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19/12/14

CONTRA-MINA Nº 30: Os Novos Estóicos ... (I)

CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,

por

Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.

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Nº 30
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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Os Novos Estoicos, ou Desprezadores da Glória.

"Tirana paixão, é esta paixão da Glória! Uma vez que se chegou a apoderar de um coração, onde não penetrem os sentimentos Religiosos, nunca mais largou a preza; e se de quando em quando se faz semblante de não forcejar, nem trabalhar pela Glória, tudo isto é sobreposto, e ilusório, porque se houver ocasião favorável romperá tão estrondosamente a demanda paixão da Glória, que se dá logo a conhecer, que ela dormia como fogo debaixo das cinzas, e que todo o empenho contrário não foi mais, que uma estudada, e formalíssima hipocrisia. Esta paixão é tão ardilosa, que às vezes é tanto mais absoluta dominadora, quanto mais se afecta desprezá-la.... e não é estranho, que os aparentemente fugitivos desta paixão, e que mais longe parecem estar do alcance de seus tiros, devam reputar-se as suas principais, e mais escolhidas vítimas.

Quem parecia fugir mais de tudo quanto era Opulência, e Glória, que o Cínico Diogenes? Quem não diria, que ele encerrado na sua pipa era o mais eloquente Censor de todos os amantes da Glória? Pois não era assim. Diogenes mostrou-se neste lances o mais ardente procurador da Glória, o que é tão certo, que o próprio Alexandre magno, que tanto almejava pela Glória, achou que sem renunciar esta paixão, o que mais lhe ficaria bem era o ser Diogenes, caso dado que não fosse Alexandre....

Que era a insensibilidade Estoica, senão um desenfreado apetite da Glória? Nem o próprio suicídio de Catão argue outra coisa mais, que uma repugnância invencível a ser prisioneiro de César, e as mui viva representação, de que era mais glorioso sacrificar a vida por suas próprias mãos, que o conservá-la por benefício do seu maior inimigo. Ora os nossos Pedreiros Livres não pareciam talhados para estas virtudes Estoicas, mas visto que eles tem homens para tudo (porque os talentos militares, e políticos lá se acumularam todos, sem ficar a mais pequena dose de senso comum para os malfadados Realistas) instituiriam recentemente um esquadrão de novos Estoicos, ou desprezadores da Glória... Não há presentemente, dizem eles, nada que temer, nem da parte do Senhor D. Pedro ex-Imperador do Brasil, nem da Senhora Princesa do Grão-Pará.... o medo a estes papões é medo infantino, é ressuscitar em certo modo a Seita Sebástica, pois é necessário uma credulidade mais que Sebástica, para se acreditar, que se façam novas tentativas para ser colocada no Trono Português a Senhora D. Maria da Glória..... Tão pequena foi a lição do Brasil, que já lhe esquecesse, ou lhe deixasse algumas saudades dos Reinos Constitucionais? Tomaram eles viver quietos, e sossegados em algum cantinho da Europa!!.."

D. Maria da Glória, neta de D. João VI, e Sobrinha de D. Miguel I
Ora aqui temos um novo ardil Maçónico dos mais subtis, e quase imperceptível, para quem não esteja habituado a conhecê-los, e desmascara-los. Sabem que a lealdade Portuguesa acabou de tomar grandes alturas, que desconcentraram os formosos planos do Grande Oriente Lusitano, e por isso é necessário, quando se não consiga o destruí-la, ao menos fazê-la quebrar,ou esfriar; e não há, nem pode haver cousa tão conducente para este fim, como espalhar-se, que não haja o mais leve receio de tentativas por parte da Senhora D. Maria da Glória, e que seu Augusto pai, depois da renúncia espontânea, e solene, que fez das Coroas Real, e Imperial nunca mais tomará calor porque vinguem os Direitos de sua Filha; e que todo engolfado nas delícias de vida particular olhará com absoluta indiferença para os dois Ceptros, que jazem a seus pés, e que não merecem a pena, de que ele se abaixe para os levantar, e resumir.... O caso é, que assim deveria ser, e o mesmo Senhor, que pôde ler de cadeira sobre a firmeza, e estabilidade dos Reinos Constitucionais, deveria agora imitar a Ecuba do Trágico Latino, e falar à sua desgraçada filha, pouco mais ou menos neste sentido: "Quem se fiar nas promessas dos Mações, e tiver por seguros aqueles Tronos, que a Maçonaria, ou ergue, ou desmancha a seu sabor, olhe para mim, e para o Brasil....

Me videat, et te Troia.

Lançar-te, minha querida filha, nesse turbilhão Constitucional, será o mesmo, que preparar-te uma sorte a mais equivoca, e a mais desgraçada.... o total dos Portugueses não te ama, nem te quer; deixemos para sempre a ideia de Reinar sobre uma Nação entusiasmada pelo seu Príncipe, e temerosa de perder a sua Religião; pois caso dado, que por auxílio das Potências Europeias chegássemos a vencer a porfiosa resistência, que nos espera, e que tão insolentemente nos ameaça, que glória terias tu de Reinar sobre montões de cadáveres, e ruínas? E que glória teria eu de sacrificar ao ídolo da Maçonaria o Trono, onde Reinou meu Pai, onde luziram os meus Antepassados, e onde eu poderia estar hoje assentado, se me não deixasse arrastar de pérfidos conselhos? Obediente ao meu Pai, teria eu sido o melhor de todos os filhos, nunca se teria quebrado o laço, que unia os dois Reinos de Portugal, e do Brasil, nunca eu teria abdicado, e nenhum de nós teria de mendigar o pão estrangeiro..."

Cautela, e vigilância, meus amados Realistas, e verdadeiros Portugueses; nada disto assim é..... Os próprios, que para vos adormecerem, e para vos apanharem totalmente desprevenidos vos dizem no meio das Praças, que não há que temer de uma aspirante à Coroa de Portugal, que se nunca a obteve quando seu Augusto pai era Imperador, menos a poderá obter quando seu Pai desceu à condição de um simples particular... só querem iludir-vos, e atraiçoar-vos, porque são os mesmos, que dizem ao ouvido dos que pertencem à Confraria, que nem todos sabem guardar tais segredos: lá chegou a Brest a Senhora D. Maria da Glória, que foi recebida com honras de Soberana....... temos ainda muito que ver....

