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30/03/13

DOMINGO DE PÁSCOA - Sermão de Sto. AFONSO DE LIGÓRIO


DOMINGO DE PÁSCOA

- Desgraçado Estado da Recaída -
"Não temais; buscai a Jesus Nazareno que foi crucificado; ressuscitou, não está aqui"
 (Marcos 16. 6)

Espero, ó cristãos, meus irmãos, que, no Santo dia da Páscoa em que Jesus está ressuscitado, estejais também ressuscitados da morte do pecado pela confissão. mas tomais atenção ao que diz S. Jerónimo, que muitos começam bem e poucos perseveram: "Há muitos para começar e poucos para perseverar". Além destas palavras, o Espírito Santo avisa-nos que, não é o começo de boa vida mas sim a perseverança que nos salva: Quem perseverar até ao fim, este será salvo (Mat. 24, 13). A Coroa do Paraíso, diz São Bernardo, é somente prometida àqueles que começam; mas não é dada senão àquele que perseveram (Sermão 6, A Maneira de Bem Viver). Ora, meus irmãos, visto que estais determinados a entregar-vos a Deus, ouvi o que vos diz o Espírito Santo: "Filhos, entrando no serviço de Deus, preparai a vossa alma para a tentação." (Ecles. 2, 1). Não acrediteis que já não há tentações para vós. Preparai-vos, ao contrário para combater e guardai-vos de cair nas mesmas faltas das quais vos tendes já confessado; porque se perdeis de novo a graça de Deus, será mais difícil de a recuperar. Eis o que quero mostrar-vos hoje; O estado infeliz daqueles que cometem novamente as mesmas faltas que lhes foram remetidas na confissão.

1. Quando vos tendes confessado, cristão, meus irmãos, Jesus Cristo diz-vos tal como ao paralítico: Eis que estás são; não peques mais, para que não suceda coisa pior (João 5, 14). Pela confissão, a vossa alma foi curada; está curada, mas ainda não salva; porque se voltais ao pecado perdê-la-eis de novo, e o mal da recaida será muito maior do que o das quedas precedentes: Ouvi, diz S. Bernardo, é pior recair do que cair. Se, depois de ter sido curado duma doença mortal, se cai a recair nela, as forças estão tão esgotadas que, desta vez, é impossível restabelecer-se. Assim acontece àqueles que recaem no pecado: voltando ao vómito, sto é, voltando ao pecado que tinham como que vomitado na confisão, ficam tão fracos que tornam a ser boneco do demónimo. Santo Anselmo diz que o inimigo dos homens adquire sobre nós um tal império pelas recaídas, que a seguir nos faz cair e recair, como quer, de maneira que nos tornamos semelhantes a estas aves tornadas boneca nas mãos das crinaças, que lhes permitem elevar-se no ar de vez em quando, mas que de novo trazem consigo quando quiserem, puxando o fio que as prende. Assim lida o demónio com aqueles que recaem. Mas porque estão presos pelo inimigo, aqueles que volvem no mesmo vício, serão derrubados.

2. Lemos em S. Paulo que os inimigos que temos de combater, não são homens de carne e de sangue como nós, mas príncipes dos infernos: Porque nós não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas sim contra os Principados e Potestades, contra os Dominadores deste mundo tenebroso e contra os espíritos malignos espalhados pelos ares (Efesios 6. 12). Nesta passagem, avisa-nos que não somos assaz fortes para resistir aos poderes do Inferno, e que o auxílio de Deus nos é absolutamente necessário, sem o qual seríamos sempre vencidos. Ao contrário, quando Deus nos ajuda, tudo nos é possível e triunfamos, dizendo com o mesmo Apóstolo: "Tudo eu posso n'Aquele que me conforta." (Filipenses 4. 13). Mas este auxílio, Deus não concede senão àqueles que Lho pedem pela oração: "Pedi e vos será dado; buscai, e achareis, batei, e abrir-se-vos-á." (Mat. 7. 7). Aquele que o não pede, não o obterá. Assim não nos fiemos nas nossas boas resoluções; se buscarmos o fundamento nelas, estamos perdidos; mas quando estamos tentados de recair no pecado, invistamos toda a nossa confiança no auxílio de Deus que ouve sempre aquele que Lhe reza.

