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16/02/17

"DEFEZA DE PORTUGAL" (1831) - Que Pretendem os Pedreiros com a Chegada de D. Pedro à Europa ... (VIII parte b)

D. Pedro "IV"
(continuação da parte a)
 
Eu não tenho a liberdade de perguntar ao Senhor D. Pedro por que título exerce essa Tutoria, porque me responderia que me responderia que me não importe lá com os negócios dele, nem da sua família; mas como esta Tutoria ofende os Portugueses, vou examina-la. Quero consultar Letrado sobre este negócio, e não os acho que estejam de vagar para me responder. Tão poucos são os que têm letras, havendo tantos que têm este título! Foram-se para fora do Reino algumas dúzias dos das dúzias, que poderiam responder-me, pelas muitas letras, que levaram de cá para lá, e pelas que ainda lhes vão para lá, sem embargo de dizerem por ai que seus bens rendem para o Estado; pois bem se entende que eu falho de letras de valer, que são as que valem, e não das letras de saber, que não prestam para coisa alguma; porque esses Letrados, que abalaram do Reino, nunca tiveram letras, senão tratas, que são as com que trapaceiam por toa a parte; de Livros basta-lhes a Carta Constitucional de 1826, que é uma Enciclopédia de todas as Ciências, e o seu Autógrafo de 1822, que é o armazém de todas as ideias: para esses Sábios o Digesto é mais indigesto que o ferro em boca de mosca; se ouvem falar em Pandectas, julgam ser algumas pançadas de comida; e eram esses Letrados Juízes de Fora, Corregedores de dentro, Desembargadores de baixo, e Deputados de cima: assim foi; a ignorância algum tempo administrou justiça. Caiu-me em graça o dito de um Clérigo em Lisboa, queixando-se de uma Sentença, que lhe dera um Tribunal sobre uma pendência bem clara: "O Direito destes Doutores é torto, e duro como ponta de Bode". Ora pois, na falta de Letrados, que me explicassem a dita Tutoria, deito abaixo toda a minha Livraria, que toda ela é um Larraga velho, e roto: mas este Livro foi composto por um Frade, lá perto do campo de batalha dos doze Pares de França, e ali mesmo o compôs de propósito para castigar os Clérigos, que não sabem Latim: essa Livro pois não serve para consultar o caso, porque Tutorias de Frades são mui pesadas aos Constitucionais. Ora eu bem conheço que perdi o sério, que os meus Leitores desejam; mas um pouco de desprezo castiga mais os Revolucionários do que um rabo de bacalhau. Torno pois ao exame, e seja ele feito sobre o estudo comparativo dos dois grandes Códigos, que os Revolucionários prezam mais que tudo. Constituição Política da Monarquia Portuguesa do ano de 1822, Capítulo 5º, Artigo 155: "Durante a menoridade do Sucessor da Coroa" (o Artigo 147 declara que é menor antes de ter dezoito anos completos) será seu Tutor quem o Pai lhe tiver nomeado em Testamento... e deverá ser natural do Reino. A Carta Constitucional da Monarquia Portuguesa do ano 1826, Capítulo 5º, Artigo 100 copiou a mesma disposição; só não diz de onde o Trono deve ser natural. Ora agora argumento segundo a Lei, porque argumentando aos Revolucionários, hei de argumentar-lhes pelas suas Leis, e pelos seus Livros, porque eles nem querem, nem sabem mais. Todos sabemos que a Senhora D. Maria da Glória é Filha do Senhor D. Pedro, e acreditamos que o Senhor D. Pedro é seu Pai: nem eu tenho goelas de Pato, por onde caibam aquelas caluniosas, e sórdidas expressões, com que ele com os seus Patinhos denegriu uma alta, e virtuosa Maternidade, com o fim de excluir do Trono a todos os seus Filhos, e derrubar a Dinastia mais digna de Reinar em uma vasta Monarquia. Mas o Senhor D. Pedro ainda vive, ainda não fez Testamento; e se o fez, não lhe valo, enquanto não morre; e mesmo ele não pode nomear-se a si mesmo Tutor de seus Filhos. Sei o que a isto se pode responder; mas sei as respostas, que têm todos estes argumentos, e precisões ideais, que não devem vigorecer na Sociedade. Eu vejo que o Senhor D. Pedro se esquece do nome de Pai, para com ele promover as injustas pretensões de sua Filha, ou antes as suas, e toma o nome de Tutor para louvar, e proteger a todos os Revolucionários, que buscam o nome da inocente Menina para introduzirem em Portugal outra Menina criminosa. E como isto vejo, e não percebo, faço um esforço para pôr esta obra das trevas em toda a sua luz. O senhor D. Pedro fez o seu Testamento, dispondo a favor de sua Filha de herança Portuguesa, que não era sua, nem como sua a podia tomar, adir, gozar, manter, e defender, pois se sua fosse, ou a pudesse usurpar, e conservar, de certo não disporia dela pelo seu Testamento, ou Abdicação de 29 de Abril do ano de 1826: feito este Testamento, como nenhum pode ser confirmado senão pela morte do Testador, dá-se o Senhor D. Pedro por morto para Portugal, vivendo lá no outro Mundo, que de certo não nasceu para este; e morto ficou ele para Portugal, desde que não quis viver para ele; dá porém a sua volta de lá, e ele arroja para o Mundo de cá esse desgraçado Príncipe, que também para lá não nascera: esta volta é uma espécie de ressurreição, que faz do Senhor D. Pedro morto o Senhor D. Pedro vivo; e como o dito seu Testamento ficasse confirmado pela dita sua morte, aparecendo vivo na Europa, e não podendo tomar o nome de Pai, que perdera, depois de haver entregue a sua Filha à disposição, protecção, e defensão do ex-Conde de Vila Flor, e mais Sucia, toma o de Tutor por uma dessas tenebrosas ficções da nova Filosofia, que nem a antiga, nem o Direito conheceram. Este é o mais intrincado labirinto, em que se meteu jamais Revolucionário algum. Morre o Senhor D. João VI, e os Revolucionários gritam: "Viva o Senhor D. Pedro IV". Abdica, ou testa o Senhor D. Pedro, e alguns meses despois supondo-se morto por uma ficção descalabrada dos Revolucionários, que jamais sabem o em que hão de parar, enquanto não sobem à forca, eles gritam: "Viva a Senhora D. Maria II". Manda a Regeneração do Brasil ao Senhor D. Pedro à Europa, e agora: Rei não pode ser, porque abdicou; Pai também não, porque se supôs morto para sua Filha, depois que a pôs fora do Brasil, do seu poder, e da sua educação; pois seja Tutor; e com este nome prossigam os Revolucionários a sua empresa de acabar com todos os Reis do Mundo. É verdade que cá gritam uns poucos de Soldados, e Oficiais do Regimento 4º de Infantaria: "Viva o Senhor D. Pedro IV", porém desses não há que fazer caso: não eram eles os que falavam, era o quarto de vinho, com que cada um deles fôra embriagado; mas os incógnitos, que os dirigiam, sabiam o que deviam dizer, que era "Viva o Tutor". Todavia era palavra, que os mesmos incógnitos directores não sabiam naquela hora pronunciar: também eles estavam bêbados; porque posto que a terra deles não produza vinho; depois que vieram a Portugal, e comerceiam em Portugal, não largam o vinho de tarde, nem a água-ardente de manhã: a linguagem dos bêbados é toda uma Ingresia.

10/02/17

CONTRA-MINA Nº 45: Verdadeiros Interesses da Espanha ... (II)

(continuação da I parte)
 
Ora uma das primeiras necessidades, e por certo o maior interesse das almas generosas, é o de se mostrarem agradecidas aos seus benfeitores, quando estes sofrerem, e quando padecem; quando estão ameaçados de morte, é que mais cresce o empenho, e o desejo de satisfazerem uma dívida, que só é pesada aos corações vis, rasteiros, e degenerados...
 
Fernando I de Leão, o Magno
Temos acudido à Espanha todas as vezes que ela nos chamou, ou careceu do nosso auxílio. Portugueses, (e que Portugueses!) foram grande parte na tomada de Coimbra por Fernando Magno, assistiram à expugnação de Toledo, combateram em Alarcos, apressaram o rendimento de Sevilha, e derrotaram em 1340 um dos maiores Exércitos, que os Mouros puseram em Campo, e que tal medo incutira ao Rei Castelhano, que mandou expressamente a este Reino a Soberana sua Consorte, para que instasse com seu Augusto Pai o Senhor D. Afonso IV, a fim de que os Portugueses o livrassem do apuro, em que se via; e o nosso Poeta, que referindo este caso não desmente um só ápice a verdade histórica, põe na boca dessa aflita, e consternada Rainha as seguintes frases:
 
Por tanto, ó Rei, de quem com apuro medo
O Corrente Mulucha se congela;
Rompe toda a tardança; acude cedo
À miseranda gente de Castela:
Se esse gesto, que mostras claro, e ledo,
De Pai o verdadeiro amor asselha,
Acude, e corre, Pai, que se não corres,
Pode ser que não aches quem socorres.
 
