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18/05/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXV)

(continuação da LXXXIV parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações
 

Cap. LVIII
Não Se Deve Investigar As Coisas Do Alto Nem Os Ocultos Juízos De Deus

1. Cristo – Filho, não disputes sobre assuntos muito elevados e sobre os ocultos juízos de Deus.
Não indagues a razão pela qual o senhor desampara uns e leva outros a grandes graças; nem os motivos que a este levam às aflições e aquele a tantas honras e glórias. Estas coisas excedem a inteligência dos homens e, por mais esforço que eles façam por penetrá-las, não poderão jamais desvendar, pelo seu raciocínio, a profundeza dos meus juízos.
Quando o inimigo te tente nesta matéria, ou os homens curiosos te consultem, responde-lhes o que diz o Profeta: "Justo sois, Senhor, e justos são os Vossos juízos." e também aquilo do mesmo Profeta: "Os juízos do Senhor são verdadeiros e em si mesmos cheios de justiça."
Ao homem pertence temer e não examinar os meus juízos, porque são incompreensíveis ao entendimento humano.

2. Não inquiras nem discutas sobre o merecimento dos santos; qual seja o mais santo ou o maior no reino dos Céus. Isto não serve senão para produzir debates inúteis, nutrindo a soberba e a vã glória, das quais nascem, depois invejas e discórdias.
Um disputando por parte de um santo, outro por parte de outro, ambos teimam com tal soberba que cada qual pretende que o seu santo seja o preferido.
Nenhum fruto se tira de semelhantes averiguações, que desagradam aos próprios santos.
Eu não sou o Deus da discórdia, mas da paz, e esta paz procede da verdadeira humildade e não da exaltação.

3. Há pessoas que, por zelo ou predilecção, se afeiçoam mais a uns santos do que a outros, mas essa afeição é mais humana do que divina.
Sou eu quem criou todos os santos, lhe dei a graça e lhes comuniquei a minha glória. Eu sei os merecimentos de cada um deles, eu os preveni com as bênçãos da minha doçura. Eu os predestinei, antes de todos os séculos, os meus eleitos. Eu os escolhi do mundo, e não eles a mim. Eu os chamei pela graça, e os atraí pela misericórdia, e os fiz passar por muitas provações. Eu derramei nos seus corações inefáveis consolações; dei-lhes a perseverança e coroei a sua paciência.

4. Eu conheço todos desde o primeiro até ao último, e amo todos com um amor incalculável.
Eu devo ser louvado em todos os meus santos, bendito em todas as coisas e honrado em cada um deles, que tão gloriosamente exaltei e predestinei sem prévio merecimento algum da sua parte.
Quem, pois, despreza o menor dos meus santos, não honra o maior, porque eu fiz o pequeno e o grande.
O que menospreza algum dos meus santos, menospreza a mim e a quantos estão no reino do Céus.
São todos um, pelo vínculo da caridade; têm um mesmo sentimento e uma mesma vontade e amam-se todos com o mesmo amor.

5. Além disso, o que é mais sublime ainda, eles têm mais amor a mim do que a si e aos seus méritos. Arrebatados acima de si mesmos, acima do seu próprio amor, passam inteiramente ao meu, no qual acham a sua felicidade e o seu repouso.
Nada pode apartá-los deste grande objecto, porque, cheios da eterna verdade, ardem no fogo inextinguível do amor.
Nada disputem, portanto, sobre o estado dos santos, os homens carnais, que não amam senão a sua própria conveniência, e os seus gestos particulares. Esses homens elevam ou abaixam o valor dos santos, segundo os caprichos pessoais e não segundo a regra da eterna verdade.

6. Em muitos tal procedimento é fruto da ignorância, sobretudo naqueles que, pouco esclarecido, a ninguém, de ordinário sabem amar com um perfeito amor espiritual. Amam a umas pessoas mais do que a outras, por um afecto natural e por uma amizade humana e, do mesmo modo como amam as coisas terrenas, julgam dever amar as celestes.

7. Foge, pois, filho meu, de tratar curiosamente daquilo que exceda a tua ciência, mas põe todo o teu cuidado em merecer ao menos o ultimo lugar no reino de Deus.
Quanto houvesse quem descobrisse qual era o mais santo e o maior do reino dos Céus, de que lhe serviria esse conhecimento, se não tomasse daqui motivo para mais se humilhar e para se render maiores louvores ao meu nome?
Muito mais amo aqueles que consideram a grandeza dos seus pecados, a escassez das suas virtudes e a imensa distância que os separa da perfeição dos santos, do que aqueles que discutem sobre a maior ou menos glória deles.
É melhor rogar aos santos, com orações e lágrimas, pedindo-lhes humildemente o seu patrocínio, do que indagar, com fútil curiosidade, os segredos da sua glória.

8. Os santos dar-se-iam por muito contentes, se os homens soubessem contentar-se e permanecer nos limites da sua fraqueza, reprimindo a liberdade dos seus discursos.
Eles não se gloriam dos seus próprios merecimentos, porque não atribuem a si bem algum, antes tudo referem a mim, que tudo lhes dei pela caridade infinita que tive com eles.
Eles estão de tal sorte cheiros de amor da minha Divindade e de uma superabundância de delícias, que nada falta a sua glória, nem pode faltar à sua soberana felicidade.
Quanto mais os santos são elevados na glória, tanto mais são humildes e chegados a mim, abrasando-se no meu divino amor. Por isso diz a Escritura: "Eles depõem as suas coroas diante do Trono de Deus; prostram-se diante do Cordeiro; adoram Aquele que vive em todos os séculos dos séculos."

