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20/01/15

FLORES DE HISPANHA, EXCELÊNCIAS DE PORTUGAL (XVII)

(continuação da XVI parte)

Em fecundidade não dão vantagem em Portugal os animais àquele fatídico tratado por Virgílio, que trazia consigo trinta filhos. Quatrocentos mil bois, e vacas sustentam a província de Entre Douro e Minho (ainda que Gaspar Estaço as ponha em menor número) e mais de um milhão de ovelhas, carneiros, e outros gados miúdos deste tipo, segundo Duarte Nunes no dito lugar, e sobre esta carne escreve Marco Varron (g) que um Atílio Romano, de muita erudição e verdade, que residia na Hispânia, contava que na Lusitânia ulterior (que devia ser ao que hoje chamamos de Alentejo, ou mesmo no Algarve) se matou um porco do qual foi enviado um pedaço a Lúcio Velumnio Senador Romano, que andava pela Hispânia, o qual pedaço era formado somente de duas costelas e pesou vinte e quatro libras, porque do coro até ao osso tinha um pé e três dedos de alto. Isto pode ser acreditado, tal como respondeu Marco Varron, que ele sabia certamente que na Arcádia, província grega no Peloponeso viu-se uma porca tão grande que não só não se podia levantar do chão, mas que um rato lhe comeu um pedaço do couro e carne, e ali fez ninho no qual ficou com seus ratinhos, sem que a porca por muito corpulenta ser, e grossa, os pudesse espantar.

Que as terras que em Portugal que são regadas pelo Guadiana dão gado em tudo muito excelente, que outras muitas, testemunha-o Rei D. João I de Castela pelo que ordenou na cidade de Toro no ano de 1406, que são do nascimento de Cristo o ano 1378, que nenhum boi fosse vendido em Castela por mais de 180 maravedís, a não ser que fosse da ribeira do Guadiana, porque neste caso poderia ser vendido por 200 maravedís. (h)

[(a) - Duar. Nunes descript. de Portug. cap. 28 e 29. Vasconsel. in descript. Lusit, Estaço nas antiguidad. cap. 56;
(b) - Homer. Iliad. li. 16. Plin. lib. 8 c. 42 & lib 4 c. 22. Gerundas lib. I. Volat. lib. 25. Virg. geor. 3. Syl. Italic. lib. 3. Duarte Nunes d. cap. 29. Lope de Vega al fin dela Arcad. verbo (Tajo);
(c) - Fr. Bernar. Monar. Lusit. l. 1 c. 7;
(d)- Diego de Fun. e Mendoça hist. de anes, e animal. l. 1. cap. 6 e 7;
(e) - Damião de Góis in Olysip.;
(f) - Virg. AEnead. lib. 8;
(g) - Marc. Varr. lib. 2 de rerust.;
(h) - Duarte Nunes su prac 13]


EXCELÊNCIA III
Abundância de Pão

De pão [cereais] há grande abundância em Portugal, e cada vez há mais, e mais houvesse, se todas as terras férteis fossem cultivadas. Fr. Nicolau de Oliveira (a) refere que o ano de 1608 só duas vilas, Serpa e Moura, renderam ao dízimo 1470 moios de trigo, que são 22.050 "hanegas" a 15 "hanegas" cada moio, não contando a cevada, o centeio, e o milho, e deixadas muitas herdades de privilegiados (os quais são Cavaleiros do hábito de Cristo, Clérigos, e mosteiros, que não pagam o dízimo). Somente a paróquia da Igreja Catedral de Évora dá ao dízimo cada ano cerca de 700 moios. Finalmente há em Portugal terras tão boas, que muitas dão dois e três frutos num ano, e algumas (como é um grandíssimo campo que os Duques de Caminha, Marquês de Vila Real tem junto à cidade de Leiria) por uma "hanega" de trigo que nele semeiam colhem 60, e assim também noutros lados. Este pão [cereal] é tão excelente que dele disse o Infante D. Pedro de Aragão, que esteve neste Reino no tempo do Rei D. João I, que tinha visto em Portugal bom pão e bom Capitão: isto dizia do Conde de Abranches D. Álvaro de Almeida, que era Capitão maior de Lisboa.(b)

[(a) - Fr. Nicolau grandezas de Lisboa. trat. I cap. 4;
(b) -  Duar. Nunes descripcion de Portugal c. 35]


EXCELÊNCIA IV
Azeite em Quantidade

De azeite também há grande quantidade, principalmente nos termos de Coimbra, Tomar, e Lisboa, e mais que em qualquer outra parte em Santarém, que há tanto que gastando-se muito no Reino, e conquistas dele, vão somente para Flandres mais de 3000 pipas anualmente;(a) e assim para encarecer uma coisa grande costuma dizer-se "olivais de Santarém". Algo a este respeito trata Duarte Nunes na descrição de Portugal.(b)

[(a) -  Fr. Nicolau no dito lugar;
(b) - Nunes descript. de Portug. c. 25]


EXCELÊNCIA V
Vinho, Mel e Cera

Também de vinho há grande cópia, e tão bom que costuma ser enviado para terras ultramarinas muitos milhares de lagoas, passando por vezes a linha Equinocial sem corromper-se, que é suficiente prova da sua bondade. Disto trata Duarte Nines, e o Padre António Vasconcelos, (a) e da abundância de mel, e cera mais largamente. E por experiência vemos não ser verdadeiro o que diz João Boemo que a Lusitânia é falta de vinho. (b)

[(a) - Duar. Nunes descript. de Port. cap. 26 e 27. Vascnsel. e descript. Lusi.;
(b) - Boem de marib. gent. lib. 3 c. 24]


EXCELÊNCIA VI
Linho

Linho em Portugal há muito, e de grande excelência, e assim aquele que é feito em linhaço, ou em fio, é muito estimado em toda a parte. Por isso os homens que vendem fio nos outros Reinos da Hispania, ainda que não sejam de Portugal, dizem, e apregoam que assim é. E é tanto que só a vila de Guimarães rende a S. majestade de direitos de fio 7000 e 8000 ducados anualmente, como o regista Vasconcelos. (a)

[(a) - Vasconcelos no lugar citado]


EXCELÊNCIA VII
Muita Fruta

Lisboa tem a 5 léguas uma ribeira, que chamam de ribeira de Colares, sendo de menos de uma légua de comprimento, e a sexta parte de légua de largura, e que vende a Lisboa anualmente mais de 20.000 cargas de fruta,(a) além de outra fruta que tem e que não a vai vender [a Lisboa], e também muita dela se perde por não se conseguir dar aproveitamento a toda ela. É fruta de toda a sorte e tanta. Trata disto Duarte Nunes. (b)

[(a) - Fr. Nicolau grandezas de Lisboa trat. 5 cap. 1;
(b) - Duart. Nunes descript. de Portug. cap. 33]

(a continuar)

24/11/14

FLORES DE HISPANHA, EXCELÊNCIAS DE PORTUGAL (XVI)

(continuação da XV publicação)

11. O Pe. António de Vasconcelos (t) refere que, em Vila Real, uma mulher chamada Isabel Ribeira viu 160 filhos, netos, e bisnetos. Parece-me que, se Pompeu Magno tivesse notícia desta mulher, com mais razão pusera sua personagem no teatro, em vez de ter colocado a muito admirável Euticle, por ter parido trinta vezes, como no autor Plínio. (u)

12. O mesmo Vasconcelos conta que, a duas léguas de Braga, havia um homem com mais de 100 anos do qual procedia todo o lugar, e que conheceu 400 filhos, netos e bisnetos. É pouco comparar este homem com Príamo, rei de Tróia, que teve 50 filhos: comparo-o com Artaxerxes. Mnémon, rei da Pérsia que, segundo diz Justino, (x) teve 118 filhos; mas mais admiração causa o português, porque além de ter filhos e netos em maior número, os filhos de Artaxerxes eram bastardos de diversas mulheres, e só três eram legítimos, e pela mesma razão o português excedeu a Herotimo que, se teve 600 filhos, foi de diversas mulheres, como refere Textor e Justiniano, alegando a Trogo (z) (que não acreditaria, caso isto não lho tivessem dito outros mais).

13. E finalmente, para mostrara a muita gente que em Portugal nasce, basta ver que os portugueses, em todas as quatro partes do mundo, povoaram populosas vilas e cidades (como diremos noutra parte) (a2) e todos os anos são muitos os que vão para as conquistas ultramarinas, e ainda em todas as terras de Europa, como Castela, Flandres, Roma, e toda a Itália, e outras províncias, e grandíssimo número de portugueses sem que em Portugal se ache haver falta alguma de gente. Certamente pudesse isto dar ocasião a Ovidio conhecer semelhante fábula à que escreveu, (b2) de que se convertiam em homens e mulheres as pedras que Deucalion, e sua mulher Pirra, deitavam para trás das costas, com que depois do grande dilúvio restituíram o género humano.

14. Na província de Entre Douro e Minho, que como já dissemos é tão pequena, sobre ela escreve Gaspar Estaço que ali há 200.000 lavradores: e haverá mais, porque as mulheres daquela terra são como Combe, de quem se diz que pariu 100 vezes. (c2)

[(c) - Angel. Pacens. in vita S. Mancis Martyr;
(d) -Niceph. hist. ecc. lib. I cap. 17;
(e) -Fr. Bernard. en la monarch. Lusit. lib. 6cap. ult.;
(f) -Fr. France. Bivar in com. ad Dext. an 138;
(g) -Man. Barbos. ad Ord. Portugal lib. 4 tit. 105 num 2;
(h) -Plin. nat. hist. l. 7 cap. 3;
(i) -Strab. lib. 5;
(l) - Ravis. Textor in officina tit. qui raulos haburunt fiiios fol. mihi 113 verso;
(m) -Juan, Botero, las relaciones lib. 1 tit. de Europapag. m hi 141 de Olanda. Pined. Monare. p. 3 lib. 22 c. I § 5 in fine;
(n) -Cap. 9 Excal. 9 num 1;
(o) -Dacian. Asyr. in orat. contra Graecos;
(p) -L. Si maior 12 C. de legit. haered.;
(q) -Fazel. 8 rer. Sicular;
(r) - Solin. cap 4 Plin lih 7 c. 14
(s) -Gasp. Estaço cap. 72;
(t) -Vasconselos in descript. Lusit. in regione interamn.;
(u) -Plin. nat. hist. l. 7 cap. 3;
(x) -Justin. lib 10;
(z) - Textor d. tit. qui multos habuerunt fillos fol. mihi 113 verso. Just. in epit. l. 39;
(a2) -Cap. 5 Excel. 2;
(b2) - Ovid. met. lib. I;
(c2) -  Vian. en el com. a Ovid. met. lib. 7 n. 29]

EXCELÊNCIA VI
Multitude de Gados

Largo género de gados, e outros animais proveitosos ao uso das gentes, como o tratam Duarte Nunes, o Pe. Vasconcelos, Gaspar Esterço, e outros, a mesma faculdade em Portugal existe. (a) Como prova disto vem o que costumava ser dito das éguas das ribeiras do Tejo conceber dos ventos, como o disse Homero, Plínio, Gerundas, Volaterrano, Virgílio, e Sílio Itálico, e dos modernos Duarte Nunes, o Apolo destes tempos Lopo de Vega Carpio, com outros: (b) e ainda Fr. Bernardo de Brito com algumas histórias, que traz, e o dito Duarte Nunes, parece que o querem confirmar por verdadeiro. O qual conto, ainda que seja fabuloso (como o que foi dito dos Buitres, e Milanos conceberam do vento, segundo refere Diogo de Funes) (d) e fundado em que as éguas e cavalos desta parte são tão ligeiros, que ao correrem parecem filhos do vento; contudo pode também dizer-se, que a facilidade e fecundidade com que as éguas destas ribeiras concebem, deu aso a que os autores inventassem tal coisa, que é a razão que dá Justino alegado por Damião de Góis na descrição de Lisboa (e).

