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24/08/15

AO PAIS E MÃES DE FAMÍLIA - POR S. CARLOS BORROMEU (II)

(continuação da I parte)

DOCUMENTO III
Das Bênçãos Dadas Por Deus Aos Filhos Que Honram a Seus Pais, e Mães.


Primeira Bênção

Honra teu Pai e a tua Mãe, para que tenhas larga vida, como se lê em Êxodo 20. Esta primeira bênção é sobre a longevidade, da qual foi exemplo Sem, filho de Noé, de quem a  vida não se acha princípio nem fim na Escritura: pelo contrário Cam, viveu poucos dias, por ter desonrado seu pai, como se vê no cap. 9 dos Génesis.

Segunda Bênção

Aquele que honra Pai e a Mãe será alegre e contente, e seus filhos serão ouvidos em tempo de oração, como está escrito no cap. 3 do Eclesiástes.

Esta bênção é sobre a alegria e contentamento que se tem relativamente aos filhos, da qual nos é dado o exemplo de José filho de Jacob, que por obediência a seu pai e pela honra que lhe prestou o fez alegre e contente entre seus filhos ... como se lê no Génesis cap. 18.

Terceira Bênção

Aquele que honra Pai e Mãe, acumula um tesouro no Céu, e na terra, como se lê no Eclesiástes cap. 3.

Esta bênção é sobre os bens Espirituais e temporais, os quais concede Deus aos bons, dos quais temos como exemplo a Salomão, o qual não apenas honrou muito seu pai como também sua mãe, e por isto viveu felizmente no Reino até muito velho, tal como se lê em Reis III cap. 2.

Mas, pelo contrário, Absalão que perseguia seu pai, foi morto com três dardos de Joab, Príncipe do exército, como se vê em Reis II cap. 18.

Quarta Bênção

Aquele que honra Pai e Mãe serve ao Senhor com todos seus bens, como se lê no Eclesiastes cap. 3.

Esta bênção é relativa aos bens Espirituais, da qual é exemplo Jacob filho de Isaac, o qual foi eleito de Deus, e bendito do pai. Pelo contrário, Ezaul foi reprovado, como o indica o Génesis cap. 27.

Quinta Bênção

Honra teu pai, para que venha sobre ti a bênção de Deus, e serás bendito, como está dito em Eclesiastes cap. 27.

Esta Bênção dá-se principalmente por Deus aos filhos bons, e obedientes. O que significa ser bendito de Deus, senão outra coisa que a Graça divina que Dele se recebe?

DOCUMENTO IV
Das Maldições Dadas Por Deus Aos Filhos Que Desonram Seus Pais e Mães

Primeira Maldição

Aquele que a seu pai, ou mãe, maldisser, seja morto, e morrerá seu sangue... como se lê em Eclesiastes cap. 20.

Esta maldição está confirmada por Deus em Deuteronómio cap. 20, onde manda Deus que se alguém engendrar um filho desobediente e perverso, que os homens da Cidade o matem com pedras, e morra, para que saia do caminho tal pestilência do meio deles, como se lê no dito capítulo.

Segunda Maldição

Maldito seja aquele que não honra a seu pai, e sua mãe, e diz todo o povo, assim seja, como se lê em Deuteronómio cap. 27.

Esta maldição foi dada por Deus, e por isso é de grande importância.

Terceira maldição

Aquele que afligir Pai ou Mãe será afrontado, e infeliz, como se lê em Provérbios cap. 19.

Esta maldição se manifestou em Absalão, coisa que já foi  dita e que agora se vê cumprida em todos os outros filhos que afligem o pai ou a mãe.

Quarta Maldição

Aquele que maldisser Pai ou Mãe verá apagar-se seu lume no meio das trevas, como se lê  em Provérbios 20.

Todos os filhos temam esta mortal maldição, na qual se mostra, que assim são privados de toda a luz, que é a luz da graça e da glória, porque sempre estarão em trevas enquanto vivam, e na morte ouviram aquela voz de Cristo que diz: deitai-os à escuridão interior.

Quinta Maldição

Aquele que negar seu Pai ou Mãe as coisas necessárias, é um homicida, como se lê em Provérbios cap. 18.

Este foi aquele mau e preverso costume dos Escribas, e Fariseus, os quais mandavam aos filhos que, por voto, obrigasse o Templo à fazenda de seus pais e mães, contra os quais grita e fala Cristo, por S. Mateus cap. 15 dizendo "Vós haveis anulado o preceito de Deus, com vossas ordenações, e constituições".

Os filhos obedientes foram sempre agradáveis a Deus, os filhos desobedientes foram sempre castigados, e muitos deles reprovados.

DOCUMENTO V
Dos Exemplos Para os Filhos Que não São Obedientes a Seus Pais e Mães

I Exemplo
Cesareu escreve que, no monte da Cecília se abrasava uma montanha, cerca da qual havia algumas vilas, e havendo chegado o fogo às casas, fugiam as gentes que nelas havia e alguns (que não podiam fugir) dos filhos deixavam os pais, e outros os levavam às costas; o fogo passava adiante, e abrasava aqueles que fugiam, e deixava seus pais, e aos que livraram os pais, mesmo os que estavam cercados de fogo, não lhe fazia dano algum, porque Deus os preservava, porque guardavam o preceito de honrar pai e mãe.

II Exemplo
Também se lê que uma parte de Itália, um filho por não querer obedecer à mãe, a mãe lhe deu, ou enviou esta maldição "maldição, ou blasfémia) como se disséssemos, convém saber: "Sejas morto, e nem o ar, nem a terra, nem a água, nem o mar te possam receber". E assim não passou muito tempo, que lhe alcançou a maldição. Porque a justiça o enforcou, e não podendo permanecer na forca foi deitado a um rio, o qual não o deteve, nem conservou, pelo qual o tiveram que enterrar, mas aconteceu que pareceu que nem a sepultura o queria dentro de si.

Finalmente o deitaram ao mar, o qual o largava nas margens. Então a mãe lembrou-se da maldição que tinha dado, e lhe fez atar uma grande pedra ao pescoço para que fosse novamente deitado ao mar: mas não foi bastante, pois a força do mar o fez chocar contra umas rochas e o desfez em quatro partes que se foram afastando cada um para seu lado desaparecendo para longe. Eis a maldição lançada por esta mãe.

III Exemplo
Outro houve em Roma, que sendo condenado à força, quando chegou onde havia de morrer, levantando os olhos, reconhecendo o lugar, disse estas palavras: "Aí de mim! Aí de mim. Agora sei que veio a justiça de Deus sobre mim; não pelo mal feito, mas porque neste lugar, quando tive o atrevimento de levantar a mão contra minha mãe, disse-me ela "Que aqui te vejam na força"... e agora vejo cumprida a maldição". E então foi enforcado.