Acudiu efectivamente o Rei Português, e seguiu-se a Victória do Salado. Mas para que é acumular sucessos antigos, de que por tantas vezes me tenho recordado neste Periódico? ... Os modernos têm sido muitos, e bem palpáveis, e sobejam para o caso presente, que por si mesmo demanda, e como exige dos nossos honrados vizinhos a mais estreita reciprocidade; mas caso dado, que a mais bem merecida gratidão fosse posta de parte, e que a Nação Espanhola, o que é incrível, nos desamparasse de todo, instam por outro lado motivos poderosíssimos, e dos quais mais costumam influir no coração humano, quero dizer, os interesses próprios; o que devereis expender um pouco mais largamente. Quem se persuadir, que o intento da Esquadrilha Maçónica é somente empossar-se de Lisboa, e do Reino de Portugal, não só poderá ser arguido de vista curtíssima; porém deverá ser chamado rigorosamente uma toupeira em assuntos, e matérias políticas... A tomada de Lisboa seria simplesmente um acessório, seria simplesmente um degrau, para subirem a coisas maiores. Já em 1820 se fez uma íntima aliança entre os Pedreiros Portugueses, e Castelhanos, e por sinal, que estes mandaram grandes somas, para que se efectuasse a Revolução do Porto em 1820... Desde então que se trata somente de se fazer uma espécie de maciço Liberal, um todo compacto, e unido, e que na Península das Espanhas haja um só Governo, e uma só Influência toda Maçónica, o que traz consigo necessariamente a deposição dos actuais Soberanos... Os Reis Fidelíssimos, e Católicos são estes Soberanos reprovados pela alta, e baixa Maçonaria, o que só de per si era bastante, para lhe conciliar o amor dos seus povos, e todo o empenho, que eles mostram pela segurança dos seus Tronos... Ainda em 1828 persistia a mesma ideia de se revolucionar a Península; e entre os papeis de um dos Generais da Tropa rebelde, se encontraram os mais decisivos argumentos, de que a desentronização dos Reis, fatais para a Maçonaria, isto é, do Senhor D. MIGUEL I, e do Senhor D. Fernando VII é, e nunca deixará de ser o alvo de todas as empresas Maçónicas, que disserem algum respeito à Península das Espanhas... Este segredo político, se ainda houver quem o trate, como tal, já deixou de o ser; e nas próprias Sessões do Parlamento Britânico, foi o Demosthenes Inglês, (hei de conservar-lhe o nome, que lhe deu o mais eloquente dos Portugueses antigos, e modernos) foi Lord Aberdeen, quem disse em voz clara, e inteligível, que o desígnio dos Liberais é fazerem D. Pedro de Alcântara, o ex-Defensor Perpétuo do Brasil, Rei, ou Imperador Constitucional das Espanhas, a quem D. Maria da Glória (acrescento eu) faria em Lisboa a mesma segunda, que o chamado Rei de Roma fazia a seu Pai Napoleão Bonaparte.
 
Daqui se vê, que o primeiro tiro, que a Esquadrilha disparar contra as fortificações, ou torres de Lisboa, deverá forçosamente ressoar até às alturas, até aos próprios cabeços das montanhas, que dividem a Força da Espanha; deverá ser o canhão d'alarme, que chame às armas todos os habitantes da Península, que forem capazes de as cingirem. Não venho a dizer com isto, que os Reinos da Espanha sejam necessariamente engolidos, em ar de almoço, pelos Exércitos Luso-Maçónicos. Dou muito pelos Voluntários Realistas de Espanha, onde não se come gato por lebre; dou muito pela firmeza, com que são mantidas invariavelmente as suas instituições políticas; dou muito pela nobre independência, com que se tem havido tantas vezes, a despeito de intrigas, e ameaças... dou tudo pela execução fiel do Plano "Anti-Maçónico, o mais simples e o mais terrível para a Seita. Metade na forca, e outra metade nula, fora dos Empregos, e sem o mais pequeno influxo, ou mostra de autoridade..". Nesta parte declaro-me absolutamente a favor dos Castelhanos, que ainda metidos entre dois fogos ostentariam as suas forças, e pode ser, que zombassem dos seus mais poderosos inimigos; o que tanto mais se reforça quanto é certo, que no caso imaginado, ou imaginário, que D. Pedro vencesse Portugal, teríamos necessariamente concluída em breves dias uma nova, e muito mais avultada emigração de tudo, quanto fosse verdadeiramente Português; e oferecendo os nossos braços, recursos, e vidas ao Rei Católico, ainda poderíamos tomar uma parte bem activa, e importante na Liberdade da Península.... Desenganem-se de uma vez os Leais Portugueses, e sirva esta ideia, não para lhes inspirar sentimentos de cobardia, e pusilanimidade; mas para lhes designar meramente, o que ainda nos resta nos casos mais infelizes, e desesperados.... Temos em a nossa retaguarda uma grande Nação Católica, e fiel ao nosso Deus, e aos seu Rei, e onde os Negros, ou Malhados nem sequer ousam abrir bico; onde os suspeitos são vigiados de contínuo, são excluídos da mais pequena governança, até nas mais insignificantes aldeias, e longe de porem pé em ramo verde, como fazem tantos, e tantos, que eu conheço em Portugal, nem sequer podem trazer consigo um triste canivete de aparar penas, visto que todas as armas, que toda a força, e autoridade está na mão dos verdadeiros Realistas único modo de quebrar as forças à Maçonaria, que tudo o mais é andar às cegas, ou perfeitamente às escuras, e em perigo contínuo de esmigalhar a cabeça, e perder a vida... Ora no meio de tudo isto não se pode negar, que terrível coisa é um mau vizinho ao pé da porta, e que certamente é do maior interesse para as Espanhas, que o ex-Defensor perpétuo do Brasil não chegue a ser Defensor momentâneo da Cidade de Lisboa... Muito enganada vem, ou quer vir a este Reino, a por muito desejada, Esquadrilha, que em seu próprio nome encerra a mais exacta, e verdadeira definição da sua índole, e dos seus principais intentos.
 
És: Quadrilha de Salteadores, que vens roubar, e por isso te acenam com os tinteiros, e castiçais de prata, em que esperas cavar a tua cobiça... És: quadrilha de Ladrões, que desejas continuar as pavorosas cenas, que se passaram desde 1820 até 1823, cresce-te a água na boca ao lembrarem-te aqueles 4800 réis diários, com que podias regalar-te, e até levantar casa de sobrado!! Comeste por uma vez... e como todos os bons Portugueses sabem optimamente, que és: quadrilha composta de aventureiros de todas as Nações, por isso ardem nos mais vivos desejos de te fazerem uma boa montaria, de que sairás, eu to afianço, bem escarmentada..... Ainda que sejas quadrilha numerosa, de uns 10$ [10.000?] como dizem, para este número sobejaram os chuços dos nossos Paisanos... e neste conflito não imitarás a sorte dos dez mil Gregos comandados por Xenofonte; e não se iluda o teu Comandante Grego com estas paridades Históricas, pois não há de escapar, nem meio; e tais migas aparecerão em nossas praias, que nem as do Campo de Alfarrobeira, que se fizeram do ensanguentado cadáver do malfadado Conde de Abrantes, lhe empatarão as vazas...
 
Desterro 11 de Janeiro de 1832.
 
Fr. Fortunato de S. Boaventura.
 
(Em o Número 44 deste Periódico Pag. 10 linha 32 onde se lê "Pio VIII" leia-se "Pio VII contra os Pedreiros Livres"; e pág. 11 linha 15 onde se lê "defender" leia-se "desfazer".)
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LISBOA
Na Impressão Régia. 1832
Com Licença

13/07/16

CONTRA-MINA Nº 48: Anti Aurora (b)

(continuação da parte a)

D. Miguel, o Tradicionalista
Tirano, porque tem, e conserva presos nas Cadeias alguns milhares de inocentes!! Só esta palavra é para fazer estalar de riso os bons e leais Portugueses. São uns inocentes, que até dentro das próprias Cadeias têm agravado os seus crimes, o que também é uma das grandes habilidades dos Pedreiros Livres... Qaundo esta turba, não pequena, de Infantistas, Rainhistas, Miguelistas, e Corcundas gemia nos cárceres deste Reino, quem ouviu, que eles insultassem o Governo estabelecido, ou que cantassem o Hino Realista, assim como os inocentes, que por vezes têm desafogado as suas penas, cantando o Hino Constitucional? Quando haja algum inocente, só perguntarei: Como é possível, que na administração da Justiça humana, tratada, e manejada por homens, não escape alguma dissonância da boa ordem, algum extravio das Leis, ou algum espírito de vingança particular, que muitas vezes custa a estremar de outro mais nobre, qual é, o de amor sincero ao Rei, e à Pátria? Se por ventura é lícito, que eu arrisque a minha opinião em tais assuntos, mui alheios do meu estado, e das minhas principais aplicações literárias, direi, que o número dos presos, que a maldade exagera, e as paixões fazem avultar sobremaneira, é o mais escasso possível, se atendermos ao dez vezes maior número de verdadeiros criminosos; e por força da indignação, que me causa o ver tantos Pedreiros Livres exaltados, e remunerados, (pois talvez os piores, e mais activos agentes das nossas calamidades passem mui desempenadamente por essas ruas, desafinando, cada vez mais, a estranheza, e raiva dos seus Concidadãos) eu quisera ver as Cadeias menos povoadas, e mais expedições nos Processos dos réus; pois lá me custa a ver prezo um pobre Alfaiate, ainda que exerça dois ofícios ao mesmo tempo, quero dizer, ode Pedreiro, e o próprio, ao mesmo passo, que um Rosa-Cruz, um Venerável está posto em grandes alturas, sem o mais leve receio da vindicta das Leis.

"Longe dos olhos do Augusto Duque de Bragança esses homens, que cometeram a árdua empresa da Ilha de S. Miguel, depois de rendidas todas as outras dos Açores. Algumas destas ou foram à custa de grandíssimo risco, e em virtude de uma solução denodada, e sem faltar à verdade, impávida, e heróica. Nem um só momento lhes foi duvidosa a vitória, apesar da resistência, que experimentaram. A sua disciplina, e o valor, que é em grande parte efeito dela, tornaram inútil a superioridade numérica, e a vantagem dos Postos do inimigo. Tudo cedeu à intrépida firmeza, inalterável ordem, e assustadora rapidez dos nossos Soldados. E então quais eram os nossos meios? O valor desses Soldados, e as suas armas, e mais nada! Ah! que ingratos poderão jamais esquecer a defesa da Terceira, e a conquista das outras Ilhas?" (Aurora Nº 5, pág. 77)

Não me admirava, que D. Pedro intempestivamente, (para ele, e não para quem tivesse os olhos abertos, e o juízo no seu lugar) intempestivamente esbulhado de um Império, que usurpara a seu Augusto Pai, não se envergonhasse presentemente de fazer o mesmo papel, quando se trata de um Irmão, vínculo menos forte, que o de Pai; mas que os seus valentões queiram usurpar até aos rochedos, os que lhe pertence, é um desaforo intolerável. Enquanto aos defensores da Terceira, há quem ponha embargos a esta ridiculíssima fanfarronada... e são os próprios rochedos da Ilha, que não é muito fizessem malograr uma pequena expedição, quando já em outras eras, e muito menos fortificados, ou guarnecidos de artilharia, do que hoje, fizeram rosto a uma Esquadra numerosa, e comandada por D. Álvaro Bazan, que era o Nelson daqueles tempos. Enquanto às Conquistas das outras Ilhas, é já bem sabido, que não se lhe opôs a devida resistência: e porque não tentaram eles até hoje a conquista de outra Ilha muito mais importante? Porque sem embargo do número considerável de Mações, que a emprestam, eles bem sabem, que o actual Governador não é para graças, nem capaz de esmorecer aos primeiros tiros, ou de capitular, sem ter feito a mais viva resistência, quando não fosse de uma lealdade a toda a prova.