9. Muitos inquirem qual seja o maior santo do reino de Deus, e não cogitam de saber se serão dignos de ser contados entres os menores espíritos que o habitam.
É coisa grande ser o menor no Céu, onde todos são grandes, porque serão chamados filhos de Deus e o serão na realidade.
O menor dos eleitos valerá por mim, e o pecador, mesmo depois de uma longa vida, morrerá para sempre.
Perguntando-me os meus discípulos qual fosse o maior no reino dos Céus, respondi-lhes: "Se não vos converterdes e vos fizerdes como meninos, não entrareis no reino dos céus. Quem, pois, se humilhar e fizer como este menino, será o maior no reino dos Céus."

10. Ai daqueles que recusam humilhar-se voluntariamente, com os pequeninos, porque a porta do meu reino de Deus, porque a porta do reino dos Céus lhes estará trancada.
Ai também dos ricos, que têm neste mundo as suas consolações, porque, quando os pobres entrarem no reino de Deus, eles ficarão chorando do lado de fora.

Humildes, regozijai-vos! Pobres, transportai-vos de alegria! Porque vosso é o reino de Deus, se verdadeiramente me servires.

01/05/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXVIII)

(continuação da LXXVII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações
 

Cap. LI
Procurar As Obras Humildes, Se Nos Acharmos Incapazes Para As Grandes

1. Cristo - Filho, não podes conservar-te sempre no fervor das virtudes e no mais alto grau da contemplação.
É necessário que, algumas vezes, por causa da depravação da natureza, desças a coisas baixas e leves com repugnância o peso desta vida corruptível.
Enquanto viveres nesse corpo mortal, sentirás o coração enojado e oprimido. Convém, pois, que na carne gemas muitas vezes e dela te venham sofrimentos, porque não te podes aplicar continuamente aos exercícios da vida espiritual e à contemplação das grandezas de Deus.

2. Convém que neste tempo te apliques a ocupações humildes e exteriores e te alegres na prática das boas acções, esperando com firmeza e confiança, o meu regresso a ti e os remédios com que te livro das tuas penas.
Farei que te esqueças dos teus trabalhos e gozes perfeita paz.
Exporei à tua vista o delicioso jardim das minhas Escrituras para que, dilatando por ele o teu coração, comeces a correr pelo caminho dos meus mandamentos.
Então dirás com São Paulo: "Todos os sofrimentos da vida presente não têm comparação com a glória que um dia nos será manifestada."

14/04/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXX)

(continuação da LXIX parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XLIII
Da Ciência que Deus Inspira Aos Humildes

1. Cristo - Filho, não te deixes namorar da formosura e subtileza dos discursos dos homens.
O Reino de Deus não consiste em palavras, mas em virtudes.
Considera atentamente os meus conselhos, que acendem o coração, iluminam a alma e a compungem, ao mesmo tempo consolando-a de mil modos.
Nunca leias com desígnio de parecer mais sábio e letrado.
Aplica-te seriamente às mortificações das paixões, porque esse exercício mais útil te há de ser que o conhecimento das questões mais intrincadas.

2. Por mais estudo que faças, por mais ciência que tenhas, sempre deves voltar a mim, como àquele que deve ser o princípio e o fim dos teus conhecimentos.
Eu sou quem ensina aos homens o que sabem e quem dá mais luz e inteligência aos simples do que lhes poderiam dar todos os homens juntos.
Aquele a quem falo, depressa possuirá sabedoria e se adiantará maravilhosamente na vida do espírito.
Infelizes aqueles que buscam na ciência dos homens o de que nutrir a sua curiosidade e tratam pouco de saber o que devem praticar para Me servir.
Tempo virá em que Jesus, Rei dos Anjos, há-de aparecer como Doutor dos Doutores, para examinar o estudo e a ciência de cada um, sondando o fundo dos corações e das consciências. Então é que, segundo a linguagem do Profeta, Ele levará a luz das Suas lâmpadas até aos lugares mais ocultos de Jerusalém e, manifestando o que estava envolto em trevas, fará mudas as línguas e confundirá todos os vãos discursos.

3. Eu sou quem, em rápido instante, escuta o espírito humilde e o faço entender as razões divinas das verdades eternas, melhor do que aqueles que se instruíram nas escolas por espaço de dez anos.
O meu modo de ensinar não é misturado do estrondo das palavras, nem da confusão que produz a diversidade das opiniões. Nele não entra o fausto da ambição e da honra, nem o calor das disputas e dos argumentos.
Eu ensino a desprezar os bens terrenos, e a aborrecer os presentes, a buscar e amar os bens eternos; a fugir das honras; a sofrer as injúrias; a pôr somente em mim toda a esperança; a não desejar, fora de mim, coisa alguma e a amar-me ardentemente sobre todas as coisas.

4. Pessoas há que, amando-me do íntimo do coração, aprenderam segredos divinos dos quais falam de modo admirável. Elas se adiantaram mais, tudo renunciando, do que estudando subtilezas.
Mas eu não me comunico igualmente a todos. A uns digo coisas comuns; a outros ensino coisas particulares; descubro-me a alguns através de sombras e figuras; e revelo a outros, com muita clareza, os meus mistérios.
Os livros dizem todos a mesma coisa, mas não fazem em todos a mesma impressão.
Mas eu ensino a verdade, indago o coração, penetro os pensamentos, interpreto as acções, distribuindo pelos homens os meus dons, segundo me agrada.