IV Exemplo
Escreve também de alguém que, para deixar o seu filho com vantagem e rico lhe fez uma doação de todos os bens. E assim ficou o pai à mercê do filho, mas o filho fazia-lhe passar extremas necessidades, ao ponto de o não querer mais em casa e passando a viver de esmolas. Um dia, à hora de comer, foi a casa do filho para comer com ele. O criado deu aviso da chegada daquele pai, e aquele filho mandou uma criada retirar da mesa um prato de carne que nela estava, juntamente com o demais, ficando apenas um pão. Diante do filho, sentou-se à mesa, comeu do pão, e no final saiu, ficando o filho a murmurar de enfado e mandando à criada trazer a carne de volta. Mas, esta carne, depois de colocada na mesa volveu-se num hediondo e sujo sapo que logo lhe saltou à cara. Este bicho tinha ácidos, a cabeça era voltada para cima, as patas ácidas . Foram chamados cirurgiões [médicos] para tentar despegar o bicho, o qual parecia enfurecer-se contra eles; visto tal incógnito e horrível prodígio, optaram por abandonar o caso. Viveu durante 13 anos neste estado, e morreu. O Padre de lá foi quem deu a notícia a S. Carlos Borromeu que sucedeu naquela Diocese, quem o mandou ir por todo o Arcebispado dar exemplo disto que tinha visto, desmotivando os tíbios na desobediência aos seus pais e mães.

Laus Deo, et Mater eius.


20/07/15

AO PAIS E MÃES DE FAMÍLIA - POR S. CARLOS BORROMEU (I)

DOCUMENTOS COMPOSTOS POR S. CARLOS BORROMEU,
Arcebispo de Milão,

Para os Pais e Mães de Famílias,
para criar seus filhos honrando a Deus: com as bênçãos dadas por Deus para os bons, e maldições para os maus que não honram a seus pais e mães.
Tirados da sua santíssima vida por um devoto seu.

Ano de 1631
Con licença em Barcelona

[tradução: ASCENDENS]


DOCUMENTO I
Dos Pais e Mães de Famílias, Para Conservar a Paz Entre Si e a Família

Ofício do Pai de Família

Seja Cristão de nome e de obras. Honre e reverencie aos grandes, aos Sábios, aos Legisladores e às Leis;
Nas conversas, considere o tempo, o lugar, e as pessoas;
Procure não desagradar aos maus, procure agradar aos bons e prudentes;
Antes de travar amizade, considere com quem e qual o motivo;
Em todas as ocasiões, diga a verdade, e com poucas palavras;
Tenha á mulher para a geração e companhia; durante o dia não esteja triste nem alegre [mas sereno];
Não ponha a descoberto os seus segredos, nem os alheios;
Seja senhor absoluto de tudo o que tiver;
Não seja pródigo, por não ser vituperado;
Não seja avaro, para não ser blasfemado;
Estime a mulher nas coisas necessárias;
Não trave com ela contenda, nem a advirta em público;
Seja prudente no contratar, concluir, e obrar;
Não consinta que sua mulher vá ou se encontre "em velas", festas, e jogos;
Seja para sua mulher não apenas marido, mas também amoroso pai, irmão e mestre;
Supra no governo da família a falta da mulher;
Não torne a mulher demasiado rigorosa e desesperada, mas também não permita que ela esteja entregue aos seus gosto e seja dissoluta;
Não beije nem mime sua mulher na presença dos filhos ou filhas;
Não seja cruel em castigar, nem fácil em perdoar o erro cometido;
À mulher e família, torne-as mais temerosas com palavras do que com feridas e golpes;
Faça por vezes uma vistoria para ver se na sua casa e seus haveres não há perigos;
Dê a toda a sua casa o devido mantimento, assim como aos servos, ou o devido prémio acordado;
Ponha fora de sua casa o servo, ou criado que persevera em pecado, ou haja caído noutro mais feio que o primeiro;
Provenha adequadamente, e o mais necessário em casa, deixando-o então à custódia da mulher;
Não se ocupe tanto em juntar riquezas que chegue a esquecer-se daqueles a quem deve deixá-las;
Em ocasiões de floresta, festas, ou regozijos, não deixe tudo a cargo da mulher;
Fuja da inveja e dos zelos, e não se deixe vencer pela ira;
Levante-se cedo, e deite-se tarde;
Não se habitue, nem consinta que em sua casa haja costume de manjares regalados;
Recorde-se que antes de ser pai foi filho;
Crie seus filhos com temor e reverência;
Repare o escândalo de sua casa;
Esquive, ou prive os seus filhos de serem conversa e trato de muitos;
Adorne seus filhos de santa doutrina e de cortesia de criança;
O governo e criança [criação] de seus filhos, deixe-os apenas às pessoas doutas e de bom exemplo;
Busque ou procure  o dote para as filhas, e a mulher o procure para os filhos;
Nos feitos prósperos não se tenha elevado, nem pelos adversos fique abatido ou se faça vil;
Não ande nem consinta andar à noite;
Seja a sua regra: desejo de honra e temor de infâmia;
Como o mar desgasta a rocha ferindo-a e batendo nela, assim o marido vagabundo faz com sua mulher;
É melhor mandar em mulher feia, que obedecer a mulher formosa.


DOCUMENTO II

Da Mãe de Família

Fazer todos os dias oração a Deus rogando pelo marido e pelos filhos;
Ler livros apurados pela Igreja;
Contentar-se pelo marido que Deus lhe deu;
Sujeitar-se ao marido como sua cabeça;
Amar o marido, e não formosura, força, ou riqueza dele;
Amar no marido a bondade, a modéstia, e a prudência;
Imitar o marido, não cuidando senão das coisas lícitas aos dois;
Não fazer coisa fora do cuidado da família sem licença do marido;
Não fazer, nem dizer uma coisa por outra ao marido [enganar];
Nunca responda mandando à cara do marido ........ [?];
Na conversação não ultraje nem faça vil o marido;
Ao marido e aos maiores não interrompa ou impeça o raciocínio ou prática;
Para o seu marido seja mansa, amorosa, e constante;
Às questões do marido responda com verdade e prontidão;
Olhe o marido e os filhos com rosto alegre;
Alimente os seus filhos com leite próprio;
Quando não há obrigações de preceito e o marido está enfermo, não deve ir à igreja;
Guarde os segredos do marido e não os conte a pessoa vivente;
Não tenha trato, nem conversações, senão com o marido e filhos;
Seja amorosa e agradável, tanto no fazer como no dizer e no ordenar;
Estime e respeite o marido ausente, como se estivesse presente;
Não aceite presentes senão dos parentes não afastados;
Fuja da curiosidade de saber dos feitos alheios;
Não fale dos homens sem que disso haja concreta necessidade;
Quando não é escusado falar, que seja com poucas palavras;
Não fale, nem consinta que se fale em segredo;
Não se afeiçoe mais a um filho que a outro;
Nunca diga nem ensine a dizer "isto é meu, isto é teu";
Ensine com o próprio exemplo, e não com gritos e ameaças fora da necessidade;
Não consinta praticar, ou que entrem em casa pessoas infames, de má vida e más mãos;
A criada que uma vez "errou", ou "caiu em erro", não a tenha em casa;
Não faça cara de esquiva, ou de melindrosa, e muito menos de desavergonhada;
Não escarneça, nem zombe de ninguém, fazendo gestos ou cara feia;
Não demande nem pergunte ao marido mais do que aquilo que ele possa e queira dizer;
Não escute nem fale de coisas ilícitas;
Não creia em superstições, encantamentos ou "sonhos";
Não vá a diversões, porque nem voltará melhor;
Leve cara limpa, não depilada, vestindo-se em conformidade com o seu estado;
Nunca deixe que as filhas e criadas andem ociosas, mas sim exercitadas em alguma actividade.

