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18/02/15

ALGUNS AJUSTES PARA O ESTUDO DE D. FR. FORTUNATO DE S. BOAVENTURA

Sobre o Arcebispo de Évora D. Fr. Fortunato de S. Boaventura diz o liberal autor Inocêncio Francisco da Silva:

"D. Fr. Fortunato de S. Boaventura nasceu em Alcobaça à volta do ano de 1778 [seu pai era livreiro da vila]. Professou a Regra de S. Bernardo no Mosteiro de Alcobaça, em 25 de Agosto de 1795. Frequentou, na Universidade de Coimbra, a Faculdade de Teologia, nela se doutorou em 6 de Julho de 1810 [outros autores dizem 8 de Junho de 1811]. Foi professor [regente da cadeira] de História no Colégio das Artes. Em 27 de Agosto de 1831 foi nomeado reformador geral dos Estudos [cargo que até então tinha cabido a D. Francisco Alexandre Lobo, Bispo de Viseu]. Em 29 de Setembro deste mesmo ano, foi apresentado Arcebispo de Évora, e confirmado neste lugar pelo Papa Gregório XVI em 24 de Fevereiro de 1832, e sagrado em 3 de Junho deste mesmo ano [o próprio Rei o tinha nomeado, segundo fez saber, para dar a tão importante diocese um Bispo de grandes virtudes reconhecidas e pessoa digna de muita confiança]. Pouco tempo esteve em Évora. Triunfando a causa de D. Pedro, e "restabelecido" [aspas minhas] o governo constitucional, de cujas doutrinas foi sempre adverso, retirou-se [foi exilado] em 1834 para a Itália, vivendo os últimos anos em Roma, sem conforto e com pouquíssimos recursos económicos [como sempre o fez e faria qualquer bom monge]. Faleceu nesta cidade em Dezembro de 1844, e foi sepultado na igreja de S. Bernardo."

Para que não dê a falsa ideia de que D. Fr. Fortunato tivesse sido abandonado ou esquecido no final da vida, e que esse fosse o motivo da sua vida em pobreza, convirá lembrar que, segundo publicou em 1843 o "Il Mercurio di Roma" o nosso grande português morava no Convento de S. Anderea della Vall.

A biografia é breve porque não conseguiram apagá-la. Que vivas haveriam de querer dar os vencedores liberais a um Monge Arcebispo que durante as invasões francesas escreveu contra elas e contra o que elas representavam? (leia-se o opúsculo "Quando da Infame Conducta de Napoleão Bonaparte para com os Diferentes Soberanos da Europa, desde a sua intrusão no Governo Francês até Junho de 1808")

Em Maio de 1820 Fr. Fortunato foi nomeado correspondente da Academia Real das Ciências, e no ano seguinte nomeado sócio livre. O seu prestígio como historiador profundo e de rigor está também reconhecidos pela nomeação para Cronista da Ordem de S. Bernardo (cargo habitualmente desempenhado por monges que deixaram elevado nome na nossa história).

A grande parte dos sermões proferidos por D. Fr. Fortunato de S. Boaventura, os quais eram proferidos e publicados pela Imprensa da Universidade de Coimbra, foram depois na sua maioria queimados quando a mesma Imprensa foi ocupada pelos liberais (por via da Junta Liberal do Porto); acto do mais invertido critério de censura.

Parte superior da Capela mór da Sé de Évora
D. Fr. Fortunato de S. Boaventura nunca deixou o Arcebispado de Évora, e sempre, como de direito, continuou a agir como Arcebispo de Évora no exílio. Antes da sua partida para Roma, as falseadas novas "autoridades eclesiásticas" sobrepostas por via do ilegítimo governo liberal usurpante violentaram-no a sair da Arquidiocese. Escreveu então duas pastorais aos seus diocesanos a dar conta das ocorrências; uma foi escrita em Pombal a 15 de Setembro de 1833, e a outra em Condeixa a 21 de Outubro seguinte.

Tudo isto é uma pequena mostra para que se entenda porque as biografias que os liberais compuseram são tão reduzidas e pouco claras quando dizem respeito aos seus adversários, e aumentam as páginas aos do maldito liberalismo (pois chegam a colocar diante do Povo estátuas erguidas aos criminosos com o metal roubado de outras tantas estátuas a homens que sempre defenderam o que Portugal sempre defendeu).

