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16/06/16

CONTRA-MINA Nº 50: Os Jesuítas em Coimbra!!!!

CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,

por

Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.

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Nº 50
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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Os Jesuítas em Coimbra!!!!

como efeito parece mais sonho do que realidade, que se conseguisse a tantas vezes desejada restituição do Colégio das Artes aos seus antigos possuidores. Eram tantas, e tão graves as dificuldades, que se opunham à existência deste sucesso! Era tanto, e tão inveterado o ódio, que se concebera neste Reino por sinistras, e dolosas informações, à Companhia de Jesus! Era tanto o afinco, era tal a pertinácia do Jansenismo, e Maçonismo por arredarem de Portugal os seus antigos, e verdadeiros ilustradores! Por certo que aos mais desejosos, de que os Padres da Companhia voltassem a estes Reinos, e recobrassem a sua perdida influência, já se representava como impossível a execução de tais intentos. Nem a saudosíssima, e piedosíssima Rainha D. Maria I, que tomava a peito o restabelecimento dos Jesuítas em Portugal, porque tomava a peito a verdadeira felicidade dos seus Povos, conseguiu trazer novamente a este Reino, e suas Conquistas os Filhos de Santo Inácio! Viu-se necessitada a conter, ou reprimir os seus votos, e a deixá-los como abafados, e sepultados em seus Régios Corações.... Tanta era a força das prevenções, ou das calúnias, que ardilosamente se haviam espalhado neste Reino contra os Jesuítas!

Quando o Sumo Pontífice Pio VII instaurou a Companhia de Jesus, revogando o Breve do Santo Padre Clemente XIV, que os extinguira... desde logo os Pedreiros Livres do Rio de Janeiro estremeceram, clamaram, e fizeram protestos em nome do Rei Fidelíssimo contra os novos auxílios, que Deus prodigalisava, e oferecia por mãos do seu Vigário na Terra aos Países Católicos!!!

Seguiu-se o tempo mais infausto, e desastroso para a Monarquia Portuguesa, quero dizer, o tempo Constitucional; e quando os Maiores da Seita Maçónica, lançando as ousadas, e sacrílegas mãos às rédeas de um Governo, que lhes não pertencia, juravam destruir, e abolir todas as Corporações Religiosas [o que veio a acontecer em Portugal, depois  por mão de D. Pedro I do Brasil], como poderiam tolerar um só instante a simples ideia, de que os Jesuítas poderiam voltar a estes Reinos? Nada por tanto era mais próprio de um Soberano destinado pelos Céus para restaurar o Trono Português, do que chamar em seu auxílio, como tropas escolhidas, que combatessem, debelassem os dois Monstros Jansenismo e Maçonismo; quero dizer, os sucessores desses Apóstolos, que tinham preservado no séc. XVI estes Reinos das pestes do Luteranismo, e Calvinismo... À chegada do nosso Libertador tudo neste Reino oferecia a imagem do caos...! Para desviar este, e pôr as coisas na devida ordem, bastou que o Todo Poderoso dissesse um Fiat, faça-se, e tudo se fez!! Agora semelhantemente bastou que um Rei Cristão dissesse "Apareçam os Jesuítas neste Reino", e apareceram os Jesuítas. Não blasfemo, e nem sequer adulatório este modo de pensar, ou de escrever. O chamamento dos Jesuítas a este Reino foi obra de Deus, assim como é bem clara, e manifesta obra do mesmo Senhor a entrada destes Regulares no seu Colégio das Artes. Conheceu perfeitamente o Mui Alto, e Poderoso Senhor D. Miguel I, que sem Jesuítas era impraticável a mil vezes procurada, e outras tantas desmentida restauração dos bons costumes; e que por mais planos, que se traçassem, por mais brilhantes, e risonhas teorias, que há meio século a esta parte se houvessem excogitado, nenhum proveito, nenhuma utilidade real se descobria, antes cada vez mais tudo se precipitava, e caminhava de mal para muito pior. Teorias sobre teorias, planos sobre planos agravaram a doença moral a ponto de fazerem cada vez mais sensível, a patente a grandeza da ferida, que Portugal recebera ao fatalíssimo ano de 1759... Assim mostrava um Deus vingador dos ultrajes feitos à inocência, e à virtude, punir estes Reinos pelo crime da expulsão dos Jesuítas....

Colégio dos Jesuítas (em Coimbra), fundado por D. João III de Portugal
Que resta pois? Que se devia fazer para obstar a que a Mocidade Portuguesa caísse toda nos laços do Maçonismo? O que fizeram até os Reis Cismáticos, e Protestantes, e o que fazem agora todos os Soberanos Católicos, pois meio século de desastres, e calamidades meteu-lhes pelos olhos, que o Instituto da Companhia é sumamente necessário para o bem, e tranquilidade de seus Povos... E o Rei mais amante dos seus Povos, que excede até neste particular aquele próprio Rei, que tomou por divisa o Pelicano, em acção de rasgar o peito para nutrir os seus filhinhos: e o Rei mais amante dos seus Povos, digo, havia de consentir, que estes Povos fossem desgraçadas vítimas do erro, da sedução, e do infatigável proselitismo das Sociedades Maçónicas?

Igreja do Colégio dos Jesuítas; hoje é a Sé "nova" de Coimbra.
E um Rei plenamente convencido, penetrado das Verdades Católicas, e nomeadamente das mais terríveis, poderia ver com indiferença o quase total naufrágio da Educação Religiosa em seus Estados? Como se negaria ele a buscar todos os meios conducentes para a desejada reformação dos costumes, e que outro se lhe poderia oferecer, ou melhor, os mais prontos, do que entregar aos Padres da Companhia o Real Colégio das Artes?

Foi Coimbra, e o foi por muitos anos a Cidadela do Jansenismo. Este acolheu benignamente, como sempre costuma, o seu Irmão gémeo, quero dizer, o Maçonismo; e ambos entrincheirados nesta, como Fortaleza das Ciências, prometiam guardar para sempre o seu ponto central, donde se repartiam para toda a Monarquia, e suas Possessões Ultramarinas os mancebos de esperanças, os homens de bem, as luzes, e as trolhas Maçónicas... Tinha-se chegado a tais pontos de perversidade, e desenvoltura, que já os recrutamentos para a Ordem dos Pedreiros Livres se tratavam, e faziam a cara descoberta, e até se oferecia dinheiro aos Estudantes pobres, que ainda fiéis aos sentimentos religiosos, hesitavam, ou repeliam indignados a mais infame, e atraiçoada proposta....


Enfim a urgentíssima necessidade de Educadores, e Mestres Jesuítas nunca foi tão palpável neste Reino, como durante o que, sem exageração, se pode chamar o Reinado das trevas, o qual principiado em 24 de Agosto de 1820 [mas pode considerar-se definitivamente o ano de 1834, em Portugal], só começou de cavilar, e fraquejar a 22 de Fevereiro de 1828....

Desde então, e no brevíssimo espaço de quatro anos, tem-se feito mais do que nos vinte, ou trinta anos dos Reinados mais gloriosos da Monarquia, pois a malvada, e numerosíssima Seita dos Pedreiros Livres é mais forte, do que as Praças de Ceuta, e de Arzila; e a expugnação do Grande Oriente de Lisboa mais difícil, e arriscada, que a expugnação de Ormuz, e Goa; assim como a defesa, e sustentação dos Direitos da Realeza em Portugal, é mais árdua, e mil vezes mais perigosa, que a conservação da Praça de Diu contra o maior poder dos Soberanos da Ásia...

Não, não tem as Histórias da Monarquia Portuguesa um só Herói, que possa ombrear com o excelso Príncipe, que nos rege, e nos felicita; e quando eu tratasse de buscar um só Português, que me oferecesse alguns longes de tamanha heroicidade, teria de remontar às Histórias antigas, e pode ser que um Viriato, pondo somente os esforçados peitos dos seus Beirões a todo o poderio dos Senhores do Mundo, me oferecesse alguns traços acomodados ao meu paralelo....

Não, não têm os Portugueses um dia mais fausto, e plausível, que o 22 de Fevereiro. É dedicado à memória do Estabelecimento da Cadeira de S. Pedro em Antioquia, onde os Discípulos do Evangelho foram pela primeira vez chamados Cristãos, e deve ser igualmente dedicado à memória de um sucesso estupendo, e milagroso, que nos trouxe a incomparável felicidade de nos podermos chamar Cristãos; nome este, que não tardaria muito a passar como injurioso, e afrontoso.... E ser este dia também o próprio, em que os Jesuítas vão tomar posse do seu Colégio das Artes!! Que assombrosa coincidência de sucessos!! E que turbilhão de agradáveis esperanças deve suscitar-se nos entendimentos, ainda que sejam vulgares, com tanto que sejam Cristãos!! Também hoje é o dia, em que a geração, que nos há de suceder, principia a mais gloriosa de todas as Épocas, e como que principia a ser Cristã com segurança, e firmeza.... Ah! No meio da pompa triunfal, com que os Jesuítas foram recebidos em Coimbra, pompa insólita, e a todos os respeitos maravilhosa, que eu desejaria contar, porque a vi, e que eu não posso contar, porque não tenho nem frases, nem imagens adequadas para a descrever; no meio de toda essa pompa, foram certamente os singelos aplausos da mais tenra infância, ou desses esquadrões de meninos, que saíram ao encontro dos Padres da Companhia, foram, como a dizer, os que me comoveram de Pessoas adultas de todos os sexos, e condições, banhados em lágrimas!.. Parecia que estes inocentes, como se adivinhassem a extensão dos benefícios, que o Céu lhes outorgava pela generosa, e benfeitora mão do seu adorado Soberano, queriam distinguir-se acima de todas as Classes na festival recepção dos que vinham para os doutrinar, para os ensinar, e para os fazer verdadeiros Cristãos! Ah! Nesses ramos de Oliveira, e de Louro, com que vinham encontrar os seus Catequistas, bem claramente se designava, ou simbolizava a Paz Celeste, de que os Jesuítas são anunciadores, e a vitória, que prestes hão de conseguir sobre os inimigos da Fé, que bramem de raivosos ao chegar-lhes a hora, em que serão desalojados da sua mais bem guarnecida, e artilhada Fortaleza.