"As Tropas Portuguesas, que hão de achar-se em campo às ordens do Duque de Bragança, (não nos iludimos, nem queremos iludir os nossos Leitores) são tais em valor, em ensino, armamento, e em desejos de assinalar-se, quais porventura nunca houve em Portugal, ainda não exceptuando as que na guerra da Península causaram a admiração dos Aliados, e dos inimigos." (Ibidem pág. 66)

A perícia militar dos bravos Oficiais Portugueses, ou Chefes, ou aventureiros nesta famosa Expedição, a coragem, a valentia das Tropas embarcadas para o efeito de roubarem Portugal ao seu Legítimo Soberano, e o último real, até a própria camisa aos que outra vez aceitarem a infernal Constituição; todas essas prendas, tão altamente recomendadas pela Autora, felizmente se abonam por estrondosos feitos de armas, a que ninguém poderá fazer a mais leve contradição ou pôr a mais pequena dúvida... Louros do Buçaco, de Alb[?], de Victoria, de Arapiles, de Castelo Rodrigo, de Badajoz, de S. Sebastião de Biscaia, e de Tolosa murchai, abatei-vos até ao pó da terra diante dos mais frondosos, que são os da Cruz dos Marouços, e do Marnel... Por estes é que deve ser julgado o Exército Expedicionário, que fervendo em marciais desejos, vem repetir esses, para ele tão honrosos triunfos, nas praias deste Reino!

O passo das Thermópilas não foi melhor guarnecido, nem mais valorosamente defendido pelo Rei de Esparta, do que a Ponte do Vouga por 10.000 homens, onde apareceu, e figurou distintamente a flor dos Caixeiros da formosa rua da Calçada de Coimbra. Esses 10$ [10.000] homens levarão a sua extremosas generosidade a pontos, de que podendo engolir, de um só bocado, esses audazes 200 Caçadores, que os investiram, foi-lhes menos penoso renunciarem de uma vez toda a glória de um sucesso o mais certo, e infalível, do que salpicarem de sangue Português as velhas guardas daquela ponte... E o mais é, que tanta generosidade nunca lhes faltou desde o Marnel até às portas da Galiza; e foi assim, que estes novos, e mais brilhantes Fábios pareceram derrotados, ao passo que já revolviam na alta mente o projecto de fundarem a Nova Monarquia Portuguesa nos rochedos da Ilha Terceira... Defensores da boa Causa estai à letra... esses homens trazem agora outras ideias, e outros planos, e se acaso vos suceder, (como se espera, e não será mui custoso) que todos eles paguem a confiança, eu dobrarei os meus sustos, e cuidados, pois quem sabe, se eles, tendo relações no fundo dos mares, assim como já tem grande número dos seus no mais fundo dos Infernos; irão pedir auxílio a Neptuno, e formar algum vulcão, que nos abrase, e devore!!

"O Príncipe, que fez benefícios a seus súbditos nos poucos dias, que reinou, do que nenhum dos seus Augustos Predecessores." (Ibidem pág. 57)

Que linda frase! que tremendo elogio! E bem tremendo, pois encerra a mais cruel, e virulenta de todas as sátiras... E quem será este Príncipe, que encova os Afonsos, os Joões, e os Manueis, amplificadores da Monarquia Portuguesa? É o próprio, que encetou a carreira dos seus benefícios pelo mais sinalado, que podia fazer-nos, qual foi a separação do Brasil, da mais importante, da mais rica, da melhor das nossas Colónias! E os nossos Historiadores os Barros, os Castanhedas, e Osório a quererem provar, que o Senhor D. Manuel engrandeceu sobre maneira este Reino pela casual, porém ditosa aquisição do Brasil, quando é tudo pelo contrário; pois sendo (no conceito da Aurora) a desmembração do Brasil um grande benefício, deverá seguir-se, que a sua aquisição merecia o nome de injúria, de malefício, ou de opróbrio, e de desdouro para este Reino!! Mas concedamos, que o Aurora tem só em vista o Reinado, que principiou em 1826, aí mesmo se descobre, e patenteia uma série de benefícios tais, e tão estremados, que forçosamente deverá alcunhar-se de Tito Português um Príncipe, que mais empenhado nos sumptuosos funerais da sua Pátria, que nos do seu Augusto Pai, e abafando no heróico peito as mágoas, que devia causar-lhe a notícia da morte, de quem lhe dera o ser, fez, aprovou, e selou em brevíssimo espaço uma Constituição, que abolindo a Lei Fundamental destes Reinos, e promovendo claramente a licença, e devassidão dos costumes, e o despreso, e menoscabo da Santa Religião, que professamos, veio trazer-nos uma enfiada de benefícios, que nunca se poderão riscar da memória dos bons Portugueses! Ah! se em 3 dias de Reinado se lançaram estes fundamentos, ou alicerces de um Edifício todo Maçónico, que seria, se o tal Governo se perpetuasse! A estas horas teríamos já desfrutado tal cópia de benefícios, que hoje, ou teríamos acabado de existir, ou mendigaríamos por terras estranhas o sustento, de que seriam declarados indignos todos aqueles, que não fossem mais escravos, que aprendizes do Mestre Adonirão! Já me custa a guardar o tom irónico, e irrisório, que é o único adaptado, para se combaterem, ou denegrirem as Auroras: e porque a estes casos é, que facit indignatio versum, aí vai o que me lembra, apesar de que certamente é o género de escritura, para que não tenho a mais leve propensão:

I
Antes morte que D. Pedro,
Seja dos bons Portugueses
Leal grito repetido,
Por dia sequer mil vezes.

II
Mais que outras mil bem.digamos
D. MIGUEL Restaurador,
Que nesta empresa mostrou
A seus Lusos fino amor.

III
Este sim é bem-fazejo,
No que excede os Seus passados,
Que não foram como Ele
À vingança provocados.

IV
Disse a Fábula, que os Ceus
Um Atlante sustentava,
E que a máquina terrestre
Em seus ombros escançava:

V
MIGUEL é mais do que Atlante,
E o é na realidade;
É mór, que o peso da terra,
Todo o peso da maldade.

VI
Por mais que ela seus enganos,
Seus cofres tenha exaurido,
Tudo enrosta, vence tudo
Um Rei dos Ceus protegido.

Já que a Aurora no fim do 5º Nº repete somente os pontos Cardeais da sua acusação, nestes devo eu insistir um pouco em abono da realidade dos factos, para que os bons Portugueses vejam, o que são de impudentes, e desaforados a nosso respeito, os mentirosos Parisienses, e Londrinos.

"Empréstimo à Argélia." (Ib pág. 79)

Com que foram empréstimos à Argélia os do tempo dos Franceses intrusos em Portugal, e os dos Constitucionais, ainda mais intrusos, mais despóticos, e mais danoso para este Reino? Mas então corriam outros ares. Promovia-se nestes empréstimos, que só nominalmente se chamaram forçados, o grande interesse da Maçonaria Portuguesa; e quando é este o alvo, desaparece a mínima sombra de coacção, e violência. Haverá quem me dispute, que os Pedreiros Livres tivessem parte na invasão dos Franceses em Portugal, e muito bem sei, que o tão erudito, como honrado, e leal Escritor da História geral daquela Invasão tem padecido muito, e muito por outra igual asserção, e que desde que publicou a sua Obra, logo se acendeu o raio Maçónico, que ainda hoje o ameaça; porém eu, que mais quisera as suas desgraças merecidas pelo caminho da honra, e amor singelo à verdade, do que as grandes alturas, a que outros chegam pelo fácil, mas ingnominoso pau de dois bicos, afirmo, e torno a afirmar, que os Pedreiros Livres da Capital, e das Províncias deste Reino, exultaram com a chegada dos Franceses a Lisboa; e que não é necessário ter notícia da espera em Sacavém, para decidir este ponto, de maneira que fique posto em toda a luz; nem obstam as celebérrimas Actas de um certo Senado Conservador de Lisboa, que se excogitraram, para salvamento da Maçonaria Portuguesa, e nas quais é tão palpável a audácia dos Pedreiros Livres, como a simplicidade, boa fé, e completa ilusão de certos Portugueses, não Pedreiros, que assinaram aquelas extraordinárias, e ridículas Actas....

Tornando ao Empréstimo Argelino: Muito bem fizera o impostor Aurora, se notasse, que parece ter sido feito, não a Portugueses, que por honra, e por interesse próprio deveriam sacrificar nas aras do Reino até o último Cruzado novo, que possuíssem, mas determinado aos Argelinos brutos, e indómitos, ainda que estes próprios, a meu ver, seriam mais prontos em acudir à voz do seu Dey, se lhes mandasse fazer entrega de todo o seu dinheiro, do que tem disso alguns em pagar as quantias, que lhes foram assinadas: e talvez esses próprios, que se enriqueceram à custa do Estado... Não ignoro, onde se oculta, e onde se enrosca a Serpente Maçónica. Muito lhes agradava a imposição de novos, e pesadíssimos tributos ao Povo, que desta arte ficaria intacta uma grandiosa reserva, que auxiliaria os Planos Constitucionais, e por outra parte esfolada, e conseguintemente desgostosa a porção mais fiel dos Portugueses....

Falharam na empresa, saiu-lhes o caso diferente, do que eles queriam, e por isso lhes parece Argelino um empréstimo, que lhes pareceria necessário e indispensável, e até Divino, se algum Rei Pedriro Livre o tivesse decretado, para reforço da Caixa geral da Sociedade. Muito precisavam certos Argelinos, que aferrolham de mostrar um peito de ferro às Soberanas Ordens de seu Legítimo Soberano, e aos dolorosos ais, e gemidos de sua Pátria, muito precisavam, digo, de um Rei Argelino, que depois de os chamar aos seus deveres, os fizesse trabalhar nas Obras públicas, e descer à classe donde nunca deveriam ter saído... e aos mais, que não faltará entre os meus leitores quem diga, que esse Rei, longe de se chamar Argelino, se deveria chamar Justiçoso. Falta-me agora o tempo necessário para responder a esta objecção, porque os novos destemperos do meu Amigo Aurora me chamam para outra parte.