(continuação, II parte)

25/11/14

Imagens - LIBERALISMO, MAÇONARIA, D. PEDRO DO BRASIL E A PRINCESA MARIA DA GLÓRIA

O leitor que interprete:
 


Legenda: "De S. M. F. A Senhora D. Maria 2ª, e da Carta Constitucional por obra de S. M. I. o Senhor D. Pedro Duque de Bragança. Vê-se no centro do quadro a Victoria que debaixo de seus pés esmaga a cabeça do Despotismo, (que usurpava e oprimia Portugal inteiro), ao mesmo passo que em uma das mãos levanta o Augusto Nome da Rainha,  e na outra a carta Constitucional.  A um dos lados descobre-se o Amor da Pátria, calcando as armas dos Tiranos, e coroando a Inocência liberta das prisões, com as coroas, que lhe apresenta o Amor da Virtude. Do outro lado a Liberdade guia as Ciências, e as Belas Artes, a Portugal, de que foram banidas pela Facção usurpadora [o sublinhado é conforme o original], N. B. Este Desenho foi aprontado na pedra pelo autor quando as briosas Tropas Portuguesas em 1828 levantaram o grito de Fidelidade a S. M. F. e à Carta Constitucional, e havendo-o conservado com tanto risco, e perigo, o fez agora estampar, para oferecê-lo aos Amantes da Liberdade, e defensores dos Direitos da Senhora D. Maria Segunda. (Lisboa OffR. Lithog. 26 de Julho de 1833)"

Coroa Imperial do Brasil, sobre o escudo com a Carta Constitucional


Nesta altura, e neste contexto, o uso do símbolo católico da Providência Divina (olho dentro do Triângulo da Santíssima Trindade) indica a mão maçónica.
Mulher vestida com degraus, barrete frígio e outros símbolos

30/07/14

A RESISTÊNCIA TRADICIONALISTA NA COVILHÃ, EM 1825 (Cartas)

A resistência de Portugal ao liberalismo, foi um feito que contou com a alta responsabilidade do Clero. No interior do país, na capital dos lanifícios, na Covilhã, nenhum eclesiástico apareceu no acto público de proclamação de D. Maria da Gloria como "rainha" de Portugal. Leiam-se as seguintes cartas:

1 - Covilhã, 8 de Agosto de 1826

Ill.mo Senhor
Manuel José de Arriaga Bruno da Silveira

Ill.mo Senhor
Levo ao conhecimento de V. S.ª que hoje fiz convocar Câmara Geral e nela li a proclamação da Sereníssima Senhora Infanta Presidente do Governo, e se me fez estranho o não ver clérigo algum, pouco depois porém recebi uma carta do Arcipreste dizendo que uns por ignorarem o motivo não podendo ser avisados, e outros porque avisados nas pessoas de seus familiares ignorando para quê e outros porque estão impedidos doentes não tinham comparecido porém que, se julgasse necessário, que se apresentassem, lhe determinasse o sítio, dia e hora que de pronto o faria e que sendo fiéis vassalos sempre e em tudo queriam mostrar-se obedientes às ordens.
Destinei-lhe o dia de amanhã para a Casa da Câmara lhe ler e procurei examinar se foram ou não aqueles motivos porque nenhum apareceu e do que puder saber o levarei à presença de V. S.ª a quem Deus guarde muitos anos.

Ao Juiz de Fora
Manuel de Melo Freire de Bulhões

D. Maria

2 - Covilhã, 12 de Agosto de 1826

Ill.mo Senhor
José de Arriaga Bruno da Silveira

Ill.mo Senhor
Ponho na presença de V. S.ª a cópia do ofício que me dirigiu o arcipreste desta vila em que os motivos porque diz o clero não assistiu à Câmara Geral de 8 que destinei para solenemente ler a Proclamação da Sereníssima Senhora Infanta de 1 do corrente Agosto em razão do que, determinando as 11 horas do dia 9 para nas casas da Câmara lhe ler a dita proclamação, à dita hora, ali achei todo o clero e mesmo alguns que me constava estarem doentes pelo que em satisfação que mostravam ao ler a proclamação apesar de não terem a esta assistido no dia antecedente, e sobretudo a humildade e receio que lhe devisei de terem de receber algum castigo e darem motivo a haver contas anónimas que em outros tempos daqui foram frequentes e pelas quais alguns vexados / e conhecer a maior parte dos motivos alegados, verídicos, me faz crer que não foi por maldade ou falta de bons sentimentos que deixaram de aparecer. Deus guarde V. S.ª por muitos anos.

Ao Juiz de Fora
Manuel de Melo Freire de Bulhões

O que é certo é que a Covilhã, logo depois, manifestou-se como um dos pontos de resistência contra os liberais e seu novos "reis".

12/07/14

ESCOLA PORTUGUESA DE ARTE EQUESTRE

Em 1748 D. João V fundou a Coudelaria de Alter, para a sub-raça do cavalo Lusitano: o Alter-Real (o Alter-Real é um apuramento ordenado pelo próprio Rei para servir as exigências da realeza portuguesa).

Na segunda metade do séc. XVIII, D. José amplia a iniciativa de seu pai. Estructura a Coudelaria de Alter, e dá-lhe o primeiro regime coudélico. Assim, começa o periodo aureo da Coudelaria e do Alter-Real.

O Principe do Brasil, D. João (futuro Rei D. João VI)
Gravura do livro "Luz Liberal, e Nobre Arte de Cavallaria".
Em tempo de D. Maria I dá-se um apuramento do Alter-Real e aumento da manada. O Marquês de Marialva, D. Pedro de Meneses, Estribeiro-Mor da Casa Real, estrutura e eleva o ensino à perfeição. Em 1790, fruto de todos estes progressos, Manuel Carlos de Andrade redige o "Luz da Liberal, e Nobre Arte da Cavallaria..." dedicado a D. João Principe do Brasil (quem vem o Rei D. João VI), obra de inestimável valor!

Gravura do livro "Luz Libera, e Nobre Arte de Cafallaria"
A Coudelaria sofreu profundamente com o ataque maçónico-liberal a Portugal. Os seus recursos foram utilizados para a defesa do Reino contra D. Pedro I do Brasil. Depois do Trono usurpado, não mais se voltará a restabelecer o nível que tinha sido alcançado por mercê dos nosso Reis. Com a D. Maria "II" vai-se a pureza da raça, e a Coudelaria sofre das mesmas restrições assombrosas com as quais se pagava a dívida da vitória liberal da usurpação. De 1842 até 1910 o Alter-Real continua a ser fortemende degradado com tentativas de cruzamentos com o caválo Árabe.

