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16/10/15

OS NOTÁVEIS DESACATOS OCORRIDOS EM PORTUGAL (VII)

(continuação da VI parte)

Pe. José Agostinho de Macedo
Vem cá, ímpio, se é que me escutas, eu te ofereço combate, diz-me, qual é o carácter de que te revestes? És Judeu? certamente; ainda que oculto e disfarçado. Pois se como Judeu me perguntas: como pode Jesus Cristo dar-nos a sua Carne para comer, e o seu Sangue para beber? Quommodo postest hic dare carnem suam ad manducandum? Pode; porque quem pôde criar o Céu, e a Terra com uma única palavra, o homem de um pouco de barro, e obrar tantas, e tão extraordinárias maravilhas, seladas com a autoridade Divina podia converter o Pão e o Vinho na substância do seu Corpo, e do seu Sangue!

És Herege? certamente, porque abraças os erros de todos os Hereges, em todos os séculos, e em todas as idades; e se como Herege abraças o Evangelho, vê, contempla, medita nas terminates, e claríssimas expressões do Divino Salvador, na Instituição do Adorável Sacramento. Toma o pão, abençoa-o, e diz: Este é o meu Corpo. Hoc est Corpus meum; e da mesma sorte o vinho: Este é o meu Sangue. Hic est Sanguis meus. Não disse, como querem os Luteranos, e Calvinistas: Este Pão é a imagem, e a figura do meu Corpo, e do meu Sangue; mas disse, e declarou aquilo que não tinha feito na instituição dos outros Sacramentos; esta comida é a verdadeira e real substância do meu Corpo, e esta bebida o meu verdadeiro Sangue: Caro mea vere est cibus, et sanguis vere este potus, e para nos tirar toda a dúvida, ainda acrescenta: e este mesmo Corpo, que aqui fica debaixo das espécies de Pão, é aquele mesmo que há de ser entregue aos meus inimigos para vos salvar. Hoc Corpus, quod pro vobis tradetur.

És Filósofo ímpio? então contigo não quero argumentar; eu te voto ao desprezo do género humano; porque o teu sistema é uma mescla de todas as Seitas, um agregado de todas as impiedades, um ódio desenfreado sobre tudo que é sagrado. Eu, assim como todos os verdadeiros crentes, adoramos, protestamos adorar a Real Presença de Jesus Cristo no Augusto Sacramento dos nossos Altares; é verdade que a minha razão fraca e limitada não pode compreender a grandeza deste Mistério, nem os meus sentidos ali encontram senão as espécies de pão; mas a minha Fé me ordena que adore, que acredite a Real Presença de Jesus Cristo no Augusto Sacramento dos nossos Altares; ainda que a minha razão o não compreenda, e os meus olhos o não vejam; quod non capis, quod non vides animosa firmat Fides.

Que triunfo pois, C. O., ainda que aparente para os ímpios e filósofos do século, e fundado somente no testemunho dos sentidos, a sacrílega profanação, que se tem feito do Santuário, e do que nele se contém de mais Divino! Com que insultantes risos ouviriam eles a lastimosa história das profanações, e desacatos, cometidos na Igreja de S. Pedro da Queimadela (acontecido na noite de 22 para 23 de Janeiro), na Capela de N. S. da Lapa, da Cidade de Braga (acontecido durante o dia 7 de Março), e noutras partes do nosso Reino? Que mofa, que escárnio fariam da nossa Fé? Com que indiferença, ou sacrílego prazer, ouviram eles, que fôra espargido pelo pavimento do Santuário o Pão do Céu, que foram roubados os Vasos com as sagradas Fórmulas, e o Divino e Augusto Sacramento sacrílega e injuriosamente tratado? Com que ufania diriam eles talvez, e desvanecimento: eis aí o Deus, que os Cristãos reconhecem nos seus Templos: vêde como é falsa a sua crença: alimentam-se de fábulas e quimeras, adoram um Deus encoberto em fracos acidentes de pão; um Deus, que não veem, nem sentem por modo algum - Dicant in gentibus ubi est Deus eorum?

Não, ímpios Filósofos, incrédulos dos nossos dias, não canteis a victoria; já vos disse que esse triunfo é aparente, e momentâneo; debalde cevais a vossa cólera contra a Religião, conspirando-vos por toda a parte contra o Mistério mais pomposo, e brilhante da nossa crença, vós injuriais e incultuais um Deus, que é infinitamente superior a toda a vossa raiva; J. C. sofre-vos porque muito quer, mas ele reserva para a eternidade (que vós não quereis reconhecer) a sua justa vingança.

Os Judeus puderam tirar-lhe a inocente vida sobre uma Cruz; mas gloriaram-se por curtos instantes: os mesmos que o guardavam no frio túmulo, o viram surgir glorioso. Dali saiu a propagar-se os Cristianismo, que eles queriam sufocar logo no berço; e Jerusalém Deicida, arrasada, e para sempre destruída, reduzida a um montão de cinzas; e as suas Tribos dispersas pela face da terra, tidas em opróbrio, e abominação de todo o mundo, pagam bem caro o maligno prazer, que tiveram de o cobrir de opróbrios, e matar na Cruz. O Gentilismo pôs-se logo em campo para combater o Crucificado, e os seus Discípulos: as cavernas da terra lhe serviram de Santuários, o sangue dos defensores da Religião correu em abundância, toda a espécie de martírio se pôs em uso, para suspender a sua propagação: o mesmo Pão Celeste, nestes tempos de perseguição, teve ultrajes a sofrer da parte dos Tiranos, e ainda mais dos diferentes Hereges, que no progresso dos séculos excitara o Inferno; sobre tudo os Valdenses, e Albigenses: o mesmo fogo e água, a que muitas vezes era lançado, sempre o respeitou: e no meio da pertinaz guerra, que a Heresia, o erro, ou a impiedade lhe tem sempre suscitado, a verdade triunfa, a Fé, neste mesmo artigo, se propaga; se perde em um canto da terra, ganha e adquire em outro: e pela própria experiência, bem apesar vosso, deveis conhecer, ó impios, que toda a força, e guerra da Filosofia nada pode contra as obras de um Deus, e contra a Religião, que é obra sua.

