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14/09/16

CRUEL DEMOCRACIA

Sucedeu nos finais do séc. XIX na Espanha, quando promulgaram a lei do divórcio. No "parlamento", o líder da esquerda levantando-se agradeceu aos católicos, explicando que sem eles tal lei nunca teria sido aprovada. Indignados a direita protesta dizendo que tal era absurdo, pois havia votado contra aquela lei. O mesmo líder explica-se: "porque vós viestes votar é que a lei pôde ser votada [quorum]; se aqui não tivesses vindo, a lei nunca poderia ser votada, nem nós termos ganho." 

02/09/16

"ABSOLUTISMO" - CONTRIBUTOS PARA O SEU ESTUDO (I)


À imagem do que fizemos com as palavras "violência", "bons costumes" etc. será agora com a palavra "absolutismo". Contudo há um fenómeno intransponível que nos detém: os livros e documentos antigos registam em Portugal pelo menos DOIS USOS diferentes da mesma palavra, anteriormente à vitória liberal (ano 1834). Iremos também fazer o que hoje se faz: discriminar um usos, mas dando destaque apenas ao uso não liberal; o uso não liberal, anti-liberal é a linha mais desconhecida actualmente (eis o motivo de preocupação desta série de artigos). Ao longo das transcrições, quando for caso disso, juntaremos pequenos comentários para melhor precisar. Recorreremos também à comparação com textos liberais da época, para que o leitor possa melhor assentar na realidade e proteger-se da conhecida propaganda dos vencedores (ou nos que escreveram longe da época e são talvez inocentes vítimas).

1 - Cartas de José Agostinho de Macedo [um dos "terríveis absolutistas"] ao seu amigo J.J.P.L. (1827):

"... ; a Junta Apostólica quer, e promove aquelas sagradas e veneráveis leis, que fizeram grande a Espanha por catorze séculos desde Ataúlfo seu primeiro Rei até Fernando VII seu actual Soberano; a Junta Apostólica quer com afinco sustentar a Religião, e absolutismo... eis aqui as funções da Junta Apostólica, segundo diz o Lençol, e seu apaniguados, e trombetas. Pois a Junta Apostólica, segundo o mesmo Lençol no Manifesto da Catalunha, e em seus detestáveis, e abominandos, e nefandos Comentários, quer uma total sublevação dos Povos contra os Reis; a Junta Apostólica chama a Nação à rebelião e às armas; a Junta Apostólica quer fazer a guerra àquele mesmo Exército Francês, que ela conserva, e que ela paga; quer destronar, banir, desterrar aquele mesmo Fernando, que ela tem defendido a expensas de seu próprio sangue; a Junta Apostólica quer fazer passar o seu ceptro às mãos de seu Irmão; a Junta Apostólica quer arremessar o jugo da obediência. A Junta Apostólica é a fautora de todos os partidos revolucionários, a promotora principal da anarquia; a Junta Apostólica é uma alcateia de lobos, um covil de ladrões, que querem beber o sangue, e despojar todos os bons Espanhóis da suas sagradas propriedades; a Junta Apostólica abusa do nome de J. Cristo e dos sagrados Apóstolos S. Pedro e S. Paulo para destruir a Religião, cometer Regicídios e parricídios, lançar os Espanhóis no abismo da escravidão, da penúria, da miséria, da ignorância, e do desprezo.
Eis aqui, meu amigo, o que é a Junta Apostólica na boca e na pena dos que cozem as costuras do tal lençolinho." (Cart. 3, pág. 5) [Não é lugar para tratar da Junta Apostólica, mas a respeito dela é oportuno transcrever uma notícia da época: "Ciceron, e Narcia, dizendo-se pertencer à Junta Apostólica, formada no reino de Galiza para obrar contra o sistema constitucional em voga na Espanha, retiraram-se a Portugal, entrando por Valença em 19 de Julho de 1820, onde obtiveram passaporte com o qual chegaram ao Portugal a 4 de Agosto seguinte. O Governo extinto aquém o encarregado dos negócios daquele Reino em Lisboa tinha requerido, mandou-os prender por aviso de 7 do mesmo mês; porém da relação do Porto, a pedido do cônsul espanhol daquela cidade. O presidente do tribunal superior de Galiza tem declarado a entrega dos presos na forma da convenção que observou sempre entre os dois reinos, e é de saber que eles se acham ali condenados à morte, segundo diz em sua informação o Intendente geral da polícia. Todavia a Comissão que não acha documento algum autêntico deste facto não julga possível que o julgado (a existir) se execute sem audiência dos réus, porque eles como ausentes não foram ainda admitidos a defesa." Linda coisas do Triénio Liberal na Espanha, que pretendeu dar fim aos resistentes do "absolutismo", inimigos do Liberalismo e constitucionalismo - onde estavam então os tradicionais e ortodoxos católicos da época se não estavam do lado liberal!? Atenda-se também como em 1827 estes anti-liberais da Junta Apostólica consideravam Fernando VII de Espanha reinante em monarquia tradicional, a quem os liberais tinham por "absolutista" (assumam-se primeiro os factos, e eis tantos factos que contradizem a versão hoje difundida hoje por grande parte dos "tradicionais católicos" da Espanha, e não apenas; certamente que se trata de um fenómeno à margem da culpabilidade; já na época os autores portugueses "absolutistas", testemunhos e não teóricos, anteriores à derradeira vitória do Liberalismo em Portugal (1834), deveriam ser ouvidos religiosamente, pelo menos pelos portugueses. É importante ler estes documentos na época, e não posteriormente segundo a letra dos vencedores, ou seus filhos.
Usa de ironia o Pe. Macedo expondo o que diziam os liberais a respeito da Junta Apostólica.]

"Em sentido nos Reis, nos Gabinetes, nos Ministérios alguma oposição, isto é, quando não podem cavalgar, e sopear ["adular"] os Reis, os Gabinetes, e os Ministérios, gritam que o ouro dos Apostólicos, e Jesuítas os têm comprado para estabelecer o Império do Arbítrio, e apagar as Luzes do Século, frustrando os progressos da civilização. Eu espero ouvi-los gritar às Potências do Norte, que se acautelem, que o General Chaves, e o Vice-Geral Canelas já passaram os Pirenéus, para irem levantar o Estandarte Jesuítico do Absolutismo, e do Arbítrio nas muralhas de Cronstadt, e de Arcangel." (Cart. 7, pág. 5) [E que tal? Um "absolutista" da época que nos conta como os liberais associavam "absolutismo" e "jesuitismo", entre outros, e até o "livre arbítrio". Os "absolutistas" aqui apresentados pelos liberais como inimigos das "Luzes" do Iluminismo - e é certo. Como veremos, quase todos os nomes aplicados pelos liberais aos "absolutistas" são não neologismos propositados, e comportam irrealismo: tão irreais que nos deveríamos achar-nos perante uma sui generis criação de "lenda negra". Alexis de Tocqueville (1805-1859, França), conhecido pelas sua análises à Revolução Francesa e da evolução das democracias assume que "a Revolução Francesa baptizou aquilo que aboliu" referindo-se à designação e caracterização de "Antigo Regime"... Na verdade, embora com recurso a alguns aspectos reais, nasceram nomenclaturas difamantes, complementadas com o horrível que a imaginação enfermada tende a produzir, e introduziram uma má ideologia apresentada como antídoto contra o monstro imaginário que criaram; sendo que, ao fim da linha eram a monarquia tradicional e o pensamento e doutrina católica os alvos.]

"Andam estes regeneradores do Mundo, estes Propagandistas da civilização do Globo, estes zelosos salvadores dos Direitos do Cidadão, prégando em missão aos Povos: "Filhos, nós vimos emancipar-vos, vimos tirar-vos das cadeias do servilismo, despotismo, e absolutismo; vimos apagar as fogueiras da Inquisição; vós não sentireis mais o pesado jugo do Fanatismo."" (Cart. 7, pág. 6) [Como vemos, as sementes dos males do nosso tempo já ali estavam e eram conhecidas como malignas pelos "absolutistas" de melhor ortodoxia. A "opressão", a "Inquisição", tudo isso era já tema de ódio explorado não só pelos liberais, mas anteriormente pelos Luteranos... O liberalismo, além dos falsos princípios onde assenta, tem também terreno adequado no Protestantismo; lamentável é que Juan Manuel de Prada, teimosamente radicado no infeliz conceito liberal de "absolutismo", que o tradicionalismo espanhol nunca chegou a expurgar de si, por motivo de ódios não ultrapassados em tempos de Filipe V, se recuse a aceitar a existência de vários usos do mesmo conceito na época, e imponha assim o espanhol como único que para todos terá de servir... Lamento, e esperemos que mude de opinião, assumindo que factos são factos, e que em Portugal houve outro uso, e que provavelmente na Espanha houve o mesmo quem em Portugal!]

"Lá vai um Apostólico.... diz uma voz, que sai de uma bodega, ou do pescado seco, ou do pescado molhado; chegam todos à porta para verem a nova Phenix, que todos dizem, que existe, e que ninguém viu ainda; já vai... quem é? É aquele Clérigo!! Olha que dinheirama da Junta Apostólica! Lá vai, vamos atrás dele.... lá vai andando com umas botas velhas, com uma sobrancasaca que por cinquenta e sete terças feiras esteve pendurada na Feira da Ladra, com um chapéu, que tem andado por vinte cabeças, direito à Sacristia de S. António da Sé buscar seis vinténs, que estavam esperando por ele em cima do bofete. Pois este miserável, que vai comer atrás da porta de uma escada meio pão com um queijo de Montemor, ou meio arretel de ginjas [230g.], é um Apostólicos nadando em dinheiro, que vai levar o Prel para o inflame Guerrilheiro Vasconcelos; e bem se vê que é um inimigo da Legitimidade, e da Carta, e que quer o Absolutismo, e as fogueiras da Inquisição para viver de abusos, com os válidos, e lisonjeiros, e os outros zangãos do Estado. E quem diz isto é comprado pelo ouro da Junta Apostólica para iludir os incautos com estes papelórios, e chapelórios." (Cart. 7, pág. 9)

"Digam-me, ignorantíssimos, os Apostólicos não são Europeus? Não dizem VV. mm. que os Europeus querem alguma coisas? Os Apostólicos da Espanha, com uma opulência, e profusão espantosa de Tesouros, pugnam pelo Rei, e não querem Rei? Não querem Rei, nem absoluto, nem Constitucional, não querem Rei de sorte nenhuma (só se estes Apostólicos são os do Português), e matam-se e empobrecem pelo Rei, e não o querem? Se querem o Absolutismo, então querem um Rei; e onde irão construir este Absolutismo? Quem o há de exercitar? Ignorantes!! Ou fanáticos da Democracia!" (Cart. 9, pág. 5) [Será oportuno lembrar que a mente liberal, não acostumada em sujeitar-se à Verdade, quando usa da razão sai-lhe racionalismo... nada mais!]