Em 1910, um partido usurpa Portugal, e "troca" o nome da Coudelaria por "Coudelaria Militar de Alter do Chão".Durante o Estado Novo foram vendidos os dois últimos garanhões Alter-Real, e em 1941 passam a "Coudelaria de Alter do Chão" para "Coudelaria de Alter" e, no ano seguinte, inicia-se a recuperação do cavalo Alter-Real com base em 3 garanhões (2 eram aqueles últimos que antes tinham sido vendidos ao mesmo particular) e 11 éguas.

Em 1979, com base na tradição equestre portuguesa, aparece a Escola Portuguesa de Arte Equestre que, em 1996 ganha instalação na Real Quinta, ou seja, no Palácio de Queluz.



E o que é feito daquela Coudelaria fundada pelos nosso Reis!? A Nossa Coudelaria, onde anda!?... Bem, o que tem sobrado dela, sejam quais forem os nomes sob os quais a queiram fazer parecer, hoje está muito mal. Bastará olhar as notícias publicadas nestes últimos anos (e para isto recorro ao jornal Correio da manhã):

- 26/10/2008: "O leilão de cavalos na Coudelaria de Alter do Chão, Portalegre, rendeu ontem 49.400€ aos cofres da Fundação Alter Real."

- 25/04/2010: "Cavalos puro-sangue rendem 87.000€. A Fundação Alter Real diz que a iniciativa correu bem, apesar de não ter atingido o objectivo financeiro."

- 25/04/2011: "Leilão rende 120.000€. Alter do Chão: evento tradicional da Fundão Alter Real."

- 12/02/2012: "Freio na Coudelaria de Alter do Chão. A Fundação Alter Real, que através da Coudelaria de Alter do Chão é a responsável pela criação de cavalos lustitanos e pela manutenção dos registos genealógicos da raça, tem de ser saneada financeiramente (defende conhecedora)."

- 29/02/2012: "Seguro desafia governo para problemas do Interior. Sobre a Coudelaria de Alter do Chão, que visitou esta manhã, o lider do PS mostrou-se satisfeito pelo governo ter nomeado uma nova administração para a Fundação Alter Real, que se encontrava sem quórum há dois meses."

- 25/04/2012: "leilão de cavalos rende 75.000€. Para o presidente da Companhia das Lezírias e da Fundação Alter Real, António Saraiva, o balanço do leilão é muito positivo, uma vez que todos os cavalos vendidos acima do valor base."

- 09/08/2012: "Coudelaria em Crise. A Fundação Alter Real (FAR), que gere a Coudelaria de Alter do Chão, em Portalegre, tem um passivo de 2,5 milhões de euros e dívidas com algum significado a empresas prestadoras de serviços, como a falcoaria, laboratório de genética molecular, guias turísticos e fornecedores (admitiu Hermet´rtio Cruz, do conselho de administração da FAR)."

- 05/11/2012: "Crise obriga a abate de cavalos. "Temos de ser realistas e deixar de ser líricos, porque não podemos continuar a viver da emoçção e do sentimentalismo", acrescentou o responsável, dando como exemplo o facto de existirem cerca de 500 cavalos só na Fundação Alter Real, que gere "a coudelaria do estado" com graves dificuldades financeiras."

- 14/06/2013: "Governo põe fim à Coudelaria mais antiga do mundo. Estinção da Fundação Alter Real."

22/05/14

"PORTUGAL EM ROMA" - AS AFRONTAS LIBERAIS E A NOMEAÇÃO POSTERIOR DE BSIPOS (I)

"Gregório XVI, depois de ter desaprovado com uma nota ao Corpo Diplomático contra a expulsão do Núncio, na alocução de 30 de Setembro de 1833 reprovou altamente todos os atentados cometidos contra a liberdade eclesiástica, os cânones e direitos da Igreja pelo poder laico em Portugal, confirmou tudo que expusera na Constituição "Sollicitudo", isto é, que tratando com D. Miguel I apenas se inspirara em cumprir os deveres do apostólico ministério, declarou írritos e nulos todos os actos em matéria religiosa, emanados dos governantes da coisa pública em Portugal e fez votos para que Deus lhes inspirasse melhores conselhos.

Como não menor energia e firmeza protestou, cheio de dor, o Pontífice na alocução de 1 de Janeiro de 1834, quando, por novos actos e decretos do "governo" de D. Maria II, lesivos dos direitos da Igreja pela expulsão do Auditor da Nunciatura Mons. Curoli, que em Lisboa havia ficado, ameaçou de fazer uso severo da autoridade eclesiástica.

D. Miguel I, depois da "capitulação de Évoramonte" segundo a declaração forçada de 29 de Maio de 1834, embarcou em Silves a 1 de Junho e chegou a Génova no dia 21.

No Consistório de 1 de Fevereiro de 1836 o Papa voltou a lastimar a penosa situação da Igreja em Portugal, onde a continuação das injúrias ao poder eclesiástico "era coisa acerbíssima e indigna de uma nação que tinha as soberanas responsabilidades de título de "Fidelíssimo"".

Não obstante a rotura de relações entre o "governo" de Portugal e a Santa Sé, ficou em Roma como Encarregado de Negócios o Cav. João Pedro Miguéis de Carvalho e Brito, antigo secretário da Embaixada portuguesa.

Um grande vendaval passara pelo país e pela vida religiosa da Nação. As dioceses estavam sem pastor. Só em 1832, por morte de D. Carlos de S. José de Azevedo, foi eleito Bispo da Guarda D. Joaquim José Pacheco; em 1833 é apresentado para Bispo do Porto D. Fr. Manuel de S. Inês, agostinho calçado e vigário capitular do mesmo bispado; e em 1836 D. Luís Tristão Vaz Teixeira, egresso graciano de Portugal, é apresentado bispo de Meliapor. Em 1840, com a nomeação do Visconde da Carreira, Luís António de Abreu, para Ministro junto do Santo Padre, Gregório XVI, os assuntos religiosos de Portugal tomaram melhor feição. Concertou-se que a "rainha" não se oporia aos bispos nomeados por D. Miguel I e revogaria a proibição de recorrer a Roma para as dispensas. O Visconde da Carreira demorou-se pouco tempo em Roma; e em outubro apresentou credenciais como Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário João Pedro Miguéis de Carvalho, que passou a residir no palácio Potenziani em frente da Igreja dos Lucchesi.

