(continuação da VI parte)
XIX
Então de quem é descendente o nosso Conde D. Henrique, me perguntarão com certa impaciência os meus leitores! Já tenho respondido, que dos soberanos da Hungria. Mas de que modo, e qual a sua ascendência paterna? Confesso, que não me atrevo a decidir; porém não tenho por ora, nem com que me desvaneça inteiramente da origem borgonhesa, nem com que tenha por demonstra a origem veneziana. Fazem-me grande peso os autores coevos, a saber, Hermano Contrato e Wippo; mas o texto da crónica do primeiro tem sofrido tais interpolações e alterações que só por ele não me julgo em termos para afirmar, que o citei exactamente; e posto que o segundo, até pela sua naturalidade, possa e deva pesar mais na balança, fico todavia perplexo ao ver, que João Pistorio o não seguiu, quando era o próprio editor clássico dos venezianos e suas coisas não achei suficiente clareza para me decidir por uma vez.
Mas que faremos (podem continuar os meus leitores) aos dois argumentos fortíssimos, que vêm a ser: 1º que o Rei D. Pedro não teve descendência dos seus dois matrimónios; 2º que os nossos historiadores seguiram o cronista Duarte Galvão, e quando mais a Fernão Lopes, que não haverá testemunho anterior aos dias deste cronista, que nos prove tal ascendência? Em quanto ao primeiro responderei, com os autores alemães e húngaros, de prole nihil constat, (1) o que não é afirmar, que de certo não a houve; e pela narração de Hermano Contrato, que depois de nos contar, o que ele qualifica de perfídia dos húngaros contra D. Pedro seu Rei, acrescenta que depois de serem mortos os que foram leais... variis cum conjuge sua alendum deportat, ao que na edição, que eu pude consultar, se ajuntou à margem uma variante mais difícil de entender, e pareceu-me que filios cum conjugesua alendos deportat poderia ser a verdadeira lição; e quando na Hungria não ficassem vestígios de que o Rei Pedro tivera filhos do segundo matrimónio, creio que não seria esta a primeira vez em que a memória de pessoas, que tivessem deixado na infância o país da sua naturalidade, fosse absolutamente desconhecida neste, e mui vulgar no outro,ou na sua pátria adoptiva. Enquanto ao segundo; se os nossos historiadores tivessem lido o testamento do Arcebispo e heroi português D. Lourenço Vicente, que se guarda no arquivo da Sé de Braga, teriam sido mais comedidos em censurar os cronistas Lopes e Galvão, e não teriam desdenhado do epitáfio, que o Arcebispo D. Diogo de Sousa mandou pôr no jazigo do Conde; pois muitos anos antes de 1512, isto e, em 1397, ao mais tardar, escrevia o louvado arcebispo esta verba em seu testamento: "Mando sepultar e subterrar o meu corpo na capela minha, que ordenei de consentimento do Cabido da dita igreja Catedral de Braga, junto com as paredes da dita igreja, e aí onde jaz enterrada a Rainha D. Teresa e o Conde D. Henrique seu marido, filho que foi de el-Rei de Hungria."
Quem defendeu com a espada nos memoriáveis campos de Aljubarrota o Senhor D. João I era versado nas ciências e letras humanas, e frequentou os liceus de Tolosa, Montepellier e Paris, era assaz digno de sustentar com exactidão e devido conhecimento de causas a verdadeira linhagem dos nossos Reis; e a sua pena é para mim não menos valiosa na presente questão histórica, do que o foi a sua espada nas questões políticas e lides guerreiras.
(continuação, VIII parte)
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| Coroa do Rei Sto. Estêvão da Hungria |
XX
Mas que faremos (podem continuar os meus leitores) aos dois argumentos fortíssimos, que vêm a ser: 1º que o Rei D. Pedro não teve descendência dos seus dois matrimónios; 2º que os nossos historiadores seguiram o cronista Duarte Galvão, e quando mais a Fernão Lopes, que não haverá testemunho anterior aos dias deste cronista, que nos prove tal ascendência? Em quanto ao primeiro responderei, com os autores alemães e húngaros, de prole nihil constat, (1) o que não é afirmar, que de certo não a houve; e pela narração de Hermano Contrato, que depois de nos contar, o que ele qualifica de perfídia dos húngaros contra D. Pedro seu Rei, acrescenta que depois de serem mortos os que foram leais... variis cum conjuge sua alendum deportat, ao que na edição, que eu pude consultar, se ajuntou à margem uma variante mais difícil de entender, e pareceu-me que filios cum conjugesua alendos deportat poderia ser a verdadeira lição; e quando na Hungria não ficassem vestígios de que o Rei Pedro tivera filhos do segundo matrimónio, creio que não seria esta a primeira vez em que a memória de pessoas, que tivessem deixado na infância o país da sua naturalidade, fosse absolutamente desconhecida neste, e mui vulgar no outro,ou na sua pátria adoptiva. Enquanto ao segundo; se os nossos historiadores tivessem lido o testamento do Arcebispo e heroi português D. Lourenço Vicente, que se guarda no arquivo da Sé de Braga, teriam sido mais comedidos em censurar os cronistas Lopes e Galvão, e não teriam desdenhado do epitáfio, que o Arcebispo D. Diogo de Sousa mandou pôr no jazigo do Conde; pois muitos anos antes de 1512, isto e, em 1397, ao mais tardar, escrevia o louvado arcebispo esta verba em seu testamento: "Mando sepultar e subterrar o meu corpo na capela minha, que ordenei de consentimento do Cabido da dita igreja Catedral de Braga, junto com as paredes da dita igreja, e aí onde jaz enterrada a Rainha D. Teresa e o Conde D. Henrique seu marido, filho que foi de el-Rei de Hungria."
Quem defendeu com a espada nos memoriáveis campos de Aljubarrota o Senhor D. João I era versado nas ciências e letras humanas, e frequentou os liceus de Tolosa, Montepellier e Paris, era assaz digno de sustentar com exactidão e devido conhecimento de causas a verdadeira linhagem dos nossos Reis; e a sua pena é para mim não menos valiosa na presente questão histórica, do que o foi a sua espada nas questões políticas e lides guerreiras.
(continuação, VIII parte)