Consolai-vos pois, fiéis discípulos de Jesus Cristo; nem a vossa Fé vacila, nem a impiedade triunfa: se ela se desvanece destes insultos, se com eles intenta destruir em nós a nossa crença, engana-se; a impiedade só triunfa por momentos, e a Religião de J. C. há de prevalecer contra os seus esforços, porque a palavra de Deus não falta. Portae inferi non proevalebunt adversus eam.

Recolhei pois, C. O., dentro de vossos corações as consolantes verdades, com que acabo de instruir-vos, e que devem destruir os escândalos, que destas terríveis e sacrílegas profanações podem resultar; ou fazendo diminuir e vacilar a vossa Fé, ou dando ocasião ao suposto triunfo da impiedade. para obstar a estes escândalos, e desagravar a Divina majestade ofendida com tão nefandos e horrosos desacatos, redobrai a perpétua adesão à vossa Fé, e à nossa sagrada Religião Católica. O Senhor quis servir-se desses malvados, que o insultaram, para vingar-se dos nossos crimes; tolerou, sofreu por esta ocasião gravíssimos insultos, mas nós vimos a ser pelo menos uma causa indirecta dos mesmos ultrajes, que lhe fizeram.

Não peçamos a Deus que castigue os malvados, porque isso pertence à sua impreterível Justiça; mas devemos satisfazer a Deus por eles, e rogar-lhes que perdoe tanta maldade. As lágrimas, o jejum, e o exercício das boas obras seja a nossa principal ocupação; tanto vos pede a glória de J. C. injuriada naquele Augusto Sacramento.

Se o Povo de Israel, à vista das profanações cometidas por Antíoco, e seu exército, vendo o Altar profanado, as portas queimadas, rasgaram seus vestidos, derramaram lágrimas, gritaram até o Céu, cobriram-se de pó, e cinza; sciderunt vestimenta sua, planxerunt planctu magno, et imposuerunt cinerem super caput suum; com quanta maior razão o Povo Cristão, à vista dos horrores perpetrados por homens, que se dizem filhos do Cristianismo, dentro do Santuário da Nova Igreja, deverá dar-se a todos os sinais de uma santa e verdadeira dor, e de uma sincera penitência, para reparar do possível modo os ultrajes feitos a Jesus Cristo, por tantos malvados?

Seja pois este o fruto das minhas palavras neste dia, que vós consagrais à espiação e desagravo do Santíssimo Sacramento. Não nos contentemos de lamentar no segredo dos nossos peitos as sacrílegas profanações dos Lugares Santos, e desacatos, cometidos contra J. C. na sua Real Presença naquele Augusto Sacramento. O desagravo deve igualar a gravidade da ofensa, praticando actos diametralmente oposto àqueles, que na perpetração destes insultos deixaram ver os ímpios e malvados agressores, que os cometeram. A impiedade, e falta de Fé nos malvados, eis. aqui o fatal princípio dos seus insultos: uma Fé bem pura e firme nesse Divino Sacramento; eis aqui um dos meios, com que devemos desagravar a J. C. ultrajado.

Procuremos, Fiéis de J. C., opor um muro de bronze à torrente da impiedade e Filosofia do século, que por toda a parte se conspira contra a Religião, e sobre tudo contra o Augustíssimo Sacramento da Eucaristia, por isso mesmo que é de todos os mais sublime Sacrifício, e a mais digna honra, que Deus pode receber do homem. Vê o demónio por toda a parte os altares do erro caídos por terra; e por toda a parte levantados os Altares, onde J. C. se oferece debaixo das Espécies Eucarísticas: empenha por isso todos os seus esforços para os destruir; suscita os Hereges, os Infiéis, e até os mesmos Cristãos degenerados, para arruinar nossos Altares, roubar os sagrados Vasos, vilipendiar, ultrajar, e sacrilegamente tratar o Divino Sacramento, e o mais Augusto da nossa Religião.

A nós, Cristãos, pertence expiar os crimes que se cometeram, tratando daqui por diante o Templo com mais respeito; adorando o Santíssimo Sacramento daquele modo que exige a Real Presença de J. C. ali existente, e purificando nossas consciências, antes de nos prostrar diante da sagrada mesa para receber a J. C. em nosso peito.

Prostremo-nos ante o Trono da sua Misericórdia, choremos ainda mais nossas iniquidades, como causa de tantos crimes, do que os mesmos agressores, que os perpetraram.

Meu Deus, gentes malvadas poluíram, e profanaram o vosso Templo sagrado. Venerunt gentes poluerunt Templum sanctum tuum. Nós, os verdadeiros Portugueses, somos o opróbrio, e escárnio dos ímpios, dos libertinos, e dos vossos inimigos, que por toda a parte nos insultam, e nos perseguem. Subsannatio, et illusio his, qui in circuitu nostro sunt. Até quando, Senhor, exercitareis contra nós a vossa ira! Exercitai-a, empregai-a nesses que vos não conhecem, e ultrajam. Effunde iram tuam, in gentes, quae te non noverunt. Eles profanaram o vosso Templo, e desacataram a vossa Divina Pessoa. Comederunt Jacob, et locum ejus desolaverunt. Castigai, Senhor, os vossos inimigos, até pela glória do vosso Nome, para que eles não digam com desvanecimento "Aonde está, Católicos, o vosso Deus, do qual tanto escarnecemos? Ne sorte dicant in gentibus; ubi est Deus erorum?". Nós somos o vosso Povo escolhido, nós vos adoramos, e protestamos adorar nesse Augusto Sacramento por todos os séculos sem fim. Amen."

FIM

03/06/15

OS NOTÁVEIS DESACATOS OCORRIDOS EM PORTUGAL (V)

(continuação da IV parte)

SERMÃO DE DESAGRAVO

Caro mea vere est cibus, et sanguis meus vere est potus (S. Joan. c. 6)

Nada é tão digno da majestade do Santuário do Deus vivo, e do respeito e piedade, com que deve ser tratada a Casa do Senhor, como a digna e compelente reparação que intenta fazer-se, quando é ímpia e sacrilegamente profanado pelas mãos do homem.