19/01/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LII)

(continuação da LI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XV
Como Se Haver e Falar das Coisas Desejadas

1. Cristo - Filho, eu quero que em tudo me fales assim: "Senhor, se Vos agrada o que Vos proponho, faça-se. Se a Vossa honra tem nisso interesse, em Vosso nome se faça. Senhor, se o que eu vos peço Vos convém, concedei-me. Se entendeis que é nocivo à minha salvação, tirai-me semelhante desejo."
Porque nem todo o desejo é inspirado pelo Espírito Santo, ainda que ao homem pareça bom e útil.
É difícil julgar se é o bom ou o mau espírito que te leva a desejar isto ou aquilo, ou se é o teu próprio espírito que se move em teu desejo.
Muitos, que no princípio se julgavam inspirados pelo bom espírito, verificaram, no fim, que foram enganados.

2. Deves sempre oferecer-me as tuas petições e os teus desejos, com temor e humildade, remetendo tudo à minha disposição, renunciando inteiramente à tua própria vontade e dizendo: "Senhor, Vós sabeis o que é melhor. Fazei tudo como melhor Vos agradar. Dai-me o que quiserdes, como quiserdes e quando quiserdes. Tratai-me como sabeis e do modo que Vos for mais agradável e conforme a Vossa glória. Ponde-me onde quiserdes. Disponde de mim em tudo com inteira liberdade. Eu estou na Vossa mão. Farei de mim o que melhor Vos parecer. Como Vosso servo, estou pronto para tudo, pois desejo viver para Vós e não para mim. Que a Vossa bondade me faculte cumprir este desejo de modo digno e perfeito."

3.Alma - Ó Jesus de bondade infinita, derramai a Vossa graça em meu coração, a fim de que ele seja comigo, trabalhe comigo e persevere até ao fim! Concedei-me que sem demora deseje e queira o que Vos for mais aceite e amável! A Vossa vontade seja a minha, e a minha em tudo conforme a Vossa. Não tenha eu mais que um querer e não querer, e um e outro seja Vosso, de sorte que não possa eu querer senão o que Vós quereis, e não querer senão o que Vós não quereis.

4. Fazei que eu morra por tudo o que é do mundo e que ame ser desprezado e desconhecido por amor de Vós. Fazei que eu descanse antes em Vós do que em tudo o que posso desejar e que o meu coração ache no Vosso o abrigo à sua paz. Vós sois o meu verdadeiro e único descanso. Fora de Vós tudo me é penoso e inquieto. Fazei-me pois gozar esse sono divino que se acha na soberana paz, isto é, em Vós, ó meu Deus, que sois o bem único, soberano e eterno.

03/01/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (L)

(continuação da XLIX parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XIII
A Obediência Humilde, A Exemplo de Jesus Cristo

1. Cristo - Filho, quem se furta à obediência, furta-se à graça. Quem procura o bem particular, priva-se dos bens comuns e gerais. Quem não se sujeita de boa vontade ao seu superior, mostra que a sua carne ainda não lhe obedece perfeitamente, mas resiste e murmura muitas vezes.
Aprende, pois, a obedecer prontamente ao teu superior, se desejas que a tua carne também te obedeça.
Tu vencerás depressa esse inimigo se o teu coração não estiver dividido contra ti.
Tu és o mais penoso e o mais formidável inimigo da tua alma, quando não te rendes ao que a lei do espírito pede de ti.
É necessário que te desprezes a ti mesmo, se queres triunfar da carne e do sangue.

2. Mas porque ainda te amas desordenadamente, receias sujeitar-te à vontade dos outros. Que maravilha, no entanto, julgas ver no facto de, sendo tu pó e nada, a um homem te sujeitares, quando eu, que do nada tirei todas as coisas, me sujeitei aos homens, por amor de ti?
Eu desci do cume da minha glória ao mais profundo abismo da tristeza, a fim de que aprendesses a vencer a soberba do homem pela humildade de um Deus.
Aprende a obedecer, pó soberbo; aprende a abater-te, terra e cinza, e a querer ser bem pisada aos pés de todos. Aprende a quebrar as tuas vontades e a entregar-te à sujeição.

3. Ira-te contra ti mesmo e não sofras que a soberba te domine. Mostra-te tão pequeno e humilde que todos possam andar sobre ti, como se anda sobre a lama das ruas. De que podes queixar-te, homem vão e presunçoso? Que podes opor, vil pecador, àqueles que te injuriam, se tu tantas vezes injuriaste a Deus com teus pecados, merecendo, por isso, as penas do Inferno?
A minha misericórdia te perdoa, porque a tua alma é preciosa a meus olhos e desejo que conheças quanto te amo e quanto deves ser agradecido aos meus benefícios, e para que te entregues à submissão e à humildade, sofrendo com paciência o ser desprezado.

