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08/03/17

IMAGEM DE D. MIGUEL

Caros leitores,
 
temos o gosto de apresentar-vos uma "correcção" de certo retrato de D. Miguel. Sim, uma correcção quanto ao que deveria ter sido, e não foi (queira Deus haver disponibilidade para ´publicar uma crítica ao retrato original).
 
Aqui fica o nosso trabalho digital, ainda que inconcluso:
 
D. Miguel, o Tradicionalista

10/02/17

CONTRA-MINA Nº 45: Verdadeiros Interesses da Espanha ... (II)

(continuação da I parte)
 
Ora uma das primeiras necessidades, e por certo o maior interesse das almas generosas, é o de se mostrarem agradecidas aos seus benfeitores, quando estes sofrerem, e quando padecem; quando estão ameaçados de morte, é que mais cresce o empenho, e o desejo de satisfazerem uma dívida, que só é pesada aos corações vis, rasteiros, e degenerados...
 
Fernando I de Leão, o Magno
Temos acudido à Espanha todas as vezes que ela nos chamou, ou careceu do nosso auxílio. Portugueses, (e que Portugueses!) foram grande parte na tomada de Coimbra por Fernando Magno, assistiram à expugnação de Toledo, combateram em Alarcos, apressaram o rendimento de Sevilha, e derrotaram em 1340 um dos maiores Exércitos, que os Mouros puseram em Campo, e que tal medo incutira ao Rei Castelhano, que mandou expressamente a este Reino a Soberana sua Consorte, para que instasse com seu Augusto Pai o Senhor D. Afonso IV, a fim de que os Portugueses o livrassem do apuro, em que se via; e o nosso Poeta, que referindo este caso não desmente um só ápice a verdade histórica, põe na boca dessa aflita, e consternada Rainha as seguintes frases:
 
Por tanto, ó Rei, de quem com apuro medo
O Corrente Mulucha se congela;
Rompe toda a tardança; acude cedo
À miseranda gente de Castela:
Se esse gesto, que mostras claro, e ledo,
De Pai o verdadeiro amor asselha,
Acude, e corre, Pai, que se não corres,
Pode ser que não aches quem socorres.
 
Acudiu efectivamente o Rei Português, e seguiu-se a Victória do Salado. Mas para que é acumular sucessos antigos, de que por tantas vezes me tenho recordado neste Periódico? ... Os modernos têm sido muitos, e bem palpáveis, e sobejam para o caso presente, que por si mesmo demanda, e como exige dos nossos honrados vizinhos a mais estreita reciprocidade; mas caso dado, que a mais bem merecida gratidão fosse posta de parte, e que a Nação Espanhola, o que é incrível, nos desamparasse de todo, instam por outro lado motivos poderosíssimos, e dos quais mais costumam influir no coração humano, quero dizer, os interesses próprios; o que devereis expender um pouco mais largamente. Quem se persuadir, que o intento da Esquadrilha Maçónica é somente empossar-se de Lisboa, e do Reino de Portugal, não só poderá ser arguido de vista curtíssima; porém deverá ser chamado rigorosamente uma toupeira em assuntos, e matérias políticas... A tomada de Lisboa seria simplesmente um acessório, seria simplesmente um degrau, para subirem a coisas maiores. Já em 1820 se fez uma íntima aliança entre os Pedreiros Portugueses, e Castelhanos, e por sinal, que estes mandaram grandes somas, para que se efectuasse a Revolução do Porto em 1820... Desde então que se trata somente de se fazer uma espécie de maciço Liberal, um todo compacto, e unido, e que na Península das Espanhas haja um só Governo, e uma só Influência toda Maçónica, o que traz consigo necessariamente a deposição dos actuais Soberanos... Os Reis Fidelíssimos, e Católicos são estes Soberanos reprovados pela alta, e baixa Maçonaria, o que só de per si era bastante, para lhe conciliar o amor dos seus povos, e todo o empenho, que eles mostram pela segurança dos seus Tronos... Ainda em 1828 persistia a mesma ideia de se revolucionar a Península; e entre os papeis de um dos Generais da Tropa rebelde, se encontraram os mais decisivos argumentos, de que a desentronização dos Reis, fatais para a Maçonaria, isto é, do Senhor D. MIGUEL I, e do Senhor D. Fernando VII é, e nunca deixará de ser o alvo de todas as empresas Maçónicas, que disserem algum respeito à Península das Espanhas... Este segredo político, se ainda houver quem o trate, como tal, já deixou de o ser; e nas próprias Sessões do Parlamento Britânico, foi o Demosthenes Inglês, (hei de conservar-lhe o nome, que lhe deu o mais eloquente dos Portugueses antigos, e modernos) foi Lord Aberdeen, quem disse em voz clara, e inteligível, que o desígnio dos Liberais é fazerem D. Pedro de Alcântara, o ex-Defensor Perpétuo do Brasil, Rei, ou Imperador Constitucional das Espanhas, a quem D. Maria da Glória (acrescento eu) faria em Lisboa a mesma segunda, que o chamado Rei de Roma fazia a seu Pai Napoleão Bonaparte.
 
Daqui se vê, que o primeiro tiro, que a Esquadrilha disparar contra as fortificações, ou torres de Lisboa, deverá forçosamente ressoar até às alturas, até aos próprios cabeços das montanhas, que dividem a Força da Espanha; deverá ser o canhão d'alarme, que chame às armas todos os habitantes da Península, que forem capazes de as cingirem. Não venho a dizer com isto, que os Reinos da Espanha sejam necessariamente engolidos, em ar de almoço, pelos Exércitos Luso-Maçónicos. Dou muito pelos Voluntários Realistas de Espanha, onde não se come gato por lebre; dou muito pela firmeza, com que são mantidas invariavelmente as suas instituições políticas; dou muito pela nobre independência, com que se tem havido tantas vezes, a despeito de intrigas, e ameaças... dou tudo pela execução fiel do Plano "Anti-Maçónico, o mais simples e o mais terrível para a Seita. Metade na forca, e outra metade nula, fora dos Empregos, e sem o mais pequeno influxo, ou mostra de autoridade..". Nesta parte declaro-me absolutamente a favor dos Castelhanos, que ainda metidos entre dois fogos ostentariam as suas forças, e pode ser, que zombassem dos seus mais poderosos inimigos; o que tanto mais se reforça quanto é certo, que no caso imaginado, ou imaginário, que D. Pedro vencesse Portugal, teríamos necessariamente concluída em breves dias uma nova, e muito mais avultada emigração de tudo, quanto fosse verdadeiramente Português; e oferecendo os nossos braços, recursos, e vidas ao Rei Católico, ainda poderíamos tomar uma parte bem activa, e importante na Liberdade da Península.... Desenganem-se de uma vez os Leais Portugueses, e sirva esta ideia, não para lhes inspirar sentimentos de cobardia, e pusilanimidade; mas para lhes designar meramente, o que ainda nos resta nos casos mais infelizes, e desesperados.... Temos em a nossa retaguarda uma grande Nação Católica, e fiel ao nosso Deus, e aos seu Rei, e onde os Negros, ou Malhados nem sequer ousam abrir bico; onde os suspeitos são vigiados de contínuo, são excluídos da mais pequena governança, até nas mais insignificantes aldeias, e longe de porem pé em ramo verde, como fazem tantos, e tantos, que eu conheço em Portugal, nem sequer podem trazer consigo um triste canivete de aparar penas, visto que todas as armas, que toda a força, e autoridade está na mão dos verdadeiros Realistas único modo de quebrar as forças à Maçonaria, que tudo o mais é andar às cegas, ou perfeitamente às escuras, e em perigo contínuo de esmigalhar a cabeça, e perder a vida... Ora no meio de tudo isto não se pode negar, que terrível coisa é um mau vizinho ao pé da porta, e que certamente é do maior interesse para as Espanhas, que o ex-Defensor perpétuo do Brasil não chegue a ser Defensor momentâneo da Cidade de Lisboa... Muito enganada vem, ou quer vir a este Reino, a por muito desejada, Esquadrilha, que em seu próprio nome encerra a mais exacta, e verdadeira definição da sua índole, e dos seus principais intentos.
 
És: Quadrilha de Salteadores, que vens roubar, e por isso te acenam com os tinteiros, e castiçais de prata, em que esperas cavar a tua cobiça... És: quadrilha de Ladrões, que desejas continuar as pavorosas cenas, que se passaram desde 1820 até 1823, cresce-te a água na boca ao lembrarem-te aqueles 4800 réis diários, com que podias regalar-te, e até levantar casa de sobrado!! Comeste por uma vez... e como todos os bons Portugueses sabem optimamente, que és: quadrilha composta de aventureiros de todas as Nações, por isso ardem nos mais vivos desejos de te fazerem uma boa montaria, de que sairás, eu to afianço, bem escarmentada..... Ainda que sejas quadrilha numerosa, de uns 10$ [10.000?] como dizem, para este número sobejaram os chuços dos nossos Paisanos... e neste conflito não imitarás a sorte dos dez mil Gregos comandados por Xenofonte; e não se iluda o teu Comandante Grego com estas paridades Históricas, pois não há de escapar, nem meio; e tais migas aparecerão em nossas praias, que nem as do Campo de Alfarrobeira, que se fizeram do ensanguentado cadáver do malfadado Conde de Abrantes, lhe empatarão as vazas...
 
Desterro 11 de Janeiro de 1832.
 
Fr. Fortunato de S. Boaventura.
 
(Em o Número 44 deste Periódico Pag. 10 linha 32 onde se lê "Pio VIII" leia-se "Pio VII contra os Pedreiros Livres"; e pág. 11 linha 15 onde se lê "defender" leia-se "desfazer".)
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LISBOA
Na Impressão Régia. 1832
Com Licença

14/09/16

"ABSOLUTISMO" - CONTRIBUTOS PARA O SEU ESTUDO (II)

(continuação da I parte)


2 - Depois do monumental testemunho do Censor e Orador Régio Pe. José Agostinho de Macedo, escutemos o A Aurora Fluminense, 23 de Janeiro de 1829, nº 145, para comparar as ideias e o estilo:


"Depois de haver discorrido sobre o Infante, e seu regime diz [transcrevendo o  republicano e francês Courrier Français]: "O poder sacerdotal se colocou entre os governos, e D. Miguel: D. Miguel é um monstro, mas observa as práticas exteriores do Cristianismo; revoltou-se contra seu Pai, mas obedecia o seu confessor; atraiçoou seu irmão, e o monarca, que o havia acolhido, mas ofereceu candeeiros de prata a não sei, que Imagem célebre na Áustria; enganou os seus súbditos por um juramento derrizorio, mas ia de ajuste com um Bispo; banha-se sem sangue, mas protege os frades; mata os vassalos para lhes confiscar os bens, mas dota os conventos. É portanto o Rei modelo; o Príncipe piedoso, segundo o partido apostólico; o eleito das Sacristias; o ídolo dos beatos. Houve Te Deum pela sua subida ao trono, há bênçãos para cada um dos seus crimes: o reinado de D. Miguel é a Utopia do partido Padre-Realista."" [É esta a imagem horrenda que se fez circular no Brasil (que preferiu encontrar na França revoltosa de então o seu modelo e nova raiz). O tradicionalismo da época, se assim lhe podemos chamar, estava por D. Miguel quem não deixou derramar a nossa Monarquia; aos liberais isto cheirava a "sacristia" e "servilismo".]

