manuel Clemente aceitou participar num almoço-debate para analisar a mensagem do Papa. “É uma iniciativa integrada num conjunto de debates sobre religião”, esclarece Nandim de Carvalho, acrescentando que a organização está a cargo de um clube, a Tertúlia do Além, que ele próprio coordena e que funciona uma vez por mês num bar que existe no Parque de Campismo de Alenquer.

“Há 14 anos que esta tertúlia funciona”, adianta, rejeitando a ideia de ser um evento maçónico: “vêm pessoas que nada tem a ver com a maçonaria”, garante, recordando que recentemente os oradores-convidados foram José Ruah [este nada tem que ver com a maçonaria?!...], para debater o judaísmo, nomeadamente as festividades desta religião, e o Coronel João Fernandes, para falar dos Templários. Tanto um como o outro constam da lista de maçons da GLLP: Ruah é da Loja Afonso Domingos e João Fernandes  foi afastado, há cerca de quatro anos, da loja a que pertencia na mesma obediência.

Ao longo dos anos têm sido vários os debates sobre a maçonaria, com a presença de muitos membros desta irmandade e até altos responsáveis, como Pedro Rangel que lidera a  Grande Loja Simbólica Portuguesa, uma obediência recente no país (2008).

Nandim - que há algum tempo se afastou dos trabalhos na loja maçónica a que pertencia -  rejeita, porém, a ideia de o bar ser para maçons. “Aqui debatem-se assuntos espiritualistas e esotéricos. Só não se debate política, economia, futebol e telenovelas”, refere.

Ao todo serão 40 participantes, entre maçons e não maçons, que vão ouvir o líder da Conferência Episcopal Portuguesa. “Muitos ficaram admirados, Mas é muito bom o Patriarca ter aceite participar” - considera um maçon da GLLP que vai participar no evento, que começa com uma palestra do religioso, seguindo-se o almoço. Depois, frisa Nandim, “haverá uma tertúlia entre todos os presentes”."

11/07/14

HISTÓRIA DA FUNDAÇÃO DA REAL BASÍLICA E MOSTEIRO DO SANTÍSSIMO CORAÇÃO DE JESUS DA CIDADE DE LISBOA (XI)

(continuação da X parte)

§ 4.º Neste dia achava edificado defronte, e ao lado direito da Basílica um magnífico edifício de madeira, que havia de servir para toda esta solenidade ricamente ornado, e tudo disposto na melhor ordem, como passamos a mostrar na seguinte planta.

Este edifício constava de vários repartimentos, e casas necessárias para a acomodação de S. Em.ª, e dos mais ministros; e também nele havia um Sacello proporcionado para aí se exporem as Relíquias, e uma vistosa varanda para circularem as procissões. A armação que o adornava era magnífica, como mostra a fiel atestação do Armador da Santa igreja Patriarcal, e é a que se segue:

"Relação de Tudo Que se Armou Para a Sagração da Igreja do Real Mosteiro do Coração de Jesus; e Para a Festividade do Dia 27 de Novembro em Acção de Graças. &.e

Parte 1.ª

A Capela das Relíquias foi toda armada de damasco carmesim, e o tecto guarnecido em roda de veludo, e apainelado com galões de palheta, e as paredes guarnecidas à romana com galões de ouro fino; docel ao altar de lustrina carmesim de ouro. Da parte da Epístola havia a tribuna para S. Majestade e Altezas armada de veludo carmim, e guarnecida de galões de outro fino: a esta se seguiam mais duas para a Família Real, armadas de damasco carmesim com guarnições de ouro fino: as acomodações interiores, e escadas das ditas tribunas tudo ornado de damasco. Da parte do Evangelho se armou o Trono de S. Eminência com docel, e os degraus se cobriram de pano encarnado, e se armou a quadratura dos Ex.mos Senhores Principais com bancos cobertos de pano verde, e os dos Principais do sólio, e os bancos rasos dos Capelães de S. Eminência, tudo conforme o costume da Santa Igreja patriarcal; como também o pavimento até à boca da dita quadratura foi coberto de pano verde, e os degraus do Altar com alcatifa da Índia, e todo o mais pavimento da dita Capela alcatifado. Havia mais na dita Capela uma credência coberta com um pano de veludo carmesim, e uma cadeira de veludo carmesim com dois degraus do dito com guarnições de ouro, que serviu no dia 14 de Novembro de tarde para S. Eminência sigilar as Relíquias, e depois da dita sigilação se tirou do Altar: e para Matinas se puseram dentro na quadratura de cada lado um banco de encosto, e um banco raso todos cobertos de pano verde; os de encosto para os R.os Bend.os da Santa Igreja Patriarcal, e os rasos para os capelães-cantores, que um dos ditos Rd.os Beneficiados que assistiram, capitulou as ditas Matinas, e depois de se acabarem se tiraram logo os ditos bancos.