(continuação, XVII parte)

20/11/14

FLORES DE HISPANHA, EXCELÊNCIAS DE PORTUGAL (XV)

(continuação da XIV parte)

CAPITULO
III

Da Fertilidade da Terra Para Produzir, e Criar Gente, Como Gados, Mantimentos, e Todos os Frutos

Vãs seriam todas as restantes boas qualidades da terra, se faltasse a fertilidade que sustenta os homens para poder gozar dela; e assim como não pôde senão chamar-se malíssima aquela [terra] que carece desta propriedade, da mesma maneira a fértil tem por si a presunção de todas as bondades que ordinariamente são companheiras de fertilidade.

Na primeira idade, quando as gentes viviam mais, segundo o que ditava a simples natureza provida somente para o necessário e descuidada do supérfluo, não buscavam outra coisa senão campos férteis; neles os homens viviam contentes, passeavam seus gados, ali colocavam toda a sua bem-aventurança, passando dos que possuíam para os que julgavam por melhores, e fazendo da terra e seus frutos a devida estima: hoje, encontram-se com menos eficácia, se faz o mesmo, porque não podidos os tempos, inventores de novos costumes, e verdugos das boas antigas, inovar coisa alguma contra o que continuamente está mostrando a própria natureza.

Desta excelência pois tão grande, tenho de tratar no capítulo presente, mas porque seria absurdo falar dos frutos, sem primeiro dizer do homem, por cuja causa Deus os criou, como diz um texto do direito civil, (a) seguindo a ordem, que em trato semelhante nos ensina o Imperador Justiniano, (b) farei menção ante tudo de la muita gente, que há em Portugal, e depois voltarei aos gados e frutos.

[ (a) - §. in pecudum inst. de rer. divis.;
(b) - In § ult. instit. de jure nat.]


EXCELÊNCIA I
A Muita Gente Que Em Portugal Há

Conta Fr. Jerónimo de Castro (a) numas adições, que fez à história dos gados de seu pai Julian de Castillo, que Tubal, primeiro povoador da Hispanha [Península Ibérica], quando morreu, deixou 65.000 netos, que sendo assim, que tiveram princípio em Portugal, pois a Vila de Setúbal foi seu primeiro assento, em que habitou, como provarei abaixo, (b) vemos a evidente mostra, que logo naquele princípios deu Portugal de sua fecundidade em produzir gente.

1. Nem foi melhor prova, quando o Imperador Octaviano mandou que se escrevessem todas as gentes do Império Romano, para cada pessoa lhe pagar certo tributo, no qual assento ou matrícula se achou, segundo diz Ângelo Pacense, (c) que em Portugal havia 5.078.000 pessoas, cabeças de família, sendo assim, que em todas as terras do Império Romano não se acharam mais que 26037 Miríadeas, como refere Micephoro Calisto, (d) que valendo cada uma Miríada 10.000 como escreve Fr. Bernardo de Brito, (e) soma 270.370.000 pessoas: número bastante pequeno para todas as províncias do Império Romano, em comparação com o que em Portugal se achou.

2. O mesmo Fr. Bernardo, e Fr. Francisco de Bivar (f) contam que os tempos adiante de Calgia, mulher de Cathelio, senhor, ou Régulo de uma parte de Portugal nas ribeiras do rio Tejo pela parte de Alcântara, onde esteve uma cidade que se dizia Norba Cesareia, pariu de um só ventre 9 filhas juntas.

3. E destes nossos tempos refere o doutíssimo Jurisconsul Manuel Barbosa, (g) que uma Branca de Rocha, mulher de Rodrigo Monteiro pariu de um só parto 14 filhos, e todos foram baptizados.

4. E o Padre Bivar no lugar citado refere que uma Maria Marcela, francesa mas nascida em Portugal no lugar de Anele do Arcebispo de Braga, pariu juntos 7 filhos varões, que além de vivos vieram todos a ser clérigos, e com benefícios, os quais foram esculpidos na sepultura da mãe na capela de S. Domingos na vila de Chaves; os quais dois partos de nove e de catorze foi a maior fecundidade que se tinha visto, porque segundo Plínio, (h) até três podem nascer de um parto, como foram os de Horácio e Curiacios, mas se nascem mais é coisa tida como maravilha: e por coisa rara conta o mesmo, que Faustia pariu em Óstia dois varões, e duas mulheres juntos, e que no Peloponeto uma mulher pariu quatro vezes a cinco filhos, e que a maior parte deles viveram; e que no Egipto as mulheres concebem sete de uma vez (se bem que Estrabão diz, (i) 5) e Raviso Textor (l) refere, que uma pariu sete filhos de um parto; mas não regista que houvesse mulher que parisse junto nove, ou catorze, e que todos vivessem; porque aquela Margarita, Condessa holandesa, de quem se afirma que pariu 363 filhos, (m) não os pariu perfeitos, senão como pequeníssimas criaturas, quem nem viveram; mas as 9 filhas que a portuguesa Caligia pariu de uma só vez, eram todas meninas perfeitas, viveram muitos anos, e foram santas, como mais adiante explicaremos; (n) e aquelas duas mulheres mencionadas Daciano Asirio, (o) que cada uma pariu 30 criaturas de uma vez, foram abomináveis, e seus partos causados de grande intemperança, como o mesmo Daciano diz, mas os partos das ditas portuguesas, como está claro, não foram de intemperança, principalmente o de Caligia, pois suas 9 filhas viveram todas até mulheres, e foram santas.

5. O dito Manuel Barbosa no alegado lugar, conta que junto da cidade de Braga uma Inês do Casal de Guidoy casou sete vezes, e de todos os maridos teve filhos, que com netos e bisnetos foram 109.

6. E que outra Maria Lopes da vila de Ponte da Barca na Nóbrega teve 120 filhos e netos, e comunicava diariamente com 80 deles (e esta mulher, como diz Gaspar Estaço, viveu no ano de 1578).

7. Diz o mesmo que em Guimarães viu uma mulher que de uma vez pariu três filhas e que depois as conheceu já em mulheres.

8. Outra mulher, chamada Maria de Góis, casada com Salvador de Faria, que foi abade da Aveleda no Arcebispado de Braga. O Imperador Justiniano num texto do Código (p) tem por coisa admirável parir uma mulher de 50 anos, em tanto, que se colocou ali em dúvida se o filho nasceu de tal parto, que parecia contra natura, devia suceder na herança do pai; e da Imperatriz Constança, mulher de Henrique V se conta por coisa notável haver parido aos 50 anos de idade, como se vê em Fazelio. (q) Mas em Portugal é tal a fecundidade, que nos tempos que chamamos de estéreis, e na velhice parem as mulheres sem admirar.

9. Solino, e Plínio (r) dizem, que o homem pode gerar até aos oitenta anos, e trazem como prova a Massenissa rei dos Númidas, que aos 86 anos gerou um filho; e Catão Censor, de 88: e ainda mais se alargariam este autores, se soubessem que a qualidade da nossa região de Entre Douro e Minho, na qual João Afonso no Casal do Bairro na paróquia da Nespereira, termo de Guimarães, casou segunda vez com 90 anos, e teve um filho da segunda mulher, que ao ter um ano tinha um irmão de 70 anos nascido da primeira mulher, e Gaspar Teixeira de Basto na paróquia de S. Romão de Corrogo, aos 97 anos, casou segunda vez, e teve um filho: e estes dois homens viviam quando Gaspar Estaço escrevia o livro das antiguidades de Portugal, que é de onde as transcrevo. (s)

10. Solino, mais, diz que se têm achado casos em que sendo concebido um filho, de ali a pouco tempo é concebido outro, e vivem ambos, tal como aconteceu com Hércules e seu irmão Ifico, os quais andando juntos no ventre nasceram com aquele intervalo de tempo no qual foram concebidos; e a escrava Proconissa, de dois adultérios pariu dois filhos [gémeos], cada qual semelhante a seu respectivo pai. Estas maravilhas, que Solino escreve naquela sua obra à qual colocou o título de coisas maravilhosas que se acham em Portugal, e quiçá sem maravilha. Catarina Gonçalves, casada na paróquia da Madalena, junto de Arrifana de Sousa, Bispado do Porto, pariu uma filha, e de aí a quinze dias pariu a outra. E Catarina Dinis, mulher de João Martins, do lugar de Doutelo, paróquia de Canedo, termo da Vila de Basto, pariu um filho, e depois de três semanas outro, e diz o dito Gaspar Estaço, que enquanto escrevia todos estes estavam vivos.

(a continua)

04/11/14

FLORES DE HISPANHA, EXCELÊNCIAS DE PORTUGAL (XIV)

(continuação da XIII parte)

EXCELÊNCIA III
Fontes de Portugal

As fontes são infinitas, e para prova desta multitude basta dizer que, na província de Entre Douro e Minho (que é tão pequena, como acabámos de referir) há mais de 25.000 fontes perenes, como escrevem alguns autores, (a) mas não sei como lhes poder dar crédito na contagem. Na província de Entre Tejo e Guadiana, que é a menos abundante em águas em Portugal, os Religiosos da serra de Ossa, junto à cidade de Évora, numa herdade têm mais de 70 fontes. Por isto digo que Portugal é um só rio que, dividido em muitos braços, forma outras tantas ilhas para que habitando nelas os moradores possam gozar das suas frescas águas, ou que [Portugal] é um formoso tanque, ou curiosa fonte, que deitando água por muitos canos de subtis invenções, jorra graciosamente sobre os campos, ou melhor dizendo, por lindos quadros que tem os moradores junto de si. Tantos são seus rios, tantas são suas fontes, tão claras e cristalinas, como a de Claros nascida das lágrimas de Manto, filha de Thiresias, chorando a destruição de Tebas sua pátria, feita pelos epignos, se não se enganam os poetas (b) em pensar que era clara, e não turva fonte de água lacrimosa, e triste.

