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25/04/18

O VERDADEIRO 25 de ABRIL

D. Miguel o Absolutista, ou o Tradicionalista
Em 1834, Portugal passou a último reino a ficar ocupado pelo poderio estranho e alheio (usurpador da Cristandade). Segundos os maléficos planos, tudo teria acontecido antes. O inimigo não contara inicialmente com a estratégia da deslocação da Côrte para o Rio de Janeiro, nem depois com a elevação do filho mais novo de D. João VI a legítimo Rei (apoiado pelos portugueses).

A aclamação popular a D. Miguel aconteceu dia 25 de Abril (se bem que, por prudência, D. Miguel quis assegurar-se de mais medidas antes de subir ao Trono).

Ó facada que lhes foi dada! Nunca mais esqueceram. Do lado oposto a alegria dos "absolutistas", "corcundas", e da população em geral (quantas vezes a população clamou ao ver a D. João VI e a D. Miguel: "rei absoluto, rei absoluto", para indicar que não queria a falsa monárquica liberal, ou constitucional). Eis a alegria de Portugal tradicional, o Portugal de sempre.

Certamente, a aclamação não foi totalmente espontânea, mas não forçada, nem arquitectada como em 1974. Segundo os dados históricos, a aclamação terá sido previamente escolhida, e depois iniciada e deixada correr (porque isso bastaria).

Porque foi escolhido o dia 25 de Abril?

Entre os cristãos, os acontecimentos de importância costumam ser agendados em coincidência com as Festas; eis o dia do Apóstolo Evangelista S. Marcos (25 de Abril). Porque não foi escolhido outro dia? Dia 23 é Festa de S. Jorge, a 1 de Maio é a de S. José, a Festa dos Apóstolos S. Tiago e S. Filipe é a ... Dia 25 de Abril é o aniversário natalício da Rainha mais temida, odiada, e caluniada pela maçonaria, a principal responsável pela subida de D. Miguel ao Trono: D. Carlota, sua mãe.

Mãe e filho, corajosos; ela com o conhecimento e maturidade que a ele faltavam ainda.

Não teríamos D. Miguel sem D. Carlota, nem em vida, nem no Trono; nem teria havido frustração e ranger de dentes nas Lojas maçónicas internacionais, que já esfregavam as mãos depois de terem conseguido assassinar D. João VI.

Eis o último pedaço da Cristandade que estava ainda por tomar em definitivo, invadida e usurpada depois pelo "Demonão" [D. Pedro], atrelado aos empréstimos de Mendizabal e Rothschild. Em 1834 Portugal tradicional submerge assim, e junta-se à restante Cristandade no porão.

Depois de 1834 só sobrava a Igreja; o inimigo tratou de centrar-se nela, e preparar-lhe também ocupação futura.

Caros leitores, eis que fazemos um salto neste artigo... e sem mais:

D. António de Castro Mayer, Bispo de Campos (Brasil), que se negava a abdicar de qualquer parte da Fé católica, partiu a 25 de Abril. Foi este um sofrido resistente ao contra-catolicismo que se pretende impor na Igreja, já não de fora, mas de dentro da própria Igreja.


Em Portugal, em 1974, a vitória política maçónica/comunista (enfim... socialista), com a "revolução dos cravos"... (teatro para fazer acreditar que aclamámos a república maçónica, e desejávamos o fim  daquele extraordinário regime que nos mantinha quase que a salvo dela) foi programada para o 25 de Abril... Não há coisa no mundo mais festejada populisticamente pelos serviçais e carreiristas da república-em-Portugal, e mais honestamente alheia à população portuguesa e a Portugal.

É coisa velha substituirmos as festas pagãs e vergonhosas pelas Festas santas e de verdadeira honra. Mas, nunca se viu barbaridade tão engraxada como a destes tempos, em que as Festas e memoriais verdadeiros são ofendidos pela imposição que nos fazem de prestarmos culto aos memoriais da desonra, da mentira, e contra Portugal. Quem ergue em nosso solo estátuas a ladrões, a criminosos libertários, a regicidas, não é estrangeiro nem português... tem que ser conhecido como anti-português.

Nós continuaremos a comemorar o verdadeiro 25 de Abril, em que os portugueses manifestaram-se em verdade e honestidade pela nossa monarquia (visível até 1834), e que é a única nossa verdadeiramente, e contra a corja pedreiral, e contra a "monarquia" constitucional, e pela nossa tradição elevadíssima nos princípios cristãos.

Comemoremos o 25 de Abril verdadeiro, e não queiramos imitações infantis e manhosas (que têm por fim apagar-nos a memória de quem somos, e de quem são os alheios e estranhos que nos desgovernam. 

08/03/17

IMAGEM DE D. MIGUEL

Caros leitores,
 
temos o gosto de apresentar-vos uma "correcção" de certo retrato de D. Miguel. Sim, uma correcção quanto ao que deveria ter sido, e não foi (queira Deus haver disponibilidade para ´publicar uma crítica ao retrato original).
 
Aqui fica o nosso trabalho digital, ainda que inconcluso:
 
D. Miguel, o Tradicionalista

10/02/17

CONTRA-MINA Nº 45: Verdadeiros Interesses da Espanha ... (II)

(continuação da I parte)
 
Ora uma das primeiras necessidades, e por certo o maior interesse das almas generosas, é o de se mostrarem agradecidas aos seus benfeitores, quando estes sofrerem, e quando padecem; quando estão ameaçados de morte, é que mais cresce o empenho, e o desejo de satisfazerem uma dívida, que só é pesada aos corações vis, rasteiros, e degenerados...
 
Fernando I de Leão, o Magno
Temos acudido à Espanha todas as vezes que ela nos chamou, ou careceu do nosso auxílio. Portugueses, (e que Portugueses!) foram grande parte na tomada de Coimbra por Fernando Magno, assistiram à expugnação de Toledo, combateram em Alarcos, apressaram o rendimento de Sevilha, e derrotaram em 1340 um dos maiores Exércitos, que os Mouros puseram em Campo, e que tal medo incutira ao Rei Castelhano, que mandou expressamente a este Reino a Soberana sua Consorte, para que instasse com seu Augusto Pai o Senhor D. Afonso IV, a fim de que os Portugueses o livrassem do apuro, em que se via; e o nosso Poeta, que referindo este caso não desmente um só ápice a verdade histórica, põe na boca dessa aflita, e consternada Rainha as seguintes frases:
 
Por tanto, ó Rei, de quem com apuro medo
O Corrente Mulucha se congela;
Rompe toda a tardança; acude cedo
À miseranda gente de Castela:
Se esse gesto, que mostras claro, e ledo,
De Pai o verdadeiro amor asselha,
Acude, e corre, Pai, que se não corres,
Pode ser que não aches quem socorres.
 
Acudiu efectivamente o Rei Português, e seguiu-se a Victória do Salado. Mas para que é acumular sucessos antigos, de que por tantas vezes me tenho recordado neste Periódico? ... Os modernos têm sido muitos, e bem palpáveis, e sobejam para o caso presente, que por si mesmo demanda, e como exige dos nossos honrados vizinhos a mais estreita reciprocidade; mas caso dado, que a mais bem merecida gratidão fosse posta de parte, e que a Nação Espanhola, o que é incrível, nos desamparasse de todo, instam por outro lado motivos poderosíssimos, e dos quais mais costumam influir no coração humano, quero dizer, os interesses próprios; o que devereis expender um pouco mais largamente. Quem se persuadir, que o intento da Esquadrilha Maçónica é somente empossar-se de Lisboa, e do Reino de Portugal, não só poderá ser arguido de vista curtíssima; porém deverá ser chamado rigorosamente uma toupeira em assuntos, e matérias políticas... A tomada de Lisboa seria simplesmente um acessório, seria simplesmente um degrau, para subirem a coisas maiores. Já em 1820 se fez uma íntima aliança entre os Pedreiros Portugueses, e Castelhanos, e por sinal, que estes mandaram grandes somas, para que se efectuasse a Revolução do Porto em 1820... Desde então que se trata somente de se fazer uma espécie de maciço Liberal, um todo compacto, e unido, e que na Península das Espanhas haja um só Governo, e uma só Influência toda Maçónica, o que traz consigo necessariamente a deposição dos actuais Soberanos... Os Reis Fidelíssimos, e Católicos são estes Soberanos reprovados pela alta, e baixa Maçonaria, o que só de per si era bastante, para lhe conciliar o amor dos seus povos, e todo o empenho, que eles mostram pela segurança dos seus Tronos... Ainda em 1828 persistia a mesma ideia de se revolucionar a Península; e entre os papeis de um dos Generais da Tropa rebelde, se encontraram os mais decisivos argumentos, de que a desentronização dos Reis, fatais para a Maçonaria, isto é, do Senhor D. MIGUEL I, e do Senhor D. Fernando VII é, e nunca deixará de ser o alvo de todas as empresas Maçónicas, que disserem algum respeito à Península das Espanhas... Este segredo político, se ainda houver quem o trate, como tal, já deixou de o ser; e nas próprias Sessões do Parlamento Britânico, foi o Demosthenes Inglês, (hei de conservar-lhe o nome, que lhe deu o mais eloquente dos Portugueses antigos, e modernos) foi Lord Aberdeen, quem disse em voz clara, e inteligível, que o desígnio dos Liberais é fazerem D. Pedro de Alcântara, o ex-Defensor Perpétuo do Brasil, Rei, ou Imperador Constitucional das Espanhas, a quem D. Maria da Glória (acrescento eu) faria em Lisboa a mesma segunda, que o chamado Rei de Roma fazia a seu Pai Napoleão Bonaparte.
 