Que Mestres para a mil vezes ditosa Mocidade destes Reinos! Vingam-se de tantas injúrias recebidas, celebrando em Pombal o incruento Sacrifício pela alma do seu mais encarnecido inimigo!!! Resistem, quanto neles é, a toda a lembrança de serem recebidos triunfalmente em Coimbra, e só a mais forçosa obediência a um dos seus maiores afeiçoados, o Excelentíssimo Senhor D. Fr. Joaquim da Nazaré, Bispo Conde, é que os necessita a desistirem de seus humildades, e louváveis intentos. Aqui mesmo porém é para notar como a Providência dirige todas as coisas, e sucessos humanos, para a devida manifestação dos seus inefáveis acertos. Convinha, que os Jesuítas atravessassem desconhecidos e sem pompa os territórios do Patriarcado, e do Bispado de Leiria, até chegarem à primeira terra do Bispado de Coimbra, isto é, a Pombal, onde jazem os ossos do principal agente da sua extinção, e que aí começasse o desagravo solene do grande crime, que, a despeito dos melhores interesses da Religião, se havia perpetrado neste Reino, e suas Conquistas!

Já foi um Bispo de Coimbra o seu maior amigo, e principal defensor contra as envenenadas setas de inveja, e de maledicência, quando entraram pela primeira vez no Colégio das Artes; e tal predilecção mostrava por eles o Egrégio Padre de Trento D. Fr. João Soares, que, ao ver passar defronte do seu Palácio a grande multidão de Alunos da Companhia, exclamava "Hoc sunt castra Dei" ["este é o castro de Deus"] são estes Padres Jesuítas os Castelos, e Praças fortes do Catolicismo; e por isso também agora é um Bispo de Coimbra, o que mais se distingue em acolhê-los, e favorecê-los, a que dá solenissímas provas daquele amor aos Jesuítas, que o Historiador Pe. Franco chamou hereditário nos Prelados da Igreja Conimbricense; e o caso é, que nunca os Bispos tiveram por Coadjutora uma Ordem Religiosa, que mais direitos, ou brasões oferecesse para ser por eles apreciada, e favorecida. Daqui vem que me pareça bem achada a inscrição, que se lia em um dos arcos triunfais do Lugar de Condeixa: "Euntes ibant et fiebant; .. venientes autem venient cum exultatione". E com efeito os Padres da Companhia de Jesus tinham deixado Coimbra envolta em lágrimas, e suspiros, como de quem sabia, o que eles eram, e o que pediam; e eles próprios ao verem frustrados tantos bens espirituais, de que eram assíduos, e zelosos dispensadores, deixavam saudosos esta outra Sião, onde lhe ficavam as suas maiores delícias, quero dizer, esse Colégio das Artes, donde tinham saído tantos Apóstolos, e tantos Mártires, e onde jaziam as preciosas cinzas de um Sebastião Barradas, de um Luís da Cruz, e de um Cosme de Magalhães, e de tantos Varões assinalados na República das Letras... Voltam agora (e com que júbilo!) a esse como Solar das Virtudes, e das Ciências, porque foi o primeiro Colégio, que tiveram os Jesuítas no Orbe Católico; e se alguma coisa os pode magoar, ou entristecer, é o acharem nuas aquelas paredes, outrora adornadas com os Retratos dos Varões Apostólicos, que os honraram, e enobreceram para sempre... Assim mesmo recobrando a quarta, ou quinta parte do seu Colégio, encontram ainda, posto que já mui amortecidos, alguns Quadros das Acções principais do nono Avô do Senhor D. Miguel I, o Santo Borja, e que foram pintados no séc. XVII pelo jesuíta José Castiglioni....

Se ainda hoje vivesse algum dos Jesuítas expulsos de Coimbra em 1759, e voltasse agora ao seu antigo domicílio, por certo que se deixaria penetrar dos mesmos sentimentos, de que se possuíam os velhos de Israel, quando avistaram o segundo Templo de Jerusalém, tão diferente do primeiro em grandeza e magnificência... mas quem sabe se assim como o segundo Templo, sem embargo da sua pequenez relativamente ao primeiro, se avantajou a esta nas excelências, e na maior de todas as glórias, também este fragmento do Colégio das Artes fará ainda maiores serviços ao Catolicismo em Portugal, do que lhe fizeram os seus primeiros habitantes?

Tudo é possível a um Deus, que suscitou o homem da sua direita, D. Miguel I, para destroçar o Maçonismo, e restabelecer os Jesuítas.

Colégio do Espírito Santo em
Coimbra no dia sinalado de
22 de Fevereiro de 1832


Fr. Fortunato de S. Boaventura

01/02/16

A RESPEITO DE PARÓQUIAS - CONTRIBUTO HISTÓRICO

1 - Em tempos de D. Maria, resoluções territoriais para solucionar os casos das paróquias atingidas pelo terramoto.

D. Maria
a) "EU A RAINHA, Faço saber aos que este Alvará virem: Que sendo-me presente o Plano da Divisão, e Translação das Paróquias da Cidade de Lisboa, a que procedeu o Ilustríssimo, e Reverendíssimo em Cristo Padre Cardeal Patriarca, meu como Irmão muito prezado, em execução das Letras Apostólicas do Santo Padre Bento XIV, que começam "estis Ecclesiarum" expedidas à Real Instância de ElRei Meu Senhor, e Pai em 19 de Agosto de 1756; e pelas quais se lhe concedeu toda a necessária Jurisdição, para que aquelas Paróquias, Colegiadas, e outras quaisquer Igrejas Seculares, que se achassem arruinadas, ou situadas em lugares, que servissem de detrimento aos seus Paroquianos, se transferissem para outros lugares mais cómodos, próprios, e mais descentes: E havendo-me constado por seguras Informações, que o sobredito Plano se acha distribuído de maneira, que cada um dos Párocos pode conhecer distintamente as suas Ovelhas, nutri-las com o Pasto Espiritual, e acudir-lhes com o frequente socorro, e pronta administração dos Sacramentos, que são os objectos substanciais, e indispensáveis das Fundações, e Translações das Igrejas Paroquiais, e Moradores da Cidade de Lisboa, pelo que me pertence, como Soberana, como Protectora, que sou da Igreja, e Defensora dos Sagrados Cânones: Hei por bem, e me apraz aprovar, e confirmar, como aprovo, e confirmo, o referido Plano em todas as suas partes, cláusulas, e expressões, da maneira que nele se contem, e como se de cada uma delas fizesse expressa, especial, e específica menção: E Mando a todas as Pessoas, às quais o conhecimento, e execução do mesmo Plano, e o cumprimento deste Alvará houver de pertencer, que o cumpram, guardem, façam cumprir, e guardar inteira, e inviolavelmente: E quero que ele venha como Carta feita no Meu Real Nome, e como se passasse pela Chancelaria, posto que por ela não haja de passar, e o efeito dele deva de durar mais de um, e muito anos, sem embargo das Ordenações, que o contrário determinam. Dado no Palácio de Nossa Senhora da Ajuda em 19 de Abril de 1780. Com assinatura da Rainha, e do Ministro."

b)
Plano de Divisão e Trasladação das paróquias a que se refere o Alvará antecedente.

"Ferdinandus I Miseratione Divina Cardinalis Patriarcha Lisbonensis: A todas as Pessoas Eclesiásticas, e Seculares, que estas nossas Letras virem, saúde, e bênção. Fazemos saber, que sendo presente à RAINHA Minha Senhora, que a divisão, e mudança de limites das Paróquias da Côrte, e Cidade de Lisboa, a que se procedeu no ano de 1770, em virtude da Carta Régia de 18 de Dezembro de 1769, se achava incompleta, oferecendo-se por essa razão um decente, e proporcionado meio para se remediarem alguns inconvenientes, que a prática, e a experiência mostrava haverem na sobredita: Querendo a mesma SENHORA concorrer pela sua parte, para que se concluísse, e fizesse uma nova divisão das Paróquias de Lisboa, por se terem arruinado, e confundido os distritos de umas com o Terremoto dos primeiro de Novembro de 1755, e crescido a povoação de outras em grande número de Almas: Foi a mesma SENHORA servida significar-nos, que sendo este negócio da Nossa competência, e Jurisdição, a podíamos pôr em exercício, para que regulando-se com justa, e possível proporção os limites das referidas Paróquias, crescessem os inconvenientes, que se encontravam: E desejando Nós conformar-nos em tudo com as Piíssimas Intenções da RAINHA Minha Senhora: Houvemos por bem nomear ao Cónego Manuel Joaquim da Silva, Juiz Apostólico, e Comissário Delegado da Bula "Esti Ecclesiarum" expedida pelo Santo Padre Bento XIV sobre a reedificação, e colocação das Paróquias, e Igrejas desta Cidade, com o Régio Beneplácito da mesma SENHORA, para assistir a esta divisão, que Mandamos fazer, delegando nele todos os poderes necessários: E depois de serem vistos, e confontados os terrenos, ouvidos os Párocos, que prestaram os seus consentimentos, excepto os Priores de S. Julião, de S. José, e alguns mais, que duvidaram assinar as respectivas divisões das suas Paróquias, com fundamento menos sólido, e razões inatendíveis, por não se lhes tirarem, ou desmembrarem frutos alguns reais, nem dízimos prediais; mas tão somente os pessoais, e sacramentos em tão pouca quantidade, que sendo umas Paróquias tão cheias de Fogos, e Pessoas, fica menos ponderável o prejuízo, que alegam; por isso usando da Autoridade, que nos compete em caso tal, sem embargo das impugnações, e dúvidas insignificantes dos referidos Párocos, assinamos para distrito de cada uma das Paróquias de Lisboa o seguinte.