3. "Quem, pois julga estar de pé, veja se não caia." (1 Cor. 10, 12). Aquele que entrou na graça de Deus, deve, como diz aqui S. Paulo, estar atento em não recair no pecado, sobretudo se anteriormente cometeu pecados mortais; porque a recaída daquele que já perdeu a graça torna o seu estado pior que o primeiro: "E o último estado daquele homem torna-se pior do que o primeiro." (Lucas 11. 16).

4. Lê-se na Sagrada Escritura que o inimigo oferece sacrifício à sua nassa (para a pesca) e queima oferendas à sua rede, para que por elas é abundante a sua porção, e o seu manjar escolhido (Habacuc 1. 16). Estas passagens, S. Jerónimo no-las explica dizendo que o demónio tenta prender todos os homens nas suas redes, para os sacrificar à justiça Divina, operando a condenação deles; todavia não deixa enlaçar com novas correntes estes homens já presos, fazendo-os cometerem novos pecados; mas, seu manjar escolhido, a presa que ele prefere, são aqueles que se reconciliarem com Deus; Com estes ele redobra o esforço e tentação, para os trazer consigo à escravidão e os fazer perder o bem que adquiriram. S. Dionísio-le-Chartreux escreve: Quanto com mais força alguém se esforça em servir a Deus, tanto mais enérgico contra ele se enfurece o inimigo. Quanto mais um cristão se une a Deus e se esforça em seri-l'O, tanto mais o inimigo redobra de raiva e tenta entrar nas sua alma, donde foi expulso, dizendo, como se lê em S. Lucas: "Quando o espírito imundo saiu de um homem, anda por lugares áridos, buscando repouso. Não o encontrando, diz: voltarei para minha casa, donde saí." (Lucas 11. 24). E se conseguir entrar nela, não entra sozinho, mas com companheiros, para consolidar a sua posição aí, de maneira que este segundo cativeiro da alma seja pior do que o primeiro: "Então vai, toma consigo outros sete espíritos piores do que ele e, entrando ali, se instalam. E o último estado do homem torna-se pior do que o primeiro." (Lucas 11. 26).

5. Noutro lado, Deus irrita-se mais da recaída dum ingrato que o Seu amor chamou e perdoou, e que Ele o vê abandonar-se de novo ao pecado e renunciar à Sua graça, esquecendo a Sua misericórdia que Ele exerceu para com ele: Se Me tivesse ultrajado o inimigo, tolerá-lo-ia... "Mas tu, um homem igual a Mim, Meu amigo e familiar com quem partilhava comida doce." (Salmo 54. 13). Deus diz assim: Se tivesse sido ofendido por um inimigo, teria Eu menos indignação, mas ver que tu te viras contra Mim, tu que eu fiz sentar à minha mesa e alimentei com a minha própria carne, isso irrita-Me mais e leva-Me a punir-te. Ah! desgraçado, aquele que do estado de amigo de Deus no qual desfrutava de tantas graças, passa voluntariamente ao estado do Seu inimigo! Em breve, será atingido pelo gládio da vingança Divina: "E aquele que passa da justiça ao pecado, a este último reservou Deus para a romphaeam (espada longa)." (Eclesiástico 26. 27).

6. Alguém responderá: Mas se recaio, reerguer-me-ei prontamente, porque tenciono confessar-me logo. A este acontecerá tal como a Sansão, que enganado por Dalila, e despojado da sua cabeleira que fazia a sua força, dizia ao despertar do sono: "Desembaraçar-me-ei deles como das outras vezes. Ignorava Sansão, acrescenta a Escritura Santa, que o Senhor Se tinha retirado dele." (Juízes 16. 20). Contava libertar-se das mãos dos filisteus, como fazia até então, mas privado da sua força, foi reduzido por eles em escravidão; os filisteus vazaram-lhe os olhos primeiro e ecerraram-no carregado de correntes numa jaula. Assim o pecador, depois da recaída, perde a sua força de resistir às tentações, porque o Senhor Se tinha retirado dele: O Senhor abandona-o, e priva-o do seu auxílio, sem o qual não pode resistir, e assim o desgraçado fica cego e mergulhado no seu pecado.