Daqui se vê, que o primeiro tiro, que a Esquadrilha disparar contra as fortificações, ou torres de Lisboa, deverá forçosamente ressoar até às alturas, até aos próprios cabeços das montanhas, que dividem a Força da Espanha; deverá ser o canhão d'alarme, que chame às armas todos os habitantes da Península, que forem capazes de as cingirem. Não venho a dizer com isto, que os Reinos da Espanha sejam necessariamente engolidos, em ar de almoço, pelos Exércitos Luso-Maçónicos. Dou muito pelos Voluntários Realistas de Espanha, onde não se come gato por lebre; dou muito pela firmeza, com que são mantidas invariavelmente as suas instituições políticas; dou muito pela nobre independência, com que se tem havido tantas vezes, a despeito de intrigas, e ameaças... dou tudo pela execução fiel do Plano "Anti-Maçónico, o mais simples e o mais terrível para a Seita. Metade na forca, e outra metade nula, fora dos Empregos, e sem o mais pequeno influxo, ou mostra de autoridade..". Nesta parte declaro-me absolutamente a favor dos Castelhanos, que ainda metidos entre dois fogos ostentariam as suas forças, e pode ser, que zombassem dos seus mais poderosos inimigos; o que tanto mais se reforça quanto é certo, que no caso imaginado, ou imaginário, que D. Pedro vencesse Portugal, teríamos necessariamente concluída em breves dias uma nova, e muito mais avultada emigração de tudo, quanto fosse verdadeiramente Português; e oferecendo os nossos braços, recursos, e vidas ao Rei Católico, ainda poderíamos tomar uma parte bem activa, e importante na Liberdade da Península.... Desenganem-se de uma vez os Leais Portugueses, e sirva esta ideia, não para lhes inspirar sentimentos de cobardia, e pusilanimidade; mas para lhes designar meramente, o que ainda nos resta nos casos mais infelizes, e desesperados.... Temos em a nossa retaguarda uma grande Nação Católica, e fiel ao nosso Deus, e aos seu Rei, e onde os Negros, ou Malhados nem sequer ousam abrir bico; onde os suspeitos são vigiados de contínuo, são excluídos da mais pequena governança, até nas mais insignificantes aldeias, e longe de porem pé em ramo verde, como fazem tantos, e tantos, que eu conheço em Portugal, nem sequer podem trazer consigo um triste canivete de aparar penas, visto que todas as armas, que toda a força, e autoridade está na mão dos verdadeiros Realistas único modo de quebrar as forças à Maçonaria, que tudo o mais é andar às cegas, ou perfeitamente às escuras, e em perigo contínuo de esmigalhar a cabeça, e perder a vida... Ora no meio de tudo isto não se pode negar, que terrível coisa é um mau vizinho ao pé da porta, e que certamente é do maior interesse para as Espanhas, que o ex-Defensor perpétuo do Brasil não chegue a ser Defensor momentâneo da Cidade de Lisboa... Muito enganada vem, ou quer vir a este Reino, a por muito desejada, Esquadrilha, que em seu próprio nome encerra a mais exacta, e verdadeira definição da sua índole, e dos seus principais intentos.
 
És: Quadrilha de Salteadores, que vens roubar, e por isso te acenam com os tinteiros, e castiçais de prata, em que esperas cavar a tua cobiça... És: quadrilha de Ladrões, que desejas continuar as pavorosas cenas, que se passaram desde 1820 até 1823, cresce-te a água na boca ao lembrarem-te aqueles 4800 réis diários, com que podias regalar-te, e até levantar casa de sobrado!! Comeste por uma vez... e como todos os bons Portugueses sabem optimamente, que és: quadrilha composta de aventureiros de todas as Nações, por isso ardem nos mais vivos desejos de te fazerem uma boa montaria, de que sairás, eu to afianço, bem escarmentada..... Ainda que sejas quadrilha numerosa, de uns 10$ [10.000?] como dizem, para este número sobejaram os chuços dos nossos Paisanos... e neste conflito não imitarás a sorte dos dez mil Gregos comandados por Xenofonte; e não se iluda o teu Comandante Grego com estas paridades Históricas, pois não há de escapar, nem meio; e tais migas aparecerão em nossas praias, que nem as do Campo de Alfarrobeira, que se fizeram do ensanguentado cadáver do malfadado Conde de Abrantes, lhe empatarão as vazas...
 
Desterro 11 de Janeiro de 1832.
 
Fr. Fortunato de S. Boaventura.
 
(Em o Número 44 deste Periódico Pag. 10 linha 32 onde se lê "Pio VIII" leia-se "Pio VII contra os Pedreiros Livres"; e pág. 11 linha 15 onde se lê "defender" leia-se "desfazer".)
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LISBOA
Na Impressão Régia. 1832
Com Licença

27/12/16

RELATOS DE UM FIRME LIBERAL (I)

D. José Mascarenhas Barreto, Marquês da Fronteira e de Alorna, firme liberal, deixou-nos a sua vida por escrito nas "Memórias do Marquês de Fronteira e d'Alorna D. José Trazimundo Mascarenhas Barreto ditadas por ele próprio em 1861". Embora não recomendemos a obra como fonte inquestionável para os assuntos relativos às disputas liberais contra o tradicional Portugal, colocamos aqui trechos interessantes pela ordem exacta do livro. A esta primeira publicação damos o nome de:

Do Assassinato de D. João VI até á Ocupação da Guarda

"O projecto estava decidido para o seguinte mês de Setembro, devendo nós sair de Roma ao fim de Maio. Fomos, porém, surpreendidos por uma notícia que muito nos desarrojou e entristeceu: a morte de ElRei D. João VI. Nem o Embaixador nem nós podíamos imagina quem lhe sucedia, não tendo a menor simpatia por nenhum dos seus filhos, porque o mais velho tinha concorrido para que perdêssemos a melhor das nossas colónias e D. Miguel tinha sido de tal conduta, que nenhum indivíduo que se respeitasse o podia desejar para Rei.

Uma manhã fui chamado repentinamente à Embaixada e encontrei, lavado em lágrimas, Monsenhor Cherebini, antigo Núncio em Lisboa, a quem ElRei muito protegia, e com quem simpatizava, um tal Conde Cabral, nosso compatriota, Conde do Sacro Palácio, que, nessa época, era um gravador ordinário, sem ter onde cair morto, e que, hoje, com o negócio de objectos de belas-artes, tem feito tal fortuna, que o consideram rico em Roma! Era porcionista do bolsinho de ElRei D. João VI e soluçava, fazia uma tal lamúria, que não se podia entender, persuadindo-me eu, pelo que via, que o velho Embaixador tinha morrido. Entretanto, porém, na sua câmara e achando-o deitado, foi ele que me pôs ao facto do triste acontecimento.
 
Nesse dia tínhamos um pontifical na Igreja de Santo António dos Portugueses, celebrado por um antigo Núncio em Lisboa, no tempo de D. Maria I, o velho Cardeal Pacca, então nosso Cardeal protector. Aplicou-se logo a Missa por alma do nosso augusto Monarca. Ainda havia no grande edifício de Santo António dos Portugueses alguns eclesiásticos nossos compatriotas. O Capelão-Mor era um português, e um dos padres, familiar do famoso Bispo de Bragança, Monsenhor Lopes, Camarista do Papa, também ali residia.
 
A Embaixada do Brasil era composta duma maneira um pouco extraordinária, ressentindo-se da juventude do novo Império. O Ministro era Monsenhor Freixo, digno eclesiástico, mas que desconhecia completamente o lugar que ocupava; o Secretário parecia mais um criado de servir do que um diplomata, e nenhum falava senão o português.
 
Apesar de grande indisposição que havia ainda entre os portugueses e os brasileiros, existia o maior acordo entre as Legações Brasileira e Portuguesa, vivendo como compatriotas. Recebeu-se a notícia do nascimento do actual D. Pedro II e o nosso Embaixador prontificou logo a nossa Igreja de Santo António para que o Ministro do Brasil ali fizesse cantar um Te Deum, ao qual assistimos todos.
 
[...]
 
Fomos a S. Pedro encomendar-nos, pela última vez, junto ao túmulo dos Apóstolos e subimos ao Vaticano, para sermos abençoados, também pela última vez, pelo Venerando Papa Leão XII, e , saudosos, nos despedimos de numerosos amigos que nunca mais tornámos a ver. O Embaixador, não esquecendo coisa alguma, deu-nos grande quantidade de cartas de recomendação para os seus muitos amigos nas cidades por que íamos passar. Depois dum excelente e concorrido jantar na nossa Embaixada, seguimos na madrugada seguinte o caminho de Perugia, dirigindo-nos a Paris.
 
Fomos convidados, por equívoco, para um jantar: o General Toledo, que então era Ministro de Espanha, um dos absolutistas mais exaltados que tenho encontrado, entendeu que nós partilhávamos as suas ideias políticas e convidou-nos a jantar. Foi um dos mais agradáveis que tenho tido. Nele encontrámos o poeta Lamartine, que então era Secretário da Legação na Toscana, o Príncipe Paulo de Wurtemberg, com a bela Condessa espanhola que ele acompanhava por toda a parte, e alguns artistas célebres da época, tanto francesa, como italianos. A conversação foi muito animada e o jantar extremamente alegre; todos queriam ouvir Lamartine, mas ele pouco disse de interessante naquele dia. O poeta tinha tido uma grande herança e não falava senão nos bons cavalos que tinha mandado vir de Inglaterra e nas belas equipagens que tinha encomendado.
 
[...]
 
O nosso parente, Marquês de Abrantes, D. José, que ali estava e quem não falámos, porque ele procurou sempre evitar-nos, era considerado como uma vítima expulsa da pátria pelos liberais portugueses. Pobres liberais que, naquela época, partilhavam a mesma sorte do Marquês!

D. António de Meneses, I Marquês de Vila Flor,
I Duque da Terceira
(grande líder liberal - um dos suspeitos do regicídio de
D. João VI)
[...]
 
Em Paris tivemos o agradável encontro dos Condes de Vila Flor. O Conde tinha saído de Portugal depois da morte de ElRei D. João VI, de quem era Camarista, para evitar as intrigas da Rainha Carlota que via com maus olhos os Camaristas de seu marido e, principalmente, o Conde de Vila Flor. [Marechal António Severim de Noronha, que foi depois feito por D. Pedro em nome de D. Maria II 1º Duque da Terceira, e honras de Parente da Casa Real]. 
 
Já em Roma tínhamos sabido da resolução que se tinha tomado em Lisboa de reconhecer o filho mais velho de D. João VI, D. Pedro, como Rei de Portugal, o que muito me maravilhou, por conhecer os indivíduos que rodeavam, nos últimos momentos, ElRei e que continuavam a fazer parte do Conselho de Estado do Ministério da Senhora Infanta D. Izabel Maria, Regente. [Portanto... parece que os liberais estavam bem posicionados e discretos].

Supunha que o Conde de Porto Santo, Ministro dos Negócios Estrangeiros, apesar de ser o tipo da probidade e honradez, antigo Védor da Rainha Carlota e adversário do movimento de 24 de Agosto, seria partidário de D. Miguel, mas enganei-me completamente: era grande legitimista e entendeu que a legitimidade à Coroa de Portugal estava em D. Pedro. [os legitimistas não eram aqueles que estavam por D: Miguel, como hoje se diz muito, mas sim aqueles que assentavam a escolha na questão da legitimidade - tanto existiam legitimistas por D. Pedro como por D. Miguel]

O que nunca percebi foi como o Dique de Cadaval, Conselheiro de Estado, com bastante influência naquela época e miguelista pronunciado, como depois provou, estava tanto de acordo em reconhecer os direitos de D. Pedro, que se apressou a fazer com que a Regente nomeasse seu irmão, o Duque de Lafões, para ir cumprimentar o novo Rei, da parte da nobreza de Portugal. [Esta informação é um tanto estranha..., recomenda-se cautela]

Quando cheguei a Paris, as cartas e informações, que me deram muitos compatriotas que ali estavam, era concordes em que a Regente do Reino e os chefes das diferentes cores políticas esperavam tranquilamente as disposições que ElRei D. Pedro IV daria do Brasil. [Está visto que há uma forma internacional que operou de fora para dentro]
 
O nosso Ministro em Paris era o respeitável ancião Pedro de Mello Breyner, pai do actual Conde de Mello, antigo magistrado, que já tinha exercido uma comissão diplomática em Roma, antes da Revolução de 24 de Agosto, honrado cavalheiro, duma rectidão proverbial como magistrado, mas sem formas nenhumas diplomaticamente, apesar de ter maneiras muito distintas, e falando um francês que com dificuldade se podia compreender. Tinha reputação de professar princípios liberais, mas com dificuldade se sujeitava às condições do Governo Representativo. Havia recebido a educação que recebia a velha aristocracia portuguesa no meado do século passado [séc. XVIII], e toda a sua vida tinha sido Desembargador, duas condições que não podiam concorrer para formar um liberal da nossa época.
 