3 - Continuando no mesmo número do A Aurora Fluminense:

- "Infeliz Reino [Portugal], tu e a Espanha são, como disse um profundo Político Francês [eu avisei...], vivos documentos do que traz consigo o regime absoluto! Todo o horror, que os Brasileiros têm ao Absolutismo, é ainda pouco; é mister que os nossos Compatriotas aprendam a amar a Liberdade, e a Constituição, tanto, como a própria existência; a serem de uma inabalável firmeza às ameaças e seduções do Despotismo." (pág. 619) [Ora cá está...ter que aprender a odiar o seu passado, os seus antepassados, somente tolerar seus antigos Reis e Príncipes "opressores" e "esclavagistas"... não vá a opressão seduzir os brasileiros, dizem!!! Esta manha, esta facada tão funda nas raízes, este ardil difamatório, esta forma baixa de enganar os brasileiros revolta ouvi-la hoje, séculos depois! Pobre Brasil, levado, seduzido pelas falsas liberdades a custo de difamação e vã esperança! Um falso Brasil a ocupar o verdadeiro, um outro! Escutemos o que segue... insólito...]

- "... um princípio comum produziu na mesma época os mesmos efeitos por essa vastidão do Brasil; este princípio é, como dissemos, o amor da Liberdade, natural nos Brasileiros (embora o Jornal do Comércio nos chame aduladores do Povo) e a educação começada do regime Constitucional, que vai melhorando sensivelmente o carácter da população, aperfeiçoando as ideias confusas de amor de Pátria, e de direitos cívicos que a pressão do absolutismo, e ao depois os choques da anarquia, tinham viciado, ou mesmo feito esquecer." (pág. 741) [É de voltar a ler a anterior, e tornar a esta, como se de um único texto se tratasse... Já que tivemos que permitir a fasquia da seriedade, que tal uma ironia? Cá vai: Hoje o Brasil sentiu a necessidade de se debater pelo debate da "escola sem ideologia"...!!!]

- "Se há esse espírito, atribua-se a culpa aos que governam (se não todos, uma grande parte) que parecem querer minar surdamente o Edifício Constitucional, e excitam suspeitas no Povo, que não quer perder as suas caras Liberdade. Trabalham em vão, porque o absolutismo é planta, que não vinga no nosso solo;" (pág. 767)

- "Diz B. P. que se deve ter mais cautela com o Republicanismo do que com o Despotismo; porque o salto dos nosso sistema para o do Republicanismo é mais breve, mais fácil, e separado apenas por um caminho, que os seus adoradores costumam semear de flores." [Não tinham descoberto que a "monarquia" constitucional, ou liberal, foi a forma de acabar com a monarquia existente!? Nos Reinos mais "absolutos" e menos danificados pela propaganda revolucionária quem teria aguentado a imposição de uma república!? Veja-se como os próprios liberais sabem do pequeno paço que os separa do Republicanismo. Mas... depois destas palavras escritas, é de ler a continuação na frase seguinte escrita pelo mesmo jornalista que tinha dito que a planta do absolutismo nunca poderia vingar no Brasil, porque o Povo não deixa... escutemos:] "Não sabemos se isto é exacto; porém é indubitável, que o salto dos nossos costumes, usos, hábitos, etc. é muito mais breve para o absolutismo, de cujos terros saímos há poucos anos;" [ora cá está quem se apanha mais rápido que um cocho.... arre liberais!!!] (pág. 808)

- "Apesar do que diz a Abelha, nós cremos que os Japoneses não aspiram por agora ao absolutismo puro; porém sim a tornar nulas na prática as Instituições liberais, tolhendo o livre exercício dos direitos cívicos, e fazendo conceber ao Povo falsas ideias contra os que defendem os seus foros e liberdades." (pág. 846) [Tanto receio que estes liberais têm dos "oprimidos" tentarem restaurar a "opressão" sobre si mesmos!!!... De seguida veremos como o uso da palavra "absolutismo" era panaceia contra tudo o que não fosse da sua linha e regime, qualquer um, como até a República.... Para os liberais brasileiros havia que meter medo com o "absolutismo"... eis o único "argumento" da sua incansável e medrosa campanha.]

- "O. Sr. Holanda Cavalcante disse que os absolutistas de hoje eram os mesmos [os próprios] republicanos, descontentes por não haverem saído Deputados." (Pág. 856) [vemos também como NUNCA é refutado ou criticado algum argumento da oposição, e se lhe inventam infantis fundamentos.]

- "; que não houvesse o menor temor de absolutismo, pois o Governo conhecia mui bem seus próprios interesses; que estava certo da impossibilidade de plantar-se no Brasil o Despotismo, até pelo progressivo aumento das luzes do século;" (pág. 899) [Ao contrário do que se dizia, dizem os de agora que os "absolutistas" eram inspirados pelo iluminismo; na verdade o liberalismo, o iluminismo, a maçonaria, estes sim sem dúvida alguma são farinha do mesmo saco; assim os documentos da época o PROVAM. Os maiores vultos da língua portuguesa que se insurgiram contra o iluminismo e a maçonaria, no início do séc. XIX escreveram aceitando a alcunha de "absolutistas", e foram contra o Constitucionalismo, e Liberalismo. Do lado dos liberais, nesta altura, nem um cálamo houve que ousasse ir contra a maçonaria e iluminismo! A maçonaria que se espalhou rapidamente então por todo o Brasil, ela sim é difusora das "luzes" contra a "opressão absolutista"... (são factos registados na documentação da época)! É assim... não de outra forma... está escrito abundantemente em fontes, independentemente da vontade e habilidade dos autores posteriores. O Marquês de Pombal foi o delírio da maçonaria: anti jesuítico, anti inquisitório, importador e cultor das "luzes"]

- "A Espanha e Portugal (disse Depradt) à maneira desses condenados, que se penduram nos caminhos, para correcção, e exemplo dos facinorosos, mostraram hoje à Europa e ao Mundo o que é o regime, que por irrisão intitulam "paternal" [trata-se da restituição da monarquia segundo o tempo anterior às revoluções liberais e republicanas, que foram eclodindo por todo o lado]. Não acumulamos declamações vãs: os factos estão diante dos olhos; e os extracto de um Jornal de D. Miguel não podem ser suspeitos. O Correio do Porto [que na verdade era jornal liberal, não de D. Miguel, sim contra D. Miguel] refere miudamente as últimas execuções, de que a segunda Cidade do Reino foi testemunha, e lhe ajunta reflexões tais, de tão atroz hipocrisia que recusámos copiá-las [os autores liberais fizeram questão de passar esta notícia como verdadeira, mas tudo indica que não o é]. Ali são elevadas às nuvens as virtudes do Rei carrasco [nem os liberais escondem que ao Rei D. Miguel os portugueses louvavam as virtudes e os feitos de bom católico]; a sua piedade, e clemência são oferecidas como modelo aos Príncipes, e a memória das vítimas infelizes é insultada com uma frieza, digna de um Sectário do absolutismo ["sectário" porque nesta altura, em que o mundo Cristão estava já ocupado por falsas monarquias (sistemas liberais), aqueles que resistiam à gigante onda liberal e republicana eram minoria no mundo, da qual foi última por inteiro Portugal - os liberais tomaram o seu sistema como a regra, eles que na verdade eram a "seita"... Faz-me lembrar o caso de Mons. Marcel Lefebvre que por manter fidelidade ao que estava antes do concílio, e ser já parte da minoria, era passou a ser apontado como sectário - absurdos!]. Pareceu-nos ver o hediondo Algoz esbofeteando aqueles mesmos, que acaba de decapitar [veja-se o tipo de honestidade jornalística que até se socorre a um "parece-nos" tão fantasioso na falta de realidades que sustentem o seu intento] . Os destinos do triste Portugal reclamam lágrimas ainda dos corações indiferentes [a necessidade de mostrar Portugal de forma negativa, quando era ele o herói entre os Reinos Católicos na resistência ao Liberalismo e invasões napoleónicas.... E que brasileiros tão distantes geograficamente poderiam vir confirmar ou desmentir estas calúnias naquela época!?]; e também reclamam sisuda reflexão: tal é a sorte, que espera a todos aquele povo, que perder as suas liberdades; que por sua negligência deixar que os absolutistas derrubem as Instituições preciosas, que afiançam os direitos individuais, e políticos, e que formam barreiras contra a opressão [fica claro, não estarmos perante a "liberdade" e o "direito" segundo a nossa Civilização cristã, e sim perante conceitos cozinhados e promovidos pelo eixo iluminismo-liberalismo - veja-se ainda que verdadeiramente os liberais não reconheciam o colectivo de leis régias, o costume, a moral, a lei natural, a Lei divina, a Doutrina, como autoridade segura e mais que decorativa]. De um lado a anarquia da canalha; do outro a vara de ferro dos privilegiados: os homens bons, porém moles, que não defenderam com todo o esforço os seus direitos; derramam ao depois lágrimas inúteis sobre uma pátria escravizada... Não; o Brasil nunca há de dobrar-se ao jugo do poder absoluto [eis finalmente o receio sobre o qual a campanha difamatória está montada]; debalde lho agoiram vis satélites da escravidão [já cá faltava esta...].  Um Príncipe, amigo do povo [D. Pedro I, no Brasil, pois claro!]; afeiçoado às ideias generosas do Século nos é segura garantia; não temos em redor de nós a Aliança de vinte Déspostas, que não sofressem que a liberdade respire em qualquer ponto do Continente Europeu. Os privilégios [referindo-se à Nobreza], e a fradaria [assim tratavam ao Clero maioritário, que era ainda pela Tradição] não imprimem o pé maldito sobre o nosso solo: os Brasileiros, ou aqui nascidos, ou ligados ao país por laços de interesse, de confraternidade, e de sangue, amam a ordem constitucional, e meditam sobre os males da antiga Mãe Pátria, para os removerem do solo que habitam, ou que os viu nascer. - Viva a Constituição!!!   (942 pág) [Está tudo muito claro!]

- "Mas o que há de pior são as suspeitas e temores de absolutismo, que com pouco ou muito fundamento se estão derramando de uma maneira, que aflige os amigos da Constituição e da Monarquia". (pág. 945)

- "O Pharol Paulista refere que circulavam na Cidade e Província de S. Paulo boatos de absolutismo, dizendo-se que se proclamaria do dia 12 de Outubro. O digno Redactor do Pharol se esforça para mostrar quanto é absurdo semelhante rumor, que só pode ter origem nos sonhos, e desejos de alguns malintencionados e farropilhas de todas as classes, que esperam fazer fortuna no meio da anarquia". (pág. 986) [a superficialidade é uma constante na propaganda liberal, raramente apoiada em queixas reais e mais na caricatura: pelo facto dos opositores lhes resistirem às ideologias, entre elas o constitucionalismo, NOVA base de ordem social liberal, difamavam-nos de "anarcas"... como se anarquia tivesse sido característica da "repressiva" Monarquia anterior.]

