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10/09/17

RESUMO DA ILUMINISTA NOMENCLATURA "ABSOLUTISMO" (I)

Juan Prada
Alguns dias antes da publicação completa do artigo "El Legado de Lutero", troquei rápida informação com o seu autor Juan Manuel de Prada. Logo depois o artigo foi publicado na íntegra (na página de Facebook o autor tinha perviamente publicado duas metades do artigo, uma após a outra). Portugueses (na melhor das hipóteses distraídos) que nunca divulgaram bons textos dos nossos grandes nomes do anti-liberalismo e anti-maçonaria (Fr. Fortunato de S. Boaventura, Pe. Agostinho de Macedo, Pe. Alvito de Miranda, etc.) desataram a difundir o malabarístico artigo, o qual tinham também recebido por mail (correspondendo a algum pedido de divulgação!?). Portanto, estava a coisa organizada, que em dois ou três dias já várias páginas tradicionalistas de língua espanhola estavam com a divulgação feita (velocidade pouco acostumada). Na associação Causa Tradicionalista houve gente bastante empenhada, e animada, que por todo o lado fizeram difusão (como se de água para o maior dos desertos se tratasse)! Mas... para qual tão enorme fim todas estas forças convergiram, e assim tão especialmente!?

Com grande artifício e linguagem cativante o artigo esforça-se por ensaiar uma ponte entre o "absolutismo" e o Luteranismo; certamente não serviu para fazer ver o quão mau é o Luteranismo... [se tiver tempo e ânimo, e achar que vale ainda a pena, tentarei fazer uma análise ao artigo em questão, e darei o contexto em que tal obra nasceu], nem para fazer ver a inegável relação do Luteranismo com o Liberalismo. Certamente, teria sido mais proveitoso, verdadeiro e simples espelhar a inegável e abundantemente documentada oposição dos "absolutistas" aos "liberais"; e, pelo menos em Portugal a oposição dos "absolutistas" contra o Liberalismo, a Maçonaria, e a heterodoxia! Portanto, é estranha aquela ginástica.

Que tinha eu falado àquele autor? Apresentei-lhe em caixa de comentários alguns factos históricos portugueses, suficientes para fazer ver que a palavra e conceito "absolutismo" não são historicamente fiáveis etc.. Dei-lhe então boa sugestão que lhe permitisse no caso melhorar o artigo, sem ter que retirar coisa alguma ao texto original. Com um público que com os livros comprados ao autor seguem, Juan Manuel de Prada terá tido motivos redobrados para dar a curta reposta que deu (e não a apresento aqui), e não fazer melhoria ao artigo.

DR. Miguel Ayuso
Ontem revimos um vídeo de um outro espanhol agora mui recrutado (na tentativa de maquiarem a associação Causa Tradicionalista); seu nome: Miguel Ayuso. Especificamente, nos pontos em que o Carlismo discorda da Tradição lusa fiquei com a sensação de que o malabarismo talvez seja um talento espanhol. Com as boas e certas afirmações de Miguel Ayuso há também de outra coisa, portanto. O que diz ser o "absolutismo"? Em suma, responde mais ou menos que é tudo aquilo que os Carlistas consideravam mau, e atribuível na época! [outro assunto que merecerá especial atenção e publicação].

Não pretendemos desagradar a estas duas figuras públicas espanholas (saudações cordeais para ambos). Está em causa a Tradição lusa, nossa, que não depende das linhas intelectualistas nascidas no séc. XIX/XX, em parte com orientação activista, modernista, historicista, etc.. Compete a cada qual defender o que lhe pertence defender, e isso temos feito.

O assunto "absolutismo" não é da responsabilidade daqueles ou de outros autores e palestrantes: é algo muito abrangente, transversal, que se torna bastante simples quando desamarrado dos interesses de grupos, correntes, e movimentos vencedores ou sobreviventes. Aos anos que fazemos a  desmistificação do conceito e palavra "absolutismo", criação primeira dos ciclos Iluministas-liberais-maçónicos. A linha tradicionalista espanhola tem esta palavra/conceito trocados a meio percurso. Ao contrário dos activistas desargumentados quiseram sobre nós difundir, quem nos tem lido sabe que nunca defendemos o "absolutismo", tanto que os próprios autores que recomendámos aceitaram ser chamados "absolutistas", "corcundas", por oposição ao Liberalismo, sendo que davam o "absolutismo" como não existente; nada de novo que em Portugal não tenham dito desde o séc. XIX.

Quando no blog ASCENDENS costumamos dizer coisas que pouco agradam aos espanhóis, é naquilo que toca às interpretações menos correctas relativamente a Portugal. É estranho que na associação Causa Tradicionalista não se procure fazer o mesmo. Estamos a falar de uma OBRIGAÇÃO; não é facultativo aos portugueses que seguem o mandamento de "honrar pai e mãe, e outros legítimos superiores", do qual por extensão se retira o dever pátrio, não defender Portugal quando os dados históricos o possibilitam. Mas, verdade seja dita, são raros os que se encontram preparados nestas matérias, o que desculpa. Por outro lado nós operamos quando temos certeza (caso contrário apresentamos aviso) e estamos seguros em provas (ex: isso mesmo faço no vídeo LIVROS II (parte A), o qual publiquei a 30/08/2017, ao apresentar o segundo livro, e sei que a exposição de provas não agradou aos tradicionalistas espanhóis, aos quais conheço de um modo geral - nem houve motivos para grande agrado).

(a continuar)

22/03/17

"A VERDADE" - II - O Ignorante Avilta, e Não Define o Homem

II
 
O Ignorante Avilta o Homem, Porque o Não Sabe Definir
 
Muitos génios, para se mostrarem Filósofos [Iluminismo], no século que expirou, com a mira de apagarem a ideia de Deus, que é por si mesma indelével, procuraram degradar o homem, aviltá-lo, e confundi-lo com os animais tão diversos da sua espécie. Disseram que era uma pura quimera a liberdade [verdadeira liberdade], a espiritualidade, e a imortalidade da alma. Aos olhos destes orgulhosos o homem não é, mais que uma porção de matéria organizada, a qual vive, sente, e pensa em virtude de sua mesma organização. Entre o homem e o bruto, que os distinga mais, do que o do maior, ou menos instinto. Quando a organização se desconcerta, e destrói, e cessa sua actividade, cessam então as operações do homem. Então deixa o homem de existir, e depois dele não fica mais, que um confuso resto de matéria. Quem se não sente abrasar de indignação, e cólera escutando máximas tão extravagantes? Eis-aqui a nova Filosofia empenhada em fazer que o homem seja um bruto, a despeito de íntimo sentimento, que a todos faz conhecer a própria imortalidade. Filósofos rivais de Circe: sonharam os Poetas que esta Fada, filha de Jove, mudara a Scylla num monstro marinho, e os companheiros de Ulisses em várias espécies de animais imundos. Antes sofrermos esta metamorfose, observemos se naturalmente conste que a alma seja livre, seja espiritual, e seja imortal. Para chegarmos à demonstração mais fácil desta verdade, não abusando da razão, examinemos como se haja definido o homem em estado natural. O homem nasceu para a sociedade, e não para os bosques, e foi destinado a viver com os seus semelhantes, não de qualquer maneira, mas em ordem, em tranquilidade, em comércio: todos os socorrem em suas precisões, como ele tem também a índole, e a tendência de socorrer os outros.

Se a sociedade foi sempre um caracter essencial à humanidade, com razão se devem chamar desumanos pensadores aqueles, que se fingiram o homem material, e só superior aos brutos pela capacidade, e sociável por conveniência, ou por convenção de encontrar um repouso ideal! Imaginar homens selvagens, é supor seres degenerados do natural instinto de homem, que vivem contra a sua destinação; homens, que são a ruina, e degradação da espécie humana, mas que o simulacro vivente de sua infância. Séneca, indignado contra os que loucamente filosofando sobre a natureza do homem o aviltavam para o definir, e o comparavam ao bruto; Tirai, lhe diz, a sociedade, vós destruireis a ideia que temos da sapiência, e santidade do Criador, nem se podem combinar de modo algum com a ideia que temos da sua bondade. Que deverá pois dizer a Revelação para satisfazer o humano entendimento? Eis aqui como se explica: Se o homem é tão infeliz, é preciso dizer que há algum delito, que o torna culpado desde seu nascimento, e que haja viciado sua mesma origem, e pelo qual seja condenado aos diferentes géneros de penas, e misérias, a que se chora sujeito. Sem isto não se conheceria a bondade do Criador. Não é mais que o Dogma do pecado original, que nos subministre o meio de resolver tão grande dificuldade. A razão nos subministra luzes para presumimos este dogma, e a revelação o desenvolve clarissimamente. Deus criou o homem recto, e num estado de natureza sublimada pela graça; a inocência, justiça, e isenção de todos os males teriam sido suas propriedades: este homem assim enobrecido desobedeceu a Deus pelo pecado, e nenhum instante se corrompeu a natureza. Fica envolto na ignorância, fica assaltado da fraqueza, e enfermidade; teve nele preponderância a inclinação ao vício, e foi estipêndio de seu pecado a mesma morte, a que ficou irrevogavelmente sujeito. Desta arte a Fé instrue a razão, e amestrando o Filósofo, lhe ensina a resolver as dificuldades, que em vão com o próprio entendimento procuraria destruir.

(índice da obra)

02/07/15

REFUTAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DOS PEDREIROS ILUMINADOS (V)

(continuação da IV parte)

CAPÍTULO V
Se à Pública felicidade contribua mais a Filosofia dos Iluminados, se a Religião.

deus Razão
Os Pedreiros produzem sobre isto o sentimento, o facto, e a razão. Ora sofreram em paz que eu contraponho sentimento a sentimento, facto a facto, e razão a razão. O vosso primeiro sentimento, a vossa primeira persuasão é esta, que a Religião se ajusta pouco à felicidade pública. Eu respeito como devo a vossa autoridade, mas observai, eu vos rogo, uma coisa estupenda. Os Minos, os Licurgos, os Prtágoras, os Sócrates, os Platões, e tantos outros deste carácter, que não eram por certo nem Clérigos, nem Monges, nem Frades, mas que eram Políticos, eram Filósofos, eram Príncipes, eram legisladores, todos eles eram de sentimento oposto, e contrário ao verso, e de tantos homens prudentíssimos, e sempre desejosos do bem público, não houve um só que introduzisse em sua República a irreligião, ou descoberta, e patente, como fazem os Ateus, ou coberta, e embuçada como vós o praticais. Não houve um só de tantos homens famosos, que não constituísse por primeira base de um bom governo aquela mesma Religião, que vós teimosamente rejeitais, quero dizer, Religião fundada sobre a divina remuneração e Providência. Trocava pois a um Epicuro, homem novo no Mundo, e tão alheio dos públicos negócios, como os seus Deuses, e tocava a seus Secretários, com ele tão cabalmente parecidos, iluminar sobre um objecto tão essencial os primeiros homens do Estado, os primeiros sábios, os primeiros legisladores! Grande e estranhíssimo paradoxo! E vós, Iluminados, que tanto procurais engrossar, e reforçar o Exército Epicureu, quem sois? "Homens iluminados, e iluminadores." Sim, isso sabia eu; mas nunca julguei que vos pudésseis medir com as personagens que vos acabo de nomear, exemplos de experiência, de sabedoria, e honrada humanidade. Vós não quereis a Religião como uma coisa prejudicial ao bem público, aqueles pelo contrário, queriam a Religião como uma coisa útilíssima ao bem público. Qual destes sentimentos seja o mais digno de fé, e de apreço, nós o poderemos julgar pelo carácter dos indivíduos, uns Legisladores dos Povos, outros Subvertedores das Sociedades.