Havia bastante matéria para fazer correr a pena, se não parecesse supérfluo determo-nos mais naquilo que muitos escreveram; entre todos pode ver-se melhor o que aqui está em falta [em autores como] André de Resende, António de Vasconcelos, e agora modernamente em castelhano por Manuel de Faria, (c) o qual depois de Duarte Nunes traz algumas propriedades maravilhosas, que a natureza colocou nos rios e fontes de Portugal, (d) por em nada deixar o nosso Reino inferior a outras províncias de cujas águas escreveram os antigos tantas virtudes e prodígios.

[(a) - Ortel. sup. Faria supra. Aug. Barbos. in pastor p 1 tit 3 c. 8 num 4 Estaço nas antiguidad. de Portugal cap. 56 Duart. Nuñ. descrip. de Portugal c. 12;
(b) - Ovid. met. lib. 1;
(c) - Resen. de antiq. Lusit. lib. 2 tit. de fluminibus. Vasconsel. in descript. Lus. Faria Epit. 4 p. c. 10 etc. 17;
(d) - Duart. Nuñes d. cap. 12.]

(continuação, XV parte)

FLORES DE HISPANHA, EXCELÊNCIAS DE PORTUGAL (XIII)

(continuação da XII parte)

EXCELÊNCIA II

1. Portugal é irrigado pelos melhores rios em Hispanha [Península Ibérica], e muitos dos mais afamados do mundo, como o fez notar Estrabão (a). Os principais são o Tejo, ao qual Mariana (b) chama o mais célebrado de Espanha; António de Vasconcelos, (c) tão celebrado como os mais celebrados do mundo; Hieronymo Pablo, (d) Rio celebrado nos versos gregos e lusitanos; e com razão, porque dele disse

Juvenal (e): "Quod Tagus, et rutila Pactolus volvit arena";
 
Martial (f): "Non illi satis est turbato sordibus auro Hermus, et Hesperio, qui sonat orbe Tagus";[diz o mesmo] noutro lugar (g): "Auriserumque Tagum sitiam";

Pantano (h): "In mare qua Ganges, et qua Tagus aureus intrat";

[diz o mesmo] outra vez: "Dum Tagus aurifero vectatur gurgite";

Mantuano (i): "In mare proripitur Tagus auricoloribus undis";Sílio Italico (l): " Hic certant Pactole tibi Duriusque, Tagusque";

Claudino (m): "Non Thartesiacis, illum satiaret arenis Tempestas pretiosa Tagi".

E é hoje mais célebre que no tempo desses poetas, pelo grande comércio que tem com as mais remotas províncias do mundo, e seus rios, que todos lhe pagam tributo como vassalos.

2. Em segundo lugar vem o Douro, insigne por sua grande capacidade, e porto que deu seu nome à famosa cidade do Porto, que não sei se ele a enobrece, ou ela a ele.

3. O rio Minho, bem conhecido pela divisão que faz entre Portugal e Galiza e por suas águas caudalosas.

4. O Guadiana, célebre pelos campos férteis que rega, e porque (como outro Aleu) depois de haver corrido algumas léguas, mete-se por baixo da terra, e volta a sair, dexando assim uma ponte de 7 léguas, sobre a qual se apascenta muito gado.

5. O Lethes [Lima], que muitos chamaram rio do olvido, por fabulosas histórias, se bem originadas de verdades que dele se contentavam, e o qual hoje os moradores das suas ribeiras chamam Lima.

6. O Mondego, que passa pela nobre cidade de Coimbra, e que por banhá-la deixaram as musas todos os restantes rios, visto ela é honrada pela sua insigne universidade.

7. O Tâmega, ilustrado pelo precioso corpo de S. Gonçalo que está na Vila de Amarante.

8. O rio Ave, do qual mil vezes falam as histórias por ocasião da cidade de Cinania, ou Citania, que em tempos antigos lavou sua corrente, mas mais nomeado hoje pelo corpo de S. Torcato, ou Torcade, que está na igreja pouco distante dele.

9. O Leça está celebrado nos versos de alguns poetas portugueses, e por regar a maior encomenda portuguesa da ordem de S. João.

10. O Sado, não é tão famoso pelo caudal, mas mais porque a opinião diz que por ele entrou Tubal na Hispanha [Península Ibérica].

11. O Zêzere, que (como se disse de Orco com o Peneo) entra no Tejo com tanta fúria que não se mistura com ele por larga distância.

12. O Vouga, é chamado Vacua, ou Vacum pelos antigos geógrafos.

13. O Távora, é famoso pelo nome que deu à ilustre família deste apelido.

14. O Nabão, que corre pela vila de Tomar: insigne cabeça da nossa Ordem de Cristo.

15. O Neiva, o Alva, o Coa, o Soure, o Sor, o Caia, o Seira, o Seda, o Paiva, o Tera, o Montargil, o Caná, o Coruche, o Sosa, o Taveira, o Homem, o Cávado, o Rio de Pé, o de Fafe, o de Visela, o de Landim, o Ferreira, o de Guinfães, o Tuelo, o Tuage, o Pinhão, o Sabor, o Carcedo, o Lomba, o Arda, o Tourões, o Ponsul, o Aravil, o Elia, o Enxarama, o Zadão, o Divor, o Teva.

É assim, são tantos que não podem contar-se, pois numa só província, a de Entre Douro e Minho, que não tem mais de 18 por 12 léguas e em algumas partes não mais de oito, há 200 pontes de rios caudalosos de muita labor e arquitectura. (n) E assim é mais fácil dizer com Estrabão (o) que a terra Lusitana é feliz por ser regada de tantas fontes e rios.

[(a) - Estrabão assim refere Resende de Antiqui. Lusit. lib. 2 tit. de flumin.;
(b) - Marina lib. 1 c. 3 e 4;
(c) - Vasconcelos in discript. Lusitan.;
(d) - Heron. Paul, de flumin. Hispan.;
(e) - Juvenalis;
(f) - Martialis lib. 8;
(g) - Martial. lib. 10;
(h) - Pontanus;
(i) - Mantuan. lib. 4 Agelarior.
(l) - Syl. lib. 1;
(m) - Claud. in Ruf. lib. 1;
(n) - Abraham Ortel. in teat. orbis tab. Portugalliae. Faria e pit. 4 p. c. 5 num 4. Gil Gonçales de Avila no trat. das grandesas de Madrid lib. 4 tit. do conselho de Portugal. Estaço nas antiguidades cap. 56;
(o) - Estrabão referido por Duarte Nunes na descripção de Port. cap. 21]


(continuação, XIV parte)

03/11/14

FLORES DE HISPANHA, EXCELÊNCIAS DE PORTUGAL (XII)

(continuação da XI parte)

CAPÍTULO
II

DA FORMOSURA DOS CAMPOS, E FONTES DE PORTUGAL

E o Príncipe do poema latino (a) querendo louvar os campos Elísios, tudo se cansa em encarecer a formosura de seus prados e jardins, entendendo bem quanto isto faz à bondade da terra; e o mesmo pretendem vários autores, desejando engrandecer e abonar suas províncias. Pois quão grande excelência seja a abundância de águas, de fontes e rios, quem o ignora? A experiência isto mostra, e a razão o acredita; sua falta sentiu a Hispanha [Península Ibérica] naquela grande séca que padeceu, (b) e choram choram as outras províncias que perpétuamente sofrem outra tal; como os desertos da Arábia, e muitos outros, em que a terra sem água como corpo sem sangue, está com infinitas gretas, que servem de bocas abertas com suspiros, e clamores pregando esta verdade. E assim não é bem passar em silêncio as grandes excelências que Portugal tem nisto, pois é parte tão principal.

[(a) - Virgílio lib. 6;
(b) -   Martin. hist. lib. 1 c. 13.]

EXCELÊNCIA I
Formosura dos Campos, Hortas, e Jardins de Portugal

A beleza dos campos, hortas, e jardins em Portugal é tal que todo o Reino pode ser comparado ao bosque de Tesália chamado Tempe, de cuja beleza Ovídio fala, (a) ou tudo pode chamar-se Tempe, se Tempe por antonomásia se chama aos bosques amenos, como diz Virgílio; (b) porque está povoado de infinitos jardins belíssimos e tão excelentes que também no verão e inverno se vêem vestidos de rosas, e todo o género de flores (já como o tratou Políbio, e Ateneu refere (c)) em tanta abundância, que os direitos, que na Cidade de Lisboa se pagam ao Rei das flores, que ali se vendem, lhe rendem muito dinheiro. E assim parecerá a quem for a Lisboa, e isto em todas as suas praças, principalmente à porta da Misericórdia, grandíssima quantidade de rosas, e flores dispostas em grinalda, ramalhetes, e outras mil invenções, sem que entre inverno e verão haja nisto alguma diferença. De um jardim destes de Portugal cerca de ter flores por inverno e verão disse Manuel Faria, poeta moderno português. (d)


Pouco distante um campo eu descubro,
Que o sítio mostra da esfera formosa,
Que nunca espera Abril, nem teme Outubro,
Para gozar jasmim, mosqueta, e rosa;
Que é primavera no rigor do gelo,
E pela primavera o mesmo céu.

E diz outro a respeito do termo de Lisboa:

Ver ubi perpetuum vestius gramine camus
Indicat Elysiis longe felicior arvis,

(e mais à frente:)

Hic nitidi rident alieno tempore flores,
Purpureas hic bruma rosa innoxia redit,
Quas neque torrenti regnat cum Syrius aestu,
Aut rapidi soles urunt, gelidusue Bootes.(e)

E o dito Manuel Faria diz (que se no verso é tão excelente, no o é menos na prosa) noutra parte, falando da região Entre Douro e Minho, dizendo estas palavras (f): "É pelo geral terra de montes verdes que podiam ser prados em outras terras, e seus prados, e vales assim cheios de arvoredo, ervas, flores, e fontes, que apenas apenas os caminhos se vêm definidos: em quase cada árvore se vê uma vide que, quando carregada de cachos pendentes nos braços e ramas fazem uma bela visão e agradável sombra para os caminhantes, que entre amplas coberturas de estrada se riem do Sol, passando como por arcos triunfais: de tal forma é que no ar se comunicam as baixas plantas, que de uma e outra parte acompanham o caminho!" Elegantemente louva também esta mesma província o doutíssimo Agostino Barbosa. (g) Com outras palavras semelhantes descreve o Padre Fr. Nicolau Oliveira (h) a amenidade das ribeiras do Tejo, e todo o termo de Lisboa, dizendo que é tanta que não há país montaria que mais fresco se nos apresente, porque aqui se vêem altas e formosa árvores silvestres, ali outros frutíferos: anos cheios de flores, outros carregados de suavíssimos frutos, os campos matizados com mil géneros de alegres e perfumadas rosas, que com seus vários aromas a si atraem a vista; o ar está povoado de muitas aves, que não se entende se são mais para lhes vemos as penas ou para ouvir seu suave canto.