[...]
 
As minhas instruções para Lisboa eram que esperássemos pelo resultado que viesse do Brasil e a minha demora em Paris tinha por fim esperar também aquele resultado, ou para vir para Portugal, se as circunstâncias o permitissem, ou para mandar ir minha filha e esperá-la em algum dos portos de França.
 
No mês de Agosto fomos surpreendidos com a notícia de que o Sr. D. Pedro tinha outorgado a Carta Constitucional e abdicado em sua filha, a Princesa do Grão-Pará, D. Maria II, e muito mais surpreendido fiquei quando o nosso Ministro, Pedro de Mello Breyner, entrou em minha casa e nos apresentou a Carta Régia, pela qual o Sr. D. Pedro me nomeava Par do Reino hereditário, nomeação que também entregou ao Conde de Vila Flor. [então .... estes já estavam reunidos em Roma e designados para estas coisas....!!!]

[...]

Fomos convidados para, em dia designado, comparecermos na Legação e prestarmos juramento ao novo Rei e ao novo Código. As salas da Legação estavam cheias de compatriotas. Os Condes de Penafiel, Subserra e Vila Flor, Braamcamp, Silvestre Pinheiro e outros muitos, prestámos o solene juramento nas mãos do respeitável Pedro de Mello Breyner e quem nos apresentou os Evangelhos foi o célebre Cavalheiro Alpoim, Secretário de Legação e poeta do Quartel General do General patriota Cabreira, e que, depois, foi um dos mais exaltados miguelistas: jurou connosco e recebeu-nos o solene juramento!

Voltar à pátria era a consequência destes acontecimentos, para todos sustentarmos a Regente na manutenção do augusto Código que nos dava a liberdade.

Os emigrados de 1823 estavam, pela maior parte, em Paris, e os seus chefes José da Silva Carvalhão, Moura e Ferreira Borges ali conviviam connosco, celebrando a nova era que se ia inaugurar na nossa pátria.

A falta de meios, falta que honrava muito estes cavalheiros, retinha-os em Paris, enquanto os não arranjavam para empreender a viagem.

Chegado o mês de Setembro, foi necessário separar-me dos meus amáveis companheiros de Paris. Parti para Londres, os Condes de Vila Flor para a Holanda, e meu cunhado e bom companheiro, José da Câmara, para o Havre de Grâce, na companhia da célebre poetisa, M.me. de Sousa e do, então criança, Conde de Morny, hoje Presidente do Corpo Legislativo. Meu cunhado, depois de estar algumas semanas no Havre, embarcou para Lisboa, e os Condes de Vila Flor, depois duma curta viagem na Holanda, vieram reunir-se connosco em Londres.

[...]

Muitas vezes acompanhei, a cavalo, a mãe do dono da casa, a velha Marquesa de Salisbury, que tão velha era, que a cara e mãos pareciam de cortiça, e morreu queimada no seu quarto, poucos anos depois. O Marquês de Palmela ali me apresentou ao Duque de Wellington e, sabendo que eu servia no Exército, perguntou-me em que regimento e, como lhe disse que era no 4 de Cavalaria, fiquei maravilhado da sua memória porque sabia a história do meu Regimento e os nomes dos Comandantes que tina tido durante a Guerra, como se ele tivesse servido no Corpo.

Quando estávamos em Londres, soubemos que tinha havido, no Algarve e noutros pontos do país, movimentos revolucionários contra a Carta Constitucional, proclamando D. Miguel Rei. No mês de Novembro partimos para Lisboa, embarcando junto à Torre de Londres, no vapor Duque de York, que era o primeiro barco a vapor que fazia a carreira de Lisboa, e tínhamos por nossos companheiros de viagem mais quarenta compatriotas.

[...]

Nunca tinha estado separado, por tanto tempo, do meu bom irmão e foi com grande gosto que o abracei e ao nosso amigo João Evangelista. As notícias que nos deram da família foram excelentes; minha filha esperava-nos com alvoroço. As notícias do país, porém, não eram satisfatórias. Meu irmão tinha recolhido, havia pouco, duma campanha que fizera debaixo das ordens do General Saldanha, no Alentejo e no Algarve, contra os sectários de D. Miguel e preveniu-me logo que os negócios iam de mal a pior e que uma parte da guarnição de Lisboa tinha ordem de marcha, entrando no número dos corpos que deviam marchar Cavalaria 4, a que pertencíamos.

[...]

O gosto que tivemos em tornar a ver a filha, os parentes, os amigos e a pátria, depois duma mudança de Governo, só pode ajuizá-lo quem, como nós, tem passado por estas emoções. Muitas vezes depois, passámos por elas, eu, minha mulher e irmão, em consequência dos nossos princípios liberais, e são os que nada sofreram por aqueles princípios, que nos acusam hoje de reaccionários contra a dinastia e liberdade! Faz dó!

Benfica estava em gala e a nossa entrada na residência dos meus maiores muito nos lisonjeou e afectou. A numerosa família esperava-nos no pátio, juntamente com os bons vizinhos. Os sinos dos nossos antigos amigos dominicanos repicavam e uma quantidade de girandolas de foguetes subiu aos ares. Nas salas esperavam-nos minha Avó, tias e muitos parentes de ambos os sexos, e a Comunidade de S. Domingos, com o seu Prior, o nosso bom Fr. Domingos, e que era composta de antigos amigos do meu Pai, que me tinham visto nascer e a meu irmão e que festejavam com efusão a nossa chegada.

[...]

Saindo de Benfica e entrando na sociedade, que naquela época, era muito animada na capital, fiquei maravilhado da revolução que tinha havido na mesma sociedade e da mudança de opiniões políticas em grande parte da aristocracia. Os fidalgos, que, com tanto entusiasmo, haviam proclamado o absolutismo em 1823, lisonjeavam-se muito com o pariato e parecia que se tinham feito liberais. Chegava a ser um pouco caricato o muito que apreciavam o pariato hereditário, não largando a farda de Par nas mais pequenas soirées e, quando a largavam, vestiam um fraque azul com uns botões imensos, em que estavam gravados o manto de Par e a legenda: Par do Reino. Lembro-me de ter dito a alguns que, para a obra ser completa, faltava o nome do digno Par, o que seria útil, para evitar o trabalho duma apresentação.

Encontrava os mais façanhudos miguelistas de 1828, como o Duque de Cadaval, Marquês de Tancos, Conde de Mesquitela e outros muitos, não largando o honroso uniforme e pregando, de missão, a favor da Carta Constitucional e do novo Monarca.

[...]

A Infanta Regente, com os seus Ministros, tinha diligenciado o mais possível e conseguido que os chefes da revolução de 24 de Agosto não fossem eleitos deputados, já por conselhos do Gabinete inglês, já para evitar apreensões do absoluto e quase despótico Gabinete espanhol, já por ferir a suscetibilidade de muitos dos nossos compatriotas que declaravam que eram absolutistas na presença do movimento de 24 de Agosto e que eram liberais na presença da Carta Constitucional, em consequência da diferente origem da Carta da Revolução de 1820.

[...]

As discussões na Camara dos Pares eram, às vezes, animadas, provocadas pelos progressistas de então, que tinham por chefes os Condes de Linhares, da Taipa e da Ponte, o qual, mudando, depois, de opiniões políticas, foi Ministro Plenipotenciário de D. Miguel em Paris e muito nos atormentou a nós outros, emigrados, e muitos esforços fez para transtornar o bom êxito da Causa da liberdade e legitimidade.

[...]

Como antigo Ajudante do General Sepúlveda e tendo saído de Portugal pelas minhas ideias liberais, tinha a reputação de exaltado e muitos dos dignos Pares e Deputados, e mesmo alguns Ministros, desconfiavam de mim e faziam-me sentir a sua pouca simpatia.

Fui, como devia, beijar a mão a Sua Alteza, a Infanta Regente, e friamente recebido por Sua Alteza e pela sua Côrte. Entendi que não devia ir a Queluz, porque me expunha a ser muito mal recebido por Sua Majestade, a Rainha Carlota, apesar de entender que devia ir beijar a mão à augusta Princesa D. Maria Benedicta, de quem meu Avô e Pai tinha tido a honra de ser Vedores, e a quem toda a minha família deveu grandes distinções. Contudo, achei prudente evitar o Paço de Queluz, e evitei-o.

Ei e minha mulher conservámos as mais íntimas relações com os nossos parentes e companheiros de viagem, os Condes de Vila Flor: diariamente os víamos e havia completo acordo entre as nossas opiniões políticas e as de muitos amigos e parente, para a defesa e sustentação do trono da Rainha, a Senhora Dona Maria II, e da Carta Constitucional.

O Gabinete espanhol protegia decididamente os movimentos revolucionários em Portugal a favor de D. Miguel. Os miguelistas invadiam as nossas fronteiras, faziam as suas correrias, tanto nas províncias do norte como do sul, e, quando perseguidos pelas forças liberais, achavam guarida na Espanha.

Os chefes dos miguelistas eram, no norte, o Marquês de Chaves, com os seus parentes e antigos amigos de 1823; no sul, o velho General Maggessi que entrava em Portugal, quando bem lhe parecia, retirando-se para Espanha, quando era perseguido, e sendo ali bem recebido.

O General da Província do Alentejo era o bravo Visconde de Beire, o qual, oficial de Guerra do Roussillon, com todas as campanhas da Guerra Peninsular, cansado e velho, declarava ao Governo que, apesar da sua boa vontade e da sua fidelidade à Dinastia e à Carta, não tinha forças para exercer a comissão de que estava encarregado.

Fui apresentar-me ao meu Regimento e com gosto vi, apesar da amizade que lhe tinha, que o meu antigo Coronel, o Conde de S. Lourenço, tinha sido desligado, pois que eu pouca confiança tinha nele, quando se tratava de defender a liberdade e a dinastia de D. Pedro. O Corpo era comandado pelo Tenente-Coronel, meu parente e amigo, D. Tomás de Mascarenhas. Pouca alteração achei na oficialidade: conservavam-se quase todos os camaradas que ali tinha deixado três anos antes.

[...]

[carta do General Conde de Vila Flor] "Meu Marquês. O Almirante Quintela, que está interinamente com a pasta da Guerra, veio aqui ontem à noite, depois de tu partires, comunicando-me uma ordem de Sua Alteza, a Regente, para eu substituir o Visconde de Beire no comando das Armas da Província do Alentejo; nomeio-te meu Ajudante de Campo, se tu quiseres, e, nesse caso, mostra a carta ao teu Comandante e fica para marchar comigo amanhã".