Não nos esqueçamos desta primeira parte do paralelo, e avancemos o passo para a segunda muito mais sólida, porque se trata de facto. Em coisa nenhuma são os Iluminados tão eloquentes como em expor os males ocasionados pela Religião. Dirão, com uma erudição espantosa, o que se tem passado no mais recôndito gabinete do Imperador do Mogol, o que se acha dito no conselho privado do Kan da Tartária: nem os obrigue ninguém a lhe produzir os documentos autênticos; tudo é certo, porque só eles o sabem: conservam um copioso depósito de historietas nunca vistas, que se chamam, há pouco tempo, anedotas; sabem mui bem servir-se delas, fazendo com tais notícias, não imagens, mas grotescos da Religião. Não devo perder tempo, combatendo, em tais factos, o muito que neles tem que combater a crítica discreta, e luminosa; nem quero examinar se os verdadeiros males hajam nascido da Religião, ou de algum erro acidental, e particular em matéria de Religião; se hajam nascido da Religião, ou de alguma paixão debaixo do pretexto de Religião; nem quero, outro sim, queixar-me da torpe injustiça de atribuir à Religião em geral, o que é vício de alguma Religião em particular, e, o que é ainda muito pior, de atribuir o vício de uma Religião que o aprova, a outra Religião, que o condena: esqueçamo-nos de tudo isto, e considere-se em si mesma a Religião São acaso muitos, grandes, e horríveis os males, que ela ocasionou? Sejam; eu não contesto um só; mas digam-me os Iluminadíssimos Pedreiros, são mais os males que a Religião causou, ou os que ela impediu? São maiores os males que ela trouxe, ou os bens? É preciso que insistamos nisto para decidir com prudência, se a coisa é útil, ou nociva. Se consideramos os males que acontecem, sem mais nada, que coisa pode haver que se não possa reputar nociva? Quantos estragos tem causado o ferro, e quantos incêndios devoradores o fogo? Este mesmo Céu visível, e mataria, se nos lembramos unicamente dos tufões, dos dilúvios, dos temporais desfeitos; este Céu, que é a honra, e a salvação da Terra, nos parecerá por certo o luto, e o extermínio da mesma Terra. Logo, para julgar das coisas direitamente, se devem balançar os males com os bens, e se se comparam os males com os bens causados pela Religião, que juízo devemos fazer da mesma Religião?

Eis aqui sobre esta matéria dois factos inegáveis, segundo entendo, e por si mesmo: decisivo: o primeiro, que a despeito e todos esses males, ou verdadeiros, ou imaginários, em todos os estados a Religião se tem conservado imóvel, estável, inconcusa, e permanente. Ficam leis abolidas, abolidas as modas, abolidos os costumes; e se alguma vez variou a Religião, nunca foi inteiramente abolida. Os mesmos Políticos mais irreligiosos quiseram sempre em público alguma Religião, temendo que sem ela se subvertesse a sociedade humana. É preciso concluir que a Religião, até politicamente considerada, é um grande sustentáculo dos Estados.

O segundo facto ainda é mais decisivo, pois se observou não só uma vez, mas inumeráveis vezes, quero dizer, a Religião esplendidamente ligada com a felicidade pública Falarei do antigo Egito, tão celebrado por sua glória, e riqueza, como por sua Religião? Quem não conhece a antiga Creta, e a antiga Esparta, ambas conhecidas por sua diuturna felicidade? E quando lhes começou esta felicidade? Quando ambas foram consagradas pela Religião! E quem o disse? Um Filósofo, e talvez o maior que existira entre os Gregos, Sócrates: assim o vemos no Diálogo de Platão intitulado Minos. Eis aqui suas palavras convertidas em latim pelo grande Marcilio Ficino: "Creta per omne tempus est feliz, ac etiam Lacedemon, ex quo iis legibus, utpote divinis uti coepit." E qual foi o tempo em que mais floresceu a Pérsia, Atenas, e Roma? Não foi a primeira no tempo do grande Ciro, a segunda no de Aristides, e a última no de Fabrício até ao Menor Africano? Foram verdadeiramente aquelas as idades de ouro, não, quais vós a imaginais, sem censor sem leis, sem temores, mas idades cheias daquela Religião a quem vós chamais tirania, a qual senhoreava não só espírito dos povos, mas o dos mesmos Soberanos. Apélo para a fé da mais autorisada Histódia: Heródoto, Xenofonte, Políbio, Tito Lívio, C. Nepote andam pelas mãos de todos. Se acabou a felicidade e se extinguiu o a fé pública, e particular, se as dignidades se tornaram veniais, e se transformaram em públicas oficinas de latrocínio, se os Tutores do Estado se fizeram traidores, se, alterada a ordem, perturbado o repouso, quebrada a paz, os Cidadãos voltaram o ferro contra as entranhas da mãe comum, qual foi o motivo? Ouvi, Iluminados, um Epicureu ilustre, tantas vezes escarnecedor satírico da sua Religião, e depois acusador acerbo da irreligião que conheceu tão funesta à sua Pátria, Horácio, o qual, confundido, e magoado à vista de tantas desgraças que oprimiam a sua  Pátria, exclamava: "Para que nos admiramos da aluvião, que nos inunda, se, despedaçado o dique, já não há medo, nem respeito aos deuses? E de que maneira poderemos reparar os danos que nos flagelam? Em vão o esperas, ó Roma, (continua o convertido Poeta) em vão o esperas, se primeiro não espiares os ultrajes feitos aos Numes." Que mais? O grande Lírico, com força, e sublimidade digna do argumento, não duvida atribuir à Religião toda a passada prosperidade, e de inculcar, e criminar a irreligião das presentes desventuras. Epicureus, e Iluminados que respondeis a este Epicureu, a este Romano iluminado?

Chama-me agora aquele interprete, General, e Censor, o grande Bayle, o qual tem a ousadia de afirmar, que em quanto ao externo viveria uma Comunidade de Ateus do mesmo modo que vive uma Comunidade de homens que professam Religião. Se isto fosse verdade, ó Iluminados, seria falso o que afirmais, que a pública felicidade não se pode concordar com a Religião. Se a vida é a mesma, porque não será a ventura também a mesma? Mas Bayle diz, que seria o mesmo viver; e como o prova? Onde estão os factos, e factos dignos, conspícuos, e autorizados? Eu tenho produzido a favor da Religião, os Egípcios, os Cretenses, os Espartanos, os Persas, os Atenienses, os Romanos; citei os legítimos testemunhos, e posso produzir factos, e testemunhos ainda mais solenes. Onde guarda Bayle seus factos, e seus testemunhos? Decaíram acaso os Romanos do tempo de Horácio juntamente com a Religião? Onde estão os Hotentotes, os Caraíbas, os Topinambás, ou outra qualquer raça de gente, conhecida apenas quanto baste para excitar a nossa compaixão? Dir-se-há que Bayle para prova do seu dito, tem da sua parte a razão? Mas eu respondo, que se exigem factos, e não razões; os factos, cuja linguagem é mais sensível, e mais conveniente; e acrescento, factos de grandes populações inteiras, quais são os que eu alego, e produzo. Que poucos homens escolhidos, conformes de génio, concordes em ideias possam por algum tempo viver civilmente sem Religião, isto não é o ponto aqui controverso; mas um povo sem Religião, se se acha, só poderá ser no meio da mais bestial barbaridade, qual não viu, ou não fingiu Fernão Mendes Pinto. Aí se achará então a idade do ouro, aí a preconizada felicidade, e quem por ela tanto suspira, vá tranquilamente habitar no meio deste povo. Mas já que me provocam ao campo da razão, de bom agrado entro neste campo, pois é confirmadora do facto; e juíza do sentimento. E que grandes objectos devemos tratar! O princípio, a essência, os meios, e os modos da pública felicidade.

(a continuar)

REFUTAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DOS PEDREIROS ILUMINADOS (IV)

(continuação da III parte)

CAPÍTULO IV
A Religião Conduz Mais Para a Felicidade Humana que a Filosofia dos Iluminados

Os Pedreiros, segundo eles dizem, são os únicos depositários a verdadeira, e sólida felicidade, e bradam que ninguém a pôde encontrar fora da sua escola. Eu me alegro muito com eles por tão ditosa sorte! Mas é preciso que me digam, se estão bem seguros que felicidade seja esta, onde, e como exista? Sobre este objecto, eu descubro como envoltos em sombras os mais famosos Filósofos, incertos sempre, e sempre discordantes. Epicuro decide tudo, e com ele os Pedreiros tudo decidem, limitando, e circunscrevendo esta felicidade à presente existência; e parecendo-lhe que esta vida só se pode tornar agradável debaixo dos auspícios da sua Filosofia, inferem que para a felicidade é propícia a mesma Filosofia, e que lhe é contrária a Religião. Mas que discorrer é este? Que sabe, exclama o Filósofo, e Poeta Eurípides, se esta vida é morte, e se a morte é uma verdadeira vida? Falemos mais claro. E se existir para nós uma outra vida, e um outro Mundo, onde um Supremo Senhor potentíssimo, que se chama Deus, encher os que o amam, e temem de bens de outra natureza que não são estes que aqui se sentem, e acumular seus ultrajadores, e inimigos, de penas gravíssimas; como, não só Jesus Cristo, mas Tales, Pitágoras, Sócrates, e Platão, e outros Filósofos gravíssimos imaginaram, e julgaram; onde iria topar aquele raciocínio? Onde terminaria, limitando tudo ao tempo presente, onde a felicidade é tão breve, incerta, e precária, como nos mostra não só a Filosofia, mas a quotidiana experiência. Não seria nosso proceder mais imprudente que o dos mais imprudentes meninos dados todos a pueris divertimentos, para caírem depois na idade madura na desonra, e na miséria? É possível que vós tão iluminados e tão sábios, vos entregueis de todo o coração a estas ninharias, sem curar de coisas tão sérias que ainda devem existir?

"Mas a Religião é pesada, e incómoda!" Grande razão, grande coartada! Também para o menino é pesado e incómodo o estudo das boas artes, e lhe são mais agradáveis seus brincos e pueris ocupações; e porventura são para ele felicidade estes brincos, e passatempos? Muito má seria a escolha de rir alguns dias, para chorar depois por muitos meses, e anos. E quem vos diz, ó Iluminados, que esta sorte não seja a vossa? Deixemos esta grande questão, e pois quereis com Epicuro, que nos façamos de alguma maneira meninos, restringindo-nos à felicidade do tempo, e lugar presente, consideremos as pinturas que nos fazeis tanto de nossa Religião, como da vossa Filosofia. A nossa Religião, como já disse, legisladora, e remuneradora das acções humanas, é para vós uma tirania imperiosa, que perturba o espírito, agita a fantasia, inquieta o coração, enche-o de terrores, e o impele e move a acções furiosas, e inumanas, e vós, muito melhor que Epicuro e que Lucrécio, correis a terra, e os mares para fazer uma colheita de quantas extravagâncias, maldades, e atentados se executaram por motivo de Religião, e concluís com o nobre epifonema de Lucrécio: "Tantum Religio potuit suaere malorum!" E entre tantos males poderá haver felicidade? "Logo (continuam os Iluminados), sacudido o jugo desta tirania, tudo será suavidade, e repouso; que ditosa sorte é não ter que pensar mais que nessa terra, e nesta vida! Nós podemos meter debaixo dos pés tudo quanto se nos diz existente além da vida como outros tantos sonhos de enfermos, ou loucas ficções de romances. Peguemo-nos só a este terreno que se nos deu para habitação, e façamos que nele domine a iluminada, e iluminadora Filosofia; ver-se-há à sua sombra renascer a idade de outro, e idade da alegria, e da tranquiliza paz, sem censor, sem leis, sem temores.