2. Por fim, Portugal é um jardim curioso, composto de inventivos paneis váteos: de uma parte frutos, de outra flores, aqui se mostram frescos bosques, ali dilatados campos, e parece que a natureza deitou seu poder, quando olhando o outro lado a vemos de arte vencida; frustram-se estes louvores gerais, pois falar em particular em tanta coisa não é possível. Da amenidade dos seus montes, e serras veja-se Duarte Nines (i) na descripção de Portugal, mas fôra melhor vê-los a eles, para um homem ver melhor o que o mundo tem.

[(a) - Ovid. Metamor. lib. 1;
(b) - Virg. lib. 2 Georg. Refert Vianna in Coment. Ovid. metam. lib 1 num 46;
(c) - Polybio lib. 38 histor. Athen lib. 4 dipnosophist;
(d) - Manuel de Faria nas divinas, e humanas fontes na descripção da quinta de S. Cruz;

(e) - Refere Duarte Nunes na descripção de Portugal cap. 34;
(f) - Far. epit. de hist. Port. p. 4 c. 5 n. 4
(g) - Aug. Barbos. in pastor p. 1 tit. 3 c. 8. n. 4;
(h) - Fr. Nicolau grandesas de Lisboa trat. 2 c. 5;
(i) - Duarte Nunes descripção de Portugal c. 9 10 e 11]

(continuação, XIII parte)

02/11/14

ASCENDENS - Notícia sobre a FLORES DE HISPANHA, EXCELÊNCIAS DE PORTUGAL

Sem vaidade, informo que, há mais de ano e meio este é o mais visitado e vasto blogue tradicionalista, em Portugal. Assim me parece a julgar pela leitura dos vários dados.

No blogue ASCENDENS, ao contrário do que costuma acontecer no geral dos locais, são raras as notícias e os assuntos da actualidade; mas tudo o que cá é publicado é assunto para a actualidade. Cá não se fala tanto do problema, mas dão-se as soluções, exemplos, ou complementos à solução (mesmo que de forma indirecta).

A publicação massiva da obra Flores de Hispanha, Excelências de Portugal tem superados as expectativas a nível de visitantes. Não por ter havido algum aumento do número de visitas, mas porque não houve aquela diminuição habitual para este tipo de publicações. Fica por ver se esta aceitação tem ou não a ver com o sentido de oportunidade destas publicações.

Habitualmente é assim: as melhores obras já não são acompanhadas da maioria de leitores, salvo excepções. Ora, o motivo da publicação desta obra é a falta de conhecimento geral (dentro e fora de Portugal) sobre a civilização católica, e nomeadamente da civilização lusa (necessariamente católica) [com "católica" entenda-se o que imutavelmente sempre tínhamos entendido como tal]. Tanto há carência que nem os mais defensores da Fé conseguem hoje dizer duas ou três coisas sobre a importância da civilização lusa para o catolicismo! Quão português é aquele natural de Portugal que, como católico, pouco ou nada saiba dos maiores contributos da nossa civilização para a Santa Igreja!?

Quero chamar a especial atenção para um fenómeno de valor: no Brasil cresce lentamente o interesse pela Civilização Lusa (portanto, católica). O Brasil é também o segundo país de onde provem o segundo maior número de visitas (quase 50.000) no blogue ASCENDENS. É interessante que a Espanha tenha aumentado significativamente o número de visitantes nestas últimas publicações; desejo ao espanhóis o melhor proveito possível, ainda que estes primeiros temas da obra não sejam de maior importância.

Poderão parecer fúteis estas publicações se lhe tomarmos apenas os primeiros capítulos. Mas, pela necessidade que vejo, pela qual me propus tentar a publicação gradual de toda a obra, haverá oportunidade de chegar aos capítulos de maior proveito; que Deus permita isto por minha mão, ou por mão de outrem.

A Flores de Hispanha, Excelências de Portugal não é aqui elevada como se fosse algo infalível, mas convém lembrar que no séc. XVIII houve dela republicação aprovada pelo Santo Ofício e Real Mesa Censória. A primeira edição tinha sido aprovada pelas mesmas entidades e oferecida a D. Filipe IV de Espanha. Perguntará aquele leitor que já leu algumas páginas desta obra: como é possível que em tempo de Filipe IV de Espanha, um jovem de 22 anos (o autor da obra) esteja tão à vontade para colocar na frente do Rei vários valores de Portugal, algo incómodos, usando um tom que pode soar a  desafio!? 9 anos depois da primeira edição, a Nobreza portuguesa devolvia ao Trono português um legítimo Rei, um natural. Por isto, mesmo tendo tão altos e aprovadores carimbos, podem os tempos de convergência identitária (de um qualquer reino) levar consigo imperfeições que convém eliminar mais tarde, antes que se tornem "dogma" para os que hoje muito queiram amar seu reino.

A verdadeira Fé leva à verdadeira Civilização. Sem a tamanha Civilização Lusa o entendimento da Civilização Católica fica incompleto.

01/11/14

FLORES DE HISPANHA, EXCELÊNCIAS DE PORTUGAL (X)

(continuação da IX parte)

EXCELÊNCIA V
O Bom Clima, Quanto Faz a Bondade da Terra, e Como Isto o Tem Portugal.

A melhor coisa que em qualquer terra pode haver é o bom clima, do qual dependem ser bons ou maus outros mais atributos, não somente pertencentes à mesma terra, como o caso dos frutos e outras coisas, mas também as qualidades dos homens, pois é certo que do tempero da terra toma o corpo seu temperamento, e as paixões do ânimo seguem o temperamento do corpo, como diz Galeano (a) num livro inteiro que sobre este assunto compôs. E quem haverá que fugindo do mau clima e natureza do monte Quimera de Farsela, dos montes Hefesto de Lisia, do Cofanto nos Bactrianos das terras de Media nos povos de Castia, nos confins da Pérsia, e em Suria do campo dos magalopoditanos, da ilha Hiera, uma das Eólias, do monte Teon, o Chema de Etiópia, do Etna da Sicília, de cujos grandes fogos e ardores estão cheias as histórias, não julgará logo quais serão as outras suas qualidades? Quem fugindo dos grandes frios do rito Tanais e da lagoa Meotis não dirá que aquela terra, por não ter coisa boa, é inabitável? (b) E deixadas aquelas partes tão remotas, há cá outras mais próximas às nossas, umas tão quentes que parece que de contínuo estão padecendo os ardores que iraram da terra, quando os poetas dizem (c) que Phaeton a abraçou; outras tão frias que é pouco dizer que levando ali vinho de outra parte se azeda logo, como se conta que sucedeu na Noruega. (d)

[(a) - Galen. m lib. quod animi mores;
(b) - Plin. nat. hist. lib. 2 c. 106 Fr. Hier. de Castro nas addiciones a Julian de Castillo lib. 1 discurs. 1 Joan Boem de morib. gent. lib. 3 cap. 1;
(c) - Ovid. metam 1 2;
(d) - Mariana histor. lib. 5 cap. 1;]


1. São tão maus estes extremos que certos gentios, moradores na terra que chama dos bacalhaus, que nos seus faltos ritos têm a opinião de que as almas dos bem-aventurados depois de saídas dos corpos vão viver em certas terras muito boas e temperadas, e a [alma] dos maus [vão] a outras de muito mau clima; (e) porque estes julgam que não pode dar-se maior prémio ao [homem] bom que uma terra de bons ares na qual habite, nem pior castigo ao [homem] mau que obrigá-lo a estar em terra de mau clima, pois é tão grande, que não somente os estrangeiros não podem sofrer tais rigores, mas também os naturais, que pelo costume pareceriam ter mais paciência para sofrê-los; e assim diz o Padre João de Mariana, (f) que uma das principais razões pela qual os Godos saíram para encontrar novas terras, foi por não poderem sofrer os excessivos frios das suas. Finalmente, tão má coisa é a terra de áspero clima que foi antiga opinião de alguns graves médicos (segundo refere o Doutor Juan Huarte de San Juan, (g) no seu curioso tratado de exame de engenhos) que todos os homens, que vivem em regiões destemperadas, estão actualmente enfermos, e com alguma lesão, ainda que por serem engendrados e nascidos nela, e não haver gozado de outra melhor temperança, não sentem o mal que padecem.
Nisto há muito que louvar por Portugal, porque seu céu é muito sereno e claro, os tempos muito aprazíveis, porque no inverno não há demasiado frio, e no verão os calores são moderados, e assim em todo o tempo são os dias salutíferos, e costuma dizer-se (principalmente de Lisboa) que nunca tem frio que não se resolva com o uso de uma capa de baeta, nem calores que obriguem a tirá-la.
Pois assim disse um romancista estrangeiro (a) ao referir esta cidade:

La clemencia de tu cielo
Es tal, que no se apreciben
En invierno, ni en verano
Con que poder resistirse.
Ni en invierno se permite
Mudar habito, ni hazer
Los fuegos a el convenibles.