Também, para que não se pense que D. Fr. Fortunato de S. Boaventura foi um caso isolado (embora seja personagem peculiar), ou que tivesse uma causa e visão muito originais (coisa que os liberais sempre tentam fazer crer: assim pareceria que a causa não foi nacional, mas sim de um grupo minoritário de indivíduos), devo lembrar ao, no texto transcrito, o liberal Inocêncio Francisco da Silva trata por "retirou-se em 1834 para a Itália" o que na verdade foi exílio forçado. O próprio D. Pedro de Alcântara, em carta a Gregório XVI, em Outubro de 1831, insurge-se contra o reconhecimento dado por Sua Santidade ao Rei D. Miguel, e ameaça que não aceitaria nunca a nomeação dos novos Bispos por D. Miguel. Caso ele tirasse o Rei D. Miguel do Trono, dizia que expulsaria do Reino a tais Bispos como rebeldes e traidores. O que é certo é que, passados alguns meses, o Santo Padre confirma tais Bispos, entre eles D. Fr. Fortunato de S. Boaventura. Assim que D. Pedro usurpou o Trono cumpriu com a ameaça.

04/02/15

D. FR. FORTUNATO DE S. BOAVENTURA EM ROMA

D. Fr. Fortunato de S. Boaventura, Arcebispo de Évora.
"Ao lado de D. Miguel estava D. Fr. Fortunato de S. Boaventura, Arcebispo eleito de Évora, homem de fogo e de talento, pessoa com natas qualidades de condutor e muito da confiança do papa Gregório XVI. Um homem de ideias claras e palavras claras. Foi a ele que o Papa, por um breve, concedeu todos os poderes para as graças espirituais que de Portugal se solicitavam enquanto durou o estado das coisas políticas e religiosas, já se vê, sempre de acordo com o Cardial De Gregório, então o Penitenciário-Mor. Foi portanto D. Fr. Fortunato o Delegado Pontifício para os negócios espirituais de Portugal, como em certo modo o era D. Miguel junto dos emigrados que em Roma embalados de esperanças se iam, sabe Deus como, aumentando. Mas não era D. Fr. Fortunato homem para enganar os outros. Em 1837, em face do que sabia, era o primeiro a aconselhar os portugueses emigrados na Cidade Eterna a procurar suas vidas, pois que não seria possível continuar-lhes por mais tempo os socorros que estavam recebendo.

Porque eles, os emigrados, passaram verdadeiras necessidades. Não no princípio quando o dinheiro não era muito escasso e a certeza de uma próxima vitória e de uma volta breve à terra saudosa lhes alimentava o coração e a vaidade de sofrer e servir um ideal, e lhes robustecia os ímpetos de aniquilar os adversários liberais quer de dentro que de fora do país." ("Portugal em Roma", Vol. II. Pe. José de Castro; Lisboa, 1939, pág. 257 - com "nihil obstat" e "imprimatur")

11/12/14

CONTRA-MINA Nº 42: Reconhecimento a D. Miguel I Dado Pelo Papa Gregório XVI (III)

(continuação da II parte)