20/12/14

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XLV)

(continuação da XLIV parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap.VIII
Baixo Conceito de Si Próprio Diante Da Grandeza de Deus

1. Alma - Falarei ao meu Senhor, eu que não sou mais do que pó e cinza. Se me tiver em melhor conta, eis que Vos ergueis contra mim, e as minhas iniquidades darão testemunho a que não poderei responder. Porém, se perco todos os meus vãos sentimentos, se me abato, se me aniquilo, se me reduzo àquele pó e cinza que sou na realidade, a Vossa graça me será favorável e a Vossa luz alumiará o meu coração.
As menores faíscas desta estimação presunçosa de mim mesmo serão extintas no abismo do meu nada, sem que jamais possam outra vez acender-se.
Neste abismo é que Vós me fazeis conhecer a mim mesmo; que me ensinais o que sou, o que fui e o estado de que saí. Eu nada sou e eu não o sabia.
Quando me entregais a mim mesmo, vejo que não sou senão fraqueza e um puro nada. Mas se lançais para mim a Vossa vista favorável, logo me sinto forte e cheio de nova alegria.
Quanto a Vossa misericórdia é admirável para comigo, sustentando-me e honrando-me com Vossas amabilidades, ainda que pelo meu próprio peso me sinta inclinado para a terra!

2. Isto é um grande efeito do Vosso amor, que se antecipa gratuitamente socorrendo-me em mil necessidades, guardando-me de graves perigos e salvando-me de infinitos males.
Eu, amando-me desordenadamente, me perdi.
Procurando-Vos, encontrei-me de novo e o Vosso amor me fez compreender o que realmente sou.
Assim, a Vossa bondade infinita, meu Deus, me concedeu graças incomparavelmente superiores aos meus merecimentos e superiores ainda àquelas que eu me atrevia a esperar de Vós e a pedir-Vos.

3. Bendito sejais, Senhor, porque, anda que eu seja indigno de todo o bem, contudo é próprio da Vossa majestade e bondade infinitas fazer bem ainda aos ingratos e àqueles que andam mais apartados de Vós.
Fazei que nos voltemos para Vós, a fim de que sejamos agradecidos, humildes, devotos; porque só Vós sois a nossa salvação, a nossa santidade, a nossa fortaleza.

19/12/14

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XLIV)

(continuação da XLIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap.VII
Ocultar a Graça Debaixo da Humildade

1. Cristo - Filho, é muito útil e seguro para ti ocultares a graça não te desvanecendo de a ter, nem falando muito dela, nem presumindo de ti porque a possuis.
O melhor é desprezares a ti mesmo, considerando a graça recebida como dada a uma pessoa que a não merece.
Não deves fiar-te muito na presente disposição do teu espírito, pois facilmente podes mudar-te em disposição contrária.
No tempo em (que) possuis a graça, considera a grande pobreza e miséria em que ficas se ela se retira da tua alma.
A perfeição da vida espiritual não consiste somente em teres a graça da consolação, mas em sofreres com humildade, paciência e abnegação, que ela te seja retirada; em não deixares de orar, nem de fazeres os exercícios do costume, antes executá-los do melhor modo que puderes e entenderes; e em não te descuidares de ti por causa da secura e das inquietações que sentes no teu interior.

2. Muitos se deixam levar da impaciência e da preguiça, logo que as coisas não correm a seu jeito. Mas o caminho do homem não depende sempre do homem. A Deus pertence dar a graça e o gosto dela a quem lhe parece, do modo que lhe parece e seguindo a medida que lhe parece.
Algumas pessoas imprudentes se arruinaram por um calor de devoção que as levou a empreender mais do que podiam, sem se advertirem de que os seus projectos eram improporcionados à sua fraqueza. Consultaram mais o zelo do seu espírito do que a luz da sua razão.
Tendo a presunção de aspirar a coisas de que não eram capazes diante de Deus, perderam a graça que tinham recebido. Caíram repentinamente na pobreza e no abatimento, no momento em que, como águias, queriam pôr o seu ninho no Céu.
Humilhados e abatidos, aprenderam que não podem voar até mim com suas próprias asas, mas que devem esperar, acolhendo-se à minha protecção.
Os que ainda são novos e inexperientes no caminho de Deus e não têm Dele os devidos conhecimentos, facilmente se perderão, não se deixando aconselhar por aqueles que têm a luz da prudência por serem experimentados.

3. Se tais principiantes preferirem seguir os seus próprios pareceres, dispensando os das pessoas às quais o tempo facultou o conhecimento das realidades, correm eles grande perigo, a menos que Deus os socorra com a graça de renunciarem o aferro aos seus próprios sentimentos.
Aqueles que se presumem de sábios raramente se deixam conduzir por outros. É melhor ser humilde com pouca ciência do que ser muito sábio com desvanecimento de si mesmo.
Um menor dom é muito melhor do que um grande, quando este serve de ensoberbecedor a quem o possui.
Não procede discretamente quem se entrega de todo à alegria, esquecendo-se  de sua anterior miséria e do puro temor de Deus, que sempre receia perder a graça recebida.
É também falta de virtude perturbar-se e desfalecer nos sucessos tristes e penosos e não ter, então, firme confiança no meu patrocínio e na minha bondade.

4. Aquele que se considera muito seguro na paz, achar-se-à na guerra tímido e covarde.
Se soubesses viver sempre humilde e pequeno no teu conceito, contendo-te nos limites de uma justa moderação, não estarias tantas vezes na tentação e no pecado.
Quando te achares penetrado de um grande fervor, deves meditar sobre o que será de ti, se retirada for essa graça.
Se a graça se ausentar de ti, considera que ela pode vir outra vez. Dela não te privei por algum tempo, senão para que te acauteles e dessa ausência possas tirar proveito para teu bem e glória minha.

5. Mais útil te é esta prova do que uma paz perpétua e imutável.
O merecimento de uma alma não se deve medir pelas visões e consolações divina, nem pelo conhecimento das Escrituras, nem pelos graus de honra e dignidade.
Para se conhecer o valor de alguém, deve-se verificar se está fundada em verdadeira humildade e se vive cheio de amor de Deus; se procura a glória do Senhor com a mais pura e recta intenção; se sabe desprezar-se a si próprio; e se gosta mais de ser desprezado e esquecido do que estimado e louvado pelos homens.