[uma das muitas paróquias:]

Freguesia de S. Bartolomeu

O Distrito desta Paróquia, que foi transmutada para o sítio da Igreja de S. bento de Xabregas dos Cónegos Seculares da S. São Evangelista, começará no largo do Poço do Bispo da parte Ocidental: retrocederá à mesma Igreja, donde irá buscar a Cruz das Veigas, e daí por uma, e outra parte seguirá a Estrada, pela qual agora vai sair à Fonte do Loiro, e daqui ao largo do Poço dos Mouros; e discorrendo pela Estrada, (da parte do Norte) que passa junto à Quanta, que foi dos Padres Jesuítas, e hoje é de José Leitgeb, sairá pelo lado setentrional da Travessa, que está junto ao Arco da Cuz da Pedra na Rua da Madre de Deus, Xabregas, Grilas, a finalizar no dito largo da Igreja, onde começou; pertencendo-lhe juntamente tudo o mais, que se compreende no Vale de Chelas, Fonte do Loiro até à Cruz do Almada, e quando fica dentro dessa demarcação - Com a Rública do Cardeal Patriarca.
Concelho neste mapa: O Pároco Luís Miguel Coelho de Albernaz.
Desta Paróquia se restituiu à de Santa Maria dos Olivais a Rua direita de Marvila, ficando com o mais distrito, que se lhe deu no ano de 1770.
Conta 380 Fogos, e 1$500 Pessoas, com pouca diferença.

c) Sendo-Me presente, que em algumas das Paróquias do Arcebispado de Braga, e do Bispado do Porto, tinha intentado uma parte dos Paroquianos eximir-se das prestações, com que os seus Antecessores, e eles mesmos por antigo uso e costume socorriam aos seus Párocos, e tais como as chamadas Obradas, ou Oblatas, as espotulas dos Baptizados, Funerais, e bens de alma, e outras desta natureza: Fui Servida mandar-Me informar individualmente sobre a justiça, e equidade destas prestações, para as mandar considerar, e resolver sobre elas o mais justo, em benefício comum, e recíproco das Igrejas, dos Párocos, e Paroquianos; e em quanto sobre estes princípios não dou a decisiva providência: Dou outro sim Servida ordenar provisionalmente, que as ditas prestações se continuem como até agora, sem que em Juízo, nem fora dele se admitam questões possessórias, ou plenárias, dirigidas à inspecção ou modificação das ditas prestações, por todas dependentes da dita providência decisiva, que me proponho dar com conhecimento de causa; e sem que haja atenção a despachos, ou sentenças, que a respeito do referido se tenham proferido no possessório. A Mesa do Desembargo do paço o tenha assim entendido, e faça observar, expedindo os despachos necessários às Justiças a que tocar. palácio de Lisboa em 30 de Julho de 1790. (Com a Rúbrica de Sua Majestade)"

2 - Sessão de 4 de Setembro das "Côrtes Constitucionais", 1822:

"[...] Os bispos despojados da sua autoridade reclamaram quase todos a sua jurisdição, e aqueles que o não fizeram suportaram em silêncio este golpe fatal, com uma restrição que se lhe pulha no seu episcopado. A disciplina da Igreja perdeu desde então a sua pureza e unidade; os fiéis fugiram para os templos dos religiosos deixando de frequentar as suas paróquias; os párocos não puderam mais conhecer as suas ovelhas; a administração dos sacramentos foi partilhada com os religiosos dos diversos institutos, e principalmente dos mendicantes que tomaram por timbre coadjuvar os párocos; porém isto deu lugar à incúria e ignorância dos párocos que deixaram de se habituar para poderem administrar os sacramentos, e a palavra divina com o devido conhecimento da doutrina cristã, e do moral; e os povos, debaixo da aparência de muitos coadjutores de párocos, sofreram a cada passo a falta do pasto espiritual, porque estes coadjutores voluntários lho não prestavam na ocorrência das suas precisões, e quando lho administravam se ressentiam sempre da mão estranha porque o recebiam. Os varões mais virtuosos e esclarecidos levantaram a voz contra estes males. S. Francisco ordenou expressamente aos filhos da sua regra, que nunca pedissem isenções da Sé Apostólica, e que praticassem sempre os deveres de seu instituto debaixo da obediência e jurisdição das autoridades competentes eclesiásticas e civis. [...] O episcopado é obra divina, e não humana; a sua jurisdição é divina; a disciplina da Igreja com justa razão a circunscreveu a territórios marcados dentro dos quais houvesse um rebanho suficiente para um Bispo; mas eximir da jurisdição do Bispo parte do rebanho existente na sua diocese, é uma operação ofensiva dos direitos do episcopado, que nunca jamais pode ser legítima com quantas bulas a queiram cobrir. O bispo deve dar contra de todo o seu rebanho, e todo o seu rebanho é obrigado a obedecer ao seu pastor: o bispo não pode eximir-se daquela sua obrigação, e também não há poder na terra que lha possa restringir, ou diminuir o direito preciso para ele a preencher. Vieram finalmente os padres de Trento, conheceram os abusos, e os males que resultavam do estado em que se achavam as corporações regulares, que era com pouca diferença o mesmo em que agora se acham."

17/08/15

SIM, SIM... AS CÔRTES DE LAMEGO

Gravura de 1786 da Rainha D. Maria, com registo das Côrtes de Lamego.





16/06/15

PORTUGAL CATIVO, E A RESISTÊNCIA TIMORENSE


Enquanto Portugal se encontra no cativeiro dos republicanos, por vezes aparecem-nos "retratos familiares" inesperados desde os lugares onde nem mesmo a anti-civilização destes tempos consegue chegar com força.



Em Timor guardamos algumas bandeiras de Portugal desde o séc. XVIII, trajes de autoridade militar, e documentação régia. Tudo leva a crer que se trata da guarda da autoridade conferida pela Coroa Portuguesa às autoridades de Timor, ou seja, às monarquias de Timor unidas sobe a Coroa Portuguesa. Aos chefes destas monarquias lhes chamam Liurai.


O Liurai Mao Pelo é um destes chefes que guarda honradamente a bandeira, uniforme, e documentação (incluindo alvará régio), elementos de grande prestígio que vão sendo transmitidos de geração em geração ao mais velho dos filhos que não abandone a aldeia.


O uniforme, do séc. XVIII é azul escuro, pouco gasto para o que se poderia exigir, com galões de ouro, e duas faixas carmesim cruzadas no peito (estas são iguais às que colocam na Imagem de S. António de Lisboa como chefe das nossas tropas). Há ainda dois bastões com cabo em ouro muito bem trabalhado. Os botões têm as armas portuguesas.


"Mas é quase um milagre que algo do século XVIII, que já esteve escondido em buracos em vários pontos de Timor-Leste, ainda esteja neste estado. Ou que sequer exista. Como é ainda mais milagroso que tenha sobrevivido, apesar do mau estado em que já se encontra, o que chama aqui os mais curiosos: uma bandeira de D. Maria I, enviada para Timor-Leste e que tem sido guardada, ao lado de vários documentos, esses ainda em pior estado, incluindo um alvará real." (Agência Lusa)

n


A maçonaria, à qual pertence Ramos Horta, está a trabalhar para que tudo isto fique confundido com um mero "culto à bandeira de Portugal", no qual inserem situações diferentes que permitam fazer a ponte com a bandeira republicana.

19/04/15

OS NOTÁVEIS DESACATOS OCORRIDOS EM PORTUGAL (IV)

(continuação da III parte)

Empregadas todas as diligências para o descobrimento dos delinquentes, ficaram compreendidos quatro. Francisco Rodrigues, Manuel da Silva, João Baptista Cardoso, e José António da Luz. Foram sentenciados por Acórdão de 17 de Maio de 1780: os primeiros três a serem arrastados com braço e pregão até ao Campo de Santa Ana, e ali serem-lhe cortadas as mãos em vida, e queimadas, e depois morrerem de garrote, e ultimamente serem seus corpos queimados, com perda de todos os seus bens para a Irmandade do Santíssimo Sacramento da Freguesia, onde cometeram o delito. O último réu, que tinha ficado fora a vigiar armado, em quanto se fazia o roubo, foi condenado a ser enforcado, e cortada a cabeça, para ser posta no lugar do delito, e em cem mil réis para as despesas da Relação.