Eis aqui os medos com que muitos se apartam da Religião; e eis aqui os atractivos com que tantos se deixam enredar nos laços desta Filosofia, como os companheiros de Ulisses com o canto das Sereias; mas só a chusma incauta se deixa fascinar destes sons lisonjeiros; os Ulisses, e os verdadeiros Filósofos não são de tão bom paladar; escute-se por todos, escute-se não um Padre, um Pastor, um Doutor da Igreja, mas um Político, um Orador, um Filósofo do Paganismo, um Pai, e conservador da Pátria, um Luminar claríssimo da maior República que existiu, um Marco Túlio Cícero, que levanta a douta, e livre voz contra as fascinações Espicúrias: "Que Filosofia é esta que se nos apresenta com tantos atrativos? Promete fazer-me em um instante bem-aventurado; porém que traz ela consigo que seja feliz, e glorioso? Quid habet ista res auto laetabile aut gloriosum?" Palavras de grande, e profundo sentido, e que expedidas darão um decisivo golpe na tão preconizada Filosofia. E o terrível aspecto e que se representa a Religião, não é uma caricatura enorme, ou uma horrível submersão? Considerem os Pedreiros o que dizem, e verão que nos insinuam, que o homem deixado a si só é felicíssimo, mas que perderá repentinamente esta felicidade, uma vez que fizer entrevir a Divindade nas coisas humanas.E não vos horroriza esta proposição? Como! Pois a Providência de Deus é a infelicidade do homem? O homem não poderá ser feliz, se Deus não for ocioso? O Ente que é por essência óptimo, e perfeitíssimo, é um péssimo Regedor do que ele mesmo criou? Podeis chegar a blasfemá-Lo tanto, que indirectamente lhe chameis crudelíssimo Tirano, chamando tirana a Religião que de um Deus tira sua norma, e existência? Ideia horrível da Divina natureza, ou mais depressa estranha ideia de humana felicidade! É preciso que tão grave matéria se exponha em maior luz, e já que é de dois modos a felicidade que se nega à Religião, e se atribui à Filosofia, quero dizer, a felicidade pública, e a felicidade particular, comecemos o exame, e confrontação da primeira para abrirmos passagem à segunda. Como, e porque meios seja o homem feliz, ou desgraçado, são coisas que cumpre muito saber, e é muito nocivo ignorar.

(continuação, V parte)

18/06/15

REFUTAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DOS PEDREIROS ILUMINADOS - Índice

REFUTAÇÃO DOS PRINCÍPIOS METAFÍSICOS,
E MORAIS DOS PEDREIROS ILUMINADOS
Autor
Pe. José Agostinho de Macedo




ÍNDICE

- Prefacção
- Cap. I - A Filosofia dos Iluminados não é Original, é Cópia;
- Cap. II - Paralelo da Religião de Epicuro com a dos Iluminados;
- Cap. III - São ilusórias as desculpas dos Iluminados;
- Cap. IV - A Religião conduz mais para a felicidade humana que a Filosofia dos Iluminados;
- Cap. V - Se a pública felicidade contribua mais a Filosofia dos Iluminados, se a Religião;
- Cap. VI - De qual das partes esteja a razão a respeito da proposta felicidades?;
- Cap. VII - Se para a verdadeira felicidade seja bastante a humana política sem a Religião;
- Cap. VIII - Sobre deixar a Religião ao povo, e deixar para os outros a Filosofia, e filosóficos motivos;
- Cap. IX - Sobre a felicidade prometida pelo Iluminismo;
- Cap. X - Sobre a Religião Natural, e Cristã;
- Cap. XI - Sobre as oposições dos Iluminados contra a Religião;
- Cap. XII - Se seja mais conducente para a privada felicidade a Filosofia dos Iluminados ou a Religião, especialmente a Religião Cristã;
- Cap. XIII - Sobre o prazer que a Filosofia dos Iluminados nos promete;
- Cap. XIV - Sobre os deveres que a Religião impõe, e a liberdade que a Filosofia promete;
- Cap. XV - Sobre terrores da Religião confrontados com a tranquilidade Filosófica;
- Cap. XVI - Sbre os dois atendíveis tempos a respeito da tranquilidade ou contentamento anunciado;
- Apendix - Extrato de um projecto de Revolução, composto pelo Conde Mirabeau, apanhado em casa de Madame Gai, por Le Grande seu doméstico, e vendido a Mr. Houle, Oficial no Regimento de Dragões da Rainha, impresso depois com os outros escritos do mesmo género com o título "Mistérios da Conspiração".

05/06/15

A CONTRA-MINA Nº 2: Cruzada dos Povos Contra a Maçonaria (II)

(continuação da I parte)

Quem disse, ou prometeu a essa grei de estouvados, e furiosos, que hão de ser bem sucedidos nesta, como guerra, dos gigantes, que pretendiam escalar o Céu.... Acham toda a Europa vigilante, e preparada, e nestas circunstancias é, que se lisonjeiam de um infalível triunfo!.. E porque lhes não servem de escarmento as lições do passado? Que intentassem desentronizar os Reis, quando não havia a experiência de uma Revolução, como foi a de 1789, era sim arrojo temerário, porém não faltaria nesse tempo, quem os acreditasse, e que se deixasse embaír de suas esplêndidas, mas fraudulentas promessas! mas que sendo geralmente conhecidos pelas suas façanchas, que achando-se estampados os títulos da sua condenação nos Monumentos destruídos os títulos da sua condenação nos Monumentos destruídos pelo Vandalismo Pedreiral, que fica muito acima dos seus modelos, nas Nações empobrecidas, e aniquiladas, e em os progressos da imoralidade, que se estende com uma rapidez incrível por todos os lugares, onde bafejar o maçonismo, queiram assim mesmo, teimem, e porfiem na projectada regeneração, ou total perdição do género humano, é coisa que me espanta, e me confunde ao mesmo tempo, que me convence perfeitamente de que é insondável a malícia, e perversidade do coração humano?

Nenhum destes Gracos modernos tem a força necessária para dizer a uma Revolução "hás de conter-te nos limites, que eu muito quiser, e não te será dado excedê-los" e por isso temos visto, que os Demagogos mais queridos do Povo, cujos melhores interesses eles se diziam promover, acabam ordinariamente à maneira dos Gracos, isto é, feitos em postas pelo mesmo Povo, a quem desencaminharam, e seduziram.

É pois uma verdade assaz conhecida, e mui bem demonstrada pela história das Revoluções antigas, e modernas, que os seus autores bem longe de conhecerem o fruto desejado, que é a mudança de fortuna, são engolidos no próprio vórtice, que eles prepararam, e dirigiam... Sabendo-se isto perfeitamente, donde vem, que os Pedreiros Livres não cuidam, nem pensam em outra coisa, que não seja fazer revoluções, e mais revoluções? Porque não deitam os olhos a outra coisa mais, que à facilidade, com que os seus companheiros de armas têm subido ao cume das grandezas em tempos de revolução, e porque no meio da sua obstinada cegueira, não se lembram da Sentença de Horácio, que é aplicável a tantos homens, e a tantas coisas, e vem a ser "que o cabeço das montanhas está mais preto do raio, que o fundo dos vales."

Quanto melhor não teria ido aos Mações Portugueses, se fazendo tréguas com o espírito revolucionário, que de contínuo os move, e os agita, fossem vivendo tranquilos, e ainda que não contentes ao menos sossegados! É todavia o que eles não tem, nem podem ter na sua mão.... Tanto que sopra algum vento favorável, e aparece na Cidade das Revoluções um Carriço, que para guardar a sua patente de Coronel interessa, em que se faça dentro em poucas horas uma Revolução..... ei-la feita a pedir de boca, e padeça quem padecer, ou siga-se uma aluvião de males, que ainda seria maior, se o Povo Lusitano já com os olhos abertos, não tivesse enxotado os seus pretensos Regeneradores.

Enfim, o mais rústico dos nossos paisanos conhece, que não há Seita pior, que a dos Mações, e que ser governado por eles é o máximo de todos os males; e persuadem-se os tais heróis, que puderam enganar a seu salvo os Reis da Europa, e que não terá lugar uma Cruzada para o extermínio da Seita? Oh se há de ter! É exigida, e mui fortemente pela necessidade da própria conservação do Mundo, e por consequência há de existir, e acabar de uma vez com os Pedreiros Livres, sob pena de caírem por uma vez todos os Tronos da Europa, e de se trasladar o inferno para a terra, pois a terra assenhoreada pelos tais filhos da Luz, que outra coisa seria mais que um vivo retrato daquela morada de horror, de confusão, e de tormento..?

E serão acaso destituídas de fundamento as minhas conjecturas? Deitemos um volver de olhos ao que tem feito os principais Gabinetes da Europa nestes últimos tempos, relativamente ao Maçonismo. A Casa de Áustria levou até demonstração a existência de um plano, traçado pelos Carbonários de Itália, de inteligência com os de Alemanha, pelo qual se resolvia não só esbulhar o Imperador dos seus Estados da Itália, mas dividir-lhe, retalhar-lhe o Império todo em pequenas fracções, ou Repúblicas, o que é muito do gosto Maçónico, para terem cópia de Lugares, em que acomodem a bicharia dos Irmãos vadios, parasitas, e sem emprego. A Prússia bem ensinada pelas suas desgraças, também acordou a tempo, e achou, que as Universidades eram o ponto de reunião, em que a Maçonaria despregava o seu poderio, e incansável actividade.... Havia professores, cujo verdadeiro emprego era o de fazerem grandes recrutamentos para a Maçonaria. Um deles foi o decantado Professor Jahon, e cuja residência foram achados papeis da maior consequência, e um avultado número de punhais, com a Letra Ornato do Cidadão, e talvez mui parecidos com esse, que de ordem da Sociedade Teutónica atravessou o coração do célebre Kotzbue. Mostrou-se evidentemente por esta ocasião, que grande é o perigo das Sociedades Secretas, pois uma, que principiara debaixo da influência, e protecção da tão formosa, como desgraçada Rainha da Prússia, e que dirigindo-se inteiramente a quebrar os ferros, que o Corso Bonaparte havia lançado aos descendentes de Frederico II, por isso era denominada "a união da virtudes" pelo andar do tempo degenerou, e seria o fatal instrumento da escravidão da sua pátria, se lhe não cortassem os voos... Na própria Dieta Germânica se traçaram eficazes providências, para se atalharem completamente os danos do maçonismo, que já tinha urdido a sua costumada teia, quero dizer, Toda a Alemanha República, mas dirigida por uma Sociedade Central, ou Areópago, donde se repartissem as Luzes por toda a Europa.... Falta-me a Rússia, e ainda me falta o melhor. É voz constante, que a Maçonaria foi levada para este Império pelos Oficiais, que fizeram as Campanhas da França em 1814, e 1815; porém o Club, ou Loja de Martinista, erigido em Moscovo pelo famoso Príncipe de Repniw, logo depois da conclusão dos Preliminares da Paz entre a Rússia, e a Porta a 11 de Agosto de 1791, é alguma coisa anterior a 1814, e o caso é ter-se descoberto, que os Irmãos, filhos da Luz tratavam mui seriamente de desentronisar a Imperatriz Catarina II, que fazendo nesta ocasião, e magistralmente, como era do seu costume, o papel de Soberano, fez prender os Sócios, e castigá-los em proporção de seus delitos sendo a menor pena o desterro para a Sibéria.... Perdoem-me os Sábios deste Reino esta digressão, pois como escrevo só para o me adorado Povo de Deus, ou Povo Lusitano, é do meu interesse, que ele fique sabedor de todas estas miudezas, e não vá por aí dar crédito aos Palinuros, que dão a Rússia, por isso mesmo, que está longe, como se fosse uma Aliada firme do Maçonismo, que a tanto chega, como eu já vi, a estranha audácia de tais noveleiros, e impostores. Ainda há bem poucos anos deu a Rússia uma Caçada Geral aos Pedreiros Livres, e foi o Imperador tão bem servido pelos seus Ministros, que se chegaram a descobrir todas as ramificações da Seita, que levou um corte, de que ainda não há exemplo nos outros Reinos da Europa.