11/12/14

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XLI)

(continuação da XL parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap.IV
Verdade e Humildade Diante de Deus

1. Cristo - Filho, anda em minha presença em verdade e simplicidade de teu coração.
Quem segue as regras da minha verdade será defendido dos ataques do inimigo e a verdade o livrará dos embusteiros e das murmurações dos maus.
A verdade te fará verdadeiramente livre e nenhum cuidado te dará o que os homens injustamente disserem de ti.

2. Alma - Sim, meu Senhor, o que dizeis é verdade e eu Vos peço a graça de ser como desejais. A Vossa verdade me ensine, me defenda e me conserve em Vós até ao fim. Ela me livre de todos os maus desejos, dos afectos desordenados, e andarei no Vosso serviço com grande desafogo do meu coração.

Cristo - Eu te ensinarei o que é justo e o que me agrada. Considera grande aborrecimento e tristeza os teus pecados e jamais imagines que és digno de consideração por tuas boas obras, transigindo com o pecado.
És, realmente, pecador, sujeito às paixões, preso nos seus laços. Em ti tens um peso que te arrasta para o nada; facilmente cais, facilmente és vencido, e a menor infelicidade te desanima e te perturba. Nada tens de que possas gloriar-te; muito, porém, de que te envergonhes. A tua fraqueza é maior do que possas imaginar.

3. Nada, pois, do que fazes, te pareça grande. Nada julgues sublime, preciso, admirável, nem digno de ser considerado, louvado ou desejado, senão o que é eterno.
Acima de tudo, deves colocar a verdade eterna e desagrade-te sempre a tua vileza.
Nenhuma coisa temas, vituperes e abomines tanto como os teus vícios e pecados, os quais devem entristecer-te mais do que todos os infortúnios.
Alguns não andam diante de mim com singeleza, mas levados de certa curiosidade e arrogância, querendo saber os meus segredos e entender os meus mistérios; e, assim, descuidam-se de si e da sua salvação. Estes, muitas vezes caem em grandes tentações e pecados, pela sua soberba e curiosidade, castigando-os, consequentemente, a minha justiça.

4. Teme o juízo de Deus e a ira do Omnipotente.
Não queiras penetrar as obras do Altíssimo. Examina, antes, as tuas maldades, as faltas em que caíste e a quantidade de boas obras que deixaste de fazer por negligência. Alguns põem toda a sua devoção nos livros, outros nas imagens, outros nos gestos exteriores. Trazem-me na boca, mas não no coração.
Outros há que, tendo a alma ilustrada e o coração puro, suspiram continuamente pela eternidade; afligem-se ouvindo falar da terra; fazem com repugnância o que à natureza não podem negar. Estes compreendem perfeitamente o que o espírito da verdade lhes fala ao coração. Este espírito lhes ensina a desprezar as coisas terrenas, a amar as celestes, a rejeitar o mundo e a desejar o Céu, dia e noite.

18/09/14

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XVII)

(continuação da XVI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

Cap. XVII
A Vida Religiosa

1. Convém que aprendas a contrariar-te em muitas coisas, se queres ter paz e concórdia com os outros.
Não é pouco habitar nos mosteiros, viver neles sem queixas, e preservar fielmente até à morte.
Bem-aventurado aquele que vive bem nesse lugar e ditosamente acaba. Se queres permanecer e aproveitar, considera-te deterrado e peregrino sobre a Terra. Convém fazeres-te louco por amor de Cristo, se queres seguir a vida religiosa.

2. O hábito e a tonsura pouco importam. A mudança dos costumes e a perfeita mortificação das paixões fazem o homem verdadeiro religioso.
Aquele que busca outra coisa mais que puramente a Deus e a salvação da sua alma, achará só dor e atribulação. Não pode estar em paz quem não procura o ser mínimo e sujeito a todos.

3. Vieste para servir e não para governar; sabe que foste chamado para te exercitares no trabalho e no sofrimento, e não para gastar o tempo em conversações ociosas.
Aqui, finalmente, se provam os homens como na fornalha o ouro. 
Aqui ninguém pode estar senão quem, de todo o coração, se quiser humilhar perante Deus.

10/12/13

"SOBRE A TOLERÂNCIA"

 LIÇÃO XX
SOBRE A TOLERÂNCIA

 A Virtude da tolerância não é virtude por si mesma, mas parte da paciência, com a qual sofrem os vassalos os trabalhos que lhes motivam seus Príncipes, os súbditos os que lhes ocasionam seus superiores, os filhos os que lhes fazem seus pais, e finalmente os criados os que lhes granjeiam seus amos. O conselho é do famoso António Peres, que com os Príncipes se hão-de haver os inferiores em suas queixas, como os galões de pouco merecimento com damas grandes, de quem receberam alguma sem razão, que em só ver-lhe a cara dão sua queixa e lhes fazem o cargo só agravo; que com Reis não há que porfiar, senão sofrer, calar e retirar-se; porque é gente que se não vence senão fugindo, e deixando à natureza o juízo e satisfação, e a poucos a fortuna, que por tirana, e desconcertada, que é também a poucos, é verdugo da natureza, que em fim serva sua é. Não sofre ninguém por mais bem a cavalo, ou por mais alto, que se ache; porque com mais força tropeça, e caio mais forte, que o mais fraco. O concelho é de Séneca, que todo o homem sábio deve fugir à ira do mais poderoso, e procurar por todos os meios evitá-la: Sapiens numquam iram potentioris provocavit, imo declinavit. Louco é o que com o superior contende; porque aonde é seguro ser vencido, é loucura entrar na contenda; de que nos aconselham fugir os seguintes versos:

Contra maiorem nemo praesuinat honorem,
Nulli cum superis homini contendere fas est.
Pro jure hanc litem nemo probare velet.