"Em três continuadas, e consecutivas noites, de 24, 25, e 26 do próximo passado Julho, esteve Lisboa em mortal, e lastimosa agitação; e, se as vigorosas providências do Governo não acudissem a reprimir a sedição popular (atiçada pelos agentes da revolução Democrática) com a força armada, e a inevitável a iminente ruína: isto é uma verdade demonstrada; dentre os grupos dos pacíficos Cidadãos, como V. m., e os da Liga lhes chamam, rompiam aterradores, e funestos gritos: "morra este, e morra aquele, porque esta era a humildade, e respeitosa Petição, com que se requeria à Sereníssima Senhora Infanta Regente e re-integração do Ex. Ministro João Carlos de Saldanha, sem a qual o Reino não podia ser Reino, nem ter Governo, nem ter Representação, nem a Nação Portuguesa ser Nação, nem permanecer na linha das Nações, quebrando o jugo do absolutismo, debaixo de cujo jugo tinha por tantos séculos gemido. A estes pavorosos gritos dos Cidadãos pacíficos, e tranquilos se misturavam os insultos, e assaltando-se o domicílio dos Magistrados; e isto com o direito de Petição garantindo na Carta!" (Cart. 12, pág. 2) [A falácia que hoje conhecemos do "lá fora já se faz... lá fora já se aceita..." vem realmente de uma linha de "pensadores" não muito recente. Ainda há dias, uma beligerante guerreira do semi-tradicionalismo distribuiu um "papelinho" com o qual tentava espalhar a ideia de que o Povo era anticlerical em dada altura...; não obstante tanta caridade distributiva, haveria a mesma incendiária dar outro "papelinho" com este texto do Pe. Macedo, onde vemos que aqueles que do Povo se revoltavam eram pesas fáceis dos Revolucionários...; viu-se bem que esta gente gritava segundo pontos estratégicos da ideologia e por aqueles "santos" que desconhecia mas que eram estratégicos para a revolução! ... Aos portões de Versalhes também forma protestar ternas mulheres e meigas crianças, as primeiras da frente até bigode farto tinham...; eis aqui boas mascotes para o travestismo... Claro... no 25 de Abril.... "foi o Povo"!] 

"Antes de rebentar o Vulcão Democrático de 1820, que se ouviu por muito tempo? Espalhadas murmurações por entre os Povos, queixas do Despotismo, do absolutismo, da arbitrariedade, de abusos, de dilapidações; clamores surdos de que era preciso um Governo enérgico para remediar tantos males; que não podíamos sair da escravidão, sem convocação de Côrtes Gerais, Extraordinárias, e Constituintes para reformar a Constituição da Monarquia. Que as riquezas do Estado eram comidas pelos Mandões, e pelos Zangões. Que os Áulicos, e os Lisongeiros se assenhoreavam de todos os Empregos, e iludiam o Monarca. Que a ilustração do século, o derramamento das Luzes, e os progressos da civilização, faziam conhecer aos Povos que era chegado o momento de reassumirem os inauferíveis direitos da sua liberdade, e viveram só debaixo do império da Lei; e outros que tais palavrões, com que deram agora em explicar tudo, ou em pretextar a revolta; palavrões, que servem para tudo, e com que trazem enredados, e confundidos os Povos, dispondo-os assim para fantásticos melhoramentos, imaginadas reformas, e quiméricas inovações, fontes de todos os bens, e de todas as venturas;"(Cart. 12, pág. 6) [É normal que hoje os da "Monarquia" Liberal e os da República disputem o título de colocadores da democracia em Portugal, ovo posto pelo mesmo espírito que os levou aos dois. Que fique o registo de que a febre democrática é que os chocou aos dois, e a "igualdade" mostrou-nos a pena do comunismo... Mais uma vez Agostinho de Macedo faz-nos uma pequena caricatura do pensamento dos opositores do "absolutismo".]

"A Gazeta Constitucional, sem eu haver bolido com ela, (porque eu nunca fui agressor) começou gritando contra mim muito constitucionalmente; continua a gritar, e a descompor com uma raiva verdadeiramente canina; e o tema para as infames descompostudas, ou ataques pessoais, é a Junta Apostólica, que existe, depois que os Senhores Pedreiros Livres começaram a sentir que o género humano já cansado, e enjoado, começou a mostrar que já não podia aturar tantos desaforos, chamados derramamento de luzes, progressos da civilização, liberdade, emancipação, e melhoramentos das humanas Sociedades, oprimidas com o Absolutismo, Despotismo, Fanatismo, Servilismo, Jesuitismo, Apostolicismo, Fogueirismo, Inquistorismo, e todos os ismos mais; mas não tanto como com o Pedreirismo." (Cart. 14, pág. 1) ["Pedreirismo", portanto é a Maçonaria, os "Pedreiros Livres"]

"É verdade, que eu já estava com pena de ir deixando tão pouco espaço nesta Carta para zurzir como merece este o maior, e o mais dementado de todos os Hipócritas que aparece tão contraditório em seus escritos para melhor ser conhecido. V. m. terá reparado que desde que os Foliculários Priodiqueiros começaram a assoprar a revolta, a baralhar as ideias, a enredar os Povos, e a dispor, ou desenrodilhar as armas para a mais patifa de todas as revoluções, que vem a ser levantar a Democracia sobre as ruínas da Monarquia, tem andado sempre em cena, o velho Marquês de Pombal, Sebastião José de Carbalho. Se querem exagerar o Despotismo, o Absolutismo, e o Fogueirismo, vem o Marquês de Pombal; se lhes convém invectivar os Ingleses, com quem se enganaram, apesar dos vivas, e foguetes do dia primeiro deste ano, vem o Marquês de Pombal, e a rebatida, e já nauseante história da Bahia de Lagos." (Cart. 17, pág. 4) [Há tempos ouvi uma novidade: começa-se a dizer em Portugal que a nossa tradicional Monarquia é democrática, quando os documentos da época nos mostram como a democracia era tida como um desprezível recurso, deixado apenas a menor importância quando não podia ser melhor. É tão fácil provar mostrar o contrário, e mostrar que tipo de gente é que anteriormente tentou esse tipo de ideia ... !!! A tentativa de abandeirar o Marquês de Pombal, contra quem não queria o o novo modelo de "monarquia", era uma tentação dos liberais que no fundo acabavam por dar um caso onde o problema foi o Rei ter mandado muito pouco, ou quase nada!]

"A ideia do Absolutismo é nova entre os Portugueses. Esta infernal palavra, nunca por tantos séculos entre nós ouvida, é o grande, e o mimoso pretexto de todas as Revoluções, havidas, por haver, e sempre intentadas, e prosseguidas nas sociedades secretas, que juraram guerra exterminadora aos Altares, e aos Tronos. O Despotismo Asiático, o Absolutismo Sultânico, nunca foi a partilha dos Chefes da grande família, ou sociedade Europeia, mas com o fim único dos trabalhos das sociedades secretas é a dominação geral dos Povos, como só a isto aspiram, como temos visto, ocupando eles só os primeiros lugares; o meio mais próprio, e mais apto para o conseguirem, é persuadir os Povos, que até agora têm sido dirigidos, e governados com um poder arbitrário, e absoluto; e que os Reis, a quem chamam Tiranos, os têm reduzido a abjecta, e desgraçada condição de escravos; e que a coisa, que mais devem aborrecer, é o Absolutismo, que vem a ser o exercício da própria vontade, e do princípio arbítrio, sem respeito, e sem consideração alguma às Leis, aos foros, e aos pactos sociais feitos na origem das Monarquias, entre os Governantes, e os governados. E para que inspiram os Povos este horror a este fantástico e suposto absolutismo nos Soberanos da Europa? Para os disporem às Revoluções a títulos de melhoramentos úteis, e de reformas necessárias." (Cart. 26, pág. 10) [A semelhança com o que hoje dizem é pura coincidência ...!]

"Por muito superficial que seja qualquer homem observador, por menos atenção que haja dado aos horríveis acontecimentos, de que temos sido testemunhas desde 1820 até o dia de hoje 20 de Outubro de 1827, terá visto que ainda até este momento a praga Periodical não se tem calado com o Absolutismo, e com a reforma dos abusos provenientes, dizem eles, do Absolutismo. E que querem com isto estes Pregoeiros das Sociedades Secretas? Querem que ao Governo Monárquico suceda a Democracia, ou o Governo Republicano; para isto pressupõe sempre demonstrada a máxima absurda, e monstruosa, que o Poder governativo existe essencialmente na família, e não no par da mesma família. Para isto parece-me que era preciso demonstrar primeiro que o Absolutismo, nome, com o qual tanto querem assustar os Povos, pode existir em um, que governe, e nunca em muito, mais absolutos que os próprios Sultões, que usurpem o Governo, a si mesmos se chamem a Côrtes, façam para si Constituições, e ditem Leis, de que eles zombem, exercitando tiranicamente o Poder, que sacrílega, e revolucionariamente roubaram. Não tem havido Periodiqueiro por mais miserável que seja, desde que o Inferno vomitou sobre Portugal este flagelo, que não haja gritado contra o Absolutismo, e na sua abolição para o sagrado fim das necessárias reformas dos abusos do mesmo Absolutismo. Em França fizeram os revolucionários a coisa mais sumária, levaram Luís XVI ao cadafalso; em Portugal, falemos a verdade, porque está escrito, e está impresso; e se lhes custa a repetição, não o dissessem, não o imprimissem, clamaram "Desfaçamo-nos deles". As Secretas Sociedades querem fazer detestar o Monarquismo, e para isto procuram fazer aborrecer, e abominar o que eles chamam "Absolutismo" que nunca existiu, nem pelas Instituições do mesmo Reino desde a sua origem até este momento, em que as mesmas Instituições estão instauradas, e reformadas, pode existir. Se este pregão contínuo do Absolutismo não andasse sempre na boca pestilente dos Periodiquieiros, as revoluções, e as conspirações nenhum efeito teriam, porque os conspiradores sempre contam com as disposições dos Povos, e estas disposições são obras dos Periódicos, que tão claramente dizem que o Absolutismo anda essencialmente unido ao Monarquismo; dizem que é preciso o Governo representativo, mas a seu modo, e não como agora o temos, e sempre tivemos, ainda que com diversas fórmulas; mas o representativo dos revolucionários é o primeiro degrau do Republicanismo, ou Democracismo, como vimos em 1820. Tirar um Rei de repente, era arruinar a sua mesma obra ["sua" deles, do inimigo]; não têm os Periódicos tanto poder, que de repente arrancassem do coração de todos os Portugueses a adesão, e o amor, que sempre tiveram, e ainda conservam aos seus Monarcas; fizeram do Rei um Ente, que não tinha acção própria, os seus movimento tinham impulsão estranha; não se iluda Portugal, o Poder Executivo, que aqueles monstros deixaram ao Rei, não é Poder, porque executar o que se lhe manda não é livre exercício da vontade própria, é cumprimento do que determina a vontade alheia; neste caso ter Monarquia, e não ter Monarca vem a ser o mesmo. Monarca é o que manda só; e eles mandavam ao Monarca "Mande-se ao Executivo", como diziam eles." (Cart. 29, pág. 3) [Destaca-se a influência da propaganda para fazer acreditar que a monarquia tradicional era "absolutista", ao mesmo tempo que se fazia propaganda a uma nova ideologia social (liberal e democrática, republicana ou um intermédio para chegar à República); evidentemente que hoje se faz o oposto: dizer que a monarquia tradicional é o que nunca foi, e que a absolutista não é a tradicional...]