(continuação, II parte)

18/06/15

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 13 (I)

O PUNHAL DOS CORCUNDAS

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Nº. 13
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Ostendam gentibus nuditatem tuam

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CATECISMO DE VOLNEY

Donde veio aos Regeneradores do Porto a sobremaneira estulta presunção de que fariam quanto quisessem dos bons Portugueses? É de admirar que sujeitos da mais atilada sabença, e Donatários das formosas regiões da Luz, não conhecessem o próprio terreno em que se deviam fazer as suas evoluções Maçonico-Jacobinas. Tem-se observado que o amor dos Povos aos Reis está sempre na razão directa do cumprimento dos deveres religiosos. Nunca um país verdadeiramente Cristão deixará de ser um país cordialmente sujeito aos seus Príncipes, o que é tão certo, que a lealdade em países Católicos é sempre mais crescida que em países Protestantes. Ora que à vista da estranha relaxação de costumes, que há trinta anos a esta parte se nota e deve lastimar em todas as classes de cidadãos, eles pensassem que chegariam a salvo com seus disfarces republicanos, e que à sombra de ilegais usurpações feitas aos Grandes e aos Mosteiros, contentariam aos pequenos e os lavradores, nem se admira, nem se deve ter por estranho do que sucede nas mudanças de governo, especialmente urdidas para levantarem uns sobre a ruína e a desgraça dos outros... mas que houvesse constitucionais escandecidos a ponto de julgarem os seus concidadãos já maduros para ouvirem, abraçarem, e seguirem de bom grado as lições do Deísmo, que na frase do Grande Bossuet não é mais que um ateísmo disfarçado, parecera incrível se desde o começo da nossa infausta Regeneração não vissemos impresso com licença da Mesa da Comissão de Censura na Tipografia Rollandiana 1820 a Exposição da lei natural ou Catecismo do Cidadão!!! Obrinha é esta do famigerado Ateu Volney, que só este nome do autor é sobeja recomendação para ser o pasto das chamadas, onde quer que apareça tão infernal e desatinada produção.

Foi este um dos maiores atentados contra a Fé, qual nunca se viu em seicentos para setecentos anos de existência, que vai contra a nossa Monarquia... nem todos esses séculos, que precederam o nosso, poderiam ver a sangue frio tão debocada e horrorosa violação do que há de mais sagrado e respeitável entre os Portugueses... Há certos livros manhosos, traçados com arte, onde o veneno se encobre de tal maneira, que chega a iludir os ais experimentados; porém neste reina desde o começo até ao fim a maior clareza e descobrimento de princípios, que assusta e faz tremer a própria ignorância.
Começando logo pela definição da lei natural se mostra, e bem às claras, todo o veneno que hão de propinar todos os capítulos da obrinha,que todavia se apura e sobe de ponto na explanação dos caracteres da lei natural, como se irá vendo das formais palavras do infame Catequista "Pergunta   Mas nenhuma outra lei é universal?; R. - Porque nenhuma convém, ou é aplicável a todos os povos da terra: todas são locais e acidentais, filhas das circunstãncias de lugares e de pessoas, de maneira que se tal homem ou tal acontecimento não tivessem existido, tal lei não existiria." (Cap. 2º).

Aqui vemos solenemente desmentido o - Prégai a toda a Criatura - e postos em cena os princípios filosóficos modernos, a que o adepto Montesquieu deu tanta voga quando sustentou que a admissão do Cristianismo era impraticável na China em razão dos costumes, hábitos, e climas, etc. etc. . Ora qualquer simples Cristão, ainda sem estudar Lógica e Teologia, e apenas escudado pelo seu Catecismo, tapará facilmente a boca a estes Filósofastros com uma só palavra. A este legislador, que manda prégar o Evangelho a toda a Criatura, não é nada impossível, pois ele é sempre infinitamente maior que todos estes obstáculos sejam da natureza, sejam dos hábitos, sejam dos climas.

Sobre o quarto caracter - "P. - Logo nenhuma outra lei é uniforme, e invariável?; R. - Não...".

E assim depõem a Lei Evangélica de ser universal, e de ser invariável; mas que brecha lhe podem fazer homens até quase depostos do ser humano, e cujo primor científico se reduz a nivelarem a espécie humana com os próprios jumentos, e com os próprios mus que carecem de inteligência!!!

Sobre o quinto carater - "P. - E as outras leis não são evidentes?; R. - Não; porque se fundam em factos passados e duvidosos, em testemunhos equívocos e suspeitos, e em provas inacessíveis aos sentidos.".

Aqui temos proclamado o Cepticismo, expostas à desconfiança as histórias mais autênticas do Universo, e compreendidos nesta sentença de morte os próprios milagres de Nosso Senhor Jesus Cristo!!!

"P. - E outra qualquer lei não é sempre racionável?; R. - Não, porque as outras contradizem algumas vezes a razão e o entendimento humano, e lhe impõem com tirania uma crença cega e impraticável.".

Eis que surde a razão humana, esta pobre, miserável, e acanhada em tudo que é sujeito ao seu alcance, já feita Soberana, e desde o alto da sua trípode, intimando em ar de Oráculo a destruição dos Mistérios, e de tudo o que pertence à Fé Católica. E saiu impressa tal obrinha neste Reino, e com licença dos Ilustríssimos Delegados de Manuel Fernandes Tomás!!!

Ainda não caiu uma nódoa semelhante sobre os nossos prelos, e sobre o conceito que as nações entrangeiras faziam da nossa Catolicidade! Não podemos jactar-nos de que perdemos tudo excepto a honra...

Se um dos interlocutores conclui em ar de pergunta no Capítulo 7.º "Logo o prazer não é um mal, um pecado, como pretendem os Casuístas?; R. - Não, o prazer só é um mal quando tende a destruir a vida e a saúde, que nos vêm do mesmo Deus, como concordam até os mesmos Casuístas."

Não será isto uma espécie de carta em branco para se atropelarem de contínuo as Leis Divinas e Humanas? Que porta mais franca se pode abrir ao Materialismo do que estabelecer a saúde como regra e norma dos prazeres, como se não houvesse uma substância que eles principalmente ofendem e arruínam? E para nos tirar as dúvidas sobre a legítima e verdadeira acepção daquelas palavras, não tarda o Perguntador em abrir caminho a outra resposta ainda mais decisiva e abominável... "P. - Mas a virtude e o vício não têm um objecto puramente espiritual, e abstracto dos sentidos?; R. - Não, é sempre a um objecto físico, que se refere em última análise, e este fim ou objecto é sempre destruir ou conservar o corpo.".

Que tal se prometia a Liberdade de Imprensa, quando nos seu cativeiro à constitucional era tão descomedia, e ousava romper nestes execráveis delírios?... E os bons Católicos deviam alegrar-se com a prometida Regeneração! E o Eminentíssimo Cardeal patriarca devia dormir a sono solto em cima da coberta do navio, cuja direcção lhe fôra confiada, ao mesmo tempo que uma recua de piratas lhe deitava fogo por todos os lados!!!

Voltemos ao Catecismo internal, que no artigo das virtudes é curioso, e como se excede a si próprio.