A Rainha Fidelíssima, a Senhora D. Maria I, imitando a piedade e zelo dos seus Augustos Predecessores, deu muitas providências para o descobrimento dos delinquentes; e, para desagravar a Jesus Cristo, ofendido na sua mesma Divina e Adorável Presença, fez muitas demonstrações, e actos religiosos de sentimento.

Ordenou ao Senado da Câmara que assistisse a uma Procissão de Desagravo, assim como toda a Côrte, e que se observasse um rigoroso luto para nove dias, cujos se acabaram no dia da Procissão, a que foram Suas Majestades (Aviso de 23 de maio de 1779).

Ordenou que a Igreja Matriz da Vila de Palmela se cantasse anualmente uma Missa em Desagravo do Santíssimo Sacramento pelo desacato ali cometido (Aviso de 11 de Maio de 1781).

Igreja Matriz de Palmela
Aqui [se verá] que no decurso de quatrocentos e dezassete anos, que tantos vão desde 1362 até 1779, só se viram em Portugal cinco desacatos. Feliz Reino, ditoso Povo, onde a Religião, e a impiedade não impera!

Não é possível na brevidade do meu intento dar ao público uma exacta notícia de todos os desacatos cometidos neste Reino desde 1779 até ao presente; porque têm sido tantos, e tão frequentes, que por si somente fariam um grande volume. Mas não deve admirar-se, se nos recordarmos que tudo isto são efeitos da primeira explosão da impiedade no Reino de França. as doutrinas anti-religiosas e anti-sociais, que tanto se têm propagado, a desmoralização dos povos, e o fanatismo da liberdade, são a origem funesta de tantos crimes, e tão horrendos atentados contra a Religião, e contra aquilo que nela há de mais sagrado.

Contento-me pois em dar ao público a notícia dos três últimos, acontecimento no decurso de poucos meses; e com isto fecharei a boca à torrente da impiedade, que raivosa, e exasperada por ver os frequentes actos de Religião, com que os verdadeiros Portugueses pretendem desagravar a Jesus Cristo, quer persuadir às almas piedosas, e simples - que a história dos desacatos é falsa, e que são invenções do fanatismo para iludir os povos, e fazer-lhe criar ódio contra o Rei, e seus Ministros.

Desengane-se pois o Mundo todo, de que a impiedade e filosofia do século só no meio da intriga, e da cavilação pode propagar suas ideias, e concluir seus projectos. Vejamos pois a história dos desacatos.


Na noite da antevéspera de Natal do ano passado de 1824 foi roubada a Igreja da Colegiada de Santa Maria de Alcáçova da Vila de Monte-mór o Velho, situada no centro do Castelo da mesma Vila. Entraram os malvados pela torre, subindo aos telhados pela parte mais baixa; arrombaram algumas portas do interior, e a do Sacrário, donde tiraram o Vaso Sagrado, despejaram as Sagradas Formas sobre o Altar, e as cobriram com a toalha; levando ao mesmo tempo uma rica Imagem de Jesus Cristo Crucificado, que estava na Sacristia. Não se sabe por ora quem foram e quantos os cúmplices deste delito, apesar das devassas, e averiguações que sobre este facto se têm feito.

Igreja de Sta. Maria da Alcáçova, dentro do castelo de Montemor-o-Velho
Informado disto, D. Fr. Joaquim da Nazaré, fez convocar os Párocos e Eclesiásticos daquela Vila e suas vizinhanças, e os Pais de família com seus filhos desde oito até doze anos, e fez uma pública Procissão de Penitência, acompanhando ele mesmo este acto com os pés descalços, e hábitos de humilhação!!! Ao outro dia se fez uma Festa de Desagravo, em que o mesmo Religioso Prelado fez uma Homilia análoga às circunstâncias; subindo ao púlpito o seu Secretário, que prégou sobre o mesmo objecto.


Sucedeu na noite de vinte e dois para vinte e três de janeiro deste ano na Igreja de S. Pedro de Queimadela, Arcebispado de Braga. Arrombaram os agressores o Sacrário, donde levaram o Vaso de prata, em que estavam as partículas consagradas, sem que aparecesse uma só, assim como uma Hóstia consagrada em maior forma, que ali ainda se conservava, depois de ter servido para a Exposição na Festividade de S. Sebastião, no dia 20 do mesmo mês de Janeiro. Roubaram igualmente dois Cálices, um todo de prata, e outro só com a cúpula dela, duas Patenas, uma Colherinha, e Chave do Sacrário, e duas Coroas de prata de Imagens de Nossa Senhora, que tudo estava fechado num armário na parede da Sacristia.

ElRei Nosso Senhor, cuja piedade é bem pública e notória, querendo desagravar a Divina majestade ofendida, e castigar os iníquos agressores de tão horrendo desacato, ordenou ao Corregedor do Crime da Cidade do Porto fizesse as mais exactas averiguações, prometendo prémio a quem denunciasse os criminosos (Carta Régia de nove de Fevereiro de 1825).


Na tarde de 7 de Março do corrente ano, das seis para as sete horas, na Capela de Nossa Senhora da Lapa, sita no Campo de Santa Ana da Cidade de Burgos, onde tinha estado Exposto naquele dia o Santíssimo Sacramento em Lausperene, no momento em que o  Sacerdote tirava da Custóodia a Hóstia consagrada, para a depositar no Vaso sagrado, e recolher ao Sacrário; quando o povo todo de joelhos fazia em profunda reverência a sua adoração, foi vista com geral espanto ser lançada uma porção de lama ou imundicia em direcção ao centro do Altar, que manchando em parte os Corporais, a Toalha do Altar, a Murça e Sobrepeliz do Sacerdote, a Sacra do lado do Evangelho, uma parte da Banqueta, e Cortina do mesmo Altar, não chegou a tocar, e ofender contudo, pela Divina Providência, nem a Hóstia sagrada, nem a Custódia, nem o Caso sagrado.

Um tão sacrílego, inaudito, e horroroso atentado tocou vivamente o coração de todos, e o do nosso amável Rei, que para descobrir o malvado e nefando autor de tão enorme sacrilégio, ordenou aos seus Ministros que procedessem a todas as diligências possíveis para o castigar como merece (Carta Régia de 16 de março de 1825).

A tal ponto tem chegado a impiedade, a ireligião, e o desprezo daquilo, que a nossa Santa Religião tem de mais respeitável!

Apesar disso ainda existem neste Reino verdadeiros Católicos, e amantes da Religião. Sucessivamente, depois destes desacatos, se têm observado por toda a parte públicas demonstrações de sentimento, para desagravar a Divina Majestade ofendida; sobre tudo nesta Capital, onde se tem observado, para confusão dos ímpios, repetidas Provisões de Penitência, Tríduos, e Festas de Desagravo, tendo eu mesmo sido por muitas vezes o intérprete dos sentimentos do público, prégando em diversas Igrejas desta Capital, sendo uma delas a Paroquial Igreja de Santa Isabel Rainha de Portugal, onde, no dia 17 de Abril, préguei os seguinte Discurso:

(continuação, V parte)

15/04/15

OS NOTÁVEIS DESACATOS OCORRIDOS EM PORTUGAL (III)

(continuação da II parte)


Sé do Porto
Aconteceu na Sé da Cidade do Porto (Refere este caso Gabr. Per. de Carv. De Man. Reg. P 2ª Cap. 53 n. 24 fol. 331) em 11 de Maio de 1614. Foi roubado do Sacrário o Sagrado Vaso com as Sagradas Fórmulas. Nunca pôde ser descoberto o executor do delito.

Fez-se por este motivo uma grande Procissão de Penitência de noite, em que foram descalços o Bispo D. Gonçalo de Morais, e o Governador, que então era das Justiças, Diogo Lopes de Sousa 4ª da Relação daquela Cidade (ó tempos, ó costumes). Semelhantes demonstrações de desagravo se fizeram em Lisboa, Coimbra, e por todo o Reino.


Sucedeu em Lisboa, na Freguesia de Santa Engrácia, na noite de 15 de Janeiro de 1630. Foi arrombado o Sacrário, e roubadas as Sagradas Formas de um Cofre de tartaruga guarnecido de prata, e de um Vaso também de prata sobre-dourado; e roubados também alguns ornatos dos Altares.

O réu, que se supôs deste delito, foi sentenciado a ir arrastado pelas ruas públicas até ao lugar, onde cometeu o crime, a serem-lhe ali cortadas as mãos, e queimadas à sua vista; e depois ser ele queimado vivo, e as cinzas lançadas ao mar.

Por este motivo se instituiu uma Irmandade composta de cem Irmãos, da principal Nobreza da Côrte, com o título de Escravos do Santíssimo Sacramento, que costumam fazer todos os anos um Tríduo na Real Capela da Ajuda, e costuma também ElRei assistir à Festa do primeiro, e último dia.


Aconteceu na Igreja da Freguesia do Santíssimo Nome de Jesus de Odivelas, na madrugada do dia 11 de Maio de 1671, tempo da Regência de ElRei D. Pedro II (Refere este caso o Advogado, que foi nomeado para defender o réu, Manuel Alves Pegas, no seu Tratado Histórico, e Jurídico).

Foi arrombado o Sacrário, e foram roubados dois Vasos Sagrados, um de prata sobre-dourada, com as Fórmulas consagradas, e outro de prata lisa. Foram roubadas outras muitas coisas, e ornamentos das Imagens dos Santos, e Altares.