Não menos excelente é o conselho de Epíteto, que dando regras para se tratarem os grandes, diz que quando falares a algum grande, imagina, que não o acharás em casa, ou que estará encerrado, ou que as portas não estarão abertas para ti, ou que te desprezará; e se cuidando tu isto, achares, que te importa que vás, convém, que também tenhas tolerância para tudo o que te poderá suceder, que não murmures em ti mesmo, e enfim, que não digas: Este homem se faz muito grande Senhor. Tal discurso pertence ao Povo, e não a ti, a quem não toca o por-lhe leis a teu modo, senão seguir as que eles te puserem; se os hás mister, busca-os, e se os não necessitas, venera-os, e respeita-os: para maior harmonia pôs Deus a desigualdade em todas as coisas, e não desaproves as obras de Deus. Se o grande for mau, reverencia-o como maior que a ti, a quem não pertenceu o julgá-lo, mas rogar a Deus por sua emenda, e tolera-o voluntario, para que assim te seja mais suave a dor, que te causa o seu desabrimento, ou a sua soberba; seguindo o conselho, que nos dois versos seguintes dá um poeta:

Ferre decet patientier onus, quod ferre necessum,
Qui jacet invitus, durius ille jacet.

Usa dos grandes, como usas do fogo; o fogo, que está muito distante, não aquenta; o que muito perto, queima; e o que está em proporção, sobre não queimar, aquenta. não te chegues tanto aos grandes, que te abrasem, que são como o Sol, que não permite vizinhanças; nem te afastes tanto, que te não possas valer do seu amparo, que são como a árvore, que não abriga os que se afastam do copado de seus ramos. Procura que estejam de ti a distância possível, ou pelo menos, que se te não avizinhem muito; foge de suas inimizades, trata de os ter benévolos, mas não amigos, que sua conversação não é companhia, para em servidão, quando não é inimizade conhecida. As figuras de estatura maior se hão-de alargar da vista, porque delas se goza melhor em do que na distância.

Não te deves confiar muito em nos que reconheceres grandes, e superiores, porque não é segura a protecção, e amparo, pois sempre querem ser servidos, e adorados, como superiores, e para servirem sempre têm embaraços, como escreve Francisco de Sá de Miranda na sua Egloga dos Pastores, n 36.37.38.39 e 40:

Andei daquém para além,
Terras vi, e vi lugares,
Tudo seus avessos tem,
O que não experimentares,
Não cuides que o sabes bem.
E às vezes quando cuidamos,
Que alguma coisa entendemos,
A cabra cega jogamos:
Achei-vos cá fortes amos,
Querem que os adoremos.

Para as coisas que acontecem,
Quando os bufais, ora o sono,
Ora achaques mil te empecem,
Ao tosquiar achas dono,
Nas pressas não te conhecem:
Tudo lhes o demo deu,
Têm razões más que nos dão,
Quando te hão mister, es seu,
Quando os hás mister, és teu,
Que não tem amos então.

Essa vez que saiém à rua
Estremece toda aldeia,
Eles bebem, e homem sua;
Dói-lhes pouco a dor alheia,
Querem que nos doa a sua,
Inda que o dano é me grosso,
Pudera-o dissimular,
Isto parceiro, não posso,
O entendimento que é nosso,
Não no-lo querem deixar.

Pelo qual com meu fardel
Fugi das vossas aldeias,
Não trago nos beiços mel,
Que não sou eresta colmeias,
Nem posso ser ministrel:
A saudade não se esrece,
Mas caiu-me um coração
Em sorte, que muito empece,
Que outro Senhor não conhece,
Salvo justiça, e razão.

Então queixo-me a ti logo,
Que em casos que aconteceram,
Vi-me por eles no fogo,
Bradei, e não me valeram
Brados, queixumes, nem rogos;
Assim me saí, mui quêdo,
E quêdo, e fará um dia
O que outro não fez, e hei medo
De ver mór vingança cedo
Do que já agora queria.

Porém faz sempre muito para tê-los favoráveis, porque senão servem de ordinário para amigos, para inimigos são muito poderosos; e assim procura por todas as vias merecer-lhe o agrado, em quanto senão atravessar entre eles, e tia tua consciência; porque não deves temer perder aos homens por mais poderosos que sejam, quando conservares amizade com Deus, como verdadeira, e piamente cantou certo poeta:

Si placeas Christo, facilis jactura potentum est,
Latius imperium Caesare Christus habet.
Nam, si placeas mundo, facilis jactura salutis,
Quem diligit mundus, displicet ille Deo.


Porque Deus tomará à sua conta a tua defesa, pois nunca desamparou os justos perseguidos; e por isso cantou certo poeta na forma seguinte:

Vide egojactos varios discrimine justos,
Et vidi nullum deseruisse Deum.


Muita paciência é necessária para tolerar poderosos, cujos rogos são mandados, como sentiu Ausónio, quando escreveu:

Scribere me Augustus jubet, et mea carmina poscit,
Pene rogans blando vix latet imperium.