"P. - E devemos considerar a abstinência e o jejum como acções virtuosas?; R. - Sim, quando se cometu demasiadamente, porque então a abstinência e o jejum são remédios simplices e eficazes, mas quando o corpo tem necessidade de alimento, negar-lhe, e deixá-lo sofrer fomr ou sede, isto é delírio, e um verdadeiro pecado contra a lei natural."

Ora aqui temos a mortificação dos Penitentes da Nitria e da Tebaida olhada como se fosse um delírio! E o próprio Legislador dos Fiéis, e de todos os homens, incurso na mesma censura por ter chegado a experimentar fome no dilatado jejum de quarenta dias e quarenta noite!! Que sorte devia esperar o jejum da Quaresma depois de se lerem tais blasfémias!! Sim, tudo isto era aplanar caminho para a famosa Bula da Carne, em que brevemente falarei com extensão; porém os estouvadíssimos Pedreiros não escolheram boas posições, e enredaram-se de tal maneira, que na sua campanha aberta neste Reino para entronizarem o maçonisimo saíram uns perfeitos e acabados Joães de Las Vinhas...

Quando o Catequista se vê obrigado a falar (Cap. 5.º) nas abstinências ordenadas por vários legisladores, nem por isso há de mostrar-se mais propenso a admitir os fins da instituição do jejum. "Longas experiências (diz ele) tinham ensinado aos antigos que a Ciência Dietética fazia grande parte da Ciência Moral...".
Campa do Conde Volney
Nesta parte já tínhamos visto a Medicina Teológica, que de certo bebo na mesma fonte, de que se valeu o Catequista, ou em outras igualmente corrompidas, se bem que a tal doutrina já é muito velha, e eu a tenho lido em A A. que escreveram há duzentos anos, mas torna a aparecer mais bela e remoçada por ser grande fautora do Materialismo... isto é do erro mais dominante no séc. XIX. Por mais que vivêssemos neste Reino, é certo que ainda não tínhamos visto uma definição de Fé e de Esperança, qual se encontra no Capítulo 12: "P. - A lei natural considera como virtudes a Fé e a Esperança que se juntam à Caridade?; R. - Não, porque isto são ideias sem realidade, porque se delas resulta algum efeito é mais em proveito daquele que não tem estas ideias, do que daqueles que as têm; de maneira que a Fé e a Esperança podem chamar-se virtudes dos tolos em proveito dos velhacos.".

Basta. Que mais era necessário para sabermos que Constituição e regeneração eram os votos da impiedade em proveito dos Mações? Quem ensina tais princípios a um Reino Católico, por qual altte se poderá lavar da nódoa de Prégador do Altíssimo? Vendo-se o Catecismo alguns dias.... porque a Lisboa do Século 19 não é a Lisboa do Século 16.

Mas que culpa tem o Governo então Supremo de que saísse o Catecismo? Como há de refluir no Sistema Constitucional o defeito de um homem perdido, ou alienado?

Assim é; porém o tribunal da Censura por quem foi instituído? E não sabia ele que seus amos lhe não estranhariam a publicidade do Livrinho? E não vogaria ele por todo o Reino e suas Conquistas? Não faria ele todo o mal para que era destinado, se o Eminentíssimo Cardeal patriarca não se pusesse em campo, e não se afadigasse pela supressão do endiabrado Catecismo? E não foi este um dos crimes daquele impávido Atleta; que ficou em aberto para ser punido em melhores tempos? E não viram estes melhores tempos as Superstições descobertas, o Cidadão Lusitano, e o Retrato de Vénus? E para me retingir por ora ao meu assunto; não se imprimiram em Lisboa, e não se afixaram nas portas das Igrejas os anúncios de estarem à venda as Ruínas de Volney, cujo nome posto em letras maiúsculas para sinal de exultação, e de triunfo, consternou sobre maneira a piedade Cristã, reduzida então ao silêncio, e aos gemidos a furto na presença dos altares?

Serei claro; e se alguém é capaz de me desmentir, que me desminta. Foi a decantada Tese do Abade de Prades o primeiro botafogo da incredulidade na França, e o Catecismo de Volney o mesmo papel na chamada Regeneração Portuguesa. Deve soar esta verdade nos púlpitos, nas cadeiras, nas praças e até em cima dos telhados, para que os nossos concidadãos aprendam, e se desenganem, e por outra parte os cúmplices do maior dos atentados se confundam, se mordam de raiva, e percam de uma vez a sacrílega esperança de fazerem deste Reino uma sociedade de Ateus, ao que se endereçava a maior parte das suas medidas em assuntos religiosos, como irei mostrando nos números seguintes.

(continuação, II parte)

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 16 (III)

(continuação da II parte)

Os Mestres

Ninguém suspeita que a nossa Religião favorece a ignorância como sua aliada. A nossa Religião que desde o seu berço sustentou os mais renhidos combates com a sabedoria humana, e cantou a vitória sobre os Celsos, Porfírios, e Julianos, como há de temer o bando de petimetres, e de ignorantes, que têm querido mais insultá-la, e vilipendiá-la, que combatê-la nestes últimos tempos? Quer, e deseja ardentemente a nossa Religião, que seus filhos sejam, ainda mais que nas ciências humanas, instruídos na ciência dos Santos; nem a que acompanhou os Justinos, os Atenágoras, os Crisóstomos, e os Agostinhos, foi jamais exclusiva de toda a variedade de conhecimentos humanos, que fazem parte das coisas que Deus entregou à livre discussão dos Sábios. Tudo o mais que se divulga sobre esta matéria, como se a Religião Cristã fosse inimiga do crescimento das luzes, quando ela só é inimiga das trevas, e do que se gera e inculca no seio das trevas, procede ou de ignorância, ou de malícia, e importa que este aleive se desminta por todos os modos, que estiverem ao alcance dos sinceros amigos da sua Pátria, e se declare à face dos Ceus e da terra o que são os Mestres devassos de costumes, e seguidores de perversas doutrinas. E como se há de haver com seus discípulos um mestre que só considera nas tenras plantas, que lhe foram entregues, uma coisa bem pouco acima dos vegetais, que nasceu para viver e morrer, e que não deve ter esperanças de uma vida futura? E desgraçadamente há cópia de dais mestres no Reino de Portugal!!! Daqui vem, que no ensino da Filosofia racional e moral se omite por muitos Professores, como desnecessária, e supérflua a terceira parte da Metafísica, que trata de Deus, e nem uma só palavra se estuda dos últimos capítulos da Ética de Heinécio, que são os mais importantes, visto que se trata neles dos meios para se conseguir a felicidade. Tenho presenciado muitas vezes a decadência dos estudos, sem lhe poder acudir, nem dar remédio!!! Não pára aqui o arrojo de tais Mestres, que demais a mais inábeis e incipientes, nem os seus pecados são meramente de omissão, sobem de ponto os de comissão por certo mais agravantes, e mais escandalosos! Que há de fazer um pobre Discípulo, que escuta o seu mestre, como se fosse um oráculo, se este oráculo anuncia nas aulas menores os princípios de um refinado materialismo (é inizivel a astúcia com que os próprios mestres de Latim podem insinuar a seus ouvintes os mais errados e perversos documentos. Queixa-se um sábio escritor Francês (Mennais) de que os sobredictos Mestres são traduzirem a passagem de Virgílio Auri sacra fames, o faziam deste modo: Sacra fames, a fome Sacerdotal auri do ouro, e assim começavam de acender as primeiras faiscas do incêndio com que eles queriam abrasar a Igreja de Deus), e nas maiores, que é desnecessária a revelação, que o Catolicismo tem sido sempre o mantenedor, e a capa do despotismo, e que o Concílio Tridentino apertou as cadeias, que os Reis tinham lançado ao género humano; que este Concílio não foi ecuménico, que os Sacerdotes não carecem de jurisdição para confessarem, e absolverem validamente, que a doutrina vulgar das Indulgências é um tecido de erros, e de superstições, etc. etc.? Pois que diremos dos Sapientíssimos Lentes, e Professores infectos do maçonismo? E dos aspirantes ao Magistério, seduzidos com a esperança de suplantarem, e fazerem depor seus mestres, cujo maior erro tinha sido habilitar para o magistério estas crianças na ciência, e nos anos? Estamos para ver se ainda continuam a ensinar os Mestres conhecidamente Pedreiros Livres, que será este o final extremo... e se as providências tomadas sobre o exame do liberalismo dos mestres se reduzem a simples formulário, e temos justiça de compadres, sairá brevemente do exercício das aulas uma nova geração, quase toda Maçónica, e por conseguinte desafeiçoadíssima ao Trono, e inimiga do Altar...