O Povo de Deus, o fez sempre que o furor dos seus inimigos, igualmente sequiosos das riquezas do Santuário, que perseguidores da sua Religião, os levou a profanar e saquear o Templo de Jerusalém. Com que respeito e diligência não cuidaram em o purificar das iniquidades e sacrilégios, com que os soldados de Antíoco o tinham profanado? Eles principiam por cobrir-se de cinza e de cilício, dando gritos de consternação e de luto, prostrados por terra, conhecendo que as suas iniquidades eram o primeiro e fatal princípio daquelas mesmas profanações. O valoroso Judas Macabeu designa então os Sacerdotes da via mais irrepreensível, e a eles comete a purificação do Lugar Santo. O Altar dos holocaustos foi de todo destruído, e substituído por outro semelhante. Novos Vasos sagrados, novo Candeeiro, novos Sacrifícios: o Templo foi novamente dedicado ao Senhor com toda a magnificência e piedade; e o povo, unindo a sua face ao pavimento, banhando-o com suas lágrimas, e dirigindo ao Senhor humildes preces, desagravou e reparou as sacrílegas profanações, cometidas pelos inimigos da Religião contra o Templo, e contra os Altares.

Mas, Católicos ouvintes, a Igreja de Jesus Cristo não é menos zelosa em reparar os ultrajes feitos em seus Templos, nem os Cristãos menos fervorosos em dar a Deus o competente desagravo para tantos, e tão repetidos desacatos e profanações, cometidas contra a mesma Pessoa de Jesus Cristo, realmente existente debaixo das Espécies Eucarísticas.

Conduzidos os verdadeiros Portugueses por estas mesmas ideias do respeito devido ao Santuário, e à mesma Pessoa de Jesus Cristo aqui existente, com que mágoa, com que sentimento, com que horror tem, ouvido a lastimosa história de tantos, e tão frequentes desacatos, cometidos dentro deste Reino? mas ao mesmo passo, com que piedade, com que respeito, e diligência tem procurado desagravar a Divina Majestade, ofendida e desacatada! Quantas preces, quantos actos públicos de Penitência não temos nós observado nos devotos Fiéis desta Cidade!

Assim o deve exigir de nós, ó meu Deus, a vossa majestade e Divina Presença, ofendida e desacatada pela impiedade, e pela irreligião.

Ah, Fiéis de Jesus Cristo, não pode ver-se sem lágrimas, espanto, e confusão até que ponto há chegado em nossos dias o desprezo, e irreligião, a libertinagem, e o ataque geral contra os Templos, e sobre tudo contra o Mistério mais sublime da nossa Religião, qual é o Santíssimo e Divino Sacramento a Eucaristia! Um zelo ainda o menos ardente, a piedade a mais medíocre, a fé a menos viva, as ideias enfim as mais vulgares de um simples Cristão, tudo se ofende, tudo se agita à vista de tantos, e tão frequentes desacatos acontecidos nas diversas partes do nosso Reino.

Com quanto horror, Católicos, devemos olhar para estas profanações, por serem cometidas por homens, criaturas de Deus, fracos, miseráveis, e em tudo dependentes da sua Omnipotente Mão; mas sobre tudo por homens, que se dizem Cristãos, instruídos das verdades sublimes da nossa Fé! cujas profanações são tanto mais audaciosas e insultantes, quanto é o conhecimento, e a maligna deliberação, com que se tem perpetrado estes crimes, e a frequência, com que se cometem.

Ora que gentes, que não são Cristãs, cometam dentro dos Templos profanações e sacrilégios! Que um Maometano, que um Pagão insultasse os nossos Templos, era Pagão, era Maometano; mas que homens, que se dizem Cristãos não respeitem o que a Religião lhes oferece de mais Santo e Augusto; antes venham profaná-lo do modo mais insultante e irreligioso! Que ousassem eles levantar contra o Sacramento Augusto suas bárbaras mãos, para roubarem os sagrados Vasos, vilipendiar, e espalhar pelo chão as sagradas Fórmulas! Ah! eis-aqui o que não pode deixar de agravar mais estes horrorosos insultos; e que faz ver o grau de impiedade, com que se cometeram estes desacatos; desacatos, que ofenderam não só a Divina e Infinita Majestade do Senhor, mas atacaram vivamente a piedade dos Fiéis, e pretenderam não menos fazer o triunfo da impiedade, e da irreligião dos nossos dias.

Ah! que mágoa nos verdadeiro crente, que perigosa tentação para a sua mesma Fé! E ao mesmo tempo que desvanecimento, e aparente triunfo para a impiedade, se desacatos, que o Céu mesmo, em castigo nosso, deixa por ora impunidos, se olhassem entre nós com uma indiferença insultante da Divindade!

Paremos, Senhores, nestas duas amplíssimas ideias, que quando fossem dignamente desenvolvidas, fariam um vasto, e bem apropriado discurso às circunstâncias desta acção de Desagravo.

A piedade dos verdadeiros Portugueses atacada, e ofendida com tantos, e tão frequentes desacatos; e o pretendido triunfo, que a impiedade e filosofia do século deseja tirar de tantas profanações; é a matéria do meu discurso, e deste solene desagravo.

Meu Dei, se o Profeta Elias, à vista das profanações cometidas contra os sacrifícios da Lei Antiga, se inflamou pelo zelo da vossa Casa; hoje que vejo profanado o Sacrifício da Lei Nova; e o vosso mesmo Corpo feito preza, e ludibrio da impiedade; inflamai o meu coração, animais a minha língua, para que o vosso Povo, à vista destes ultrajes, avive mais a sua Fé para vos adorar realmente presente nesse Augusto Sacramento.


DISCURSO

É tão terrível, e espantosa a malícia do pecado público, que não só ofende o inviolável respeito que se deve a Deus, que o proíbe pela sua Lei, mas induz aos outros a cometê-lo, pela oculta, mas poderosa força que o exemplo tem sobre os homens, sobre tudo a respeito de acções, que favorecem a sua natural corrupção. Já corruptos de nossa mesma natureza, e levados ao mal, somos mais fáceis em abraçar os exemplos que se nos oferecem de maldade e vício, do que os da hora, e da virtude: a dificuldade, que algumas vezes se encontra na execução do bem, nos proíbe de sermos ávidos em imitar as grandes e louváveis acções; mas pelo contrário naturalmente levados ao mal, mais facilmente o cometemos, quando a isso somos excitados pelo exemplo dos maus homens. Tal é a intrínseca malícia do escândalo em qualquer género de vício, e tal é a funesta responsabilidade ácerca daqueles, a quem ele corrompe. Aos pios e fiéis aflige, consterna, e abala; e aos maus fortifica em o mal, endurece, e dispõe para maldades ulteriores. Funesta origem, gérmen terrível da corrupção, que inunda a terra toda! mas necessária, inevitável, mas nem por isso escusável, antes funesto princípio de condenação para aquele que o dá. Necesse est venire scandala, verumtamen vae monini illi, per quem scandalum venit!