Desde este momento, tive a honra de principiar a minha carreira de Ajudante de Campo do bravo General, a quem a Pátria deve a liberdade e a Dinastia o trono, a de partilhar, como ele, todos os perigos e trabalhos, até à Convenção de Évora Monte. Mostrei a carta ao Tenente-Coronel Comandante e, recebendo ordem para me apresentar ao General, assim o fiz logo, tendo grande prazer quando soube por ele que os meus camaradas eram o capitão Mendes, mais tarde Barão do Candal, de quem já tinha sido camarada, como Ajudante do General Sepúlveda, e o meu antigo amigo de infância, camarada do Regimento 4, o alferes D. António José de Mello, hoje Inspetor Geral de Cavalaria.

[...]

O resultado do combate, em forças tão diminutas, faz ver como ele foi renhido. Os dois esquadrões rebeldes foram completamente destroçados, ficando vinte e cinco homens mortos no campo e vinte e nove prisioneiros. Os rebeldes retiraram-se para Espanha, entrando pela Codeceira. A nossa artilharia disparou alguns tiros sobre as colunas inimigas, fazendo-as retirar aceleradamente, algumas em debandada. Nós acamámos junto à Codeceira e, na madrugada seguinte, fizemos um reconhecimento, entrando em Espanha, conde soubemos que Maggessi seguia e estrada da Ponte de Alcântara.

[...]

A Benfica vieram muitos liberais abraçar-me e festejar o primeiro triunfo das armas constitucionais. Quando se tem vinte e três anos, suporta-se todo o cansaço e eu, como não partia naquela noite, fui com minha mulher para o Teatro de S. Carlos, onde tive uma pequena ovação, não por causa da minha pessoa, que pouco importante era, mas pela notícia que tinha trazido.

[...]

Em Abrantes apresentei-me ao General e descobri nele, não uma resolução de se revoltar, mas a decisão de não se comprometer. Não acreditava na estabilidade da dinastia de D. Pedro e da Carta Constitucional, mas não julgava segura a causa de D. Miguel nem bastante forte o Exército miguelista, comandado pelo Marquês de Chaves. Percebi que o seu projecto era esperar o resultado dos acontecimentos. A guarnição eram algumas companhias do Regimento 20 outras do Regimento de Milícias de Tomar.

[...]

Preveniu-me ele de que, ao romper do dia, devíamos marchar sobre a Guarda que estava ocupada pelas forças miguelistas do comando do Visconde de Mollelos. (...)

Mal tinha descansado alguns momentos, os tambores e os clarins anunciavam a marcha. Seguimos sobre o Fundão, Alpedrinha e Covilhã e reunimos todas as forças do General Vila Flor com as do General da Província, João de Lacerda, acampando junto a Belmonte.

O General João de Lacerda e seu irmão eram os únicos parentes do Marquês de Chaves que seguiam a causa da liberdade. Apesar dos seus sentimentos liberais, percebia-se que a sua posição era muito desagradável, porque tinham, do lado contrário, todos os seus parentes e amigos de infância. Declarava-nos francamente que, se conservava o comando, era porque a honra militar assim o exigia.

Servia-lhe de Chefe de Estado Maior o seu parente, Major Afonso Botelho, hoje deputado histórico e progressista e então o liberal mais tíbio e vacilante que encontrei, receando muito um comprometimento sério; percebia-se-lhe a grande vontade de que tudo acabasse em bem para os seus parentes e amigos Silveiras, importando-lhe pouco a causa da liberdade e da dinastia. A indecisão, que o acompanhou sempre, é que fez com que ele não desertasse; mostrava, porém, a sua boa vontade, não querendo só pô-la em execução: queria passar para as fileiras inimigas com alguma importância.

O General Lacerda, seu parente, muito bem percebia as suas intenções, mas pouca importância lhes dava, porque sabia impor-se aos seus subordinados e conservar o espírito de comando.

O Major Afonso Botelho é prova disso, porque foi sempre um bravo soldado.

O General Conde de Vila Flor tinha por Chefe de Estado Maior o Major Pereira Pinto, antigo capitão do Exército de Napoleão, tendo feito as campanhas da Alemanha e da Rússia, distinto oficial e muito instruído; era filho da Beira Baixa e muito conhecedor do nosso país, tendo a sua topografia na cabeça.

[...]

Na véspera do dia de Natal ocupámos a Guarda que estava coberta de neve, como uma cidade da Rússia ou da Polónia. A Guarda tem a reputação de ser a cidade mais fria, não só de Portugal, mas de toda a península hispânica; o frio e a falta de lenha fizeram com que nos conduzíssemos um pouco como em país conquistado, sendo necessário, para nos aquecermos, queimar uma parte das portas das casas onde habitávamos.

Ali fizemos alto, mandando o General colocar os postos avançados sobre as estradas de Almeida e Celorico, e nessa noite tivemos um grande alarme, porque os reverendos cónegos, apesar da posição delicada em que a cidade estava, entenderam que, à hora do costume, os sinos da catedral deviam repicar, anunciando a Missa do galo. Pegámos em armas, porque julgámos que os sinos tocavam a rebate, de acordo com as forças de Mollelos, e que nos queriam surpreender, mas, em lugar dum combate, tivemos uma solene Missa do galo, a que assistimos em grande número.

(a continuar)

29/09/16

BIBLIOTECA ASCENDENS - difusão (X)

(continuação da IX parte)

[requisição gratuita das obras: ver aqui]

656 - História da Vida, Morte, Milagres, Canonização, e Trasladação de Santa Isabel Sexta Rainha de Portugal. ... (D. Fernando Correia Delacerda, Bispo do Porto. Lisboa Ocidental, ano 1735) [Pt. - 490 páginas]

611 - Portugal Antigo e Moderno - Dicionário Geográfico, Estatístico, Corográfico, Heraldíco, Arqueológico, Histórico, Biográfico e Etimológico de Todas as Cidades, Vilas e Freguesias de Portugal, de Grande Número de Aldeias (se estas são notáveis por serem pátria de homens célebres, por batalhas ou outros factos importantes que nelas tiveram lugar por serem serem solares de famílias nobres, ou por monumentos de qualquer natureza, ali existentes), Notícia de Muitas Cidades e Outras Povoações da Lusitânica de que Apenas Restam Vestígios ou Somente a Tradição. (Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal. Lisboa, ano 1874) [Pt. - 510 páginas]

617 - Gabinete Histórico, que A Sua Majestade Fidelíssima, o Senhor Rei D. João VI, no Dia de Seus Felicíssimos anos, 13 de Maio de 1818 - Oferece Fr. Cláudio da Conceição, .... - II Tomo desde 1325 até 1580 (Lisboa, ano 1818) [Pt. - 440 páginas]

618 - Galeria das Ordens Religiosas e Militares, Desde a Mais Remota Antiguidade Até Nossos Dias, adornada com muitas estampas - I Tomo (? .Porto, ano 1843) [Pt. - 580 páginas]

619 - História Anual, Cronologia, e Política do Mundo, e especialmente da Europa, onde se faz memória dos nascimentos, desposórios, e mortes de todos os Imperadores, Reis, Príncipes, e pessoas consideráveis pela sua qualidade, ou empregos; encontros, sítios de Praças, e Batalhas terrestres, e navais; vistas, e jornadas de Principais, Tratados de Aliança, trégua, e paz.... - IX Parte (? .Lisboa Ocidental, ano 1723) [Pt. - 430 páginas]

623 - Guimarães - Apontamentos Para a Sua História - I Volume (Pe. António José Ferreira Caldas. Porto, ano 1881) [Pt. - 400 páginas]

626 - História da Vida, Conquistas, e Religião de Maomé, e do Governo Civil, e Militar do Império Otomano.... (João José Pereira. Lisboa, ano 1791) [Pt. - 390 páginas]

629 - História da Feliz Aclamação do Senhor Rei D. João o Quarto dom uma série cronológica dos Reis de Portugal; ....  (Roque Ferreira Lobo. Lisboa, ano 1803) [Pt. - 390 páginas]

633 - Crónica dos Feitos, Vida, e Morte do Infante Santo D. Fernando que Morreu em Fez ...(Fr. Jerónimo de Ramos. Lisboa Ocidental, 1730) [Pt - 185 páginas de cor]

634 - Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias (Pe. Francisco Alvares. Lisboa, ano 1889) [Pt. - 240 páginas de cor; é uma reedição recente do antigo livro]

638 - Golpe de Vista em que em Compêndio, Mas em Luz Clara, e Brilhante se Propõem as Razões, e Fundamento, que Demonstram, a Ponto de Evidência, a Legitimidade dos Direitos DelRei o Senhor D. Miguel I ao Trono de Portugal, de que se acha de posse para felicidade deste Reino... em 10 de Março de 1829 (? .Lisboa, ano 1829) [Pt. - 20 páginas]

639 - Relação Dos Gloriosos Sucessos, que Conseguiram as Armas DelRei Católico Carlos Terceiro e os mais Aliados desta Coroa, no sítio da Praça de Barcelona, sitiada por terra pelo Duque de Anjou com os exércitos de França, e Castela, e por mar, pelo Conde de Tolosa. Publicada em 9 de Junho de 1706. (? . Lisboa, ano 1706?) [Pt. 16 páginas]

640 - Ao Muito Alto, e Poderoso Senhor D. Miguel I, Rei de Portugal, e dos Algarves, Oferece o seu humilde Vassalo Manuel Correia de Morais, o seguinte Elogio. (Lisboa, ano 1829) [Pt. - 24 páginas]

643 - Oração Fúnebre, que nas Esquias do Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor D. Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho, Bispo de Coimbra, Conde de Arganil, Reformador Reitor da Universidade, Celebradas pela Mocidade Académica Recitou o Dr. Fr. António José da Rocha, Lente da Faculdade de Teologia, a 24 de Maio de 1822 na Igreja Catedral de Coimbra. (Coimbra, ano 1822) [Pt. - 20  páginas]

644 - Essai Sur la Manière Vèridique de Jouer d'un Instrument à Clavier - I Partie (C. P. E. Bach. 2005) [Fr.. - 108 páginas]

648 - Vida de D. João de Castro, Quarto Vice-rei da Índia... (Jacinto Freire de Andrade. Lisboa, ano 1671) [Pt. - 400 páginas]

655 - História das Lutas com os Holandeses no Brasil - Desde 1624 a 1654 ... (Barão do Porto Seguro. Lisboa, ano 1874) [Pt. - 490 páginas]

(continuação, XI parte)

14/09/16

"ABSOLUTISMO" - CONTRIBUTOS PARA O SEU ESTUDO (II)

(continuação da I parte)


2 - Depois do monumental testemunho do Censor e Orador Régio Pe. José Agostinho de Macedo, escutemos o A Aurora Fluminense, 23 de Janeiro de 1829, nº 145, para comparar as ideias e o estilo:


"Depois de haver discorrido sobre o Infante, e seu regime diz [transcrevendo o  republicano e francês Courrier Français]: "O poder sacerdotal se colocou entre os governos, e D. Miguel: D. Miguel é um monstro, mas observa as práticas exteriores do Cristianismo; revoltou-se contra seu Pai, mas obedecia o seu confessor; atraiçoou seu irmão, e o monarca, que o havia acolhido, mas ofereceu candeeiros de prata a não sei, que Imagem célebre na Áustria; enganou os seus súbditos por um juramento derrizorio, mas ia de ajuste com um Bispo; banha-se sem sangue, mas protege os frades; mata os vassalos para lhes confiscar os bens, mas dota os conventos. É portanto o Rei modelo; o Príncipe piedoso, segundo o partido apostólico; o eleito das Sacristias; o ídolo dos beatos. Houve Te Deum pela sua subida ao trono, há bênçãos para cada um dos seus crimes: o reinado de D. Miguel é a Utopia do partido Padre-Realista."" [É esta a imagem horrenda que se fez circular no Brasil (que preferiu encontrar na França revoltosa de então o seu modelo e nova raiz). O tradicionalismo da época, se assim lhe podemos chamar, estava por D. Miguel quem não deixou derramar a nossa Monarquia; aos liberais isto cheirava a "sacristia" e "servilismo".]