Para que os meus Leitores não fiquem assentando que eu sou exagerado nos meus receios, devem saber que em algumas casas de educação já se ia abolindo de facto o Sacramento da Penitência, e que era necessário aos alunos, que ainda professavam o Catolicismo, saírem como a furto, ou darem outros pretextos da saída; e eu mesmo encontrei alguns nestas louváveis empresas, durante os poucos dias de Junho, que residi na Capital do Reino; e era voz constante que nesta última Quaresma, e já na antecedente ficaram por desobrigar muitos alunos, porque não só os não mandavam, mas até os arguiam de que se quisessem confessar. Notei igualmente que o Método de Lencaster, ou Ensino mútuo, que se plantou modernamente em Lisboa, ainda prossegue, e com aplauso; o que me fez pensar que talvez ainda se ignore neste Reino que ele já foi proibido em muitos lugares, onde reina o Catolicismo, e tem contra si alguns dos mais abalisados, e religiosos escritores do nosso tempo. Oxalá que os Portugueses, e nomeadamente os Pais de Família se resolvam de uma vez a abrir os olhos, e se convençam de que uma barquinha lançada a um mar tormentoso, sem direcção, e sem leme, forçosamente há de padecer naufrágio. Que importa que seus filhos sejam umas águias, que adornem os seu espírito de muitos e variados conhecimentos, se é quase inevitável perderem as almas!!! Que tesouros, e dignidades podem ressarcir os mancebos de tão lastimosa perda!!! Carecemos de uma inteira reforma de estudos em Mestres, e em Livros, e já é tempo de seguirmos o exemplo da Áustria, e Nápoles, e do Piemonte; e se estes reinos se antolharem a certos Leitores, como possuídos de fanatismo, dignem-se ao menos de imitarem Frederico II Rei da Prússia, e Catarina II da Rússia, que sendo o primeiro Ateu, e a segunda Cismática, não temeram confiar a Frades Católicos a direcção dos estudos da mocidade de seus reinos. 

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LISBOA: NA IMPRESSÃO RÉGIA. 1823

Com licença da Real Comissão de Censura

17/06/15

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 16 (II)

(continuação da I parte)

Livros

Ainda terei ocasião de patentear as equivocações e paralogismos das Côrtes Lusitanas sobre o artigo da censura dos livros, matéria esta em que os factos são mais poderosos que os raciocínios; e por agora satisfaço-me de ponderar que apenas os egrégios canonistas furtaram à Igreja todo o exame dos livros, nunca mais de pôde ter mão neles, para que não inundassem e pervertessem os reinos onde a autoridade civil se apossou daquela censura. Descansem por uma vez os engenhosos fabricantes de novas máquinas regeneradoras, que cedo ou tarde se voltará tudo contra eles, e uma desgraçada experiência os convencerá de que há certos interesses ligados intimamente à Fé, os quais só ficam bem nas mãos de uma Depositária fidelíssima, qual é a Igreja de Deus.

Um dos primeiros cuidados da nossa regeneração foi soltar os diques à torrente de maus livros, que até esse tempo se vendiam às ocultas e debaixo do capote, e dar amplíssima faculdade aos livreiros para terem sobre os mostradores A religiosa de Diderot, as obras mais ímpias de Voltaire e Freret; que as de Rousseau, não obstante o serem proibidas há muitos anos pela Real Mesa Censória, já se vendiam antes de 1820 sem rebuço, o que não admira, quando em Julho deste ano de 1823 se imprimia na Tipografia da Universidade o Contrato Social, porventura a fim de se radicar mais e mais a adesão e fidelidade ao Trono Português. Quase não havia neste Reino uma loja de livros, que não se tivesse mudado em em uma botica a mais bem sórdida de venenos, para se matar com eles quem se desgostasse de viver segundo os preceitos do Cristianismo. Para direcção dos novos costumes liberais tinha acudido um enxame de exemplares das Cartas do Lente de Matemática José Anastácio, onde se metem à bulha os dogmas do pecado original, da predestinação, das penas eternas (freio este que os Liberais tratam logo despedaçar a todo o custo), e a imortalidade da alma, e sua liberdade, etc. etc.. Guardarão a simples decência de lhe assinarem a cidade de Paris, como o lugar em que tinham sido impressas, quando por todos os exames e combinações se depreende claramente que tinha sido em Coimbra... Pois que impulso não deram à veneração das coisas santas, e à observância dos preceitos da Igreja um Cidadão Lusitano, e as Superstições descobertas?

Que nuvem de Santos de pau carunchoso não ameaçou procriar o licencioso retrato de Vénus? Que virtuosas donzelas, que boas mães de família não devia formar a piedosa leitura do Toucador das Senhoras, onde se lhes propinou desaforada e periodicamente o que há de mais venenoso em todos os escritos modernamente dedicados à obscenidade? Se algum destes livros, como notoriamente incurso nos abusos da liberdade de imprensa, era denunciado ao Júri, lá estavam os incorruptos e venerandos Jurados de Lisboa, que deixavam passar carros e carretas, e que, ouvindo a convicção íntima de suas melindrosas consciências, achavam que a licença franca de seguir os prazeres carnais, como outras tantas virtudes, e o escárnio das obras inspiradas e canónicas era um simples jogo de crianças!!! Pois um certo periódico mensal chamado Compilador, que meteu a salvo nessa farragem de inépcias quanto lhe veio à cabeça para mofar de tudo que é sagrado, e especialmente dos milagres, a que a devoção dos Portugueses tem dado há séculos inteiro crédito!! Pois o tom dictatório com que o Diário do Governo, ou das parvoíces, metia a sua colherada nos assuntos religiosos, confundindo e enxovalhando tudo!!! Os periódicos e mais impressos constitucionais seguiram a doutrina e sistema anti-religioso da Assembleia Francesa. Esta Assembleia extinguiu as ordens religiosas, e proibiu que os regulares trouxessem o hábito das ordens extintas. O Teólogo regular que escreveu as Memórias para as Côrtes Lusitanas decretou o mesmo: "Enfim (diz) o nome de Frade nunca mais deve lembrar, nem vestuário que o indique", e as Freiras são incluídas nesta extinção. O mesmo decretou o Dr. Apóstata; nas suas advertências úteis à pág. 30 n.º5, falando das Freiras, diz: "dispondo as coisas de modo, que com andar dos tempos se venham a extinguir" etc., palavras que declaram bem a sentença de morte contra os regulares. Mas outro ex-Frade e vagabundo Teólogo decreta a sua extinção com mais infâmia nas suas reflexões sobre um e outro Clero. Ele repete contra estas ordens respeitáveis os impropérios e calúnias dos hereges, e professa contra estas instituições religiosas o mesmo desprezo, ódio e rancor dos ímpios.