Foi certamente Belzebu, ou Satanás quem, à hora da meia-noite, lhes descobriu, que não tinha sido absoluto, porém condicional o Reconhecimento do Senhor D. MIGUEL I pelo S. Padre Gregório XVI, e é habilidade, que só alguns Pedreiros Livres, e alguns Confessores Jansenistas saibam, o que se ignoram absolutamente nas Côrtes de Lisboa, e de Roma. É sabida bem fraca, e bem despropositada, assim como é bem para admirar, que certos ânimos se deixem preocupar de uma Sandice tão absurda e tão depressível... mas em fim é necessário, que o Esquadrão feminil, que trata de piedade, e que tantos serviços há feito à Causa, que não é certamente a Causa de Deus, tome alentos, e não desanime de prosseguir em seu nobre intento de acarretar sobre este Reino, depois da guerra Civil, a inteira destituição do Catolicismo. Mal sabem os meus leitores o quanto eu aborreço as geringonças, e caramunhas destas carpideiras dos males do seu próximo, quando este próximo é Constitucional, e Pedreiro..... Quando é Realista, ainda que o vejam padecer os mais duros, e cruéis tratamentos, ainda que lhes vejam apertar tanto as mãos, que as cordas assentem em carne viva, e já cheguem aos próprios ossos, a nada as brutinhas se movem, e ficando muito enxutas, apenas dizem "Não fosse tolo, quem o mandou figurar em causas políticas, quem não quer ser lobo, não lhe vista a pele etc. etc. etc.," e Adeus caridade Cristã, Adeus moral do Evangelho, que deve ceder toda em benefício dos Pedreiros Livres. É bem para lastimar, que o saudoso Padre Macedo [Pe. José Agostinho de Macedo] não chegasse a dar a última de mão ao prometido quadro das Mulhadas, que só um pincel, que no seu género não tinha, nem pouco, nem muito, que invejasse ao de Rafael de Urbino, seria adequado, para o fazer da maneira que convinha, isto é, por tal arte, que as insulsas, ou perversas Malhadas [em linguagem popular, "malhados" eram os maçons, assim chamados pela cena dos cavalos malhados que quase puseram fim à vida de D. Miguel] se corressem de o ser, e tivessem com o Cervantes Português igual sorte, à que experimentaram os Cavalheiros andantes com o Espanhol. Muitas vezes me lembro, de que estas miseráveis, que são a desonra do seu sexo, e de Portugal, tem lá para si, que o Grande Oriente, em contemplação dos seus grandes serviços, lhes conservará sempre uma Igreja aberta, para elas frequentarem os Sacramentos, e serem Cristãs folgadamente, e à sua contade, ou por efeito de alguma revelação do Diácono Paris contem de certo com a geral conversão dos Pedreiros Livres... Deixemos estas loucas, e desvairadas mulheres, e passemos a coisa mais conveniente para os meus Leitores. Dizia eu no princípio deste Nº 42, que o Reconhecimento do Senhor D. Miguel I pelo S. Padre Gregório XVI era um sucesso da maior importância, considerado Politicamente, ou ainda Historicamente. É necessário, que eu dê alguma razão destes meus dictos.