Em roda da dita capela havia um grande transito; o qual de um lado dava serventia às portas da dita capela, e do outro às casas seguintes, que principiavam da parte do Evangelho.

Planta da Basílica
A casa de paramentos de S. Eminência, que foi armada de damasco carmesim, e guarnecida à romana com galões de ouro fino, e docel de veludo carmesim com guarnições de ouro, ao leito de paramentos, e o dito leito também com pano de veludo carmesim, e o degrau coberto de pano encarnado, e dois bancos de encosto para os Ex.mos Senhores principais, e o pavimento coberto de pano verde.

Seguia-se o camarim da falda, que foi armado de damasco carmesim, e as paredes em roda guarnecidas de galão de ouro fino; e havia no dito camarim uma cadeira de veludo carmesim com guarnições de ouro para S. Eminência, sobre um estrado coberto de pano encarnado, e uma credência com seu pano de veludo carmesim, e o pavimento coberto de pano verde.

A um lado havia uma pequena casa armada de panos de rás: seguia-se a casa da entrada de S. Eminência a qual tinha serventia para a rua, e foi armada de panos de rás, e cortinas nas portas e em roda tinha bancos cobertos de tafetá carmesim.

A casa para os Ex.mos Senhores Principais, que foi armada de panos de rás, e repartida em cubículos separados para cada um dos dt.os Ex.mos Senhores, cujos cubículos foram armados de damasco carmesim, e alcatifados de papagaio, e em cada um dos dt.os havia uma credência coberta de damasco carmesim, e um tamborete também de damasco carmesim: seguia-se a entrada dos ditos Ex.mos Senhores, que foi armada de panos de rás.

A casa para os Ilustríssimos Monsenhores, que foi armada de panos de rás, e cortinas nas portas, e de um lado tinha uma banca coberta de damasco, e de outro um banco também coberto de damasco.

Uma casa que serviu de sacristia, que foi armada de panos de rás, e tinha um lafo uma banca coberta de damasco.

Uma casa para os Reverendos Beneficiados da Santa igreja patriarcal, que foi armada de panos de rás, e tinha a um lado uma banca, e a outro um banco tudo coberto de tafetá carmesim.

Uma para os Revd.os Tesoureiros, que foi armada de panos de rás, com uma banca, e um banco coberto de tafetá carmesim.

Uma casa para os músicos da Capela, que foi armada de panos de rás, com uma banca e um banco coberto.

Havia mais casas separadas para capelães cantores, sacristas, criados, e maceiros, e todas as mais acomodações necessárias, e todas astas eram pintadas de branco, como também os trânsitos, e os tectos de todas as outras casas.

Antes de entrar a porta principal da dita Capela da parte do Evangelho, havia uma saleta armada de panos de rás, e cortinas nas portas, e se seguia a esta a escada, e coberto por onde S. Majestade entrou nos dias 14 e 15, que tudo foi armado de panos de rás.

Em frente da porta principal da dita capela se seguia a varanda, ou galaria que em quadro ia sair em frente das portas principais da igreja, pela qual se conduziu a procissão das relíquias, e era de balaustrada de ambos os lados, e o tecto e pilares armados de damasco carmesim tudo muito bem apainelado, e guarnecido de passamanes, e os envazamentos dos ditos pilares foram cobertos de veludo carmesim, e ornados ambos os lados da dita galeria, com tomado de damasco carmesim guarnecidos de galão de palheta e o pavimento alcatifado de alcatifas da Índia, da parte de fora junto ao tecto de um, e outro lado havia uma alpendrada de guarda sol, que foi coberta de tafetá carmesim, e com uma calha em roda de tafetá amarelo, tudo guarnecido de passamanes.

À entrada do pórtico da igreja havia uma casa de igual grandeza à capela das Relíquias, a qual foi armada do mesmo modo que a dita capela, e da parte da Epístola havia a tribuna de S. majestade, e Altezas, e se seguiam da Família Real, todas armadas com as outras, e ornadas pela parte de fora com cortinas, e cobertores de damasco de ouro carmesim, e as ditas tribunas além da escada que tinham para a dita casa, a qual foi armada de damasco, tinham mais outra para a rua com seu coberto para S. majestade se apear, que tudo foi armado de panos de rás.