Este mesmo como o Teólogo Frade estabelecem todas as máximas da Assembleia Francesa, e justificam e autorizam o Congresso Português para as decretar. Ele quer a tolerância até ao ponto de se unir o Teólogo com o Filósofo: quer a extinção do Santo ofício: declara o Congresso autorizado para as reformas eclesiásticas: quer a extinção das imunidades, e o saque dos bens eclesiásticos, que declara nacionais e pertencentes à Nação. O ex-Frade zomba e escarnece de toda a Teologia; afirma que a Polémica tem feito hereges, a Mística doidos, e a Exegética até ateus. Ele quer que se desterre essa ciência, e que a Religião seja ensinada só por um Catecismo. Mas quem deverá fazer este Catecismo? Será um Teólogo e Mestre da lei? Isso não quer o ex-Frade. Chama questões de insignificância às que se suscitaram no séc. IV entre os Arianos e Católicos, e fala com desprezo delas, tendo em nenhuma monta a defesa de um dogma fundamental da Religião, como é o da Santíssima Trindade; nem é menos notável quando fala nos debates teológicos a favor da doutrina da Graça desde Santo Agostinho até nós.

D. Pedro de Alcântara, Imperador do Brasil, deu ordem de extinção de todas as Ordens religiosas em Portugal.

Para justificar a autoridade, que dá ao Congresso para as reformas eclesiásticas, não só calúnia os Concílios, e até os gerais, mas também afirma que sente mal destas Assembleias gerais. Ele as tem, como os Protestantes, por meramente humanas, isto é, não vê nelas senão homens, e as paixões dos homens, o que é injurioso ao Espírito Santo que as dirige, e às promessas de J. C. à sua Igreja, que tão positivamente nega. Este Teólogo confirma com a sua doutrina o que o Reformador da Itália dizia em 1769: que a Seita Teológica estava já adiantada em Portugal.

Item decretam contra os celibatários, e que ao Papa se peça licença para que os Frades e Freiras de pouca idade se casem. Podia-se-lhe repetir aquela sentença de Erasmo a Lutero: "A vossa reforma acaba, como as comédias, em casamentos, e provar com Bergier que é mais prejudicial à república civil e moral o celibatário da libertinagem do que o eclesiástico e religioso. Decreta mais a reforma das rendas dos arcebispos, Bispos, e Cónegos etc., e com poder mais que pontifício os põe a pão e laranja, e extingue os dízimos com fundamento de que não são de direito divino. Em consequência desta abolição manda sustentar o Clero secular pelos seus fregueses. Que política1 lançar uma nova contribuição ao povo para lhe tirar os dízimos a que estava acostumado: e que doutrina! J. C. ordenou que os que servem o Altar vivam do Altar, e proibindo-lhe o implicarem-se em negócios seculares, não lhe especificou e realizou esta côngrua e quota, e não pertencia à sua Igreja o realizá-la, quando isto se fez necessário? Pode haver autoridade mais legítima do que a Comissária de J. C. para todos os assuntos religiosos? E como estes dízimos não foram taxados por J. C., mas sim pela sua Igreja, decide que sejam abolidos, e até o seu nome. E quem não vê que pretendem nisto reformar mais o poder da Igreja que os Eclesiásticos? Nem um Concílio geral faria tanto. mas se por não serem os dízimos de direito divino devem ser abolidos, que outra coisa se lhes poderá substituir que não fique sujeita á mesma sentença de abolição dada pelo mesmo direito, e pelos mesmos juízes? Sustentem-se de pensões dadas ou pelos povos, ou pelo Estado; e afinal que teremos, senão decretos de direito humano para a sustentação do Clero? e por mais que se decrete para se substituir os dízimos, ficará sujeito à abolição pelo mesmo fundamento de que não é de direito divino. O fim destas reformas era, à imitação da revolução da França, tirar aos Eclesiásticos a sua côngrua sustentação, para que diminuísse e acabasse o Clero, e com ele a Igreja, porque esta não subsiste sem Ministros. e se a côngrua sustentação deles é de direito divino, não será contra direito divino tirar-lha? Veja-se Bergier sobre este ponto.

Item extinguiram estes dois Mações a Ordem de mala, e das Comendatarias, e até as músicas das Catedrais, e tão republicanos como os da Assembleia de França, queriam dar cabo dos vínculos, e nos eclesiásticos de toda a representação civil. Abolindo assim pelo primeiro decreto a Nobreza ou aquilo que a sustentava, e pelo segundo o que constitui o Clero um dos estados da Monarquia, reduzindo por estes dois decretos a Monarquia a um estado popular. Ambos decretam a tolerância universal, que é o mesmo que religião nenhuma.

O Reformador regular exclui, como a assembleia Francesa, o Papa da eleição e confirmação dos Bispos, cometendo-a a um Concílio nacional; e o Apóstata acrescenta que toda a dignidade eclesiástica será dada pelo Rei e pela Nação, e que nunca mais se torne a recorrer a Roma para a sagração de Arcebispos, Bispos, e Párocos (sagração de Parcos!!), porque (diz este fauto) não consta que J. C. desse mais poder ao Bispo de Roma que aos mais Bispos; seguiu o erro condenado de Mersilio de Pádua, e é Protestante, porque nega o primado de autoridade ao Sumo Pontífice, e é réu do Alvará de 30 de Julho de 1795, por igualar os Bispos ao papa seu Primaz. Uns tais Bispos não teriam Missão divina, e uma tal doutrina nasceu do espírito de insubordinação com que sacudiram o jugo das leis da Igreja, e lhe negaram o influxo do Espírito Santo. Fiquemos por aqui.

Eis aqui muito em grosso uma noção sucinta do que nós aproveitámos durante o Sistema Constitucional, que, se por nossos pecados, chega a ter mais um ano de duração, creio firmemente que seriam irreparáveis os seus danos. Entretanto será coisa bem lastimosa que não seque de todo a fonte que ainda corre dos países estrangeiros, e que o Império civil não desembainhe quanto antes a espada da lei para castigar os seus infractores; visto que será inútil qualquer outro remédio enquanto a nossa mocidade se imbuir das perversas doutrinas de tais mestres, que seriam os únicos autores de nossas maiores desgraças, se os mestres vivos, e existentes não fossem ainda mais para temer.