"Desesperados por verem arrancar do Santuário o sinal de abominação; que a impiedade revolucionária ali tinha levantado, vingam-se com o desprezo, e perseguição daqueles, que mostraram, seguindo o Rei, a sua adesão ao Trono, e o seu respeito ao Altar. Chegou a tanto este insulto público pelo espaço dos já passados quinze meses, que muito honrados Portugueses, para evitarem novos insultos, e talvez que um princípio de motim com tanta ânsia provocado, esconderam a mesma Medalha, ao menos quanto pelas obrigações da existência, e subsistência se viam obrigados a entrar no centro da Cidade chamada baixa, e atravessarem os fatais arruamentos, ou as Academias destes ilustrados Publicistas. Mosteiros há, onde por amor de dois, ou três Orates, um Tecleiro, e outros Picadores, se não pode ainda entrar com a Medalha, sem correr o mesmo risco. Esta Medalha, dizem eles, é um sinal, ou pregão permanente de que levou o Diabo o nosso adorado, e adorável Sistema regenerador, de tornarmos outra vez da liberdade para a escravidão, e da sublimidade do Democratismo para a voragem do Absolutismo. A isto chamo eu o mais execrado, e punível de todos os insultos; a memória do Rei lhe vilipendia, a fidelidade dos Portugueses reputada um crime. Se todas as Medalhas de Condecoração são dadas pelo Rei, porque só o Rei as pode conceder como prémios de serviços, como são as mesmas de Campanha em seus diferentes graus, porque não insultam eles todas estas, e unicamente aquela? Porque estes feros Republicanos não querem, e protestam não querer nunca um Rei livre, mas um Rei escravo; não querem um Rei com os direitos da Soberania, mas um Fantasma despojado deles. Não querem um Rei que os governe a eles, querem uma Autómato, que eles governem, e tiranizem. Em quanto eu tiver esta espada na mão, dizia um Padre Cívico, não há de aqui entrar um Rei com "Veto". Tão insensato me pareceu sempre o tal Padre, que nem o que quer dizer Veto ele entendia. Só uma coisa me admira, que, levando Malco uma orelha cortada, este Malco as quisesse cortar aos outros." (Cart. 30, pág. 6) [... graduações em número de 33!?...]

"São inumeráveis as Histórias, que existem já impressas, e publicadas, da Revolução Francesa, e sendo um só objecto, e única a matéria, por todos é tão váriamente tratada. Nós os Portugueses, sobre tudo indolentes, muito mais o temos sido sobre a nossa [entenda-se "nossa" para identificá-la como tendo ocorrido em Portugal, e não como coisa própria portuguesa] Revolução Democrática de 1820: ainda não apareceu nem um esboço ligeiro deste acontecimento tão único, como escandaloso em nossos Anais. Será isto delicadeza em nossos Escritores, que não quererão ofender as virtudes, e sobre tudo a exemplar, e conhecida modéstia dos Autores da mesma Revolução ainda vivos, e permanecentes entre nós? Parece-me, que é muito fora de tempo, e de lugar esta melindrosa delicadeza, em nossos Escritores, porque os mesmos Corifeus da Revolução nunca quiseram deixar seu escrito em mãos alheias, começaram eles mesmos desde logo a se chamar Pais da Pátria, Salvadores da Nação, que por um heróico, e violento impulso de Patriotismo quiseram arrancar do abismo da desgraça os infelizes Portugueses, dizendo-lhes, que não podiam subsistir por mais seis dias com aquele Pacto primordial e com aquelas leis com que tão gloriosamente tinham permanecido por seis contínuos séculos, prometendo, que vinham, com suas sábias instituições, por o Povo Português na linha das grandes Nações, donde nenhuma grande Nação, nem todas as Nações grandes juntas o haviam tirado. Disseram com fraqueza mais que Republicana, que se muito tinham feito a Portugal D. João I em o livrar da violenta posse, que dele queria tomar o Rei Castelhano, desbaratando-o em uma memorável batalha campal; e se muito tinha feito a Portugal ElRei D. João IV livrado o Reino de uma dominação estranha, que havia durado sessenta anos, aceitando a Coroa do mesmo Reino; muito, e muito mais faziam eles em livrar o mesmo Reino do mais pesado, e ferro jugo do Absolutismo, em que os seus Monarcas com seus Cortesãos, e lisonjeiros o conservavam. Disseram ainda mais de si, e não deixaram mentir ninguém; disseram que com sua sabedoria vinham dar uma nova face à Nação, abrindo, e desentupindo todos os canais donde lhe podia correr, e comunicar-se-lhe todo o seu bem, e ventura, começando pela Instrução Pública, coisa até desconhecida neste Reino, porque eles para serem, como eram, tão exímios Doutores tinham com dispendiosas viagens, e reiteradas fadigas, ido estudar, e aprender fora deste Reino, que sempre tinha sido a Séde principal da ignorância, e da barbaridade, assim como da superstição, e do fanatismo, insuperáveis obstáculos para o derreamento das Luzes, e progressos da civilização! Que eles vinham promover a cultura da terra, a navegação dos mares, a actividade do Comércio, o aperfeiçoamento das Artes, e das Ciências, e sobre tudo fazer adiantar a Indústria na criação das Fábricas com que nos tirassem da vergonhosa dependência das produções, e manufacturas estrangeiras. Prometeram ainda mais, e eles mesmos o disseram, que vinham simplificar o Culto Religioso, livrando-o de todo o peso, e aparato da magnificência, e majestade externa, reduzindo-o a puro acto intelectual. E sobre tudo nos afirmaram que o motivo mais poderoso, que os obrigara a vir daqui tantas léguas, uns a cavalo, outros em calças, e alguns em liteiras, fazendo marchas forçadas, sem pararem, e se demorarem senão nos Colégios, e conventos de Coimbra, e em Alcobaça, foi unicamente acudir ao lastimoso estado de Finanças, ao qual as tinha reduzido a malversação dos Empregados pouco experientes, e a indiferença da Regência, que pintavam indolente sobre este sagrado objecto; coisa que com efeito à risca cumpriram, distribuindo de tal arte o dinheiro todo, que nunca mais se soube onde ele parava, a não ser nas mãos dos novos, e ilustrados Financeiros, que desceram do Céu para limpar a Terra. Sem ninguém lhes perguntar, eles mesmos disseram que vinham nivelar as condições humanas, reduzindo tudo à perfeitíssima igualdade natural, pois eles nem tinham, nem conheciam outra diferença, que não fosse aquela, que davam os talentos, e as virtudes, e que só às virtudes, aos talentos, e ao pessoal merecimento, e nobreza, eles mesmos vinham dar os lugares honoríficos, e lucrativos, e não aos Aulicios, e aos lisonjeiros, desterrando para sempre o patronato; e na verdade eles tinham afilhados de sobejo!"  (Cart. 32, pág. 3) [fala um testemunho da época não um teórico, muito conhecedor da sociedade de então, que escreve antes de 1827... Aqui está resumido o programa ideológico que até aos nossos dias tem vindo a ser implementado pelos vencedores do Liberalismo em diante, em tão poucas linhas, apenas como testemunha do que se ouviu da boca do próprio inimigo, e com um acerto tão grande que parece estarmos perante uma profecia acertada. Eis uma maravilha documental de valor incalculável, mas que só poucos reconheceram antes de terem visto a concretização!]

"Em que melhorou este Reino com semelhante revolta de 1820? Com ela se abriu a porta a todas as calamidades. Compare-se o Portugal dantes com o Portugal depois!! Prometiam Liberdade, nunca estiveram mais atulhados de Cadeias. Prometiam justiça direita sem suborno, sem patronato, nunca as Terras de degradados viram dentro de si mais gentes, que não conheciam. Nunca os segredos tiveram inquilinos forçados por mais tempo; nunca houve tantas denúncias, nem mais rigorosa inconfidência, nunca passearam metendo a cabeça por todas as portas, os espiões mais descarados, e impudentes; nunca os homens de bem viveram mais assustados, nunca houve um Povo mais infeliz, e miserável, nunca o Reino todo sofreu mais perdas; e uma palavra, nunca o verdadeiro absolutismo, e despotismo pesou mais sobre os Portugueses, nunca foram mais escravos, e nunca se chamaram mais livres, nunca deles se fez mais afrontosa zombaria; nunca a Religião sofreu mais descobertos ataques, e insultos, nunca os senhores do engenho, e seus moleques, do que foram tratados por meia dúzia de Bacharéis aqueles nobres, grandes, e magnânimos Portugueses, diante dos quais na África, e na Ásia tremiam os Poderosos do Mundo, obrigando-os a trocar a magnificência, pompa, e esplendor de seus antigos vestidos, e ornamentos honoríficos em saiotes, balandraus, e roquelós de pano da serra, e azeitada saragoça até no pino do vetão, verdadeira pantomina, ou impostura. Fique para sempre este desengano, e nunca mais se aturem, ou se conheçam tais Framengos à meia noite. Este fermento ainda não acabou de todo, porque talvez ainda hajam hipócritas, que dando vivas ao novo estado de Governo Político, que temos, o mais justo, e o mais aproximado pela matéria, e pela forma, às nossas primordiais Instituições, conservam na alma o fanatismo, ou aventesma de uma República, entre o Governo Monárquico da Europa, o que tem dado a conhecer." (Cart. 32, pág. 11)

(continuação, II parte)

03/02/16

ÁUDIO - NOVO VOCABULÁRIO FILOSÓFICO-DEMOCRÁTICO (I)

Aqui está o nosso primeiro trabalho do género. Ainda esta semana sairá a versão "vídeo" (bem interessante). Os trabalhos seguintes, Deus queira, irão gradualmente melhorando.

O fundo musical: Carlos Seixas, sinfonia em Si b (allegro e adagio).