Daqui se vê mui resumidamente, e é o que basta para os meus fins, a disposição actual dos Gabinetes da Europa, e o favor, que a Maçonaria deve esperar de todos eles. Estão os Reis certos, e certíssimos, que o Espírito Revolucionário os designa como o primeiro alvo das suas fúrias; e havemos de crer, ou imaginar que se tornem umas estátuas impassíveis, e que já nem tenham ao menos olhos, para verem, que a desgraça de Carlos X, é uma lição, em que eles devem aprender a terrível sorte, que os ameaça, assim como a necessidade de empregarem todas as suas forças, para esmagarem de tal arte o maçonismo, que nem sequer lhe fiquem restos de vida, ou a mínima sombra de esperanças para o futuro?

Podia ser muito mais largo, porém já tenho dito o rigorosamente necessário, para verificar as minhas proposições; e para se ver, o que elas são de verdadeiras, e justificadas pela experiência, concluirei com uma autoridade Liberal. Será com uma autoridade Liberal, e nada menos, que do insigne Arcebispo de Malinas = Mr. de Pradt, que na sua Obra intitulada O "Congresso de Viena" deu por fim, (e no fim da mesma Obra se podem ler) saudáveis conselhos ao seu dilecto, e sobre todos querido Liberalismo Francês. Desviai para sempre (diz ele, e creio que ainda vive, assim como estou certo que a leitura dos seus escritos deitou a perder muitos Portugueses velhos, e novos, que eu conheço) desviais para sempre os olhos desse campo de Política, onde a final só colhestes espinhos, e onde sempre encontrareis a Europa em armas contra vós.... E que outra coisa tenho eu querido provar?

Coimbra 5 de Dezembro de 1830.

23/05/15

REFUTAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DOS PEDREIROS ILUMINADOS (II)

(continuação do I Cap.)

Capítulo II
Paralelo da Religião de Epicuro Com a dos Iluminados

Foi moda no século das revoluções espalhar nomes em lugar de coisas, e inculcar péssimas coisas com especiosos nomes. Fala em Religião Epicuro, fala em Religião o Iluminado, e Religião pura, e perfeita. Mas que entende um, e outro, que toma pela palavra Religião? Acaso [foi] o que entenderam os outros Filósofos, Príncipes, magistrados, e Povos do Mundo? Não por certo! Tal é em qualquer indivíduo a Religião, que é a ideia que forma da Divindade, e da humanidade. O homem, ainda depois da morte corporal, sujeito ao Império de Deus; Deus, Legislador Supremo, e distribuidor da felicidade, e da miséria do homem; eis aqui as bases em que se estabelece, e levanta a importância, e majestade da Religião. Ritos diferentes, diferentes sacrifícios, e também diferentes formas, e caracteres da Divindade, ou suposta, ou suspeitada, ou fingida, segundo o capricho dos homens, (ainda que todas as nações existam concordes nisto, que vem a ser, no conhecimento de alguma Divindade dominante, dispensadora dos bens, e dos males), dão a conhecer que o homem naturalmente quer respeitar, e obedecer a um supremo Nome. Nem outra coisa queriam dizer os raios de Jove, as frechas de Apolo, as espigas de Ceres, o Tataro, e o Elísio. Que Deus indolente, e nulo se julgou digno de Templos, e de Altares?

Epicuro
Nós vamos ver qual seja a ideia do homem na Filosofia de Epicuro, e do Iluminado. O homem dizem um e outro, não é mais que um composto de simples matéria, que todo se esvai, e acaba na morte, e por isto izento, e livre de qualquer Religião, porque só vive circunscripto, e limitado só à vida presente. nada resta depois disto à Religião; porque tanto Epicuro, como o Iluminado, fazem também a vida actual independente da Religião pela estranha ideia que nos dão da Divindade. Um Deus de quem se não pode temer, nem esperar coisa alguma nem enquanto dura a vida, nem depois de finalizar a vida. eis aqui o grande objecto da Religião de Epicuro, e do Iluminado.

Enquanto à ideia de Deus, deve observar-se entre Epicuro, e o Iluminado a maior diversidade, e ao mesmo tempo a mais exacta semelhança. Os Deuses de Atenas, não eram os Deuses de Epicuro; exteriormente os honrava, mas dentro de seu coração os escarnecia; carácter que em Céneca repreendeu Santo Agostinho: "colebat, quod reprehendebat". Quais eram pois os Deuses que Epicuro desconhecia? Uma feira de Entes, sonhados por ele: Monógramos, que quer dizer Lineares, figurados, mas não visíveis, que tinham, não corpo, mas quase corpo, não sangue, mas quase sangue, desterrados para sempre entre mundo e mundo nos espaços imaginários. Um Aristófones não podia pôr em cena mais ridiculamente as Divindades da Grécia, nem Luciano os podia mais claramente expor ao escárnio, e ludibrio dos homens! E Epicuro, o Filósofo Epicuro, profere, e dogmatiza tais despropósitos? Parece que, senão delirava, por certo zombava dos Deuses e dos homens!

Confesso que o Iluminado vai muito longe destas extravagâncias, incompactíveis por certo com o decoro filosófico da nossa idade. Ainda os de mais ardimento, e os que não fazem pública profissão de Ateus, falam do Ente Supremo como aquela dignidade, que lhes prescreve, não só a mais sábia Filosofia, mas a mesma Profecia, e Evangélica Sapiência. Ente Soberano, e único, eterno, imenso, infinito, perfeitíssimo, e em si mesmo bem-aventurado; tal é o quadro, ou ideia de um Deus, que quase todos os Iluminados nos apresentam, e nisto há entre eles, e Epicuro uma palmar diversidade.
Passemos à semelhança: Que fazem os deuses de Epicuro a respeito dos homens? Nada. O seu primeiro princípio é este: Eximirem-se de todos os cuidados numa perfeita, e absoluta indolência. Encerram-se em sua habitação, quietos, tranquilos, bem-aventurados no seio de um ócio eterno. Ocupação na verdade extravagante, mas muito digna de tais divindades!

Ora perguntemos aos Iluminados, que faça, e em que se ocupe a nosso respeito esse deus, que eles conhecem tão grande, e tão perfeito? Dita algumas Leis? Promete algum bem a quem o honra, e lhe obedece? Ameaça algum castigo a quem lhe for refractário, e rebelde? Não me digam que a mesma dignidade divina é Lei para todos, e que a razão, e a consciência do homem remunera o homem com a sua aprovação, e o castiga com seus remorsos. Vãos subterfúgios! Não, meus Senhores, não é isto o que eu aqui pergunto. Pergunto-vos se o vosso deus vos intime expressamente algum preceito, e vos prometa algum prémio, que possa galardoar vossas acções virtuosas? "Ah!", exclamais vós enfaticamente, "não convêm aos Supremo Ente abaixar tanto os olhos a coisas tão vis, como são as acções humanas! Porventura é coisa própria de um grande Monarca atender aos movimentos de um pequeno insecto? É coisa indigna de Deus o homem, e quanto diz respeito, e se refere ao homem." Entendo o que se me quer dizer: Deus, conforme a opinião de Epicuro, nem tem, nem emprega uma providência individual. É grande, é eterno, mas tão ocioso a respeito do homem, como os deuses ridículos de Epicuro; com esta diferença, que os deuses de Epicuro nada fazem por motivo de sua ociosidade, o vosso nada faz, por motivo de sua grandeza; mas em nada fazerem são perfeitamente semelhantes. E, se tal é a Divindade dos Iluminados, qual será a Religião? Porventura uma coisa grave, e séria que os obrigue, e que os interesse? Nada disto. Se desta iluminada Religião se desse ao vulgo uma ideia clara, diria o vulgo que era uma coisa que o não fazia, nem quente, nem frio, porque a Religião é toda para Deus, e de Deus tira, e tem toda a sua força, e autoridade. Ora, se deus anda faz, e nada exige de mim, que tem comigo, ou que tenho eu com a Religião? "Não", diz Epicuro, e com ele os Iluminados, "uma coisa que por si é excelente obriga à veneração. E que coisa mais excelente que Deus? Ora toda a Religião consiste na veneração, e no culto que lhe é inseparável." Mas tudo isto é um equívoco, e um miserável equívoco. Este dito dos Iluminados está bem na boca de quem tem de Deus uma bem diferente ideia; porém a que se reduz esta veneração, e este culto nos Iluminados? A uma estéril, ainda que necessária admiração, ou quanto muito a uma homenagem inteiramente arbitrária, qual se consagra à grande alma de Sócrates, ou de Epaminondas; homenagem tão inútil a quem a consagra, como inocente a quem a nega; porque, torno a dizer, de quem se exige este culto? Que proveito, ou que dano causa a quem o dá, ou a quem o nega? Respondam, meus Senhores; eu honro esta divina excelência, resulta-me disto algum bem? Nenhum. Logo, eu a venero, e acato em vão. E se eu a ofendo, resulta-me disto algum mal? Nem um. Logo impunemente a ofendo. Deste princípio, tão visto pelos factos no Iluminismo, tirou Tertúliano esta justa, e assizada consequência: Negat Deum imendum, itaque libera sunt illis omnia, et soluta. Oh! Que condescendente Divindade! Oh! Que Religião tão cómoda!

Tornemos a considerar a coisa de seu princípio: uma humanidade, que é toda material, e que está fora do alcance de todos os tiros do Céu; uma Divindade, que por cómodo seu, ou por decoro o não dá o mais pequeno sinal de vida; que, se te volveres a ela, não te olha, se lhe pedires alguma coisa, não te escuta, se a adorares, não to agradece, se a ofenderes, não se recente; que, se fores todo proibida de, não te premeia; se fores doto iniquidade, não se ofende, nem te castiga; tão indiferente para tudo, como seria uma estátua; venerar esta divindade, e venerá-la a teu sabor, e de tal maneira, que a podes francamente ofender sem lei, sem dependência, sem utilidade, sem esperança, sem temor: e é esta a coisa mais importante, mais tremenda, mais augusta, e sacrosanta que tem havido, e há entre os homens, a Religião? Mas digam-me os Iluminados, é isto ilusão, ou Religião? Ela nem vos obriga, nem vos toca, é como senão fosse, e para o dizer melhor, é um equivalente da irreligião. Seja juiz aquele mesmo que procurou lavar-se da mancha de impiedade, o Epicureo Lucrécio Poeta, sempre em contradição consigo mesmo, porém mais sincero que um Iluminado. Louva encarecidamente o seu Epicuro; e porque? Porque ousou primeiro levanta os olhos contra o Céu:

Primus Graius homemo mortales tolere contra
Est occulos ausus,
etc.