Por Decreto do Príncipe Regente, foi nomeado para Juiz da devassa deste delito o Regedor das Justiças, Conde de Vilar maior, e Escrivães os Desembargadores Diogo Marcão Temudo, Corregedor do Crime da Côrte, e João Leitão de Andrade. Descobriu-se o delinquente, e foi condenado a ser arrastado pelas ruas públicas até à Praça do Rossio, e ali depois de cortadas as mãos em vida, e queimadas à sua vista, morrer de garrote, e seu corpo reduzido a cinzas.

Por este motivo se fizeram muitas demonstrações públicas, e Procissões de Penitência, e Desagravo. A primeira foi desde a Sé até à Freguesia de Santa Engrácia, em que foi o Príncipe Regente, toda a Côrte, o Clero, e todas as Comunidades Religiosas. Seguiram-se Procissões semelhantes em todas as Freguesias de Lisboa, e outros muitos actos públicos de piedade, e Religião.

E 16 de Junho do mesmo ano foram achados casualmente no caminho de Odivelas para Lisboa, no silvado de uma vinha os dois Vasos Sagrados embrulhados num lenço, e um embrulho com muitos dos ornamentos roubados, o que tudo foi levado ao Juiz da devassa.

Fizeram-se novas diligências, tendo-se já feito muitas, e prometido o Príncipe Regente grandes prémios a quem descobrisse o delinquente; mas tudo em vão, até que na noite de 16 de Outubro, sentindo uma criada do Mosteiro de Odivelas andar gente na cerca, pelas dez para as onze horas da noite, deu parte, chamaram-se os Religiosos, e criados do Mosteiro, que fica contíguo ao das Religiosas, entraram na cerca, e encontraram um homem, que declarou ter entrado com intento de furtar galinhas, como já tinha feito mais vezes. Foi preso, e sendo buscado pela Justiça, entre outras coisas que se lhe acharam, foi dentro de uma bolsa com algum dinheiro, uma Cruz de prata dourada, embrulhada num papel, que, sendo reconhecida, achou-se ser aquela, que fôra quebrada do Vaso do Sacrário.

O que tudo sendo levado ao Conde Regedor, e fazendo-se exame judicial da Cruz com o Vaso por dois Ourives, se achou ser a mesma que ali faltava; e por este indício se presumiu ter sido este preso o autor do roubo. Acharam-se depois num embrulho de fato do mesmo réu o resto dos ornamentos roubados, que ainda faltavam; e fazendo-se-lhe perguntas, suposto negou ao princípio, veio por fim a confessa ter sido o autor, e perpetrador daquele roubo, por cuja confissão foi condenado na forma que já se disse.

Em 1744 um devoto, chamado António dos Santos, erigiu um Oratório, em memória deste acontecimento, no sítio onde apareceram os Vasos Sagrados, cujo se chama hoje o Senhor Roubado.


Sucedeu na Vila de Palmela, na Igreja da Freguesia de Nossa Senhora do Castelo, que hoje existe na Ermida de S. João Baptista, extra muros da mesma Vila.

Eis aqui o caso, conforme a conta, que deu o Presidente do Real Convento, e Ordem de Palmela, Clemente Monteiro Bravo, à Rainha Fidelíssima a Senhora D. Maria I:

"Senhora,
na noite de 13 do corrente mês de Maio, dia da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo, para o dia 14, a Ermida denominada de S. João Baptista, fronteira a este Convento, e contígua a esta Vila, que há muitos anos serve de Freguesia de Santa Maria, Matriz da mesma; se achou roubada, segundo dizem, por três ladrões, que espoliando-a quase de toda a prata, e alfaias, e por ela difundindo os Santos Óleos, deixando as Âmbulas com as bocas em terra, passaram ao horrendo atentado de abrirem o Sacrário, donde levaram um Cofre com uma Hóstia, e cinco Fórmas consagradas, nele depositadas, e uma Pixide com cento e três Partículas consagradas, deixando além disso muitas dispersas pelo altar do mesmo Sacramento. Peço a V. Majestade a sua Real Resolução, com a brevidade que o caso pede, para a minha última, e acertada determinação. Convento Real de S. Tiago da Espada de Palmela 15 de Maio de 1779.
O Presidente do Real Convento da Ordem de S. Tiago: Clemente Monteiro Bravo."

(continuação, IV parte)

07/09/14

ACLAMAÇÃO DE D. MARIA I (III)

(continuação da II parte)


Acabada a religiosa cerimónia do juramento, que o Visconde de Vila Nova da Cerveira declarou Sua Majestade a Raínha aceitar, imediatamente o Alferes-mor do Reino, o Conde de S. Lourenço, com a bandeira real desenrolada, disse em voz alta:

"Real, real, real, pela muito alta, muito poderosa, a Fidelíssima Senhora Raínha D. Maria I Nossa Senhora".

Repetiram logo estas palavras os reis de armas, arautos, passavantes e todos os que se encontravam na Varanda, ao mesmo tempo que começaram a soar os instrumentos dos ministres, tímbales, clarins, charamelas e trombetas.

Feito êste primeiro auto, dirigiu-se o Conde de S. Lourenço ao balcão do meio da galeria que dominava a praça e repetiu a cerimónia da aclamação.

O que foi o entusiasmo do povo, nesse momento solene, não se pode descrever. Salvaram as peças de artilharia do Castelo, das Torres e das naus, repicaram os sinos da Sé e das demais igrejas da cidade; mas acima de tudo ouvia-se a vozearia do povo soltando incessantes vivas à amada Soberana que tão esperançosamente deu comêço ao seu reinado por actos de clemência, de justiça e de liberdade.

Era tal o delírio da multidão que, sem respeito pelas ordens dadas, ultrapassou os cordões da tropa que estava formada e invadiu a Varanda. Quiseram expulsá-la fora; porém, Sua Majestade a Raínha, com a sua infinita benignidade, deu ordem para que deixassem passar quem quisesse. Então, gente de todas as condições se precipitou sôbre a Raínha e, de joelhos, a beijar-lhe a fímbria do vestido e do manto real, nem a deixavam caminhar. Sua Majestade porém, que até ali se conservara melancólica, mostrou um sorriso de satisfação e, por fim, estava tão comovida que os olhos se lhe encheram de lágrimas.

Foi o momento mais belo das festas de ontem.

Todos afirmam que não há memória de Rei português aclamado com mais vivas de alegria nem maiores esperanças. E o Embaixador de Espanha dizia-me, à saída, que não podia haver Monarca mais aplaudido e mais amado do que era a Raínha Nossa Senhora."

06/09/14

ACLAMAÇÃO DE D. MARIA I (II)

(continuação da I parte)

D. Maria I
Com a autorização por escrito que me deram os Srs. Conde da Ponte, a quem fôra cometida a inspecção da varanda, e Conde de Resende, capitão da Guarda Real, para circular livremente por toda a parte, pude presenciar de perto todos os aspectos da imponente cerimónia que ia realizar-se.

Ao aparecer a Rainha Nossa Senhora na entrada da galeria, a alegria e o entusiasmo que se manifestaram entre os convidados transmitiram-se à multidão do povo que se aglomerava no Terreiro do Paço, se estendia pelas ruas próximas, pejava as janelas e os telhados e se debruçava até de bordo das embarcações que juncavam o rio de mil cores; e os vivas à nossa amada Soberana pareciam não ter fim.

Mas, por entre a plebe convulsionada, houve quem soltasse este grito:

- "Pombal! Pombal! Morra Pombal! Morra!"

Não foi preciso mais para que tal imprecação se estendesse a toda a populaça, que, dentro em pouco – excitada pelo ódio ao antigo Ministro, e recordando-se dos milhares de vítimas que durante o seu governo apodreceram nas masmorras ou saíram delas estropiados e meio mortos, quando a Rainha, logo após a morte de El-Rei seu pai, que santa glória haja, mandou soltar todos os presos de Estado que ainda se encontravam nas enxovias – começou a gritar, pelas praças e ruas próximas:

- "Morra Pombal! Morra! Morra!"

Corri a ver até onde iria a excitação popular.

Parece que se previam estas arruaças e que tinham sido dadas ordens para se reprimir qualquer manifestação, porque logo um oficial do exército, à frente do seu pelotão de cavalaria, correu de um lado ao outro a ameaçar que castigaria severamente aqueles que continuassem a perturbar a alegria daquela festa com gritos de rancor e de morte.

Sossegou imediatamente o povo; e como o cortejo desfilasse junto à parte exterior da Varanda para poder ser admirado por todos os que se encontravam na Real Praça do Comércio, tudo ficou absorto naquele espectáculo deslumbrante e só teve depois manifestações de simpatia e de louvor.

Chegando as Suas Majestades diante do trono, descobriu-se El-Rei Nosso Senhor, e, com o chapéu na mão direita, saudou a Sereníssima Princesa do Brasil e as reais Infantas, que estavam numa tribuna com o Em.mo Cardeal da Cunha, que, como se sabe, a-pesar-da sua dedicação ao novo estado das coisas, a Rainha, há poucos dias, dispensou de se apresentar no Paço. Depois, o Conde da Calheta descobriu as duas cadeiras em que Suas Majestades de sentariam.