E caso, C. O., seriam pequenos, ou pouco para temer-se os escândalos que podiam nascer, e por desgraça nasceriam dos horrores e desacatos cometidos pelos malvados dentro do Santuário, contra a mesma Pessoa de Jesus Cristo? Ah! quanto a fé, e a piedade de uns tremeria a esse espetáculo, e quanto a impiedade, e a irreligião triunfaria em outros? Principiemos pela primeira.

A Fé, esta virtude sobrenatural, pela qual cremos firmemente todas as verdades reveladas, e de tal sorte as cremos, que daríamos por ela a mesma vida, para defendê-las à face dos Tiranos, é uma virtude verdadeiramente infundida em nossas almas, e nelas sustentada pela graça do Senhor, só a qual pode fazê-la triunfante de tantos, e tão repetidos ataques, que a nossa razão, que só ama as evidências, não cessa de fazer-lhe, sobre tudo nestes tempos, em que a pretendida Filosofia trabalha quanto pode por destruir o seu império, e sobre as suas ruínas estabelecer somente o da razão fraca, e escurecida.

É pois a Fé uma graça do Senhor, um habito por ele impresso em nossas almas, porém desgraçadamente em grande parte desvanecido pela mão da nossa corrupção, e se não de todo morta, e perdida, ao menos moribunda, e vacilante. Ainda quando viva, é sempre obscura, delicada, e capaz de assustar-se à contemplação mais séria dos incompreensíveis Mistérios, que ela nos propõe, e à qual, para conservá-la, é sempre preciso fazer-lhe repetidos sacrifícios, e lançar de contínuo um véu espesso sobre a contínua dúvida, que a nossa razão, e o mesmo Inferno não cessa de propor-lhe.

À vista disto, qual seria, C. O., e de que consequências, aos olhos da Fé, o riste, e lastimoso espetáculo de tantos, e tão repetidos desacatos, que sabemos terem acontecido nos diversos lugares do nosso Reino? Os malvados entraram nos Templos, e sem atenderem ao respeito que se lhes deve, respeito até concedido pelos Povos bárbaros às suas Mesquitas, e quaisquer Casas das suas fingidas Divindades, chegam a arrombar as portas do Divino Tabernáculo, os Vasos sagrados são roubados por suas mãos sacrílegas, as sagradas Fórmulas espargidas pelo pavimento...... não prolonguemos, Senhores, por mais tempo um quadro, que ainda agora mal pintado deve por extremo excitar a vossa, e a minha sensibilidade, e parece agravar ainda o mesmo Santuário.

A natureza estremece, o coração palpita, a língua vacila, a piedade dos verdadeiros Portugueses geme em segredo, mas é só espectadora dos ultrajes que observa.

Mas o Céu! dizem os Fiéis, o Céu..! porque não troveja dele, porque não despeja raios sobre os ímpios, sobre os malvados, sobre os profanadores! O Deus terrível, que ali adoramos existente, porque não fala, porque não solta essa voz de trovão, ao ouvir a qual os Cedros do Líbano se curvariam logo até beijar o pó da terra, quanto mais os fracos e desprezíveis perpetradores de tão horrendos desacatos!

dificuldades na transcrição ...
Tal, C. O., pode ser a tácita linguagem de uma verdadeira piedade, e também de uma Fé pouco radicada! Pois um Deus terrível ali oculto pode sofrer tantos insultos? Seria eu obrigado a acreditar num Deus exposto aos ultrajes arbitrários, que venham fazer-lhe aqueles mesmos, que ali o acreditam, e que em tanto e atrevem a profaná-lo de mil modos, que calcam aos pés, e que espalham este Pão Celeste pelo pavimento? Sobre as dificuldades, que os meus sentidos, e a razão encontram em acreditar neste sublime Mistério de nossa crença, teria ainda de vencer esta(?), (?)e vêm, acreditar sujeito aos desprezos mais irreligiosos do homem o meu Deus?

(continuação, VI parte)

19/04/15

OS NOTÁVEIS DESACATOS OCORRIDOS EM PORTUGAL (IV)

(continuação da III parte)

Empregadas todas as diligências para o descobrimento dos delinquentes, ficaram compreendidos quatro. Francisco Rodrigues, Manuel da Silva, João Baptista Cardoso, e José António da Luz. Foram sentenciados por Acórdão de 17 de Maio de 1780: os primeiros três a serem arrastados com braço e pregão até ao Campo de Santa Ana, e ali serem-lhe cortadas as mãos em vida, e queimadas, e depois morrerem de garrote, e ultimamente serem seus corpos queimados, com perda de todos os seus bens para a Irmandade do Santíssimo Sacramento da Freguesia, onde cometeram o delito. O último réu, que tinha ficado fora a vigiar armado, em quanto se fazia o roubo, foi condenado a ser enforcado, e cortada a cabeça, para ser posta no lugar do delito, e em cem mil réis para as despesas da Relação.

A Rainha Fidelíssima, a Senhora D. Maria I, imitando a piedade e zelo dos seus Augustos Predecessores, deu muitas providências para o descobrimento dos delinquentes; e, para desagravar a Jesus Cristo, ofendido na sua mesma Divina e Adorável Presença, fez muitas demonstrações, e actos religiosos de sentimento.

Ordenou ao Senado da Câmara que assistisse a uma Procissão de Desagravo, assim como toda a Côrte, e que se observasse um rigoroso luto para nove dias, cujos se acabaram no dia da Procissão, a que foram Suas Majestades (Aviso de 23 de maio de 1779).

Ordenou que a Igreja Matriz da Vila de Palmela se cantasse anualmente uma Missa em Desagravo do Santíssimo Sacramento pelo desacato ali cometido (Aviso de 11 de Maio de 1781).