O que em sua linguagem nada mais quer dizer, que ser destruidor da Religião; e Cícero com filosófica gravidade, e fraqueza, melhor nos aclarou este mistério: "Xerxes com os braços da sua soldadesca, (diz Cícero, comparando o Conquistador com o Filósofo), Xerxes com os braços da sua soldadesca, e Epicuro com as máquinas da sua doutrina, conspiram para a ruína da Religião; só com esta diferença, Xerxes com a cara descoberta, atacou o corpo da Religião, isto é, o culto exterior, e Epicuro, com o rebuço da Filosofia, atacou o espírito da mesma Religião, destruindo seus princípios, tirando todo o freio à humanidade, e tornando ociosa e improvida a Divindade."

E vossas máquinas, ó Iluminados, não são as mesmas de que se serviu Epicuro? Os vossos princípios não são os mesmos? mas entre vós, e Epicuro há uma estranha, e notável diferença. Epicuro deixou ao menos intactos, e sustentou, o culto externo, os Templos, os altares, adorações, oblações, sacrifícios.... Vós, pelo contrário, unicamente vos limitais ao culto interior, isto é, um culto de que Deus não cura, e que nada importa ao homem. E à vista disto, que nome vos darei? Chamar-vos-hei Epicuros, ou Xerxes? Sereis uma, e outra coisa, já que com vossos dogmas, e princípios haveis destruído, ou atacado o corpo, e o espírito da Religião; e se persistis em querer o nome da Religião, seja assim, mas confessai que a vossa Religião é a coisa mais vã que tem o mundo: confessai que uma semelhante Religião se acomodasse maravilhosamente com a impiedade, e que nada mais é, que uma espécie de Ateísmo, e Ateísmo dissimulado, ou mitigado; faz ressoar altamente o santo nome de Deus, mas é Ateísmo; porque o Deus, cujo nome proferis, é para vós como se não fosse, porque de nada cura, e nada estende a sua providência: e quão pequena é a diferença entre o fazer nada, e o não ser! E tal é a diferença que passa entre o vosso Deísmo e o Ateísmo; porque tem, e goza de todos os seus privilégios. Ou não exista um Deus, ou nada faça, é para vós o mesmo, igual liberdade, e igual soltura: Negat Deum imendum, libera sunt omnia, et soluta: esta era a intenção daqueles ímpios de que vos disse falara a Escritura - Dissolver-se-há, acabará nossa alma como se dissipa o fumo, e o Ente Supremo não atenderá por isto: Spiritus diffundetur; non videbit Dominus: e tão seguros como os Ateus que diziam: "Non est Deus. E atrevem-se os Pedreiros-livres a dizer: "Somo religiosos, somos até Cristãos". E gritam estrepidosamente: "Impostura, inveja, e fanatismo são os nossos perseguidores." Assim bradam, se se lhes diz que seus abominandos princípios são anti-Cristãos. Ensinou acaso Jesus Cristo o que eles ensinam? É porventura o Evangelho conforme à sua doutrina? Creio que os Iluminadíssimos Pedreiros são do jaez, e estôfa daqueles de quem fala Santo Agostinho, que se envergonhavam de se chamarem Cristãos, para lhe não chamarem Platónicos, e Zenonitas: Cujus superbia nominis erubescunt esse Christiani. Neste afectado Cristianismo, nem Zeno, nem Platão descobririam seus mais ligeiros liniamentos, e feições. A Divindade, que estes Filósofos criam, não existia tão descuidada das coisas humanas, nem idearam jamais a humanidade a um mesmo tempo tão livre, e tão abjecta. Como podem ser Cristãos os que não conservam, nem os primeiros elementos da Religião natural, e filosófica? Querem dizer-se Cristãos para desfigurarem o Cristianismo à sombra deste nome, e cravarem-lhe mais profundamente o punhal que escondem.

(continuação, III cap.)

22/05/15

REFUTAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DOS PEDREIROS ILUMINADOS (I)

(continuação do anterior)

Capítulo I
A Filosofia dos Iluminados Não é Original, é Cópia.

Não é a antiguidade que nos desagrada; é a antiguidade que quer parecer novidade, e a nenhuma outra coisa é um Iluminado, um antigo, que quer parecer novo. Se o escutarmos de perto, dirá que é um génio que pensa originalmente, que deve a si tudo o que é, que não tem outra guia mais que sua inteligência, que penetra com a própria luz todas as partes do Mundo inteligível mais incógnitas aos outros. Isto que de si assoalha o Iluminado o obriga a desprezar os outros homens, e a considerá-los como rebanhos, que vão, sem saber porquê, onde os leva o silvo do pastor. À vista disto, ou eu me engano, ou o Iluminado não é isto que diz. Considero de um cabo a outra toda a sua grande obra, seus princípios, seus dogmas, suas razões, e aquele ar de orgulho, e de altivez com que nos trata como ignorantes e pequenos: quando observo suas maliciosas ironias, sua afectação de humanidade, a pompa que faz de virtude, a ambiguidade de suas estudadas expressões, e cem mil artifícios a todas as luzes ridículos; eu não vejo mais do que cópias, e cópias de um muito mau original. Epicuro, (eis aqui o Original continuamente incensado, e não plenamente conhecido), Epicuro, o famoso Epicuro, que eu farei mil vezes aparecer em cena para ser confrontado com as suas cópias. Esta necessária confrontação não desagradará aos espectadores, porque com ela conhecerão o valor dos pensadores, e o mérito dos pensamentos. Vamos aos princípios fundamentais do Iluminismo, que são Deus, e o Homem; e para se não agravarem, descubram-nos estes senhores seus pensamentos. Consideram acaso um Deus providente, que dê Leis ao homem, e que o dirija? Consideram acaso o homem sujeito à justiça, e à providência de Deus? Se desta arte o consideram, acabou-se desde já a nossa questão, e nada tem o Iluminismo com o Epicurismo; mas se isto não é assim, quais são os princípios fundamentais do Iluminismo? Que Deus não cura, nem cuida do homem; que o homem é todo matéria, que tudo acaba na morte quando na morte se dissolve seu corpo. Estes princípios, são os mesmos do Epicuro, e já há mais de dois mil anos que Epicuro negou a Divina Providência, e fez a nossa alma material e mortal para a tornar impenetrável, diz, ele, ao temor da morte, e segura contra o pavor que lhe causavam os Céus. Este mesmo agora reproduzido Epicuro não foi original, e assim como copiou Demócrito nos princípios da Física, também foi cópia de Aristípio nos princípios da Moral; coisa tão sabida nos mesmos dias de Epicuro, que era pública fama ter-se apropriado, e dado por seus alguns escritos daqueles Filósofos. Avancemos contudo o passo por mais remota antiguidade. Acaso os princípios daqueles voluptuosos, e ímpios de que fala a Escritura, não são os mesmos princípios de Epicuro? Vejamos. Uns diziam: "Non videbit Dominus." Isto é o mesmo que negar a Providência. Os outros afirmavam: "Spiritus diffundetur tamquam molli  aer." Isto quer dizer, que tanto a alma, como o corpo do homem se desvanecem e acabam. A Filosofia dos Iluminados é tão velha em seus princípios, como velha a impiedade; e a despeito desta decrepitude atreve-se a dizer que é nova, e mui de fresco imaginada! Só se é nova a capa de simulação e hipocrisia com que se cobre: mas nem esta mesma capa é nova; com ela se embaçou Lucrécio nos primeiros versos de seu Poema, mostrando-se muito receoso de ser tido por mestre de impiedade. Muito mais havia feito Epicuro, chegando com a audácia a se inculcar por mestre exemplaríssimo de Religião, e virtude fundada nos manifestos princípios da impiedade.

(continuação, II parte)

20/05/15

REFUTAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DOS PEDREIROS ILUMINADOS

(Índice) 
REFUTAÇÃO
dos
Princípios Metafísicos, e Morais
dos
PEDREIROS LIVRES ILUMINADOS.

autor
José Agostinhode de Macedo

"Sit fas audio loqui" (Virgílio)

LISBOA
1816


PERFACÇÃO

Conheço que, para me deliberar a escrever ainda, é preciso que o amor da verdade em mim prevaleça a todas as afeições. Pelo que tenho observado, vejo que os inimigos honram; e como eu temo mais a consciência, que a fama, ainda que esta tenha sido tão injustamente abocanhada, como todos sabem, pelos infames impressos dentro, e fora de Portugal, entre os seus frenéticos clamores, fala mais alto a minha consciência, e eu cedo a seu imperioso mandamento; por isso escrevo, e escrevi. Sei donde se me disparam os tiros, e com evidência sei por quem seja formado o laço da pública, e oculta conspiração. Eu não a temo, por isso mesmo que a conheço. Um dos seus primeiros, e principais Cânones é este: ataque se caluniosamente este homem, e com a calúnia destrua-se o tal ou qual conceito, que possa ter adquirido na parte literária; escolha-se um mentecapto que o enxovalhe com insultos directos, e com os mais repugnantes despropósitos, que se não tolerariam na mais absoluta liberdade da imprensa; apadrinhem-se estes despropósitos para se não conhecerem como outros tantos crimes civis; grite-se que quanto têm composto não mostra em si o mais ligeiro vislumbre de siso comum; diga-se que são trivialidades os dois gravíssimos Tratados - A Verdade, e o Homem; que os três Poemas Oriente, Meditação, e Newton não o tiram da classe dos desleixados versificadores; diga-se finalmente que é nada como Orador; diga-se isto, ainda que seja impossível prová-lo; porque, como os mais livres ditos sempre fazem alguma ainda que ligeira impressão, sempre conseguimos infamá-lo, e com a infâmia sempre se destrói o conceito público. Ora, sem que eu apele para o juízo da Posterioridade, basta-me a voz da interna consciência, basta-me o amor da verdade para não deixar de escrever, nem de procurar em meus escritórios a pública utilidade.