Da parte do Evangelho havia o Trono de S. Eminência com docel branco de lustrina de ouro, com sanefas, e sabastos de veludo lavrado carmesim com fundos de ouro, e pano da cadeira de lustrina branca de ouro, e os degraus cobertos de pano encarnado, e a quadratura dos Ex.mos Senhores Principais coberta de panos de rás, e tudo o mais como na capela das relíquias. E junto ao Trono de S. Em.ª à parte de cima havia uma porta que saía para uma galeria que ia fechar em quadro, com a que se seguia em frente da porta principal da capela das relíquias, a qual foi armada, e ornada como a dita.

Havia mais outra galeria que começava junta com o arco da alpendrada da igreja e ia tornejando chegada à parede da parte do Evangelho, até finalizar na porta do palacete, a qual foi armada, e ornada do mesmo modo que as outras, e alcatifada de papagaio. E a alpendrada da igreja foi alcatifada de alcatifas de França.

Na igreja se puseram os doceis próprios que Sua Majestade mandou fazer, e foram os seguintes: Nas capelas do corpo da igreja de damasco de ouro carmesim; na capela do Santíssimo de lustrina carmesim de ouro; na capela mór de damasco de ouro branco rico, todos com guarnições de ouro fino. As tribunas de S. Majestade com sitiais, e panos de encosto próprios de veludo carmesim, com guarnições de de veludo carmesim, com guarnições de galão de palheta de ouro, e a casa das ditas tribunas se armou de panos de rás finos, com uma sanefa de veludo em roda, e cortinas de veludo às portas e janelas, tudo com guarnições de ouro. A casa imediata se armou também de panos de rás finos, com cortinas de guarnição de retroz nas portas e janelas com sanefas de veludo também com guarnição de retroz, e ambas as ditas casas foram alcatifadas com alcatifas da índia, como todas as outras tribunas.

Na Capela Mór da parte do Evangelho se armou o Trono de S. Eminência com espaldar de brocado branco e ouro, com sabastos de veludo lavrado carmesim, com fundos de ouro, e pano da cadeira também de brocado branco /e não teve docel, por impedir a vista da tribuna /, e se armou a quadratura para os Ex.mos Senhores Principais, e tudo o mais como é costume menos o pavimento que se não cobriu, nem se pôs alcatifa no degrau do Altar. No dia 15 enquanto andou a procissão, se armou na capela do Santíssimo o Trono para S. Eminência, para Tercia, com docel branco de lustrina de ouro, com sanefas, e sabastos de veludo lavrado carmesim, com fundos de ouro, e pano da cadeira também branco de lustrina, e quadratura, e tudo o mais como é costume, e pavimento coberto de pano verde e alcatifa nos degraus do Altar. Enquanto se cantou Tercia se cobriu o pavimento da capela-mós com uma alcatifa de França própria da dita capela: no cruzeiro da parte da Epístola havia o coreto para os músicos, o qual foi armado de pabos de rás; no dito dia 15 depois de toda a função se desarmaram as ditas duas quadraturas, e Tronos de S. Eminência, e se pôs a cadeira coberta de veludo para a sigilação das relíquias, que celebou o Ex.mo e Rev.mo Sr. Bispo do Algarve Confessor de Sua Majestade, na capela das relíquias, e se puseram dentro na quadratura da dita capela os dois bancos rasos cobertos de pano verde, um de cada lado para os Capelães Cantores da Santa Igreja patriarcal cantarem Matinas, que foram capituladas por um dos ditos, como as de todos os mais dias, que se cantaram na capela-mor da igreja.

Em dia 16, depois da sagração do Altar do Santíssimo, se alcatifou a capela com uma alcatifa da França, própria da dita capela, e se fez a procissão da trasladação do Santíssimo Sacramento, para a qual se tinha armado a portaria, e lucutório das religiosas. No dito dia de tarde se pôs na capela-mor a credência coberta de veludo carmesim, para a sigilação das relíquias que celebrou o Ex.mo Sr. Arcebispo de Lacedemónia, e se puseram também os dois bancos razos cobertos de pano verde para Matinas, e ficou tudo na ditacapela até ao último dia.

Em 17 depois da sagração dos dois primeiros altares do corpo da igreja, que sagrou o dito Ex.mo Sr. Arcebispo, se alcatifaram os degraus com alcatifas próprias, que logo serviram para a Missa, e á noite depois de Matinas se formou sobre o coreto dos músicos uma tribuna para Sua Majestade e Altezas verem as sagrações dos outros quatro Altares do corpo da igreja, cuja tribuna foi armada por dentro e por fora de damasco de ouro carmesim, e muito bem guarnecida, e se lhe fizeram todas as acomodações que é costume no corredor que fica por detrás das capelas da parte da Epístola, que se armou de damasco carmesim.

No dia 18, depois da sagração dos dois segundos altares que sagrou o Ex.mo Sr. Bispo do Pará Arcebispo Eleito de Braga, se alcatifaram os degraus dos ditos com as alcatifas próprias.