Igreja Matriz de Palmela
Aqui [se verá] que no decurso de quatrocentos e dezassete anos, que tantos vão desde 1362 até 1779, só se viram em Portugal cinco desacatos. Feliz Reino, ditoso Povo, onde a Religião, e a impiedade não impera!

Não é possível na brevidade do meu intento dar ao público uma exacta notícia de todos os desacatos cometidos neste Reino desde 1779 até ao presente; porque têm sido tantos, e tão frequentes, que por si somente fariam um grande volume. Mas não deve admirar-se, se nos recordarmos que tudo isto são efeitos da primeira explosão da impiedade no Reino de França. as doutrinas anti-religiosas e anti-sociais, que tanto se têm propagado, a desmoralização dos povos, e o fanatismo da liberdade, são a origem funesta de tantos crimes, e tão horrendos atentados contra a Religião, e contra aquilo que nela há de mais sagrado.

Contento-me pois em dar ao público a notícia dos três últimos, acontecimento no decurso de poucos meses; e com isto fecharei a boca à torrente da impiedade, que raivosa, e exasperada por ver os frequentes actos de Religião, com que os verdadeiros Portugueses pretendem desagravar a Jesus Cristo, quer persuadir às almas piedosas, e simples - que a história dos desacatos é falsa, e que são invenções do fanatismo para iludir os povos, e fazer-lhe criar ódio contra o Rei, e seus Ministros.

Desengane-se pois o Mundo todo, de que a impiedade e filosofia do século só no meio da intriga, e da cavilação pode propagar suas ideias, e concluir seus projectos. Vejamos pois a história dos desacatos.


Na noite da antevéspera de Natal do ano passado de 1824 foi roubada a Igreja da Colegiada de Santa Maria de Alcáçova da Vila de Monte-mór o Velho, situada no centro do Castelo da mesma Vila. Entraram os malvados pela torre, subindo aos telhados pela parte mais baixa; arrombaram algumas portas do interior, e a do Sacrário, donde tiraram o Vaso Sagrado, despejaram as Sagradas Formas sobre o Altar, e as cobriram com a toalha; levando ao mesmo tempo uma rica Imagem de Jesus Cristo Crucificado, que estava na Sacristia. Não se sabe por ora quem foram e quantos os cúmplices deste delito, apesar das devassas, e averiguações que sobre este facto se têm feito.

Igreja de Sta. Maria da Alcáçova, dentro do castelo de Montemor-o-Velho
Informado disto, D. Fr. Joaquim da Nazaré, fez convocar os Párocos e Eclesiásticos daquela Vila e suas vizinhanças, e os Pais de família com seus filhos desde oito até doze anos, e fez uma pública Procissão de Penitência, acompanhando ele mesmo este acto com os pés descalços, e hábitos de humilhação!!! Ao outro dia se fez uma Festa de Desagravo, em que o mesmo Religioso Prelado fez uma Homilia análoga às circunstâncias; subindo ao púlpito o seu Secretário, que prégou sobre o mesmo objecto.


Sucedeu na noite de vinte e dois para vinte e três de janeiro deste ano na Igreja de S. Pedro de Queimadela, Arcebispado de Braga. Arrombaram os agressores o Sacrário, donde levaram o Vaso de prata, em que estavam as partículas consagradas, sem que aparecesse uma só, assim como uma Hóstia consagrada em maior forma, que ali ainda se conservava, depois de ter servido para a Exposição na Festividade de S. Sebastião, no dia 20 do mesmo mês de Janeiro. Roubaram igualmente dois Cálices, um todo de prata, e outro só com a cúpula dela, duas Patenas, uma Colherinha, e Chave do Sacrário, e duas Coroas de prata de Imagens de Nossa Senhora, que tudo estava fechado num armário na parede da Sacristia.

ElRei Nosso Senhor, cuja piedade é bem pública e notória, querendo desagravar a Divina majestade ofendida, e castigar os iníquos agressores de tão horrendo desacato, ordenou ao Corregedor do Crime da Cidade do Porto fizesse as mais exactas averiguações, prometendo prémio a quem denunciasse os criminosos (Carta Régia de nove de Fevereiro de 1825).


Na tarde de 7 de Março do corrente ano, das seis para as sete horas, na Capela de Nossa Senhora da Lapa, sita no Campo de Santa Ana da Cidade de Burgos, onde tinha estado Exposto naquele dia o Santíssimo Sacramento em Lausperene, no momento em que o  Sacerdote tirava da Custóodia a Hóstia consagrada, para a depositar no Vaso sagrado, e recolher ao Sacrário; quando o povo todo de joelhos fazia em profunda reverência a sua adoração, foi vista com geral espanto ser lançada uma porção de lama ou imundicia em direcção ao centro do Altar, que manchando em parte os Corporais, a Toalha do Altar, a Murça e Sobrepeliz do Sacerdote, a Sacra do lado do Evangelho, uma parte da Banqueta, e Cortina do mesmo Altar, não chegou a tocar, e ofender contudo, pela Divina Providência, nem a Hóstia sagrada, nem a Custódia, nem o Caso sagrado.

Um tão sacrílego, inaudito, e horroroso atentado tocou vivamente o coração de todos, e o do nosso amável Rei, que para descobrir o malvado e nefando autor de tão enorme sacrilégio, ordenou aos seus Ministros que procedessem a todas as diligências possíveis para o castigar como merece (Carta Régia de 16 de março de 1825).

A tal ponto tem chegado a impiedade, a ireligião, e o desprezo daquilo, que a nossa Santa Religião tem de mais respeitável!

Apesar disso ainda existem neste Reino verdadeiros Católicos, e amantes da Religião. Sucessivamente, depois destes desacatos, se têm observado por toda a parte públicas demonstrações de sentimento, para desagravar a Divina Majestade ofendida; sobre tudo nesta Capital, onde se tem observado, para confusão dos ímpios, repetidas Provisões de Penitência, Tríduos, e Festas de Desagravo, tendo eu mesmo sido por muitas vezes o intérprete dos sentimentos do público, prégando em diversas Igrejas desta Capital, sendo uma delas a Paroquial Igreja de Santa Isabel Rainha de Portugal, onde, no dia 17 de Abril, préguei os seguinte Discurso:

(continuação, V parte)

15/04/15

OS NOTÁVEIS DESACATOS OCORRIDOS EM PORTUGAL (III)

(continuação da II parte)


Sé do Porto
Aconteceu na Sé da Cidade do Porto (Refere este caso Gabr. Per. de Carv. De Man. Reg. P 2ª Cap. 53 n. 24 fol. 331) em 11 de Maio de 1614. Foi roubado do Sacrário o Sagrado Vaso com as Sagradas Fórmulas. Nunca pôde ser descoberto o executor do delito.

