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04/10/12

ALGUMAS MEMÓRIAS DA CAPELA REAL DO PAÇO DA RIBEIRA (II)

D. João III
 “Quanto à Capela Real, não afroxou el-Rei D. João III na devoção paterna, e obteve do Santo Padre Adriano VI, que por Breve de 22 de Maio de 1522 lhe concedesse o resar-se lá, todos os sábados da Mãe de Deus, e nas terças feiras de S. Miguel, Oficio e Missa solene, eceptuados os dias em que houvesse festa duplex, pois nesse caso se celebraria o Ofício no dia imediato.

Há um pormenor, que mostra o apuro do luxo artístico-religioso em que então se vivia cá: el-Rei D. João encomendou a Francisco de Holanda (nada menos) o desenho para as Hóstias que se usavam em todos os mosteiros de Portugal; desenho que depois foi gravado num cunho por um tal Frei Lopo (outro nome para os anais da nossa gravura).

Era mestre da Capela Real em 1551 Francisco Rodrigues; chantres Manuel Cardoso e António Fernandes, todos capelães e cantores. No tempo de Bluteau chamava-se por antonomásia “Bispo cortesão” ao prelado do título in partibus, que presidia ao coro e aos pontificais na Capela Real.

Que nesta casa eclesiástica se conservou sempre muito esplendor, prova-o a menção que certo autor nos faz de “toda a Capela del-Rei, com suas charamelas e trombetas, que de quando em quando tocavam alguns motetes, e cantavam salmos e hinos” na festa do Corpo de Deus em 1557.

À Capela Real em dias del-Rei D. João III refere-se um caso lastimoso, em cuja descrição será melhor não nos determos: o desacato cometido por um fanático herege, inglês de nação, contra a Hóstia Consagrada, no próprio momento em que o Padre Julião Soares, Capelão do Paço, a erguia entre as suas veneráveis mãos. Não se deu o triste facto na capela, mas sim numa sala, onde o Rei, como muitas outras vezes, desejou assistir aos santo Sacrifício. Foi isto um Domingo 11 de Dezembro de 1552, logo depois de celebrados os desposórios dos Príncipes (D. Manuel de Meneses – Chron. De D. Sebastião, cap, V).

A esse desacato infame, seguiu-se, terrível castigo: o perverso foi queimado vivo no terreiro do paço, em frente das janelas do palácio, assistindo toda Lisboa.

No oratório particular do paço da Ribeira celebrou-se, em 27 de Janeiro de 1554, o cerimonial do batizado do pequenino Príncipe que veio a ser o Rei. D. Sebastião. Foram padrinhos el-Rei D. João III avô do neófito, e o Infante D. Luís, e madrinha a Rainha D. Catarina, Foi o menino levado à Pia pela Camareira mor D. Joana d’Eça, e lançou-lhe as águas lustrais o Cardeal D. Henrique.

ALGUMAS MEMÓRIAS DA CAPELA REAL DO PAÇO DA RIBEIRA (I)

 “Visto, pois, faltarem cicerones coevos e autênticos, que nos descrevam o palácio da Ribeira, os seus salões, os seus eirados, os seus jardins, o seu estilo arquitetónico, a sua planta, a sua sumptuosa mobília, estudarei agora, como puder e souber, uma das melhores joias da casa: a Capela.

Já no outro livro (Lisboa antiga, II parte, tomo III), a propósito do paço da Alcáçova, esmiucei a fundação dela, e as suas várias vicissitudes até ao séc. XVI. Aqui direi que, transferindo el-Rei D. Manuel a sua residência para este novo paço à beira-mar, para ele transferiu com todas as suas antigas prerogativas as Capela Real, mudando-lhe contudo o orago, que será S. Miguel, e ficou sendo. S. Tomé, o padroeiro da Índia; intenção oculta do augusto Fundador.

Na segunda das visitas de Braunio, observo a capela indicada sob. O nº 119.

Consultado o já ouvido Padre Sande, responder-nos-á que o palácio “tem de mais uma capela, com numerosas colegiadas composta de respeitabilíssimos Eclesiásticos, presididos quase sempre por um Bispo. Fazem.se ali os divinos ofícios, com tal ordem, tão excelente e variada música, vocal e instrumental que mais se lhe pode chamar uma catedral, que não uma capela.”

Neste templo se representou, na noite das Endoenças de 1508, por ordem da viúva del-Rei D. João II, o Auto da alma, composição de Gil Vicente (notícia tirada das rubricas das obras do próprio Poeta). Esse uso absurdo acabou; (…)

Capelão mor era um Bispo. Vi na Torre do Tombo a nomeação do Bispo de Lamego D. Fernando de Vasconcelos em 1 de Setembro de 1516, e vi também uma carta, em que el-Rei D. Manuel nomeia substituto a esse Prelado, ainda então simples adayam da Real Capela, e que, segundo parece, não dava vasão ao muito trabalho que lhe incumbia com o expediente dos avlaraaes das confissões dos moradores da Casa. O substituto ficara sendo para esse fim, desde 29 de Fevereiro de 1515, João Riminha, Capelão cantor.

E observo outra circunstância: não era só el-Rei que tinha capela; o Príncipe herdeiro também tinha a sua. Vi na Torre do Tombo uma quitação do Soberano a Diogo Fernandes Cabral, Deão da Capela do Príncipe, pelas despesas nos anos de 1509 a 1513, e pelas alfaias pouquíssimas de que era depositário o dito Deão. (…)

Em Janeiro de 1512, nasceu aqui o Infante D. Henrique, futuro Cardeal-Rei. (…)

Aqui recebeu em 1516 o Infante D. Afonso, com sete anos apenas, o barrete cardinalício da parte do Santo Padre leão X. Trouxe-lho de Roma D. Manuel de Noronha da Câmara, Bispo de Lamego”

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