7. "Ninguém, que depois de ter metido a mão no arado e olhar para trás, é apto para o reino de Deus." (Lucas 9. 62). Isto é a imagem do pecador que recai. Notai bem esta palavra ninguém: Ninguém, diz Jesus Cristo, que Me quer servir, e que volta para trás, é apto para entrar no paraíso. Origenes diz que juntar um pecado a um pecado  é juntar uma ferida a uma ferida (Orig. Hom.. 1. em Salmos). Se alguém apanha um golpe violento sobre um membro, com certezaeste membro não terá o mesmo vigor; mas se apanha ainda um segundo, o membro perderá toda a sua força, todo o movimento, sem esperança de ver as forças renascer. Eis o grande mal que a decaída causa na alma: que é o de a enfraquecer, e de deixar ficar impotente contra as tentações; São Tomás d'Aquino diz: "Cada pecado, uma vez perdoado, deixa sempre a ferida causada pela falta cometida." (1. Pars p. 86. art. 5). A tal ponto que se uma nova ferida se junta a uma passada, sesta última enfraquece a alma a tal ponto que sem uma graça especial e extraordinária do Senhor, é-lhe impossível resistir às tentações.

8. Trememos portanto, meus irmãos, para não recair no pecado, e não abusemos da misericórdia de Deus em continuarmos a ofender Deus. Santo Agostinho diz: Deus que prometeu o perdão ao penitente, não prometeu a graça de se arrepender. A contrição é um puro dom de Deus; se nos recusa este dom, como vos arrependereis? E sem arrependimento, como obtereis o perdão? "Cautela porque não se zomba de Deus: não vos enganeis: de Deus não se zomba" (Gal. 6.7). Santo Isidro diz que quem recai no pecado do qual se arrependeu, já não é penitente, mas zomba de Deus (S. Isidoro, De Summo Bono). Acrescentai esta palavra de Tertuliano: "Lá onde não há melhoramento, não houve arrependimento verdadeiro." (Tertull. De paenitencia).

9. S. Belarmino pregava assim: "Arrependei-vos pois, e convertei-vos, para que os vossos pecados sejam perdoados" (Actos 3.19). Muitos arrependem-se, mas não se convertem; têm alguns remorsos da sua vida desregrada mas não regressam a Deus sinceramente. Confessam-se, batem no seu peito, prometem emendar-se, mas sem tomarem uma firme resolução de mudar de vida. Aquele que toma uma firme resolução preserva nela, ou ao menos mantém-se longo tempo em estado de graça. Mas aqueles que, depois da confissão, logo caiem, mostram que se arrependeram mas não se converteram, como diz S. Pedro, e chegam por fim a uma morte funesta. S. Gregório escreveu: "A maior parte dos maus arrepende-se assim para a justiça, tal como a maior parte dos bons é tentada para a culpa." (Past. P. 3 Admon. 31). Quer dizer por isso, que da mesma maneira que os bons sentem muitas vezes tentações para o mal, mas sem pecar, porque a sua vontade está toda inclinada ao contrário; assim também os pecadores sentem inclinações para o bem, mas que não basta para determinar a sua conversão. O sábio avisa-nos que a misericórdia de Deus não está adquirida para quem comente confessa os seus pecados, mas para quem ao mesmo tempo, os confessa e se desapega deles. "Aquele porém que os confessar e se retirar deles alcançará misericórdia." (Provérbios 28, 31). Aquele portanto que depois da confissão continua a pecar, não obtem a misericórdia, mas morrerá vítima da Justiça Divina; Como aconteceu a um jovem na Inglaterra, segundo o que se encontra na história deste reino. Era possuído duam paixão desonesta, na qual recaía sem cessar, confessando-se e recaindo sempre; chegando à hora da morte, confessou-se de novo e pareceu morrer com os sinais da salvação. Mas quando um sacerdote Santo celebrava o ofício ou se preparava a fazê-lo para o auxílio da sua alma, o jovem apareceu-lhe e diz-lhe que estaca condenado; Acrescentou que ao instante da morte, apanhado por um mau pensamento, sentiu-se forçado a aderir a ele, como costumava fazer nos tempos decorridos, e assim se perdeu.