Fez-se por este motivo uma grande Procissão de Penitência de noite, em que foram descalços o Bispo D. Gonçalo de Morais, e o Governador, que então era das Justiças, Diogo Lopes de Sousa 4ª da Relação daquela Cidade (ó tempos, ó costumes). Semelhantes demonstrações de desagravo se fizeram em Lisboa, Coimbra, e por todo o Reino.


Sucedeu em Lisboa, na Freguesia de Santa Engrácia, na noite de 15 de Janeiro de 1630. Foi arrombado o Sacrário, e roubadas as Sagradas Formas de um Cofre de tartaruga guarnecido de prata, e de um Vaso também de prata sobre-dourado; e roubados também alguns ornatos dos Altares.

O réu, que se supôs deste delito, foi sentenciado a ir arrastado pelas ruas públicas até ao lugar, onde cometeu o crime, a serem-lhe ali cortadas as mãos, e queimadas à sua vista; e depois ser ele queimado vivo, e as cinzas lançadas ao mar.

Por este motivo se instituiu uma Irmandade composta de cem Irmãos, da principal Nobreza da Côrte, com o título de Escravos do Santíssimo Sacramento, que costumam fazer todos os anos um Tríduo na Real Capela da Ajuda, e costuma também ElRei assistir à Festa do primeiro, e último dia.


Aconteceu na Igreja da Freguesia do Santíssimo Nome de Jesus de Odivelas, na madrugada do dia 11 de Maio de 1671, tempo da Regência de ElRei D. Pedro II (Refere este caso o Advogado, que foi nomeado para defender o réu, Manuel Alves Pegas, no seu Tratado Histórico, e Jurídico).

Foi arrombado o Sacrário, e foram roubados dois Vasos Sagrados, um de prata sobre-dourada, com as Fórmulas consagradas, e outro de prata lisa. Foram roubadas outras muitas coisas, e ornamentos das Imagens dos Santos, e Altares.

Por Decreto do Príncipe Regente, foi nomeado para Juiz da devassa deste delito o Regedor das Justiças, Conde de Vilar maior, e Escrivães os Desembargadores Diogo Marcão Temudo, Corregedor do Crime da Côrte, e João Leitão de Andrade. Descobriu-se o delinquente, e foi condenado a ser arrastado pelas ruas públicas até à Praça do Rossio, e ali depois de cortadas as mãos em vida, e queimadas à sua vista, morrer de garrote, e seu corpo reduzido a cinzas.

Por este motivo se fizeram muitas demonstrações públicas, e Procissões de Penitência, e Desagravo. A primeira foi desde a Sé até à Freguesia de Santa Engrácia, em que foi o Príncipe Regente, toda a Côrte, o Clero, e todas as Comunidades Religiosas. Seguiram-se Procissões semelhantes em todas as Freguesias de Lisboa, e outros muitos actos públicos de piedade, e Religião.

E 16 de Junho do mesmo ano foram achados casualmente no caminho de Odivelas para Lisboa, no silvado de uma vinha os dois Vasos Sagrados embrulhados num lenço, e um embrulho com muitos dos ornamentos roubados, o que tudo foi levado ao Juiz da devassa.

Fizeram-se novas diligências, tendo-se já feito muitas, e prometido o Príncipe Regente grandes prémios a quem descobrisse o delinquente; mas tudo em vão, até que na noite de 16 de Outubro, sentindo uma criada do Mosteiro de Odivelas andar gente na cerca, pelas dez para as onze horas da noite, deu parte, chamaram-se os Religiosos, e criados do Mosteiro, que fica contíguo ao das Religiosas, entraram na cerca, e encontraram um homem, que declarou ter entrado com intento de furtar galinhas, como já tinha feito mais vezes. Foi preso, e sendo buscado pela Justiça, entre outras coisas que se lhe acharam, foi dentro de uma bolsa com algum dinheiro, uma Cruz de prata dourada, embrulhada num papel, que, sendo reconhecida, achou-se ser aquela, que fôra quebrada do Vaso do Sacrário.

O que tudo sendo levado ao Conde Regedor, e fazendo-se exame judicial da Cruz com o Vaso por dois Ourives, se achou ser a mesma que ali faltava; e por este indício se presumiu ter sido este preso o autor do roubo. Acharam-se depois num embrulho de fato do mesmo réu o resto dos ornamentos roubados, que ainda faltavam; e fazendo-se-lhe perguntas, suposto negou ao princípio, veio por fim a confessa ter sido o autor, e perpetrador daquele roubo, por cuja confissão foi condenado na forma que já se disse.

Em 1744 um devoto, chamado António dos Santos, erigiu um Oratório, em memória deste acontecimento, no sítio onde apareceram os Vasos Sagrados, cujo se chama hoje o Senhor Roubado.


Sucedeu na Vila de Palmela, na Igreja da Freguesia de Nossa Senhora do Castelo, que hoje existe na Ermida de S. João Baptista, extra muros da mesma Vila.

Eis aqui o caso, conforme a conta, que deu o Presidente do Real Convento, e Ordem de Palmela, Clemente Monteiro Bravo, à Rainha Fidelíssima a Senhora D. Maria I:

"Senhora,
na noite de 13 do corrente mês de Maio, dia da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo, para o dia 14, a Ermida denominada de S. João Baptista, fronteira a este Convento, e contígua a esta Vila, que há muitos anos serve de Freguesia de Santa Maria, Matriz da mesma; se achou roubada, segundo dizem, por três ladrões, que espoliando-a quase de toda a prata, e alfaias, e por ela difundindo os Santos Óleos, deixando as Âmbulas com as bocas em terra, passaram ao horrendo atentado de abrirem o Sacrário, donde levaram um Cofre com uma Hóstia, e cinco Fórmas consagradas, nele depositadas, e uma Pixide com cento e três Partículas consagradas, deixando além disso muitas dispersas pelo altar do mesmo Sacramento. Peço a V. Majestade a sua Real Resolução, com a brevidade que o caso pede, para a minha última, e acertada determinação. Convento Real de S. Tiago da Espada de Palmela 15 de Maio de 1779.
O Presidente do Real Convento da Ordem de S. Tiago: Clemente Monteiro Bravo."