No dia 19, depois da sagração dos dois últimos altares, que sagrou o Ex.mo Sr. Bispo de Pinhel se alcatifaram os degraus dos ditos com alcatifas próprias.

Parte 2.ª

No dia 20 se desarmou a tribuna de S. Majestade que se tinha formado sobre o coreto, e se tornou a pôr o coreto na forma em que estava, e se armou de panos de rás; e tudo o mais ficou armado por ordem de S. majestade até ao dia 27, em que Sua Eminência cantou Missa de Pontifical, e Te Deum laudamus com assistência de S. majestade, e Altezas, e Côrte.

Para esta função serviu de Capela de Tercia, a que tinha servido das relíquias, na qual se pôs ao Altar docel branco de lustrina branca de ouro, e o Trono de S. Eminência também com docel, e pano de cadeira branco de lustrina de ouro, e docel imediato ao dito de veludo carmesim com guarnições de ouro para S. majestade, e para o Sereníssimo Príncipe Nosso Senhor, e cadeiras, pano de genuflecsório, e almofadas também de veludo carmesim com guarnições de ouro; a quadratura, e tudo o mais da mesma forma que serviu no dia 15. E junto à dita quadratura dos Ex.mos Snr.es Principais começava a quadratura da Corte, do modo que é costume nas funções que têm assistência da Côrte. A procissão de Tertia se conduziu para a igreja pela galaria que estava logo ao sair da porta da capela das relíquias, à parte esquerda que ia finalizar junto à alpendrada da igreja, e se taparam os vãos dos arcos da dita alpendrada, e os da dita galaria para reparar o ar, uns de panos de rás, e outros de pano branco, para entrar luz. Na igreja se armou o Trono de S. Emin~encia, como o que serviu no dia 15, e junto a este a este o de Sua Majestade e Altezas com o espaldar de lustrina carmesim de ouro, e cadeiras, pano de geneflessório, e almofadas de damasco de ouro carmesim, e a quadratura da Côrte, do modo que se pratica nas funções que têm assistência da Côrte.

No dia 28 se começou a desarmar tudo o referido. Fernando Antonio Fideie."

(continuação, XII parte)

30/06/14

HISTÓRIA DA FUNDAÇÃO DA REAL BASÍLICA E MOSTEIRO DO SANTÍSSIMO CORAÇÃO DE JESUS DA CIDADE DE LISBOA (X)

(continuação da IX parte)


Capítulo 4º
De Como se Começou a Ordenar a Soleníssima Sagração da Real Basílica.

§1.º Correndo o ano de 1789, e contando-se já nove anos, e vinte dias da imposição da primeira pedra desta Real Basílica; sendo ainda Pontífice o S.to Pe. Pio VI; Patriarca de Lxª D. José Francisco de Mendonça;

D. José Francisco de Mendonça, Cardeal Patriarca de Lisboa
Rainha a Sr.ª D. Maria I; Geral da Ordem o Pe. Me. Fr. António do Nascimento; Priora do Mosteiro D. Teresa de Jesus; Superiora, e Clavaria D. Teresa M.ª José do Coração de Jesus; Sacristã e Clavaria Maria Teresa; Porteira e Clavaria Maria Barbosa; e segunda Porteira Joana Maria, chegou a obra desta basílica à sua última perfeição, e a ponto de poder esta ser sagrada. Mandou logo para esta função S. Majestade aprontar todas as coisas necessárias, e S. Em.ª ordenou, que da Sta. Igreja Patriarcal se transportassem para aqui todas as armações, paramentos, e mais coisas cometentes para se poder fazer a função com a magnificência possível: ordenando igualmente que da mesma Santa igreja viessem os ministros para lhe assistirem e oficiarem não só no dia da dedicação da igreja, mas nos mais dias da sagração dos altares, como ao diante se verá miudamente: e ordenou S. Em.ª com beneplácito de S. Majestade, que esta função tivesse princípio na tarde do dia 14 de Novembro; e ao mesmo tempo concedeu as necessárias faculdades ao Ex.mos Bispos, que haviam de sagrar os altares menores, para o poderem fazer; e em consequência S. majestade mandou escrever a cada um deles pela Secretaria dos Negócios do Reino, avisos da formalidade seguinte:

"Ex.mº. e Rev.mº Sr.: Estando determinada a solenidade da sagração da igreja do convento do S.mº Coração de Jesus no sítio da Estrela, para Domingo 15 do corrente, e devendo nos dias sucessivos proceder-se à sagração dos altares; será do agrado de S. majestade que V. Ex.ª seja quem sagre os dois altares de Sta. Teresa, e de S. José. O que participo a V. Ex.ª para assim o ficar entendendo, e se dispor para esta religiosa solenidade, que deve praticar-se no dia de quarta feira.
Deus guarde a V. Ex.ª. Paço em 10 de Novembro de 1789. José de Seabra da Silva, Senhor Arcebispo Eleito de Braga."