Aproximou-se o Marquês de Tancos e ofereceu à Rainha Nossa Senhora o Cetro de oiro esmaltado, que lhe ministrara em grande prato de prata doirada o tesoureiro da Casa Real, João Inácio Holbeche. Todos tomaram seus lugares, embora conservando-se de pé, como manda a etiqueta. Então o Doutor José Ricalde Pereira de Castro, do Conselho de Sua Majestade e desembargador do Paço, subiu ao estrado para proferir a fala da aclamação:

- "Ouvide! Ouvide! Ouvide! Estai atentos!" - disse o Rei de Armas Portugal; depois do que o doutor José Ricalde começou a recitar a sua notável oração, que amanhã reproduziremos na íntegra.

Finda que foi a fala, passou-se à cerimónia do juramento.

Ajoelhou-se a Rainha sobre uma rica almofada de lustrina carmesim e na sua frente ajoelharam o Em.mo Patriarca Eleito e os Bispos de Elvas e Penafiel; e, pondo Sua Majestade a mão direita sobre o Missal e o Crucifixo que o Patriarca sustentava, proferiu a fórmula do juramento, que é a seguinte:

- Juro e prometo, com a graça de Deus, vos reger e governar bem e direitamente, e vos administrar direitamente a Justiça, quanto a humana fraqueza permite, e de vos guardar vossos bons costumes, privilégios, graças, mercês, liberdades e franquezas, que pelos Reis meus predecessores vos foram dados, outorgados e confirmados.

A seguir prestaram juramento de peito e homenagem o Sereníssimo Príncipe D. José, o Infante D. João, que ontem completou 10 anos, e o Duque de Cadaval (aos quais fôra dispensada a menoridade), o Conde da Ponte, como Mordomo-mor de El-Rei, os Marqueses, Condes e mais títulos, Secretários de Estado, Prelados, Ministros dos Tribunais, Alcaides-mores, Monsenhores, Cónegos, Oficiais-mores, etc., que, por esta ordem, foram beijando a mão de Sua Majestade.

(a continuar)

03/09/14

ACLAMAÇÃO DE D. MARIA I (I)

Antes da transcrição que segue, será oportuno dizer que a aclamação de um Rei legítimo, em monarquia tradicional (necessariamente católica, não constitucional, não liberal), não é o fazer ou o legitimar de um Rei, mas sim o reconhecimento público da sua legitimidade.

Aclamação de D. Maria

"Lisboa, 14 de Maio de 1777

Dia sob todos os aspectos formosíssimo foi o de ontem em Lisboa. As ruas inundadas de forasteiros, o Tejo coalhado de embarcações embandeiradas; alegria em todos os rostos, animação por toda a parte. Há quantos anos se não respirava tamanha felicidade nesta capital?

Quando chegámos ao Terreiro do Paço já nêle se comprimia uma multidão de gente das mais variadas condições, não só de Lisboa e arredores, mas vinda de terras mui distantes para presenciar a grande solenidade da Aclamação e as festas que se vão seguir. Quatro regimentos de infantaria se formam em batalha, na dita real praça, fazendo frente para a varanda.

Esta, onde teve lugar a cerimónia, é uma obra magnificente, erguida onde eram os antigos Paços da Ribeira. Delineou o seu risco felicíssimo oSargento-mor Mateus Vicente de Oliveira e compõe-se duma galeria com vinte e oito arcos, rematada ao norte e sul por dois corpos de nobre arquitectura com escadarias repartidas em tabuleiros por onde se sobe para a Varanda. Mede essa galeria 478 palmos de comprido por 75 de largo e está adornada exteriormente com figuras alegóricas, troféus, medalhões e festões de seda de soberbo efeito, e interiormente com sanefas de veludo carmesim franjadas a oiro, alcatifas de França de riquíssima qualidade e painéis no tecto de surpreendente pintura.

Ao fundo da galeria, o trono para Suas Majestades ornado de seda e talha sobre-doirada, de tão primoroso artifício que não se torna possível descrevê-lo.

Eram quatro horas da tarde quando se formou o cortejo real que, atravessando várias salas, acompanhou as Majestades até o trono onde ia realizar-se a solene função.

Vinham à frente os Porteiros da Cana, uns com canas nas mãos, outros com maças de prata aos ombros. Seguiam-se os Reis de Armas, arautos e passavantes, com suas ricas cotas de armas, e logo os moços da Câmara, os moços fidalgos, o Corregedor do Crime da Côrte e Casa e, após estes, todos os grandes títulos em duas alas – Barões, Viscondes, Condes, Principais, Bispos, Arcebispos e os Marqueses com os oficiais da Casa Real no meio, todos com as suas insígnias. Depois os Secretários de Estado: Ex.mos Viscondes de Vila Nova da Cerveira, Martinho de Melo e Castro e Aires de Sá e Melo, o Duque de Cadaval, o Em.mo Patriarca eleito, capelão-mor, o Conde de Óbidos, meirinho-mor, com sua vara na mão, o Conde de S. Lourenço, alferes-mor, com o Estandarte Real enrolado, o Senhor Infante D. João, vestido em corpo, fazendo de Condestável, com o estoque levantado, seguido do Conde de Val de Reis; e o sereníssimo Príncipe D. José, vestido de capa e volta, acompanhado do seu camarista D. Francisco Xavier de Meneses Breiner, ambos descobertos. Imediatamente a seguir vinha El-Rei, em grande cerimónia, vestido de terciopelo com riscas cor de fogo, bordado a lantejoulas e cautilhos, coberto de chapéu por dois lados desabado com adorno de plumas brancas e presilha de preciosíssimos brilhantes. Dos ombros pendia-lhe a opa roçagante de lhama de prata recamada a oiro, cuja cauda pegava D. Pedro da Câmara, seu Estribeiro-mor.

Coroava êste magnífico e luzido acompanhamento a Rainha Nossa Senhora, riquíssimamente vestida com manto de tafetá tecido com fio de prata e recamado de lantejoulas; o peitilho era todo guarnecido de flores de brilhantes de excessivo preço e admirável artifício, sôbre o qual pendia de fita vermelha a Cruz da Ordem de Cristo composta de brilhantes-diamantes de pasmosa grandeza. O toucado fingia uma coroa imperial tecida de jóias do mais subido valor e cingia-lhe a régia fronte com tal arte que figurava ser uma só pedra sem semelhante na preciosidade e bom gôsto. O manto real, que lhe caía dos ombros, era de volante carmesim tecido a prata e guarnecido pelas extremidades com rendas de oiro. No corpo do manto viam-se, dispostos em proporcionadas distâncias, cento e vinte castelos com reais quinas, tecidos a oiro.

Servia de braceiro a sua majestade, o Senhor D. João, seu Mordomo-mor; acompanhava-a do lado esquerdo o Marquês de Tancos, e pegava-lhe na cauda do mando a Marquesa de Vila Flor, Camareira-mor. Fechavam o cortejo as damas de honor: Condessas de Galveias e de Lumiares, e mais oito damas todas vestidas à imperial, com seu adorno de ricos adereços e preciosas flores de diamantes.

(continuação, II parte)

15/08/14

Sto. ANTÓNIO E OS NOSSO REIS - Nota Breve

Sto. António com a banda
de Oficial Superior do Exército de Portugal
Reis de Portugal:

D. Sancho II: imitou Sto. António e vestia o habito franciscano, como o registam pinturas deste rei;

D. Dinis: propagou a devoção de Sto. António de Lisboa depois do milagre em Santarém (da mulher que se ia afogar no rio Tejo);

D. Afonso V: Dedicou a Santo António de Lisboa a a armada Real, impôs o nome do santo lisboeta à nau principal da dita armada (esta nau foi enviada a socorrer Constantinópla);

D. João II: Edificou a igreja de Sto. António no lugar onde este santo nasceu.

D. Manuel: Concluiu a obra iniciada por D. João II.

D. João IV: entrou para a Confraria de S. António de Lisboa, tornou-se seu protector, e ordenou que a Câmara de Lisboa ficasse obrigada a dar uma anuidade à confraria para todo o sempre.

D. Afonso VI: Alistou Santo António no Exército português procurando obter mais vitórias.

D. João V: Escolhe que o agnifico Real Convento, em Mafra, seja construindo e dedicado à Imaculada Conceição e a Sto. António de Lisboa;

D. Maria I: Promove Sto. António a Tenente General. (O Regimento de Lagos edificou um templo onde no Altar mór a imagem do santo recebe a banda de oficial superior sobre o hábito franciscano.

19/06/14

HISTÓRIA DA FUNDAÇÃO DA REAL BASÍLICA E MOSTEIRO DO SANTÍSSIMO CORAÇÃO DE JESUS DA CIDADE DE LISBOA (VIII)

(continuação da VII parte)

No dia 17 do mês de Agosto do ano de 1788, dia célebre pela solenidade da Trasladação, que se celebra na Catedral de Orense, da nossa portuguesa Sta. Eufémia, cujo corpo se conserva numa arca de bronze: Pelo óbito da Beata D. Beatriz da Silva, fundadora da Ordem da Puríssima Conceição, Dama da Rainha D. Isabel de Castela, e irmão de D. Diogo da Silva primeiro Conde de Portalegre: pelo óbito de D. Leonor de Vasconcelos, Abadessa do Mosteiro de Celas em Coimbra; e pelos de outros mais santos, e santas Mártires; dia em que se contam 8 anos, nove meses, e vinte e quatro dias da primeira pedra fundamental, por ter sido lançada aos 24 dias do mês de Outubro do ano de 1779, sendo Geral da Ordem o R.mo Pe. Me. Fr. António do Nascimento, e Priora D. Teresa de Jesus, sua principal fundadora, superiora D. Teresa Maria José do Coração de Jesus, Fundadora; Clavarias as Madres Maria Teresa do Coração de Jesus, Maria Bárbara do Coração de Jesus; Madres Porteiras, Gertrudes Rosa do Coração de Jesus, Fundadora, e Maria Joana do Coração de Jesus, Fundadora; Sacristã a Maria Joana de Jesus, Fundadora.