Assim foi que em 1840 (a 28 de Fevereiro) foi sempre sentado para Bispo de Cochim D. Joaquim de Santa Rita Botelho, egresso franciscano do Estado da Índia; a 27 de Novembro foi apresentado Bispo de Cabo-Verde D. Henrique Moniz, Vigário Capitular do mesmo bispado; na mesma data foi apresentado Bispo de Angola D. Leonardo José Vilela, também Vigário Capitular; e a 8 de Março de 1841 foi apresentado Arcebispo Primaz do Oriente D. Rocha Mir Furtado, egresso dos Jerónimos de Portugal.

E já agora que entramos na secção das nomeações episcopais para Portugal e seus domínios,diga-se que em 1841 foi apresentado para Bispo de Aveiro D. António de S. Elísio da Fonseca; para Arcebispo de Braga D. Pedro Paulo de Figueiredo da Cunha e Melo, lente de prima da Faculdade de Direito de Coimbra, subdiácono da diocese de Lamego; à morte de D. Miguel da Madre de Deus; para Lamego Dr. Fr. José da Ascenção, morrendo antes de tomar posse.

Em 1842 foi nomeado Bispo de Cochim o Pe. Joaquim de Santa Rita Botelho; para Bispo de Pequim foi eleito o Pe. João da França de Castro; e foi apresentado Prelado de Moçambique Fr. João das Dores, carmelita descalço.

Em 1843 o número de bispos nomeados foi maior."

(continuação, II parte)

30/12/13

"DEFEZA DE PORTUGAL" (1831) - D. Maria não pode ser Rainha de Portugal (VI parte c)

(continuação da parte b)

Escrevendo estas linhas, com tal entusiasmo de coração, e de cabeça me achava eu, que pensando, ou esquecendo-me de que alguém poderia pressentir-me, gritei, como fora de mim, por estas palavras "D. Pedro Rei de Portugal! Para brasileiros! D. Maria da Glória Rainha de Portugal! Fora Pedreiros!" E eis que ouço uma voz medonha, e espantosa, que diz "Este homem está doido; há de ele ser Rei, e ela há de ser Rainha, ou por jeito, ou por força." Corro em seguimento de quem falava, mas não vejo alguém; acho somente, indo para aquela parte, onde parecia soar a voz, um papel em letra desfigurada, no qual pude ver certos emblemas maçónicos, como eram um triângulo, um compasso, um punhal, um bosque, e nele um homem, e junto dele uma menina; já se entende, tudo isto pintado, e a tudo isto seguia a seguinte legenda: "Convém ter Portugal sempre inquieto até o cansar, e desesperar. Serão os Povos inspirados de sentimentos de compaixão pela desgraça do Senhor D. Pedro, e da Menina, arrojados do Brasil: dir-se-lhes-há que, quando eles estavam no Brasil, não fizeram mal em aclamar Reis o segundo filho do Senhor D. João VI; mas que agora, estando o primeiro desimpedido, deve outra vez tomar o lugar, que lhe pertence, e conseguintemente reinar; mostrar-se-lhes-há que isto lhes convêm, porque é o meio de fazer prosperar o comércio entre Portugal e o Brasil. Assegurar-se-há a todos a conservação dos seus empregos, e  o melhoramento neles, em nome do Senhor D. Pedro: prometer-se-há baixo aos soldados de todas as linhas, que a pretenderem,e reforma a todos os oficiais, que não quiserem servir: dar-se-há um posto de acesso a todos os que prestarem maiores serviços ao Senhor D. Pedro; serão para isso convidados os oficiais de maior confiança, e os sargentos de todos os campos: os soldados serão aliciados com dinheiro; mas haja toda a cautela com os militantes, que têm estado no Espanha: os agentes desta Causa serão todos os que amam a liberdade; e lançar-se-há mão desses, que acabam de ser expulsos do Brasil, porque merecem a estima dos homens de bem: chegando o momento, e ao toque do Grande Hino, dar-se-há o grito de "Viva o Senhor D. Pedro"; serão imediatamente presos, e embarcados dos Fidalgos mais amigos de D. Miguel, e postos em liberdade todos os presos. Por todos os amigos da liberdade será lavrado um protesto, em nome da Nação, da coacção, em que a pôs a força armada a favor de D. Pedro: dado este passo, o Exército fiel das Ilhas dos Açores estará prestes a segurar este esforço dos verdadeiros liberais, e a presença do Senhor D. Pedro coroará os desejos dos seus amigos. Valor, segredo, velocidade, e confiança nos Gabinetes de França, e Inglaterra." Nada mais continha o que vi escrito no tal papel, salvo uma cifra, que não pude entender: fiquei, não desmaiado, mas admirado de tal perfídia, e traição: vacilei no que devia fazer, se o remeteria à polícia; mas lembrei-me que lá dantes não corriam papeis, que não fossem assinados, e também que ao Correio do Porto esqueceria de meter na Mala de Lisboa esta correspondência, como se esqueceu de dar, e enviar outras. Então decidi-me a denunciar ao público este aborto do maçonismo;e, copiado, o entrego ao fogo, como deviam ser entregues todos os autores destas maldades, ou , em termos claros, todos os que se lembram de chamar o Senhor D. Pedro a Portugal, e todos os que acreditam em promessas feitas a Portugal em seu nome; porque o nome do Senhor D. Pedro em Portugal não é pronunciado senão para acabar de destruir Portugal, e para os portugueses se matarem uns a outros, e os que vivos ficarem serem escravos de tiranos, e de malvados.