- "Tem-se-nos escrito diferentes correspondências, relativas a alguns dos agraciados, habitantes nas províncias, expondo que são homens conhecidos, por se haverem oposto com todas as suas forças à nossa independência política, ou por trabalharem abertamente em favor do absolutismo. Não lhes demos publicidade, por que são pessoas, que ninguém aqui conhece." (pág. 1083) [... retiremos das duas transcrições anteriores duas palavras de queixa: "despotismo", "anarquia"! Basta dizer que não se conhece o articulista, para impedi-lo de ter de expor em jornal os erros liberais e as doutrinas tradicionais... Está tudo dito...]

- Rio de Janeiro "A Opinião Constitucional é agora mais firme no Rio de Janeiro do que nunca: temos visto muitas pessoas, em quem os prejuízos haviam deixado profundas impressões, mudarem de pensar, converterem-se sinceramente para a causa liberal, e virem engrossar as fileiras dos amigos da Constituição Monárquica-Representativa [clara indicação de que no Rio de Janeiro havia resistência às hostes liberais - muita atenção à designação "Constituição Monárquica-Representativa"]. Debalde se procura alienar gente desse esquadrão sagrado, despregando contra eles a bandeira da perseguição dissimulada, ou manifesta [como havia força para fazer perseguição se o poder "absolutista" tinha caído!?... é notável que, apesar dos liberais terem imposto o seu novo regime, a resistência tinha permanecido entre a população; eis o motivo da incansável propaganda liberal nada fundamentada, muito emotiva principalmente depois da própria vitória]; debalde lhes apresentam diante dos olhos o exemplo das recompensas, que são a partilha dos que pensam, ou se conduzem em sentido contrário, dos que suspiram pelo regresso do absolutismo, e fazem garbo disso. A causa da liberdade e da razão é muito bela [honestamente, sem razão, com emoção, com falso conceito de "liberdade", e com desprezo pelos critérios maiores como o são o "dever" e a "legitimidade"], para deixar de ganhar a si numerosos afeiçoados, logo que pode ser conhecida, tal qual é". (pág. 1091) [este "tal e qual é" deve ser entendido "tal e qual o liberalismo a difundiu", tanto que é até esta a palavra que dá nome ao liberalismo]

- "Que se desmascarem os traidores! Conheça o Brasil aqueles, que vivendo ou tendo nascido no seu seio, lhe preparam ferros, e os mesmos dias abomináveis, que Portugal, Nápoles, e a Espanha têm presenciado. O que havia de mais instruído, de mais ilustre, de melhor nos dois reinos da península Hispânica, discorrem, sem pátria pelo Universo, perecem de miséria, acabam a vida nas prisões, ou sobre o cadafalso. Depois que as suas Constituições foram derribadas, ainda não houve para esses países um momento de repouso, as conspirações, as sedições se sucedem; os Reis mesmos não têm se não um fantasma de autoridade, que as Juntas Apostólicas efectivamente exercitam. Que se desmascarem os traidores! O Brasil deve conhecê-los; e não é justo que um Povo, que ama as suas liberdades, veja nos mais elevados empregos os declarados sectários do absolutismo acobertarem-se com uma simulada neutralidade, enquanto nos seus discursos não respiram mais do que ódio à Constituição, desprezo pelas suas máximas, rancor a todos quantos a estimam e estão prontos a dar a vida por ela". (pág. 1088) [Traidores? Os liberais propunham um sistema próprio, diferente, contra aqueles a quem chamavam traidores, estes "traidores" quais não faziam mais que proteger o que até então tinha havido (hoje, os semi-liberais querem fazer crer que estes "traidores" tinham teses próprias inovadoras, nascidas no iluminismo; mas, ao vermos a documentação histórica confirmamos algo bem diferente: estes sempre manifestaram interesse em defender o que sempre tinha havido, e nunca propuseram um sistema novo, sempre quiseram proteger o que era de tradição e pureza da Fé, condenaram a maçonaria, condenaram o liberalismo, condenaram o iluminismo, mas defenderam a autoridade do Rei contra as propostas fragmentárias do liberalismo - eis o único motivo pelo qual os revoltosos os chamaram de "absolutistas")! Veja-se também o cenário emotivo, a chantagem, a apresentação que o articulista faz dos "ferros" da escravatura, quando, como sabemos pela história anterior e posterior, foi o liberalismo quem praticou a escravatura no sentido menos católico da palavra. E os factos? Que factos são esses apresentados pelo articulista? Pelas fontes incontestáveis, sabemos que, pelo menos no que respeita a Portugal, os "factos" apresentados não passaram de propaganda liberal, como já se tinha feito na revolução em França, e como se viera a fazer curiosamente na revolução marxista (o fenómeno é semelhante)..., eis o pequeno vício da formação das "lendas negras", que não é mais que a calúnia social para fazer assentar em jornal e em livro!]

- "É finalmente um monstro, digno de erguer o grito do absolutismo, e de estar à frente do partido, que suspira pelos ferros da escravidão." (pág. 1197) [como temos visto, os liberais tentavam apresentar à população um motivo credível pelo qual os "absolutistas" lutassem pelo "absolutismo", e que seria o motivo de quererem recompensas e cargos, ou porque eram liberais descontentes por não lhes terem dado os cargos e benesses almejadas; mas isto é dito depois da vitória liberal, e sem sequer referirem ALGUM  DOS ARGUMENTOS dos "absolutistas". Não há sequer tentativas de refutação, portanto, tudo dos liberais fica mais pela propaganda e encobrimento do ideário "absolutista" grande inimigo da maçonaria (e amigo do Clero e da pureza da Fé - por isso também chamados de "partido apostólico", "frades", etc.). A muitos leitores, que até agora tenham acompanhado, isto fará alguma confusão porque receberam a história por via dos vencedores, a qual, por mais católica que hoje se diga ser, bebeu já a informação predominante naquela época. O texto do artigo refere-se a Joaquim Pinto Madeira, militar condenado à força pelos liberais]

Embora nos restasse uma significativa quantidade de páginas do Aurora Fluminense, as referências ao "absolutismo" que faltam ver estão já metidas naquilo que foram as tentativas do Crato (Brasil): o restauro da Monarquia tradicional do Brasil, por ocasião da abdicação de D. Pedro I; agora não nos interessa continuar a seguir por aqui o uso da palavra "absolutismo".

Haverá talvez jornais brasileiros melhor exemplo que o Aurora Fluminense, e se houver tempo é de ir a eles, noutra ocasião.

Nas suas campanhas os liberais apresentaram como "anarquia", "arbitrário" e "despotismo" a oposição à criação de uma Constituição. Tinham em seu programa que só a defesa da criação de uma Constituição, ou da permanência dela, teria direito a ser interpretada como "querer lei"; eis um dos absurdos da ala liberal: na prática negavam de toda a lei anterior por estar ela fora de uma Constituição (segundo o conceito liberal-republicano), e demitindo toda a autoridade que não fosse democrática, ou quase. Ora, os "absolutistas" nunca em seus escritos se insurgiram contra a existência de lei, facto que deveria ter sido honestamente assumido pela propaganda liberal, mas sim contra a criação de uma Constituição segundo o conceito liberal-republicano. Um dos mais ilustrados "absolutistas" portugueses, o Pe. José Agostinho de Macedo chegou inicialmente a apoiar a criação de uma Constituição até se aperceber de que espécie de coisa se tratava realmente. Não defendeu nunca a não existência de leis, pelo contrário: defendeu que a verdadeira constituição de Portugal está no conjunto de leis e costumes do Reino, segundo a Lei de Deus e da Igreja etc... Tal como este, também todos os portugueses "absolutistas" que escreveram na época defenderam o mesmo, e os posteriores grupos que se quiseram chamar de "tradicionalistas" a si mesmos disseram ter naqueles ilustres primeiros pais os seus Mestres. Sem dúvida alguma, a experiência espanhola foi diferente e grande em números, se bem que qualitativamente seria Portugal a ter de ajudá-la!

(a continuar)

05/08/16

CONTRA-MINA Nº 49: Prossegue a Matéria do Nº Antecedente (b)

(continuação da parte a)

E que se fez nos tempos Constitucionais? De que grande coisa se tratava? Que fins proveitosos à Monarquia, ao Reino, e à Fé se promoviam naquela, a mais desgraçada, e abominável época? Ora já entendo, e bom é ler de vez em quando os Periódicos Liberais, pois nada escapa aos Linces Políticos seus Autores... Os embargos, ou de víveres, ou de transportes, a que sempre foi necessário proceder em tempos de guerra, todas as vezes que se intenta a glória de Adonirão, e a segurança das Colunas do grande Templo, são acções especialmente boas; porque o fim canoniza os meios; caso porém tenham lugar em obséquio dos Reis, e dos Dogmas Religiosos, então se reveste de outra índole; são violências, são roubos, são extorsões, porque destoem, ou se encaminham a destruir o grande princípio da Soberania Maçónico-Universal, porque os Irmãos Pedreiros assim como descobriram o Pacto Social, que pode ser que guardem no seu Livro dourado, que nunca se enxovalhou com uma só vista profana, talvez descobrissem alguma Verba do Testamento de Adonirão, em que lhes fossem deixadas todas as produções da terra, desde a bolota, que era (dizem eles) o sustento do homem agreste, até ao milho, e trigo, de que se mantém, e subsiste o homem civilizado... mas prescindo agora inteiramente de chistes, e motejos; o caso é, que sendo o ano pretérito o mais escasso de certos víveres, e acrescendo por outra parte a necessidade de armamentos fora do comum, e pode ser que muito acima dos que se fizeram durante a Guerra Peninsular, e o que é mais, faltando os imensos recursos pecuniários, de que se lançou mão naquela época, assim mesmo a galinha vive, e sem fome, e miséria. Não tem outra pevide, senão a que lhe tem causado os malditos Constitucionais, Pedreiros, Galinheiros, e mais caterva, ou grei de malfeitores, apostados a darem cabo do mundo, o que nunca poderão levar ao fim; pois o mundo, que toma às vezes o seu lugar, dará primeiramente cabo deles, e fará murchar de todo as suas já flutuantes, e quase perdidas esperanças.

Se tem havido neste Reino algumas extorsões, e violências, é certo, e poderia afirmar até com os mais fortes, e os mais tremendos juramentos, que se fazem todas contra vontade d'El Rei Nosso Senhor; extremamente desejoso de poupar, quanto lhe seja possível, o seu leal, e amado Povo. Se a lide presente fosse da nossa parte uma lide Constitucional, quantos, e quão pesados tributos já se teriam lançado a este Reino? Que estranhas violências não se perpetrariam à sombra do que chamavam Lei Fundamental? E o mais é que todos se calariam aprontando com língua de palmo, quanto se lhes exigisse, no que por certo não haveria nem esperas, nem delongas, nem equidades.... Paga, ou te declaro inimigo do Sistema, faria recolher ao Erário até ao último real, que aparecesse neste Reino, e a tudo isto chamariam os próprios declamadores contra o actual empréstimo lances dolorosos, porém absolutamente necessários, empregando para o desculparem quantos raciocínios lhes fosse dado excogitar em prol do seu adorado Sistema.