Já o Padre Fr. Nicolau de Oliveira (b) dá a isto razão ao falar particularmente de Lisboa, e diz que Lisboa está quase no meio da zona temperada em 39º, sítio boníssimo, pois está onde nem a vizinhança do Sol pode acalorar com excesso, nem o seu afastamento esfria demasiado; de onde se infere que, estando Lisboa no meio da zona temperada, fica situada debaixo do signo de Aries, cujos efeitos são bem melhores que todos os dos outros signos, pois a sua natureza é gerar e produzir, e a dos outros destruir e corromper. [não confundir este tema com o do "horóscopo"; neste tempo, os signos são vistos como meras forças naturais que dispõe mais ou menos a certas características estáveis, e nada que tenha a ver com adivinhação ou previsão do futuro]. Isto que dizemos de Lisboa pode ser aplicado a todas as restantes terras de Portugal, das quais não falamos de modo especial, porque seria coisas infinita, contentando-nos com tocar somente a mencionada cidade de Lisboa, porque é a cabeça.
Também ajuda muito à boa temperança dos ares Portugal estar colocado junto ao mar, de donde no verão vem vêm ares frescos, e pelo inverno aquece. E não é pequena a prova do nosso intento o haver em muitas partes de Portugal, principalmente em Lisboa, grande abundância de rosas, e todo o género de flores pelo inverno, sem que haja rigor de frio que as ofenda, como costuma ser nas outras partes, do qual trataremos no próximo capítulo. (c) Finalmente, o clima em todo o Portugal é tão bom, os tempos tão temperados, os ares tão sãos, que a pior terra que em todo o Reino há é Castro Marim, para a qual desterram os mal-feitores por castigá-los, e nesta terra vive a gente muitos anos, e com tanta saúde que poucas vezes há enfermos, e é muito ordinário que as pessoas chegem aos noventa, e cem anos, e alguns mais. Tomara a outros reinos que a sua melhor terra fosse como a pior de Portugal.
Escreve Gaspar Estaço, (d) que falou com uma Filipa Martins, da paróquia de S. Vicente de Sousa, de 104 anos e meio, a qual disse que a sua mãe tinha vivido 105 anos, sua avó 115 e seu avô 135. E isto não deve parecer incrível, porque Plínio e Sabelico (e) contam que no tempo do imperador Vespaciano achou-se em Placência, cidade italiana, um homem de 131 anos, e em Arimino três de 137 cada; e anos depois D. Aleixo de Meneses, Arcebispo de Goa, na Índia, encontrou um homem de 138 anos, casado com uma mulher de 120, e havia 106 anos que estavam casados, como refere Fr. António de Gouveia no tratado que fez das jornadas que fez o dito Arcebispo. (f) Ainda de maior idade era um homem que estava em Dio, quando o Governador Nuno da Cunha tomou aquela cidade, e que se afirmava ter 335 anos, e não se sabe quanto viveu depois; e de muita mais idade foi João de Tampes, francês, que dizem ter vivido 370 anos, ainda que outros digam que não viveu mais de 160. (g)

[(b) - Fr. Nicolás grandesas de Lisboa trat. 4 c 1 e trat. 5 c. 6;
(c) - Cap. 2 Excel 1;
(d) - Estaço nas antiguidades de Portugal c. 27;
(e) -
Plin. lib 7 c. 49 Sabellic. Enn. 7 lib. 4 fol. 157;
(f) - Fr. Ant. de Gouvea lib. 2 cap. 13;
(g) - Duarte Nunes cron. de Dom Afonso Henriques Maris dal. 5 c. 1.

(continuação, XI parte)

31/10/14

FLORES DE HISPANHA, EXCELÊNCIAS DE PORTUGAL (IX)

(continuação da VIII parte)

EXCELÊNCIA IV
Portugal Parece Cabeça do Mundo

Alem disso, Portugal está colocado em tal sítio e lugar no mundo que aparece como cabeça de todo ele [Europa]; que prevendo Deus na criação do mundo as grandes excelências que havia de ter este Reino, o quis fazer cabeça do mundo e dar ao mundo tal cabeça (não falo em Roma, que como cabeça da Igreja não entra nesta discussão). Prova-se o que digo, porque a cabeça do mundo há-de ser aquele princípio dele, que está a Oriente, ou é outra parte, que é ocidental, que são os dois extremos da terra, dos quais uns países, e outro cabeça deste corpo, que imaginamos; que seja cabeça aquela parte oriental, não pode dizer-se, pois ainda que lá comece o dia, e possam considerar-se outras razões, Cassaneu (a) aponta; não devemos consentir que tão bárbaras terras sejam cabeça de tão formosa máquina, nem que tão doutos idólatras, como os daquelas partes, tenham por pés tão polidas gentes, como os destas nossas. Por donde é necessário confessar, que a terra na qual o Culto Divino floresce, as gentes são em tudo tão excelentes, e as restantes coisas tão avantajadas, aí é a cabeça, e a principal parte do mundo, como com boas razões conclui o mesmo Cassaneu; o que parete ter querido dizer Plínio (b) (sendo assim, que por gentio não sabia das muitas razões, que concorrem por nossa parte a respeito da nossa Sagrada Religião) quando disse que é o princípio do mundo desde o o caso do Sol, e assim não sem particular consideração, querendo fazer uma descripção do universo, começa por Hispanha [Península Ibérica], ainda que parte ocidental, e depois vai decorrendo pelas restantes províncias, até chegar ao Oriente. Pois assim sendo, que do Ocidente há-de tomar-se o princípio ao mundo,e considerar sua cabeça, manifesta coisa, é ser esta Portugal, que é a ponta mais extrema ocidental de toda a orbe, e onde, ainda que ocidente, parece, que começa a terra.

[(a) - Cassan. Cathal. glor. mundi p.12 consid 13;
(b) - Plin. nat. hist. lib. 2 in procemio.]


1. Pelo menos a cabeça da Europa é chamada pelo nosso grande poeta Camões, dizendo (c):

Eis aqui quasi cume da cabeça
De Europa todo o Reino Lusitano.

Manuel de Faria e Sousa (d) chama a Hispanha [Península Ibérica] frente da Europa, e a Portugal grinalda dessa fronte, e Julian de Castillo na história dos reinos Godos (e) descreve a Europa e pinta-a com figura de uma mulher vestida, dizendo que Hispanha [Península Ibérica] é a cabeça desta mulher, e que Portugal é a coroa da cabeça; na qual dá Portugal a maior honra, porque se bem há cabeças que honram as coroas, habitualmente as coroas honram as cabeças.

[(c) - Camões Lusiad. cant. 3 est. 20;
(d) - Faria Epit. 4 p. c. 4 n. 11;

(e) - Castillo hist. de los Godos lib. 1 discurs. 1 y lib. 2 discurs. 2.]

2. Entre aqueles que tratam das coisas naturais, houve uma disputa sobre se deveria ser tida por rainha das aves a águia, o pavão, o papagaio ou o galo; e ainda que a opinião dos autores tenha dado sentença em favor da águia, (f) Nicefero Calisto (g) chamou ao papagaio a mais perfeita das aves, mas não faltou quem desse seu voto ao pavão, e outros ao galo; e o principal fundamento que os moveu foi constatar que o pavão tem na cabeça uma pluma, diadema, ou coroa, e o galo tem também algo como coroa, com a qual parecem mostrar-se como reis das aves. Pela mesma razão o leão, que chamam real com suas crinas [juba] em vez de coroa (não sem contradição do cavalo) é tido por rei dos animais quadrúpedes; e o basilisco, pelo diadema que na sua cabeça tem, é julgado por rei dos venenosos, (h) e a coroada granada [é tida] por rainha das frutas; porque a todos estes não é justo negar dignidade, a quem a natureza deu insígnias de rei, a quem a natureza deu coroa, bem se pode dizer que Portugal é rainha de todas as outras terras, visto que a natureza, ou melhor dizendo, Deus colocou em tal parte que não apenas fica como coroa mas como cabeça coroada perante o mundo, como fica mostrado; e assim a Europa é a melhor parte da orbe, Hispanha [Península Ibérica] como cabeça é a principal da Europa, e consequentemente de todo o mundo.

[(f) -  Plin. nat. hist. lib. 10 c. 20 Diego de Funes, e mendoça na Hist. de aves, e animaes lib. 1 c. 1 e c. 27 28 e 42;
(g) - Nicephor. Calix. lib 23 c. 16;
(h) - Diego de Funes no dito tratado lib. 8 c. 16 e 21 e ibi Licença de Huerta nas anotações.]


3. Da descrição de Portugal tratam largamente os autores (i) que vão citados aqui nas anotações, do qual eu não falo, por não pertencer à nossa matéria mais do dito.

[(i) - Strabão lib. 3 Plin. nat. hist. lib. 3 in procem. e lib. 4 c. 21. Juan Botero nas relaciones del mundo. Vaseu in chron. Hispan. cap. 8. Abraham Ortelius in teatro orbis tabula Portugal. Marineus Siculus de reb. Hispan, lib. 2 tit. Lusit. Marius Aret de Hispan, situ Mariana hist. Hisp. lib i c. 4. Julian de Castillo hist. de los Godos lib. 2 disc. 1. Anton. Nebriss. de gest. Reg. catholic. in discri. pt. Lusit. Resende antiquit. Lusit. lib. 1. Camões Lusiad. cant. 3. Duarte Nuñes de Leon na descripción de Portugal. Brito Monarch. Lusit. lib. 1 c. 15. Anton. de Vasconcelos in descript. Lusit.. Manuel de Faria epit. de las histor. Port. p. 4 c. 5.]
(continuação, X parte)

FLORES DE HISPANHA, EXCELÊNCIAS DE PORTUGAL (VIII)

(continuação da VII parte)

EXCELÊNCIA I
Europa, a Melhor Das Quatro Partes do Mundo

Primeiramente, Portugal está na melhor das quatro partes do mundo, que é a Europa; que a Europa seja melhor que a África e a América, é coisas clara, ainda que o insigne historiador João de Barros (a) louve muito a África pela parte da Etiópia, somente pela Ásia há poucos fundamento trazidos por Abraham Ortélio e outros autores; (b) mas todos considerados, acharemos em favor da Europa mais fortes razões, porque se na Ásia viveu e morreu Cristo Nosso Senhor para remédio do género humano (que é o maior argumento), aqui na Europa vive hoje no coração dos fiéis, ao contrária da Ásia onde esta muito esquecido. Se na Ásia esteve a lei de Deus, a do Velho Testamento, na Europa está a do Novo Testamento, mais perfeita, e está a suma cabeça da Igreja, Roma: e da Ásia saíram as idolatrias e a pestífera lei de Maomé, contra quem a maior parte da Europa luta continuadamente. Se a Ásia produziu varões fortes, na Europa nasceram o grande Alexandre, os Romanos, Godos, Hispanhois, e outras nações que todo o mundo venceram; se Ásia é maior que a Europa, a pequenês da Europa se suple com seus excelentes qualidades; finalmente, se a Ásia se gaba de ter tido grandes monarquias, olhe a romana, e Hispanhola [Portugal e Espanha] de hoje, e verá como as suas ficam diminuídas e abatidas, e ao fim, bem se vê quanto a Europa em tudo de bom excede a Ásia, pois como diz Gerónimo Cortez, (c) a Europa é terra muito temperada e conveniente para a habitação do género humano, porque é abundante em todo o género de mantimentos, e torna os homens temperados, de grandes entendimentos, e de maior ânimo e esforço que nenhuma outra parte do mundo, e assim Plínio (d) a chama sustentadora da população, vencedora de todas as gentes e avantajadamente a mais formosa de todas as terras da orbe; e Abraão Ortelin, na tábua da Europa, (e) depois de tê-la louvado muito, conclui dizendo que foi sempre tida pela mais excelente de todas as quatro partes do universo: Strabão e Casseano (f) afirmam o mesmo; João Botero (g) prova-o com boas razões: muitas traz João Bohemo (h) em seu favor, e outros autores lhe dão vários títulos que se eu quiser agora referir seria algo demasiado e sairia até do meu assunto: Mas pode-se ver em Volaterrano, Sebastião Munstero, Domingos Negro, Jorge Rithamero em suas geografias; e mais particularmente em Cristoforo, e Anselmo Ceias, Pio II, Gillelmo Gratarolo ao fim do seu livro De regimine iter agentium; Cherubin Stela, Jorge Meiero, e João Herbaceo, que todos tratam de suas coisas e excelências.