Entenderá algum dos meus leitores, que esse papel, que eu disse haver visto, é fingido, pois que no local, em que eu vivo, não haverá lá desses malhadões capazes de inventar, e ainda de executar estes planos. Mas não é isto assim: aqui nestas montanhas se acoutam malhados de bom lote, como oficiais da 1ª, e 2ª linha, cívicos, e outros desta raça; por aqui vivem, por aqui vegetam estes bichos do mato, e respiram livremente; não há quem os prenda; se os prendem, não há quem jure de dista contra eles, ou porque os que juram são outros tais como eles, ou porque os que podem, e devem jurar, se temem, dizendo para si: "ninguém sabe em que isto há-de vir a parar". Assim os tais malhados, se são presos, são logo soltos, e absolvidos como inocentes, com quatro atestações passadas graciosamente, ou venalmente, por pessoas capazes de atestar que o Diabo é um Santo, e com três testemunhas abonatórias, que nunca os malhados estão sem fradores; e assim os tais malhados saem sempre livres, secundum allegata, et probata, e ao depois insultam as testemunhas, que juraram parte do que sabiam, e aos que os prenderam. Ora se aos tais atestantes, e às tais testemunhas abonatórias se impusesse a obrigação de ficarem por principais pagadores, dizendo-lhes: "Ora este homem está inocente porque Vossas merecês, ou Senhorias o dizem; pois tomem sentido; se ele fizer alguma, são Vossas merecês, ou Senhorias os que pagam a pena por ele". Não seria então absolvido um só dos que tem sido presos por malhados. Eu estou esquecido do que estudei na Jurisprudência; mas como em casos insólitos só devem reger Leis insólitas, se eu fosse Juiz, que houvesse de sentenciar algum malhado, que se houvesse justificado, lhe diria: Vossa mercê não tem dado provas positivas de ser um bom português, ainda que as testemunhas, e atestantes o justificam de que não é notoriamente malhado; pois por essa razão fica Vossa mercê preso mais doze anos, não por malhado, mas para que o não venha a ser. Eu aposto qualquer coisa, se de mil malhados presos por isso, e justificados por aquilo, há dois, que não desejem de todo o seu coração o império da malhadice, e que se não aprontem para ao primeiro rufo cantar o Hino Costitucional, e berrar pelo Senhor D. Pedro, ou pela Senhora D. Maria da Glória.

Ora pois, ou o papel, que acabo de trasladar, seja real, ou imaginado, quero dizer, forjado pelos pedreiros para aterrar, o certo é que é este, e não outro o partido, que eles pretendem tirar da chegada do Senhor D. Pedro à Europa: fazer em seu nome outra revolução, alagar de sangue o território português, e abismar Portugal em discórdias, em vinganças, em pobreza, e em crime. E haverá ainda em Portugal almas tão vis, que empreendam, ou aceitem qualquer tentativa em nome do Senhor D. Pedro? Que é o que podem esperar os portugueses do Senhor D. Pedro, depois que com o seu nome foi o Brasil roubado a Portugal, e por fim empobrecido, e desgraçado? A liberdade? Pois não agradou aos brasileiros, que antes viviam oprimidos, a que lhes foi concedida em seu nome, e agradará aos portugueses, que sempre foram livres, e agora mais que nunca, uma liberdade comprada por sangue, e por dinheiro; uma liberdade, que autoriza o crime, a desordem, e a anarquia; uma liberdade, que só serve para ladrões, para facionorosos, e para malvados? E que pode esperar o Senhor D. Pedro dos pedreiros de Portugal, se ele se não pode haver, nem concertar com os dos Brasil, que se são mais tolos que os de cá, são todavia menos velhacos, menos orgulhosos, e menos sóbrios? Reinar!!! E por quantos meses?  Poderia ele sofrer a ambição, a petulância, a loucura, o descoco, e a mania dos Palmelas, dos Saldenhas, e de toda essa corja de mandatários de imoralidade, do desaforo, e da rebelião? Desgraçado Príncipe! Ele seria arrojado, destronisado, e posto fora de Portugal pelos mesmos, que agora berram por ele. Porém esbravejem quanto poderem os pedreiros, berrem até lhes rebentarem os bofes os desaforados constitucionais; os Senhor D. Pedro não há de reinar em Portugal, nem por jeito, nem por força: não por jeito, porque os portugueses já conhecem os constitucionais pelo direito, e pelo avesso, e não acreditam em quantas promessas lhes fizerem em nome do Senhor D. Pedro; não por força, porque todos os bons portugueses, e são quase três milhões, estão intimamente persuadidos, e convencidos de que o Senhor D. Pedro, e seus filhos, e filhas não tem algum direito à Coroa portuguesa, depois que ele tomou para si, e para seus filhos, e filhas a Coroa brasileira. Esta é a lei de Portugal, que o Senhor D. Miguel reine: e se esta não é a lei!!! é a expressão da conta de geral dos portugueses que o Senhor D. Miguel seja seu Rei. Os portugueses não querem outro; e se este lhes faltar sem sucessão, (afaste Deus de Portugal tão horroroso castigo) na Família Real de Portugal, não na do Brasil, tem os portugueses quem reine. Este é o juramento dos portugueses; eles o farão valer com as armas na mão. Embora os pedreiros forjem planos; cogitem eles novas traições; comprem sargentos e soldados das dúzias; façam finalmente quantos esforços quiserem, ameacem com este mês, ou com o de Outubro: os traidores serão decapitados, e o Senhor D. Miguel há de ser Rei de Portugal todos os dias da sua vida. Na conservação destes sentimentos de justiça, e de lealdade está o principal baluarte da Defeza de Portugal, e sobre tudo na Misericórdia Divina, porque Deus está, e há de estar em favor do Senhor D. Miguel, e de todos os portugueses, que o jurarão Rei, e que forem fiéis a este juramento, o mais santo de todos os juramento, que prestarão os portugueses em todos os séculos; porque o juramento de Miguel Rei é o juramento da Religião, como farei ver, discursando pelos números seguintes.

Rebordosa 7 de Setembro de 1831.

Alvito Buela Pereira de Miranda.