Ainda que muitos, e gravíssimos escritores o não houveram dito, a experiência comum o dirá, que males todos de que ainda não deixou de ser vítima a Europa, vêm das mãos ímpias, sacrílegas, e homicidas do Iluminismo. As desgraças políticas dos Tronos, e das Nações daqui vieram: estas estão em parte reparadas com a força das armas dos mesmos Soberanos, contra quem se haviam conjurado dos Iluminados, e cuja ruína tinham jurado, e iam promovendo. Mas a ruína dos Tronos não se buscava senão pela ruína dos costumes; e a ruína dos costumes não se promovia senão pelos absurdos princípios metafísicos, e morais da incredulidade: negam isto os Iluminados; porém uma verdade, ainda que seja teimosamente negada, não deixa de ser verdade. Neguem o que quiserem, eu sei que o Iluminismo não é mais que o Epicurismo mal entendido: com este se pretende dissolver o laço da Religião, alucinar os incautos, e procurar converter os erros do entendimento na corrupção do coração. Pede-me o amor da verdade que ataque, e ataque deveras: eu não os temo; os que eu conheço, são outros tantos ignorantes. Há anos apareceram nesta Capital uns folhetos mal escritos, intitulados: "O Segredo Revelado", só tem de meu este título, pediram-me para eles o meu nome; como a intenção, e a causa eram justas, não duvidei dar o meu nome; tudo aquilo não é mais do que um rigorosa tradução da compilação de Barruel. Amotinei contra mim os Pedreiros Livres; e as cartas anónimas que recebi, e conservo, em que se me ameaçava de morte, só me fizeram rir. A Pedreiral conspiração tinha por motivo o que disse Barruel, e que um curioso entendedor de francês traduzido: eu não necessito de Barruel para combater os Pedreiros, nem de outras armas mais que as da razão para fazer desaparecer o Iluminismo, ao menos do entendimento, ainda que o não arranque do coração; porque nestes Senhores o erro é um capricho, e uma teima, seguida, e sustenida com tanto afinco que ainda hoje, depois de verem abatido, e pulverizado o grande Colosso que tinha os pés de barro, nutrem fantásticas esperanças de uma quimérica regeneração pela dissolução de todos os princípios sociais, e religiosos. Ainda se embalam com o embelêco, e ridícula imagem de uma dominação de que eles fossem. Querem e buscam estes Demagogos pertinacissimos, que o jugo da consciência se arremesse, que até a mesma voz da lei natural se sufoque, para que a liberdade de pensar se siga a liberdade do obrar. ainda que a matéria seja gravíssima, como se verá do presente Tratado, não me posso abster de uma expressão fortemente irrisória: tenho observado, e conhecido nos Iluminados um Quichotismo metafísico, querendo vingar a humanidade (dizem eles) dos agravos que lhe fez a Religião; mas nesta vingança dos agravos consiste, e tem consistido a desgraça da humanidade. Tire-se aos homens a Religião, tudo será anarquia política, anarquia moral, anarquia social. Devo pois arrostar-me com estes homens. Se eu perguntar a um Iluminado quem seja? Creio que me responderá o que respondeu Pitágoras a Clemente: "Sou filósofo"; mas não Filósofo no simples, e natural sentido em que o entendeu Pitágoras, isto é, amante, ou estudioso da sapiência: dir-me-há que é Filósofo em sentido mais levantado, e sublime - Este mesmo Iluminado, modestíssimo, o diz muitas vezes transportado, e cheio de persuasão do próprio mérito. Sim, sofra-o em paz a vergonha, ou o ciume dos outros Filósofos; seja este iluminado o sábio, o homem superior às preocupações; seja finalmente aquele grande génio, que entre as trevas comuns descobriu o modo de combinar entre si as duas coisas, que pareciam mais alheias, e estranhas, isto é, tudo quanto de mais doce e suave podia gostar a humanidade, com tudo aquilo que de mais augusto, e santo tinham a Religião, e a Virtude: ajunte, e ligue Virtude, e Religião perfeita com a mais esquisita sensualidade do Mundo; combinação na verdade maravilhosa!!! mas combinação que deve ser maduramente examinada. Este exame, em que farei consistir esta refutação, se reduz a três partes. Examinarei na primeira se esta Filosofia é coisa tão rara, e nova, como dizem os Iluminados. Examinarei na segunda, se os Dogmas desta Filosofia concordem com a verdadeira Religião, e verdadeira virtude. Examinarei na terceira, se destes Dogmas venha aos homens a que se promete tão extraordinária, e nunca sentida felicidade. Destes exames deve resultar a ideias justa, e clara do Iluminismo. É por ventura a Filosofia dos Iluminados uma obra prima? É acaso uma invenção de nova sapiência, e uma refutação da antiga? É um sistema de mais sábia Religião, e virtude, ou uma máquina de iniquidade, e de impiedade? É um segredo que encaminha para a vida feliz, ou uma ilusão que consigo traz a miséria, e vitupério? É acaso uma obra digna da admiração, do apreço, e do amor do Mundo o mais culto, ou obra digna do aborrecimento, e desprezo do Mundo inteiro? Eis aqui as grandes coisas, que é preciso conhecer. Não me tacharão estes Senhores de cerimónia, e nem por isso Jornais Portugueses em Inglaterra deixarão de vir, como costumam, enfeitados de descomposturas, e que fazem eco alguns mentecaptos em Portugal. Neste escrito falará a nua, e puríssima verdade, e ver-se-há, que se nos raciocínios humanos se descobre evidência, nestes se encontra. Aceitem este trabalho os homens de bem; a sua aprovação é a minha recompensa, à qual eu ajunto o testemunho interior da consciência que me brada, que poso dizer com mais razão que o Sofista de Genebra: Vitamque impendere vero.

(continuação, cap. I)

18/03/14

HISTÓRIA DOS "ILUMINADOS" (VI)

(continuação da V parte)

(União de Kingge e dos Areopagitas):


O Iluminismo chegou ao conhecimento de Knigge, no tempo em que formava uma conspiração, e projectos sobre os maçons; e que uma intriga do Areópago apenas deixava a Weishaupt a honra da invenção. Ele procurava reunir todas as diferentes seitas desta Ordem, para governar os Príncipes e os Reis, sem que os mações o percebessem. Ele já tinha comunicado seus projectos a diferentes maçons, logo que no ano 1780 encontrou em Francfort o Marquês de Constanza, apóstolo de Weishaupt. Knigge em poucos dias foi um dos maiores admiradores da nova seita, e de seu Fundador. O mesmo Weishaupt reconheceu em Knigge o adepto capaz de lhe dar grandes serviços, e por isso lhe comunicou seus últimos graus, manifestando-lhe seus projectos, suas conspirações e seus segredos. Kingge solicitava o conhecimento dos últimos mistérios; porém eles só estavam esboçados; e Weishaupt a pesar de ser inventor, tinha necessidade de um homem, que o ajudasse a determinar suas ideias, e acabar seu Código. Esta confidência teria dissuadido qualquer adepto, que não tivesse as qualidades de Knigge; porém a ele só serviu de lhe dar a esperança de participar da glória de fundador. Havendo-se suscitado grandes dissensões entre Weishaupt e seus areopagistas, Philon Knigge voou para Munich. Ele reconciliou o mestre e os adeptos, e ganhou tão engenhosamente sua confiança, que, por um tratado formal entre eles, foi decidido que se lhe entregariam todos os diferentes graus, e toda a parte do Código simplesmente esboçada; que seu trabalho de novo examinado pelo Areópago, aprovado por Weishaupt, serviria de regra para os últimos mistérios. Um artigo não menos mutável desta convenção, dizia que Philon Knigg iria para Wilhemsbad, onde se ia fazer uma assembleia-geral de deputados maçónicos; que lá ele empregaria todos os meios para atrair ao Iluminismo a maior parte dos irmãos deputados, a fim de fazer prevalecer os mistérios de Weishaupt em todas as lojas dos pedreiros-livres. Esta segunda parte de sua missão fez que ele apressasse o trabalho de que se tinha encarregado, qual era terminar o Código dos mistérios. Sua pena ligeira e fácil, inimiga de toda a irresolução, apenas fez a escolha nos papeis escritos por Weishaupt, que, segundo sua convenção com os areopagitas, ele deixou em seu primeiro estado todos os graus preparatórios de Noviço, de Minerval, de Iluminador menor, que já tinham recebido um grande número de irmãos. Foi também decidido, que se conservariam os três primeiros graus de pedreiros-livres, como intermediários. Philon casou o grau de Iluminador maior com os graus escoceses. Juntando, enfim, para os graus de Epopte e de Regente, tudo o que os trabalhos de Weishaupt lhe oferecia de mais ímpio, de mais sedicioso nos princípios, de mais artificioso nos meios; ele pôs remate ao Código da seita, tal, como temos visto o mais essencial.

Weishaupt não contente de tantas impiedades e conspirações, que tinha imaginado, ainda queria levar mais longe seus crimes; porém sempre irresoluto, ele dava mais tempo a deliberar, que Knigge a obrar. A segunda parte da missão de Philon, ou seus sucessos ante os maçons de Wilhemsbad, dependia principalmente de tomar uma resolução que fixasse para sempre os mistérios, os graus de Epopte e de Regente Iluminado. Weishaupt foi de novo obrigado a aprovar tudo: ele pôs em tudo seu nome, e o selo da Ordem. Knigge, vendo-se livre em seu apostolado de Wilhemsbad, mostrou toda a força de seu génio conspirador.

(Assembleia dos Pedreiros-Livres em Wilhemsbad):

Não era para uma sociedade insignificante, para que Philon era deputado, e encarregado de reunir ao iluminismo. Os deputados corriam de toda a parte do mundo a Wilhemsbad. Os escritores maçónicos, os mais moderados creem, que o número dos irmãos era pelo menos de um milhão. O leitor, fazendo uma pequena reflexão sobre este cálculo, por mais partidarista que afecte ser, à vista destes deputados de uma sociedade secreta, composta aos menos de um milhão de adeptos, vindos de todas as partes de Europa não deixará de conhecer, nem de se oferecer ao seu espírito; que neste congresso misterioso se tratavam questões sérias, relativas aos povos e aos soberanos. Que votos, e que projectos levariam consigo os deputados de uma associação tão formidável, e surdamente espalhada à roda de nós? Que vão meditar e combinar entre si, pró ou contras as nações? Se é para o bem geral da humanidade, que eles se juntam em conselhos; com que direito vão deliberar sobre nossa Religião, nossos costumes ou nossos Governos? Quem lhes confiou nossos interesses? Quem lhes disse que nós queremos obrar ou pensar, ou ser governados pelas suas deliberações ou maquinações subterrâneas, ou como eles lhes chamam, conforme sua indústriosa e secreta influência?

(a continuar)72

09/03/14

HISTÓRIA DOS "ILUMINADOS" (V)

(continuação da IV parte)

Escondido e alapardado em suas trevas, o grande prazer de Weishaupt seria de ter destruído o mundo sem ver suas ruínas, nem ser visto. A consciência dos crimes é para ele, o que é para os homens honestos a da virtude. O prazer de fazer mal lhe bastava.Kingge era um desses seres frenéticos, invejosos e soberbos, que se mostram por toda a parte, que se metem em tudo, e que querem assoalhar, que eles só fizeram tudo. Tão ímpio um como o outro, detestam igualmente o freio das leis religiosas e civis. Weishaupt desde o princípio pesou suas proposições, a extensão de suas consequências; é necessário que sua revolução as realize todas; ele julgou não ter nada feito, se deixasse vestígios de leis sociais. A impiedade de Kmigge, e sua rebelião teve sua infância e sua graduação. Ele frequentou sucessivamente as escolas públicas, e as escolas nocturnas da incredulidade do século, e por isso sabia várias suas lições, e como Proteu tomar diferentes formas. Deísta e ceptico, onde nã podia mostrar-se ateu, seguindo as circunstâncias, tinha tudo que forma um sofista promto para todos os graus da rebelião.

Pelos seus Povos errantes, pelos seus homens Reis, iguais e livres, Weishaupt quer aniquilar toda a Religião, Magistratura, Sociedade e propriedade. mas Kingge destruirá menos, com tanto que possa governar o resto. Do fundo de sua solidão, um tem estudado a conhecer os homens, e saber melhor o que se desejaria fazer; o outro os tem visto mais de perto em suas intrigas, e se contenta com facilidade do que pode fazer. Por último resultado de sua maldade comum e de seus desvarios, Weishaupt compõe bem o veneno; e Knigge o vende melhor; porém ambos bastam para empestar o mundo, corromper os costumes, aniquilar as leis, destruir a Religião, e destronar os legítimos Imperadores.