"Armamento geral violentíssimo." (Ibidem)

Ceptro de 1828, com a "Carta Constitucional"!
Não consta, que houvesse em Portugal outro menos violento. Fazer guerra aos Pedreiros Livres é o emprego mais honroso, e mais agradável, que podem ter as Classes deste Reino sujeitas ao Recrutamento. Províncias temos, em que até as mulheres choravam de pena, e de raiva, por lhes não ser permitido ter parte nesta verdadeira Cruzada contra os inimigos da Fé. Nunca as Mães, e as Esposas mais facilmente conseguiram separar-se dos Filhos, e dos Maridos, do que nas presentes circunstâncias, em que de olhos enxutos os viram sair para uma guerra tanto sua, como dos próprio Soberano, que era obrigado a fazê-la. Todo o [Reino] está em armas, e todo o Reino deseja o momento de se abrirem as hostilidades. O certo é, que no pronto de baquear a Menina, ou a Constituição de 1822, foi geral o armamento, e se compeliu muita gente a vestir a farda Cívica, de que nem o próprio Soberano foi dispensado; mas então era tudo suavíssimo, e até deveria perpetuar-se em alguma Coluna de gesso a Memória do armamento suavíssimo, para o que bastava o fazer-se em pró do Sistema Constitucional, que deixou entre nós as mais vivas, e saudosas memórias da brandura, e suavidade, que sempre o acompanha; e por sinal, que os nossos cárceres, e segredos estiveram nesse tempo às moscas, e nenhum Soldado levou sequer uma chibatada, nenhum proprietário foi, nem ainda levemente inquietado: enfim tudo era uma renovação das delícias do Paraíso de Éden, e do estado da Inocência.

"Marchas de Milicianos de Trás-os-Montes para as castas da Estremadura." (Ibidem.)

Ai que rica, e abundante Mina se me depara nestas frases......

Porém isto não vai a matar, fique para o Nº seguinte.

Desterro 28 de Janeiro de 1832.

Fr. Fortunato de S. Boaventura.

______________________________________
LISBOA, NA IMPRESSÃO RÉGIA. 1832. Com licença.

10/06/16

ÍNDICE do "DEFESA DE PORTUGAL"

Desde Novembro de 2013 tínhamos vindo a publicar páginas do semanário "Defesa de Portugal" (ano 1831/33), obra de Frei Alvito Buela Pereira de Miranda. Não se proporcionou deixar aos leitores um índice dos números já aqui publicados, e dos que faltam publicar, coisa já necessária, tanto pela facilidade desejável na consulta, como para unificação dos vários artigos. O mesmo já fizemos com outras publicações do género.

O segundo volume da obra não se encontra disponível online, parece ter sido removido, e é um documento histórico das movimentações da maçonaria em Portugal, e da questão do apoio a D. Pedro por parte da maçonaria e liberalismo militante.

 e portanto fica o índice, o qual irá sendo actualizado depois, até que fique completo:


DEFESA DE PORTUGAL
Semanário
Periódico Político e Moral

Vol. I
(Imprensa Régia, 1833)

ÍNDICE

Nº 1 - Maçonismo (16 de Julho de 1831) [ab]


Nº 2 - Origem, Formação, e Progresso do Maçonismo (14 de Agosto de 1831) [ab, cd]

Nº 3 - Qual era a Revolução que os Pedreiros de Portugal queriam em Portugal com ocasião da chegada da Esquadra Francesa ao Tejo? (21 de Agosto de 1831) [a, b]

Nº 4 - Que pretendiam os Pedreiros de Portugal com a ocasião da entrada da Esquadra no Tejo? (21 de Agosto de 1831) [a, b, c]

Nº 5 - Que pretendiam os Pedreiros de Portugal com ocasião da chegada da Esquadra Francesa ao Tejo? (1 de Setembro de 1831) [a, b]

Nº 6 - A Senhora D. Maria da Glória, Filha do Senhor D. Pedro, Imperador do Brasil, não pode ser Rainha de Portugal. (7 de Setembro de 1831) [a, b, c]

Nº 7 - Que é que pretendem os Pedreiros na Chegada do Senhor D. Pedro à Europa? (12 de Setembro de 1831)

Nº 8 - Que pretendem os Pedrieros de Portugal com a ocasião da Chegada do Senhor D. Pedro à Europa? (22 de Outubro de 1831) [a, b]

Nº 9 - Que pretendiam os Pedreiros de Portugal com o pretexto de se aproximar a Esquadra Francesa ao Tejo? (6 de Novembro de 1831)

Nº 10 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (7 de Novembro de 1831)

Nº 11 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (9 de Novembro de 1831)

Nº 12 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (11 de Novembro de 1831)

Nº 13 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (15 de Novembro de 1831)

Nº 14 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (21 de Novembro de 1831)

Nº 15 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (22 de Novembro de 1831)

Nº 16 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (14 de Dezembro de 1831)

Nº 17 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (2 de Janeiro de 1832)

Nº 18 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (3 de Janeiro de 1832)

Nº 19 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (4 de Janeiro de 1832)

Nº 20 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (6 de Janeiro de 1832)

Nº 21 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (10 de Janeiro de 1832)

Nº 22 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (14 de Janeiro de 1832)

Nº 23 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (26 de Janeiro de 1832)

Nº 24 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (31 de Janeiro de 1832)

Nº 25 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (1 de Fevereiro de 1832)

Nº 25 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (4 de Fevereiro de 1832)

Nº 27 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (10 de Fevereiro de 1832)

Nº 28 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. ( 22 de Fevereiro de 1832)

Nº 29 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (24 Fevereiro de 1832)

Nº 30 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (25 de Fevereiro de 1832)

Nº 31 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (10 de Março de 1832)

Nº 32 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (18 de Março de 1832)

Nº 33 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (29 de Março de 1832)

Nº 34 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (29 de Março de 1832)

Nº 35 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (2 de Abril de 1832)

Nº 36 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (5 de Abril de 1832)

Nº 37 - Bico d'Obra na Grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. ( 9 de 1832)

Nº 38 - O Castigo do Douro. (11 de Abril de 1832)

Nº 39 - A Ilha Terceira. (16 de Abril de 1832)

Nº 40 - As Trevas em Portugal (18 de Abril de 1832)

Nº 41 - A tempestade em Portugal. (12 de Maio de 1832)

Nº 42 - Continua a Tempestade em Portugal. (24 de Maio de 1832)

Nº 43 - Continua a Tempestade em Portugal. (31 de Maio de 1832)

Nº 44 - Continua a Tempestade em Portugal. (5 de Junho de 1832)

Nº 45 - Continua a Tempestade em Portugal. (7 de Junho de 1832)

Nº 46 - Continua a Tempestade em Portugal. (12 de Junho de 1832)

Nº 47 - Continua a Tempestade em Portugal. (25 de Junho de 1832)

Nº 48 - Continua a Tempestade em Portugal. (28 de Junho de 1832)

Nº 49 - Continua a Tempestade em Portugal. (30 de Junho de 1832)

Nº 50 - Continua a Tempestade em Portugal. (3 de Julho de 1832)

Nº 51 - Continua a Tempestade em Portugal. (9 de Julho de 1832)


Vol. II

Nº 52 - 

02/03/16

CONVERSAS De CAFÉ III

(ver programa anterior)

Mesmo havendo que ultrapassar algumas dificuldades técnicas, continuaremos a transmitir e a difundir o programa.

Andámos muito pelo lados do Real Convento de Mafra, mas outras coisas há que valem a pena ver.

Eis as partes do programa:

1 - Breves considerações sobre a Real Basílica de Mafra;

1 - Muito breves referências à Basílica de Mafra - curiosidades: carrilhões e órgãos; (00:00)
2 - Do órgão em geral; (6:23)
3 - Opinião da música do séc. XIX em Portugal; (10:26)
4 - Algumas curiosidades do Convento de Mafra; (13:06)
5 - O significado da "face" na biblioteca de Mafra; (15:45)
6 - Significado de "violência", e a revolução por meio da mutação de conceitos; (25:11)
7 - Não dizer a verdade, e o mentir - rápidas considerações. (34:08)



(a continuar)

26/01/16

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº5 (II)

(continuação da I parte) 

PROMETER, PROMESSA – Correspondem exatamente a Enganar, Engano. A razão é patente ainda ao entendimento mais rude. Um ateu que promete proteger a Religião, um ladrão que promete a segurança das propriedades, um tirano que promete liberdade, um orgulhoso que assegura que todos serão iguais, é necessário inquestionavelmente ser um simplório para não conhecer, que o que ele quer é enganar. 

TIRANIA, TIRANOS, GOVERNO TIRANO – No idioma filosófico nenhum destes Vocábulos tem a menor correspondência com as coisas que explicam, mas sim com as pessoas que fazem estas coisas. É por isto que, segundo eles, por mais inocente, amável, justo, benéfico, e moderado que seja um Soberano, é irremediavelmente um tirano. E daqui vem igualmente que, por mais tiranias e por mais horrendas que elas sejam, uma vez que sejam feitas pelos Republicanos, não se chamam tiranias, mas sim benefícios. Um Democrático ainda que seja um diabo em carne humana, e ainda que seja mais ladrão que Gestas, e mais cruel, e raivoso que Nero, não é um tirano; não senhor; porque a filosofia já descobriu, que não é a tirania quem faz o homem tirano, mas sim o homem é quem faz tirânico ainda aquilo mesmo que é essencialmente oposto à tirania. Por Exemplo, impõe um Monarca uns 20% de contribuição para o bem comum do Estado: agora nós veremos. “Se ele é um déspota; se ele é um tirano", ladra toda a cansoada Republicana, não porque a coisa o seja em si, mas puramente porque é obra do Monarca. Impõe pelo contrário o Governo Democrático uma contribuição três vezes tanto maior, que o capital, e as rendas: não têm dúvida; é um acto do mais justo do Governo, e assim é indispensável para conservar o crédito público etc. Que bela linguagem! Que opiniões tão encontradas! Vimos por tanto daqui a concluir que o único remédio, que há para ser tirano, é tiranizar a bandeiras despregadas, e que os únicos, que podem fazer bem ao género humano, são os tiranos. Haverá língua mais peregrina?!

(* Muito, e muitíssimo se nos oferecia dizer sobre esta matéria; mas certos respeitos nos prendem a pena. Grandes baterias, que nos tempos Constitucionais se tomaram por assalto, ainda hoje estão guarnecidas por grandes arquitectos e engenheiros que triunfam de todas as tentativas; e continuam com o nome de um Rei bem-feitor e Religioso, a mesma tática subversiva, injusta, e antirreligiosa, que nasceu com a Revolução,  e que apesar de haver um Decreto do Senhor D. João VI.,  em que anulava tudo quanto fizeram as Côrtes, com tudo ainda se conserva... Mas não nos envolvamos em razões de Estado; tempo ainda virá, em que se patentearão grandes verdades. E se a Esquadra Francesa forçando a barra, a pesar de ser este um mal gravíssimo, que não tem paralelo em a balança da honra, foi todavia de alguma vantagem para se cortarem certos nós, que não se podiam desatar, e para quebrar certos vidros corados, pelos quais se apresentavam objetos, não quais eles eram, mas quais queriam que fossem; assim também será necessário um outro abalo para que se abra alguma brecha por onde se veja o fraco da Praça, e se possa combater....