(Amanhã continuará, se Deus quiser).

04/06/12

Sto. AFONSO DE LIGÓRIO - RETALHOS DA "PREPARAÇÃO PARA A MORTE" (I)

Sto. Afonso de Ligório, Doutor da Igreja
e patrono dos advogados.
Ontem fiquei sentado à mesa em frente de um antigo colega e amigo, sacerdote diocesano, por ocasião de almoço festivo. Durante a conversa foi-me citada de memória uma frase de Sto. Afonso Maria de Ligório que, certamente serviria alguma intenção do sacerdote. A frase fazia advertências a um certo legalismo. 

Evidentemente que um sacerdote diocesano, jovem, não poderia entender tal frase sem conhecer a Lei a todos os filhos de Deus estão obrigados e comprometidos e, ao mesmo tempo, desincentivar o seguimento dessa mesma condição cristã tachando-a de legalismo!

Admirado com a citação, e sabendo eu que não é pessoa de memória extraordinária, julguei estar perante um conhecedor de Sto. Afonso de Ligório (já que a frase era de pouca importância no conjunto da obra deste Doutro da Igreja, o que fazia supor que o sacerdote saberia outras muito mais importes citações). Fiquei contente por achar que, finalmente, estava perante um jovem sacerdote diocesano estudante e admirador da obra de Sto. Afonso de Ligório.

Com alguma esperança e admiração quis explorar mais a situação e mencionei um livro deste grande santo "Preparação Para a Morte". Contei-lhe como tenho muita estima a esta obra e que lhe chamo "o meu bom livro de terror". Mas ele, afinal, não conhecia tal obra. Pensei então que a frase citada poderia vir do livro dos Sermões do mesmo santo. Mas... enfim, este sacerdote nunca leu nenhuma obra de Sto. Afonso de Ligório... mas sabia de memória uma frase isolada com a qual tentou conotar como legalistas os que tiverem por intenção de dar o crédito devido à Doutrina e ao Magistério.

Havendo hoje o terrível problema da rejeição na Doutrina daquilo que não convêm às más crenças, cai-se também em fazer semelhante com a vida e escritos dos santos (neste caso um Doutor da Igreja).

Dei uma reposta mais para o fazer pensar na situação em que o sacerdote acabava de cair, a da estranha importância dada a uma frase menor (e até fora de contexto) quando ignorava qualquer obra do mesmo Doutor da igreja que contêm frases muitíssimos mais importantes. Disse-lhe que, curiosamente, Sto. Afonso de Ligório é Patrono dos Juízes e advogados (...leis), e que as suas obras são doutrinalmente rigorosas, com muitas referências de autoridade... inferno é inferno, céu é céu, não fosse ele Doutor da Igreja.

Minutos depois disse-me que o problema hoje em dia passa pela falta de espiritualidade. E sim, é verdade que é este um dos frutos da ausência da Doutrina (sem a qual não há Fé). Esqueci-me de lhe dizer que a "Preparação Para a Morte" (que ele nem sabia da existência) é um dos clássicos da Espiritualidade Católica...

Assim vai o mundo...!

Hoje, ao acordar, lembrei-me de fazer a divulgação das frases mais significativas na "Preparação Para a Morte". E assim será, se Deus quiser.

Procederei à transcrição das frases (incluindo as que o santo Doutor também transcreveu), pela ordem de leitura do livro, assinalando a qual consideração pertencem.

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1 - Na Consideração I ("Retrato de um Homem, Pouco Depois da Sua Morte"):

"Ó Jesus, meu Redentor, bendito sejais por não me terdes mandado a morte, quando eu estava fora da vossa graça."

"Deixai-me tempo para lavar com as minhas lágrimas as ofensas que vos tenho feito, antes que venhais para me julgar."

"(Salmos 50, 19): Jamais desprezareis, ó meu Deus, um coração contrito e humilhado".

"Assim pois, ó meu Deus, tal será também o fim do meu corpo, deste corpo para cuja causa tantas vezes vos tenho ofendido; é nos vermes e no pó que ele há-de vir a parar!"