3 - Continuando no mesmo número do A Aurora Fluminense:

- "Infeliz Reino [Portugal], tu e a Espanha são, como disse um profundo Político Francês [eu avisei...], vivos documentos do que traz consigo o regime absoluto! Todo o horror, que os Brasileiros têm ao Absolutismo, é ainda pouco; é mister que os nossos Compatriotas aprendam a amar a Liberdade, e a Constituição, tanto, como a própria existência; a serem de uma inabalável firmeza às ameaças e seduções do Despotismo." (pág. 619) [Ora cá está...ter que aprender a odiar o seu passado, os seus antepassados, somente tolerar seus antigos Reis e Príncipes "opressores" e "esclavagistas"... não vá a opressão seduzir os brasileiros, dizem!!! Esta manha, esta facada tão funda nas raízes, este ardil difamatório, esta forma baixa de enganar os brasileiros revolta ouvi-la hoje, séculos depois! Pobre Brasil, levado, seduzido pelas falsas liberdades a custo de difamação e vã esperança! Um falso Brasil a ocupar o verdadeiro, um outro! Escutemos o que segue... insólito...]

- "... um princípio comum produziu na mesma época os mesmos efeitos por essa vastidão do Brasil; este princípio é, como dissemos, o amor da Liberdade, natural nos Brasileiros (embora o Jornal do Comércio nos chame aduladores do Povo) e a educação começada do regime Constitucional, que vai melhorando sensivelmente o carácter da população, aperfeiçoando as ideias confusas de amor de Pátria, e de direitos cívicos que a pressão do absolutismo, e ao depois os choques da anarquia, tinham viciado, ou mesmo feito esquecer." (pág. 741) [É de voltar a ler a anterior, e tornar a esta, como se de um único texto se tratasse... Já que tivemos que permitir a fasquia da seriedade, que tal uma ironia? Cá vai: Hoje o Brasil sentiu a necessidade de se debater pelo debate da "escola sem ideologia"...!!!]

- "Se há esse espírito, atribua-se a culpa aos que governam (se não todos, uma grande parte) que parecem querer minar surdamente o Edifício Constitucional, e excitam suspeitas no Povo, que não quer perder as suas caras Liberdade. Trabalham em vão, porque o absolutismo é planta, que não vinga no nosso solo;" (pág. 767)

- "Diz B. P. que se deve ter mais cautela com o Republicanismo do que com o Despotismo; porque o salto dos nosso sistema para o do Republicanismo é mais breve, mais fácil, e separado apenas por um caminho, que os seus adoradores costumam semear de flores." [Não tinham descoberto que a "monarquia" constitucional, ou liberal, foi a forma de acabar com a monarquia existente!? Nos Reinos mais "absolutos" e menos danificados pela propaganda revolucionária quem teria aguentado a imposição de uma república!? Veja-se como os próprios liberais sabem do pequeno paço que os separa do Republicanismo. Mas... depois destas palavras escritas, é de ler a continuação na frase seguinte escrita pelo mesmo jornalista que tinha dito que a planta do absolutismo nunca poderia vingar no Brasil, porque o Povo não deixa... escutemos:] "Não sabemos se isto é exacto; porém é indubitável, que o salto dos nossos costumes, usos, hábitos, etc. é muito mais breve para o absolutismo, de cujos terros saímos há poucos anos;" [ora cá está quem se apanha mais rápido que um cocho.... arre liberais!!!] (pág. 808)

- "Apesar do que diz a Abelha, nós cremos que os Japoneses não aspiram por agora ao absolutismo puro; porém sim a tornar nulas na prática as Instituições liberais, tolhendo o livre exercício dos direitos cívicos, e fazendo conceber ao Povo falsas ideias contra os que defendem os seus foros e liberdades." (pág. 846) [Tanto receio que estes liberais têm dos "oprimidos" tentarem restaurar a "opressão" sobre si mesmos!!!... De seguida veremos como o uso da palavra "absolutismo" era panaceia contra tudo o que não fosse da sua linha e regime, qualquer um, como até a República.... Para os liberais brasileiros havia que meter medo com o "absolutismo"... eis o único "argumento" da sua incansável e medrosa campanha.]

- "O. Sr. Holanda Cavalcante disse que os absolutistas de hoje eram os mesmos [os próprios] republicanos, descontentes por não haverem saído Deputados." (Pág. 856) [vemos também como NUNCA é refutado ou criticado algum argumento da oposição, e se lhe inventam infantis fundamentos.]

- "; que não houvesse o menor temor de absolutismo, pois o Governo conhecia mui bem seus próprios interesses; que estava certo da impossibilidade de plantar-se no Brasil o Despotismo, até pelo progressivo aumento das luzes do século;" (pág. 899) [Ao contrário do que se dizia, dizem os de agora que os "absolutistas" eram inspirados pelo iluminismo; na verdade o liberalismo, o iluminismo, a maçonaria, estes sim sem dúvida alguma são farinha do mesmo saco; assim os documentos da época o PROVAM. Os maiores vultos da língua portuguesa que se insurgiram contra o iluminismo e a maçonaria, no início do séc. XIX escreveram aceitando a alcunha de "absolutistas", e foram contra o Constitucionalismo, e Liberalismo. Do lado dos liberais, nesta altura, nem um cálamo houve que ousasse ir contra a maçonaria e iluminismo! A maçonaria que se espalhou rapidamente então por todo o Brasil, ela sim é difusora das "luzes" contra a "opressão absolutista"... (são factos registados na documentação da época)! É assim... não de outra forma... está escrito abundantemente em fontes, independentemente da vontade e habilidade dos autores posteriores. O Marquês de Pombal foi o delírio da maçonaria: anti jesuítico, anti inquisitório, importador e cultor das "luzes"]

- "A Espanha e Portugal (disse Depradt) à maneira desses condenados, que se penduram nos caminhos, para correcção, e exemplo dos facinorosos, mostraram hoje à Europa e ao Mundo o que é o regime, que por irrisão intitulam "paternal" [trata-se da restituição da monarquia segundo o tempo anterior às revoluções liberais e republicanas, que foram eclodindo por todo o lado]. Não acumulamos declamações vãs: os factos estão diante dos olhos; e os extracto de um Jornal de D. Miguel não podem ser suspeitos. O Correio do Porto [que na verdade era jornal liberal, não de D. Miguel, sim contra D. Miguel] refere miudamente as últimas execuções, de que a segunda Cidade do Reino foi testemunha, e lhe ajunta reflexões tais, de tão atroz hipocrisia que recusámos copiá-las [os autores liberais fizeram questão de passar esta notícia como verdadeira, mas tudo indica que não o é]. Ali são elevadas às nuvens as virtudes do Rei carrasco [nem os liberais escondem que ao Rei D. Miguel os portugueses louvavam as virtudes e os feitos de bom católico]; a sua piedade, e clemência são oferecidas como modelo aos Príncipes, e a memória das vítimas infelizes é insultada com uma frieza, digna de um Sectário do absolutismo ["sectário" porque nesta altura, em que o mundo Cristão estava já ocupado por falsas monarquias (sistemas liberais), aqueles que resistiam à gigante onda liberal e republicana eram minoria no mundo, da qual foi última por inteiro Portugal - os liberais tomaram o seu sistema como a regra, eles que na verdade eram a "seita"... Faz-me lembrar o caso de Mons. Marcel Lefebvre que por manter fidelidade ao que estava antes do concílio, e ser já parte da minoria, era passou a ser apontado como sectário - absurdos!]. Pareceu-nos ver o hediondo Algoz esbofeteando aqueles mesmos, que acaba de decapitar [veja-se o tipo de honestidade jornalística que até se socorre a um "parece-nos" tão fantasioso na falta de realidades que sustentem o seu intento] . Os destinos do triste Portugal reclamam lágrimas ainda dos corações indiferentes [a necessidade de mostrar Portugal de forma negativa, quando era ele o herói entre os Reinos Católicos na resistência ao Liberalismo e invasões napoleónicas.... E que brasileiros tão distantes geograficamente poderiam vir confirmar ou desmentir estas calúnias naquela época!?]; e também reclamam sisuda reflexão: tal é a sorte, que espera a todos aquele povo, que perder as suas liberdades; que por sua negligência deixar que os absolutistas derrubem as Instituições preciosas, que afiançam os direitos individuais, e políticos, e que formam barreiras contra a opressão [fica claro, não estarmos perante a "liberdade" e o "direito" segundo a nossa Civilização cristã, e sim perante conceitos cozinhados e promovidos pelo eixo iluminismo-liberalismo - veja-se ainda que verdadeiramente os liberais não reconheciam o colectivo de leis régias, o costume, a moral, a lei natural, a Lei divina, a Doutrina, como autoridade segura e mais que decorativa]. De um lado a anarquia da canalha; do outro a vara de ferro dos privilegiados: os homens bons, porém moles, que não defenderam com todo o esforço os seus direitos; derramam ao depois lágrimas inúteis sobre uma pátria escravizada... Não; o Brasil nunca há de dobrar-se ao jugo do poder absoluto [eis finalmente o receio sobre o qual a campanha difamatória está montada]; debalde lho agoiram vis satélites da escravidão [já cá faltava esta...].  Um Príncipe, amigo do povo [D. Pedro I, no Brasil, pois claro!]; afeiçoado às ideias generosas do Século nos é segura garantia; não temos em redor de nós a Aliança de vinte Déspostas, que não sofressem que a liberdade respire em qualquer ponto do Continente Europeu. Os privilégios [referindo-se à Nobreza], e a fradaria [assim tratavam ao Clero maioritário, que era ainda pela Tradição] não imprimem o pé maldito sobre o nosso solo: os Brasileiros, ou aqui nascidos, ou ligados ao país por laços de interesse, de confraternidade, e de sangue, amam a ordem constitucional, e meditam sobre os males da antiga Mãe Pátria, para os removerem do solo que habitam, ou que os viu nascer. - Viva a Constituição!!!   (942 pág) [Está tudo muito claro!]