Mas voltando nós à vaca fria: que bulha não faz por aí a cansoada liberal com o empréstimo forçado, a que as circunstâncias actuais, e visíveis, obrigaram o Senhor D. MIGUEL I.?! Não falta quem o caracterize de injusto, e tirânico; mas aos que assim falam, além de os remetermos para o que dissemos em n.º antecedente, faremos duas perguntas: 1.ª Qual dos empréstimos será mais injusto? Este, que tem uma aplicação tão visível, e de uma necessidade tão absoluta, como é defender a Pátria contra uma invasão inimiga, ou aquele dos quatro mil contos, que se gastou a maior parte em pagar os Deputados, e em sustentar uma luta ilegítima, e que arrastou consigo um ónus o mais incómodo, que tem o Reino, qual é o do Papel Selado, onde indispensavelmente te há de abundar o contrabando?!... 2.ª Qual será mais injusto, pedir dinheiro prestado aos que o têm, pagando-lhes o juro da Lei, ou impor sobre uma Classe, além de décima e de quinto, como pagam sobre as outras, uma Colecta, que já se paga há quase dez anos, e que hoje avulta a milhões, e que não são prestados, mas dados? Ora Senhores Filósofos financeiros, que não sabeis os nomes dos Frades, e Clérigos, para os empregos da República, e que só os encontrais para pagarem as Colectas, tende paciência! hoje por nós, amanhã por vós: não há porco, que não venha o seu S. Martinho. Olhai, não vos deem na balda. Livrai-vos que vos digam "e o nosso dinheiro!") D. Tr. 

LEI – Segundo os Democráticos, entre eles ninguém governa senão a Lei, e ela é a única Autoridade a que todos obedecem: já se vê que ela é a alma republicana. Coisa maravilhosa! Repúblicas Democráticas conheço eu, que só num ano fizeram vinte e duas mil Leis, sem que por isso houvesse entre elas alguma. Pois eis aqui o segredo: esta Lei que não existia, era a quem todos obedeciam; e esta Lei imaginária era quem mandava e regulava tudo. Então não diremos que é um portento a alma das Repúblicas modernas?!

(* Mais de uma vez temos reflexionado sobre a maneira como se anunciam as Leis Democráticas, em paralelo das que emanam do Monarca absoluto; estas começam sempre por manifestar a causal, que obrigou o Soberano àquele procedimento, a que se chama a mente, e o motivado da Lei, e deste género se pode apontar por um exemplo bem distinto a Lei do Marquês de Pombal sobre os Morgados; aquelas ao contrário começam sempre ex abrupto: "as Côrtes decretam, e ordenam o seguinte", era a sua linguagem. Ora compare-se uma com a outra forma, e veja-se qual é mais odiosa, e em qual aparece a Lei com mais cara de ferro, e cheirando mais a despotismo?! O Monarca apresenta as razões que o obrigarão, sempre fundadas na justiça; e os Demagogos "quero porque quero". E será isto governar em nome da Lei?!) D. Tr.

D. José Sebastião Carvalho e Mello (o astuto e perigoso Marquês de Pombal - Ministro do Rei D. José de Portugal). O liberalismo consegue ser mais déspota que o próprio Marquês de Pombal. O texto da época mostra-nos, entre várias realidades: a) o "rei absoluto" era o rei tradicional; b) por qualquer peso os liberais caluniavam os reis (assim nasce e é aplicado o nome "absolutismo" neste tempo, mesmo que os reis assim difamados não tivessem feito mais do que fizeram os seus antigos antecessores).
PROPRIEDADE – Vocábulo ad libitum. Entre os Republicanos (em quanto estão roubando) não tem nem uso, nem significação. Mas quando tem já guardados os roubos, oh! então já é outra cousa: Propriedade é um nome sagrado. O melhor que têm é que como os roubados, e os ladrões se sucedem uns aos outros continuamente, e muitas vezes sem interrupção se transformam os segundos nos primeiros, não pode deixar de ser que este Vocábulo esteja num pleito eterno entre os Cidadãos felizes das Republicas Democráticas. 

EMIGRAR, EMIGRADOS – Todas estas palavras encerram em si gravíssimo delito, o qual consiste em não deixar-se matar como formigas a capricho da iniquidade. Horrorizados alguns de ver queimar os Palácios, matar os donos, apoderar-se de seus bens, e arrastar milhares de vítimas inocentes à guilhotina, tomaram as de Vila Diogo, e cometeram contra a Pátria horrendo delito de salvar a vida com a fuga, sem que faltasse quem tivesse a ousadia de pôr em prática o natural direito de defender-se dos ladrões. Pois a eles. Isto é um delito imperdoável. Se acaso se puder haver às mãos estes delinquentes, em pronto são fuzilados. Se não se podem, vão-se com Barrabás: seus bens que o paguem. Daqui se vê que este é um daqueles delitos nunca ouvidos no Mundo, que se castigam in filios filiorum, porque não só entra na dança o que o cometeu, mas seus irmãos, e parentes, os quais no interim são privados dos empregos, confiscam-se-lhes os bens, e com um quase nada, que se aperfeiçoe a Justiça Republicana, vão todos juntos arrastados à guilhotina.

(* Bem conhecida foi entre nós esta linguagem, e este procedimento contra os emigrados, que não podendo, nem querendo aturar um jugo estrangeiro, buscaram asilo em uma Nação vizinha. A nada se poupou a intriga Diplomática para frustrar os seus fieis desejos, e denegrir as suas leais intenções! Sobre esta matéria deve ler-se o que o "Mastigoforo" disse sobre este assunto, onde se apresentam peças justificativas de fidelidade, e desinteresse.) D. Tr. 

VIRTUDE, VIRTUOSO – Antigamente maldade, malvado. Desde o momento, em que algum se fez patriota, é também democraticamente virtuoso. Toda a acção de um patriota é um acto de virtude; e a História Republicana eterniza, para alentar os patriotas futuros, as acções virtuosas daqueles seus ilustres progenitores que fizeram as nunca assaz louvadas façanhas de roubar os Templos, destruir as coisas sagradas, violar as virgens, arruinar os Mosteiros, perseguir, e matar os Sacerdotes, e lavar as mãos no sangue de seu próprio Pai, e de sua própria Mãe... Porém basta para inteligência do que é a notória probidade, e virtude dos religiosos, e virtuosos democráticos. 

FIDELIDADE – Quando se conserva com Deus, com o legítimo Príncipe, ou com qualquer outra Pátria, que não seja a democrática, toda a fidelidade é alta traição. Desgraçado daquele que se empenha em ser fiel àquele Príncipe, àquelas Leis, e àquela Pátria, a quem cheio de amor e ternura, voluntariamente jurou fidelidade! Imediatamente é tido em língua democrática por traidor; pois a fidelidade deve-se somente aos que mandam com baionetas, canhões, e fuzis. In illo tempore a fidelidade era filha do amor e da estima; mas os Republicanos a tem declarado bastarda, puseram em seu lugar uma fidelidade filha do temor, e da aversão. Substituição por certo dos ilustrados democráticos.

(* É muito para admirar, que não tendo os Liberais fidelidade a pessoa alguma, nos arguam de que faltámos ao juramento de fidelidade, que demos  ao Senhor D. Pedro. Ora com efeito, sobre isto já se tem dito e escrito muito, tanto em Portugal, como nas Côrtes Estrangeiras; mas no entanto sempre dizemos que nós nunca jurámos fidelidade ao Senhor D. Pedro; e senão que nos apresentem esse Auto lavrado pela maneira, que em tais casos se costuma. Se é jurar fidelidade a um Rei, só porque se manda dar da Colecta, e só porque aparece o seu nome na frente dos Decretos, e Alvarás, então também nós jurámos fidelidade ao trono da Europa, e fomos por consequência,  rebeldes em lhe desobedecer. Quem tal dirá? É verdade que nos mandaram jurar; mas o que? A Carta, e obediência a ela, e não ao Senhor D. Pedro. Vejam-se as fórmulas do tal juramento, e nelas se achará "juro observar a Carta Constitucional da Monarquia Portuguesa, dada, e outorgada pelo Senhor D. Pedro, etc.". Ora venham todos os Juristas, e Canonistas do Mundo, e digam-nos que este juramento é o juramento de preito, e fidelidade, que se costuma prestar aos Soberanos! Ainda que este juramento da Carta fosse obrigatório no foro da consciência, o que sem dúvida não é, por ser sobre matéria ilícita, não definida, e em prejuízo de terceiro, supõe o direito, e a legitimidade de quem emanou a tal Carta, e não o prova, porque então seria provar idem per idem; e como este direito e legítima sucessão estava usurpado, o que logo se manifestou pelos factos, e escritos, que apareceram em Portugal, e mormente pela nulidade do Decreto criador da Regência, cujo autógrafo, por mais que fosse pedido pelo Conde de S. Miguel, até hoje ainda não apareceu, segue-se por uma forçosa consequência, que nunca houve juramento de fidelidade ao Senhor D. Pedro. O seu nome, e o seu Governo foi tão intruso em Portugal, como foi o de Napoleão, e fazendo esta asserção, conformamo-nos com o Assento dos Três Estados em Côrtes, que reconheceram o Senhor D. MIGUEL Sucessor imediato a seu Augusto Pai, Rei legítimo de Portugal, e seus Domínios, como foram seus Maiores; assim o declaram, assim o furaram, e nas suas pessoas como Procuradores, que eram do Povo Português, todo o Povo jurou, e prestou preito e fidelidade ao Senhor Dom MIGUEL, tendo-o já aclamado como Senhor Natural, e Herdeiro da Coroa Portuguesa.

Ainda mais que gritou o Arcebispo Ataíde, que era necessário aclamar o Senhor D. Pedro, e exigir Juramento de preito à Nação, e sem que désse este passo tudo era nulo quanto se decretasse?! Pois então, per te: tudo foi nulo; Carta, Juramento; nenhum peso nos resta na consciência, e os que nos arguem de infiéis, são eles mesmos os verdadeiros infiéis, e traidores.) D. Tr.