Por outra parte é necessário confessar, que debaixo de uma capa demasiadamente larga, e protectora de grandes velhacos, e de grandes ladrões, se tem coberto algumas notórias extorsões, e violências... A capa, em que já falei tantas vezes, é a capa de Realismo, e afeição a ElRei Nosso Senhor, que não é mais vezes outra coisa senão Pedreirismo ardilosamente disfarçado, e amor a interesse, e vantagens particulares, e nada mais. Já apontei em alguma parte dos meus Escritos a máxima de um famoso Democrata, ou Republicano dos nossos dias "Quando fores Ministro de algum Rei absoluto, farás quantas asneiras te vierem à lembrança, e debaixo daquele escudo, ou farás descontentes, ou aumentarás o seu número." Quantos heróis tenho eu visto procederem neste sentido! Ah Mondeguistas, e Pedreiros convertidos, quem não vos conhecer, que vos compre.... Ministro, que pretextando ordens imperiosas, e absolutas, esbulham o pobre de meia dúzia de alqueires de pão, que ele reserva, ou para subsistir, ou para semear o seu caminho, e que fazem quantas equidades podem ao rico, ao poderoso, porque este manda bons presentes.... é inimigo d'ElRei, e é inimigo da sua Pátria.... Conhece-se à primeira vista, que eu não falo de todos os Magistrados territoriais; porém somente daqueles, que sobre maneira fiéis ao Materialismo, e Indiferentismo, que aprenderam nas Cavernas Coimbrãs, não tem, nem buscam outra glória, senão a deste mundo; e à força de meditações sobre a ciência de viver, tem descoberto os meios de serem ricos per saltum, assim como por outro não menos assombroso conseguiram a ciência de mês e meio, que os habilitou para serem outros Papinianos, ou Cujacios. Longe de mim a ideia, ou lembrança de querer macular a bem estabelecida reputação dos Magistrados sábios, incorruptíveis, e sinceramente afeiçoados à Causa do Trono, e da Fé. Sabe perfeitamente os da Aurora quase eles sejam, e a estes, e só a estes, é que dirigem, sob as aparências do mais desmarcado vitupério, a mais nervosa, e a mais gloriosa apologia:

"Os Magistrados depredadores, e venais foram ocupar o lugar dos homens honrados, e virtuosos." (Ita Aurora Nº 3 pág. 39)

Vem a dizer, segundo a força dos termos há muito adoptados na fraseología Maçónica... os Realistas sucederam aos Pedreiros Livres na administração da Justiça. E o caso é que os Ministros do tempo Constitucional eram uns anjinhos, que nem sabiam o que era roubo, extorsão, ou violência. Eram um modelo perfeito, e acabado de todas as virtudes. Pois de Religião? Eram fiéis executores de todos os preceitos Evangélicos. Ah! Sem dúvida perdeu muito a Nação Portuguesa, em que fossem demitidos estes sustentáculos da honra, e proibidade Lusitana, e parece andar às escuras, e às apalpadelas desde que perdeu estes Luzeiros da Sabença, estes novos, e mais heróicos Abdolimos, e Fabrícios... Por certo que deu o cabelo aos escrevinhadores da Aurora todas as vezes que se lhes antolha o já crescido número dos bons, e escolhidos Magistrados, que ocupam certos Lugares de Letras, em que muito poderão obstar aos progressos da Luz. Braga, tão fiel ao seu Rei e de mais a mais tendo por Corregedor da sua Comarca um Gaspar Homem Pinto, que sendo Corregedor em Pinhel, me deixava viver tranquilo no Mosteiro de Aguiar, não obstante as fúrias Thomazinas, que obrigariam a qualquer outro, que fosse menos impávido que ele, a desenterrar-me, sendo necessário, das próprias entranhas da terra!! O Porto, o saudosismo Porto, onde se engendram, onde se preparam, onde se fazem os primeiros ensaios do Poderio Maçónico, o Porto sujeito à direcção de um António Joaquim Pinto Moreira, que gemeu debaixo dos ferros Constitucionais, e que sendo tal, como é, nunca poderia merecer aos Pedreiros as honrosas qualificações de honrado, e fiel, que merece aos bons Portugueses!! Bastem os dois para exemplo, ainda que me custe a deixar em silêncio os autores Corregedores de Tomar, e de Santarém; e passando a outras considerações, que terrivelmente os pungem, e amofinam, quanto lhes terá sido amargo, que desse pequeno, mas valente, e denodado troço de Académicos, que se mediram com eles nas vizinhanças de Coimbra, tenham saído para a Magistratura os próprios, que sendo necessário tocarão a pena, com que sentenciam as Causas Civis, e Crimes, pela espada, com que se atravessam os rebeldes, e Pedreiros... Que Juízes de Fora têm actualmente Beja, Monsaraz, Alandroal, e Estremoz, e o Torrão do Alentejo! Só esta Província oferece tal número de Magistrados empunhando a Vara da Justiça com a própria mão já costumada, e afeita, ou a disparar tiros, ou a brandir a espada, que forçosamente os da Aurora, quiçá noutro tempo seus Colegas, hão de tremer da influência de tais homens em seus respectivos territórios!

Não me seja estranhado, que eu nomeie poucos, ao mesmo passo que era facílimo especializar outros; porém ou não faço cartas de nomes; e de mais a mais ninguém me encomendou o Sermão, e é por outro lado incontroversa a liberdade, que tem os Escritores de nomear estes, ou aqueles, que mais lhe agradem, e que mui casualmente lhes possam ocorrer, do que certamente não resulta para os não lembrados, ou esquecidos o mais pequeno dezar, ou nota, porque devam criminar-me, ou arguir-me. Ainda teria muito que dizer a este propósito, se as gritarias dos Auroras me não chamassem de novo para as lides, e combates.

D. Miguel, O Tradicionalista
O Senhor D. Pedro Duque de Bragança (aliás futuro Imperador Constitucional, e Ideal das Espanhas) vai colocar sua filha no Trono, (Hoc opus hic labor: não basta dizê-lo, porque muito desejos tais, como este, morreram em flor) e restituir aos Portugueses a Constituição, (Por certo que não ganhará com esta restituição, nem as alvissaras, nem o ficar absolvido de tantos males, e danos gravíssimos, que tem feito à Nação Portuguesa. Não lhe pode trazer um presente mais envenenado, e mais aborrecido para ela, do que a Constituição, que já naufragou no Brasil, evaporando-se por uma vez aquele Podersinho Moderador, que passou por alto à perspicácia dos Lycurgos, e dos Numas Pompílios) e às Leis o seu Império (e como poderá entrar neste Império a Lei Fundamental da Monarquia?). O Senhor D. Pedro está longe de pretender exercer o menor acto de vingança (quem deixará de fiar-se em ar de Proclamações incendiárias dentro de garrafas lacradas, ou bexigas porcórias, para se despejarem pelas ruas, e praças de todas as Cidades, e Vilas deste Reino). O seu grande desejo é acabar as discórdias civis, que têm infelicitado a Nação, no meio da qual ele nasceu (pois ninguém tal há de dizer... não há cão, nem gato, que não saiba que D. Pedro é o único Autor de nossas discórdias, pela teima de nos querer empurrar sua filha por Soberana; e é bem para lastimar que ele acenda os brandões da discórdia, e da guerra civil, desacreditando o seu nome, e cobrindo-o de uma nódoa indelével, que o estigmatizará em quanto o mundo for mundo). Sua Majestade é tão oposto a praticar actos de tirania, quanto D. Miguel (dobra essa língua, patife; é o Senhor D. Miguel, e bem Senhor de aniquilar, e enterrar por uma vez a Maçonaria Lusitana) o é de praticar actos de humanidade (costuma dizer-se em casos tais "os Anjos lhe respondam" neste porém já eu lhe respondi o necessário, assim como os factos mais autênticos respondem todos os dias a favor do Clementíssimo Rei, que nos governa). No discurso do seu Reinado de oito anos há mil exemplos de generoso perdão a ingratos. (E seja exemplo mil e um o do bárbaro castigo, de que já por vezes tenho falado, e que tão cruelmente se infligiu a Soldados Portugueses...) Os próprios inimigos de Sua Majestade, (alto lá, que não deixarei passar esta, sem a devida prefacção. Se D. Pedro é simplesmente Duque de Bragança, porque título, ou carga de água possuirá o tratamento de Majestade? Porém tudo isto leva água no bico, latet anguis, bem a dizer, Majestade, que Reinará em Portugal, como eles querem, mas que nunca poderão levar ao fim; pois a boa Princesa do Grão Pará, por eles feita Rainha de Portugal, vendo seu Ilustre Pai desacomodado, e sem ter onde caia morto, forçosamente se compadecerá de quem lhe deu o ser, e mil Coroas, que possuísse, mi Coroas cederia em obséquio do Augusto Fundador de Reinos, e de Impérios) os próprios inimigos de Sua Majestade, ainda no meio da manifestação do seu ódio, são obrigados a confessar, (o que fazem quanto menos podem) que na verdade o Imperador não era tirano. (Haja vista ao juízo, que fazem do Ex-Imperador a Sentinela da Liberdade, e a Árvore F[?], [veja-se o Nº 47 da Contra-Mina) que são boas, e idóneas testemunhas do conceito, que se faz no Brasil do perpétuo Defensor, e primeiro Imperador daquele vasto Continente. Se eu não digo mais a este intento, e se mui deliberadamente refreio, e modero os voos da minha pena, é porque D. Pedro é filho do Senhor D. João VI, e irmão do Senhor D. Miguel I. Não lhe valessem estes dois Privilégios, e veríamos então a que pretensão in solidum as enlutadas palavras da tirania. É tão fácil de sustentar neste Artigo a boa fama do Senhor D. Miguel I, que não buscarei outra testemunha, que não seja o próprio D. Pedro d'Alcantara. Este Príncipe, ou Duque de Bragança, escrevendo a seu Augusto Pai em data de 19 de Junho de 1822 lançou estas memoráveis expressões:
"Peço a Vossa Majestade que deixe vir o Mano Miguel para cá, seja como for, porque ele lhe é aqui muito estimado, e os Brasileiros o querem ao pé de mim, para me ajudar a servir no Brasil....Espero que Vossa Majestade lhe dê licença, e lhe não queira cortar as sua fortuna futura.... Vossa Majestade conhece a razão, e há de conceder-lhe a licença, que eu, e o Brasil tão encarecidamente pedimos, pelo que há de mais sagrado...." (Gazeta Universal de 1822 Nº 199)
Quem será pois o tirano? Será o bem quisto, ou o mal quisto de todo o Brasil?

Façamos aqui uma pausa, e desde os Sinceirais do Mondego enviaremos uma Contra-Mina, ou Fulminante, ou quase Fulminante aos Pedreiros Livres da Capital, que se darão a perros, por verem que a sua obra, longe de prosperar, todos os dias coxeia, retrograda, e corre perigo de ficar em nada.

Desterro, 5 de Fevereiro
de 1832

Fr. Fortunato de S. Boaventura

08/07/16

CONTRA-MINA Nº 48: Anti Aurora (a)

CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,

por

Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.