(continuação, áudio I - versão do áudio I em vídeo)

29/01/16

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº5 (III)

(continuação da II parte) 

GOVERNO, GOVERNAR – Há pouco tempo, que estes Vocábulos egrau-se a ser propriedade dos perversos Filósofos Democráticos. Antes desta época, não era o Governo considerado por eles, senão como egrau de sua sanguinária mordacidade, e como a coisa mais vergonhosa do Mundo. Porém empenhou-se o Diabo, e permitiu Deus que o Governo caísse em suas mãos: e eis-aqui a ocasião de nos explicarem, o que entendiam por aquelas palavras. O Governo Republicano Filosófico é unha com carne com a Política (vid.) Democrática. Lançar a espada da discórdia entre os Cidadãos pacíficos; destruir o Clero, o culto, e os costumes; aniquilar a Religião; consumir até aos tutanos os possuidores, e afazendados com enormes contribuições; arruinar o Comércio com excessivos pedidos; cerrar a boca a toda e qualquer Representação (especialmente se contém verdades, e reclamações) com presídios, desterros, e fuzilaturas; pôr nos lugares de Juízes homicidas e ladrões; enviar por Intendentes os falsificadores de Câmbios, e Moedas; por Directores os ímpios e orgulhosos; e por Cobradores os mais cruéis e fanáticos: eis-aqui o que em idioma Republicano se chama verdadeiro Governo. E como infalivelmente, se os Diabos viessem governar a terra, vale de ter instalado este modo de governar, por isso nos parece que com muita mais razão deve chamar-se Governo Demoniocrático, do que Democrático também não falta quem assegure que governar, em a língua moderna, deve traduzir-se em a antiga na palavra destruir. Porém deixemos isto, que seria um nunca acabar. 

Há homens capazes de pôr a sua língua no Céu mais puro; e os há que têm a vilania de assegurar que os Governantes Democráticos não têm feito maldita a coisa, que seja boa. A estes selvagens lhes diria tanto, e tão bem, que os deixaria sem alentos! Porque, descarregado o Governo Democrático (por meio da simplificação de sua política) dos fastidiosos cálculos do Comércio, Rendas, e Artes, e provendo a todas estas coisas com os facílimos arbítrios de tirania, e opressão, tem-se estado por isso ocioso? Não tem gasto todo o seu tempo, e lugar em importantíssimas tonteiras? Não há empregado seus suavíssimos, e paternais cuidados, suas perspicazes ideias, seus talentos sublimes em grandes bagatelas, e puerilidades tão ridículas, que a um mesmo tempo serão o imortal monumento da sua sabedoria, e sua glória, e o mais autêntico testemunho da pouca vergonha, e crassa ignorância dos antigos Governos, que nem sequer se egraus volver os olhos a tamanhas frioleiras? Pois que? É pouco negócio ter feito numerar as casas, escrever os nomes dos caminhos, onde os não havia, introduzir o modo de contar à Ultramontana, destruir as rótulas, e adufas, e outras duzentas coisas mais, qual delas mais necessária, e importante? Quantos cuidados, suores, e fadigas não tem custado ao Governo Democrático as árvores da escravidão, digo, da liberdade; os laços, sua cor, e o tamanho que deviam ter? Tem-se trabalhado por ventura tanto em achar a quadratura do circulo, como eles têm trabalhado em resolver, se os barretes, ou gorras vermelhas (distintivo da fúria Republicana) se deveriam trazer por dentro, ou por fora do chapéu, sobre de que cor seriam as Bandeiras Republicanas; sobre a destruição dos escudos d’armas dos Nobres; sobre os títulos de Cidadão, e Cidadoa; sobre o tamanho dos sabres, e se os haviam de trazer de rastos, ou suspensos? Hão brilhado pouco seus talentos, sua invenção, e sua egrause em introduzir nos passaportes a cor da barba, a testa, olhos, cabelos, boca, orelhas, e narizes? (e muito favor nos fazem em não pedir que descubramos mais um olho para eles verem, e tomarem feições, etc.) Enfim vamos adiante... E hão roído pouco as unhas, e estragado pouco os miolos em idear as Festas Patrióticas, e arranjar umas Canções, em que estão disputando a primazia, os embustes, as poucas vergonhas, e o mais perverso fanatismo? E depois de todas estas coisas, e outras infinitas, haverá quem diga, que o génio benéfico Democrático não há sobressaído a todos os mais Governos na arte de governar? Basta ler seus Proclamas, seus Escritos, e suas interessantíssimas Dissertações impressas, e estampadas sobre a ignorância crassíssima dos Povos no modo de contar as horas; e basta um lançar d’olhos sobre os engenhosíssimos Diálogos entre os corrimãos, e os egraus, e outras muitas Obras tão excelentes como esta, para poder formar ideias da eminente, e profunda Ciência Democrática sobre matérias de Governo. 

Porém tudo isto é uma bagatela em comparação das imensas fadigas, que há empregado, para baptizar com diferentes nomes as imposições, os direitos, e alcavalas, que tem crescido sem limite, debaixo dos nomes de donativos patrióticos, empréstimos forçados, loteria de bens, e outros sessenta mil. E onde vamos a parar com as angústias mortais, que teve que sofrer, para achar novos meios de animar o aturdido fanatismo, e sustenta-lo; de persuadir a seus tiranizados escravos, que eram livres; de fazer crer aos infelizes, e desgraçados, que gozavam felicidade; e de que acreditassem cegamente que aqueles mesmos, que enganam, seduzem, intrigam, roubam, e assassinam o Povo, são os seus mais leais, sinceros, e benéficos amigos? Aturdir-se-á, e pasmará a posteridade ao ouvir que a Política Democrática prevalece-o por algum tempo em certos Países a benefício da confusão da língua; e ficará atónita ao saber as medalhas, os monumentos, os louvores, e congratulações dadas pelos Povos com tanta profusão àqueles mesmos, que os privavam inteiramente da Religião, liberdade, independência, bens, comércio, cultura, costumes, e de quanto pode aliviar, e adoçar as amarguras, e dissabores do homem sobre a terra. E poder-se-á negar ao Republicanismo Filosófico a verdadeira arte de governar? Uma coisa há boa, e é que já se não dá engano, sobre qual seja ou não o Governo Filosófico Democrático. Conservar a Religião, a pureza de costumes, e as propriedades: castigar os blasfemos, dissolutos, e delinquentes; prover as necessidades, e aflições dos Povos; fomentar o comércio, agricultura, e as artes; manter em segurança, e quietação a honra, a vida, e os bens dos súbditos fiéis, e honrados; e tudo aquilo finalmente que outras vezes se chamava governar bem, se chama republicanamente tiranizar, e por conseguinte está mil léguas distante, pelo menos do Governo Democrático. Destruir numa Sociedade quanto há de verdadeiramente útil, e seguro; ter a todo o bom Vassalo num tremor perpétuo por sua consciência, vida, bens, e honra; introduzir em os mando os facinorosos e ateus; sustentar o mais horrível despotismo em favor dos confiscos, dos desterros, e das espoliações; introduzir no Estado o Ateísmo, a anarquia, a libertinagem, a miséria universal, e tudo quanto até agora se chamou verdadeira tirania, é cabalmente o que em idioma Republicano se chama governar bem; e o que, por conseguinte constitui todo o Governo Filosófico Democrático. E porque se chama isto bom governo? A razão não pode ser mais concludente; é porque nele há laços tricolores, largos chifarotes, fanatismo, cabeças destroncadas, escritos insolentes, e abominável libertinagem; porque o vilão, o lacaio, e o malsim são os que obtêm os Empregos, e os que são saudados com os títulos de Tenentes, Capitães, Chefes de Batalhões, ao mesmo tempo que estão exercendo os honradíssimos Ofícios de esbirros, denunciantes, e até muitas vezes outros infinitamente piores. 

(* Grandes serviços desta natureza devemos aos nossos Regeneradores. Sobre a cor, e forma do laço gastaram-se bastantes Sessões: e o que não custou a saber se conselho, se devia escrever com c, ou com s? Suaram aquelas testas dos Pais da Pátria sobre uma Questão de tão grave transcendência! E gastaram-se um par de moedas tesas! Mas por fim ficámos na mesma.) D. Tr. 


MODO, MANEIRA – Vocábulos de entrincheiramento, o que fazem um grande papel entre os filósofos Republicanos. Longe de que os evidentes, e excessivos males produzidos por seu endiabrado Governo os façam entrar em si e conhecer seu erro, ao contrario se acolhem aos mais ridículos, e frívolos pretextos para escusar seus pérfidos, e desatinados projectos. Dizem que seu plano não pode ser melhor; porém que os executores é que o deitam a perder pela maneira, com que o introduzem, e executam. Porém quem pode tapar a boca, a quem quiser dizer o mesmo da Tirania, da Anarquia, e de todas quantas coisas más há no Mundo? Porque se, como eles dizem, sua Democracia é boa em si, e só tem de mau o que se lhe pega dos executores; como acontece que tantos, e tantos engenhos, sem terem visto o modo, e a maneira destes Agentes, tem anunciado um por um todos o males, que deviam nascer do sobredicto Governo? E por que maneira pretenderam os Filósofos que se deva introduzir em os Povos sua monstruosa invenção, ou perfeito Quixotismo? Os Povos achavam-se mui bem, e não estavam do humor daquele, que, estando bom, morreu, porque quis estar melhor. Os Povos tinham sobeja luz para conhecer que era o maior dos disparates depreender-se dos braços paternais de um Soberano amável, e religioso, para ir lançar-se em as garras de cruéis, e fanáticos ímpios. E suposta esta evidente verdade, que outro modo, ou maneira ficará aos executores do modo, se não estava outro em seu arbítrio? De boa mente quisera eu que me dissessem que maneira há para mudar a natureza das coisas. Porque se num Povo bom, sincero e pacífico devem infalivelmente prevalecer nas eleições os astutos, os intrigantes, os audazes, os embusteiros, os ambiciosos e os sem consciência, se numa multidão (mormente se é imoral, e irreligiosa) são inevitáveis as opiniões; se das opiniões nascem indispensavelmente discórdias, das discórdias nascem partidos, e dos partidos tirania; como tem valor estes malvados para atribuir ao modo, o que evidentemente procede da natureza intrínseca da coisa? Além de que: depois que um partido chegou finalmente a superar o outro, não lhe fica outro modo de sustentar-se senão pela tirania, do mesmo modo, que ao vencido não lhe resta outro arbítrio para levantar-se, que o dos estragos, matanças, e violências. Logo todas estas belezas são inseparáveis do Republicanismo moderno. Porque o querer supor os homens em geral com rectidão, e amor pelo bem público, com desinteresse privado, com virtude, e concórdia, etc. etc., como perfidamente supõe os filósofos para inculcar o seu Governo, é supor verdadeiras as falsíssimas fábulas dos poetas, que sendo embustes na boca dos Filósofos. Disparates haverá no mundo; porém eu aposto que não haverá um maior, que o de estabelecer por fundamento da democracia aquilo mesmo, que não póde ser efeito senão da Verdadeira Religião, e de um Governo Sábio. O melhor modo, por tanto, e a melhor maneira, que deviam ter os Filósofos de escusar-se, seria pronunciar bum redondo "ergo erravimus". Porém Lúcifer quer antes ser Lúcifer por toda a eternidade, que fazer uma confissão tão ingénua; e os filhos (não se devem escandalizar, porque se intitulam filhos da luz) não podem deixar de sair ao Pai.