§2.º Sua Em.ª ordenou também, que se fizesse a seguinte intimação solene, na forma que se pratica nas funções extraordinárias; e a mesma é do teor, e forma seguinte:

INTIMATIO. FACIENDA PER CURSORES ETIAM DOMINI DIMISSA COPIA

Die 14 Novembris, hora 3 vespertina, in Sacello prope Regale Monasterium Sanctissimi Cordis jesu, noviter constructo, erit Capella; ubi Eminentissimus, et Reverendissimus Dominus Cardinalis Patriarcha, Reliquias Sancatorum Petri, et Pauli, pro Ecclesia et Altari sequenti die consecrando, solemniter exponet.
Ecellentissimi, et Reverendissimi Principales, ante praefixam intimationis horam, in habitu ordinario illuc venient, et in Aula designata cappas rubeas super vestes ejusdem coloris induent, et ad Aulam paramentorum accedent; ubi expectabunt adventum Eminentissimi Domini Carinalis Patriarchae; quem habito jussu Regio paramentis rubeis indutum, usque ad ostium Sacelli associabunt.
Ibi Ecellentissimus Decanus porriget Eminenciae Suae aspersorium ad aspergendos Fidelissimam Reginam Dominam Nostram, ac Serenissimos Principes; quo facto, Quadraturam ingredientur, et in locis suis orabunt.
Paracta functione, discendent omnes ordine, quo venerant; extra portam Sacelli cum Eminentia Sua se sistent ubi Reginam, et Principes ad Palatium recedentes; debita reverentia, venerentur Inde ad Aulam paramentorum discedent Eminentissimum Dominum Cardinalem patriarcham comitantes; et Illo Sacris Paramentis exuto, et recedente, ipsi, depositis cappis in Aula ad id destinata, in qua eas receperunt, ad propria reddibunt.
Die sequenti mane hora 7 venient ad praedictam Aulam, et ibi cappas rubeas super vestes ejusdem coloris recipient, cum quibus ad Aulam paramentorum accedent, et expectabunt Eminentissimum Dominum Cardinalem patriarcham, quem albis paramentis indutum de more associabunt usque ad ostium Sacelli, ubi facta ut supra Fidelissimae Reginae, et Principibus aspersione, Quadradacturam ingredientur et in lacis suis orabunt.
Post orationem ad obdientiam accedent, qua praestita, alba induent paramenta, suo ordini congruentia, cum mitris, remanetibus interim in assistentia duobus ultimis Excellentissimis Diaconis, dum primi apud suum scamnum in Quadratura induentur.
Excellentissimi Diaconi Principales Eminentiae Suae in Solio assistentes ministrabunt, mitram, quando opus fuerit, auferentes, et imponentes.
Associabunt Eminentiam suam usque ad fortes Ecclesiae, et post aspersionem aquae benedicta in parietibus exterioribus factam; Ecclesiam ingradientur usque ad medium, et in locis suis permanebunt, donec inscriptio Alfabeti Latini perficiatur.
Tuc ibunt cum Eminentia Sua ad Capellam maiorem, ibique in locis suis usque ad Reliquiarum Processione permanebunt.
Post benedictionem Caementi Eminentiam Suam ad Reliquarum Sacellum comitentur: reddibunt processionaliter ad fores Ecclesiae, et post circulum exteriorem ipsius, in locis suis, quousque completa sit Reginae Nostrae adlocutio, permanebunt.
Ingredientur Ecclesiam usque ad maiorem Capellam, ubi usque ad finem Consecrationis existent.
Finita Consecratione, ibunt in Secretarium; et port Tertiam ad Capelam maiorem reddibunt, Eminentissimum Dominum Cardinalem Patriarcham de more comitantes; et ibi tres ultimi Presbyteri osculum pacis recipient, et in locis suis usque ad finem Missae assistent.
Post Missam, depositis paramentis, cappas resument, exceptis tantum tribus Excellentissimis Diaconis, ministrante scilicet, et assistentibus, qui bireta pro mitris accipitent; et sic omnes Eminentiam Suam ad paramentorum Aulam comitentur, et, Eo sacris paramentis exuto, et discedente, depositis cappis, et paramentis, in locis destinatis ad propria reddibunt.
Ideo intimentur Excellentissimi, et Reverendissimi Principales, Nobiles solii, et Capita singulorum Ordinum Illustrissimorum Praelatorum.
De mandato Eminentissimi, et Reverendissimi Domini Carinalis Patriarchae. Josephus Petrus Conçalves, Caeremoniarum Magister."