Porque quando pedem, é já quase coma espada nua, como canta outro poeta:

Est rogare Ducum species violenta jubendi.
Et quasi nudato supplicat ense potens.


Sendo a razão para se fazer, e obrar o que pedem, de ordinário nenhuma outra mais, que a sua vontade, como chorou outro poeta:

Sic volo, sic jubeo, sit pro ratione voluntas,
Natura sequitur semina quisque suae.
--------------- Pro lege voluntas
Principis esse jolet, quidquid decreverit ille,
Est ratum, mos est, et legis habere vigorem.


E a razão deste desconcerto está, porque a prudência, e poder raras vezes vivem juntas, como disse Carlos Scribanos: Nisi quis credat potentiam, et prudentiam justim stabulare non posunt. E daqui procede, que são mais prontos para o mal, que poderosos para o bem, como escreveu Ovídio, aconselhando, que se fuja deles:

Vive tibi, quantumque potes praelustria vita,
Saevum praelustri fulmen ab arce venit.
Nam quamquam soli possunt prodesse potentes,
Non prosunt, potius plurium obesse solet.


E o mesmo cantou outro, com não menos elegância:

Vive, et amicitias Regum fuge; pouca monebras,
Maximus hic scopulus, non tamen unus erat:
Vive, et amicitias nimio splendore nitentes,
Et quid quid colitur, perspicuum fugitio.
Ingentes Dominos, et famae nomina clarae,
Illustrique graves nobilitate domos,
De vita, ex alto magna ruina venit.


O remédio deste dano consiste em afastar de poderosos com tão proporcionada distãncia, que nem se viva com eles, nem sem eles; porque ainda quando eles franqeiam a entrada, e abrem as portas a toda a hora, sempre é perigosa a sua familiaridade, como escreveu num elegante epigrama Thomaz Moro, e depois o experimentou o mesmo:

Saepe mihi jactas faciles te ad Principis aures
Liberi, et arbitrio ludere sape tuo.
Sic inter domitos sine noxe saepe leones
Luditur, atnoxae non sine saepe metu.
Infremit in certa crebra indignatio causa,
Et subito mors est, qui modo ludus erat:
Tuta tibi non est, ut sit secura voluptas:
Magna tibi est, mihi sit, dummodo certa, minor.


Bem poderão estes poderosos do mundo, que tudo querem governar ao seu arbítrio, viver lembrados da morte, e acabar de entender, que hão-de os seus corpos ser sustento de imundos bichos, para fugirem às vaidades do mundo, e cuidarem só em contentar a Deus, como lhe aconselha certo poeta:

Vive memor mortis, pascendis vermibus esca,
Vana fuge, et soli quaere placere Deo.


Bem poderão também advertir, que por mais poderosos que sejam em quanto vivem, poderosos, e não poderosos, no fim da vida, todos são iguais, como fazendo semelhança do jogo do xadrez, os admoesta Sebastião Covas Rubias (centúria I Emblema 23).

ElRey, la Dama, Arsil, Roque, Cavallo,
Cada qual destos tiene en el tablero
Su casa, su poder, e en el mudallo
Se guarda orden, y concierto entero.
Al fin del juego, por mi cuenta hallo,
Que en el facto el Peon entra primero,
Y al rematar los biens, y los males
De aquesta vida, todos son iguales.


Mas se eles esquecidos de si, pedem o que não devem, faz tu o que deves, sem receio de que te possam fazer mal, ainda que o queiram fazer, segundo o que te aconselha certo poeta:

Tu, quod jura petunt, facies pietatis amore,
Nec metuas quemquam, quisquis obesse velit.

Pondo toda a tua esperança em Deus, porque este é o único bem do homem, como escreve Santo Agostinho (lib. 10 de Civitate Dei cap. 4 ibi: "Bonum nostrum, de quo inter Philosophos magna contentio est, nullum esse aliud, quam illi cobaerere, cujus anima intellectialis in corporeo, si dici potest, amplexu, veris impletur, faecundaturque virtutibus".) E o disse também certo poeta do nosso século:

Discite virtutem juvenes; não solabeatos
Nosfacit, et dirae non timet armanecis.
Fortunaeminas, aut saevi spicula fati,
Quaeque facit tremula cura senecta manu.
Imbibe virtutes, et inania gaudia vera boni:
Nec quemquam placidis adeo complectitur ulnis
Sors, ut non aliqua parte molesta premat.


(Cap. XX da Escola Moral, Política, Christã, e Jurídica, Diogo Guerreiro, LISBOA M.DCC.LIX)

17/05/13

TIPOS DE HUMILDADE E DE ORGULHO (I)

TIPOS DE HUMILDADE E DE ORGULHO
(S. Gregório Magno)

S. Gregório Magno
Há duas classes de humildade, tal como há duas classes de orgulho: a primeira classe de orgulho consiste em desprezar o seu irmão, e não tê-lo em conta, como se não fosse nada, e ter-se como superior a ele. Se não procedermos de imediato em vigiar-mo-nos estritamente, cairemos pouco a pouco na segunda espécie de orgulho que consiste em exaltar-se ante o próprio Deus, e atribuir as Suas boas obras a si mesmo e não a Ele.