(a continuar)

05/10/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº3 (VI)

(continuação da V parte)

Quem é que se diz hoje "o nosso maior Protector"?! Ah! sim, bem sabemos, é aquele degenerado Filho, que no Rio de Janeiro, colocado à frente de revolucionada tropa, mandou assestar os mortíferos canhões contra o Real palácio, onde residia seu Pai, e que o obrigou a jurar a Constituição do Porto, e a sair apressadamente do Brasil para se realizar a projectada Independência: ah! sim: estamos muito certos: é aquele, que se levantou com as Colónias, e que roubou a Portugal as suas maiores e mais ricas Possessões, que tantos suores e trabalhos custaram aos nossos Maiores: ah! e não é este o mesmo,que declarou guerra a Portugal, que mandou varar os Soldados Portugueses até lhes cair a carne a pedaços, e isto por negras mãos, para quem, parece, só deveriam ser feitos os flagelos?! E não é ele o mesmo, que destruiu o nosso Comércio Colonial, e que nos ratou como a gente mais vil do Mundo?! Ah! sim, não duvidemos: aí estão os Periódicos Liberais, e as falas dos Deputados de 1822, que muitas vezes nos deram a ler aquelas célebres Cartas, em que dizia a su Pai "Nós somos dois Monarcas, que estamos em guerra" também nos mostraram outras, em que dizia "Eu de Portugal nada quero, nada, nada", "eu vou dar o último golpe ao Comércio Português" e os mesmos canais nos asseguraram então, que a sua viagem à Bahia não tivera outro fim senão agradecer àquelas Caboucas ou Tapuias gentes o desvelo, e coragem, com que se portaram na expulsão dos "vândalos" Portugueses. Ora valha-nos Deus, e dizem que não há prodígios, e que já não há conversões?! A de Saulo, perseguidor dos Cristãos, em Apóstolo das gentes, não é tão admirável! porque naquele foi a mão de Deus, que a obrou; mas neste perseguidor não temos notícia de tal prodígio; antes se nos apresenta como um acto espontâneo de seu compassivo, e tolerante coração: mas enfim a mão de Deus não é abreviada; poderá ter produzido este prodígio, porque dos maiores pecadores se tem feito os maiores Santos; porém enquanto nos não constar da autenticidade de um tal sucesso, iremos com a linguagem do Evangelho, que não mente, julgando do seu caracter; e como ela nos diga, que pelos frutos é que devemos conhecer a árvore "ex fructibus eorum cognoscetis eos" pelo que fez, pelo que faz, pelo que medita e prepara fazer a Portugal, é que devemos conhecer qual é a sua tolerância, e quais as suas promessas. Sim, já estamos muito convencidos e desenganados: a sua protecção é à francesa, e vêm-nos proteger tanto, como defendeu perpetuamente o Brasil: a sua tolerância é a mesma, e a mesmíssima dos Liberais, de quem se faz Chefe, que nas Ilhas onde dominam tem roubado, e metido tudo a saco, e só para provar os fios das espadas fizeram perecer centenares de pessoas: (que horrores aí se não praticam?!) as suas promessas de paz e felicidade são as mesmas, que todos os Revolucionários do Mundo fazem aos Povos para caírem no langará, os quais só chegarão a ser felizes quando ficam sem camisa. Veja-se o que já dissemos no Artigo "Felicidade" é justamente o que nos promete o Sr. Ex-Imperador.

D. Pedro I do Brasil
Diz que nos deu a Divinal, e que nos colocara na linha das Nações civilizadas; pois onde estamos nós? Estamos porventura em alguma floresta vivendo como as feras? ou éramos alguma horda de Beduínos selvagens, que vivêssemos nos troncos das árvores, ou nas covas de animais ferozes, com quem ficássemos parceirada?! E quem é que lhe pediu a tal Carta?... Quem lhe encomendou o sermão, que lho pague. Se alguém em nosso nome, e sem nós os sabermos lha pediu, e o enganou; nós nunca o quisemos, assim como ele nos não quis; avenha-se lá como quiser com as tais Procuradores, e Requerentes; porque nós sempre quisemos o Muito Alto e Poderoso Senhor D. MIGUEL I, nosso Único, e Legítimo Rei, e nunca o Imperador do Brasil, que era estrangeiro para Portugal; e a todas as pertenções, que o tal Protector empreender sobre Portugal, temos sempre duas palavras para contrastar com outras coisas, que ele com ênfase dizia a nossa respeito: de lá "nada, anda" e nós dizemos agora: Em Portugal tal Protector? "nunca, nunca" E que venha: saberá o mal, de que morreram os que vieram ao porto: cá achará muitos daqueles fiéis e honrados Portugueses, que antes quiseram emigrar para uma Nação estranha, do que obedecer a um Rei estrangeiro; e não são tão poucos como isso; são mais que os Rebeldes Insulares, e tão fracos ou tão valentes, que foi necessário uma Expedição Inglesa, onde vieram nada menos que nove Naus de linha, afóra mais de vinte transportes, que conduziam simplesmente 6$ homens, para obstar ao seu progresso, e à sua victoriosa marcha: cá achará aqueles três oitos, isto é, 8 de Caçadores, e hoje mais crescido que então era, 8 de Infantaria, que então até não quis receber Soldo, e 8 de Cavalaria, que mais de uma vez tingiu as espadas em sangue rebelde, e além destes com igual espírito e denodo encontrará toda a 1ª, 2ª, e 3ª Linha, isto é, a Nação em massa, que talvez estime esta ocasião para tomar vingança dos males, que lhe fez sofrer: entre os que empunham as armas encontrará muitos, a quem fez perder os lugares, os empregos, e a fortuna pela separação, que ele preparou, e concluo; muitos, a quem fez cair em miséria e desgraça pelo último golpe, que deu no Comércio Português: muitos, cujos filhos fez morrer nas guerras do Sul: muitos, cujos parentes, amigos, conhecidos, e correspondentes pereceram, e vão perecendo nas Revoluções do Rio, Bahia, e Pernambuco, de que ele é autor, e primeiro culpado: muitos, que ainda têm os ouvidos escandalizados dos impropérios e blasfémias, que no Brasil é escutaram;muitos finalmente, cujas carnes caíram a pedaços, e cujo sangue rebentava das veias à força de varadas, que a negra gente lhes descarregava, sendo ele que as mandava, e até muitas vezes quem fazia o compasso!! Ah! e com quanta prontidão e firmeza se não apontaram estas armas para um alvo, que é o motor de tantas desgraças?! Sem dúvida, que folgaram todos estes por ver chegar o dia, em que possam recompensar ao seu Protector os grandes benefícios, de que lhe são devedores. Ainda falta mexer numa tecla, que sem dúvida há de dar muito bom som.

E que nos dizem os nossos leitores daqueles valentes e guerreiros campeões, em cuja frente diz que marcha a subjugar Portugal?! Que gente! todos são Hércules na valentia! ou pelo menos Alexandres e Césares na fortuna!! Ao apresentar-se essa falange tudo estremece, tudo cede, tudo cai, etc...... Ora, ninguém sem dúvida nos estranhará, se nós fizermos aqui um paralelo entre esta gente, e seu Chefe, com os partidários de Catilina, e seu Capatás, e se aplicarmos a eles, o que Cícero diz daqueles traidores comandados por Catilina: parece que o Orador Romano profetisou este caso: mas isso não admira, porque o carácter dos revolucionários de então, é o mesmo dos de hoje, e há de ser o de todos, que aparecerem no Mundo, porque todos são malvados. Vamos ao caso: Cícero divide todos os sectários de Catilina em seus classes, e nós com ele igualmente dividimos os grandes Campeões Insulares nas mesmas seis classes:
"Os primeiros, são aqueles, que tendo grandes dívidas, têm ainda maiores cabedais, de cujo amor prendidos, se não querem soltar. A classe destes homens afecta de honrada, pois são ricos; mas a sua vontade, e causa, que seguem, muito desaforada."
Ah! e quantos destes, que em bom Português chamamos caloteiros, estão por lá, ou por cá, e tanto de lá, como de cá, advogam a Causa da Rebelião, para à sombra dela se livrarem das dívidas, que perfidamente contraído, ou para melhorarem de fortuna?! Como se enganam!! A estes dizemos o mesmo, que dizia Cícero:
"Tu com campos, tu com propriedades de casas, tu com dinheiro, tu com família, tu adornado, e abundante de tudo; e dúvidas cortar pelas tuas posses, para ajudar o Estado, e recobrar o crédito? Que é o que esperas? A guerra? E para que? Julgas que na assolação geral de tudo hão de ser privilegiados os teus bens? Pois quê? Atens-te a novas leis? Enganam-se os que as esperam de Catilina."
Estas são as formais palavras de Cícero na sua 2ª Catilinária. E quem diria que um Republicano como este havia fazer um elogio tão fúnebre daqueles, que se chamam seus discípulos?! Se mudarmos unicamente a palavra Catilina em outra, que todos sabemos; que bela pintura?! Esta classe de gente é tão desgraçada, que até os seus mesmos heróis os condenam. Mas voltemos ao nosso Cícero, que nos vai descrevendo o carácter dos nossos Revolucionários.
"Outro género, diz ele, e dizemos nós, é o daqueles, que, carregados de dívidas, esperam com tudo, e querem mandar, e governar: crendo que, perturbada a República, conseguiram as honras, que não podem com ela sossegada."
Agora deixamos o Orador, porque ele diz, que a estes é bastante que se intime isto unicamente, a saber, que ele é o Cônsul: e em lugar disto dizemos nós, a estes apaniguados do Ex-Imperador, basta que se lhe intime "DOM MIGUEL É REI DOS PORTUGUESES" e vê-la mais do que Cícero. Agora continuamos com o Orador.
"Além disto, que há ânimos grandes em pessoas de probidade, grande concórdia, grande multidão, grandes tropas de soldadesca: enfim, que os Deuses imortais presentes (em lugar desta frase gentílica, devemos ler a Providência do Omnipotente, e a Proteção de Maria, que sempre nos tem sido presente) hão de dar auxílio a este invicto Povo, nobilíssimo Império, e formosíssima Cidade contra tão enorme maldade. E no caso que cheguem a conseguir, o que desejam com a maior insolência, porventura esperam nas cinzas da Cidade, e sangue dos Cidadãos ser Cônsules, Ditadores, ou ainda Reis, conforme o deseja seu ânimo perverso, e malvado? Não vêm que, se conseguirem o que desejam, forçosamente o hão de conceder a algum foragido, e brigão?!"
Que tal vai a pintura feita há quase dois mil anos?! (Isto aconteceu em janeiro do ano 62 antes de Cristo, por consequência há 1890 anos)
"O terceiro género, diz o Orador, e nós com ele, é de idade já avançada: são homens nascidos alguns em colónias,... mas estes são plebeus, que com dinheiros inesperados, e repentinos se ostentaram com grande pompa,.... os quais foram também a causa de que alguns rústicos pobres, e necessitados se metessem em esperanças daquelas antigas rapinas. A uns, e a outros ponho no mesmo género de ladrões, e roubadores."
Que tal está o elogio?! Mas não se devem escandalizar, porque é do maior, e mais sincero republicano, que houve no mundo. Vamos com ele, que é um mestre em conhecer esta canalha.
"O quarto género (diz Cícero, e nós igualmente) é na verdade vário, mesclado, (até este homem já lhe chama malhados, porque a palavra latina "mixtum" também sofre este sentido) e turbulento: estes há muito se vêm oprimidos de modo, que nunca levantam cabeça: dos quais uns por inércia, outros por má administração de bens, e outros também  por gastos, perigam por dívidas antigas: e cansados de citações, e penhoras, se diz passaram muitos da Cidade, e dos Campos para aqueles arraiais. A estes não tenho eu por soldados valorosos, como negadores brandos. Se este homens não podem subsistir, caiam, mas de sorte, que não arrastem a cidade, e próximos: não entendo porque causa não podendo viver com decoro, querem morrer com infâmia! ou porque razão se capacitam será menor a sua dor, morrendo acompanhados, do que sós."
Que bela imagem! cada vez se assemelha mais ao original, que temos diante dos olhos. Fale só o grande Cícero; porque nem é necessário mudar uma só letra.