Milagre de Ourique. Nosso Senhor aparece a D. Afonso I de Portugal
A Igreja de Roma, ainda que goze uma Soberania temporal, de que nunca será esbulhada, sem que logo se arrisquem os interesse da Fé, não tem uma consideração política, que baste, para a fazer independente das grandes Potências Católicas; e por isso tem por costume respeitá-las sem baixeza, e acatá-las sem lisonja, até ao ponto de que tenham algumas, como é notório, o direito de exclusiva nas Eleições dos Sumos Pontífices. Daqui vem igualmente, que tratando-sede Reconhecer um de dois contendores, ou aspirantes a uma Coroa, ele tenha espreitado, e seguido as variedades, e mudanças do Sistema Político da Europa "Se pareceu não atender, como de antes, à Soberania de facto, é por ver, que dificuldades mais graves contrariam as suas antigas ideias.. O Sumo Pontífice é Pai comum de todos os Fiéis, e não olha somente para a felicidade espiritual deste ou daquele Reino Católico da Europa, ou da América; não há um só destes no Mundo, que ele não forceje por conservar, e proteger, para que nunca se retirem do centro da unidade, ou se extraviem do único, e verdadeiro caminho da salvação. Quando os Reis, por uma vingança mal entendida, se resolvem a quebrar com a Igreja de Roma, ou, o que ainda é mais fatal, e pernicioso aos seus melhores interesses, a deixar a Comunhão com aquela Igreja, arrastam consigo os Povos inocentes, e gerações inteiras; e melhor seria para eles o perderem a Coroa temporal, do que esbulharem da Coroa eterna a si próprios, e aos seus infelicíssimos vassalos. Fazem pois o maior serviço aos Reis, e atraem sobre os Povos a maior de todas as calamidades, esses infamente Pedreiros Livres, que depois de terem aprendido, e talvez ensinado, que os Papas nunca se devem fazer Árbitros de Questões Políticas, e de terem explicado no sentido mais lato as Divinas expressões "Regnum meum non est de hoc mundo," criminam todavia os Papas, quando movidos de razões fortíssimas, ou suspendem, ou demoram o Reconhecimento dos Príncipes, que mais desejariam ver firmes, e consolidados na posse de seus Tronos. Quantas vezes depois de azedarem os Príncipes contra o Vigário de Jesus Cristo, e de lho pintarem como o seu maior inimigo, e vendo-se apanhados de súbito pela mais exuberantes provas de uma afeição verdadeiramente Paternal, forcejam por extenuá-las, ou diminuí-las, quando lhes não é dado escurecê-las de todo? O principal fundamento da Monarquia Portuguesa consiste na profissão do Catolicismo puro [milenar, o de sempre], e não mesclado de doutrinas Jansenistas, ou quase Protestantiças [hoje, esse "quase" foi ultrapassado]; mas quem se reputa, e deve reputar como Soberano, ou Cabeça da Igreja? É o Sumo Pontífice; pois eu que vejo quebrada a Linha da Sucessão de tantos Bispos nas Igrejas fundadas pelos Apóstolos, vejo-a sustentada, e nunca interrompida desde S. Pedro até ao Sumo Pontífice Gregório XVI. Logo o Sumo Pontífice é parte essencial na firmeza do Trono Português, e por isso este Reconhecimento do Senhor D. MIGUEL I por aquele S. Padre, é o mais apreciável de todos. Que fui eu dizer? Pois não seria melhor, que fosse Reconhecido por algum Soberano, que em lances de perigo lhe enviasse 30$ homens de auxílio, para rechaçar, e debelar completamente os adversários da Sua Pessoa, e Governo? Tal não dizem, e ainda menos pensam os verdadeiros Portugueses (que somente os que forem Católicos merecem tal nome). Os verdadeiros Portugueses não têm uma só Pátria, que se chama Reino de Portugal, aspiram a outro melhor, que nunca lhes poderá ser, nem franqueada, nem entregue senão pelo Ministério das Chaves de S. Pedro. Desde o princípio da minha carreira Literária tenho eu estranhado muito a opinião, em que somos tidos por vários Escritores estrangeiros, e bem estrangeiros na matéria, que se meteram a tratar, sem o devido conhecimento de causa. Temos na Santa Religião dos nossos Maiores um princípio de força irresistível, com que de ordinário se não conra, e que pesa muito nas balança, quando se trata de avaliar os nossos feitos antigos, e modernos. A História de Portugal, no que toca a milagres, e coisas extraordinárias, em que se apalpa continuamente um braço superior, só é excedida pela História do antigo Testamento; e quem a chamar, ou reduzir às causas naturais, e ordinárias da elevação, e queda dos Impérios, forçosamente há-de enervá-la, e despi-la do mais essencial, a ponto de a tornar um esqueleto mirrado, e informe.

(continuação, IV parte)

10/12/14

CONTRA-MINA Nº 42: Reconhecimento a D. Miguel I Dado Pelo Papa Gregório XVI (II)

(continuação da I parte)