§ 3.º Era o dia 14 véspera desta sagração, dia de jejum pelo voto feito por ocasião do sempre memorável terremoto de 1755, por ser no dia seguinte a Festa do Patrocínio de Nossa Senhora, Festa impetrada da Sta. Sé por súplica do Senhor Rei D. João V; e também o era por ser este tempo de jejum da Ordem dos Carmelitas Descalços; mas para que as religiosas soubessem a especial obrigação que tinham de jejuar neste dia, por ser o dia da Vigília da Sagração da sua igreja, o Ex.mº Principal Diácono cabeça da Ordem escreveu da parte de S. Em-ª na forma ordenada à Priora do Mosteiro, participando-lhe a obrigação do jejum, para que a comunidade, que se compõe de 21 religiosas, tivesse mais merecimento para com Deus, sabendo que neste dia também jejuava, por ser vigília da Sagração da sua igreja (1) como se vê dos seguintes avisos:

"Ex.mº e Rev.mº Sr: O Eminentíssimo e Rev.mº Sr. Cardeal Patriarca meus Senhor, me ordena que diga a V. Ex.ª, que tendo Sua Majestade destinado o dia de Domingo 15 do corrente para se sagrar a Igreja do Convento do Santíssimo Coração de Jesus; pertence a V. Ex.ª, como Arcidiácono da Santa Igreja de Lisboa fazer anunciar o jejum da vigília da sagração da mesma igreja às comunidades religiosas da Ordem, na forma do costume praticado em semelhantes ocasiões. Deus guarde a V. Ex.ª Junqueira 10 de Novembro de 1789 - Ex.mº e Rev.mº Sr. Principal Rohan. Tomás António Carneiro."
"Il.mª e Ex.mª: O Em.mº e Rev.mº Snr. Cardeal Patriarca, tem determinado sagrar no Domingo 15 de Novembro de 1789 a igreja do seu convento: e conforme o louvável, e antigo costume pelo Pontifical ormano prescrito, devem as pessoas que dizem respeito a todos aqueles templos, que a Deus se dedicam, prepararem-se com jejum eclesiástico no dia antecedente, e como o primeiro Principal Diácono da Sta. igreja de Lisboa me pertence a intimação deste santo preceito, para o cumprir: avizo a V.ª Ex.ª para que juntamente com toda a sua religiosa comunidade o execute, jejuando no dia 14 vigília da consagração da sobredita Igreja. E recomendando-me nas suas fervorosas orações tenha V.ª Ex.ª, e sua comunidade as maiores felicidades, e eu lhe ficarei muito obrigado. Deus guarde a V. Ex.ª muitos anos. Casa em 12 de Novembro de 1789. De V. Ex.ª o maior venerador, e muito seu obrigado, Principal Rohan.


(1)Foi este aviso por um Diácono; por quanto o ofício dos diáconos antigamente consistia em admoestar, e persuadir o Povo ao exercício da sua obrigação pública, e da oração: eles também o exortavam a render as graças a Deus pelos benefícios recebidos: eles eram muitas vezes os delegados dos Bispos para fazerem as suas vezes nos concílios gerais onde votavam em nome dos seus mesmos Bispos: enfim eram eles chamados os olhos, os ouvidos, o braço direito, a boca e o coração do Bispo; e por eles enfim manifestava o bispo ao Povo os seus mandados, e edíctos. (Bingham, Origens Ecclesiásticas, Tomo I de Diaconis)
É mais para notar, que este jejum do Bispo, e Povo se ordena nas vigílias das sagrações das igrejas porque a Igreja sempre se prepara com o jejum para todas as acções grandes: e quer também a Igreja fazer compreender, que pelo trabalho é que se pode chegar à alegria da dedicação dos edifícios espirituais, que se há-de fazer no Céu: com este intento pois é que a Igreja jejua na véspera de todas as solenidades grandes, a fim de que os fiéis se preparem para a celebrar dignamente estas mesmas solenidades, como nos ensina o Catecismo de Montpellier: quem quiser saber o modo por que antigamente se faziam as vigília, e porque hoje se não fazem senão raras vezes, pode ver Cabassucio na
Notícia Ecclesiástica nas notas ao Can. 35 do Concílio Iliberitano.


(continuação, XI parte)

28/09/13

PAPA e PATRIARCA DE LISBOA: MISSALETE PATRIARCAL (IV)

(Continuação da III parte)

Outra das honras que a Igreja dá à Sacrossanta Igreja Patriarcal de Lisboa é o missalete patriarcal. O missalete existia apenas para o serviço dos Papas, desde então passou a ser também para o uso dos Patriarcas de Lisboa. Assim surge a necessidade de os distinguir "missalete papal" e "missalete patriarcal".