(continuação, VII parte)

03/10/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº3 (V)

(continuação da IV parte)

Beauregard era um Jesuíta nascido em 1731, homem de grande merecimento literário, e de não inferior crédito em virtude; mereceu um lugar distinto entre os Oradores de sua Ordem, e sabia conservar um termo médio entre Missionário, e Orador: não costumava escrever os seus Sermões, antes falava sempre ex abundantia cordis, e com tal veemência, e tão convencido das verdades, que anunciava, que de ordinário arrebatava o auditório, e lhe imprimia os afectos, de que estava possuído, e com tanto êxito e proveito que nunca prégou o seu Sermão sobre os maus livros, que não visse bem depressa muitos de seus ouvintes vir a seus pés entregar-lhe alguns. Isto diz o Dicionário dos Prégadores pelo Abb. De La P... pág. 5. Notava-se neste homem Apostólico uma espécie de arrebatamento, que de algum modo indicava uma inspiração profética, que os Filósofos metiam à bulha, e de que muita gente se ria; mas ao depois chorou quando viu a sua realidade: entre muitos destes transportes nota-se especialmente um, que é o seguinte.

Catedral de Notre Dame de Paris
Este homem foi convidado para prégar a Quaresma em Paris, treze anos antes da sua revolução; e empregando todas as suas fadigas e desvelos para mostrar, qual outro Jeremias, os males, que ameaçavam a sua Pátria, um dos seus Sermões que prégava na Igreja de Nossa Senhora de Paris [Notre Dame], lhe escaparam dos lábios estas palavras proféticas, que fizeram estremecer as paredes do Santuário:
"Sim, vossos Templos, Senhor, serão despojados e destruídos, vossas festas abolidas, vosso nome blasfemado, vosso culto proscripto. mas que ouço? grande Deus! Que vejo?... Aos Santos cânticos, que fazem retinir as sagradas abóbadas em vossa honra, sucedem cânticos lubrícos e profanos! E tu, divindade infame do paganismo, impúdica Vénus! tu vens aqui mesmo ocupar atrevidamente o lugar do Deus Vivo, assentar-te sobre o trono do Santo dos Santos, e receber o criminoso incenso de teus novos adoradores!..."
Os Filósofos, que em grande número o escutavam, julgaram-se ofendidos, desataram em altos gritos, e o foram denunciar ao Governo com um sedicioso, e um caluniador da razão, e das luzes, que devem inspirar moderação e tolerância nos próprios Ministros do Evangelho!... O caso é, que o pobre Missionário teve que esconder-se, e retirar-se logo, a fim de escapar à tolerância de seus patrícios Filósofos; mas o que é igualmente certo, é que a sua profecia se realizou à letra; porque não só foi abolido o Culto do verdadeiro Deus, profanados os seus Templos, como acima fica referido; mas até foi naquele mesmo Tempo, em que o Orador prégava, que se estabeleceu o culto da divindade "Razão" a qual era representada por uma prostituta, que em trajes indecentes, e libidinosos se ia assentar sobre o Sacrário, onde dantes reclinara o Cordeiro sem mancha, que tira os pecados do Mundo!! Este facto é mais para se meditar, do que para se descrever!! Nele devem aprender todos os governantes e governados, para que não escutem a voz dos Filósofos, mas sim a dos Ministros da Religião: estes prégam a paz e a Religião, e morrem por ela; aqueles prégam a tolerância, matando, e oprimindo. (Vej. o ref. Dicc. pág. 6)) D. Tr.

Suplemento ao Artigo da Tolerância

(* Quando isto escrevíamos, por um acaso chegou às nossas mãos (o que não deve ser estranho; porque assim como os Escritos dos hereges, e dos ímpios se permitem aos Apologistas da Religião para melhor combaterem os seus argumentos; assim por igual maneira os Escritores revolucionários se devem não só permitir, mas ainda ministrar aos defensores da Legitimidade para desfazerem os seus embustes) uma papeleta em nome do Ex-Imperador do Brasil, a qual entre muitas outras coisas, que omitimos, e que não dizem respeito a este Artigo, apresenta uma fanfarronada tolerante, que nos obrigou a transcrevê-la:
"Eu sempre fui, (diz o Herói Ex-Imperador) o mais decidido Protector dos Portugueses; a mim devem o ter-se consolidado a primeira Regeneração Política, porque eu fiz com que meu Augusto Pai jurasse no Rio de Janeiro a Constituição da Monarquia Portuguesa, e viesse imediatamente para Lisboa confirmar a sua palavra; eu fui que restabeleci as Relações Diplomáticas próximas a expirar pela morte do meu Augusto Pai; eu fui quem coloquei esta Nação na linha das Nações civilizadas, dando-lhe com mão benéfica, e liberal uma Carta, que teria a esta hora feito a felicidade dos Portugueses, se tivesse permanecido: ingratos, e seduzidos não souberam aproveitar-se de tão grande benefício..... à frente de milhares de Portugueses valentes, e guerreiros, eu poderia ameaçá-los com a morte, e com o extermínio; mas não: então mesmo, que poderia ser mais cruel, é que quero ser mais humano, e tolerante: a ninguém se fará perseguição; as casas dos cidadãos pacíficos serão invioláveis, todas as despesas de transporte, e fornecimento serão pagas em moeda corrente, os próprios que tiveram as armas, e as depuserem serão por mim perdoados, não negarei amnistias aos meus próprios rivais, ninguém será incomodado por suas opiniões políticas, sejam elas quaisquer que forem, e finalmente uma tolerância absoluta irá estabelecer o império da paz no meio dos Portugueses; porque eu não ambiciono outra ventura, nem outra felicidade senão a sua, etc......"
Que tal é a prelenga?! E então não parece um António Pio, ou um Marco Aurélio a falar?! Não se mostra aqui a generosidade de um Filipe de Macedónia quando fala aos Atenienses?! ou pelo menos a magnanimidade de um Nicolau, quando antes de fazer marchar as invencíveis Legiões, vencedoras do Cáucaso, domadoras do Balkan, e assustadoras do Mundo, dirige as vozes de amizade aos Rebeldes Polacos?! Ah! tudo isto não é nada em comparação da tolerância apregoada pelo Defensor Perpétuo do Brasil, e propalada à boca cheia pelos seus órgãos em Portugal!! Todos esses homenszarrões são uns pigmeus a pé do Gigante de nossos dias! Aqueles venceram pelas armas e pelo terror, que incutiram aos Povos; ele quer vencer pela moderação e pela tolerância: conquistar os corações é maior triunfo!.... largas dissertações nos pediam estas poucas linhas da tal papeleta, que não sabemos se é Proclamação, se é Decreto, ou o que é: (não é nada) mas como isto não seja possível, e como sobre isto já se tenha escrito tanto, e tão bem, só basta despertar algumas ideias.

(continuação, VI parte)

18/02/15

ALGUNS AJUSTES PARA O ESTUDO DE D. FR. FORTUNATO DE S. BOAVENTURA

Sobre o Arcebispo de Évora D. Fr. Fortunato de S. Boaventura diz o liberal autor Inocêncio Francisco da Silva:

"D. Fr. Fortunato de S. Boaventura nasceu em Alcobaça à volta do ano de 1778 [seu pai era livreiro da vila]. Professou a Regra de S. Bernardo no Mosteiro de Alcobaça, em 25 de Agosto de 1795. Frequentou, na Universidade de Coimbra, a Faculdade de Teologia, nela se doutorou em 6 de Julho de 1810 [outros autores dizem 8 de Junho de 1811]. Foi professor [regente da cadeira] de História no Colégio das Artes. Em 27 de Agosto de 1831 foi nomeado reformador geral dos Estudos [cargo que até então tinha cabido a D. Francisco Alexandre Lobo, Bispo de Viseu]. Em 29 de Setembro deste mesmo ano, foi apresentado Arcebispo de Évora, e confirmado neste lugar pelo Papa Gregório XVI em 24 de Fevereiro de 1832, e sagrado em 3 de Junho deste mesmo ano [o próprio Rei o tinha nomeado, segundo fez saber, para dar a tão importante diocese um Bispo de grandes virtudes reconhecidas e pessoa digna de muita confiança]. Pouco tempo esteve em Évora. Triunfando a causa de D. Pedro, e "restabelecido" [aspas minhas] o governo constitucional, de cujas doutrinas foi sempre adverso, retirou-se [foi exilado] em 1834 para a Itália, vivendo os últimos anos em Roma, sem conforto e com pouquíssimos recursos económicos [como sempre o fez e faria qualquer bom monge]. Faleceu nesta cidade em Dezembro de 1844, e foi sepultado na igreja de S. Bernardo."