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Nº 48
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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Anti Aurora

Houve  tempo, com que os E[?] do Grande Oriente de Lisboa me regalavam de preciosos mimos, como eram sem dúvida os Papeis incendiários contra este Reino, e o seu Príncipe, que em tanta profusão, e só para benefício da estampa, há feito gemer, há três anos a esta parte, os prelos de Londres, e Paris. Um dos tais Papeis chamava-se Palinuro, que me pareceu digno de levar uma tunda. Assim o fiz, para dissipar as névoas, de que ele podia cercar o entendimento de alguns Leitores, tendo-se-me seguido a mais dolorosa de todas as perdas. Nunca mais fui brindado com os ditos Papelinhos; nem Palinuros, nem Pilotos, nem Chavecos me tornaram a aparecer, ficando eu assim como o espargo no monte, e sem aquela consolação, que sempre me trazia a leitura de uns Papeis, tão fáceis de analisar, e combater. Já eu tinha perdido quase de todo as esperanças de haver à mão os meus encantos, os meus caros Papelinhos da Fábrica já Parisiense, já Londrina, que além de outros bens me faziam o de instruir-me dos gigantescos progressos da Literatura Constitucional, a que os Medrões, e os Girões do Ex-Soberano Congresso deram o impulso mais forte, quando imprevistamente me luziu certa Aurora, não aquela, que costuma abrir com os seus dedos de rosa as portas do Oriente; porém outra mais baixa, que foi trazida num barco de vapor, e que muito lhe convinha, por ser um agregado informe de vapores, e miasmas revolucionários, tendentes a seduzir, e perverter a Nação Portuguesa, e nomeadamente os Chefes, e Soldados, que se empenham na Justa, e Santa defesa do Trono, e do Altar; e que vista a qualidade dos agentes autorizados, e invulneráveis, que se incumbiram de a espalhar, talvez cause gravíssimos danos em uma, ou outra cabeça oca, e das que vulgarmente se chamam cabeças de minhocas: e já que estas luzes Maçónicas devem apagar-se a todo o custo, onde quer que despertem, julguei acertado opor as luzes verdadeiras, que são as do raciocínio, e da experiência, aos fogos fatuos, que de contínuo, porto que badaladamente, emprega a Seita Maçónica, que até moribunda, e ao ponto de exalar o último suspiro, fingirá, mentirá, e caluniará, por ser esta a sua índole, que o berço lhe deu, e que somente a sepultura lhe roubara, ou destruirá completamente.

Aurora! Que formoso título! Que bem achado nas presentes circunstâncias! Quase dá a entender, que é precursora do nascer do Sol, quando somente o é de um Eclipse total da honra, da fama, e da legislação, da felicidade, e da antiga Crença dos Portugueses, que felizmente abriram os olhos por uma vez, para conhecerem o que é o Sistema Constitucional, e os seus péssimos resultados. E haverá ainda quem se esmere, e quem se canse, e forceje por mostrar, que o tal Sistema, já por duas vezes prostigando, e expulso com infâmia, mudou a pele, e vem agora feito um Satarrão, para nos edificar, e instruir com os seus bons exemplos, e doutrinas...

Tirano o Senhor D. MIGUEL I!! E de mais a mais insaciável de sangue! É certamente a mais atroz de quantas imputações falsas, e caluniosas se tem excogitado, para fazer odioso um Príncipe, que se fosse justiceiro, como D. Pedro, chamado o Cru, já teriam caído, pelo menos, 40$ [40 mil?] cabeças de traidores... É desnecessário todavia procurar, ou insistir nestes exemplos de Justiça, a que outros chamam crueza; bastaria que hoje reinasse D. João I, para terem caído, pelo menos, 20$ cabeças; que se reinasse D. João II, que não era parenteiro, e que não perdoava nem a Duques, nem a Bispos, quando os achava traidores, já não apareceriam neste Reino os mais pequenos restos da Maçonaria, que o tem flagelado, e reduzido à última decadência Moral, e Política... Levanta-se um Regimento infame, desenrola as Bandeiras da Sedição, e assassina de passagem os Cidadãos tranquilos, e que nem presumiram a cruel sorte, que os aguardava... Que Rei da Europa deixaria os seus membros? Fizesse um Regimento da Prússia, ou da Rússia uma galantaria destas, e eu prometo, que nenhum escaparia, ou de ser fuzilado, ou de ser enterrado na Sibéria, castigo talvez superior ao da morte.

Tirano, a quem já perdoou a um Réu convencido do mais punível, e horroroso dos crimes políticos que só esperava algumas horas de vida... que já tinha entrado no Oratório, que pode ser que já estivesse vestido de alva, para caminhar ao suplício!! Tirano, quem no primeiro impulso de coibir os excessos de uma Revolução, que por bem pouco não arruinou para sempre a Monarquia Portuguesa, não duvidou contentar-se apenas com o suplício de dez criminosos... Quando talvez fosse necessário castigar, pelo menos 500 pela então rigorosa necessidade de dar um exemplo terrível; e que sem um ou mais deste jaez, aumenta-se o número dos criminosos, e periga consideravelmente o repouso, e a prosperidade dos inocentes... São impreteríveis as sagradas máximas da justiça; quando se absolvem os maus, castigam-se os bons; porque aqueles tornam ao vómito, e aguilhoados pela impunidade abalançam-se a cometer novos, e cada vez mais atrozes crimes; e estes, quero dizer, os bons são forçados a viver em contínuo sobressalto, a guardarem-se continuamente de ciladas, e perigos, e a esmorecerem... no seu amor à Pátria, pois vêm declaradas à face do mundo as suas verídicas asserções, e inconstatáveis depoimentos, o que os põe na dura necessidade de se esquivarem, quanto neles seja, a comparecerem diante dos Juízes, e a contibuírem para o bem da Monarquia, por ser um acto não só inútil, porém danoso, e prejudicialíssimo...

Universidade de Coimbra
Acaso deverá ele chamar-se tirano, porque tem castigado severamente os assassinos de Condeixa? E poderia ele haver-se de outra maneira? Perdoar a semelhantes facinorosos, vinha a ser o mesmo, que dar por acabado o exercício da Justiça, e desterrá-la para sempre da Monarquia Portuguesa. Mil vidas, que tivessem aqueles parricidas seriam uma fraca expiação do seu crime, que foi o primeiro desta classe, que se perpetuou neste Reino, e que somente os Reinos empestados da Maçonaria pode ter lugar... O estudante Sand, assassino de Notsebue não corre parelhas com os Estudantes Pedreiros de Coimbra: aquele desfez-se de um Escritor, que impugnava a Seita, estes desfizeram-se de seus Mestres, sem haver a mais pequena antecedência de ódio, ou má vontade. Decretou a Seita, que fossem mortos, nada mais foi preciso: a obediência cega os levou a cometer o parricídio, que até o propriamente dito eles cometeriam, se a própria Seita lho determinasse; o que é tão certo, que não faltam receios, ou suspeitas, de que um filho sabedor da morte, que havia de infligir.se a seu Pai, teve a constância de guardar segredo, de o ver partir com olhos enxutos, e talvez de receber com a mesma frieza os primeiros anúncios da sua morte!

Porém estes mancebos eram de grandes esperanças para a Seita... Neste primeiro lance de obediência mostraram claramente, que seriam outros tantos Brutos, e Cássios.... e como os interesses da Seita são os que devem regular o mundo, é claro, que foi um tirano, quem não deixou crescer à vontade estas plantas venenosas, e veio atalhar por este modo os progressos da Maçonaria "Lusitana"...

(continuação, parte b)

05/07/16

CONTRA-MINA Nº 40: A Estátua da Fé (b)

(continuação da parte a)

Não era pois, não era inútil uma Instituição, que apesar de a terem sopeado, e maneatado por mil diferentes meios, dava ainda de tempos a tempos uns sinais da vida, que punham em derrota as mais bem, ordenadas falanges do Maçonismo. Bem sábio é o caso do Lente de Matemática José Anastácio da Cunha, que fazendo-se intérprete da Natureza, ou antes do Inferno, arrastou consigo para os cárceres do Santo Ofício de Coimbra não poucos dos seus adeptos; e se a Inquisição nesses dias pudesse o mesmo, que já pôde nos saudosos do Senhor D. João III não poderia hoje [ele] nada em Portugal, donde seria expulso para nunca mais reverdecer o fatal, e pernicioso Maçonismo... Não era inútil uma Instituição, que empecia os vôos ao Pedreiro Hipólito José Costa, que lhe cortava as asas, e o reduzia à extremidade de nos dizer um eterno adeus. Enfim não era inútil uma Instituição, que metia respeito, e enfrentava as línguas dos blasfemadores, isto é, dos Pedreiros Livres, e que era como a salva-guarda, e o Anjo tutelar de boa administração do Sacramento da Penitência, em que os Sacerdotes Ateus, e Pedreiros têm feito, desde a extinção do Santo Ofício, os mais horríveis ensaios de perversidade, arrastando dali mesmo para os altares de Moloch as próprias vítimas, que eram destinadas para se banquetearem com o pão dos Anjos!!