"... que a vossa imagem me seja apresentada pelo meu confessor à hora da morte;"

"Há muitos anos que a minha alma se tem entregado ao mundo e [por isso] não vos têm amado;"

"Pensai nisso: dentro de poucos anos, meses talvez, ou até dias, sereis apenas vermes e podridão. Este pensamento santificou Job: "Disse ao pó: tu és o meu pai, e aos vermes: vós sois a minha mãe e as minhas irmãs" (Job 17, 14)."

"Olha-te desde já como morto, diz S. Lourenço Justiniano, pois sabes que tendes de morrer, queiras ou não. (...) Para bem governar um navio, nota S. Boaventura, coloque-se o piloto na extremidade; assim o homem que quer governar bem a sua vida, a todos os instantes se deve considerar no seu derradeiro momento."

"Daí a exortação de S. Bernardo: Considerai o começo - os pecados da juventude, e envergonhai-vos; considerai o meio, - os pecados da vossa idade madura, - e gemei; considerai o fim, - os pecados, as desordens da vossa vida actual, e tremei, apressai-vos a dar-lhes remédio".

"Olhando os túmulos, dizia a si mesmo S. Camilo de Lélis: Se estes mortos pudessem reviver, que fariam pela vida eterna? E eu que tenho tempo que faço pela vida eterna?"


2 - Na Consideração II ("Tudo Acaba na Morte"): 

"São os homens desiguais no nascimento, dizia Séneca, mas tornam-se iguais na morte."

"Ó meu Senhor, visto que me tendes alumiado e feito compreender a vaidade e vazio de tudo quanto o mundo estima, dai-me também a virtude de renunciar a todos os bens transitórios, antes da morte vir despojar-me deles."

"Ó quanto a morte de S. Paulo ermita, que tinha vivido sessenta anos retirado numa gruta, foi mais suave que a de Nero, que vivera em Roma no trono imperial! De facto, sem ela que me aproveitariam todos os bens da terraHenrique VIII, cuja vida decorrera no meio dos maiores esplendores, mas também na inimizade de Deus!"

"De futuro, antes quero perder a própria vida que renunciar à vossa graça."

" Para merecerem tão bela morte, os santos deixaram tudo,  - a pátria, as esperanças que o mundo fazia brilhar aos seus olhos."

"[Sobre os mundanos] Cairá sobe eles a ameaça que Deus dirige aos pecadores: Haveis de procurar-Me e não me encontrareis (Jo. 7, 34). Não haverá então mais tempo de misericórdia e chegará o da vingança, conforme a advertência que nos é feita: Eu  vingar-me-ei, quando o tempo chegar (Deut. 32, 35)."

"À hora da morte, o espírito encontra-se fraco e obscurecido; o mundano tem o coração demasiado endurecido por um longo hábito de pecar;as tentações assaltam-no com mais violência do que nunca: como lhes resistiria ele, que quase nunca tentou fazer frente ao inimigo, antes no decurso da sua vida foi vítima passiva de frequentes derrotas?"

"E desde então consagrou-se por completo ao amor de jesus crucificado, e tomou a resolução de abraçar o estado religioso..."

"Na verdade quem pensa na morte não pode amar a terra. Porque tem o mundo tantos amantes? Porque esses infelizes não pensam na morte. "Ó filhos dos homens - diz-nos o  Espírito Santo - até quando continuarão oprimidos os vossos corações? Porque amais a vaidade e correis antrás da mentira? (Salm. 4, 3)."

(terá continuação)

28/09/11

STº. AFONSO MARIA DE LIGÓRIO - RESUMOS V

A BREVIDADE da VIDA


Da 3ª consideração
A Brevidade da Vida
"Quae est vita vestra? Vapor modicum parens" (Jac. 4,15) ("O que é a vossa vida? Um fumo aparecido por um momento")

I
Depressa chega a morte
"O que é a vida humana! O Espírito Santo a compara a um fumo que se dissipa ao menor sopro, e não volta. Ninguém ignora que tem de morrer, mas a ilusão dum grande número é imaginarem a morte tão afastada que quase se lhes afigura que não vem.