- "Mas o que há de pior são as suspeitas e temores de absolutismo, que com pouco ou muito fundamento se estão derramando de uma maneira, que aflige os amigos da Constituição e da Monarquia". (pág. 945)

- "O Pharol Paulista refere que circulavam na Cidade e Província de S. Paulo boatos de absolutismo, dizendo-se que se proclamaria do dia 12 de Outubro. O digno Redactor do Pharol se esforça para mostrar quanto é absurdo semelhante rumor, que só pode ter origem nos sonhos, e desejos de alguns malintencionados e farropilhas de todas as classes, que esperam fazer fortuna no meio da anarquia". (pág. 986) [a superficialidade é uma constante na propaganda liberal, raramente apoiada em queixas reais e mais na caricatura: pelo facto dos opositores lhes resistirem às ideologias, entre elas o constitucionalismo, NOVA base de ordem social liberal, difamavam-nos de "anarcas"... como se anarquia tivesse sido característica da "repressiva" Monarquia anterior.]

- "Tem-se-nos escrito diferentes correspondências, relativas a alguns dos agraciados, habitantes nas províncias, expondo que são homens conhecidos, por se haverem oposto com todas as suas forças à nossa independência política, ou por trabalharem abertamente em favor do absolutismo. Não lhes demos publicidade, por que são pessoas, que ninguém aqui conhece." (pág. 1083) [... retiremos das duas transcrições anteriores duas palavras de queixa: "despotismo", "anarquia"! Basta dizer que não se conhece o articulista, para impedi-lo de ter de expor em jornal os erros liberais e as doutrinas tradicionais... Está tudo dito...]

- Rio de Janeiro "A Opinião Constitucional é agora mais firme no Rio de Janeiro do que nunca: temos visto muitas pessoas, em quem os prejuízos haviam deixado profundas impressões, mudarem de pensar, converterem-se sinceramente para a causa liberal, e virem engrossar as fileiras dos amigos da Constituição Monárquica-Representativa [clara indicação de que no Rio de Janeiro havia resistência às hostes liberais - muita atenção à designação "Constituição Monárquica-Representativa"]. Debalde se procura alienar gente desse esquadrão sagrado, despregando contra eles a bandeira da perseguição dissimulada, ou manifesta [como havia força para fazer perseguição se o poder "absolutista" tinha caído!?... é notável que, apesar dos liberais terem imposto o seu novo regime, a resistência tinha permanecido entre a população; eis o motivo da incansável propaganda liberal nada fundamentada, muito emotiva principalmente depois da própria vitória]; debalde lhes apresentam diante dos olhos o exemplo das recompensas, que são a partilha dos que pensam, ou se conduzem em sentido contrário, dos que suspiram pelo regresso do absolutismo, e fazem garbo disso. A causa da liberdade e da razão é muito bela [honestamente, sem razão, com emoção, com falso conceito de "liberdade", e com desprezo pelos critérios maiores como o são o "dever" e a "legitimidade"], para deixar de ganhar a si numerosos afeiçoados, logo que pode ser conhecida, tal qual é". (pág. 1091) [este "tal e qual é" deve ser entendido "tal e qual o liberalismo a difundiu", tanto que é até esta a palavra que dá nome ao liberalismo]

- "Que se desmascarem os traidores! Conheça o Brasil aqueles, que vivendo ou tendo nascido no seu seio, lhe preparam ferros, e os mesmos dias abomináveis, que Portugal, Nápoles, e a Espanha têm presenciado. O que havia de mais instruído, de mais ilustre, de melhor nos dois reinos da península Hispânica, discorrem, sem pátria pelo Universo, perecem de miséria, acabam a vida nas prisões, ou sobre o cadafalso. Depois que as suas Constituições foram derribadas, ainda não houve para esses países um momento de repouso, as conspirações, as sedições se sucedem; os Reis mesmos não têm se não um fantasma de autoridade, que as Juntas Apostólicas efectivamente exercitam. Que se desmascarem os traidores! O Brasil deve conhecê-los; e não é justo que um Povo, que ama as suas liberdades, veja nos mais elevados empregos os declarados sectários do absolutismo acobertarem-se com uma simulada neutralidade, enquanto nos seus discursos não respiram mais do que ódio à Constituição, desprezo pelas suas máximas, rancor a todos quantos a estimam e estão prontos a dar a vida por ela". (pág. 1088) [Traidores? Os liberais propunham um sistema próprio, diferente, contra aqueles a quem chamavam traidores, estes "traidores" quais não faziam mais que proteger o que até então tinha havido (hoje, os semi-liberais querem fazer crer que estes "traidores" tinham teses próprias inovadoras, nascidas no iluminismo; mas, ao vermos a documentação histórica confirmamos algo bem diferente: estes sempre manifestaram interesse em defender o que sempre tinha havido, e nunca propuseram um sistema novo, sempre quiseram proteger o que era de tradição e pureza da Fé, condenaram a maçonaria, condenaram o liberalismo, condenaram o iluminismo, mas defenderam a autoridade do Rei contra as propostas fragmentárias do liberalismo - eis o único motivo pelo qual os revoltosos os chamaram de "absolutistas")! Veja-se também o cenário emotivo, a chantagem, a apresentação que o articulista faz dos "ferros" da escravatura, quando, como sabemos pela história anterior e posterior, foi o liberalismo quem praticou a escravatura no sentido menos católico da palavra. E os factos? Que factos são esses apresentados pelo articulista? Pelas fontes incontestáveis, sabemos que, pelo menos no que respeita a Portugal, os "factos" apresentados não passaram de propaganda liberal, como já se tinha feito na revolução em França, e como se viera a fazer curiosamente na revolução marxista (o fenómeno é semelhante)..., eis o pequeno vício da formação das "lendas negras", que não é mais que a calúnia social para fazer assentar em jornal e em livro!]

- "É finalmente um monstro, digno de erguer o grito do absolutismo, e de estar à frente do partido, que suspira pelos ferros da escravidão." (pág. 1197) [como temos visto, os liberais tentavam apresentar à população um motivo credível pelo qual os "absolutistas" lutassem pelo "absolutismo", e que seria o motivo de quererem recompensas e cargos, ou porque eram liberais descontentes por não lhes terem dado os cargos e benesses almejadas; mas isto é dito depois da vitória liberal, e sem sequer referirem ALGUM  DOS ARGUMENTOS dos "absolutistas". Não há sequer tentativas de refutação, portanto, tudo dos liberais fica mais pela propaganda e encobrimento do ideário "absolutista" grande inimigo da maçonaria (e amigo do Clero e da pureza da Fé - por isso também chamados de "partido apostólico", "frades", etc.). A muitos leitores, que até agora tenham acompanhado, isto fará alguma confusão porque receberam a história por via dos vencedores, a qual, por mais católica que hoje se diga ser, bebeu já a informação predominante naquela época. O texto do artigo refere-se a Joaquim Pinto Madeira, militar condenado à força pelos liberais]

Embora nos restasse uma significativa quantidade de páginas do Aurora Fluminense, as referências ao "absolutismo" que faltam ver estão já metidas naquilo que foram as tentativas do Crato (Brasil): o restauro da Monarquia tradicional do Brasil, por ocasião da abdicação de D. Pedro I; agora não nos interessa continuar a seguir por aqui o uso da palavra "absolutismo".

Haverá talvez jornais brasileiros melhor exemplo que o Aurora Fluminense, e se houver tempo é de ir a eles, noutra ocasião.

Nas suas campanhas os liberais apresentaram como "anarquia", "arbitrário" e "despotismo" a oposição à criação de uma Constituição. Tinham em seu programa que só a defesa da criação de uma Constituição, ou da permanência dela, teria direito a ser interpretada como "querer lei"; eis um dos absurdos da ala liberal: na prática negavam de toda a lei anterior por estar ela fora de uma Constituição (segundo o conceito liberal-republicano), e demitindo toda a autoridade que não fosse democrática, ou quase. Ora, os "absolutistas" nunca em seus escritos se insurgiram contra a existência de lei, facto que deveria ter sido honestamente assumido pela propaganda liberal, mas sim contra a criação de uma Constituição segundo o conceito liberal-republicano. Um dos mais ilustrados "absolutistas" portugueses, o Pe. José Agostinho de Macedo chegou inicialmente a apoiar a criação de uma Constituição até se aperceber de que espécie de coisa se tratava realmente. Não defendeu nunca a não existência de leis, pelo contrário: defendeu que a verdadeira constituição de Portugal está no conjunto de leis e costumes do Reino, segundo a Lei de Deus e da Igreja etc... Tal como este, também todos os portugueses "absolutistas" que escreveram na época defenderam o mesmo, e os posteriores grupos que se quiseram chamar de "tradicionalistas" a si mesmos disseram ter naqueles ilustres primeiros pais os seus Mestres. Sem dúvida alguma, a experiência espanhola foi diferente e grande em números, se bem que qualitativamente seria Portugal a ter de ajudá-la!

(a continuar)

13/07/16

CONTRA-MINA Nº 48: Anti Aurora (b)

(continuação da parte a)

D. Miguel, o Tradicionalista
Tirano, porque tem, e conserva presos nas Cadeias alguns milhares de inocentes!! Só esta palavra é para fazer estalar de riso os bons e leais Portugueses. São uns inocentes, que até dentro das próprias Cadeias têm agravado os seus crimes, o que também é uma das grandes habilidades dos Pedreiros Livres... Qaundo esta turba, não pequena, de Infantistas, Rainhistas, Miguelistas, e Corcundas gemia nos cárceres deste Reino, quem ouviu, que eles insultassem o Governo estabelecido, ou que cantassem o Hino Realista, assim como os inocentes, que por vezes têm desafogado as suas penas, cantando o Hino Constitucional? Quando haja algum inocente, só perguntarei: Como é possível, que na administração da Justiça humana, tratada, e manejada por homens, não escape alguma dissonância da boa ordem, algum extravio das Leis, ou algum espírito de vingança particular, que muitas vezes custa a estremar de outro mais nobre, qual é, o de amor sincero ao Rei, e à Pátria? Se por ventura é lícito, que eu arrisque a minha opinião em tais assuntos, mui alheios do meu estado, e das minhas principais aplicações literárias, direi, que o número dos presos, que a maldade exagera, e as paixões fazem avultar sobremaneira, é o mais escasso possível, se atendermos ao dez vezes maior número de verdadeiros criminosos; e por força da indignação, que me causa o ver tantos Pedreiros Livres exaltados, e remunerados, (pois talvez os piores, e mais activos agentes das nossas calamidades passem mui desempenadamente por essas ruas, desafinando, cada vez mais, a estranheza, e raiva dos seus Concidadãos) eu quisera ver as Cadeias menos povoadas, e mais expedições nos Processos dos réus; pois lá me custa a ver prezo um pobre Alfaiate, ainda que exerça dois ofícios ao mesmo tempo, quero dizer, ode Pedreiro, e o próprio, ao mesmo passo, que um Rosa-Cruz, um Venerável está posto em grandes alturas, sem o mais leve receio da vindicta das Leis.