Nada há mais frequente, e vulgar nas Escolas maiores, e menores, do que repreender a nimia influência, que os Papas tiveram por muitos séculos no Estado político, e temporal das Nações Europeias, e haverá mui poucos mancebos instruídos, que não saibam de cór as virulentas declamações do Abade Millot, e do Abade Ducreux, (ambos postos em linguagem [vernáculo], e ambos corrumptores da mocidade, e neste particular muito mais o primeiro do que o segundo) declamações, digo, contra os chamados excessos dos Sumos Pontífices. Ora se estes, como os homens mais atilados, e mais sábios do seu tempo, foram muitas vezes constituídos árbitros das discórdias entre os Reis, e os Povos, ou de uns com outros Povos, e faziam uma espécie de Tribunal, a que eram chamados os negócios [assuntos] mais árduos daquele tempo; se há testemunhos irrefragáveis do que os próprios Reis desentronizados lhes reconheciam essa Autoridade Política, e Civil, para que é condená-los de que usassem de Poderes, que ninguém lhes disputava, e que todo o Mundo Cristão lhes conferia? Suponha-se embora, que foi abuso intolerável, que houve algum excesso ou demasia; porém é de justiça absolver os homens, e condenar meramente o século, quem tais coisas sucederam, ou se praticara; vou falando em suposição, e nunca decido o que não e pertence decidir; mas para atordoar os Sabichões Portugueses é necessário, que eu lhes diga, que a própria matéria dos seus risos, dos seus escárnios, e dos seus motejos, não o é para isso na opinião de um dos maiores Sábios modernos; e daqui vem, que nesses pontos de Autoridade, e Jurisdição Pontifícia é lícito, que eu chame hóspedes aos tais Sabichões. Que dirão eles, caso eu me pusesse a defender, como justa, e hem para desejar, a antiga primazia dos Sumos Pontífices sobre o temporal dos Reis?..... Aí me deitavam fogo por mil partes, brindado-me, na forma do seu antigo costume, com uma boa porção de nomes afrontosíssimos. Pois desde já lhes recomendo, que lancem fogo, e chamem toda a casta de nomes injuriosos ao grande Leibnitz, que não era Ultramontano, e que era Protestante. Reconhece este Sábio, que era ultilíssimo o restabelecimento da antiga Autoridade do Papa. Assim o diz na segunda Carta a Mr. Grimaressa (Tomo 5º das suas Obras pág. 65) pelo teor seguinte:

"Tenho lido alguma coisa do projecto de Mr. de S. Pierre, para manter uma paz perpétua na Europa. Lembro-me da divisa de um Cemitério, que consistia nestas palavras, "Pax perpetua" porque os mortos não têm bulhas, porém os vivos são de outros humores, e mais poderosos, e por isso não fazem grande caso dos Tribunais; seria necessário pois que todos esses Senhores dessem uma fiança Cavalheira, ou depositassem no Banco do Tribunal, o Rei de França, por exemplo, cem milhões de escudos, e o Rei de Grã-Bretanha à proporção, para que as Sentenças do Tribunal pudessem executar-se à sua custa, no caso de serem refractários....
Lembro-me de um Discurso neste sentido, e queira que Luzerna na Suíça fosse o assento do Tribunal. Quanto a mim sigo o voto de o estabelecer: mesmo em Roma, e de fazer o Papa seu Presidente, assim como outrora ele fazia o papel de Juiz entre os Príncipes Cristãos."

Agora pergunto eu; acaso endoideceria o Emulo de Newton? Por certo que não endoideceu. Esta qualificação pertence in solidum a outra casta de homens; e por ser a mais branda, e menos lesiva, que outras e verdadeiras, é um grande favor para certos miseráveis tarelos, que ainda em mantilhas da infância literária desdenham do Papa, contestam-lhe as suas essenciais prerrogativas, e fazem gala de aborrecer, e deprimir, quanto neles é, o próprio, do qual em outras circunstâncias se dizem respeitosos, e obedientes filhos....

D. Miguel I
Mas para que me demoro eu tanto nestas vindícias da Autoridade dos Papas, chegando a enfurecer-me, e talvez a descomedir-me.... Já me reporto, e voltando a princípios, ou ideias moderadas, que têm às vezes seu cabimento, direi com toda a franqueza, que os Pedreiros Livres deste Reino têm sido, nomeadamente desde Abril de 182[8?], até 29 de Setembro de 1831, (nada menos, que três anos sólidos com seus pozinhos por cima) uns incensáveis apregoadores da Suprema Autoridade Pontifícia. Como se demorava o Reconhecimento do Senhor D. MIGUEL I, e parecia estar ainda mui distante, não havia para eles um proceder, nem mais arrassoado, nem que mais lhe enchesse as medidas; neste caso, e só nesse caso tinha Poderes politicos ilimitados, e como Vigário de Jesus Cristo, e Soberano de Roma pesava tanto na balança para excluir o denominado intruso na Coroa destes Reinos, como para firmar cada vez mais o Trono da Senhora D. Maria da Glória. Era um gosto ver os Diabos feitos prégadores! E com efeito, quem poderia conter uma gargalhada de riso, ao ler numa parede do inferior, ou da primeira Sala de uma Estalagem nas vizinhanças do Porto.. esta legenda:

"O Senhor D. MIGUEL não é Rei, porque o Sumo Pontífice não quer que ele o seja, e já mandou excomungar todos os Bispos do Reino, que lhe pagassem Contribuições."