É um grande erro. Job nos adverte que a vida humana é curta: "O homem - diz ele - vive pouco tempo... é semelhante à flor que apenas desabrocha e é calcada aos pés": Homo brevi vivens tempore: quasi flos egreditur et conteritur (Job 14, 1).

10/09/11

STº. AFONSO MARIA DE LIGÓRIO - RESUMOS IV


A DESGRAÇA do PECADOR e VIDA FELIZ de QUEM AMA a DEUS


Da 21ª consideração
Vida Desgraçada do Pecador e Vida Feliz de Quem Ama a Deus

"Non estpax impiis, dicit Dominus" (Is. 48, 22) ("Não há paz para os ímpios, diz o Senhor ")
"Pax multa diligentibus legent tuam" (Ps. 118, 165) ("É profunda a paz dos que amam a vossa lei")

I
Não Pode o Mundo Fazer-nos Felizes

St. Afonso recorda-nos que todos trabalhamos para encontrar a paz ou a felicidade:
"É o objectivo dos esforços do negociante, do soldado, do litigante: afigura-se-lhes que, conseguida tal vantagem, realizado tal aumento, levado a bom termo tal processo, farão a sua fortuna e dela poderão gozar sem perturbações."

E exclama o Santo Doutor da Igreja:
"Ai, pobres mundanos! Pedem ao mundo a paz que ele não pode dar-lhes! Só Deus pode dar-nos a paz, como se exprime a santa Igreja nas suas preces: "Da servis tuis illam, quam mundus dare non potest, pacem."

Os bens do mundo não contentam o coração, pois o homem foi criado para Deus e não repousa verdadeiramente em menos. Já os animais encontram a paz nas coisas terrenas:
"Dai um feixe de feno a um cavalo, lançai um bocado de carne a um cão e ei-los contentes, nada mais desejam. Mas a alma criada para amar e viver unida a Deus, jamais poderá encontrar o seu repouso nos prazeres dos sentidos; só em Deus pode encontrar o limite das suas aspirações".

Do rico relatado nos Evangelhos e que tinha bens acumulados, que disse para si mesmo "repousa, come e bebe", diz St. Afonso lembra que dele o próprio Deus lhe pôs termo à vida terrena e lhe chamou insensato."

Pode o homem encher-se com os bens terrenos?

"Diz S. Bernardo, saciar-se deles, nunca. No seu comentário ao Evangelho que começa por estas palavras: "Eis que deixamos tudo", o mesmo Santo escreveu que observara loucos, possuídos de diversas manias, mas todos vítimas duma fome devoradora. Para saciá-la, uns engoliram terra, os avaros; outros aspiravam ar, os ambiciosos; outros, perto duma fornalha, atiravam à sua boca algumas fagulhas dela, os coléricos; outros enfim, à margem dum lago infecto, abeberávam-se de águas corrompidas, os impuros. Dirigindo-se depois aos escravos dos diferentes vícios, o Santo exclama: "Ó insensatos, não vedes que, longe de vos saciar a fome, essas coisas vos tornam mais famintos?""

Segue-se uma série de exemplos para os diferentes casos que, talvez, possamos resumir a: quanto mais água salgada se bebe mais cede se tem. Transcrevo a parte que toca ao avaro e do ambicioso:

"Vede o avaro: quanto mais ajunta, mais deseja amontoar: de modo que, segundo a expressão de S. Agostinho, o "dinheiro que se lança ao monstro da cobiça, não o enche, antes o dilata, aumentando-lhe a capacidade das entranhas." Do que toca ao ambicioso "quer sustentar-se com fumo, atendendo não tanto ao que possui como ao que lhe falta. Depois de ter sujeitado ao seu domínio tantos estados, gemia ainda Alexandre Magno, pelo resto do mundo que lhe faltava."

A experiência mostra que os ricos, com aparente razão para serem os mais perfeitamente felizes, acabam por não o ser, bem pelo contrário.