Quando o inimigo comum, o príncipe das trevas se aproximou a estes dois entes; eles já possuíam o que podia fazer sua união abominável. O Barão Hanhoveriano tinha sido lançado sobre a terra quase no mesmo tempo, que ele brotou o monstro bávaro; e toda a sua vida parecia ter sido uma preparação contínua da figura, que devia fazer, associando-se a Weishaupt; principalmente para lhe abrir as portas dessas lojas maçónicas, e para delas extrair os mistérios, que deviam fazer a preparação para o seu iluminismo.

O mesmo Kingge nos diz, que ele tivera sempre desde a infância, uma grande inclinação, e um decidido gosto para as sociedades nocturnas. Logo que chegou à idade necessária para ser admitido nas lojas, se fez pedreiro-livre. Os irmãos, que o receberam e admitiram aos seus mistérios, eram os que se chamam da Estrita Observância. Ele chegou ao grau de Templário; daqueles, que esperando ainda um dia adquirir as possessões dos antigos cavaleiros desta Ordem, distribuem entre si os títulos de suas comendas; jurando ódio a todos os Reis, e a todos os Pontífices, isto é, ao Trono e ao Altar, que de mãos dadas tinham proscrito os Templários: e de vingarem a morte do último de seus Grão-mestres. Knigge tomou o título de Cavaleiro de Cisnes, Eques a Cigno; título inútil para sua fortuna. Cioso de o suprir, e de ter ao menos nas lojas uma grande autoridade, e mostrar que seu título não devia ser vão ao menos para com os irmãos; ele procura todos os meios de os exceder no conhecimento dos mistérios; razão, porque foi estudar com o charlatão Schraeder todos os mistérios da magia e dos alquimistas. Fogoso, Caprichoso, Precipitado, tal como ele mesmo se pinta, na idade de vinte e cinco anos; ele se acreditou em todos estes mistérios; e abandonou as evacuações, e a todas as loucuras da antiga e moderna cabala. No meio de tantas impiedades, Knigge não sabia já o que devia crer, ou deixar de crer; ainda que encantado de si mesmo, ele se lisonjeava que o caos de ideias que tinha em sua cabeça lhe poderia ser útil. para as desenvolver, entrou em todas as lojas maçónicas, e estudou todas as seitas (vede suas últimas lições p.24). Querendo reunir só em si todos os desmanchos do espírito humano, ele juntou a este estudo o dos sofistas do tempo; e senhor dos delírios cabalistas e das impiedades, se intitulava filósofo. Alternativamente, cortesão, Director de um teatro, escritor liberalista, protestante, católico, de novo protestante, ele não fixou sua crença, senão na escala de todos os incrédulos. Como suas paixões eram o principal móvel de suas acções e de seus prazeres; elas também eram a fonte de seus tormentos e de suas incertezas. (Os partidistas de uma cruel fatalidade não vêm nos movimentos da alma mais que a acção cega das molas movidas por um impulso necessário, e estes que creem que tudo deve ser sacrificado às paixões, não veem nada, que deva enfrear as sensibilidade, e dar-lhe leis. Tais os motivos, por que os incrédulos sempre falam da igualdade, humanidade, e beneficência; sem se lembrarem que unicamente a Religião é quem realiza estas ideias consoladoras.)

(continuação, VI parte)

06/03/14

HISTÓRIA DOS "ILUMINADOS" (IV)

(continuação da III parte)

Por estas qualidades do mais íntimo adepto de Weishaupt, é fácil julgar as que exigia dos outros candidatos para deles se fiar. Além das que descreve em sua carta a Tibério, acham-se outras nos escritos originais, que nos põem no estado de apreciar o zelo. Tal é entre outros, o Marquês de Constança, que debaixo do nome de Diomede, desde os primeiros anos da seita, tinha viajado o Tirol e Milão como apóstolo do Iluminismo. Tais o Conde de Savioli, o Barão de Magenhoff, de quem Weishaupt fezz seu Bruto, e seu Sila; e o Conde Pappenhem com o nome de Alexandre. Tais, sobre tudo, foram diferentes professores de colégios ou mostres de escolas, a quem o fundador preferia, como os mais aptos para seduzir a mocidade, e corromper desde a infância o coração do homem.Os progressos desta Ordem, na primeira época, e os meios de que Weishaupt se serviu para aumentar o número de seus adeptos, se pode ajuizar pelo extracto seguinte achado entre os papeis do Catão Zawck:

"Nós temos em Atenas (Munich) 1º uma loja regular de Iluminados Maiores, própria para o nosso objecto; 2º uma grande loja maçónica; 3º duas consideráveis igrejas, ou academias do Grau Minerval.
Também temos em Tebas (Freysinga) uma loja Minerval, assim como em Mégara (Landsberg) em Burghausen, em Straubing; e em Éfeso [Inglstadt). Em pouco tempo estabeleceremos uma em Coríntio (Ratisbona).
Nós comprámos (em Munich) uma casa; e tomámos também nossas medidas, que os profanos não só não falam de nossas assembleias; mas nos dão mostras de grande estima, quando nos veem ir publicamente isto é muito para uma cidade como Munich.
É nesta casa, ou loja que temos um gabinete de história natural, instrumentos físicos, uma biblioteca, e tudo isto se vai aumentando pelos donativos dos irmãos.
O jardim é destinado à botânica.
A Ordem procura para os irmãos todos os jornais científicos. - Por diferentes brochuras impressas, temos excitado a atenção dos Principais, e do Povo sobre certos abusos mais notáveis. Todos os dias empregamos novas forças contra os Religiosos, e temos visto bons frutos de nossos trabalhos. (Um dos coriseos da Revolução da França gritavam no meio da assembleia: "Se quereis destruir o Trono, começai pelos Religiosos." Parece não termos necessidade de maior prova, para conheceremos o que são úteis às Monarquias, onde se acham estabelecidos; e que seus inimigos são os conspiradores contra o Trono, e discípulos do ímpio Weishaupt.)
É absolutamente proibido alistar os R. C. (Rosa-Cruz) e devemos da-los por suspeitos.
Já sabereis a íntima aliança que fizemos com a loja de ... e com a Loja Nacional de Polónia ..."


Outra nota da mesma mão sobre os progressos políticos da Ordem:

"Pelas intrigas dos irmãos, todos os Religiosos foram banidos das Cadeiras da Universidade de Ingolstadt.
A Duquesa viuvava para a educação dos seus filhos, segue o plano feito pela nossa Ordem, e segundo nossos princípios. Esta Casa está debaixo de nossa inspecção; todos os professores são membros da Ordem. Cinco destes membros foram bem providos, e todos os seus discípulos serão nossos candidatos.
Pela protecção dos irmãos, Pylade está feito Conselheiro fiscal Eclesiástico: procurando-lhe este lugar, nós pusemos à disposição da Ordem o dinheiro da Igreja. - Também temos pelo uso deste dinheiro reparado já a má administração de nossos ... e o tiramos das mãos dos usurários.
Os irmãos da igreja têm sido por nossos cuidados promovidos em Benefícios, Curados, e Cadeiras de Professores. Arminio, e Cortez já estão professores de Ingolstadt.
É pelos nossos cuidados, e protecção, que a Côrte mandou vigiar dois de nossos adeptos, que já estão em Roma.
As escolas germânicas são governadas pela nossa Ordem, e têm por Perfeitos nossos irmãos.
Também governamos a Sociedade da Caridade.
A Ordem tem procurado a grande número de irmãos os primeiros lugares da Magistratura, e administrações.
Quatro Cadeiras Eclesiásticas são ocupadas por nossos irmãos.
Em pouco tempo, nós seremos mestres das casas destinadas para a educação dos nossos eclesiásticos. As medidas estão tomadas, e por isso poderemos munir toda a Baviera de sacerdotes convenientes ao nosso objecto.
Pelos nossos esforços, e por diversas maneiras, chegamos ao fim não comente de manter o Conselho Eclesiástico, mas de o sujeitar aos colégios, a quem se deu todos os bens, que administravam os Religiosos. Nossos Iluminados Maiores fizeram sobre este objecto seis Assembleias, muitas das quais ocuparam uma noite."


Quantos problemas ou enigmas, esta nota do adepto Catão não prepara à solução na história da Revolução Francesa? Com que cuidado não vemos aqui a seita embrenharse no mesmo Santuário! Que meios não emprega para penetrar nos Conselhos, na Magistratura, e na administração pública! Ela nãoo só faz servir os tesouros da Igreja e do Estado; mas também se apodera da tenra mocidade, educando seus noviços com despezas da fundação pública; faendo subsistir seus viajantes á custa dos Príncipes, de quem meditam a ruina. - Ainda há nestanota enigma do outro género. Vê-se Catão Zwack aplaudir-se de ter fundado em Munich uma loja de pedreiros-livres, e os triunfos que tem conseguido os Iluminados sobre os maçons Roza-Cruz. - Donde nasce pois este desejo de imitar os pedreiros-livres, e a guerra declarada que fazem aos mais famosos adeptos da maçonaria? Suas questões nos conduz a expor o meio profundamente concebido por Weishaupt, a fim de propagar suas conspirações. Sua intrusão nas lojas ma´nicas nos levam à segunda época dos pedreiros-livres-iluminados. Desde os primeiros dias do Iluminismo, Weishaupt julgou tirar grande partido para suas conspirações, se ele fizesse uma aliança com o grande número de pedreiros-livres, espalhados por toda a Europa. Escrevia ele ao adepto Ajax em 1777:

"Eu vos participo que antes do Carnaval vou para Munich, onde me farei receber pedreiro-livre. Não vos admireis deste passo que dou: nosso sistema em nada diminuirá; pois por este meio aprenderemos a conhecer um novo segredo, e por ele nos faremos mais fortes que os outros."


Com efeito, ele recebeu os primeiros graus maçónicos na loja de Munich, chamada de S. Teodoro. Weishaupt viu nesta loja entre momices a igualdade e a liberdade fazerem as delicias dos irmãos. Suspeitando mistérios ulteriores, os pedreiros-livres lhe diziam, ainda que inutilmente, que toda a discussão religiosa e política era banida das lojas; porque outro tanto dizia ele aos seus noviços sobre o objecto de sua Ordem; pois conhecia o quanto era útil semelhante afirmação. O adepto Zwack, instituído por um maçon chamado Marotti, recebeu conhecimentos mais profundos, e foi iniciado nos supremos graus da Maçonaria. Weisaupt, escrevendo ao mesmo adepto, lhe diz ter adquirido sobre este objecto outros conheciments, de que faria uso em seu plano, mas que os reserva para os graus superiores. Seguro para futuro de suas novas descobertas, e do uso que delas poderia fazer, para baralhar seus mistérios com os dos maçons, e adquirir por este meio tantos milhões de irmãos, derramados desde o Septentrião até ao Meio-dia, isto é, segundo sua frase, por todo o Universo, ele ordenu a seus areopagitas, que se fizessem pedreiros-livres, fazendo todas as disposições para ter as mesmas vantagens em suas diversas Colónias. O fundador bávaro possuía os segredos dos maçons; e os maçons ignoravam os segredos dos Iluminados. - Tal foi a época, em que os Rosa-Cruz viram com susto elevar-se uma nova sociedade em prejuízo das antigas maçónicas, pois que os Iluminados não poupavam a injúria (uso dos propagadores do erro) para desacreditarem os maiores discípulos dos maçons, assoalhando que só o Iluminismo é que possuía os verdadeiros segredos da Ordem. Weishaupt imaginou todos os meios de triunfar do combate e da intriga, excitada entre seus adeptos e os pedreiros-livres. Indeciso do uso que faria de sua vítima, escrevia a Zwack nestes termos: 
 
"Eu queria mandar vir de Londres uma Constituição para os nossos irmãos; e ainda agora seria este o meu voto, se estivéssemos seguros do Capítulo (maçónico) de Munich. - Eu não posso escrever nada fixo sobre isto, sem que primeiro veja a face, que tomam os negócios [assuntos]. Pode ser que ainda me resolva a fazer um novo sistema maçónico, ou que ligue os pedreiros-livres a nossa Ordem, fazendo um só Corpo destes dois sistemas." (Cart. 57, A Catão. Março 1778)

(Philon Knigge):
Para o determinar nestas incertezas, era necessário a Weishaupt um homem, que desse menos tempo apesar as dificuldades, e que as resolvesse apenas imaginadas. O demónio das Revelações e da impiedade lhe enviou um Barão hanoveriano, chamado Knigge. Ao ouvir este nome, os mesmos pedreiros-livres alemães reconheciam o perverso, que tinha empestado suas lojas maçónicas, e a que nada poupava para consumar a depravação de seus ímpios e sacrílegos rosa.cruz. Em sua cólera e indignação, eles chegavam a perdoarem, e terem para com Weishaupt uma espécie de indulgência; fazendo cair sobre Knigge todo o seu ódio, e todo o opróbrio de sua sociedade, infernal viveiro do Iluminismo. Porém a veracidade dos factos só mostram que nesta intrusão, Philon Knigge foi um digno instrumento, de que se serviu Spartacus-Weishaupt. O que um executou, o outro tinha meditado havia longo tempo. Estes dois homens, um para dar leis ímpias e revolucionárias, outro para propagar os mistérios da seita, e para arranjar em suas conspirações legiões de adeptos.