Foram os mesmos sinos, que haviam sido fundidos no sítio das Amoreiras ao Rato, por José Domingues da Costa, conduzidos dias antes do Tesouro, onde se achavam cobertos com toda a segurança e decência, para a dita Basílica, onde se puseram do mesmo modo suspensos com  Magnificência extraordinária, na forma do Pontifical Romano, debaixo da arcada do pórtico da Igreja, todos em linha recta, e horizontal, uns após outros, sendo o primeiro da parte da portaria o dedicado ao Santíssimo Coração de Jesus, que tem de peso 190 arrobas, e 16 arretéis, ponto D. lá-sol-ré, onde se lê a seguinte letra "Discite a me quia mitis sum et humilis corde."


O segundo a Nossa Senhora do Carmo, de peso de 135 arrobas, e 26 arretéis; ponto E. lá-mi no qual se acha esta letra "Qui me invenerit, invenit vitam, et hauriet salutem a Domino". O terceiro a S. José, de peso de 95 arrobas, e 30 arretéis; ponto Dó-fá-ut e tem esta letra "Venit filii, audite me". O quarto é dedicado a Santa Teresa, e tem de peso 80 arrobas, e 1 arretél; ponto G. sol-ré-ut; e por letra "Regem Virginum Dominum, venite adoremus". O quinto a Santo Elias, e tem de peso 56 arrobas, e 29 arretéis; ponto A. lá-mi-ré; e tem esta letra "Quaerite Dominum dum inveniri potest, invocate eum, dum prope est". O sexto, a Santa Bárbara, e tem de peso 40 arrobas, e 24 arretéis; ponto B. fá-mi; e por letra tem "Nolite timere, fugite partes adversae; vos, et mundum vicit Jesus Christus". O sétimo, a S. João da Cruz; que tem de peso 32 arrobas, e 30 arretéis; pornto C. sol-fá-ut e tem esta letra "Psalite Deo nostro, psalite; psalite Regis nostro, psalite". O oitavo a S. Norberto; tem de peso 23 arrobas, e 30 arretéis; ponto Delasobré; no qual se lê "Hodie si vocem Domini audiritis, nolite obdurare corda vestra". O nono para o relógio; ao Santíssimo Sacramento; tem de peso 275 arrobas, e 1 arretél; ponto D. sol-fá-ut, e por letra "in voce exultationis resonent epulantes in mensa Domini". O décimo das meias horas a S. Miguel, e tem de peso, 134 arrobas e 20 arretéis; ponto E. lá-mi; e no mesmo está esta letra "Laudemus Dominum, quem laudant Angeli, quem Cherubim, et Seraphim Sanctus, Sanctus, Sanctus, proclamant". E o undécimo dos quatro a Sto. António; tem de peso 79 arrobas, e 30 arretéis; ponto G. sol-ré-ut; e no mesmo se lê "Laudate Dominum in Sanctis ejus"; sendo o peso total dos sinos 1145 arrobas, e 21 arretéis: em cada um destes sinos se acha esculpida uma letra, que mostra quem foi o Ex.mo Bispo que os sagrou.

Sino do SS. Sacramento
Sino de S. Miguel Arcanjo
Estavam os arcos da dita arcada tapados de madeira com suas bandeiras de vidro por cima, e toda ela ricamente ornada, tanto no seu pavimento, como nos lados, e teto, como fica exposto. Sendo a Rainha M. S. D. Maria I Padroeira do Mosteiro, e sua Alteza o Senhor D. José príncipe do Brasil, o Senhor Infante D. João, a Senhora Infanta D. Carlota Joaquina, e a Senhora Infanta D. Maria Ana servidos honrar com a sua imediata assistência, e de perto esta solene função, se fabricou no alto dos três pórticos da igreja uma magnifica tribuna, com três repartições, estando na do meio, e principal os mesmos Senhores, e na do lado direito as Damas, e na do esquerdo as açafatas.

Para os mesmos Senhores passarem para a mesma tribuna, se formou de madeira com a mesma figura que há-de ter depois de acabada de pedraria, o corredor, onde estão os confessionários, que vai da portaria entrar no cruzeiro da igreja; pelo qual, e pela nave principal da mesma, continuava a dita serventia até o pórtico da igreja, onde estava armada a dita tribuna, subindo-se para ela por uma magnífica escada, em forma de trono, tudo ricamente armado, assim no pavimento, como nos lados, como se vê da descrição individual da armação.

Armou-se também do mesmo modo a portaria que fica fronteira à dita vista directamente para a mesma arcada, para assim as religiosas poderem livremente também lograr a solenidade da função, para o que foi mandado tirar a porta do guarda-vento do dito lucutório, onde estiveram as mesmas religiosas encobertas todo o tempo da mesma.

Preparado assim tudo, além da tropa ordinária, que costuma estar na guarda do mosteiro, e da Guarda dos Archeiros, que acompanha a S. Majestade nesta ocasião, comandada pelo Capitão da Guarda Real o Conde de Resende, D. António de Castro, foi mandado vir mais um corpo de 40 soldados de infantaria do Regimento de Peniche, comandado pelo Alferes António da Silva, e outro de cavalaria de 8 soldados do Regimento de Alcântara, comandado, pelo Cabo de Esquadra João Malaquias, para conservarem em paz, e ordem devida o imenso concurso de carruagens, e povo, que neste dia com grande alvoroço concorresse a esta solene função.

Estando ultimamente tudo ordenado, chegaram ao mosteiro Sua Majestade e Altezas às 4 horas e 46 minutos da tarde, acompanhados dos seus respectivos criados; por quanto por camaristas de S. Majestade Fidelíssima vinham os Ex.mos Conde de Vila Flor, e o Marquês de Angeja; do Príncipe, D. Francisco Xavier de Menezes Breiner; por veador da Princesa, D. José Joaquim Lobo da Silveira; do Infante, o Conde de Lumiares Manuel da Cunha; da Infanta, D. Carlota Joaquina, o Conde da Ega; da Infanta D Maria Ana, D. Cristovão Manuel de Vilhena, Veador; a Camareira  Mor, Marquesa de Tancos; a Dama de Honor, a Condessa de Lumiares D. Juliana Xavier Botelho; a Dama D. Teresa Joana de Portugal; da Infanta D. Carlota Joaquina, a Dama da Câmara; da Infanta D. Maria Ana; a Dona da Câmara de S. majestade D. Margarida Sofia de Lacerda Castelo Branco; Açafatas de S. majestade, D. Joana Rita de Lacerda Castelo Branco, e D. Maria Micaela de Lacerda Castelo branco; Açafata da Sereníssima Princesa, D. Maria do Carmo de Lima Botodo: Açafata da Sereníssima Infanta D. Carlota Joaquina, D. Maria Ana Perpétua de Mendonça: Açafata da Sereníssima Infanta D. Maria Ana, D. Maria da Piedade de Lacerda.


Estavam já esperando a Sua Majestade, e Altezas, os Ex.mos Visconde de Vila Nova de Cerveira, como inspector das Reais Obras Públicas, e o Arcebispo de Tesalónica D. Fr. Inácio, Confessor de S. majestade: foram recebidos estes Senhores com as devidas demonstrações de gosto, e da mais fiel vassalagem, correspondendo a tudo S. Majestade com afabilidade mais que ordinária, e entrando deste modo os mesmos Senhores pela portaria de fora, foram conduzidos à dita tribuna, para se dar princípio a esta função.

Havia-se preparado com igual magnificência uma casa no fim do corredor, que vai da portaria para a igreja, donde logo saiu paramentado o Ex.mo. Bispo do Algarve D. José Maria de Melo, da Casa dos Monteiros Mores do Reino e sobrinho da Priora D. Teresa de Jesus, assistido de dois Cónegos da Basílica Patriarcal, paramentados em Diácono e Cónego D. Lourenço de Lencastre, e em Subdiácono seu irmão o Cónego D. Dezidério de Lencastre; dos dois Capelães Fidalgos com exercício neste mosteiro, o Beneficiado João Pinto da Serra, e o Dez.or Manuel Pereira Cidade; dos outros dois Capelães que havia no mesmo mosteiro, o Pe. Zeferino José Leoniza do Poço, e o Pe. José Caetano de Lima, e do Sacristão João Baptista Vito, sendo Mestre de Cerimónias da Patriarcal o Beneficiado José Pedro Gonçalves, o Beneficiado José Rebelo Seabra, ambos Directores da função, e o Beneficiado Teodoro Rodrigues da Costa, assistente.

Altareiros Que Vieram da Patriarcal

O Pe. Teotónio João Antunes, e o Pe. José Nicolau; Acólitos: o Beneficiado Teodoro Pereira Rego, o Pe. Lúcio José de Gouveia, o Pe. Raimundo Nonato, o Pe. João Ribeiro Neves, o Pe. Manuel da Cruz, o Pe. António Pedro de Lima;Tesoureiros: o Pe. José Eloy Vieira, o Pe. José Correia, Capelães Cantores; o Pe. Francisco José da Cruz, o Pe. Bartolomeu Franco, o Pe. Manuel António Xavier, o Pe. Francisco Alvares, o Pe. Estanislau José da Silva, o Pe. Dionísio José Ribeiro, o Pe. Manuel pinto de Bastos, Valério José Freire, António dos Santos Calado, José Joaquim Borges, João Evangelista.