Para que não dê a falsa ideia de que D. Fr. Fortunato tivesse sido abandonado ou esquecido no final da vida, e que esse fosse o motivo da sua vida em pobreza, convirá lembrar que, segundo publicou em 1843 o "Il Mercurio di Roma" o nosso grande português morava no Convento de S. Anderea della Vall.

A biografia é breve porque não conseguiram apagá-la. Que vivas haveriam de querer dar os vencedores liberais a um Monge Arcebispo que durante as invasões francesas escreveu contra elas e contra o que elas representavam? (leia-se o opúsculo "Quando da Infame Conducta de Napoleão Bonaparte para com os Diferentes Soberanos da Europa, desde a sua intrusão no Governo Francês até Junho de 1808")

Em Maio de 1820 Fr. Fortunato foi nomeado correspondente da Academia Real das Ciências, e no ano seguinte nomeado sócio livre. O seu prestígio como historiador profundo e de rigor está também reconhecidos pela nomeação para Cronista da Ordem de S. Bernardo (cargo habitualmente desempenhado por monges que deixaram elevado nome na nossa história).

A grande parte dos sermões proferidos por D. Fr. Fortunato de S. Boaventura, os quais eram proferidos e publicados pela Imprensa da Universidade de Coimbra, foram depois na sua maioria queimados quando a mesma Imprensa foi ocupada pelos liberais (por via da Junta Liberal do Porto); acto do mais invertido critério de censura.

Parte superior da Capela mór da Sé de Évora
D. Fr. Fortunato de S. Boaventura nunca deixou o Arcebispado de Évora, e sempre, como de direito, continuou a agir como Arcebispo de Évora no exílio. Antes da sua partida para Roma, as falseadas novas "autoridades eclesiásticas" sobrepostas por via do ilegítimo governo liberal usurpante violentaram-no a sair da Arquidiocese. Escreveu então duas pastorais aos seus diocesanos a dar conta das ocorrências; uma foi escrita em Pombal a 15 de Setembro de 1833, e a outra em Condeixa a 21 de Outubro seguinte.

Tudo isto é uma pequena mostra para que se entenda porque as biografias que os liberais compuseram são tão reduzidas e pouco claras quando dizem respeito aos seus adversários, e aumentam as páginas aos do maldito liberalismo (pois chegam a colocar diante do Povo estátuas erguidas aos criminosos com o metal roubado de outras tantas estátuas a homens que sempre defenderam o que Portugal sempre defendeu).

Também, para que não se pense que D. Fr. Fortunato de S. Boaventura foi um caso isolado (embora seja personagem peculiar), ou que tivesse uma causa e visão muito originais (coisa que os liberais sempre tentam fazer crer: assim pareceria que a causa não foi nacional, mas sim de um grupo minoritário de indivíduos), devo lembrar ao, no texto transcrito, o liberal Inocêncio Francisco da Silva trata por "retirou-se em 1834 para a Itália" o que na verdade foi exílio forçado. O próprio D. Pedro de Alcântara, em carta a Gregório XVI, em Outubro de 1831, insurge-se contra o reconhecimento dado por Sua Santidade ao Rei D. Miguel, e ameaça que não aceitaria nunca a nomeação dos novos Bispos por D. Miguel. Caso ele tirasse o Rei D. Miguel do Trono, dizia que expulsaria do Reino a tais Bispos como rebeldes e traidores. O que é certo é que, passados alguns meses, o Santo Padre confirma tais Bispos, entre eles D. Fr. Fortunato de S. Boaventura. Assim que D. Pedro usurpou o Trono cumpriu com a ameaça.

03/01/15

CONTRA-MINA Nº 33: Última Esperança dos Pedreiros ... (II)

(continuação da I parte)

D. Miguel, Rei de Portugal, O Tradicionalista
É preciso que, ao tratar estas matérias, eu busque de vez em quando alguma distracção, que me faça esquecer da viva mágoa, que me repassa o coração todas as vezes, que deito os meus olhos ao tristíssimo papel, que há feito, discorrendo por mares, e terras, essa malfadada Princesa, a quem eu chamava em 1828 desde a Cadeira da verdade "Princesa digna de melhor fortuna". Agora porém já não curam de haver-lhe um esposo a torto, e a direito, que nem sei como se não lembraram de a oferecer a algum dos filhos de Luís Bonaparte; não trataram agora senão da eleição de um Regente de mão cheia, que deitando a sua dextra prepotente ao timão dos negócios públicos, imprima nas acções do Governo, durante a menoridade da Senhora D. Maria da Glória, tal força, e carácter de virtude, que assombre, e espante os mais ladinos Gabinetes da Europa. Mas quem será o novo Regente? O primeiro, que lembra é, sem questão, o 2º Pombal, a melhor cabeça negociadora dos tempos modernos, a flor da Diplomacia, o talento mais fidalgo, que nunca houve na Monarquia Portuguesa, pois tratando-se em Viena d'Áustria os nossos interesses, com uma das mãos restituía a Caena aos Franceses, sem ao mesmo passo estender a outra para reclamar a integridade dos Domínios Portugueses; quero dizer, Pedro de Sousa Holstein, que mesclado de sangue Alemão, e Português, daí mesmo tirou azos para se mostrar umas vezes estrangeiro, outras nacional deste Reino. Por qualquer dos lados não me espantam as suas Fidalguias, e caso se estomagassem por isso, ou se acendessem cada vez mais contra mim os Consanguíneos, e Confrades de alta esteira, justo é, que saibam por uma vez, que o Frade de Alcobaça olha, e olhará sempre com reverência para uma classe, que deve ser o esteio da Monarquia, mas logo que a veja apodrecer, ou deslumbrar-se com acções indecorosas, nomeadamente contra um Rei, que os veio tirar da boca do Lobo, que a estas horas (se ele não fosse) já estariam todos no imenso bojo da fera, todos engolidos, para nunca mais aparecerem, ou figurarem neste mundo, então deixarei de ter com eles a mais leve contemplação, e porei ao Sol tais defeitos Genealógicos, que façam pasmar a todos os bons Portugueses, que talvez consideram certos heróis como filhos do Sol, e netos da Lua. Cada um é filho das suas acções; não é princípio republicano, é princípio de eterna verdade, e quanto a mim dou mais pelo Carrasco, fiel executor das Ordens Superiores, do que pelo Marquês novíssimo, e de ontem, pois é feito pelo Senhor D. João VI, que também o fez Conde, e todos estes benefícios se voltaram contra um Filho do próprio Senhor D. João VI, que Deus tenha em glória. Enfureceu-me só de ouvir a palavra amnistia, porém ao dizer-se que tem havido quem a solicite para um Pedro de Sousa, erriçam-se-me os cabelos, perco o fio das minhas ideias, e parece-me, que vejo urdir do pó da terra, ou do seio dos tumultos a quantos foram justiçados até hoje pelo crime de rebelião contra o Senhor D. MIGUEL I, e dizerem queixosos, e suspirando..... Brada ao Céu, que fossemos justiçados, se um como este, só por ser Fidalgo, e ter Parentes Fidalgos, há de ser absolvido, quando um só dos seus crimes excede todas as somas, dos que nós todos cometemos, e nos levaram ao patíbulo.

Foi preterido na Regência, porém dão-lhe, e conferem-lhe o Emprego imediato, e vem a ser, o de Inspector da Educação da Senhora D. Maria da Glória.... Que grandes felicidades não espera desta vez o Reino de Portugal! E´-lhe destinada uma Soberana, uma Princesa, que tem por seu Mestre, e Director o ex-Conde, o ex-Marquês, o ex-Comendador, o ex-Fildalgo, e o ex-Português Pedro de Sousa!!!!!!!!

O ar de zombaria, com que certos Papeis Estrangeiros costumam tratar desde longo tempo, e já muito antes que ele subisse ao Trono dos seus Maiores, o Rei mais querido, e mais eminentemente nacional, que tem havido na Europa, quero dizer, o Senhor D. MIGUEL I, é no meu conceito a mais prezada injúria, que se pode fazer aos bons Portugueses; e só esta nos devia acender, para que em toda a hipótese, em toda a circunstância mostrássemos aos Estrangeiros, e de um modo terrível, que ainda somos Portugueses.... Não quero exceder-me, só quero, e posso comunicar a todos os fiéis Portugueses uma nova por extremo agradável, e lisonjeira "A que se intitula Rainha de Portugal, vai ser educada à Inglesa!!!!" [ironia]

Quem não esperará optimas consequências de um tão fausto, e bem agourado princípio? Mas quem é o preconizado Regente, dirá algum Leitor, já cheio de impaciência por decifrar esta como adivinhação? Será o descendente do vencedor do Ameixial, que tantas vezes se terá lembrado das cebolas do Egito, e das ameixas da sua terra? Será o fogoso, o intrépido, o Constitucionalíssimo Dann, por quem suspiram tantos honrados Oficiais, aos quais ele, ou demitiu, ou encarcerou? Não é nenhum destes; calçará mas alto; é Pessoa Real. Então é algum Príncipe, que ao melhor sangue da Europa junte os brasões da amiga do Director Barrás? Coisa mais alta. Como pode ser mais alta, se nenhum Rei da Europa virá aqui para ser um simples Tutor, ou Regente? Pode ser mais alta, e o é com efeito; a saber, o Senhor D. Pedro de Alcântara ex-Defensor perpétuo do Brasil. Pois isso é crível, que é presentemente a mais fresca das esperanças dos Pedreiros Livres, que se felicitam uns aos outros, e se dão mutuamente os parabéns, de que o Senhor D. Pedro ande em caminhadas, e viagens de Londres para Paris, e de Paris para Londres feito solicitador desta Regência; que tal é o amor, que ele tem à sua antiga Pátria!! Quando julgou não carecer dela para coisa alguma, e que toda a ligação, que tivesse connosco o tornaria suspeito aos seus queridos, e perpetuamente fiéis Brasileiros, tratou-nos com um desamor tão notável, que fez espécie a quantos leram as suas despedidas, e os seus elogios fúnebres à Nação Portuguesa... Actualmente sopram outros favonios, e correm outros ares. Não se esqueceu inteiramente de que nos injuriou, e doestou sobremaneira, mas vem agora fazer a Lisboa uma soleníssima retratação de quanto nos fosse desagradável, e por isso todos os Portugueses, que arrojam os grilhões do mais pesado cativeiro, hão de recebê-lo com os braços abertos, porque enfim os Portugueses são muito boa gente.... não como rebanho de carneiros para onde os levam....

(continuação, III parte)

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