Adolph von Knigge
(Paralelo de Knigge e de Weishaupt):
Se Weishaupt em suas ferozes meditações parece qual Satanás ocupado dos projectos, que concebeu contra o género humano; Knigge nos fazlembrar um desses génios malfazejos, que com a rapidez da peste corre a toda a parte, que o rei dos infernos lhemostra para contaminar, e semear a maldade. Em suas meditações, Weishaupt combinava vagarosamente suas conspirações, comparava seus princípios, calculava tudo; e para assegurar seu golpe, às vezes deferia a execução de seu sistema.  Porém Knigge com sua ligeireza faz mais, que delibera: apenas vê que se pode fazer mal, nada o suspende para o fazer. Um prevê os obstáculos que poderia encontrar, e procura evitá-los; o outro só teme perder o tempo, que é necessário para reflectir. Um não quer ver causa que retarde seus passos; o outro nada julga capaz de suster.


(continuação, parte V)

03/03/14

HISTÓRIA DOS "ILUMINADOS" (III)

(continuação da II parte)

Apenas havia dois anos que Weishaupt consagrava ao seu Iluminismo esta tenebrosa escola, quando já seus discípulos, dignos de seus projectos, propagavam suas conspirações por outros subterrâneos. Para julgar a importância dos meios pelos sucessos, façamos uma pequena meditação sobre o que ele diz na carta seguinte [a Areopagitas, Catão e Mario]:

"Para o futuro tratareis de outra maneira com Timon e Hohenheicher. Eu lhe revelei todo o segredo, e me mostrei, como fundador da nossa Ordem; e isto fiz por muitas razões.
I. Porque é necessário que eles sejam fundadores de uma nova colónia em Freysinga, sua pátria; e por este motivo é bom aproveitar-me do tempo que estão em minha casa, dando-lhes lições mais particulares de nosso sistema, e sua marcha; o que seria perigoso e dilatado por via dos correios.
II. Porque é necessário que eles me adquiram o Barão de E... e alguns outros de seus colegas, de muita utilidade para os nossos últimos fins.
III. Porque Hohenheicher, conhecendo meu modo de pensar, cedo ou tarde adivinharia, que o Iluminismo era obra minha.
IV. Porque de todos os meus académicos do ano passado, ele era o único, a quem nada se tinha revelado.
V. Porque se ofereceu de contribuir para a nossa biblioteca secreta de Munich, e de nos dar diversas relações muito importantes do Capítulo de Freysinga.
Finalmente, depois de os intruir, os três meses que faltam, um e outro ficarão em estado de nos fazer grandes serviços." (Escript. orig. t. I. Cart. 12 a Catão e a Mar)

Desta carta segue-se com evidência, 1º que de todos os pensionistas de Weishaupt desde o primeiro ano de sua conspiração, nem um só escapou ao seu laço; 2º que antes de lhe ter dado suas últimas lições, servia-se deles para alistarem o resto dos académicos, que não pôde atrair ao seu colégio; 3º que o momento, em que os mandava a seus parentes, como tendo acabado o estudo das leis da pátria; eles os enviavam munidos de todos os princípios, e de todos os artifícios de sua conspiração contra estas mesmas leis, contra a sociedade, contra a Religião, e contra toda a propriedade.

Os adeptos de Munich seguiam tão fielmente suas lições, e seus exemplos em propagar a Ordem, que Weishaupt, comparando seus sucessos, não hesitava em falar desta sorte: "Se vós continuais com o mesmo zelo, em pouco tempo seremos senhores de nossa pátria, isto é, de toda a Baviera" (Escript. orig. t. I. Cart. 26).

Como suas visitas não se limitavam somente ao eleitorado, ele mandava aos seus aeropagistas, que alistassem entre os estrangeiros, que habitavam em Munich, algum mais apto a receber instruções, a sim de ir plantar colónias em Ausburg, Ratisbona, Saltzburg, Landsbur, e em Francónia. Ainda em Ingolsadt nada se suspeitava; quando já Baviera contava cinco lojas em Munich; outras lojas, e outras colónias estabelecidas em Freysinga, Landsberg, Burghausen, Straubing, começando-se outras em Ratisbona, e Viena. Seus apóstolos corriam de um e outro lado; e semelhante à peste, tinham já inficcionado o Tirol, Milão, Holanda, e Francónia. Aos três anos da fundação do Iluminismo, já se contavam para mais de mil iniciados (cart. 25 a Catão 13 de Novembro de 1778).

A multiplicidade e a variedade de figuras, que Weishaupt fazia em Ingolstadt para conseguir seus fins, não é fácil explicá-las; pois só a pequena ideia, ou o esboço, que de si faz, quando se propõe por modelo em suas cartas a Catão; é que nos pode fazer acreditar tanta hipocrisia:

"Fazei como eu, apartai-vos das grandes companhias. - Mas esperai só, a hora virá em que tereis muito a faer. Lembrai-vos de Sejano, que parecia nada fazer, e que debaixo de uma aparente indolência fazia muitas coisas. Erat autem Sejanus otiso simillimus, nihil agendo multa agens."

Não houve no mundo um conspirador, que mais fielmente desse o preceito e o exemplo. Porém a pezar disto, Weishaupt devia também huma parte de seus sucessos ao zelo e à actividade, que sabia inspirar a seus adeptos.

O mais notável deles, era sem dúvida Xavier Zwack, a quem chamava o adepto incomparável. Ele foi sempre o adepto íntimo, a quem se dirigiam a maior parte das cartas, que se acham impressas debaixo do título de Escriptos Originais; e a quem o fundador dizia:

"Vós só me tendes superior, porque estais elevado sobre todos os irmãos. Um vasto campo se abre ao vosso poder, e à vossa influência, se acaso nossos sistemas se propagam". (Cart. 27, t. I)

Xaver von Zwack
 Tantos favores e distinções supõem bastantes títulos. Para apreciar os deste adepto favorito, bastará lançar os olhos sobre o extracto que dele faz o irmão alistador, anunciando a Weishaupt a conquista, que tinha feito. Conforme este extracto; Xavier Zwack, filho de um comissário, nasceu em Ratisbona. Foi iniciado a 29 de Maio de 1776, tendo 20 anos de idade. Nesta idade, "sua altura era de cinco pés [pouco mais de 1,50m], todo o seu corpo defecado pelo deboxe de um temperamente melancólico. Seus olhos fracos e languidos, sua tez pálida; olhando de contínuo para a terra. Seu caracter moral é pintado nestes termos: Coração sensível, e em extremo filantrópico; Estoico nos acessos da melancolia. Amigo do verdadeito, circunspecto, etremamente amador do segredo. Falando muito de si, invejoso das perfeições dos outros; voluptuoso. Incapaz para as grandes sociedades; colérico e arrebatado; fácil em moderar-se- Dizendo voluntariamente suas opiniões, e quando as louvam, ele as contradiz. Sua religião, e sua consciência é afastada da opinião comum, isto é, pensa da maneira que a Ordem manda aos seus adeptos. Possui no maior grau a arte de se contrafazer, e dissimular. Cioso em conhecer os homens."

Este retrato do adepto favorito de Weishaupt pode reduzir-se a estes termos: deboche imoderado, grande orgulho, amor próprio e fatualidade; inveja, dissimulação, e negra melancolia. Zwack era como Weishaupt, um ateu com todos os dotes característicos dos conjurados revolucionários. isto bastava para o banir das sociedades honestas: era um desses filantropos, que dizem amar o género humano, para arruinar as leis que o governa, e o autor que as deu. Tais são os vícios, que a seita indagava, e procura achar em seus alunos, e que fez de Xavier Zwack o Catão de Weishaupt. (Tais os vícios de todos esses, que no meio de nossos século se dizem ilustradores do género humano, e que debaixo do nome de amigos da humanidade, a nada poupam para quebrantar o freio dos malvados, a segurança dos bons; para, digo, destruir todos os códigos, que governam as nações civilizadas, substituindo-lhe as leis das paixões mais baixas, e avaliando desta maneira a natureza humana.)

Apesar disto por pouco que as lições do irmão alistador iam privando o Iluminismo dos grandes serviços, que tinha a esperar do novo Catão. Apenas soube que a morte para o sábio só devia se um sono eterno, embriagado deste princípio, e aborrecido de sua existência; ele se persuade que morrer por suas próprias mãos, era morrer como grande filósofo, e por este motivo dava parte a seu irmão alistador, dizendo-lhe a resolução que tinha tomado:

"... amigo eu tomei o melhor partido. Não duvides de minha probidade, nem deixes duvidar a Ordem; confirma os sábios nos juízos, que fizerem da minha morte; chora com piedade os que me incriminarem, pois que ainda vivem no erro. Tuas lágrimas a meu respeito injuriaram minha memória, teus princípios, e o resto dos irmãos."

Uma carta do mesmo género escreveu também de sua mão, convidando os irmãos a honrar suas cinzas, e abençoá-las, em quanto a superstição as amaldiçoasse:

"às bordas da minha sepultura, continuava o moderno Catão, eu desço com reflexão, pois tenho escolhido a morte por conversão, por demonstração, como a minha felicidade."

Não se sabe o que persuadiu a este mancebo insensato esta espécie de felicidade; com tudo Zwack escolheu viver, e hoje continuando a propagar as conspirações da seita, achou seu protector no Sereníssimo Príncipe de Salmkirbourg. Seus pensamentos sobre o suicídio tiveram todo o efeito na sua cunhada. Ela procurou a morte como filósofa; e aprveitando-se das lições de Catão, precipitou-se do alto de uma torre. Catão Zwack preferindo a vida à morte, veio a ser Conselheiro íntimo da Côrte da Baviera com vinte mil florins anuais; e o primeiro Conselheiro de Weishaupt em seu aerópago; grande director de todas as conspirações da seita, contra todos os soberanos e suas Côrtes.

(continuação, IV parte)

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