17/12/13

"DEFEZA DE PORTUGAL" (1831) - D. Maria não pode ser Rainha de Portugal (VI parte b)

(continuação da parte a)

D. Pedro, Imperador do Brasil
Mas, dizem os pedreiros, o Senhor D. Pedro abdicou. Bem: se abdicou, no momento antes de abdicar, e no momento da abdicação, acumulou uma com outra Coroa, e tornou a unir, e a fazer dependente uma da outra a duas nações, que ficaram para sempre separadas, e independentes: é isso mesmo o que ele não pode fazer por virtude dos princípios, que hoje formam o Direito público da Europa; a respeito de Portugal, e do Brasil; logo a Senhora D. Maria da Glória não pode ser Rainha de Portugal pela nulidade da abdicação. Eu quero supor momentaneamente com os pedreiros que o Senhor D. Pedro seja Rei de Portugal, e ao mesmo tempo Imperador do Brasil: digo pois que nem nessa mesma hipótese pode abdicar; e o povo: primeiramente, porque um soberano qualquer não pode abdicar sem consentimento da nação, em que reina, ou dos grandes conselheiros, e Corporações, que representam a nação portuguesa, nem seus legítimos representantes, não pediram ao Senhor D. Pedro que abdicasse, nem consentiram na sua abdicação. Segundo, porque ou o Senhor D. Pedro abdicou por sua incapacidade perpétua de reinar em Portugal, ou tinha capacidade para reinar: se o primeiro, ele devia abdicar em pessoa capaz de reinar a contentamento da nação; e porque o não fez assim, não só a abdicação é nula, mas perdeu o direito de abdicar: se o segundo, a nação pode dizer que não consente na abdicação, porque o Rei foi feito para os povos. Terceiro, porque o Senhor D. Pedro alterou a ordem regular da sucessão à Coroa portuguesa, abdicando-a numa filha, quando, a poder abdicar, era obrigado a preferir entre os seus legítimos descendentes do sexo masculino ao feminino. Quarto, porque o Senhor D. Pedro, se é Rei de Portugal, ou herdeiro da Coroa portuguesa, o é como primogénito; e então, ou o seu primogénito é também herdeiro presumptivo da mesma Coroa, ou é por seu pai despojado desta herança; e em qualquer dos casos vem a restabelecer-se a guerra, e discórdia entre Portugal, e o Brasil, ficando sempre mal seguros os destinos futuros duma, e de outra nação, que é o que se quis evitar no célebre tratado de paz, e aliança entre o Rei de Portugal, e o Imperador do Brasil. Quinto, porque a Senhora D. Maria da Glória, sendo coacta por seu pai a aceitar a transferência, e cessam da Coroa portuguesa, ficava por isso mesmo despojada da Coroa brasileira, de que é herdeira, e legítima sucessora; e como seu pai, Imperador do Brasil, a não pode deserdar daquela Coroa, ela, digo, a menina, no caso de morrer o menino seu irmão sem sucessão, resumiria seus direitos à Coroa brasileira, que em Direito se lhe não pode negar; e sendo, na hipótese dos constitucionais, Rainha de Portugal, viria acumular uma com outra nação, e conseguinte a renovar a guerra, e discórdia entre nação, e nação, a perturbar a prosperidade das duas, e a fazer perigosos seus destinos futuros. Sexto, e no sexto fazem pé os constitucionais, porque a Senhora D. Maria da Glória não pode ser Rainha realmente de Portugal enquanto não cumprir certa idade, e se não preencherem certas condições; e por isso mesmo vem o Senhor D. Pedro a ser o Rei Reinante Perpétuo de Portugal, acumulando uma com outra Coroa, fazendo uma dependente da outra, amalgamando os destinos das duas, e servindo-se de cada uma para escravizar a outra. E depois de tudo isto ainda há portugueses, que possam persuadir-se de que a Senhora D. Maria da Glória pode ser Rainha de Portugal? Eu não acredito que possa haver nascido em Portugal, e que pertença a Portugal alguém, que não olhe com mofa, zombaria, e escárnio para um rei, que diz que o não quer ser, e reina, e para uma rainha, que diz que o é, e não reina. Outro mais modesto, ou moderado dirá que o Rei Abdicante, e Reinante, e a Rainha Abdicante, e não Reinante, devem ser olhados com os lhos de compaixão, e de misericórdia, porque os pedreiros os meteram nestas desgraças, e nestas poucas vergonhas. Mas eu olho para Portugal, e as lágrimas correm, considerando que a toda a Família Real de Portugal foi roubado o Brasil, e agora lhe querem roubar Portugal. Respeito muito ao Senhor D. Pedro, e a toda a sua legítima, e augusta família, porque descende dos Reis de Portugal, e porque é Soberano de uma nação; mas na qualidade, ou categoria de Rei de Portugal eu não amo, eu lhe não obedeço; nem amo, nem obedeço à Senhora D. Maria da Glória, porque ele abdicando, e ela aceitando, mesmo pueril, e inocentemente, a abdicação, renovam a guerra, a discórdia, e o ódio entre povos irmãos, fazem a ruína geral, a desgraça, a pobreza, a miséria, a consumpção de Portugal, e do Brasil.

(continuação, parte c)

19/11/13

"DEFEZA DE PORTUGAL" (1831) - Que Queriam com a Entrada da Esquadra Francesa (IV c)

(continuação da parte b)

Eu fiz esta digressão, para a qual apenas chega o papel, e menos chegará a paciência dos meus leitores, e ainda a não concluí. Há pouco mais de um ano, que moro neste conselho, e daí a poucos rezes concebi os desejos, de que ele se unisse ao Julgado, e Comarca de Penafiel, não só porque esta cidade inspira aos seus rústicos os mais sólidos sentimentos de realeza, senão porque o concelho lhe está mais próximo, do que para ele está a cidade do Porto na distância de quatro lagoas, evitando-se assim o frequente trato destes povos com a ralé daquela cidade, para onde tem de caminhar diariamente em razão das suas pendências, e acções judiciárias, e por isso mesmo fazerem ali o seu comércio, que com mais vantagem civil, e moral poderiam fazer em Penafiel. Se este pensamento fosse levado à presença do augusto Rei, que nos rege, Ele o aprovaria, em conhecendo a sua utilidade, porque este bom rei nenhuma coisa deseja tanto como a felicidade dos seus vassalos. Pensar-se-há que a canalha, de que acabo de falar, não merecia tão longa digressão; mas eu pelo contrário entendo que a Polícia não devia perder de vista estes desprezíveis instrumentos do maçonismo, porque por eles se colhe o que ele premedita, e forja; pois que estes rústicos não sabem levantar de sua cabeça estas notícias, e elas têm algum fim. Dir-se-me-há que em Lisboa se sabe tudo; mas eu digo que nem tudo a tempo: a ralé mais infame da Côrte sabe as notícias malhadas, antes que a polícia, que as poderia saber ao mesmo tempo, se lançasse mão dos meios, que despreza, e são de desprezar menos nesta parte. Lá há um bom número de casas da prostituição, onde entram pela meia-noite, pouco mais, ou menos os prosélitos do maçonismo, que andam à caça de novidades; aí as publicações, aí as festejam, e daí as espalham: lá se leem as folhas inglesas, francesas, lá se vêm, e cantam os hinos constitucionais novamente compostos na Ilha Terceira, lá se traslade a correspondência, e mais papelada do ex-Conde de Vila Flor, lá se soube, antes que o Governo o soubesse, do infeliz sucesso das tropas reais no ano de 1829; lá finalmente entram pedreiros de alto lote, e de altos títulos. Já que essas casas se toleram para perdição da mocidade, e apodrecimento da senitude, saiba tirar-se delas ao menos o partido de saber, o que tramam os pedreiros; que a canalha rústica pode tornar-se útil, dando-lhe que fazer; aí estão essas estradas públicas, que é uma vergonha, e uma ruína; e como eles dizem que o senhor D. Pedro trouxe do Brasil milhões, e milhões, com que vem enriquecer os povos de Portugal, vão-lhe aplainando as estradas, por onde ele há-de fazer a sua entrada, e trabalhem até que ele venha, que assim trabalham toda a sua vida, não estarão ociosos, não falarão tanto, e não inquietarão os povos. eis como na mesma digressão, sem querer, formei um ponto de Defeza de Portugal: dar que fazer a esta cáfila de rotos constitucionais, salteadores de estrada, roubadores de igrejas, e amotinadores do povo, que são os principais instrumentos, de que nos povos tem lançado mão para desmoralizar tudo, e para arruinar tudo essa vil seita de Pedreiros Livres.