(continuação, III parte)

12/06/15

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 16 (I)

O PUNHAL DOS CORCUNDAS

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Nº. 16
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Ostendam gentibus nuditatem tuam

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EDUCAÇÃO PÚBLICA

Assunto é este que desde a chamada reforma de Lutero há merecido os cuidados e atenções de toda a espécie de sectários. Julgaram eles, e mui sensatamente, que se chegassem a dominar o coração e o espírito da sempre incauta mocidade, poderiam contar de certo que seus erros teriam voga, e mui dificultosamente chegariam a desarraigar-se. Já no séc. XVI foram as línguas mortas uma das capas com que se cobriram os malévolos intentos das novas seitas, para melhor propagarem as suas doutrinas; e foi um rasgo visível da Providência que ao mesmo passo em que a heresia lançava mão deste fatal expediente, começassem a existir os filhos de Santo Inácio, cujo principal intento era a direcção dos estudos da mocidade, para que saísse das escolas preparada com o auxílio das sãs doutrinas, a fim de se precaver das seduções que tão frequentes eram naquele desgraçado século. Por mais que se tenha clamado entre nós contra o Senhor D. João III, que removeu do ensino as aulas menores os Buchanans, os Grouchys, os Vinetos, e outros abalizados cultores das letras humanas, nem por isso ajudarei essas pouco reflectidas e mui desassisadas invectivas. Um Rei Católico antes quer que uma dúzia de seus vassalos fiquem menos instruídos em Grego ou Hebraico, do que, sob o pretexto de se adiantarem neste estudos, beba toda a mocidade do seu Reino pelas taças envenenadas da heresia e da incredulidade; além de que para se condenar, com alguma justiça, aquele Soberano, era necessário que me convencessem de que os Jesuítas Padres - João Baptista Perpinhão, Manuel Alvares, e Cipriano Soares eram inábeis para ensinarem Latim, Retórica, e Grego à mocidade destes Reinos.

Manifestou-se pois, desde o berço da Companhia de Jesus, uma figadal aversão aos novos Mestres destinados para a educação da mocidade, e não foram as decantadas máximas sobre o regicídio, e as sonhadas associações com os Chatels, e outros inimigos dos Reis; mas principalmente a sua preponderância no Reino de França (por assumirem os cuidados da instrução pública), que suscitaram contra eles a perseguição que lhes foi movida pelos Hugonotes, em extremo aflitos e desesperados de se lhes contrariarem as suas ideias e os seus projectos. Grande número de provas tiradas dos escritos do fim do séc. XVI, e de todo o século XVII poderia eu trazer em confirmação destas verdades, se o meu intento não fosse deliberar apenas esta matéria, a fim de chegar, o mais cedo possível, à desastrosa influência daqueles princípios neste Reino.

É sabido que os Pseudo-Filósofos do séc. XVIII, já para se fazerem senhores da educação pública, intrigaram e minaram tudo para conseguirem a extinção dos Frades da Companhia, cujo maior delito era certamente o de lesa-filosofia; porque obstavam denodada e valorosamente aos seus progressos de tal maneira, que nunca o estandarte da irreligião se arvoraria na capital da França, nem se chegaria a perpetrar o regicídio de Luís XVI, se a Côrte de França, por extremo corrompida, não desse as mãos aos Filósofos para se conseguir aquela extinção. Sobejas vezes o tenho ponderado, e não me cansarei de o repetir, que é bem digno de lástima esse indiferentismo ou desleixo, com que depois da extinção dos Jesuítas foi tratada a educação religiosa pelos Soberanos, que, desconhecendo os seus verdadeiros interesses, coadjuvaram pela maior parte, e sem o advertirem, a causa da impiedade. A conservação da Fé, no meio das tormentas que têm ameaçado por vezes submergir a barca de S. Pedro, é sem dúvida um milagre fixo e permanente, e para mim tão admirável como se eu visse a passagem do mar vermelho ou a ressurreição de Lázaro. Era impossível que forças humanas guardassem puro e ilibado o sacrossanto depósito das verdades católicas, sem que ele tivesse o menor perigo durante a guerra, ora encoberta ora descoberta, que lhe têm feito os ímpios há cem anos a esta parte. E o que me robora ainda mais nesta persuasão é o ver a suma diligência e actividade com que os Filósofos se meteram a seu salvo na direcção dos primeiros estudos da mocidade, fazendo imprimir livros recheados de heresias e obscenidades para serem o primeiro objecto das leituras da infância. Mete dó considerar-se que a impiedade tivesse sobejas forças para imprimir tais livros, e para os disseminar por todo um reino tão vasto e populoso como a França, e os distribuir gradualmente, a fim de segurar melhor as suas infernais conquistas, e que não prevalecesse ao mesmo tempo o contrário sistema de fazer imprimir e espalhar gratuitamente os bons livros, ainda que estes desejos de alguns Pastores talvez desmaiassem perante os esforços da autoridade civil, que, pouco ou nada escrupulosa na eleição dos Mestres, fechava de todo as portas à esperança de que homens indignos e imortais quisessem servir-se dos bons livros em pró dos seus ouvintes.

Desta perseguição ao Cristianismo se deriva o malfadado sistema de remover os Frades a todo o custo de educação da mocidade, e por isso neste últimos tempos em que mais de uma vez se têm renovado essas odiosas contestações, só o nome de Frades tem consternado, e feito mudar de côr alguns Ministros, secretos agentes da maçonaria, como se viu há pouco tempo na França, quando se tratou de admitir ao ensino público os Padres das escolas cristãs, que só este nome é uma declaração de guerra aos ímpios do século, que não receiam coisa alguma tanto como a propagação do Cristianismo.

Futuro D. José I
Da mesma envenenada fonte procederam as instruções dadas neste Reino, em tempos do Senhor D. José I, para que os Frades se excluíssem do magistério, visto que apenas sabiam ler o seu breviário, e já modernamente, nos anúncios de oposição às cadeiras menores, se afixou nas portas da Universidade, e nos outros lugares onde convinha, a famosa excepção dos Frades, que por mais que soubessem, e acompanhassem de excelente morigeração os seus bons estudos, acharam um veto absoluto, que tantas vezes escandalizou os homens probos e assisados.

Apenas se instalaram as Côrtes Lusitanas começou de manifestar-se algum cuidado pela instrução pública, e logo se viu que a maçonaria tratava de ser fiel aos princípios e doutrinas de seus Mestres Franceses, e não desperdiçava este meio de fazer prosélitos; e como até para ser Bispo se recomendou uma virtude exótica, peregrina e de novo cunho, que não tinha lembrado ao Apóstolo S. Paulo, a saber, adesão ao sistema, ainda mais se exigia nos cultivadores das tenras plantas, que se as fizessem crescer no espírito maçónico teriam ainda mais valor para os Pedreirões, do que se fossem Bispos, que nunca foram nem hão de ser pessoas de grande monta no conceito dos Pedreiros, que só os querem lá, ou para espantalhos ou para agentes da propagação da seita, e preenchido que fosse o seu fim os indemnizaria depois com dinheiro, ou empregos civis, do que tivessem perdido em honras e privilégios... Devem tratar-se com alguma extensão estes dois artigos, Livros e Mestres, em que apareceram factos mui curiosos, e mui dignos de chegarem à notícia do público, e de fixarem toda a atenção do Governo sobre um dos assuntos de maior consideração, em que o simples descuido, não digo somente de meses, mais de dias e horas, acarretará males gravíssimos sobre este Reino. Comecemos.