Sacristas

António dos Santo Alves, Joaquim de Morais, Joaquim José da Penha, josé Roberto, José Crispim do Couto, António Gomes Picete, Vicente José e Mateus José da Costa.

Faquinos que conduziram tudo o que foi preciso, Braz Francisco, Luís Manuel: Ajudantes: Lázaro de Lima, António Nunes, e João Francisco.

Por este modo continuou a procissão com cruz diante, até ao dito lugar, onde se achavam os sinos, e se deu princípio à função às 4 horas e 48 minutos da tarde, e findou às 6 horas e 36 minutos: Esta função foi feita na forma ordenada no Pontifical Romano, e com a perfeição que se podia esperar do Ex.mo Bispo sagrante.

Acabada a função, os sinos dirigirão logo as primícias do seu minsit´rio a S. Majestade, que como tais pela mesma Senhora, e Altezas foram atentamente aceitas, dando-se logo repique nos primeiros oito sinos, e depois mais alguns também nos três do relógio.

Sendo assistente a esta função as Ex.mas Marquesa de Alvito, e outras fidalgas da mesma qualidade; o Conde de Val de Reis, e outros fidalgos; o Desembargador Juiz da Coroa José Joaquim Vieira Godinho, e outros muitos ministros; os padres graves da Ordem, e muitos outros de outras ordens, e muitas mais pessoas qualificadas de todas as ordens, e hierarquias; sendo entre todos os actos desta solene função visto com o seu costumado zelo, e actividade o Fiscal da obra Anselmo José da Cruz Sobral, e seus parentes.

Completa pois por este modo a função, Sua majestade e Altezas acompanhados de toda a sua família, se conduziram ao mosteiro, e prostrados no coro diante do altar do Sacramento, renderam ao Altíssimo as devidas graças, sendo tanto antes, como depois, recebidos da Priora e religiosas com as devidas cerimónias, e acatamentos, como era de esperar desta prelada: Todos os Senhores como agradecidos se demoraram no Moteiro largas horas.

Entretanto o Ex.mo. Bispo sagrante com alguns fidalgos mais, e todas as mais pessoas eclesiásticas, que assistiram a esta tão solene função, foram conduzidas pelo mesmo fiscal Anselmo José da Cruz, e por seu filho o Desembargador Sebastião António da Cruz Sobral, às salas do palacete, onde o mesmo fiscal havia antecipadamente mandado preparar um tão grandioso, como delicado refresco; sendo em todos notável o júbilo e satisfação com que solenizaram esta acção, em correspondência da sua Augusta Soberana.

(continuação, parte IX)

02/06/14

HISTÓRIA DA FUNDAÇÃO DA REAL BASÍLICA E MOSTEIRO DO SANTÍSSIMO CORAÇÃO DE JESUS DA CIDADE DE LISBOA (VI)

(continuação da V parte)

D. Maria I
À hora aprazada, apareceu na Portaria o Ex.mº Arcebispo de Lacedemonia, o qual em nome de S. Em.ª autorizou também o Rev.mº Pe. G.al. Fr. Paulo de Jesus Maria, para abrir e fechar a Portaria da Clausura, e logo as Religiosas que haviam transportar-se saíram do dito Convento em Corpo de Comunidade cobertas com os seus véus, e sem perturbação alguma do Povo, que em torno as aplaudia: postas nos Reais Choches, acompanhadas dos ditos Ex.mº Arcebispo, e Rev.mº Geral, e de outros Fidalgos parentes como foram os Sobrinhos da Prioresa do novo Mosteiro, os Ex.mº Monteiro Mór do Reino Fernando de Melo, Domingos de Melo, e Francisco de Melo, e os outros Sobrinhos da Casa dos Cunhas de Xabregas, Senhores de Valdigem D. José Maria da Cunha Mendonça e Menezes, e D. Carlos José da Cunha Mendonça e Menezes, então Monsenhor, e hoje Principal da Santa Igreja Patriarcal, o Conde do Redondo Tomé Xavier de Sousa Coutinho, D. Diogo José António de Noronha, o Bispo de Viseu, do qual já fizemos menção, todos os Prelados, e Padres graves da Ordem, e outras muitas pessoas, e por este modo seguiram as Religiosas a estrada, que conduz ao novo Mosteiro, onde as esperavam muitas Fidalgas como foram D. Joana Catarina de Melo, Irmã da Priora, a Montreira Mór do Reino D. Brites José da Cunha, da dita Casa de Xabregas, e sua Irmã D. Catarina da Piedade, hoje Doma da Rainha N. S., e outras: e igualmente as esperavam muitos Fidalgos, e Grandes, e entre esses o Ex.mº Cardeal da Cunha Regedor, e Arcebispo Metropolitano de Évora, o Ex.mº Arcebispo de Tesalónica, o Ex.mº Visconde Ministro, e Secretário de Estado e hoje também Mordomo Mór; os dois Capelães Fidalgos, com exercício neste Mosteiro, e imensas outras Pessoas de todas  as classes, estando todo o largo junto à Portaria livre e guardado pela Tropa, e a Portaria e Igreja pelos Soldados da Guarda Real: e entrando deste modo as Religiosas pela Portaria se conduziram ao Lucutório de fora, onde esperavam Suas Majestades, e Altezas, assistindo-lhes à porta o Ex.mº Arcebispo e Rmº Geral, que as acompanharam até aqui.

Passado pouco tempo, chegaram Suas majestades e Altesas, e logo o Ex.mº Arcebispo de Lacedemónia pediu a Sua Majestade vénia para as Religiosas poderem entrar para o novo Mosteiro; e obtida esta, saíram as Religiosas do Lucutório em Procissão, precedendo-lhes a sua Cruz entre dois Ciriais, e entoando a Madre Vigária na Portaria da Clausura a antífona "Haec requies mea," que prosseguiram as Religiosas, e levantando as Cantoras o salmo "Laetatus sum in his" se encaminharam para o coro da Igreja interina, cantando a Comunidade alternadamente o mesmo salmo, e depois os salmos "Memento Domine David" e "Quam delicta tabernacula tua, Domine" todos com Gloria Patri no fim: Suas Majestades e Altesas acompanharam as Religiosas até ao mesmo lugar, e o Ex.mº Arcebispo, com o Rmº Geral fechou a porta da Clausura.

Depois que as Religiosas entraram no coro ficaram de pé, enquanto cantaram os ditos salmos, e no fim repetiram a antífona "Haec requies mea": depois se puseram de joelhos, enquanto o Celebrante, que foi o Ex.mº Principal Melo, Irmão da Madre Vigária e primeira Fundadora, cantou os Versos e as Orações competentes aos quais responderam os Músicos da Santa Igreja Patriarcal, que na Igreja para isso estavam prontos; e estes mesmos estando as Religiosas, e mais Pessoas de pé, cantaram o Hino do Santíssimo Coração de Jesus, Titular da Igreja, e no fim o Ex.mº Celebrante cantou a Oração do mesmo Santíssimo Coração de Jesus.

Depois passando-se o Ex.mº Celebrante para a Sacristia recebeu os paramentos competentes para celebrar a Missa, na qual um Sacerdote cantor da Patriarcal, o Padre António Pedro, cantou com Cota a Profecia da mesma missa, porque este dia era de jejum das têmporas: na Missa o Celebrante consagrou duas Hóstias, uma para o Santo Sacrifício, e outra para a Exposição de todo o dia: depois da Missa se expôs o Santíssimo Sacramento, com o "Tantum ergo," e logo o Celebrante entoou o "Te Deum" que prosseguiram os Músicos; e no fim cantou o Celebrante os Versos competentes, Oração do Sacramento, e as mais "pro Gratiarum actione:" concluída esta função, se retirou o Ex.mºo Celebrante com os mais Ministros para a Sacristia, e as Religiosas, debaixo da direcção de sua Prelada, foram beijar as Reais Mãos de Suas Majestades.

De tarde, como o Sacramento ficou exposto todo o dia, ficaram na assistência os dois Capelães Fidalgos, cada um em horas diferentes: na mesma tarde continuaram os Músicos a cantar vários Motetes; houve Sermão que pregou o Pe. Mestre Fr. Isidoro de Stª Maria, Religioso Carmelita Descalço; depois se cantou um Motete, e o Hino do Santíssimo Coração de Jesus, com o seu Verso e Oração; antes da Reposição se cantou o "Tantum ergo" e o Ex.mº Celebrante deu, na forma do estilo a Bênção com o mesmo Sacramento; finalizando por este modo esta solene acção, muito do gosto de todos, e por isso ainda do prazer e satisfação de SS. Majestades, por verem aquelas Religiosas vestidas de pobre, e duro saial, mas alentadas do Espírito Santo para estabelecerem uma Casa, na qual a observância primitiva da sua Stª Reforma, e o Amor de Deus, havia de ser só o único cuidado de todas, para poderem ser eternamente dignas Companheiras da Rainha N. S. no agradecimento ao Santíssimo Coração de Jesus, pelo benefício recebido.

(a continuar)

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