Rebordosa, de onde o autor escreveu estas linhas que lemos
Havia eu meditado, como disse, muitas vezes, com que enganos poderiam os portugueses ser novamente arrastados a uma revolução, e jamais podia atinar o como. Regresso d'ElRei? Nós temos Rei, não carecemos de outro, nem queremos outro. Cortes? As baixas, as comunas, as das Necessidades, as de 1820, essas deixaram-nos sem ter que comer, porque o pouco, que antes delas havia, foi pouco para eles. Câmaras? Como foram de alto, e baixo, à maneira de volvo, cheiram mal, enjoam, e até nos fazem secar a pele pelas peles, que umas trouxeram, e pelas que as outras esfolaram. Comércio? É coisa que não há em parte alguma, senão de petas, de traficâncias, de maldades, e de roubos. Liberdade? Nós vivemos como queremos, estamos contentes, e nunca fomos tão livres como agora, que temos um Rei à nossa vontade, que nos governa suavemente pelas Leis, com que viveram nossos pais e avós. Senhora Dona Maria da Glória? É muito menina; pode ser enganada, mas não enganar-nos: Nós nunca fomos governados por crianças, nem por mulheres quando temos varão: ela carece de tutor, e nós temos Rei de maior idade, Nosso Tutor, Pai, e Amigo. Regência? Quantas tivemos em nome de mulher, ainda que fosse de maior idade, sempre nos fizeram desejar Rei: por outra parte, regência de mariólas, quer dizer, desses brejeiros, que estão na Ilha Terceira, e doutros que tais que desejam lá estar, e sem os que podíamos bem passar, só serve para governar pretos forros; e nós nunca fomos escravos. Eu não podia pois, de qualquer lado que me virasse, saber a maneira, porque os portugueses podem ser novamente enganados; pois que isso de guerra da parte dos franceses, guerra da parte dos ingleses, ataque dos da Ilha Terceira, (que tudo isto, e mais dizem, e não cessam de dizer os tolos) pareceu-me sempre história da carochinha, porque os portugueses nunca foram conquistados à força, senão por traição. Digo que não podia saber a maneira, porque os portugueses podem ser novamente enganados, se o senhor D. Pedro não acabasse de chegar do Brasil, e os pedreiros se não aproveitassem deste sucesso e desta notícia para tentar outra revolução em Portugal. Direi pois o partido, que estes malvados pretendem tirar da chegada do senhor D. Pedro à Europa, porque a isso me abriu caminho a resposta do farrapão destas aldeias dizendo que os milicianos iam ao Porto para dar vivas ao senhor D. Pedro; mas não pense alguém que eu fale com menos delicadeza, e modéstia do augusto Imperador do Brasil: é um Soberano; ainda que não é português, é irmão do Nosso Rei, filho de um rei que teve as honras de Imperador do Brasil, e isto basta, e sobeja para que eu não deva, nem possa, nem queira faltar-lhe ao respeito: a causa dos Pedreiros Livres não é a do senhor D. Pedro, porque se o fosse não o arrojariam do Brasil: mas como os pedreiros se servem deste nome para revolucionar Portugal, o que não podem conseguir senão enganando os portugueses, eu vou no seguinte número desfazer-lhes esta moeda, pôr-lhe a calva ao sol, e deitar-lhes por terra esse edifício de embustes, e de trapaças, que andam fabricando, para acabar de perder a Portugal.

Rebordosa 21 de Agosto de 1831

Alvito Buela Pereira de Miranda

27/03/12

POSIÇÃO DA SEITA LIBERAL FACE À LEGITIMIDADE DO TRONO DE PORTUGAL

Que não se confunda a facção liberar com o pensamento liberal. A maior parte dos afectados pelo pensamento liberal nunca se declararam adeptos de uma facção liberal, por não terem suficiente conhecimento de tal facção ou por não terem conhecimento de que determinadas ideias suas ou comportamentos seus sejam  na realidade próprios ou consequência de liberalismo. Sem dúvida, é pensamento modernista aquele que apenas reconhece o "liberalismo" nas agrupamentos liberais esvaziando-o do ser e transferindo-o e conotando-o com o mais exterior das consequências do liberalismo. Em suma, o liberalismo é um problema a observar nas ideias e apenas em último lugar nas formas sociais consequentes.

Os defensores de D. Pedro IV certamente foram, e são, em maioria liberais. Eram certamente adictos liberais, portanto, partidários liberais, mesmo que a maior parte não tivessem noção de que as posições e iniciativas desse grupo só tivessem sido possíveis por beberem nos erros próprios do liberalismo (erros contra a verdade guardada no pensamento católico). Desconhecendo ou esquecendo que o erro doutrinário  tem por consequência o erro social (a acção), dizem hoje os liberais não partidários (ou até anti-partidários e/ou que nem se acham ser liberais) que o "liberalismo" seria antes um fenómeno social e político agrupado em torno de um determinado programa. Contudo, por aqueles querem distanciar-se destes, seleccionam em todos os antigos programas as alíneas que não lhes são comuns. Por outro lado omitem mais uma vez que o suposto programa não é o cerne do "ser liberal" mas sim, pelo contrário, é uma consequência história do desenvolvimento do "ser liberal".