(continuação, IV parte)

14/04/15

OS NOTÁVEIS DESACATOS OCORRIDOS EM PORTUGAL (II)

(continuação da I parte)

BREVE NOTÍCIA

Dos desacatos e roubos do Sacrário, cometidos em Portugal desde a sua fundação até ao ano 1779.

A Religião é a base, de que depende a segurança do Trono, e a tranquilidade dos povos: ela é o freio moral do coração do homem, onde não podem chegar as Leis civis, que somente podem regular, e punir as acções externas. Destruída ela, ou desprezada, serão relaxados todos os vínculos da sociedade, todos os deveres, toda a Moral; perder-se-ia a civilização, e os homens seriam reduzidos ao estado da barbaridade, e quase ao dos brutos, e das feras.

É portanto do maior interesse público, e particular de cada Reino, que a Religião seja respeitada, conservada, e defendida. É isto o que fizeram sempre todos os Políticos, e todos os Legisladores, estabelecendo, e autorizando um Culto público, e uma Religião de Estado, honrando-a, consagrando-a com sábias Leis, e defendendo-a de todos os ataques e insultos, com severas penas, que se acham estabelecidas nos Códigos de todas as Nações civilizadas.

Pela Lei das doze Tábuas todo o sacrilégio indistintamente era punido com pena capital. Esta se ficou sempre conservando entre os Romanos, no tempo da República; porém no tempo dos Imperadores se modificou nos casos menos graves, ficando conservada só nos outros.

Este sistema se tem seguido nas Legislações modernas de todas as nações, e sobretudo na nossa de Portugal, que nesta parte [neste tema] é muito severa e rigorosa (Vejam-se os primeiros cinco Títulos da Ordem. do L. 5º, e nos Títulos 14, 15, 40, e no § 4º do Tit. 60 do mesmo L. 5º).

Embora diga Montesquieu que a Divindade deve ser honrada, e não vingada, esta máxima nunca foi seguida na prática pelos Legisladores de todas as Nações; e quando tratamos de questões em Direito, devemos regular-nos pelas disposições das Leis positivas, e não pelas máximas arbitrárias dos Filósofos; e muito menos em matérias de Religião.

À vista do exposto já se vê que os crimes, que ofendem a Religião, e contêm sacrilégio, são por esta circunstância muito mais graves, tanto por sua natureza, e considerados em si mesmos, como politicamente, em relação à Sociedade Civil. São crimes de Lesa majestade Divina, que atacam o respeito que devemos à Santidade, majestade, e Real presença de Deus; mostram um indigno desprezo daquilo, que todos os homens mais respeitam, e até dos primeiros ofícios da Lei natural.

Todo o homem pois, penetrado dos sentimentos de Religião, se horroriza naturalmente com estes crimes, principalmente quando são atrozes; e o mais atroz de todos é sem dúvida o desacato, roubo, e violação dos Divinos Sacrários, chegando os agressores a profanar com ímpias e sacrílegas mãos o Augusto e Divino Mistério da Eucaristia.

A Nação Portuguesa, e os nossos Maiores, olharam sempre com horror estes sacrilégios, e deram nestes casos as maiores e mais públicas demonstrações de sentimento; distinguindo-se entre todos os nossos Augustos e Fidelíssimos Monarcas, cuja piedade e respeito para com a nossa Santa Religião formou sempre o seu distinto carácter, e de toda a Real Família Portuguesa; dando não só públicas demonstrações do seu sentimento nos actos religiosos que praticaram, mas manifestaram no maior zelo no descobrimento, e castigo dos delinquentes.

Assim mesmo estes atentados contra o Augusto Mistério da Eucaristia eram tão raros nos antigos tempos, que se passavam séculos, sem que acontecesse um só; pois desde a origem de Portugal até ao Reinado da Senhora D. Maria I contam-se os sete mais notáveis.


Em Santarém viviam uns casados pelos anos de 1266, e pela má vida que o marido dava à mulher, se queixou esta a uma sua amiga de Nação Hebreia, a qual lhe levasse a Partícula Consagrada, porque com ela lhe faria um especial remédio, com o qual obrigaria o marido a querer-lhe bem: assim o fez a pobre mulher, escondendo a Sagrada Partícula numa toalha na ocasião, em que fingiu que comungava; mas milagrosamente, quando caminhava pela rua, lhe viram correr sangue do seio, onde levava o Sacrossanto Depósito; e assustada com a novidade, em que todos reparavam, voltou para casa, e meteu o Corpo de Cristo numa arca.

Na noite seguinte viu-se a casa toda iluminada, respirando suaves aromas, e suando Angélico Cânticos. Divulgou-se o caso, e então a Santa Partícula foi levada para a Paróquia de Santo Estêvão, onde depois se achou metida numa Âmbula de cristal por mão Superior.

Até hoje se conserva incorrupta, obrando prodígios tão frequentes e públicos, que a devoção dos fiéis lhe chama por toda a parte o Santo Milagre.


(Refere este caso Jorge Cardoso no Agiológio Lusitano Tom. 3º) Aconteceu no ano de 1362 na Cidade de Coimbra, no Reinado do Senhor D. Pedro I, suposto o Autor citado o atribua ao Senhor D. João I, o que se deve reputar erro de imprensa, por que ElRei D. Pedro I reinou até ao princípio do ano de 1367, seguindo-se o Senhor D. Fernando, e depois o Senhor D. João I (Mestre de Avis), que foi aclamado Rei nas Côrtes de Coimbra em 1385.