"Longe dos olhos do Augusto Duque de Bragança esses homens, que cometeram a árdua empresa da Ilha de S. Miguel, depois de rendidas todas as outras dos Açores. Algumas destas ou foram à custa de grandíssimo risco, e em virtude de uma solução denodada, e sem faltar à verdade, impávida, e heróica. Nem um só momento lhes foi duvidosa a vitória, apesar da resistência, que experimentaram. A sua disciplina, e o valor, que é em grande parte efeito dela, tornaram inútil a superioridade numérica, e a vantagem dos Postos do inimigo. Tudo cedeu à intrépida firmeza, inalterável ordem, e assustadora rapidez dos nossos Soldados. E então quais eram os nossos meios? O valor desses Soldados, e as suas armas, e mais nada! Ah! que ingratos poderão jamais esquecer a defesa da Terceira, e a conquista das outras Ilhas?" (Aurora Nº 5, pág. 77)

Não me admirava, que D. Pedro intempestivamente, (para ele, e não para quem tivesse os olhos abertos, e o juízo no seu lugar) intempestivamente esbulhado de um Império, que usurpara a seu Augusto Pai, não se envergonhasse presentemente de fazer o mesmo papel, quando se trata de um Irmão, vínculo menos forte, que o de Pai; mas que os seus valentões queiram usurpar até aos rochedos, os que lhe pertence, é um desaforo intolerável. Enquanto aos defensores da Terceira, há quem ponha embargos a esta ridiculíssima fanfarronada... e são os próprios rochedos da Ilha, que não é muito fizessem malograr uma pequena expedição, quando já em outras eras, e muito menos fortificados, ou guarnecidos de artilharia, do que hoje, fizeram rosto a uma Esquadra numerosa, e comandada por D. Álvaro Bazan, que era o Nelson daqueles tempos. Enquanto às Conquistas das outras Ilhas, é já bem sabido, que não se lhe opôs a devida resistência: e porque não tentaram eles até hoje a conquista de outra Ilha muito mais importante? Porque sem embargo do número considerável de Mações, que a emprestam, eles bem sabem, que o actual Governador não é para graças, nem capaz de esmorecer aos primeiros tiros, ou de capitular, sem ter feito a mais viva resistência, quando não fosse de uma lealdade a toda a prova.

"As Tropas Portuguesas, que hão de achar-se em campo às ordens do Duque de Bragança, (não nos iludimos, nem queremos iludir os nossos Leitores) são tais em valor, em ensino, armamento, e em desejos de assinalar-se, quais porventura nunca houve em Portugal, ainda não exceptuando as que na guerra da Península causaram a admiração dos Aliados, e dos inimigos." (Ibidem pág. 66)

A perícia militar dos bravos Oficiais Portugueses, ou Chefes, ou aventureiros nesta famosa Expedição, a coragem, a valentia das Tropas embarcadas para o efeito de roubarem Portugal ao seu Legítimo Soberano, e o último real, até a própria camisa aos que outra vez aceitarem a infernal Constituição; todas essas prendas, tão altamente recomendadas pela Autora, felizmente se abonam por estrondosos feitos de armas, a que ninguém poderá fazer a mais leve contradição ou pôr a mais pequena dúvida... Louros do Buçaco, de Alb[?], de Victoria, de Arapiles, de Castelo Rodrigo, de Badajoz, de S. Sebastião de Biscaia, e de Tolosa murchai, abatei-vos até ao pó da terra diante dos mais frondosos, que são os da Cruz dos Marouços, e do Marnel... Por estes é que deve ser julgado o Exército Expedicionário, que fervendo em marciais desejos, vem repetir esses, para ele tão honrosos triunfos, nas praias deste Reino!

O passo das Thermópilas não foi melhor guarnecido, nem mais valorosamente defendido pelo Rei de Esparta, do que a Ponte do Vouga por 10.000 homens, onde apareceu, e figurou distintamente a flor dos Caixeiros da formosa rua da Calçada de Coimbra. Esses 10$ [10.000] homens levarão a sua extremosas generosidade a pontos, de que podendo engolir, de um só bocado, esses audazes 200 Caçadores, que os investiram, foi-lhes menos penoso renunciarem de uma vez toda a glória de um sucesso o mais certo, e infalível, do que salpicarem de sangue Português as velhas guardas daquela ponte... E o mais é, que tanta generosidade nunca lhes faltou desde o Marnel até às portas da Galiza; e foi assim, que estes novos, e mais brilhantes Fábios pareceram derrotados, ao passo que já revolviam na alta mente o projecto de fundarem a Nova Monarquia Portuguesa nos rochedos da Ilha Terceira... Defensores da boa Causa estai à letra... esses homens trazem agora outras ideias, e outros planos, e se acaso vos suceder, (como se espera, e não será mui custoso) que todos eles paguem a confiança, eu dobrarei os meus sustos, e cuidados, pois quem sabe, se eles, tendo relações no fundo dos mares, assim como já tem grande número dos seus no mais fundo dos Infernos; irão pedir auxílio a Neptuno, e formar algum vulcão, que nos abrase, e devore!!

"O Príncipe, que fez benefícios a seus súbditos nos poucos dias, que reinou, do que nenhum dos seus Augustos Predecessores." (Ibidem pág. 57)

Que linda frase! que tremendo elogio! E bem tremendo, pois encerra a mais cruel, e virulenta de todas as sátiras... E quem será este Príncipe, que encova os Afonsos, os Joões, e os Manueis, amplificadores da Monarquia Portuguesa? É o próprio, que encetou a carreira dos seus benefícios pelo mais sinalado, que podia fazer-nos, qual foi a separação do Brasil, da mais importante, da mais rica, da melhor das nossas Colónias! E os nossos Historiadores os Barros, os Castanhedas, e Osório a quererem provar, que o Senhor D. Manuel engrandeceu sobre maneira este Reino pela casual, porém ditosa aquisição do Brasil, quando é tudo pelo contrário; pois sendo (no conceito da Aurora) a desmembração do Brasil um grande benefício, deverá seguir-se, que a sua aquisição merecia o nome de injúria, de malefício, ou de opróbrio, e de desdouro para este Reino!! Mas concedamos, que o Aurora tem só em vista o Reinado, que principiou em 1826, aí mesmo se descobre, e patenteia uma série de benefícios tais, e tão estremados, que forçosamente deverá alcunhar-se de Tito Português um Príncipe, que mais empenhado nos sumptuosos funerais da sua Pátria, que nos do seu Augusto Pai, e abafando no heróico peito as mágoas, que devia causar-lhe a notícia da morte, de quem lhe dera o ser, fez, aprovou, e selou em brevíssimo espaço uma Constituição, que abolindo a Lei Fundamental destes Reinos, e promovendo claramente a licença, e devassidão dos costumes, e o despreso, e menoscabo da Santa Religião, que professamos, veio trazer-nos uma enfiada de benefícios, que nunca se poderão riscar da memória dos bons Portugueses! Ah! se em 3 dias de Reinado se lançaram estes fundamentos, ou alicerces de um Edifício todo Maçónico, que seria, se o tal Governo se perpetuasse! A estas horas teríamos já desfrutado tal cópia de benefícios, que hoje, ou teríamos acabado de existir, ou mendigaríamos por terras estranhas o sustento, de que seriam declarados indignos todos aqueles, que não fossem mais escravos, que aprendizes do Mestre Adonirão! Já me custa a guardar o tom irónico, e irrisório, que é o único adaptado, para se combaterem, ou denegrirem as Auroras: e porque a estes casos é, que facit indignatio versum, aí vai o que me lembra, apesar de que certamente é o género de escritura, para que não tenho a mais leve propensão:

I
Antes morte que D. Pedro,
Seja dos bons Portugueses
Leal grito repetido,
Por dia sequer mil vezes.

II
Mais que outras mil bem.digamos
D. MIGUEL Restaurador,
Que nesta empresa mostrou
A seus Lusos fino amor.

III
Este sim é bem-fazejo,
No que excede os Seus passados,
Que não foram como Ele
À vingança provocados.

IV
Disse a Fábula, que os Ceus
Um Atlante sustentava,
E que a máquina terrestre
Em seus ombros escançava:

V
MIGUEL é mais do que Atlante,
E o é na realidade;
É mór, que o peso da terra,
Todo o peso da maldade.

VI
Por mais que ela seus enganos,
Seus cofres tenha exaurido,
Tudo enrosta, vence tudo
Um Rei dos Ceus protegido.

Já que a Aurora no fim do 5º Nº repete somente os pontos Cardeais da sua acusação, nestes devo eu insistir um pouco em abono da realidade dos factos, para que os bons Portugueses vejam, o que são de impudentes, e desaforados a nosso respeito, os mentirosos Parisienses, e Londrinos.

"Empréstimo à Argélia." (Ib pág. 79)

Com que foram empréstimos à Argélia os do tempo dos Franceses intrusos em Portugal, e os dos Constitucionais, ainda mais intrusos, mais despóticos, e mais danoso para este Reino? Mas então corriam outros ares. Promovia-se nestes empréstimos, que só nominalmente se chamaram forçados, o grande interesse da Maçonaria Portuguesa; e quando é este o alvo, desaparece a mínima sombra de coacção, e violência. Haverá quem me dispute, que os Pedreiros Livres tivessem parte na invasão dos Franceses em Portugal, e muito bem sei, que o tão erudito, como honrado, e leal Escritor da História geral daquela Invasão tem padecido muito, e muito por outra igual asserção, e que desde que publicou a sua Obra, logo se acendeu o raio Maçónico, que ainda hoje o ameaça; porém eu, que mais quisera as suas desgraças merecidas pelo caminho da honra, e amor singelo à verdade, do que as grandes alturas, a que outros chegam pelo fácil, mas ingnominoso pau de dois bicos, afirmo, e torno a afirmar, que os Pedreiros Livres da Capital, e das Províncias deste Reino, exultaram com a chegada dos Franceses a Lisboa; e que não é necessário ter notícia da espera em Sacavém, para decidir este ponto, de maneira que fique posto em toda a luz; nem obstam as celebérrimas Actas de um certo Senado Conservador de Lisboa, que se excogitraram, para salvamento da Maçonaria Portuguesa, e nas quais é tão palpável a audácia dos Pedreiros Livres, como a simplicidade, boa fé, e completa ilusão de certos Portugueses, não Pedreiros, que assinaram aquelas extraordinárias, e ridículas Actas....

Tornando ao Empréstimo Argelino: Muito bem fizera o impostor Aurora, se notasse, que parece ter sido feito, não a Portugueses, que por honra, e por interesse próprio deveriam sacrificar nas aras do Reino até o último Cruzado novo, que possuíssem, mas determinado aos Argelinos brutos, e indómitos, ainda que estes próprios, a meu ver, seriam mais prontos em acudir à voz do seu Dey, se lhes mandasse fazer entrega de todo o seu dinheiro, do que tem disso alguns em pagar as quantias, que lhes foram assinadas: e talvez esses próprios, que se enriqueceram à custa do Estado... Não ignoro, onde se oculta, e onde se enrosca a Serpente Maçónica. Muito lhes agradava a imposição de novos, e pesadíssimos tributos ao Povo, que desta arte ficaria intacta uma grandiosa reserva, que auxiliaria os Planos Constitucionais, e por outra parte esfolada, e conseguintemente desgostosa a porção mais fiel dos Portugueses....