Ora os Pedreiros Livres querem, e ansiosamente desejam, que tudo isto aconteça, e que por estes, como degraus, vá trepando a Seita, e se coloque afinal no próprio Trono da sua competidora, e inimiga implacável a Santa Religião Católica, Apostólica Romana, e por isso estremecem, e por isso estremecem, caiem demasiados por terra, depois de suores frios, imagens da morte, quando se lhes representa verem outra vez no seu devido lugar a Estátua da Fé.... Atrás dela poderá vir, o que mais tememos... eis-aqui o grito, que milhares de vezes se tem ouvido nas reuniões nocturnas, e que até já se ouviu em alto dia; eis aqui o mais forte dos obstáculos, para que se realizem os votos, e humildes súplicas de todos os bons Portugueses! E Porque uma legião de Portugueses bastardos não quer nem sombras de Inquisição, porque também não quer em Portugal nem sombras de Catolicismo, hão de ser os bons, ou a grande maioria contrariada perpetuadamente em seus mais ardentes votos, em seus mais puros desejos? Dar-se-há caso, que fiquemos de rastos na opinião dos Estrangeiros, só por levantarmos a Estátua da Fé? Ditosa ignomínia seria esta, que em certo modo nos igualava com os Santos Apóstolos, que eram taxados de loucos por amor de Jesus Cristo. Se há Nações Europeias, que tenham a Fé pela última coisa, e que não curem de outros interesses, que não sejam os deste mundo, nós os Portugueses temos outras ideias, outro Moral, e outras esperanças. Pela Fé se imortalizaram os nossos Maiores, podendo afirmar-se com toda a certeza, que pela Fé venceram muitos Reinos, e obtiveram o complemento das infalíveis promessas do Campo de Ourique. Por certo que este Reino deveu muito mais à voz dos seus Prégadores, do que à espada dos seus Generais... As conquistas de S. Francisco Xavier foram mais ilustres, que as do grande Afonso de Albuquerque; e mais puderam as lágrimas, e vozes de um Anchieta, e de um Vieira no novo Mundo, que os heroísmo de um Estácio, ou de um Mendo de Sá, ou de um André Vidal de Negreiros, ou de um João Fernandes Vieira - Pela Fé se aldearam os Índios errantes; pela Fé reconheciam por Soberano o Rei de Portugal; pela Fé, como que se tornavam homens, os que até esse tempo eram bravas, e indómitas feras... E não deveremos ser agradecidos à Fé quanto nos importa? Não desejaremos ver a Estátua da Fé, como se fosse uma Princesa, que virando o rosto para o Tejo, ou para o novo Jordão, que somente o antigo, e verdadeiro é mais abundante de prodígios, o abençoe, por ser o lugar donde partiram tantas, e tão felizmente sucedidas Expedições Evangélicas... E seremos constantemente as vítimas do influxo Pedreiral, que sonha futuros horríveis... (Oxalá que os visse quanto antes verificados!) e por tímidas contemplações, que só devem aumentar, e fazer subir de ponto a desmesurada insolência dos Liberais da Europa, careceremos do que mais nos agrada, e também do que mais nos conforta? Foi só para se fazerem beneméritos, e bem quistos daquela raça precursora do Anti-Cristo, raça infame, perverso, e maldita, que os Pedreiros Livres deste Reino abateram a Estátua da Fé; nem eles queriam ver à frente da Lapidada Constitucional a mais viva repreensão deste novo, e propriamente Babélico Edifício, que principiado em outra que tal vertigem, devia ter aquele fim, de que os bons tanto se aplaudiram, e gloriam. Eu fui testemunha ocular desta famosa demolição; vi com toda a complacência da minha alma, vi cair umas após outras as grossas pedras desta segunda Babel, que nem depois de nivelada com o chão satisfaz a raivosa impaciência dos seus destruidores, que não perdoaram, nem sequer ao próprios alicerces. Foi esta a primeira indemnização dos tratamentos, que se fizeram à Estátua da Fé... Tudo quanto se fez nesta memorável ocasião foi decretado nas lojas, tudo se fez debaixo de ordem, que por ela é que assistiram as Músicas dos Regimentos, para solenizarem a queda, e os vilipêndios da Fé... porém agora quando foi desfeito, e bem desfeito o Monumento Constitucional, foi tudo, tudo espontâneo, foi a verdadeira expressão da vontade geral... Pudessem então mesmo acudir-lhe certos heróis, que rodeavam o Trono! Porém seria um excessivamente rápido, e mui perigoso desfecho da Tragi-comédia de Vila Franca... Dêmos graças a Deus, que eles não tivessem pelo menos desfigurado a Estátua da Fé, para que nunca mais tornasse a servir, assim como fizeram aos Cárceres de várias Inquisições deste Reino; porém não cessemos de endereçar os nossos votos ao mesmo Deus, e à sua Imagem neste Reino, para que se levante de maneira triunfal, e que nunca mais se apague na memória dos vindouros a exaltação da Estátua da Fé... Nunca serão tidos na conta de ociosos, ou maus tais desejos senão por algum Pedreiro Livre; e tal censura deve ser um motivo cada vez mais forte, para se aumentarem, e para tomarem cada vez mais vulto, e consistência os nossos desejos... Por certo, que não são eles ofensivos nem da Majestade Divina, nem da Majestade humana... Quem estará mais persuadido em toda a Europa, do que o mui Alto e Poderoso Senhor D. MIGUEL I, que toda a capitulação, ou tréguas com Pedreiros Livres, é sempre fatal aos Reis? Não tem ele um exemplo doméstico o mais bem achado para o intento, e o mais persuasivo?... Que tirou o Senhor D. João VI de fazer certas vontades aos Pedreiros Livres? Armá-los de um ódio irreconciliável à sua Pessoa, porque lhes não fez quanto eles queriam, e apressar talvez a sua morte.... Os Pedreiros Livres nunca se limitam pouco, anelam a mais, e mais; querendo tudo, e ainda prosseguem firmes na sua primeira tenção. Daqui vem certo empenho, ou afinco o mais esturrado, sem que a despeito de todas as considerações, e até das mais vulgares decências, ainda se conserva em pé muita coisa, de que já não deviam aparecer nem fumos; pois deveria ter caído nos princípios de Junho de 1823. Assim mesmo existe uma barreira invencível contra eles.... É a nossa Fé, e daqui vem o nosso enternecido afecto ou apego à Estátua da Fé.... Tudo quando vemos, e mal podemos ver sem lágrimas de um vivíssimo prazer, é efeito, é obra directa, é obra imediata da Fé... A chamada Fé política era um laço mui débil, e mui quebradiço só para vincular os Portugueses com o seu Soberano, se porventura lhes faltasse a outra, quero dizer, a Fé Católica... É esta, e só esta, a que faz voar de uma a outra extremidade do Reino as Tropas de segunda Linha, e as tem feito romper através de imensas dificuldades, para mostrarem ao seu Rei que o adoram, e que o adoram como seu especial defensor, e protector contra a irrumpão dos Pedreiros Livres, que provocados, e desafiados pelos de cá, se têm preparado para nos invadirem, .. e para acabarem de todo com a Santa Religião dos nossos Maiores.. É bem para admirar a insensibilidade de homens rudes, e agressivos às mias duras, e cruéis privações, que todas se põem de parte, e sã como se nem sequer existissem, apenas se dá um Viva ao Senhor D. MIGUEL I. Este adorado Nome, que parece vencer toda a fúria dos elementos, para que o Voluntário Realista, e o Miliciano encharcado em água, sem fio enxuto, e pode ser que morrendo de fome, sinta cada vez mais amor à Sua Real Pessoa, e cada vez mais empenho de verter o sangue todo em obséquio do melhor dos Reis; este adorado Nome, que tem a força de quebrar os mais fortes laços de famílias, e de condenar aos mais grandes prejuízos, e como que se faz superior às vozes da natureza, e do interesse mais justo, e razoável; este Nome finalmente donde recebeu estas desmedidas forças, senão da Fé? E os bons Portugueses, que o estavam vendo, presenciando, e aplaudindo, serão talvez criminosos, porque desejam ver arvorada a Estátua da Fé? - Antes pelo contrário, no próprio lance, em que mais se declaram neste Reino as maravilhas da Fé, lembram-se da melhor de todas as recompensas para um verdadeiro Português, que é, ver testemunhos públicos, donde se mostre, (e deverá mostrar-se todos os dias) o que este Reino é devedor à Fé. Se tivessem conseguido tirá-la aos Portugueses, quem reinaria hoje em Portugal? Não era por certo o mui Alto e Poderoso Senhor D. MIGUEL I, que por isso tem, e deve ter a Fé, como principal esteio do seu Trono, assim como o é das esperanças de todos os verdadeiros Portugueses, em cujo número se conta

Desterro 13 de Dezembro de 1831

Fr. Fortunato de S. Boaventura

25/04/16

25 de Abril - FESTA DA ACLAMAÇÃO DE D. MIGUEL "O Tradicionalista"


"A 25 de Abril (dia natalício de S. M. a Imperatriz D. Carlota Joaquina Sua Augusta Mãe, por cujo motivo toda a Côrte se achava em Beija-mão no Real Palácio da Ajuda) começou o povo em magotes pelas ruas a dar vivas ao Senhor "D. Miguel Absoluto", "D. Miguel I" etc., etc., e não foi sem muita diligência, que o Brigadeiro Comandante da Polícia Joaquim José Maria de Sousa Tavares, fazia por sossegá-los, e com boas maneiras os despersuadia a retirar-se.

Vendo os mais influentes que em Lisboa não se desenvolvia aquela actividade precisa para tal declaração, correram para o sítio da Ajuda, e ali victoriaram a todos os que entravam para o Beija-mão; até que aumentando cada vez mais esta efervescência penetraram nas salas do Palácio as excessivas aclamações dos mais entusiastas.

Este movimento se ia tornando avultado, e as muitas reuniões no Terreiro do Paço começavam por gritar no mesmo sentido, em frente das janelas da Câmara.

Outros corriam às salas do Senado da Câmara, e ali com o mais frenético motim pediam para que o Senado aclamasse publicamente ao Senhor D. Miguel.

Querendo os Vereadores aceder à vontade do povo, tomaram o Estandarte Real, e chegando às janelas da Camara que deitam para o Terreiro do Paço proclamaram "Real, Real, por ElRei de Portugal o Senhor D: Miguel I".

Qual seria a força e os excessos de contentamento, só quem o presenciou é que poderá relatar melhor; e por isso não queremos de forma alguma inculcar-nos partidistas.

Em seguida a esta formal declaração, partiu ao Paço da Ajuda pelas 11 ou 12 horas do dia, uma Deputação do Senado da Câmara a expor ao Senhor D. Miguel o que havia acontecido na Cidade.

Ainda continuavam o Beija-mão, e apenas correu esta notícia no sítio da Ajuda, redobraram os vivas tanto fora, como dentro do Paço.

Querendo o Senhor D. Miguel prevenir qualquer insulto, ou desordem, e desejando que as coisas marchassem prudentemente, enviou-lhe o seguinte Decreto, que depois foi afixado nas praças públicas como Edital:
DECRETO

Sendo-me Presente a Representação que em data de hoje Subir à Minha Augusta Presença o Senado de Lisboa como Representante desta Nobre, e Sempre Leal Cidade: Sou Servido Responder-lhe, que exigindo a Minha Própria Dignidade, e a Honra da Nação Portuguesa, que objectos tão graves, como o que faz o assunto da referida Representação, sejam tratados pelos meios legais, que estabelecem as Leis fundamentais da Monarquia, e não, pela maneira tumultuosa, que infelizmente teve lugar no ano de 1820; Tenho por certo, que o Senado, e os honrados Habitantes desta Cidade, depois de haverem Representado nos termos, que somente lhes cumpria, darão ao Mundo, e à posterioridade mais uma prova da sua fidelidade esperando tranquilamente em suas casas as ulteriores medidas que só a Mim pertence dar. Palácio de Nossa Senhora da Ajuda aos 25 de Abril de 1828 (segue-se a régia assinatura).

Foram expostos sobre as mesas das salas da Câmara, muitos cadernos de papel em branco para todos os que quisessem escrever o seu nome, pedindo e confirmando os vivas que davam nas praças públicas: Imenso foi o concurso de gente, e todos disputavam qual deveria ser o primeiro a inscrever-se.

Assim se passaram dos dias de festa, e do maior regozijo para uns, e de inveja, e rancor para outros:

Seguiram-se várias providências e ordens do Governo, de que publicamos os seguintes documentos:


DECRETO

Tendo-se acrescentado muito mais, em razão dos sucessos posteriores, a necessidade de convocar os Três Estados do Reino, já reconhecida por ElRei Meu Senhor e Pai, que Santa Glória haja, na Carta de Lei de 4 de Julho de 1824, e querendo Eu satisfazer às urgentes Representações que sobre esta matéria tem feito subir à Minha Real Presença o Clero, e a Nobreza, os Tribunais, e todas as Câmaras, Sou servido, conformando-Me com o parecer de pessoas doutas, e zelosas do serviço de Deus, e do bem da Nação, convocar os ditos Três Estados do Reino para esta Cidade de Lisboa dentro de trinta dias, contados desde a data das cartas de convocação, afim de que eles por modo solene, e legal, segundo os usos, e estilos desta Monarquia, e na forma prática em semelhantes ocasiões reconheçam a aplicação de graves pontos de Direito Português, e por este modo se restituam a concórdia, e sossego público, e possam tomar assento, e boa direcção todos os importantes Negócios do Estado. O Meu Conselho de Ministros o tenha assim entendido, execute, e faça cumprir. Palácio de Nossa Senhora da Ajuda aos 3 de Maio de 1828. (com a rúbrica Real).