Os tradicionais católicos que sobraram, por exemplo, olhando a panorama do mundo católico dos nossos dias, costumam dizer que o Papa x é modernista, ou que o Bispos x é modernista. Certamente que nestas afirmações espera-se haver a consciência de que tal Papa e tal Bispo nunca tenham professado categoricamente quererem aderir ao algum movimento modernista ou quererem seguir ou aprovar ideias que eles mesmo reconheçam ser modernistas. Esta margem, possibilitada pela ignorância modernista, distância entre daquilo que se faz e aquilo que deve ser feito, aplica-se a todos os que foram baptizados católicos e dizem professar o catolicismo, sejam eles na realidade modernistas ou tradicionalistas (o que implica que, em verdade, ou estão os dois errados ou, pelo menos, um deles segue uma via errada). Isto serve para salientar que também os liberais hoje, com conhecimento de que o liberalismo é mau, tendem a não reconhecer que sempre foram liberais e que nasceram em "civilização liberal".

A história do engano demonstra que se tem vindo a construir uma "civilização do erro" (a quem já em outra ocasião chamei de "coluna negra"), sem que isso tenha de significar "civilização da culpa" (o inocente que nasce hoje à margem da verdade não pode ser culpado de tal).

A tendência do desmoronamento lento daquilo a que se tem vindo a chamar de Cristandade é um facto, e assim deverá ser até a terrível vinda do Anticristo. Sim senhor... e nunca no pensamento cristão houve dados em contrário, antes se afirmou o contrário.

Veja-se então como D. Maria II de Portugal e Algarves..., em plena monarquia liberal, é obscurecida por uma dessas almas arrastadas (António da Silva Lopes Rocha, Desembargador e advogado da Casa da Suplicação de Lisboa) que em 1829 lhe dirige uma análise e suposta refutação na qual tenta "apaziguar" a Rainha de que a coroação de elRei D. Miguel teria sido injusta:

D. Maria II

"Senhora

Logo que os verdadeiros inimigos do Trono e do Altar, fanáticos, hipócritas, desmoralizados, e depostos, como lhe chama o Augusto Pai de Vossa Majestade na Proclamação de 25 de Junho, conceberam o atrevido e louco projecto da usurpação, veio-se o desgraçado Portugal, e veio-se a Europa inundada de escritos em diferentes línguas, destinados a sustentar que o Filho Primogénito do Senhor D. João VI havia perdido Seus Direitos de Realeza por ter aceito independente a Coroa Imperial do Brasil. O Cisma Político da ilegitimidade do Senhor D. Pedro IV foi então pregado, impunemente, até dos púlpito, naquele desgraçado Reino, e a tanto chegou a maldade de alguns degenerados Portugueses que ousaram avançar com a maior injúria do Direito Público Português, que Vossa Majestade Primogénita das Augustas Filhas do Senhor D. Pedro IV, nascida Portuguesa, e chamada pelas Leis Fundamentais do Reino à Sucessão do Trono, na falta ou impedimento do Senhor D. Pedro IV, havia perdido por aquele alheio facto Seus Inauferíveis Direitos à Coroa Portuguesa. Um bando de homens todos rebeldes, todos traidores, todos perjuros, todos ilegitimamente convocados, e a maior parte deles até ilegalmente eleitos, mas que se disseram - Os Três Estados do Reino - vieram consumar a obra da iniquidade fazendo e publicando o Assento de 11 de Julho do corrente ano, É a análise e refutação jurídica deste monstruoso Assento forjado nas cavernas da rebeldia e da traição, que eu tenho a honra de oferecer a Vossa Majestade. Empreendimento muito superior a meu talento pela grandeza dela, porem mui conforme ao leal ânimo de um súbdito Português Mártir da Legitimidade, que procura manifestar aos Reis e Povos do Mundo a Justiça com que Vossa Majestade sobe ao Trono de Deus Maiores. Dê Vossa Majestade Seu Real Amparo a este Serviço feito igualmente a Vossa Majestade, e ao Reino

Deus Guarde a Pessoa de Vossa Majestade por largos anos, como lhe pedimos todos, e havemos mister.

Beija as mãos de Vossa Majestade
Deu respeitador Súbdito


O DESEMBARGADOR

ANTÓNIO DA SILVA LOPES ROCHA"

Pode já o leitor adivinhar pelo estilo do transcrito discurso introdutório, ainda mais por ser dedicado a uma senhora e Rainha, a tranquilidade e clareza argumentativa em falta. Este escrito, publicado em forma de livro em Londres, saiu com uma versão em português e uma outra em inglês, demonstra a intenção de procurar adeptos na Europa (nomeadamente em Inglaterra) à base de confundir ou ocultar a fundamentação pela qual D. Miguel foi sagrado e proclamado Rei. Trata-se de uma acção de propaganda que não é de estranhar num liberal (pois gradualmente tudo se lhes vai parecendo relativo - tudo poderia valer se estivesse ao serviço do maior proveito).

Na leitura desta obra, comecei por pensar que o autor era um bem intencionado liberal, mas ao adiantar-me na leitura começou a figurar-se alguma maldade de um liberal de carreira, com culpa, e já afectado e comprometido. Nota-se uma razão ao serviço de pressupostos falsos que tornam a obra pesada com  muitas referências assentadas sobre argumentação equivocada. O autor não é original, transparecendo a versão liberal previamente estudada e que fazia parte da posição dominante no Brasil (suponho que estaria ligado a certas forças organizadas e internacionais). António Lopes Rocha, pasme-se, foi agraciado com a Ordem da Imaculada Conceição...

A argumentação do Desembargador é aquela que correu depois da vitória e estabelecimento definitivo do liberalismo. São estes os mesmos erros sobre os quais tantos escritores assentaram as suas conclusões e se ouvem hoje por toda a parte. Esta difusão diabólica deve ser combatida com o esclarecimento que, por haver hoje tão pouca gente que o queira fazer, e por ser pouco o tempo e estar tão necessitado o mundo de outras coisas de gravidade igual ou superior, irá demorar.

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