Falharam na empresa, saiu-lhes o caso diferente, do que eles queriam, e por isso lhes parece Argelino um empréstimo, que lhes pareceria necessário e indispensável, e até Divino, se algum Rei Pedriro Livre o tivesse decretado, para reforço da Caixa geral da Sociedade. Muito precisavam certos Argelinos, que aferrolham de mostrar um peito de ferro às Soberanas Ordens de seu Legítimo Soberano, e aos dolorosos ais, e gemidos de sua Pátria, muito precisavam, digo, de um Rei Argelino, que depois de os chamar aos seus deveres, os fizesse trabalhar nas Obras públicas, e descer à classe donde nunca deveriam ter saído... e aos mais, que não faltará entre os meus leitores quem diga, que esse Rei, longe de se chamar Argelino, se deveria chamar Justiçoso. Falta-me agora o tempo necessário para responder a esta objecção, porque os novos destemperos do meu Amigo Aurora me chamam para outra parte.

"Armamento geral violentíssimo." (Ibidem)

Ceptro de 1828, com a "Carta Constitucional"!
Não consta, que houvesse em Portugal outro menos violento. Fazer guerra aos Pedreiros Livres é o emprego mais honroso, e mais agradável, que podem ter as Classes deste Reino sujeitas ao Recrutamento. Províncias temos, em que até as mulheres choravam de pena, e de raiva, por lhes não ser permitido ter parte nesta verdadeira Cruzada contra os inimigos da Fé. Nunca as Mães, e as Esposas mais facilmente conseguiram separar-se dos Filhos, e dos Maridos, do que nas presentes circunstâncias, em que de olhos enxutos os viram sair para uma guerra tanto sua, como dos próprio Soberano, que era obrigado a fazê-la. Todo o [Reino] está em armas, e todo o Reino deseja o momento de se abrirem as hostilidades. O certo é, que no pronto de baquear a Menina, ou a Constituição de 1822, foi geral o armamento, e se compeliu muita gente a vestir a farda Cívica, de que nem o próprio Soberano foi dispensado; mas então era tudo suavíssimo, e até deveria perpetuar-se em alguma Coluna de gesso a Memória do armamento suavíssimo, para o que bastava o fazer-se em pró do Sistema Constitucional, que deixou entre nós as mais vivas, e saudosas memórias da brandura, e suavidade, que sempre o acompanha; e por sinal, que os nossos cárceres, e segredos estiveram nesse tempo às moscas, e nenhum Soldado levou sequer uma chibatada, nenhum proprietário foi, nem ainda levemente inquietado: enfim tudo era uma renovação das delícias do Paraíso de Éden, e do estado da Inocência.

"Marchas de Milicianos de Trás-os-Montes para as castas da Estremadura." (Ibidem.)

Ai que rica, e abundante Mina se me depara nestas frases......

Porém isto não vai a matar, fique para o Nº seguinte.

Desterro 28 de Janeiro de 1832.

Fr. Fortunato de S. Boaventura.

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LISBOA, NA IMPRESSÃO RÉGIA. 1832. Com licença.

08/07/16

CONTRA-MINA Nº 48: Anti Aurora (a)

CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,

por

Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.

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Nº 48
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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Anti Aurora

Houve  tempo, com que os E[?] do Grande Oriente de Lisboa me regalavam de preciosos mimos, como eram sem dúvida os Papeis incendiários contra este Reino, e o seu Príncipe, que em tanta profusão, e só para benefício da estampa, há feito gemer, há três anos a esta parte, os prelos de Londres, e Paris. Um dos tais Papeis chamava-se Palinuro, que me pareceu digno de levar uma tunda. Assim o fiz, para dissipar as névoas, de que ele podia cercar o entendimento de alguns Leitores, tendo-se-me seguido a mais dolorosa de todas as perdas. Nunca mais fui brindado com os ditos Papelinhos; nem Palinuros, nem Pilotos, nem Chavecos me tornaram a aparecer, ficando eu assim como o espargo no monte, e sem aquela consolação, que sempre me trazia a leitura de uns Papeis, tão fáceis de analisar, e combater. Já eu tinha perdido quase de todo as esperanças de haver à mão os meus encantos, os meus caros Papelinhos da Fábrica já Parisiense, já Londrina, que além de outros bens me faziam o de instruir-me dos gigantescos progressos da Literatura Constitucional, a que os Medrões, e os Girões do Ex-Soberano Congresso deram o impulso mais forte, quando imprevistamente me luziu certa Aurora, não aquela, que costuma abrir com os seus dedos de rosa as portas do Oriente; porém outra mais baixa, que foi trazida num barco de vapor, e que muito lhe convinha, por ser um agregado informe de vapores, e miasmas revolucionários, tendentes a seduzir, e perverter a Nação Portuguesa, e nomeadamente os Chefes, e Soldados, que se empenham na Justa, e Santa defesa do Trono, e do Altar; e que vista a qualidade dos agentes autorizados, e invulneráveis, que se incumbiram de a espalhar, talvez cause gravíssimos danos em uma, ou outra cabeça oca, e das que vulgarmente se chamam cabeças de minhocas: e já que estas luzes Maçónicas devem apagar-se a todo o custo, onde quer que despertem, julguei acertado opor as luzes verdadeiras, que são as do raciocínio, e da experiência, aos fogos fatuos, que de contínuo, porto que badaladamente, emprega a Seita Maçónica, que até moribunda, e ao ponto de exalar o último suspiro, fingirá, mentirá, e caluniará, por ser esta a sua índole, que o berço lhe deu, e que somente a sepultura lhe roubara, ou destruirá completamente.

Aurora! Que formoso título! Que bem achado nas presentes circunstâncias! Quase dá a entender, que é precursora do nascer do Sol, quando somente o é de um Eclipse total da honra, da fama, e da legislação, da felicidade, e da antiga Crença dos Portugueses, que felizmente abriram os olhos por uma vez, para conhecerem o que é o Sistema Constitucional, e os seus péssimos resultados. E haverá ainda quem se esmere, e quem se canse, e forceje por mostrar, que o tal Sistema, já por duas vezes prostigando, e expulso com infâmia, mudou a pele, e vem agora feito um Satarrão, para nos edificar, e instruir com os seus bons exemplos, e doutrinas...

Tirano o Senhor D. MIGUEL I!! E de mais a mais insaciável de sangue! É certamente a mais atroz de quantas imputações falsas, e caluniosas se tem excogitado, para fazer odioso um Príncipe, que se fosse justiceiro, como D. Pedro, chamado o Cru, já teriam caído, pelo menos, 40$ [40 mil?] cabeças de traidores... É desnecessário todavia procurar, ou insistir nestes exemplos de Justiça, a que outros chamam crueza; bastaria que hoje reinasse D. João I, para terem caído, pelo menos, 20$ cabeças; que se reinasse D. João II, que não era parenteiro, e que não perdoava nem a Duques, nem a Bispos, quando os achava traidores, já não apareceriam neste Reino os mais pequenos restos da Maçonaria, que o tem flagelado, e reduzido à última decadência Moral, e Política... Levanta-se um Regimento infame, desenrola as Bandeiras da Sedição, e assassina de passagem os Cidadãos tranquilos, e que nem presumiram a cruel sorte, que os aguardava... Que Rei da Europa deixaria os seus membros? Fizesse um Regimento da Prússia, ou da Rússia uma galantaria destas, e eu prometo, que nenhum escaparia, ou de ser fuzilado, ou de ser enterrado na Sibéria, castigo talvez superior ao da morte.

Tirano, a quem já perdoou a um Réu convencido do mais punível, e horroroso dos crimes políticos que só esperava algumas horas de vida... que já tinha entrado no Oratório, que pode ser que já estivesse vestido de alva, para caminhar ao suplício!! Tirano, quem no primeiro impulso de coibir os excessos de uma Revolução, que por bem pouco não arruinou para sempre a Monarquia Portuguesa, não duvidou contentar-se apenas com o suplício de dez criminosos... Quando talvez fosse necessário castigar, pelo menos 500 pela então rigorosa necessidade de dar um exemplo terrível; e que sem um ou mais deste jaez, aumenta-se o número dos criminosos, e periga consideravelmente o repouso, e a prosperidade dos inocentes... São impreteríveis as sagradas máximas da justiça; quando se absolvem os maus, castigam-se os bons; porque aqueles tornam ao vómito, e aguilhoados pela impunidade abalançam-se a cometer novos, e cada vez mais atrozes crimes; e estes, quero dizer, os bons são forçados a viver em contínuo sobressalto, a guardarem-se continuamente de ciladas, e perigos, e a esmorecerem... no seu amor à Pátria, pois vêm declaradas à face do mundo as suas verídicas asserções, e inconstatáveis depoimentos, o que os põe na dura necessidade de se esquivarem, quanto neles seja, a comparecerem diante dos Juízes, e a contibuírem para o bem da Monarquia, por ser um acto não só inútil, porém danoso, e prejudicialíssimo...

Universidade de Coimbra
Acaso deverá ele chamar-se tirano, porque tem castigado severamente os assassinos de Condeixa? E poderia ele haver-se de outra maneira? Perdoar a semelhantes facinorosos, vinha a ser o mesmo, que dar por acabado o exercício da Justiça, e desterrá-la para sempre da Monarquia Portuguesa. Mil vidas, que tivessem aqueles parricidas seriam uma fraca expiação do seu crime, que foi o primeiro desta classe, que se perpetuou neste Reino, e que somente os Reinos empestados da Maçonaria pode ter lugar... O estudante Sand, assassino de Notsebue não corre parelhas com os Estudantes Pedreiros de Coimbra: aquele desfez-se de um Escritor, que impugnava a Seita, estes desfizeram-se de seus Mestres, sem haver a mais pequena antecedência de ódio, ou má vontade. Decretou a Seita, que fossem mortos, nada mais foi preciso: a obediência cega os levou a cometer o parricídio, que até o propriamente dito eles cometeriam, se a própria Seita lho determinasse; o que é tão certo, que não faltam receios, ou suspeitas, de que um filho sabedor da morte, que havia de infligir.se a seu Pai, teve a constância de guardar segredo, de o ver partir com olhos enxutos, e talvez de receber com a mesma frieza os primeiros anúncios da sua morte!

Porém estes mancebos eram de grandes esperanças para a Seita... Neste primeiro lance de obediência mostraram claramente, que seriam outros tantos Brutos, e Cássios.... e como os interesses da Seita são os que devem regular o mundo, é claro, que foi um tirano, quem não deixou crescer à vontade estas plantas venenosas, e veio atalhar por este modo os progressos da Maçonaria "Lusitana"...

(continuação, parte b)

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