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Mandou o Senhor D: Miguel publicar o manifesto que Sua Alteza a Senhora Infanta D. Isabel Maria explicitamente assinou e declarou em 20 de Abril deste mesmo ano; o qual é o seguinte:

"Eu a Infanta D. Isabel Maria declaro como Me cumpre, que pessoas mal intencionadas, e de sentimentos contrários ao sossego, e tranquilidade que deve manter-se entre os bons Portugueses, se tem injusta, e indevidamente, nestes próximos tempos servido de Meu Nome, para a sombra de um falso pretexto persuadir aos incautos, e desapercebidos, doutrinas erradas, e máximas perniciosas com os sinistros fins de destruir o Altar, e o Trono; e chegando ao Meu conhecimento tão ousado abuso: Quero, e é Minha plena, e livre vontade, e de Meu mótu próprio, detestar, e declarar aos sentimentos do Meu Real Coração, sempre disposto e inclinado a procurar, e solicitar tudo quanto possa ser útil, e conveniente a estes Reinos. Assim o Declaro e Firmo debaixo da Minha Real Palavra. Paço de Nossa Senhora da Ajuda, em 20 de Abril de 1828." (Infanta Dona Isabel Maria).

As Câmaras do Reino mandaram as suas Deputações, afim de felicitá-lo pela sua chegada a estes Reinos; e no maior excesso de patriotismo envolviam as mais sérias pretensões, que motivaram o acelerado desenvolvimento para os extraordinários sucessos destes dias.

etc...

(fonte: História Contemporânea ou D. Miguel em Portugal - motivo de sua exaltação, e a causa da sua decadência. Lisboa, 1853)

14/12/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº4 (IV)

(continuação da III parte) 

LOUCURA – Vocábulo curiosíssimo, que parece ter conservado em ambas as línguas seu verdadeiro significado. Até aqui vamos bem: porém na aplicação! Não há remédio, sempre se faz em sentido oposto; coisa que não deve maravilhar-nos, porque o homem, que está em seu juízo não conhece muito bem a loucura do que está louco? E à visto disto, que milagre é, que este tenha por sem juízo, o que está em toda a sua razão? É isto por ventura alguma coisa do outro Mundo?! Logo não nos deve assombrar que um Ateu, um Deísta, ou um demónio de um Democrático tenha por loucos, e chame assim aos cordatos, Religiosos, e razoáveis. Muitos pretendem que um Deísta, etc. etc. pode mui bem ser um maligno, e até de boa vontade um Valdevinos, mas não um louco. Mas (apesar de ser com pesar meu) oponho-me a isto; para discorrer da malignidade com acerto, é necessário fazê-lo pelo mesmo estilo, com que julgamos da febre. Esta não conduz ao delírio, a frenesim, senão quando chega a um grau mais subido. A malignidade é uma verdadeira febre d’alma, que quando é excessiva conduz sem remédio ao delírio. Supostas pois estas verdades, pergunta agora a minha curiosidade; pode dar-se mais malícia, que a de um Ateu, um Deísta, um Republicano!! Logo todas estas honradas perguntagens são loucos rematados com imprescriptíveis e inalienáveis direitos às palhas, e cadeias. Mas quando os Filósofos chegam com cume da sabedoria, imediatamente se julgam, e se reputam por grandes génios, pensadores, despreocupados, iluminados, etc. à semelhança daqueles loucos, que se julgam Imperadores, Papas, Reis, etc. Ergo... 

O Curso ordinário de loucura é o seguinte: 

 CURSO FILOSÓFICO
Orgulho
Independência
Presumção
Libertinagem
Deísmo ... Primeiro

CURSO ANTI-FILOSÓFICO
Docilidade
Boa Creação
Instrução
Bons Costumes
Religião


Grau de loucura, do qual se passa o Ateísmo, que é um verdadeiro frenesim, e furor.

A carreira do Ateísmo costuma sofrer algumas excepções, principalmente se encontra com homens de bem, e que ainda se conservam princípios da Religião. Para conduzir estes à loucura deística e ateística, era necessário dar um passo dificultosíssimo de saltar; porque um homem bem educado, com bons costumes, e imbuído em os verdadeiros e sãos princípios da Religião, é quase impossível, que chegue a ser ateu. É por isto, que o aplanar este monte foi a empresa mais delicada, e esquisita da velhacaria, e malícia filosófica, que por outro nome se chama Jansenismo. Neste sehnore se entra com os mais aparentes de santidade, de probidade notória, de sublimidade Religiosa, de de costumes, etc... E tanto se sublima a Religião, e se acrisolam os costumes, que num abrir e fechar de olhos se acha um homem, sem saber como, em a libertinagem, e sem tropeçar em cousa alguma do deísmo, e ateísmo. Não será de estranhar que muitos tenham isto por um paradoxo; porém tenham entendido que a cousa é bem clara, óbvia, e natural; porque, analisado bem o negocio, quais são as bases do Jansenismo? O orgulho, e o descompassado rigor. Pois bem; eu digo que de necessidade deve produzir um tal efeito, porque com o orgulho rebela os entendimentos contra a verdadeira Igreja, e suas decisões, e eis-aqui desde já perdida a Religião; e com o rigor se faz impraticável a Moral, e eis-aqui perdidos os costumes; e após a ruína de ambas, isto é a Religião, a Moral, vem logo pela posta a libertinagem, o deísmo, e o ateísmo. 

Na verdade não podemos compreender, como hajam homens tão desesperados e loucos, que sigam o republicanismo moderno. Porque, qual é o homem, que estando em seu juízo perfeito, deseja ser oprimido e envilecido, e por ultimo roubado? Qual, o que apetece estar a cada instante tremendo perder a hora, a vida, a consciência, e os seus bens? E não é esta a sorte do homem de bem, quando vive debaixo do republicanismo do tempo presente? Que digo eu? De todo o homem de bem? Não é esta a mesmíssima sorte ainda daqueles, que debaixo de um Governo tão endiabrado roubão, e fazem tudo quanto lhes dá na vontade? Porque, se isto lhes fora duradouro, vade in pace, servir-lhe-ia de escusa o saborear-se com tão magníficos e úteis empregos; porém se estão vendo estes diabos, e lhes está metendo pelos olhos a experiência, que o desterro e a guilhotina são de ordinário a sua maior recompensa... Pois que? Não tem à vista milhares de exemplos? Se isto conhecem, são loucos, á fé de Cristão; se os conhecem, e o desejam... então ... louquíssimos, e daqueles que não tem remédio.

(* Talvez que muitos que isto lerem, e que forem apaixonados dos Jansenistas se escandalizem por verem a Censura, que o Autor aqui lhes faz: mas tenham  paciência; mais e muitos mais se pode, e deve dizer... Que faria se vissem um Frei José Vidal da mesma Ordem Dominicana, e Catedrático da Universidade de Valência, na sua Obra imortal da Origem das Revoluções falar destes Sectários, como de cúmplices nas modernas Revoluções,  e apontando como um dos sintomas do liberalismo a paixão decidida pela doutrina de Jansénio? E que diriam estes meus Senhores, em cujas Bibliotecas aparecem colocadas entre os Santos Padres as Obras de Jansénio, e Gerson, se vissem e lessem uma Representação do Supremo Conselho de Castela, em forma de Consulta, dirigida a Sua Majestade Católica Fernando VII sobre a tradução, que em Espanha se pretendeu fazer da Tentativa Teológica do P. António Pereira de Figueiredo? Ali veriam com vergonha sua, pulverizados os argumentos, em que ele pretende fundar-se, desmascarada a má fé das suas Citações, e etc. etc... É verdade que parece mal dizer isto de um nosso compatriota; mas se dúvida, sendo ele um homem de tanta erudição, não pode negar-se que escreveu com espírito de partido, e as suas Obras Teológicas em nada nos honram: algumas foram queimadas em Roma pela mão do Carrasco, e as mesmas Notas ao Novo Testamento entraram no Índex. Ainda bem que já podemos falar com esta clareza a respeito do Jansenismo, o qual encostado à política de um Ministro nosso fez grandes progressos, assim como graves ruínas em Portugal... É mais um benefício, de que somos devedores a S. M. O Senhor D. MIGUEL I o ter buscado um Frade, (mas que Frade?! O Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Arcebispo Eleito de Évora, do conselho de Sua Majestade, Reformador Geral dos Estudos do Reino, e seus Domínios; e que para maior honra sua ainda não deixou de chamar-se Fr. Fortunato de S. Boaventura, Monge de Alcobaça: por isso lhe chamamos de Frade! E de certo se não escandalizará) que não pertence a semelhante Comunhão, e que ao contrário lhe tem jurado um ódio eterno, o qual colocado na Repartição mais importante, que tem o Reino saberá entupir a fonte pestífera, donde saiam destas, e doutras envenenadas doutrinas, e abrirá novas vertentes, onde as cristalinas águas da sã doutrina nutram, e formem Vassalos Religiosos e fieis, e Prelados piedosos, e caritativos. Mais se nos oferecia a dizer sobre esta matéria, mas a seu tempo se patentearão as nossas ideias a este respeito, e alguns documentos de grande peso, que apresentarmos ao Público farão ver, que o Jansenismo é relativamente à Religião, o que o Liberalismo é relativamente à Realeza.D. Tr. 

PENSADOR – Entre os Republicanos ninguém merece este nome, senão aquele, que à força de pensar tem arrojado de seu pensamento a Deus, a Religião, a imortalidade da alma, e tudo quanto há, e pode haver de bom. Aristóteles, Platão, Cícero, etc. etc. foram tidos até agora loucamente por sublimes pensadores; das primeiras noções naturais tiraram eles o verdadeiros resultado, e seguindo o fio do raciocínio chegaram a dar com a existência de Deus, com a essência de sua natureza, com a moral e a imortalidade  da alma, etc. Porém que estúpido modo de pensar! Para chegar ao mais alto e sublime grau de pensadores, tomaram  os Filósofos modernos o caminho bem ao contrário. Começam por Deus; porém para anular a sua existência, ou admiti-lo por mera cerimónia. Desce-se logo depois com a maior ligeireza até anular tudo, e assim vai a pique a Religião, a Moral, etc. etc. E quando se há chegado a transtornar o juízo, de modo que chegue a crer que os homens, depois de uma vida ocupada toda em comer, beber, a zurrar com os burros, merecem com o livre arbítrio, e com a razão o mesmo que eles, que não tem nem uma, nem outra cousa; e que depois da vida presente nada há que esperar, e que todos morremos como asnos, então assim, é quando filosoficamente se merece o sublime epíteto de pensador, de filósofo, e de iluminado. E haverá todavia homens, que depois disto não queiram confessar que o género humano deve viver sumamente reconhecido ás brilhantes luzes da Filosofia moderna, e a seu modo sublime de pensar?!... Vêd. Artig. Felicid. e Filos. ...