(continuação, II parte)

20/05/15

MEMÓRIAS PARA A VIDA DA BEATA MAFALDA (II)

Beata D. Mafalda
(continuação da I parte)

Capítulo II
EDUCAÇÃO E PRIMEIROS ANOS DA RAINHA D. MAFALDA

Os sucessos da infância, que bem pouco ou nada interessam nos homens de uma classe ordinária, contemplam-se de diversos modos naquelas personagens que conseguiram um nome célebre e recomendável à posterioridade. Eles merecem a atenção do historiador, que muitas vezes se cansa em descobrir já nos fundamentos a grandeza do edifício. Tratando pois de averiguar as primeiras acções da Rainha D. Mafalda, não farei senão conjecturas, já que a notória escassez de monumentos e notícias, já que a notória escassez de monumentos e notícias daquele tempo não permite avançar mais longe.

Contam alguns escritores, que a Rainha D. Dulce vigiou particularmente sobre a educação desta filha e que levava a tal ponto o seu extremo para com ela, que jamais consentiu,que lha tirassem dos seus braços na idade mais tenra e que vendo-a já crescida em anos se comprazia muito, porque já reluziam nela alguns indícios da sua futura santidade; mas confessando os historiadores (Fr. Bernardo de Brito, José Pereira Baião e outros) que a Rainha D. Dulce morreu a 11 de Setembro de 1198 e tendo eu já mostrado que o nascimento da Rainha D. Mafalda não sucedeu antes do ano de 1195, daqui resulta necessariamente que a Rainha D. Dulce não teve o gosto de admirar as nascentes virtudes de uma filha, a qual no tempo da sua morte contaria apenas três anos de idade; não duvido, porém, que a Rainha D. Mafalda recebesse de sua augusta Mãe as provas de ternura correspondentes à idade, pois é sentimento bem ordinário a todas as mães o prodigalizarem os mimos e afagos, na conjuntura em que mais se necessitam.

E quais foram os directores da sua educação? Não falta quem atribua esta glória a suas irmãs a B. Teresa e B. Sancha; e com efeito não negamos que a frequência dos bons exemplos, que ela observa nas suas virtuosas Irmãs, influísse muito para dirigir os seus costumes; mas devo repartir aquela glória com outra personagem, que até hoje foi desconhecida pelos seus historiadores e panegiristas (José Anastácio de Figueiredo, oficial da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino e substituto da Cadeira de Diplomática, novamente criada em Lisboa, é o 1º dos nossos escritores que atribui a criação da Rainha D. Mafalda a D. Urraca Viegas e assim na sua Nova Malta Portuguesa). É D. Urraca Viegas, filha de D. Moniz de Ribadouro e esposa do Conde D. Vasco Sanches, a qual, doando uma grande parte dos seus bens (a doação de D. Urraca Viegas e uma relação antiga dos bens que ela abrange podem ver-se nas provas nº 1 e 2) à Rainha D. Mafalda, lhe chama expressamente sua aluna, o que se corrobora ainda mais pelos Breves de Inocêncio III (vem na colecção que fez Balúzio das Epístolas de Inocêncio III, nº 115, e foi datado em S. João de Latrão, a 13 de Outubro de 1212), Gregório IX (o Breve de Gregório IX, é datado em Perúgia a 15 de Maio de 1230) e Inocêncio IV (o Breve de Inocêncio IV, é datado em Leão a 11 de Agosto de 1246 e com o antecedente vai lançado nas provas, que fazem um apêndice a estas Memórias), expedidas à instância da Rainha D. Mafalda, nos quais além da herança, que D. Sancho I seu Pai lhe tinha deixado, se confirma a que lhe deixou D. Urraca, da qual se diz que nutria e adoptara por filha a Rainha D. Mafalda; argumentos invencíveis para se mostrar que D. Urraca Viegas teve uma grande parte na sua educação.

Ninguém duvida que correspondesse perfeitamente aos cuidados e fadigas que por ela se tomaram e que muito suavizaria a docilidade do seu natural; e agora mais que nunca eu sinto a falta de historiadores coevos, que nos relatariam, com miudeza, quais foram as primeiras ocupações de uma vida, que para o diante se há-de manifestar por tantos prodígios e maravilhas, como se verá no decurso destas Memórias.Eles nos fariam ver um coração insensível aos encantos e delícias da Côrte, para suspirar unicamente pelas delícias do amor divino; e, pasmando justamente de verem em anos tão curtos as virtudes mais adiantadas, celebrariam a sua frequência na oração e outros exercícios de piedade, a resolução mais que varonil com que abraçava os rigores da vida penitente, a sua prontidão em socorrer os miseráveis e outros lances de religião e beneficência muito superiores a quantos dela nos referem os nossos cronistas guiados somente por conjecturas.

Todos eles afirmam unanimemente que a Rainha D. Mafalda só teve por igual na formosura em todas as Espanhas sua irmã a Rainha D. Teresa, donde se vê que a Omnipotência Divina a quis adornar com todo o género de perfeições, para a fazer admirável nas suas ordens da graça e da natureza; nem duvido que ela sobressaísse em outras prendas acomodadas ao seu sexo, nas quais se desdouro ou menoscabo da sua elevação e grandeza, passaria todo o tempo que lhe restava da oração e dos mais exercícios virtude; e, sendo-me permitido argumentar, por semelhança, que os exercícios da sua mocidade seriam os mesmos de suas irmãs, a B. Teresa e a B. Sancha, por não querer alargar muito as presente Memórias, remeto os meus Leitores para uma elegante e atilada descrição, em que aquele exercícios se retratam ao vivo (Fr. Francisco de S. Agostinho Macedo, desde a pág. 13 até 16, da obra que intitulou Vita Theresiae Reginae Legionis Dominae Jerabicae e saiu em Roma, no ano de 1667).

Aperfeiçoados por esta maneira os dons da graça e da natureza, ela começou a ser benquista de todos, ganhando com a sua presença os bens merecidos e universais aplausos de quantos a viam e admiravam (no Livro 1º das honras e devassos de Além-Douro da leitura nova do tempo DelRei D. Dinis, que se guarda na Torre do Tompo, existe memória, a pág. 60, de que a Rainha D. Mafalda passara os seus primeiros anos em Louredo de Moázeres e aí fôra educada. V. Provas nº 5º). Sabendo conciliar o respeito com a afabilidade, ciência bem árdua, pois é fácil tocar os dois extremos da baixeza e da soberba, não lhe era dificultoso mostrar um gesto senhoril, quando o exigia o decoro da majestade, nem fazer um benigno acolhimento aos pobres e miseráveis, quando o pedia o exercício das virtudes cristãs, que eram o principal objecto das suas diligências e cuidados.

à vista de tão belas disposições e das mais que se ignoram, não é destituída de fundamentos a conjectura dos que lhe atribuem uma decidida resolução de consagrar-se a Deus e não acolher outro esposo além do celeste. Ainda que não haja documento ou autor contemporâneo, que afiance esta resolução, ela se conclui naturalmente da repugnância com que a Rainha D. Mafalda aceitou as propostas de casamento, em que abaixo falarei, e que é atestada pelos historiadores mais antigos depois que examinaram e pesaram na balança da crítica as tradições que lhe dizem respeito.

(a continuar)

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