ENGENHO – Vocábulo comummente mal aplicado, ainda no tempo antigo, mas que se há tirado de suas relações, e não tem guardado nenhuma medida em poder dos Democráticos. É já hoje bem sabido que é pleito ganhado por eles, o chamar engenho à malícia, e tê-los por uma mesma coisa, ainda que sejam, como na realidade são, entre si bem diferentes. Daqui vem que, tendo os Democráticos tanta malícia, tem por isso mesmo tantíssimo engenho. A experiência, não obstante, ensina por todas as partes ao homem que a maior malícia é sempre propriedade dos mais idiotas, e rústicos, que privados de todo o engenho, quando se trata de fazer bem, tem sem embargo alguma coisa mais que sobrada malícia para o mal. É verdade que ainda há no Mundo homens honrados e leais; porém, o que são estes, se os compararmos com o prodigioso número de traidores, falsários, e embusteiros? Nada. Pois eis-aqui porque em nossos dias há tantos engenhos. Senhor, olhe que para violar Pactos, Juramentos, e Convenções, e para faltar à sua palavra, e afirmar hoje o contrário do que se disse ontem, não se necessita de muita perspicácia. Estamos conformes; porém necessita-se não ter vergonha, nem carácter; e isto basta hoje em dia para passar por homem de engenho. Deixêmo-nos de disputas, e digamos de uma vez: em quanto estes figurões impostores acharem que lhes dê crédito, há de figurar com eles a malícia e a iniquidade. Porém os homens por um pouco meditem, reflexionem, cotejem a sua conducta, examinem os Escritos, e registrem com miudeza as costuras a estes Mágicos de Salerno, e não somente aparecerão aos olhos de todos tão malvados, mentecaptos, como na realidade são, mas até se convencerá o Mundo do perverso leite, que podem dar.



BENS NACIONAIS – Termo inventado em Língua Democrática, para fazer contraste ao Vocábulo Propriedade. A violação das propriedades era outrora na Sociedade o emprego dos homens mais viciosos, e corrompidos, que nela viviam. Os bens adquiridos por este modo se chamavam bens roubados; e o que os adquiria, se chamava ladrão. As Leis deviam não levar muito a bem semelhantes aquisições, e deviam o que quer que seja a respeito da forca, e galés. Mas nos tempos presentes, onde governam os Republicanos, passou isto a ser negócio de Nação, e por tanto mudou-se-lhe justamente o nome; e os bens roubados, em termos mais polidos, se chamam bens Nacionais. O mais curioso é que se lhes dá este nome, ainda antes de se roubarem aos Proprietários. 


HUMANIDADE – Apenas haverá página, ou linha dos Livros Filosóficos, ou Proclamas Republicanas, onde se não ache esta palavra, e onde se não recomende, se louve, e se exalte até às nuvens. Porém a verdade é, que entre os Democráticos não tem ela outro lugar senão nos Livros, apesar de ser certo que também costuma aparecer em seus lábios, porém isso somente quando estão mais raivosas suas entranhas, e quando tratam de enganar-nos. Pelo que respeita a seus factos, aposto a olhos fechados, que não se descobre neles senão a mais atroz ferocidade? Esta manifesta contradição entre os ditos e factos dos Republicanos se concilia sem embargo perfeitamente. Quando o negócio é de não Republicanos, humanidade toma-se, e entende-se em seu próprio, e antigo significado; quando o caso é pelo contrário, volta-se a casaca, e tomam a humanidade em sentido democrático. Segundo isto, não há dúvida que a humanidade deve definir-se conforme a qualidade da pessoa, a quem se refere. Se é a quem não é Filosofo Democrático, é uma virtude que o distingue das bestas, e das feras. E se é a um Republicano, é uma virtude própria de feras, por onde ele se diferença dos homens. 

(* Acabando de traduzir este artigo da humanidade despertou-se-nos a lembrança, do que há pouco lemos em a fala do Rei dos Ingleses, em que ele diz ter feito um Tratado com a França sobre a Escravatura, para destruir este flagelo, que há tantos Séculos pesa sobre a humanidade, para cujo efeito se haviam reunir as forças navais das duas Nações em certos pontos etc. Ora, a falarmos a verdade, a nossa política é tão rasteira, e nós tão pouco versados nas maniversas inglesas, que não podemos compreender como a humanidade Negra, que vive nos Sertões de África, lhes mereça tanta atenção, quando a humanidade branca, que vive debaixo de Leis férreas na Irlanda, e nas Colónias, em que dominam; assim como não podemos compreender como estas duas Nações se arvorassem em Procuradores dos Negros, para quem a Escravatura sem dúvida era um benefício, e dispusessem de forças Marítimas numa ocasião, em que sem dúvida outras questões mais graves deviam chamar a sua atenção: também não sabemos como seja necessária essa união de Esquadras para um fim tão diminuto, como é obstar ao Contrabando dos Negros: Latet anguis in herba: aqui há serpente escondida, e é muito venenosa. Talvez se realize agora, o que há muito disse um Periódico Francês (l’Avenir) que tendo havido na França tantos Governos, desde que começou a Revolução, ainda lhe restava ter um, que era a liga do Leopardo com o Galo: cremos não estar longe. Estas Esquadras, que se diz reunirem-se por causa dos Negros, quem sabe para onde endireitaram a proa! Nos papéis Franceses se escreveu, e a nossa mesma Gazeta nos afiançou que a Esquadra, que saíra de Toulon em Junho do ano passado, ia para a Grécia, e eis senão quando aparece-nos no Cabo do Espichel, logo em Cascais, e da a pouco em Lisboa; e se nos não enganámos uma Curveta Inglesa fez sinais na véspera com tijelhinhas, e no dia com bandeirolas, que todos virão etc. E porque não acontecerá agora o mesmo? Que errem o rumo?! Não, não nos apanham de susto; não nos adormecem. Talvez também os 8 ou 10 mil homens, que viera para Toulon, com o fim aparente de irem para Argel mudar a Guarnição, talvez que venham entrar na Esquadra, que vai defender os direitos dos Negros?! Olhem vossas mercês, que há duas qualidades de Negros: Negros, a quem os raios do Sol na Zona tórrida fazem da cor de azeviche; e Negros, discípulos do diabo, que trabalhão às escuras; é provável que por causa destes, e por causa da escravidão, e exortação, que um Fernando [Fernando VII de Espanha?], e um MIGUEL lhes prepara, se unam essas Esquadras. Mas, quid ad nos? Que nos importa tudo isso?! Toda a Nação é sempre poderosa, e demasiado forte, quando trata de defender a sua independência, a sua Religião, e o seu Rei: E que Rei?! Suspendemos por ora os nossos juízos a este respeito, e não queremos que este mesquinho papel aumente mais o número das exortações. Ah! Se fizéssemos a oração pela passiva, que bem que ficava então esta palavra exortações! (a bom entendedor meia palavra basta) mas lembrámos sempre a todo o mundo, se possível é, que lance os olhos sobre a história do passado, e verá sempre que aquelas Nações, que tem sido auxiliadoras de Portugal, tem crescido, e fizeram-se opulentas com as suas Alianças, donde resultava haver uma rivalidade imensa, sobre quem havia proteger mais este cantinho do Mundo; e pelo contrário aquelas, cuja Política era oprimir-nos, desandaram da sua grandeza, e nunca mais voltaram a ser, o que eram. Veja a Política do grande Richelieu, e do profundo Pitt: e o que se encontra nela?! Dar a mão a Portugal a todo o custo, para sustentar a grandeza de qualquer daqueles Estados. Não falharam os seus planos, e a repetida experiência o mostrou. Mas uma Política que tenha por base princípios opostos, poderá ter os mesmos resultados?! Não, não. Porque princípios diversos produzem diversas consequências. E talvez seja este o meio, de que a Providência queira servir-se para confirmar as promessas feitas ao 1.º Afonso, deprimindo o orgulho, e premiando a inocência..... Esta é a esperança, e quase certeza.) D. Tr.

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LISBOA:
NA IMPRESSÃO RÉGIA. ANO 1832.
Com Licença.


(Fim do N.º 5)

15/12/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº4 (V)

(continuação da IV parte)

POLÍTICO - A sublimidade, a delicadeza do pensar filosófico devia necessariamente estender-se à política, e muito mais em um tempo em que, segundo o dicto de um moderno Filosofo, um Literato é um Magistrado. Gloriam-se os sábios Democráticos de ter descoberto a falsidade do significado antigo da palavra política. O governar, prover, e defender um Povo se julgava outrora a mais espinhosa e delicada ciência, e para cujo desempenho se buscavam homens de talentos nada vulgares, da mais escrupulosa probidade, de uma prudência consumada, e de conhecimentos os mais vastos. Tudo loucura. Qualquer manicaca, qualquer farroupilha ignorante é, segundo os Democraticos, um Politico consumado, capaz de governar o mundo inteiro. E leve Deus minha alma se os Democráticos não dizerm muito bem. Porque como a sua intenção é transtornar todos os Governos, duvidamos que hajam muitos meios mais proporcionados que este, para conseguir aquele fim. A dificuldade consistia em que houvesse quem os acreditasse. Mas, como havia de faltar, sendo tão grande a abundância de cabeças ocas? Stultorum infinitus est numerus. É por este motivo, que não há quase um canto do mundo, começando pelas Universidades, e acabando pelas tabernas e tascas, onde se não vejam enxames de vadios, tunantes, e franchinotes, que como mosquitos em bodega, estejam mantendo perpetuamente discussões endiabradas sobre política. Reis, Príncipes, Governos, Ministros, todos são por sua ordem chamados a juízo, e todos são examinados, censurados, criticados, e julgados sem misericórdia por estes Richilieus de gaforina encrespada, e cigarro na boca. Ao mesmo tempo, que um destes bailarinos fazia a conta de que oito, e sete são treze, ajustava à margem as contas a todos os Ministros da Fazenda. O Legoleio (Estudante de Leis) de água doce, depois de falar, como a Micomicona de Quixote, do porto de Paris, dos Alpes dos Países-Baixos, e do Nilo de Inglaterra, faz excelentes Tratados de Paz, e demarca os devidos limites aos Reinos e Impérios. O Comerciante, que já quebrou (sem ser pelo espinhaço) três ou quatro vezes, discorre divinamente de Economia Política, e traça planos milagrosos de Marinha, Comércio, e Artes, etc. Porém, o que tem que ver mais que tudo, são os Cafés, residência perene de todos os ociosos e vadios. Ali é onde sempre está armada a contenda sobre política, e onde esta chega ao seu último auge. Apenas há algum escaninho, onde, sem saberem os factos, as circunstâncias, nem  os motivos, não sejam trazidos à colecção, e exame os Soberanos, Ministros, Subalternos, Generais de Mar e Terra, Leis, Métodos de Governo, Guerras, Rendas, e Provisões. Um rapazito, que anda no A, B, C, é menos ignorante, que este mentecaptos, porque ao menos vive persuadido,  de que sabe menos que seu mestre.