(continuação, V parte)

05/10/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº3 (VI)

(continuação da V parte)

Quem é que se diz hoje "o nosso maior Protector"?! Ah! sim, bem sabemos, é aquele degenerado Filho, que no Rio de Janeiro, colocado à frente de revolucionada tropa, mandou assestar os mortíferos canhões contra o Real palácio, onde residia seu Pai, e que o obrigou a jurar a Constituição do Porto, e a sair apressadamente do Brasil para se realizar a projectada Independência: ah! sim: estamos muito certos: é aquele, que se levantou com as Colónias, e que roubou a Portugal as suas maiores e mais ricas Possessões, que tantos suores e trabalhos custaram aos nossos Maiores: ah! e não é este o mesmo,que declarou guerra a Portugal, que mandou varar os Soldados Portugueses até lhes cair a carne a pedaços, e isto por negras mãos, para quem, parece, só deveriam ser feitos os flagelos?! E não é ele o mesmo, que destruiu o nosso Comércio Colonial, e que nos ratou como a gente mais vil do Mundo?! Ah! sim, não duvidemos: aí estão os Periódicos Liberais, e as falas dos Deputados de 1822, que muitas vezes nos deram a ler aquelas célebres Cartas, em que dizia a su Pai "Nós somos dois Monarcas, que estamos em guerra" também nos mostraram outras, em que dizia "Eu de Portugal nada quero, nada, nada", "eu vou dar o último golpe ao Comércio Português" e os mesmos canais nos asseguraram então, que a sua viagem à Bahia não tivera outro fim senão agradecer àquelas Caboucas ou Tapuias gentes o desvelo, e coragem, com que se portaram na expulsão dos "vândalos" Portugueses. Ora valha-nos Deus, e dizem que não há prodígios, e que já não há conversões?! A de Saulo, perseguidor dos Cristãos, em Apóstolo das gentes, não é tão admirável! porque naquele foi a mão de Deus, que a obrou; mas neste perseguidor não temos notícia de tal prodígio; antes se nos apresenta como um acto espontâneo de seu compassivo, e tolerante coração: mas enfim a mão de Deus não é abreviada; poderá ter produzido este prodígio, porque dos maiores pecadores se tem feito os maiores Santos; porém enquanto nos não constar da autenticidade de um tal sucesso, iremos com a linguagem do Evangelho, que não mente, julgando do seu caracter; e como ela nos diga, que pelos frutos é que devemos conhecer a árvore "ex fructibus eorum cognoscetis eos" pelo que fez, pelo que faz, pelo que medita e prepara fazer a Portugal, é que devemos conhecer qual é a sua tolerância, e quais as suas promessas. Sim, já estamos muito convencidos e desenganados: a sua protecção é à francesa, e vêm-nos proteger tanto, como defendeu perpetuamente o Brasil: a sua tolerância é a mesma, e a mesmíssima dos Liberais, de quem se faz Chefe, que nas Ilhas onde dominam tem roubado, e metido tudo a saco, e só para provar os fios das espadas fizeram perecer centenares de pessoas: (que horrores aí se não praticam?!) as suas promessas de paz e felicidade são as mesmas, que todos os Revolucionários do Mundo fazem aos Povos para caírem no langará, os quais só chegarão a ser felizes quando ficam sem camisa. Veja-se o que já dissemos no Artigo "Felicidade" é justamente o que nos promete o Sr. Ex-Imperador.

D. Pedro I do Brasil
Diz que nos deu a Divinal, e que nos colocara na linha das Nações civilizadas; pois onde estamos nós? Estamos porventura em alguma floresta vivendo como as feras? ou éramos alguma horda de Beduínos selvagens, que vivêssemos nos troncos das árvores, ou nas covas de animais ferozes, com quem ficássemos parceirada?! E quem é que lhe pediu a tal Carta?... Quem lhe encomendou o sermão, que lho pague. Se alguém em nosso nome, e sem nós os sabermos lha pediu, e o enganou; nós nunca o quisemos, assim como ele nos não quis; avenha-se lá como quiser com as tais Procuradores, e Requerentes; porque nós sempre quisemos o Muito Alto e Poderoso Senhor D. MIGUEL I, nosso Único, e Legítimo Rei, e nunca o Imperador do Brasil, que era estrangeiro para Portugal; e a todas as pertenções, que o tal Protector empreender sobre Portugal, temos sempre duas palavras para contrastar com outras coisas, que ele com ênfase dizia a nossa respeito: de lá "nada, anda" e nós dizemos agora: Em Portugal tal Protector? "nunca, nunca" E que venha: saberá o mal, de que morreram os que vieram ao porto: cá achará muitos daqueles fiéis e honrados Portugueses, que antes quiseram emigrar para uma Nação estranha, do que obedecer a um Rei estrangeiro; e não são tão poucos como isso; são mais que os Rebeldes Insulares, e tão fracos ou tão valentes, que foi necessário uma Expedição Inglesa, onde vieram nada menos que nove Naus de linha, afóra mais de vinte transportes, que conduziam simplesmente 6$ homens, para obstar ao seu progresso, e à sua victoriosa marcha: cá achará aqueles três oitos, isto é, 8 de Caçadores, e hoje mais crescido que então era, 8 de Infantaria, que então até não quis receber Soldo, e 8 de Cavalaria, que mais de uma vez tingiu as espadas em sangue rebelde, e além destes com igual espírito e denodo encontrará toda a 1ª, 2ª, e 3ª Linha, isto é, a Nação em massa, que talvez estime esta ocasião para tomar vingança dos males, que lhe fez sofrer: entre os que empunham as armas encontrará muitos, a quem fez perder os lugares, os empregos, e a fortuna pela separação, que ele preparou, e concluo; muitos, a quem fez cair em miséria e desgraça pelo último golpe, que deu no Comércio Português: muitos, cujos filhos fez morrer nas guerras do Sul: muitos, cujos parentes, amigos, conhecidos, e correspondentes pereceram, e vão perecendo nas Revoluções do Rio, Bahia, e Pernambuco, de que ele é autor, e primeiro culpado: muitos, que ainda têm os ouvidos escandalizados dos impropérios e blasfémias, que no Brasil é escutaram;muitos finalmente, cujas carnes caíram a pedaços, e cujo sangue rebentava das veias à força de varadas, que a negra gente lhes descarregava, sendo ele que as mandava, e até muitas vezes quem fazia o compasso!! Ah! e com quanta prontidão e firmeza se não apontaram estas armas para um alvo, que é o motor de tantas desgraças?! Sem dúvida, que folgaram todos estes por ver chegar o dia, em que possam recompensar ao seu Protector os grandes benefícios, de que lhe são devedores. Ainda falta mexer numa tecla, que sem dúvida há de dar muito bom som.

E que nos dizem os nossos leitores daqueles valentes e guerreiros campeões, em cuja frente diz que marcha a subjugar Portugal?! Que gente! todos são Hércules na valentia! ou pelo menos Alexandres e Césares na fortuna!! Ao apresentar-se essa falange tudo estremece, tudo cede, tudo cai, etc...... Ora, ninguém sem dúvida nos estranhará, se nós fizermos aqui um paralelo entre esta gente, e seu Chefe, com os partidários de Catilina, e seu Capatás, e se aplicarmos a eles, o que Cícero diz daqueles traidores comandados por Catilina: parece que o Orador Romano profetisou este caso: mas isso não admira, porque o carácter dos revolucionários de então, é o mesmo dos de hoje, e há de ser o de todos, que aparecerem no Mundo, porque todos são malvados. Vamos ao caso: Cícero divide todos os sectários de Catilina em seus classes, e nós com ele igualmente dividimos os grandes Campeões Insulares nas mesmas seis classes:
"Os primeiros, são aqueles, que tendo grandes dívidas, têm ainda maiores cabedais, de cujo amor prendidos, se não querem soltar. A classe destes homens afecta de honrada, pois são ricos; mas a sua vontade, e causa, que seguem, muito desaforada."
Ah! e quantos destes, que em bom Português chamamos caloteiros, estão por lá, ou por cá, e tanto de lá, como de cá, advogam a Causa da Rebelião, para à sombra dela se livrarem das dívidas, que perfidamente contraído, ou para melhorarem de fortuna?! Como se enganam!! A estes dizemos o mesmo, que dizia Cícero:
"Tu com campos, tu com propriedades de casas, tu com dinheiro, tu com família, tu adornado, e abundante de tudo; e dúvidas cortar pelas tuas posses, para ajudar o Estado, e recobrar o crédito? Que é o que esperas? A guerra? E para que? Julgas que na assolação geral de tudo hão de ser privilegiados os teus bens? Pois quê? Atens-te a novas leis? Enganam-se os que as esperam de Catilina."
Estas são as formais palavras de Cícero na sua 2ª Catilinária. E quem diria que um Republicano como este havia fazer um elogio tão fúnebre daqueles, que se chamam seus discípulos?! Se mudarmos unicamente a palavra Catilina em outra, que todos sabemos; que bela pintura?! Esta classe de gente é tão desgraçada, que até os seus mesmos heróis os condenam. Mas voltemos ao nosso Cícero, que nos vai descrevendo o carácter dos nossos Revolucionários.
"Outro género, diz ele, e dizemos nós, é o daqueles, que, carregados de dívidas, esperam com tudo, e querem mandar, e governar: crendo que, perturbada a República, conseguiram as honras, que não podem com ela sossegada."
Agora deixamos o Orador, porque ele diz, que a estes é bastante que se intime isto unicamente, a saber, que ele é o Cônsul: e em lugar disto dizemos nós, a estes apaniguados do Ex-Imperador, basta que se lhe intime "DOM MIGUEL É REI DOS PORTUGUESES" e vê-la mais do que Cícero. Agora continuamos com o Orador.
"Além disto, que há ânimos grandes em pessoas de probidade, grande concórdia, grande multidão, grandes tropas de soldadesca: enfim, que os Deuses imortais presentes (em lugar desta frase gentílica, devemos ler a Providência do Omnipotente, e a Proteção de Maria, que sempre nos tem sido presente) hão de dar auxílio a este invicto Povo, nobilíssimo Império, e formosíssima Cidade contra tão enorme maldade. E no caso que cheguem a conseguir, o que desejam com a maior insolência, porventura esperam nas cinzas da Cidade, e sangue dos Cidadãos ser Cônsules, Ditadores, ou ainda Reis, conforme o deseja seu ânimo perverso, e malvado? Não vêm que, se conseguirem o que desejam, forçosamente o hão de conceder a algum foragido, e brigão?!"
Que tal vai a pintura feita há quase dois mil anos?! (Isto aconteceu em janeiro do ano 62 antes de Cristo, por consequência há 1890 anos)
"O terceiro género, diz o Orador, e nós com ele, é de idade já avançada: são homens nascidos alguns em colónias,... mas estes são plebeus, que com dinheiros inesperados, e repentinos se ostentaram com grande pompa,.... os quais foram também a causa de que alguns rústicos pobres, e necessitados se metessem em esperanças daquelas antigas rapinas. A uns, e a outros ponho no mesmo género de ladrões, e roubadores."
Que tal está o elogio?! Mas não se devem escandalizar, porque é do maior, e mais sincero republicano, que houve no mundo. Vamos com ele, que é um mestre em conhecer esta canalha.
"O quarto género (diz Cícero, e nós igualmente) é na verdade vário, mesclado, (até este homem já lhe chama malhados, porque a palavra latina "mixtum" também sofre este sentido) e turbulento: estes há muito se vêm oprimidos de modo, que nunca levantam cabeça: dos quais uns por inércia, outros por má administração de bens, e outros também  por gastos, perigam por dívidas antigas: e cansados de citações, e penhoras, se diz passaram muitos da Cidade, e dos Campos para aqueles arraiais. A estes não tenho eu por soldados valorosos, como negadores brandos. Se este homens não podem subsistir, caiam, mas de sorte, que não arrastem a cidade, e próximos: não entendo porque causa não podendo viver com decoro, querem morrer com infâmia! ou porque razão se capacitam será menor a sua dor, morrendo acompanhados, do que sós."
Que bela imagem! cada vez se assemelha mais ao original, que temos diante dos olhos. Fale só o grande Cícero; porque nem é necessário mudar uma só letra.

(continuação, VII parte)

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