[ (a) - Barros dec I lib. 3 cap. ult.;
(b) - Ortel. in Teatro Orbis tab.]



EXCELÊNCIA II
Hispanha [Península Ibérica] é a Melhor Parte da Europa

Depois  disto está Portugal na melhor Parte da Europa, que é Hispanha [Península Ibérica], vencedora do mundo em todas as prerrogativas, e excelências de bondade do céu, fertilidade de terra, virtudes de homens, riqueza de reinos, conquistas, triunfos, títulos gloriosos pelos quais é chamada cabeça da Europa por muitos autores.


EXCELÊNCIA III
Portugal Está na Melhor Parte da Hispanha [Península Ibérica]

Havendo provado que a Europa é a melhor parte das quatro partes do mundo, e que Hispanha é a melhor delas na Europa, digo que Portugal está na melhor parte da Hispanha, o que se prova, porque havendo de considerar-se o princípio e cabeça do mundo donde esta ponta mais ocidental dele, como logo diremos, acontece que o Reino de Portugal está como cabela da Hispanha, e assim na melhor parte de toda ela. Ademais das grandes excelências que deste Reino provaremos no decurso deste tratado, concedem-lhe facilmente o primeiro lugar entre todas as terras.

1. A isto alega-se que somente Portugal, entre todos os Reinos da Hispanha, colocado à orla do mal está mais que os outros, e é parte muito principal e necessária para fazer um Reino excelentíssimo; como a experiência o demonstrou com vários exemplos de poderosíssimos monarcas, que por esta falta [de boa orla marítima] perderam muito nos seus Estados, e foram vencidos por reis mais pequenos, a quem bastou a vizinhança do mar para estarem em maior vantagem, e seus reinos mais enobrecidos; como na Europa vemos, que por esta razão excede nas forças de mar a Inglaterra, Holanda, Veneza, Génova, e o Turco, aos demais príncipes, que têm sua Côrte pela terra adentro; na Ásia os reinos da China, Mongol, o Nisamaluco, e o Hydalean são os maiores senhores que há, e contudo por suas Côrtes não terem portos marítimos são menos poderosos que os reis de Malabar, Dachem, Pan e Joas, e em África que os reinos de Argel, e venceram eles os Xerifes, por serem mais poderosos porque estavam estes metido por terra. Bem entenderam isto os romanos quando não temiam tanto Cartago pela grandeza e força dos cidadãos, quanto por estar aquela cidade junto ao mar, e por isso resolveram no Senado romano que por todas as maneiras se procurasse que Cartago fosse mudada para terra mais interior, (a) porque (diz Lúcio Floro) (b) pouco importava aos Romanos, que houvesse Cartago no mundo, se não estivesse na orla da água, como estava; nem aos próprios cartagineses se escondeu esta verdade, que enviando-lhes a dizer os Consules Lúcio Marcio, e Marco Manilio, que passassem a cidade 3 léguas mais para dentro de terra, mais desejaram morrer que fazer tal; e pela mesma razão os romanos destruíram Capua e Corinto, entendendo bem que só quem tivesse o senhorio do mar lhes podia tirar o império da terra, como o diz Túlio (c). Assim, é grande coisas estar um reino ou cidade em tal sítio. E quando os romanos se contentavam porque os cartagineses ficavam a mais de 3 léguas do mar, tendo-se os cartagineses recusado tanto que mais preferiam ver a sua cidade totalmente assolada, quanto pior é um reino estar com suas cidades, e Côrte, não a 3 léguas, mas 100 léguas, ou mais, terra dentro, longe do comercio marítimo? Elegantemente ficou provado por Manuel Severim de Faria (d), digníssimo Chantre da santa Igreja de Évora, um dos discursos políticos que com grande erudição compôs, no qual traz muitas coisas a este propósito, escusando-me de repeti-las por estarem ali tão bem ponderadas. E outro sim me escusa de alargar-me mais em prova do dito, o insigne testemunho que deu o grande Imperador Carlos V quando, vendo o socorro que lhe foi enviado de Portugal para a tomada de Tunes, e considerando o excelente porto da cidade de Lisboa, disse: "Se eu fosse Rei de Lisboa, em pouco tempo seria Imperador de todo o mundo". (e)

[(a) - Britto Monarch. Lusit. lib. I tit. 13;
(b) - Lucius Flor. lib. 2 cap. 15;
(c) - Tullias de lege Agraria contra Rullum;
(d) - Manuel Severim de Faria discurs. I;
(e) - Fray Nocolás de Oliveira en las grandesas de Lisboa trat. 4 cap. 4]


(continuação, IX parte)

22/10/14

FLORES DE HISPANHA, EXCELÊNCIAS DE PORTUGAL (VII)

(continuação da VI parte)


FLORES DA HISPANHA,
EXCELÊNCIAS DE PORTUGAL


CAPÍTULO
I
DO SÍTIO E BOM CLIMA DO REINO DE PORTUGAL

Novo Atelante, se não tão valente, tomo sobre os meus ombros tão pesada carga, como o primeiro: excelências de Portugal pretendo escrever, para o qual eram necessárias mais avantajados livros, Homeros, e Virgílios; pois à sua vista são pequenas as grandezas das antigas Babiónias, Troia, Atenas, Lacedemónia, Roma, e Cartago; limitado o esforço de Hércules, Hector, e Aquiles; humildes as victorias de Alexandre e Trajano, curtas as navegações dos Argonautas, Eneias e Ulisses, e tudo o que está escrito a respeito de deuses e semideuses vãos, heróis e nações insignes. Virtudes escreveu mais levantadas de Cipiões, Aníbais Lusitanos, Césares católicos, varões mais subidos; e sem invocar deidades falsas de Apolos, Minervas, ou Caliopes, espero que o verdadeiro Pai das ciências, fonte da eloquência, autor da sabedoria, pois honrou Portugal com tantos dons, dará entendimento para compreende-los, língua para distraí-los, pena para escrevê-los. (a) "Tuinquam, qui versus fons luminis, et sapientie diceris, atque superaminens principium infundere digneris super intelectus mei tenebras tua radium claritatis duplices, in quas natus sum a me removens tenebras, peccatum scilicet, et ignorantiam; qui linguas infontium facis esse disertas, linguam meam erudios, atque in labiis meis gratiam tuae benedictionis infundas." (b)

É tão grande a obrigação dos reis que, por encarecimento, basta dizer que em todas as virtudes devem exceder aos restantes homens: (c) e assim diz a Sagrada Escritura, (d) que Saúl por divina eleição foi escolhido para Rei porque era bom e não havia outro melhor entre os filhos de Israel; e também Ciro rei dos Persas, que por ser gentio dizia que não era merecedor de ser Rei, senão aquele que fosse melhor que os vassalos, e segundo isto, sendo perguntado a Alexandre na hora da morte a quem deixaria por herdeiro da sua Monarquia, (e) respondeu que ao melhor, e mais digno, e assim a coroa de ouro, que depois da de prata, e da de ferro se costuma colocar no Imperador da Alemanha, não é outra coisas senão significar que a mesma vantagem que aquele leva aos relativamente aos outros metais é a que deve ter o Imperador nos quilates da virtude, e da Fé para com Deus e para com os homens e a todos.

[(a) - Ovidius metam. lib. I, in principio ibi Dii eaepris nam vos murastis, et ipsas, ad spirate meis); (b) - D. Thom. de Aquin. in Orar. ante studium.]
[(c) - Flav. Veget. de remilit. in praefat.;
(d) - I  Reg. cap. 9;
(e) - Quint. Curt. lib. ult. de rebus Alexandi.]

1. Por estes e outros trabalhos, e cargos, que o reinar traz consigo, e tanto exageram os que escrevem materiais (f) de estado, disse Saturnino Augusto aos que lhes vestiam a púrpura imperail: "Nescitis, amici, nescitis, quid mali sit imperare, gladii nostris impendent cervicibus, imminent (hastae?), timentur hostes, comites formidantur." Vós sabeis, amigos, o mal que é reinar; as espadas, e lanças estão pendentes sobre nossas gargantas, tememos os inimigos, e dos nossos próprios companheiros nos acautelamos: (g) e o Rei Antigono advertiu ao seu filho, que o reinar não era outra coisa senão uma explêdida servidão, (h) porque não é o Reino, e posto por causa do Príncipe, e governador, senão o governador por causa da população a quem serve continuamente como pastor ao gado.

[(f) - Plato Dionys. propinquis epist. 7 Xenophon. Lib. I de paedia Cyri. Cornel. Tacitus lib. I Flavius Vopiscus in Aureliano. Simancas de republica lib. 9 C.I.;
(g) - Refert Doctor Valensula de statu, ac belli rat. I p. consider I n 49;
(h) - Lisian. lib. 2 de var. hist. c. 20]


2. Sendo assim, como o homem naturalmente foge àquilo que lhe faz peso, pouquíssimos temos visto que fogem, antes não desejassem o trabalho de reinar, e senão digam-no as histórias se houve batalhas por alguém querer abandonar seus reinos, ou por adquirir outros de novo, ainda que fossem os alheios? O que se sabe é que quando os Imperadores Dioclesiano e Maximiniano renunciaram ao Império, e quando Messala e Cipião o maior deixaram o governo, e o turco Amurates, e os Imperadores Michael Coruplates, Matuel, João Catecuseno, e Locário, os reis Pedro de Inglaterra, Rachis de Longobarda, Dom Bernardo, e D. Afonso o Monge das Astúrias, e os Príncipes Judoco da Bretenha, e Forefo de Hibernia monospresaram os impérios, reinos, e principados; admirou sua resolução ao mundo, e a do grande Imperador Carlos V, foi sua maior bonança.