É verdade, e por amor à justiça o devemos confessar, que quanto levamos dito não se refere à política velha, que já caiu em desuso, mas sim à moderna, a qual tem sido tão simplificada pelos Filósofos Democráticos, que o mais rude entendimento a compreende. A política antiga era tão difícil pelos embaraços, que envolvia a combinação de interesses, a ligação da necessidade pública com as comodidades, e vantagens particulares, bem como a honestidade e justiça dos Indivíduos, Povos, e Nações. É boa vontade de esquentar a cabeça! A política Democrática já se aliviou de todos estes fardos, e se há reduzido aos mais singelos princípios. Falta dinheiros? Allons, vamos a isto, despojem-se os Santuários, (*) as Igrejas, os Monte-Pios, e as Casas públicas, e privadas. Não chega? Não haja susto: haja um pouco de florear, isto é, uma festa republicana, e armemos tal embrulhada de matanças, que os ricos tenham que fugir ás escondidas para salvar a vida: feito isto, cá nos arranjemos, porque da fuga se lhes faz um crime, e eis-aqui seu ouro, e seus bens em nossas mãos.  Ah! patifes! que não quiseram fugir! Pois nem por isso vos haveis de escapar. Correndo a toda a pressa, metamos-lhes um susto, atribuamos-los, e seja como for. Falta gente para a guerra? Cuidado, roubêmo-los, e seja como for. Falta gente para a guerra? Cuidado, que não se mexa com os cómicos, os jogadores, ladrões, vadios, lacaios, nem cambistas: mas sim santamente iremos apanhando os sinceros lavradores, tiraremos do arado o ganham, o artista de sua oficina, e deixaremos ermas povoações inteiras, para levar esses desgraçados como ovelhas ao matadouro. Se os Tratados de Paz e Aliança se opõe ás nossas vistas, ainda bem que está em nossas mãos o quebrarmo-los. (**) Se o Direito Divino, se o Natural, e das Gentes são um obstáculo... Ah! Futre, sacrenom! Já tudo isso está podre de velho. Queixam-se alguns, e lhes fere a alma a tirania? Isso tem bom remédio; em os fuzilando logo se acaba a ferida. E simplificada a política por um modo tão divino, poderão faltar varões ilustres, que sejam consumados nesta faculdade? Resta uma só dificuldade, e é que a Sociedade humana se deixe iludir desta nobre singeleza Republicana. E então por uma consequência infalível havemos de vir a parar em que carregue o Diabo com o que for seu, e em que conheçamos, como já conhecemos, que os Republicanos, que pretendem ensinar ao Mundo uma tão esquisita política, são como o caranguejo, que quis ensinar a seu filho a andar direito. Na Bélgica apareceu este fenómeno: tomaram por timbre um caranguejo: e houve quem lhe pusesse por baixo "en avan, marchons!"

(*) A Ilha Terceira e S. Miguel que o digam: segundo as ultimas noticias a esta hora está tudo roubado, e metido a saco! Combine-se este procedimento com a Proclamação do Sr. D. Pedro, em que promete a Portugal felicidades a montes! Já nos não embaça.  D. Tr.
(**) Que não poderíamos dizer a este respeito, se nos quiséssemos lembrar do dia 11 de Julho?! Imperiosas circunstâncias nos impõe o silêncio. Mas talvez não tarde um dia, em que caiam as rolhas, que tantas bocas tapam....  D. Tr.


REFORMA – Este Vocábulo é o encanto, e o atractivo de quantos brejeiros hão querido, e querem transtornar o Mundo, e não deixar nele nem vestígio ao menos de coisa boa. Exceptuando a Religião de Jesus Cristo, nada há no Mundo, que possa ser isento de defeitos. Governos, Costumes, Finanças, Leis, Comércio, e quanto há sobre a terra tem sido, e será sempre defeituoso. Mas se isto bastasse para abrir a porta às Reformas, seriam estas eternas, e nem por isso se acabariam os defeitos. Destes só os excessivos é que requerem reforma, e os únicos que podem admitir; e reformar doutro modo as Leis, e os Governos, é tirar-lhes a solidez, e a influência civil, que é o mesmo que destruí-los. O principal objeto de nossos zelosos Reformadores é, geralmente falando, destruir não os defeitos, mas a substância; e deste modo é como os Hereges tem reformado sempre a irreformável Religião Católica, e os Rebeldes [d]os Governos. Se a reforma foi nos tempos passados um abuso, em nossos dias veio a ser uma mania raivosa, filha de um espírito vertiginoso de ruína e destruição. O Republicanismo Filosófico, que falando com verdade, não é outra cousa, que um infernal embrulho de diabruras e defeitos, e que a ser reformado não lhe ficaria nem sequer o nome, é a quem se lhe há metido na cabeça reformar todos os Governos, para lançar todos a pique. Haverá cousa mais graciosa no Mundo?! O ateu quer reformar a Religião, os libertinos os Costumes, o dissipador as Finanças, o ambicioso os Governos, o leigo ao Sacerdote, e o ignorante ao Douto.

um dementrocrático!
Não há homens mais frenéticos, e malvados que os Reformadores; e a Reformadora Democracia, com mais justa etimologia, e por mais presunçosa e ignorante, deveria chamar-se antes Dementocrcia, devendo-se cuidar muito e muito de reformar os Dementocráticos, até fazê-los entrar em juízo, que em bom romance, seria tirar-lhes do vulto: porque não são compatível juízo e Democracia. 

(continuação, VI parte)

30/10/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº4 (II)

(continuação da I parte)

MATRIMÓNIO – Também esta palavra tem perdido seu antigo significado, e o que agora tem entre os Democratas equivale ao que se chamava dantes um concubinato metódico, que é na realidade o único matrimonio do qual são capazes os libertinos. Para os matrimónios desta classe não se requer um amor constante, e racionável, que adoce mutuamente os infortúnios da vida. Também tem a vantagem, e comodidade de livrar da pesadíssima secatura da educação dos filhos. 

Nasce daqui uma séria dificuldade em outro género, que certamente não é fácil de explicar, a saber: que cousa se deve entender por bom Patriota, e bom Republicano, tão engrandecido, e louvado em a língua Republicana? Nos Escritos Republicanos sustenta-se com furor, que não se pode ser bom Patriota, Republicano, etc. etc. sem ser bom pai, e boa mãe, e assim o mais. Ora pois, nos matrimónios democráticos legítimos, legitimíssimos, a boa mãe, depois de três, ou quatro anos de casada, abandona republicana e amorosamente seus filhos, (o que nem ainda os mesmo tigres fazem) e vai a outra parte criar outros, para abandona-los da mesma maneira. Logo, se esta é a boa mãe, (e o é constitucionalmente) querer-me-hão dizer, que gentes perdidas e embusteiras não são o bom Patriota, e o bom Republicano? Mas em fim não há mal, que não venha para bem; pois daqui inferimos: que o Vocábulo bom passou magicamente à significação contraria; em cujo suposto não somente entendemos já, que cousa é em língua antiga bom Patriota, etc. mas sabemos também, que pertencem à conjuração todas as bondades havidas, e por haver, uma vez que sejam Democráticas.


LITERATO – Em boa versão corresponde a ímpio. A literatura Democrática, que é a mesma, que a moderna Filosofia, deve ser despreocupada; e não o pode ser filosoficamente, enquanto não comece por contar entre as mais desprezíveis preocupações  a Religião, a Moral e a existência de... Explico-me?... Em todas as Universidades Democráticas foram destruídas as Cadeiras de Religião, de Teologia, de Direito Divino, etc. Já se vê, como não são mais que chocarrices, e velhices indignas da literatura Republicana, e do alambicado engenho Democrático, que deve unicamente brilhar no campo do ateísmo, do sofisma, da impostura, e da contradição. Fóra ideias rançosas! A Sabedoria Democrática deve reduzir-se, e está já reduzida ao inocente e singelo método de embrulhar todas as ideias, de fazer do negro branco, e do branco negro, e de formar à força de sofismas, sarcasmos, mentiras, embustes, trapaças, e declamações uma nova Lógica Republicana, que sirva como de molde aos saltimbancos, e extravagâncias de engenho, de que há tanta abundância, e que são outrossim incapazes do antigo método, e sistema de reflexões sérias, e justas, e de sólidas deduções. Quando um Literato Democrático, à força de plagiatos, chegou a encaixar num livro uma sátira contra os Monarcas; um troço de Historia sacado violentamente de Montezuma, ou da Cruzada; um facto ou fingido, ou transtornado de algum Pontífice; uma diatribe contra a superstição (em sentido Republicano); uma declamação contra a tirania, uma passagem terna em graça dos lavradores; uma dissertação poética sobre a natureza humana, e seus imprescritível direitos; uma apostrofe emfatica sobre a Liberdade (in genere), e sobre as bondades, e excelência da Sancta Democracia, de repente é tido por um poço de Ciência, e sua obra qualificada uma produção original de literatura democrática, ainda que estejam nela os períodos como as nozes num costal, e ainda que os raciocínios estejam jogando os coices. Por desgraça há infinitos, e infinitíssimos obstinados desta classe, que se riem ás gargalhadas com este método literário democrático; porém ainda que não fora senão pela facilidade, com que em um abrir, e fechar de olhos se faz do mais estúpido um sábio, haviam de olhá-lo com mais respeito. Pobres petímetres, e bailarinos! Desgraçados tunantes, e rufiões! Infelizes tafues, espadachins, e franchinotes! Como, a não ser um método tão esquisito; havíeis de estar a estas horas amotinando os ouvidos, como outros tantos sinos em dias festivo, sobe o maravilhosos edifício da vossa encatadores, e loquacíssima Sabedoria?! Como havíeis de estar passando pelos homens mais sábios, e ilustrados, que tem tido o Universo, e havíeis de estar luzindo com  a vossa sempiterna loquacidade, sem embargo de terdes apagada a lanterna! Desenganemo-nos: onde há melhor cousa, do que fazer-se um sábio consumado, só com chamar superstição à Religião, e tiranos aos Monarcas, que é um estudo, que se faz em meio minuto?!

Um outro, e mais vasto campo há, em que como o lírio em os vales desponta com primor a literatura republicana, a saber: a decente, fina, e modesta linguagem republicana. Cousa excelente para confundir mentecaptos; para que nunca se saiba, qual é o ponto que se tracta, quando se escreve; para combater o que ninguém sustenta; e para sair-se airosamente da questão, atacando uma cousa debaixo do nome de uma outra. Porém depois de tudo, o ápice da perfeição, a flor, a nata, e a espuma da sublime ciência democrática consiste em dizer com uma cara escárnio quantas vilanias, e poucas vergonhas lhe vem aos cascos; em vociferar calúnias, e injúrias as mais grosseiras; em atestar livros inteiros de mentiras, infâmias, sarcasmos, e impropérios. Eis-aqui em que até agora ninguém tem havido que os iguale. O alvo de uma ciência tão eminente, como esta, é todo o homem de bem, honrado, e religioso: se bem, é verdade, que não poucas vezes os mesmos Democráticos se honram mutuamente com estas saudações, e comprimentos literários: supõe-se, que por motivo de ensaio, e para aperfeiçoar-se em a arte.