E o que é o missalete? É uma edição específica do Missal Romano para cada festa do ano. Evidentemente que isto, depois do Concílio Vaticano II pareceu servir para coisa nenhuma, visto que o calendário litúrgico novo nem sequer coincide com o Calendário Litúrgico Romano propriamente dito e herdado.

A versão patriarcal consta de maravilhosas gravuras em folha de pergaminho.








(a continuar)

18/05/13

NOVO PATRIARCA DE LISBOA - D. MANUEL CLEMENTE

Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente

D. Manuel Clemente (Bispo do Porto) foi elevado Patriarca de Lisboa (Arcebispo de Lisboa), a contar das 11:00 do dia 18 de Maio de 3013 (hoje).

D. José Policarpo, anterior Cardeal Patriarca de Lisboa, estava como resignatário desde 2011, por efeito do pedido feito ao Papa Bento XVI (argumentava ter atingido o limite de idade para o "cargo"). Bento XVI, não satisfez o pedido. O Papa Francisco, com a aceitação, vai contra a regra: os Patriarcas de Lisboa mantêm-se até à morte.

Como sempre foi, o Patriarca de Lisboa é sempre elevado a Cardeal, e esperemos que nisto não haja más surpresas. Contudo, já obriga a uma coisa: continuando vivo o agora Cardeal José Policarpo, esta nomeação faz por ela subir o número de Cardeais em mais um. No próximo Consistório, Portugal contará com 4 Cardeais.

É hoje o dia apropriado de dar uma palavra aos que durante anos acharam que uma "demissão" de D. José Policarpo seria solução para alguma coisa. Tontos... Nem a barbárie republicana vos ensina que as mudanças de cargo não são mais que ganhar tempo... Verei agora as "melhorias" que esperáveis!

Entre todo o bem que desejo ao Patriarca D. Manuel Clemente há o maior dos bens desejáveis: o da conversão. E tenho já um pedido a fazer: que condene a maçonaria e dê total desimpedimento às comunidades que querem apenas a missa de sempre.

"Adivinho" que será um tempo onde os erros se propagarão ainda com mais "fervor"...

Cardeal José Policarpo

29/04/13

HISTÓRIA DA FUNDAÇÃO DA REAL BASÍLICA E MOSTEIRO DO SANTÍSSIMO CORAÇÃO DE JESUS DA CIDADE DE LISBOA (II)

(continuação da I parte)



I. CAPÍTULO
De Como Sua Eminência Fez a Solenidade da Bênção da Cruz e Primeira Pedra Fundamental, que se Lançou Papa a Real Basílica no Dia 24 de Outubro de 1779

"Fernandus de Souza da Silva Primus Principalis Ecclesiae Lisbonensis Lusitanus S. R. E. Presbyter Cardinalis creatus a SSmo D. N. Pio Papa VI in Consistorio secreto die primaJunii An. 1778"

Para se proceder a esta soleníssima acção se armou junto ao novo convento uma famosa igreja de madeira, do mesmo tamanho que estava delineada na planta: o interior desta grande barraca, que tinha da porta principal até ao fundo da Capela Mor 245 palmos, e o Cruzeiro 170 de comprimento; estava ornada de damascos e veludo carmesim, com sanefas pendentes, tudo guarnecido com galões e franjas de ouro; em cada lado da igreja estavam seis grandes janelas de um vidro cada uma, e muitas na Capela Mor, que iluminando aquele grande templo, davam novo esmalte às tapeçarias que o ornavam:por destreza da Capela Mor estava uma grande tribuna riquicimamente guarnecida, repartida em três camarins, e superior ao lugar em que devia pôr-se a primeira pedra: os corredores do convento que se achavam edificados, se cobriram de custosas tapeçarias.

Preparou-se uma casa para paramentos, um camarim de falda para o Eminentíssimo Cardeal Patriarca Fernando, camarins para todos os excelentíssimos Principais, uma sala para os ilustríssimos Monsenhores; todas conforme a sua graduação ricamente armadas, e alcatifadas de pano verde: preparou-se mais o locutório de fora, com escolhidos e custosos ornatos, para ElRey, e o Sereníssimo Príncipe D. José, e três camarins no sítio da portaria para a Corte onde tinham de esperar o Eminentíssimo Senhor Patriarca, que de casa dos paramentos havia de vir em procissão para a bênção da pedra.