3. Mas, certamente, os desejos de reinar têm muita desculpa, e há fartas razões para creditá-los; considerando, entre outras, a grande excelência dos reis, muito cobiçável, pois é tal que deles diz Platão, induzindo a Sócrates, (i) que Deus, ao criar os homens, misturou ouro na matéria da qual havia de fazer os Príncipes e prata àquela com que haviam de fazer nascer os Conselheiros, Senhores, e Cavaleiros para ajudar o Príncipe, e ferro à matéria dos lavradores e oficiais. Outro (l) antigo disse que o Rei era um homem mais divino entre todos, muito eminente à comum natureza, porque ainda que em corpo seja semelhante aos demais, como nascido da própria matéria, é contudo fabricado pelo melhor artífice, o qual o fez tomando o traço e o exemplo de si mesmo. Plutarco (m) escreve que os Príncipes são ministros de Deus para o cuidado e saúde dos homens, para distribuir e guardar os bens que Deus lhes deu; e mais abaixo volta a repetir que o Príncipe é simulacro de Deus, que todas as coisas administra; porque assim como Deus no Céu constituiu o Sol e a Lua por simulacro seu, assim na república o Príncipe é imagem e lume que defenda a justiça de Deus; e noutra parte afirma (n) que somente os reis (e não os homens particulares) são discípulos de Deus; Diotogenes afirma (o) que o Rei é uma lei viva que entre os homens representa a figura de Deus; Stobeu chama-lhe obra única (p) e excelente imagem do Soberano Rei, familiar ao seu criador, lume, ou luz resplandecente entre seus súbditos e vassalos: mas todos os renomes, títulos, e louvores com que os autores (q) encarecem a dignidade e grande excelência dos reis, ficam muito atrás do que disse o Apóstolo (r) que os chama ministros de Deus e filhos adoptivos de Deus, e em várias partes das divinas letras são chamados Vice-reis e substitutos de Deus, ou melhor dizendo, ministros seus principais, (s) que é a razão porque S. Pedro encomenda tanto aos homens o respeito, veneração, e obediência, que devem aos reis, (t) o qual tinham já encomendado os autores (u) gentios apenas com o lume natural, sem conhecer a Deus; e o punham aqueles antigos por obra, de tal foram que tendo o Rei da Pérsia mandado açoitar a um, o condenado agradeceu-lhe muito, tendo por grande mercê e favor que o Rei se recordasse dele, ainda que fosse para mandá-lo acoitar. (x)

Havendo então tanta razão para estimar o reinado entre os homens, a mesma [razão] existe para ser apreciado entre as terras, porque se houver alguma delas rainha das outras, farto argumento terá para seus louvores, porque se o rei Teodorico disse que não era necessário mais benefício de Artemidoro (y) que tê-lo a ele como privado e estimado seu, antepondo-o aos outros, pois podendo ele buscar o melhor entre milhares de homens o tinha escolhido a ele, com mais justa causa se pode afirmar que, quando Deus constitui alguém por rei e superior de outros, o julgaremos por melhor e mais digno para aquela alta dignidade; como de Saúl se dá a entender na Escritura. E conforme a isto, falava Leónidas, Rei dos Espartanos, ao dizer (z) que se não fosse melhor que os outros não teria chegado a rei. Não nego que algumas vezes sucede ao contrário, mas falo do que é ordinariamente e segundo boa razão deve ser. E assim meu intento é provar nesta primeira excelência, ou capítulo, que Portugal está na melhor parte do mundo e de tal modo colocado que parece rei e senhor de todo ele, que pois reinar sobre outros para tantos fundamentos é coisa para estimar, justo é começar por aqui os louvores de Portugal; para o qual digo desta maneira.

[(i) - Plato do I pub. 3;
(l) - Ecphates apud Stobaeum serm 47;
(m) - Plutarch. in lib. de doctrina Principis;
(n) - Plutarch. Lib. de disput. Philos;
(o) - Diotog. in lib. de Regno;
(p) - Stobaeus in admonition. de Regno serm. 48;
(q) - Refert Simanch. de republ. lib. 3 c. 6;
(r) - Rom. I 3 & 8;
(s) - Refert Belarmin. de officio Principis lib. I c. I;
(t) - D. Petrus prioris Epist. c. 2;
(u) - Taleucus in procemio legu. Carondas in procemiis legu. Plutarch. in Termistoch;
(x) - Stobaeus serm. de legibus;
(y) - Cassiodor. lib. 1 Epist. 43;
(z) - Refert Valens de statu, ac belli rar. 2 p. confid. 11 n.8]


(continuação, VIII parte)

21/10/14

FLORES DE HISPANHA, EXCELÊNCIAS DE PORTUGAL (VI)

(continuação da V parte)


ÍNDICE
DOS CAPÍTULOS CONTIDOS NESTE LIVRO

Ap. I. Do sítio e bom clima do Reino de Portugal (pag. 1)
Cap. II. Da formosura dos campos, rios, e fontes de Portugal (pag. 10)
Cap. III. Da fertilidade da terra, assim na produção, e criar gente, como em gados, mantimentos e todos os frutos. (pag. 14)
Cap. IV. Das riquezas. (pag. 22)
Cap. V. Das grandes prerrogativas da Monarquia de Portugal. (pag. 28)
Cap. VI. Da boa disposição, e preferência da pessoa nos portugueses. (pag. 47)
Cap. VII. Da nobreza. (pag. 54)
Cap. VIII. Do engenho. (pag. 64)
Cap. IX. Da Religião. (pag. 84)
Cap. X. Da administração de justiça e bom governo de Portugal. (pag. 136)
Cap. XI. Da honestidade. (pag. 143)
Cap. XII. Da verdade nos portugueses. (pag. 149)
Cap. XIII. Da fidelidade dos portugueses. (pag. 155)
Cap. XV. Do agradecimento nos portugueses. (pag. 240)
Cap. XVI. Da liberdade e magnificência. (pag. 247)
Cap. XVII. Da magnanimidade e constância dos portugueses, e confiança de si mesmo. (pag. 252)
Cap. XVIII. Da paciência dos portugueses. (pag. 255)
Cap. XIX. Da clemência e humanidade dos portugueses. (pag. 257)
Cap. XX. Da temperança, sobriedade e abstinência. (pag. 260)
Cap. XXI. Dos costumes em geral dos portugueses. (pag. 263)
Cap. XXII. Da bondade da fala ou língua portuguesa. (pag. 267)
Cap. XXIII. Do muito que Portugal foi sempre estimado de Deus, e dos homens. (pag. 275)
Cap. XXIV. No qual se dá fim a este tratado. (pag. 284)

(continuação, VII parte)

FLORES DE HISPANHA, EXCELÊNCIAS DE PORTUGAL (V)

(continuação da IV parte)

LICENÇAS

DO S. OFÍCIO

Por mando do Supremo e geral Conselho da Santa Inquisição, vi este livro intitulado Flores de Espanha, Exclências do Reino de Portugal, autor António de Sousa de Macedo: não tem coisa alguma contra nossa santa Fé e bons costumes, antes, é muito para estimar, porque trata com singular estilo as grandezas, obras maravilhosas, feitos heróicos, milagrosas victorias, conquistas admiráveis dos inconvencíveis portugueses, desde seu princípio até nossos tempos, muitas das quais coisas estavam já como sepultadas e agora de novo serão manifestas ao mundo todo, e com esta memória e lembrança cobraram muitos e usaram de seu natural esforço, ânimo, e generosidade para que de todo se não acabem de sepultar; coisas que a todas as nações puzeram em admiração e espanto, que com santa glória de Deus aumentaram por todo o universo a santa Fé Católica. Pelo que todos temos obrigação de nos mostrarmos muito agradecidos, e darmos muito grandes louvores a tão insigne, e excelente Autor, pois logo na flor de sua idade tomou por empresa honrar e engrandecer sua pátria e aos naturais dela, os quais podem ter muita confiança que sairá com previdade com as mais obras que promete. E assim se lhe pode dar licença para com estasair à luz, para proveito de todos aqueles que a lerem. Lisboa, no Mosteiro de N. Senhora do Desterro da Ordem de S. Bernardo no primeiro dia do mês de Agosto do ano de 1630.
O Doutor Fr. Melchior de Abreu 

Vistas as informações, pode-se imprimir este livro, e depois de impresso torne conferido com o original para se dar licença para correr, e sem ela não correrá. Lisboa, aos 27 de Agosto de 1630.
Gaspar Pereira, Dom Miguel de Castro, Fr. António de Sousa

DO ORDINÁRIO

Dou licença para se poder imprimir este livro intitulado Flores de Espanha, Excelências do Reino de Portugal. Lisboa, em 2 de Setembro de 1630.
João Bezerra Jacome, Chantre de Lisboa.

DO PAÇO
SENHOR:

Este livro que V. Majestade me mandou rever de António de Sousa de Macedo, não tem coisa que possa encontrar a honra ou crédito deste Reino, assim porque seu intento não é outro senão dar verdadeira notícia de suas muitas excelências, como porque o faz com tanta eloquência, erudição, e curiosidade: sendo apenas de vinte e dois anos perfeitos; que não é das menores excelências do mesmo Reino ser pátria de um sujeito que antes de chegar à flor da idade nos dá tão copiosos frutos do seu engenho. pelo que me parece merecedor não só da licença para a impressão do livro, senão de muito louvor, e agradecimento, pela composição, e matéria dele. Almada, 19 de Setembro de 1630.
Diogo de Paiva de Andada.

Pode-se imprimir este livro, vistas as licenças do Santo ofício, e Ordinário, e a informação que se houve correrá sem tornar à Mesa apra se taxar. Em Lisboa, 25 de Setembro de 1630.
Araújo Cabral, Pimenta de Abreu, Salazar, Barreto.



LICENÇAS

DO S. OFÍCIO

Podem-se imprimir novamente os livros de que se trata, constando que foram já impressos com licença do Santo ofício; depois do que, tornarão conferido à Inquisição de Coimbra, para se lhe dar licença que corram, sem a qual não correrão. Lisboa Ocidental 19 de Outubro de 1736.
Lencastre, Teixeira, Silva, Soares, Abreu.

Os M. RR. PP. MM. DD. Fr. Cristóvão da Cruz, e Fr. Nuno da Rocha, Qualificadores do Santo Ofício, vejam este livro, e informem com seu parecer. Coimbra em Mesa, 27 de Maio de 1737.
Amaral. Vilasboas.

ILUSTRÍSSIMO SENHOR:

Esta Armonia Política, composta por António de Sousa de Macedo, bem mostra ser obra sua, pela muita erudição, eloquência, e ciência, que em si contém. Não me parece que haja nela coisa alguma contra a Fé, ou bons costumes. Coimbra, 13 de Junho de 1713.
Fr. Cristóvão da Cruz.