(faltam ainda o II e III)
Reze agora uma Avé-Maria

02/03/11

STº. AFONSO MARIA DE LIGÓRIO - RESUMOS III

DA PERSEVERANÇA


Nota ASCENDENS:
Porque me parecem necessários, e como há precedência, os resumos dos os escritos do Bispo Stº Afonso de Ligório irão ser apresentados numa série de artigos intitulada "RESUMOS - STº AFONSO DE LIGÓRIO". As citações que seguem, que estão dispostas e escolhidas de forma a resumir o texto original, são do livro redigido pelo Bispo Stº Afonso Maria de Ligório "Máximas Eternas" ou “Preparação Para a Morte”( pag. 361 a 365. Edição: Les Amies de Saint François de Sales - à venda na FSSPX de Lisboa e Fátima).


31ª Consideração
A Perseverança

"Qui perseveraverit usque in finem hic salvus erit (matth. 24, 13)" 
(Será salvo quem perseverar até ao fim)

I
Necessidade da Perseverança.
Meio de Defesa Contra o Demónio
""São muitos os que começam bem, mas poucos os que perseveram", nota S. Jerónimo. Bons foram os começos de Saúl, Judas e Tertuliano; mas o seu fim foi mau, porque não perseveraram no bem." Ora, continua o mesmo Santo, nos cristãos é ao fim que se entende e não aos começos."

"Lançaste pois a mão à charrua; começaste "a viver cristãmente, mas agora, mais que nunca, deveis temer e tremer: "trabalhai na vossa salvação com temor e tremor, diz ainda S. Paulo: "Cum metu et tremore vestram salutarem operamini (Phil. 2, 12)."

"Porque agora aplicais-vos a servir a Deus, não imagineis que já passou para vós o tempo das provações, pelo menos das mais duras; escutai o Espírito Santo que vos mostra o contrário: "Meu filho, visto que te decides em servir a Deus, conserva-te firme na justiça e no temor, e prepara a tua alma para a tentação." Sabeis pois: agora mais que nunca necessitais de vos preparardes para a luta, porque agora mais que nunca os vossos inimigos, que são o mundo, o demónio e a carne, armar-se-ão contra vós, para vos arrebatarem os bens que tendes adquirido. Quanto mais uma alma dá-se por completo a Deus, diz Dionísio Chartereux, tanto mais o inferno procura vencê-la."

"Noutros termos: Quando o demónio é expulso duma alma, não encontra repouso, e faz todos os esforços para reentrar nela; recorre até a auxiliares; e se é bem sucedido, a segunda ruína desta alma será muito mais funesta que a primeira."

"Com ela (a graça) nada nos é imposível: "Tudo posso naquele que me sustenta." [...] Essa graças, porém, Deus só as concede aos que lhe pedem: "Pedi e recebereis." [...] Quando o demóno nos assalta, só devemos esperar na protecção de Deus e assegurá-la, recomendando-nos a Jesus Cristo e à Santíssima Virgem."

"Assim pois, desde que as tentações façam sentir-se, é necessário recorrer sem demora a Jesus Cristo e à sua divina Mãe, invocando com frequência os seus nomes santíssimos. Quem assim o fizer vencerá; quem o não fizer está perdido."

(Faltam ainda o ponto II e III)

Reze agora uma Avé-Maria

16/12/10

STº. AFONSO MARIA DE LIGÓRIO - RESUMOS II

O AMOR de JESUS CRISTO POR NÓS e 
a OBRIGAÇÃO em QUE TEMOS de AMA-LO


Do sermão IV, 4º  Domingo do Advento
O Amor de Jesus Cristo Por Nós e a Obrigação em Que estamos de Ama-Lo

Mote: “E todo o homem verá a salvação de Deus” (Lucas 3.6)


“O Salvador do mundo profetiza pelo profeta Isaías que os homens O verão um dia nesta terra e todo o homem verá a salvação de Deus; Já veio, e nós vimo-Lo, não apenas conversando com os homens, mas também sofrer e morrer por amor de nós. Ficamos portanto hoje a considerar o amor que devemos ter a Jesus Cristo, ao menos por agradecimento do amor que Ele tem para nós. Daí veremos: 1º Quão grande é o amor que Jesus Cristo nos mostrou; 2º Quanto somos obrigados de amá-Lo.”