Na verdade, irmãos, eu conheci a um irmão que tinha caído neste miserável estado. Ao princípio, quando um irmão que lhe dizia algo, desprezava-o e dizia-lhe: "Quem é este? Não há no mundo como Zósimo e seus discípulos." Depois começou a dizer: "Não há como Macário", e pouco depois "Quem é Macário? Não há como Basílio e Gregório". Mas depois começou a desprezá-los também: "Quem são Basílio e Gregório?" dizia. "Não há como Pedro e Paulo". "Pois sim, irmão", respondi-lhe, "não tarda que desprezes a Pedro e Paulo". Creiam-me, pouco tempo depois começou a dizer: "Quem é Pedro e Paulo? Não há como a Santíssima Trindade". Por fim levantou-se contra o próprio Deus, e foi essa a sua ruína. Por esta razão, irmãos, devemos lutar contra a primeira classe de orgulho, para não cair pouco a pouco no orgulho total.

Existe também um orgulho mundano e um orgulho monástico. O mundano consiste em achar-se mais que seu irmão por se ser mais rico, mais belo, ou melhor vestido, mais nobre que ele. Quando vemos que nos gloriamos dessas coisas, ou de que o nosso mosteiro seja maior ou mais rico e numeroso, saibamos que todavia estamos em orgulho mundano.

O orgulho monástico consiste em gloriar-se das vigílias, dos jejuns e piedade, da observâncias, do próprio zelo, e humilhar-se por vaidade. Tudo isto é orgulho monástico. Se cairmos em orgulho, é melhor que tal seja o monástico, e não o mundano.

(a continuar)

25/03/13

HUMILDADE, HUMILHAÇÃO

S. Luís, Rei de França
Exemplo de humildade
"A humildade é uma virtude cristã que nos inspira o conhecimento de nossa baixeza em comparação de Deus, ou de aqueles que exercem sua autoridade. A humilhação é o acto de humilhar-se, e toda a demonstração externa de humildade. Aquela consiste nos sentimentos habituais da alma; esta nos actos externos por que se manifesta, como disse Vieira [Pe. António Vieira]: "A humildade é o interior da humilhação, assim como a humilhação é o exterior da humildade (Serm. do Roz. , I,225). "Mas como o exterior nem sempre concorda com o interior do homem, pode muitas vezes a humilhação encobrir grande soberba e orgulho, e outras degenerar em baixeza e abjecção; porém será sincera e verdadeira quando for a legítima expressão da humildade do ânimo, que é sempre singela e não conhece artifício." (ROQUETE, J Ignácio. "Dicionário dos Synonymos Poéticos e de Epithetos da Lingua Portugueza", 1871 - Pariz.)

Traducción al Castellano:

"La humildad es una virtud cristiana que nos inspira el conocimiento de nuestra bajeza en comparación con Dios, o de aquellos que ejercen su autoridad. La humillación es el acto de humillarse, y toda la exterior demostración de humildad. Aquella consiste en los sentimientos habituales de la alma; esta nos actos exteriores por los cuales se manifiesta, como ha dicho Vieira [Pe. Antonio Vieira]: "La humildad es el interior de la humillación, como la humillación es el exterior de la humildad (Sermón do Roz., I, 225). "Pero como el exterior ni siempre concuerda con el interior del hombre, puede muchas veces la humillación encubrir gran soberbia y orgullo, y otras degenerar en bajeza y abyección; Pero será sincera y verdadera cuando fuer legitima expresión de la humildad de ánimo, que es siempre simple y no conoce artificio."

01/10/12

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (II)

(continuação da I parte)


A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis


Cap. II
Como Deve Cada Um Sentir Humildemente de Si Mesmo


1. Todos os homens naturalmente desejam saber. Mas que aproveita a ciência [o conhecimento], sem o temor de Deus? Por certo melhor é um humilde rústico que serve a Deus que um soberbo Filósofo que, deixando de se conhecer a si mesmo, observa os movimentos do Céu. Aquele que perfeitamente se conhece, tem-se por vil, e não se deleita nos louvores humanos. Se eu soubesse tudo o que há no Mundo, e não estivesse em graça, que me aproveitaria diante de Deus que me há-de julgar pelas obras?

2. Não tenhas demasiado desejo de saber; porque se acha nele grande distracção, e engano. Os Letrados [os instruídos nos conhecimentos do mundo] gostam de ser tidos, e aplaudidos como tais. Muitas coisas há que sabe-las pouco, ou nada aproveita à alma: e muito louco é quem atende a outras coisas mais que às que tocam à sua salvação. As muitas palavras não enchem a alma, mas a boa vida a refrigera, e a pura consciência lhe dá grande confiança em Deus.

3. Quanto mais, e melhor sabes, tanto mais gravemente serás julgado se não viveres muito santamente. Por isso não te desvaneças por alguma arte ciência, mas teme pelo conhecimento que se te deu. Se te parece que sabes muito, e que muito bem o entendes, tem por certo que é muito mais o que ignoras. “Não queiras altivamente saber”, mas confessa a tua ignorância: para que te queres ter em mais que os outros, havendo muito mais doutor e sábios na Lei que tu? Se queres proveitosamente saber, e aprender alguma coisa, deseja que não te conheçam nem te estimem.

4. O verdadeiro conhecimento e desprezo de si mesmo é altíssima e importantíssima lição. Grande sabedoria e perfeição é sentir sempre bem e altas coisas dos outros, e a si ter-se e avaliar-se em nada. Se vires alguém pecar publicamente, ou cometer culpas graves, não te deves achar melhor: porque não sabes quando poderás perseverar no bem. Todos somos fracos, mas tu a ninguém tenhas por mais fraco que a ti.

(aqui a continuação)

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