(continuação, III parte)

24/10/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº4 (I)

(anteriormente, o Vocabulário Democrático Nº3)

NOVO VOCABULÁRIO
FILOSÓFICO-DEMOCRÁTICO


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N.° 4
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Cum desolationem faciunt, Pacem appellant.
(Tacito)

*É tão fera a perfídia
De hum cruel, e vil Mação,
Que a paz nos apregoa
Quando faz a desolação. D. Tr
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Vocábulos, que mudaram de sentido, de significação, e de ideia.


NATUREZA – Esta é a principal Divindade da Filosofia moderna, e a que, segundo os Filósofos, tudo produz, tudo dirige, e tudo conserva. Este é um dos Vocábulos, que sempre ficará inexplicável em o moderno sentido filosófico. E se não, apostamos em que nenhum Filosofo se empenha jamais em explica-lo?! Para ele, natureza, e nada devem ser uma, e a mesma cousa.

Segundo a antiga inteligência, natureza é uma ideia abstracta, quer dizer, que nem tem, nem pode ter substancia, nem existência, quer dizer, que nem tem, nem pode ter substancia, nem existência, corpo, nem espírito. Pode tomar-se em dois sentidos: um, para explicar a universalidade, ou coleção dos seres criados. Outro, para denotar as qualidades, e propriedades particulares de um ser, como quando se do fogo, que por natureza alumia, e aquece. Em qualquer dos sentidos é uma ideia abstracta, que não tem mais existência, que a dos entes, em que está; os quais existem como dantes, e não como natureza. Isto suposto, não é um disparate completo personisar uma cousa, que por modo algum tem existência própria, e atribui-lhe operações, acções, e até uma inteligência previdente, como faz a moderna Filosofia? E dizer, e publicar em letra redonda, que a natureza há formado tudo, e tudo conserva, não é o mesmo que assegurar, que o bosque é quem formou as árvores, e quem as sustenta e conserva? Que outra coisa é o arvoredo, ou o bosque, senão uma ideia formada da multidão das árvores unidas e existentes? E não é necessário ser louco rematado para sustentar, que a ideia formada da existência das árvores é quem as produziu? Não são, ao contrário, as árvores, que dão a ideia do bosque? Como pois há de ser ela quem haja produzido as árvores? Não envolve menos absurdo o dizer que a natureza é quem deu ao fogo a propriedade, e a qualidade do calor e luz. Isto é o mesmo, que se disséramos: a qualidade, a propriedade do fogo deram ao fogo sua qualidade, e propriedade. E não é esta linguagem anda pior, que esta outra: é a razão da sem razão?! Logo: ou digam-nos abertamente os Filósofos, que é o que entendem por natureza, ou não levem a mal, que os declaremos por loucos, quando personisam uma ideia abstracta incapaz de existência, e por ímpios, quando desta quimera fazem uma Divindade.

Mas se a impudência filosófica é tal, que apesar da razão resistir, e repugnar, todavia insiste em divinizar, e personisar um ente, cuja existência real implica, tome o meu conselho, e divinize, e personise a loucura, que é o que mais lhe cumpre. Em pontos de verdade, tão disparate é uma cousa como outra; mas dado ocaso de não poder passar-se sem uma divindade absurda, perante quem dobrar devam seus duríssimos joelhos filosóficos; então que os curvem perante a loucura por mil e uma razões: primeira, porque a loucura é um numen, que lhes fica prosélitos, é cousa estimável aquela avenida, que conduz ás portas do edifício: por quanto a loucura é sem dúvida a divindade, que mais adoradores tem tanto em público, como no particular.

pelos "nosso direitos"...
DIREITOS – Em os papeis são infinitos os dos homem, segundo a linguagem republicana. Os Filósofos dizem (suponho que o terão estudado bem) que o ente quimérico "natureza" deve ter dado infinitos direitos ao homem, qual deles mais real, e imprescritível. Verdade será, quando tão prazenteiros no-los asseguram. Porém que adiantamos nós com uns direitos, que ficam só em papeis? Disto isto, porque a grande mestra experiência constantemente nos está metendo pelos olhos, que todos os direitos do homem na republica democrática se reduzem simplesmente a dois. O facinoroso e o ímpio tem o direito de mandar, e roubar: o virtuoso e honrado de serem roubados, e oprimidos. Com toda a segurança concedo, que se empenhe algum republicano em convencer-me de embusteio. Vejam-se os Artigos: Pacto Social "Igualdade" e Felicidade.

"se as outras têm, porque é que eu não tenho?"

DEVERES DO HOMEM – Os mesmo Filósofos nos dão em seus luminosos Escritos a explicação que não faça a outro, o que não quer para si. Ah! Pois concorde V. m. isto com o endiabrado prurito, que tem os Republicanos de escravizar todos os Povos, de pôr-lhes o governo que lhes agrada, de que não pensem senão como mandão, e lhes dá na vontade, e despoja-los até do ultimo ceitil. Por vida minha, que estes deveres são os meus pecados!! Pode ser que os Filósofos (como sabem tudo) saibam também como se combina com aqueles tão apregoados deveres, o pôr os homens sob a opressão mais tirânica, e força-los ao mesmo tempo, a que digam que são livres, e que tem felicidade ás arrobas. Nós certamente não sabemos adjectivar estes mistérios; e a única cousa, que fazemos (quando ouvimos gritar os Democráticos que se ofendem os direitos do homem, só porque alguns se quiseram defender deles) é encolhermos os ombros, e dizer: mais sabe Deus, que o homem. Porém a questão é outra! Em quanto os Republicano não nos disserem como concordam isto, não deixaremos de afirmar, que ou o fazer a outro o que não se quer para si, é um dos principais deveres dos Republicanos, ou estes não creem, que os deveres do homem falem com eles. Ainda que também poderá ajudar suceder, que os Democráticos tenham divido o género humano em democrático, e não democrático, e aos primeiros repartido os direitos, e aos segundos os deveres. E quem nos diz a nós, que os Democráticos deram na fina de não serem homens, e que por tanto são para eles os deveres de nenhum efeito?! Pelo que pertence à prática, tudo é verdade; pois se falarmos com justiça, devemos dizer, que os Democráticos tudo reduzem a um traidor, e infame jogo de palavras, tanto pelo que respeita aos direitos, como aos deveres. E quem nos diz a nós, que os Democráticos deram na fina de não serem homens, e que por tanto são para eles os deveres de nenhum efeito?! Pelo que pertence à prática, tudo é verdade; pois se falarmos com justiça, devemos dizer, que os Democráticos tudo reduzem a um traidor, e infame jogo de palavras, tanto pelo que respeita aos direitos, como aos deveres.

(continuação, II parte)

24/08/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº2 (VI)

(Continuação da V parte)