Mandou o Eminentíssimo Senhor Patriarca avisar todas as pessoas eclesiásticas que deviam de vir oficiar na função, indicando-lhes os lugares que deviam ocupar, os ministérios que tinham de exercer e a hora em que naquele sítio se deviam achar, e para tudo isto ordenou primeiro Sua Eminência que se fizesse a intimação da formalidade seguinte:

"Intimatio Facienda Per Cursores Etiam Domi
Dimissa Copia.

Dies 24 mesis octobris Eminentissimus, et Reverendissimus Dominus Cardinalis patriarcha hora 9 matutina Pontificalibus Ornamentis indutus, benedict primarium Lapidem, quem a Fidelissimo Rege Nostro delatum imponet in designato fundamento novae Ecclesiae in honorem Sanctissimi Cordis Jesu aedificandae.
Excellentissimi, et Reverendissimi Principalis, ante praedictam intimationis horam, venient habitu sua ordinario in aulas paratas, diversisque cubiculis pro singulis interceptas, in quibus capas rubeas super vestes ejusdem coloris recipient, exceptis Excellentissimis, et Reverendissimis duobos primis Diaconis, qui Amictum Dalmaticam albi coloris, et Mitram accipient quibus omnes induti, ad Aulam paramentorum accedent, ubiexpectabuns adventum Eminentissimi Domini Cardinalis Patriarcha: quem acceptis paramentis, associabunt usque ad Ecclesiam disignatam ibique juxta scamna sua genuflexi versus Crucem in Altaris loco pridie collocatam orabunt.
Post Orationem, nula praestite obedientia, ibidem per totam functionem stantes permanebunt; genuflectentes tantum ad Litanias, ad Flectamus genus aspersione circulari fundamentorum bis repetendum et ad primam strophen Hymni Spiritus Sancti.
Finita fundamentorum aspersione, et Hymono Veni Creator Spiritus cantato cum duplici oratione; duo Excellentissimi et Reverendissimi Diaconi Assistentes Pluviale Eminentia Suaea exuent et ad sacamnu suum recedent ibique paramenta sacra deponent, et predictas capas rubeas accipient, et ad Missam planam ab Eminentia Sua celebrandam cum aliis Excellentissimis Principalibus genuflexi assistent, surgentes tantum ad Evangelia, et ad osculum pacis inter se communicandum receperit.
Eminentissimus Dominus Cardinalis patriarcha quoties in Missa laverit manus, ad eas abstergendas mantile Excellentissimus Decanus ministrabit.
Surgentibus omnibus post Missam, duo primi Excellentissimi Diaconi redibunt ad assistentiam Eminentissimi Domini Patriarchae, quem ante Altare, Casula jam exuctum. Pluviali induent et ad Hymnum Te Deum per ipsum intonatum, stantes omnes assistent, et ad Versum = Te ergo quaesumus genuflectent.
Versus, et Orationibus pro gratiarum actione cantatis, data que solemni benedictione per Eminentissimum Dominum Cardinalem Patriarcham, Indulgentias per ipsum concessas primus Presbyteralis Ordinis Principalis de more prope Altares publicabit.
Deinde Eminentiam Suam ad Cameram paramentorum associabunt, et cappis depositis, ubi eas receperunt, ad propria redibunt.
Ideo intimentur Excellentissimi, et Reverendissimi Principales, et duo primi Nobilis Soli, Illustrissimi quatuor primi Prelati Assistentes, et Sacrista, três primi Subdiaconi, et septem antiquiores Acolythi Patriarchales.
De mandato Eminentissimi, et Reverendissimi Domini Cardinalis Patriarchae.
Joannes Georgius Laurerus Caermoniarum Magister."


No dia 23, estando dois regimentos de Infantaria guardando a igreja, vários piquetes de cavalaria guardando as ruas, e os timbaleiros reais dentro da porta principal, distribuídos por ambos os lados, vieram Suas Magestades e Altezas de Queluz, e se dirigiram à casa dos paramentos, onde estava armado um Altar com sua banqueta de prata, velas acesas, que cobria um rico docel, e encostada ao mesmo altar uma grande Cruz, que o Excelentíssimo Principal Almeida Decano da Santa Igreja Patriarcal, paramentado com Pluvial benzeu com as cerimónias devidas, assistindo Suas Magestades e Altezas num rico troneto, que lhes estava preparado no lado do Evangelho, com sete cadeiras de veludo carmesim e pregaria dourada, e posta depois a Cruz sobre uma alcatifa a adorou e osculou o Excelentíssimo Celebrante e o mesmo fizeram Suas Majestades e Altezas cujo devoto exemplo seguiram os Eclesiásticos, Nobreza e mais Pessoas que ali se achavam estando neste tempo as Pessoas Reais sentadas nas suas respectivas cadeiras.

(continuação, III parte)

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