I
Quão Grade é o Amor que Jesus Cristo nos Mostrou

1.Referindo o que tinha escrito Santo Agostinho, Santo Afonso de Ligório diz-nos que Jesus veio para que o homem conheça a Deus e O ame a tal ponto que:
“… o amor infinito com que nos ama Deus, que se entregou todo por nós, aguentando todas as penas desta vida, a flagelação , a coroa de espinhos, enfim todas as dores e ultrajes que sofreu na sua Paixão, até morrer abandonado no lenho infame da Cruz. Amou-nos e entregou-se a si mesmo por nós (Gal. 2.20)”
2. Uma só gota do seu sangue divino bastariam para nos redimir, ou uma só oração ao Pai, pois elas têm valor infinito por causa da divindade de Jesus Cristo. Bastaria esse valor infinito para salvar mil mundos. Mas Deus procedeu de outra forma. Sempre assim foi ensinado e mostra o exemplo que disto dá São Crisóstomo:
“O que bastaria para redimir não basta ao amor. Para redimir seria suficiente, mas não exprimia o grande amor que tinha por nós. (…)quis não só derramar uma parte do seu sangue mas também derramá-lo inteiramente em muitos tormentos.  É o que significavam as palavras que pronunciou na vigília da sua morte. “Porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, que será derramado por muitos… (Mat. 26.28)
Portanto o amor de Deus, manifesto ali pessoalmente pela 2ª Pessoa da Santíssima Trindade, quis amar infinitamente, tanto que “Humilhou-se a si mesmo, feito obediente até morrer na Cruz” (Filipenses 2.8)

13/12/10

STº. AFONSO MARIA DE LIGÓRIO - RESUMOS I

DOS MAUS HÁBITOS

Retirei de um sermão de Stº. Afonso Maria de Ligório algumas passagens para proveito de quem aqui as ler. Recorri ao livro "Sermões (editado por "Les Amis de Saint François de Sales) da autoria do mesmo santo Bispo Doutor da Igreja, cujos escritos foram recomendados universalmente como de certíssima e clara doutrina.


Do sermão XX, 2º Domingo da Paixão
Domingo de Ramos 
"O Hábito do Pecado"

Mote: "Ide à aldeia que está defronte de vós, e logo encontrareis presa uma jumenta e o seu jumentinho com ela" (Mateus 21.2)
"[...] São Boaventura explica este trecho: Jumenta presa, designa o pecador; segundo o que diz o sábio, o ímpio é preso e encadeado pelo seu pecado mesmo: O ímpio é presa das suas próprias iniquidades e é ligado com as cadeias dos seus pecados (Prov. 5.22). Ora como Jesus Cristo não podia sentar-se sobre a jumenta enquanto ela estava presa, da mesma maneira não pode demorar numa alma encadeada nos seus pecados. Se portanto, meus caros auditores, encontra-se dentro de vós uma alma encadeada pelo hábito do pecado; que ouça esta palavra do Senhor que lhe é dirigida hoje: Desprendei-a e trazei-ma. (Mateus 21.2). Desata as cadeias do teu pescoço, cativa, filha de Sião (Isaías 52.2). Desprende-te, minha filha, desta corrente do pecado que te torna escrava do demónio, e fá-lo depressa antes que o hábito do mal apodere-se de ti e te impeça de te emendares e te conduza à tua perda eterna. Neste desígnio, vou demonstrar os maus efeitos do hábito do pecado; divido em três pontos o que vou explicar: 1º o hábito cega o espírito, 2º endurece o coração, 3º enfraquece as forças."

I
O Hábito de Pecar Cega o Espírito
1. Stº. Afonso refere-se ao ensinamento de S. Agostinho no que diz respeito ao "pecado habitual":
"O costume não permite ver o mal que os pecadores fazem. O costume de pecar cega os pecadores e impede-os de reparar, quer o mal que fazem, quer a ruína que provocam; vivem então como se nem Deus, nem o Inferno, nem o Céu, nem a eternidade existissem. Os pecados mais horríveis quando são habituais, parecem pequenos ou nulos. Como então a alma poderá evitá-los, quando já não sente a gravidade deles e o mal que eles provocam?"

3. Como trato de resumir, salto o ponto 2, e saltarei o ponto 4, e destaco no ponto 3 a "ideia núcleo":

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