Mas os Grão-mestres, e grandes Dignitários, que desde muitos tempos assistem aos Conselhos dos Soberanos, e que por detrás da cortina, e em nome dos mesmos Monarcas têm destruído os diques, que continham a libertinagem, mais manhosos que uma zorra, buscaram outro caminho para chegarem aos seus fins, e descobriram outras côrtes para formarem o novo quadro Constitucional, sendo ele o mesmíssimo na sua essência, já rejeitada pelo Universo, e maculada com o saque de seus mesmos apaixonados: disseram no seu tenebroso conselho: "Não busquemos a Constituição pela revolução dos Povos; porque eles já nos conhecem, estão escarmentados com as nossas promessas, e quando menos o pensamos dão-nos com os pratos pela cara, e atiram com a nossa obra, que nos tem custado tantas vigílias, pelos ares, ou ao meio do chão, ficando talvez muitos de nós incolvidos em suas ruínas; não será assim daqui para diante: a Revolução deve começar de cima para baixo, e para isto diremos aos Reis, que os Povos não estão contentes, que estão inquietos, que querem Representantes, que advoguem a sua Causa perante as leis, será fácil convidar Juristas e Publicistas, que escrevam neste sentido, e que mostrem como Filangieri o Governo Representativo misto como o Paraíso em Política, e se isto não basta, e se isto não bastar, finjam-se conspirações, e revoltas, umas feitas pelo Povo contra a Tropa por ser opressora, outras pela Tropa, porque está disposta a pugnar pela liberdade; atormente-se o espírito do Rei até o convencermos da necessidade de Reformas na Administração Política, e será muito fácil achar um Governo, ou Gabinete Estrangeiro, que apoie as nossas Propostas, e que inste com o Soberano para que acuda, e concorde, a fim de que não hajam Revoluções Populares, e distúrbios, os quais são mui prejudiciais ao seu Comércio, etc. etc.; e logo que o Rei estiver disposto, e tiver caído no laço, diremos aos Nobres, que a Constituição Democrática, ou feita pelo Povo é inteiramente oposta aos seus interesses, e representação, que tende a confundir as raças, e a roubar-lhes os bens; mas que se houver um Governo, em que eles Nobres sejam não só ouvidos, e consultados, mas até deliberantes, de cuja vontade penda a maior parte do regímen político, e que reunidos em Supremo Congresso decidam as grandes questões de Estado, como os antigos Senadores, e a Ordem Equestre em Roma: esta forma de Governo tão longe está de degradar a sua grandeza, que ao contrário a eleva e exalta, porque com um Rei Absoluto não passam de criados, e o mais a que chegam é a Conselheiros de Estado, mas isso é uma cerimónia, e apenas são chamados para casos extraordinários; que, ainda que sejam muito sábios, e eloquentes, nunca têm ocasião de o mostrar em público, o que não acontece no Governo Representativo; porque ali ostentam uma dignidade quase, senão maior, que Real; o Rei apenas confirma o que eles sancionam: ali têm ocasião de mostrar o seu saber, e até advogar os seus direitos, etc. etc. . Por este modo fascinados os Nobres, o que é facílimo, porque uma grande porção deles é pouco instruída, e contentam-se em contar tantos Avós, que fizeram o que eles não são capazes de fazer; a estes em lhe acenando com as peles estão caídos; outra porção deles lhe tão ímpia como os mesmos, não têm outro Deus senão a sua barriga, e esses nada lhes importa senão as suas comodidades, e todo o Governo para eles é bom, uma vez que os deixem viver sentados em suas poltronas; outra porção deles há, que são mais espertos, e alguma coisa entendem, mas estes não nos metem medo; porque se ordinário lêem pelos nossos livros, tiveram Mestres que nós inculcámos, e que souberam inspirar-lhes veneração ao nosso Voltaire, e Rousseau, Raynal, Mabli, e Volnei; o exemplo de um Mirabeau comove-os muito, e a lição das Ruínas lhes tem inspirado um certo susto, e receio de que é necessário contratar connosco, porque a nossa Ordem é respeitabilíssima, e que nas nossas mãos está dar volta ao mundo social quando nos aprouver, e as sua sorte dependente da nossa vontade, e isto é bastante para os termos da nossa parte, além de que nos nossos Orientes muitos destes já viram a luz, e estão prontos a ser outros tantos Cidadãos Manuel; uma parte deles ainda há, que seguem o fanatismo dos seus Avoegos, mas esses tomam o partido de não aparecerem, nem aceitarem os Títulos, e desses não temos receio, porque os seus colegas lá se haverão com eles; e uma vez que a maioria siga a Causa, ou por fas ou por nefas, está o negócio arranjado, e pode cuidar-se da organização deste tal Governo. Far-se-há então um extracto de todas as nossas Constituições, corrigindo ou mudando (em quanto às palavras, mas conservando sempre a essência) aqueles artigos, em que os fanáticos têm implicado muito: na parte que tratar do Rei, digam-se mil bens, desse-lhe o Voto, ou Veto decisivo, diga-se que ele tem autoridade para dar o que quiser, fazer a paz, declarar a guerra, etc.... dêsse-lhe mais um poder imaginário, a que chamaremos moderador, etc. etc.; mas logo mais abaixo, na parte que pertence à Câmara estabeleça-se, que o Orçamento da Receita e Despesa pertence a ela, bem como a iniciativa das leis, e que o Ministério é responsável perante as Câmaras, para que ele faça o que elas quiserem, e não o que o Rei disser: na parte que pertence aos Nobres, digam-se-lhes grandes fanfarronadas, que é de que eles gostam, muitos privilégios, etc. porque ao depois eles se lhes tirarão: na parte que diz respeito à Religião, fale-se da Católica, mas não se diga Apostólica, nem única verdadeira; a tolerância de Cultos não deve esquecer, nem a Liberdade da Imprensa; porque uma vez que estes artigos vão no tal compêndio, e uma vez que se consiga haver eleições populares, tudo está concluído, tudo está vendido; porque o mais a seu tempo, e não resta senão um pequeno passo, mui fácil a fazer: depois de assim combinadas as ideias, dispostas as figuras, aplanadas as dificuldades, levar-se-há à assinatura Real, dizendo-se que é a mesma Lei Fundamental da Monarquia na sua essência, com algumas pequenas alterações acidentais, e só revestida daquele colorido político, que o Século das luzes, em que nascemos, nos ministra, e que tem hoje tão fatal império, que nenhum homem ilustrado pode resistir à sua sedutora influência: logo depois far-se-há público à Nação, para lhe mostrar o que S. M. Quer o bem de seus Povos, etc. etc.; nomear-se-hão Comissões, já se sabe dos nossos, para dirigir as eleições pela maneira invariável das nossas leis, e a todo este processo, aliás penoso, e demorado, (mas é necessário assim para ir adiante) chamar-se-há Carta Constitucional, para lhe tirar o odioso; e ainda que alguns fanáticos e absolutistas gritem, pouco nos importa, porque a estes tratamos de rebeldes e revoltosos, e com o mesmo Ceptro de ElRei os esmagaremos; e se alguma Nação Estrangeira, ou vizinha quiser intrometer-se, dir-lhe-emos com toda a paz de espírito, que isto não é um acto revolucionário, produzido pelo espírito democrático, é sim um acto espontâneo do Soberano, que esta é a Legitimidade proclamada pelos Soberanos, que podem dar Cartas, ou Leis a seus súbditos; e por esta forma nem o Diabo, que é nosso mestre, é capaz de lhe dar volta; chamar-lhe-emos a Divinal Carta, porque só Espíritos Angélicos poderiam meditar, e levar a efeito um tão sublime, e transcendente plano". Se esta não é a linguagem da alta Maçonaria quando medita, e prepara os planos de suas empresas, não saibamos que possa ser outra; e o que é certo, é que os factos públicos correspondem exactamente a esta hipótese. Este é um laço armado aos Reis, em que tantos desgraçadamente têm caído: é uma rede estendida, que apanha os Nobres e os plebeus, os ricos e os pobres, os Frades e os Clérigos, ilude a uns, atraiçoa a outros, a estes lisonjeia, àqueles oprime, e por fim a todos tiraniza, rouba, e degrada: eis-aqui o que nós chamamos Constituição Carteira: este segundo parto da Sapiência Maçónica é mil vezes mais monstruoso, mais terrível, e mais nefando do que o primeiro: no primeiro aparecia o Diabo, que é o mestre e autor de todas as obras das trevas, nu e cru, tal, qual ele é; mas no segundo aparece o mesmo Diabo, porém vestido com roupas Majestáticas, e com os enfeites de Anjo: quem não conhece ser mais terrível o inimigo, quanto ele é mais disfarçado? Quem é que não conhece, que um cão que não ladra é mais difícil evitar-se, do que o que primeiro nos avisa com os seus latidos?? É verdade, que nestes últimos tempos tem aparecido uma certa classe de gente, que se chamam moderadores, os quais têm querido ensinar, (o caso é que entre nós tem tido muitos discípulos) que este Sistema Carteiro é o único meio de equilibrar os poderes, concedendo alguma coisa ao Povo, para que ele se não inquiete, e modificando o absolutismo dos Reis, chegando até a dizer com um tom infundado "são as ideias do século, é necessário reconhecer o seu império", os Reis não têm outro remédio para se livrarem das invasões populares, este é preservativo das Revoluções, o país que gozar desta ventura estará isento dos flagelos da guerra democrática. Muito bem discorreis, meus amigos moderadores, mas a vossa lógica tem tanta solidez, como a leve palha, que o vento agita. Vamos a contas: dizei-me: quando um Monarca dá uma Carta Constitucional, cede de alguma qualidade Majestática, que recebeu de seus maiores, e que data com a Lei Fundamental da Monarquia?... Não o podeis negar, e direis que sim, porque se Ele não cedesse de algum privilégio ou prerrogativa, e conservasse a mesma integridade governativa, para que quereis vós semelhante Carta? Logo, por uma forçosa consequência, a que não podeis escapar, este acto é atentatório contra a Suprema Autoridade Real, que é sempre permanente, uma, a mesma, e indivisível, independente das pessoas dos Reis, e da qual se não podem afastar sem serem traidores à lei Fundamental, pela qual imperam, são falsário ao juramento por Eles dado quando sobem ao Trono, e incorrem nas maldições de seus Maiores; e vós, que assim os aconselhais, sois os primeiros traidores, e revolucionários: ainda mais: quando o Rei tem caído na fraqueza de dar essa Carta, e depois, ou se arrepende, ou quer desmanchar o que fez, o que deve ser lícito segundo a regra antiquíssima de Direito "cujus est dare, cujus est tollere" o que fazeis vós?... Gritais "traição; perjúrio!!" Arguis o mesmo Rei, inquietais um Reino inteiro, e fazeis uma reacção, que chamais justa, porque é para manter a ordem estabelecida e jurada: e então porque se não levantaram os homens de bem, honrados, e verdadeiros patriotas, quando virem aparecer uma Carta Constitucional? Porque razão não gritaram "traição! Perjúrio!!". Porque motivo não farão uma reacção, tão justa como a vossa, para manter a ordem estabelecida, e jurada há tantos séculos?! Tereis vós mais direito para sustentar uma ordem de coisas, que ainda está em coeiros, e não haverá direito para sustentar e defender outra ordem de coisas cheias de cãs?! Eis, aqui tendes a vossa lógica convertida contra vós mesmos, e eis a conclusão necessária segundo os vossos princípios "a Carta Constitucional, que devia de facto evitar as Revoluções, é quem as estabelece de direito". Dizei-me ainda mais: já vistes alguma Carta Constitucional, em que deixasse de aparecer aquela tolerância de Cultos, que a Filantropia do nosso século tem descoberto para dar a mão a todos os inimigos da Religião Católica; e em que não visse sancionada a Liberdade de Imprensa??... Sem dúvida que não: logo, a Carta é ímpia, e revolucionária contra Deus; porque, se a pluralidade dos deuses, segundo a linguagem dos mesmos pagãos, é a nulidade de Religião, Deorum pluritas est Deorum nullitas: ela por meio da Imprensa Livre abre a porta ao Ateu, ao Deísta, ao Libertino, ao Judeu, ao Muçulmano, ao Cismático, ao Herege, ao Protestante, ao Indiferentista para que publique os Livros da sua Lei, e as suas costumadas invectivas contra o Catolicismo: abre um caminho franco ao democrata, ao traidor, ao malévolo para despender as suas ideias a respeito de governo, para espalhar a zizania e a discórdia no meio dos Povos, e para derramarem todo o fel e todo o veneno dos áspides oculto debaixo de suas perversas línguas sobre o Cidadão honrado, o Artista pacífico, o Nobre benfazejo, e mais que tudo, sobre os Ministros de J. C.!! E será isto o Código Sublime, Divinal, que arranca pela raiz o gérmen das Revoluções, como vós dizeis?! Não: é ao contrário o pomo da discórdia, e a semente fecunda de contínuas Revoluções, que começando por palavra, e por escrito acabarão por sangue e ruínas!! Dizei-me ainda mais: já apareceu alguma dessas Divinais, sem que aparecessem igualmente eleições populares? Sem dúvida que não; porque nem vós a quereis, sem que trouxesse este tempêro: logo, eis a porta aberta para a venealidade, eis o Povo tomando parte nas Deliberações Governamentais, eis a Câmara baixa reagindo contra a alta, os Nobres odiados, e malquistados perante o Povo, o Rei em colisões, sem saber muitas vezes que partido deve tomar, a maça geral, a que vós chamais Respeitável Público, em contínua fermentação, os terroristas espalhando o alarme, os Periódicos endoidecendo as cabeças, os Oradores assalariados incendiando os ânimos, o espírito de partido tomando a dianteira em todos os negócios, o bem da Nação convertido sempre em interesse pessoa, a Força Armada dividindo-se, os negócios de Estado conhecidos de todo o Mundo, e o que é mais espantoso, a guerra civil incendiando-se, invasões iminentes, e as Câmaras disputando com os Ministros se se deve tomar o partido da guerra ou da paz, se o exército deve ser de guardas cívicas, ou de tropas regulares!!... E achareis vós neste vórtice espantoso a paz, e a tranquilidade?!... Ah! se tal disserdes, é o argumento mais positivo de que sois perfeitos diabos, que só nas chamas vivem satisfeitos. Dizei-me ainda mais: quem faz a festa quando aparece uma dessas Divinais, que vós dizeis partir da Legitimidade?! Não podeis negar que os mesmos que festejaram a primeira, os mesmos bandidos, caixeiros, franxinotes, etc. etc. aparecem a aplaudir a Divinal, levantam-se pirâmides, iluminações, logo aparecem os mesmos Periodistas, os mesmos Deputados, em uma palavra, a mesma fáfila republicana, e mais alguma, que se lhe agregou ejusdem furfuris ac farinae, e nós que o digamos, que até  mesmo Frade Bento, que foi o caixa da primeira, aparece o chefe em a segunda; e qual é a consequência, que deve tirar um homem, que não seja pedreiro?! esta, e somente esta "é a mesma obra, tem os mesmos mestres, tende ao mesmo fim" e a razão desta consequência funda-se em um princípio universal de que as mesmas coisas produzem os mesmos efeitos: uma pereira não pode nunca dar maçãs: uma ginjeira não pode dar marmelos: pois seria mais fácil que uma pereira desse maçãs, e um ginjeira marmelos, do que um pedreiro, um ímpio, um revolucionário produzir uma só palavra, que tenda à felicidade de uma Nação.

(continuação, VII parte)

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