O Vaso Sagrado foi roubado do Sacrário da Catedral da dita Cidade, com cinco Formas Consagradas, por um mancebo induzido, e comprado por um Judeu. Descobriu-se o delinquente, e foi punido com a morte. [o punido com morte foi o cristão, e não o judeu]

Fez-se por este motivo uma solene Procissão, em que o Bispo levou para a Sé as Sagradas Formas, tiradas do lugar onde tinham sido enterradas pelo Judeus. Uma Portuguesa rica, chamada Ana Afonso, fundou ali uma Capela, com uma Irmandade, e Hospital; e, para ficar em memória, lhe deu a invocação do Corpo de Deus (Ficava esta Capela nas costas do Mosteiro de Santa Cruz).


Aconteceu em Lisboa a 11 de Dezembro de 1552. Estando um Sacerdote a celebrar Missa, na Real Capela, na presença DelRei D. João III, entrou um Inglês herege, e tanto que o Sacerdote Consagrou a Hóstia, se arremessou ao Altar, e a tirou das mãos do Sacerdote, vertendo o Vinho do Cálice, que ainda estava por consagrar.

Apenas isto se observou, desembainharam os Fidalgos, e Criados do paço as espadas para matarem ao herege; mas ElRei os suspendeu, ordenando que unicamente lhe tirassem das mãos sacrílegas o Santíssimo Sacramento. Foi o réu preso, e castigado como merecia tão horrendo atentado. A Côrte, e o Reino se cobriram de luto, fizeram-se penitências, e muitas demonstrações públicas de sentimento: ElRei mandou fechar todas as janelas do Paço, e todos os Tribunais da Côrte, e até à sua morte sempre ficou conservando o luto.

(continuação, III parte)

OS NOTÁVEIS DESACATOS OCORRIDOS EM PORTUGAL (I)

BREVE NOTÍCIA
DOS
DESACATOS MAIS NOTÁVEIS ACONTECIDOS EM
PORTUGAL DESDE A SUA FUNDAÇÃO
ATÉ AGORA, E O
SERMÃO DE DESAGRAVO
PELOS ÚLTIMOS,
COMETIDOS NESTE MESMO ANO
.

Prégado na Igreja Paroquial de Santa Isabel
Rainha de Portugal,

E OFERECIDO
AO EMINENTÍSSIMO E REVERENDÍSSIMO SENHOR
D. CARLOS DA CUNHA
CARDEAL PATRIARCA DE LISBOA

POR
Fr. JOÃO DE S. BOAVENTURA
Monge de S. Bento, Mestre em Teologia,
Pregador DelRei Nosso Senhor nas Reais Capelas da Santa Igreja Patriarcal, e Real Paço da Bemposta, e Examinador Sinodal do Patriarcado.




LISBOA,
Na Impressão Régia, ano 1825.
Com Licença.



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"Erit enim tempus, cum sonam doctrinam non sustinebunt, sed ad sua desideria coacervabunt sibi magistros, purientes auribus: et a veritate quidem auditum avertent, ad fabulas autem convertentur. Tu vero vigila, in oministerium tuum imple."

Epist. II S. Paul. ad Timot. C. IV

"Virá tempo, em que muitos homens não sofrerão a sã doutrina; e não querendo ouvir a verdade, acumularão para si mestres conforme aos seus desejos, e desta sorte apartam os ouvidos da verdade, e os aplicarão às fábulas. Tu porém vigia, trabalha, préga o Evangelho, cumpre o teu Ministério."

Epístola 2ª de S. Paulo a Timóteo Cap. IV



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Eminentíssimo e Reverendíssimo Senhor,

alguns Portugueses honrados, a quem o zelo da Religião inflama, e que com verdadeiras lágrimas de amargura têm ouvido a história de tantos, e tão repetido desacatos, cometidos contra o Santíssimo e Diviníssimo Sacramento dos nossos Altares, me instáram que publicasse pela imprensa o Discurso, que preguei em desagravo à Divina Majestade ofendida na sua mesma Real e Adorável Presença. À vista do que me resolvi desde logo a dedicá-lo a V. Eminência, a quem cordialmente respeito e venero, e a quem os Portugueses, amantes da Religião e do Rei, reconhecem, e adoram como contraste da impiedade, modelo dos Bispos, exemplo da firmeza e constância Pastoral, e um Prelado digno dos primeiros séculos da Igreja.

Se Jesus Cristo foi desacatado e ofendido na sua mesma Divina e Real Presença por malvados e iníquos profanadores; V. Eminência, como verdadeiro Pastor, e Defensor da Igreja, foi ofendido e ultrajado pela mão da impiedade, e falsa filosofia do século.

Para desagravar a Jesus Cristo nós lhe ofereceremos nossos corações cheios de Fé, nossas lágrimas, nossas adorações, nossos cultos, e protestamos reconhecê-lo, e adorá-lo realmente presente no Augusto Sacramento dos nossos Altares: para desagravar a V. Eminência basta o testemunho público, com que o mundo Católico reconhece a firmeza de V. Eminência; e para dar-lhe uma pequena prova do cordial afecto que lhe consagro, e do quanto me interesso no bem da Religião, e no extermínio da impiedade, respeitosamente ofereço a V. Eminência uma breve notícia dos desacatos mais notáveis, cometidos contra a Divina Pessoa de Jesus Cristo, desde a fundação de Portugal até ao presente, e igualmente o Discurso que preguei em desagravo do mesmo Divino Senhor, pelos últimos e nefandos atentados que neste mesmo ano se perpetuaram contra os Senhor Sacramentado.

Na história dos desacatos verá V. Eminência quanto a Fé dos Portugueses, comparada com os antigos tempos, ter enfraquecido e vacilado, pelo império quase absoluto que a impiedade, e filosofia do século tem estabelecido no meio de nós: e no Discurso de Desagravo, conhecerá com verdade que com tantas, e tão repetidas profanações dos Lugares Santos, e do mesmo Deus, nem a Fé dos Portugueses pode vacilar, nem a filosofia do século triunfar.

Queira pois, Eminentíssimo Senhor, receber benignamente esta pequena oferta, que, não sendo uma pena eloquente, é dedicada por um coração (ainda que pecador) com tudo fervoroso, e cheio de Fé. Deus conserve a vida de V. Eminência por dilatados anos para honrar a glória de Deus, e satisfazer dos verdadeiros Portugueses, como cordialmente lhe deseja, quem é

de V. Eminência

Súbdito e Orador constante

Fr. João de S. Boaventura.

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(continuação, II parte)

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