ILUSTRÍSSIMO SENHOR:
Por ordem de V. Ilustríssima vi o livro intitulado, Armonia Política dos Documentos Divinos Com as Conveniências do Estado, autor António de Sousa de Macedo, entre os portugueses escritores de louvável nome, e de erudição não vulgar, em cujo talento as letras Divinas, e humanas, a ciência de um, e outro direito, o político, e o moral formam tão grata consonância, que todas as suas obras se podem intitular Armonia. Esta, que é a mais dificultosa de assinar, pela delicadeza dos ouvidos a quem toca, fica ajustada com tanta proporção, que nem a Fé, nem os costumes percebem mais, que conformidade com as leis de um político cristão. Assim o julgo, Salvo meliori judicio. Coimbra, Colégio de S. Jerónimo, 20 de Junho de 1737.
Fr. Nuno da Rocha

Vistas as informações, pode-se tornar a imprimir este livro. Coimbra em Mesa, 20 de Junho de 1737.
Pais, Vilasboas.

DO ORDINÁRIO

Pode reimprimir-se os livros de que se faz menção nesta petição, mas não correrão sem serem conferidos. Coimbra, 24 de Julho de 1737.
Rebelo

DO PAÇO
Que possa tornar a imprimir os livros de que trata, e depois de impressos tornarão à Mesa para se conferirem, e taxar, que sem isso não correrão. Lisboa Ocidental, 3 de Agosto de 1737.
Pereira, Teixeira.




Está conforme com o seu original. Coimbra, Colégio de S. Jerónimo, 8 de Setembro de 1737
Fr. Cristóvão da Cruz

Pode correr. Coimbra, 9 de Setembro de 1737
Amaral, Vilasboas

Pode correr. Coimbra, 10 de Setembro de 1737
Rebelo

(continuação, VI parte)

20/10/14

FLORES DE HISPANHA, EXCELÊNCIAS DE PORTUGAL (IV)

(continuação da III parte)

AO AUTOR DAS EXCELÊNCIAS DE PORTUGAL

SONETO
De Dom Francisco Manuel de Mello

Quando envolto nos míseros cuidados
De Portugal o Reino se lamenta,
Quando a fortuna desigual intenta
Mentir-lhe glórias, e usurpar-lhe estados;

Vossa pena com termos levantados
Excelências da pátria representa,
Com que por vossa pena a pátria aumenta
Méritos nas desgraças sepultados.

Acção, que eternamente celebrada
Será, porque com alta providência
Hoje fazeis a lástima oportuna;

Pois ficando na perda acreditada,
Veja o mundo que há sido esta excelência
A razão principal desta fortuna.




SONETO
De Sebastião da Costa, ao mesmo.

Em vós a si se vence a natureza
Prodígio seu, por termos mais que humanos,
Pois com a prudência excedeis os anos,
Com o engenho admirais a subtileza.

Mais vos deve a origem portuguesa,
Que a seus primeiros Gregos, e Romanos,
Que a grandeza de antigos Lusitanos
Hoje escrita por vós é mais grandeza.

Tão heróicas virtudes, quão pequena
Parte do mundo encerra, que ainda aspira
A Monarquia de um ao outro pólo.

Para escrever-vos deu Tácio a pena,
Para cantar as musas vos dão lira,
Mas que muito se sois filho de Apolo?

(continuação, V parte)

FLORES DE HISPANHA, EXCELÊNCIAS DE PORTUGAL (III)

(continuação da II parte)


AO LEITOR

Não bastam a um Reino as heróicas virtudes dos seus naturais para ser famoso, caso lhe faltem escritores que as publiquem; porque a memória daquelas com o tempo (como tudo) acaba-se, e estes fazem com que viva externamente livre das leis do olvido; o qual por experiência vemos em muitas monarquias, que antigamente houve, e umas pelo cuidado que tiveram seus escritores, conservam até hoje sua fama, outras por esta falta estão tão esquecidas como se nunca tivessem sido. Entre todas as nações que padecem nestas partes, é a portuguesa tão pobre de crónicas antigas quão sobrada de insignes virtudes e gloriosas façanhas, de que muitos livros poderiam estar cheios: coisa que deu motivo ao grande historiador João de Barros a fazer uma exclamação muito grande; mas em que os portugueses mostram mais seu ânimo, e alcançarão o maior triunfo jamais visto, pois não satisfeitos com ganhar as admiráveis victorias de que as quatro partes do mundo são testemunho, triunfaram do tempo, e do olvido, mostrando em conservar sua fama sem escrituras, que não têm poder os anos para diminuir um pouco a glória, que lhes é devida. Pois considerando eu o proveito que se segue aos reinos com escrever-se deles, e deixando fazer algum serviço à minha pátria, usando nesta parte mais de ofício de estrangeiro que de condição portuguesa, quis sair com este tratado de suas Excelências, vendo que há quem diz que tanto serviram os autores romanos a sua cidade em escrever sobre as suas coisas, como Scevola, e os Décios em oferecer-se por ela a voluntários perigos. Bem sei que isto não irá com aquela elegância que deveria, mas não me parece que faço agravo à minha pátria, porque suas excelências são tão claras que não as poderá escurecer o mais nublado estilo, e basta que sirva meu propósito de mover a outros a que com mais levantado engenho façam o mesmo; porque o prémio que mais estimarei de meu trabalho será ver-me vencido por troco deste Reino ficar mais louvado e com o que se lhe deve mais engrandecido.

Para fazer esta obra consultei os autores possíveis, tudo o que digo é fundado nas suas autoridades, que vão alegadas o mais que pude, pretendi que fossem estrangeiros porque os naturais não pareçam suspeitos; contudo, muitos dos que alego são portugueses, por não poder ser menos, visto que estes tratam mais particularidades que servem ao meu intento do que os estrangeiros, que apenas tocam no geral, não falam: mas nem por isso terá menor crédito o que eu escrevo fundado neles, pois além de ter os seus escritos tão boa opinião de verdadeiros, que ninguém se atreva a dizer o contrário, é certo que os historiadores naturais merecem mais crédito no que toca às suas pátrias, que os estrangeiros. Se algum escritor achar que vou eu contra a sua opinião, no tem que incomodar-se quando eu na reprovação usar de bom termo e não fizer mais que dizer o que melhor me parece, cumprindo com a obrigação que cada um tem; contudo, poderá quem quiser contrariar o que digo, estando certo, que se suas razões me parecerem boas, não irei contestar se também não me lo parecerem assim, hei-de responder com a brevidade que convier estando algum, antes com muita alegria, porque não há coisa, que lhe dê maior, que tais competências entre curiosos.

Mormente, peço perdão aos que lerem, ou então emendem os erros que encontrarem fora de meus desejos, advertindo que encobri-los,e desculpar faltas de sábios, e o contrário de ignorantes; e quando em vinte e dois anos, que tenho somente de idade, dou princípio com este tratado a escrever, e sair à luz com outro de diversas matérias curiosas, razão parece que espere todo o favor possível.

A satisfação de um só ponto, em que poderá considerar-se alguma nota, quero dar aqui. Poderão dizer-me que sendo o título deste livro Flores de Espanha, Excelências de Portugal, não trato nele de algum outro reino de Espanha, senão em ordem a Portugal, e assim parece que não concorda o título com a matéria, e que poderia tirar-se o nome de Flores de Espanha, à qual, deixadas outras respostas, digo, que como Portugal é parte tão principal de Espanha, escrevendo eu as Excelências deste Reino, escrevi Flores de Espanha, e deste modo está muito bem o título, pois as Excelências de Portugal não há dúvida, que são Flores de Espanha.




(continuação, IVparte)

FLORES DE HISPANHA, EXCELÊNCIAS DE PORTUGAL (II)

(continuação da I parte)


AO REINO DE
PORTUGAL,
O Autor.
Mui Alto e Poderosíssimo Reino, Soberana Monarquia.

Se Alexandre não consentia que lhe restasse senão o famoso Apeles, nem esculpisse sua figura, senão Lysipo, ou Pirgoteles, escultores insignes, parece que com tanta mais razão deveriam proibir-me retratar vossas excelências, quanto elas são superiores ao sujeito de Alexandre, e eu inferior aos eminentes homens a que seu retrato não era concedido. E se o mesmo Alexandre com haver outros grandes cronistas, e poetas, suspirava por Homero, como que só ele fosse merecedor de cantar seus feitos, e o enviava tanto a Aquiles, com maior causa serei eu julgado por indigno de cantar as notáveis bonanzas dos Portugueses, tão avantajadas às de Alexandre, como umas e outras publicam. Mas, a verdade é que quanto mais levantadas são as coisas coisas, tanto menor pluma basta para escrevê-las; e quando as dos outros são mais humildes, quanto maior engenho será necessário para engrandecê-las; porque escreveu que faz a matéria, e matéria que dá lustre ao que a escreve. As histórias de Alexandre, e de outros célebres antigos, têm necessidade de Lívios, Tácitos, Homeros, e Virgílios, que com sua elegância as ordenem: as vossas honram e enobrecem as rudes línguas que as contam. Da mesma maneira, para retratá-los bastam grossos pincéis, quando outros hão necessidade Apeles, Pyrgoteles, e Lysipos; porque se o pintor for mau, o retrato fica faltoso em algo, que de uma pessoa formosa faz feia: mas aquele que o retrate, ainda que erre em várias partes, bastará uma só na qual acerte e dará à obra tal lustre que, como Sol com sua claridade, cobrirá todas as nébulas das falhas, se bem que estes nunca será necessário cobri-los, pois sempre serão formosos, se segundo o nome de retrato em algo forem parecidos.

Olhadas então estas razões, deitei fora os temores que para sair com este tratado me tiravam o ânimo, confiado em que com tão grandioso assunto minha anserina voz parece cisne: e quando eu não acerte em parte alguma aos vossos louvores, não se me pode a mim atirar culpa, senão a vós, que com tantas e tão esclarecidas excelências fazeis que a oração mais eloquente e composta seja nada a respeito da vossa grandeza, como a semelhante propósito diz S. Cirilo Alexandrino na dedicatória do seu livro da excelência e rectidão da fé, desculpando-se nos louvores da Emperatoris Gala Placidia, e Pulquéria, irmão do Imperador Teodósio, e perdoais se deixada a a excelente língua portuguesa, escrevo na castelhana, porque como a minha intenção é apregoar-vos por todo o mundo, é usado desta por mais universal, e porque também os portugueses sabem estas excelências, e assim para eles não é necessário escrevê-las.

(continuação, III parte)

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