Apaguei esta inscrição, por ser daquelas, que nem Grutero, nem Muratori queriam aproveitar; e só notei, que os arestos da Seita se endereçavam nesse tempo (1830) a seduzir o Povo. Já neste intuito fizeram vincular uma chamada Bula do Santo Padre Leão XII em 1829, que é a obra prima do delírio, e da impostura; e que logo em seu frontispício mostrava ser ficção armada, por quem não sabia os estilos da Cúria Romana; porém como tudo lhes serve para os seus fins, assim mesmo a enviaram a muitos Párocos das Aldeias, talvez na esperança de os intimidarem, caso os não pudessem convencer.

Depois pois de um golpe, e desfizeram-se completamente as armadilhas Pedreirais pela decisão do Santo Padre Gregório XVI, e desapareceu por uma vez toda a incerteza, que muito afligia, e inquietava os leais Portugueses, que jactando-se mais de serem Cristãos, que de outro qualquer de seus predicados, ou ingénitos, ou adquiridos, nenhum Reconhecimento consideraram mais valioso do que este, e por isso nenhum outro como este desejavam com tanto ardor, e impaciência. E desanimariam acaso os Pedreiros Livres com este inopinado revéz? Mudariam de linguagem, ou emudeceram para sempre, como deviam fazer, caso tivessem honra, e vergonha? Não costumam ser homens, que se intimidem de quanto seja mentir, e caluniar. Seja embora a mentira demarcada, e palpável, seja a calúnia não só inverosímil, mas até repugnante, e das que envolvem contradição manifesta, de tudo se aproveitam, e a tudo isto recorrem, não tanto para destruir, como para escurecer a própria verdade claríssima, e indestrutível.

(continuação, III parte)

04/12/14

CONTRA-MINA Nº 42: Reconhecimento a D. Miguel I Dado Pelo Papa Gregório XVI (I)

CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,

por

Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.

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Nº 42
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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O Reconhecimento do Mui Alto e Poderoso Senhor D. MIGUEL I Pelo Santo Padre Gregório XVI, Agora Presidente na Universal Igreja

Papa Gregório XVI
"Sucesso foi este da maior importância, e que debaixo de qualquer dos aspectos, que se considere, ou Religiosa, ou Política, ou ainda Historicamente, foi da mais conhecida vantagem para o Reino de Portugal. Este Reino exceptuada a Grei Maçónico-Liberal, é Católico, e sempre foi obedientíssimo à Igreja de Roma, e ao Sucessor do Príncipe dos Apóstolos; e se a minha tal qual memória me não engana, já houve um Rei de Portugal, que tratando-se em sua presença dos vários Títulos Religiosos, usados pelos Reis, v. g. Rei Católico, Rei Cristianíssimo, disse, que se lhe cometessem a eleição de um Título, não se pagaria de nenhum como deste "Filho obedientísssimo da Igreja Romana".

Já mui antes que o Santo Padre Bento XIV concedesse aos Reis de Portugal a sobremaneira honrosa de Reis Fidelíssimo, o Santo Padre Eugénio IV havia concedido aos nosso Reis, que depois da sua Exaltação ao Trono fossem Sagrados à maneira dos Reis da França, e que o Ministro desta Cerimónia Religiosa fosse o Arcebispo de Braga; e não se apontará em nenhum dos séculos da existência destes Reinos algum intervalo notável de anos, em que a Sé Apostólica deixasse de outorgar-lhes as mais exuberantes graças, e privilégios. Ora esta aliança dos Sumos Pontífices com os Reis, sendo tão falta como era ao progresso das Ideias Liberais, sucedeu toda a fúria dos Jansenistas, que de mãos dadas com os Pedreiros Livres têm feito as maiores diligências por empecê-la, e destrui-la. Bem sabiam eles, que a Suprema Autoridade do Vigário de Jesus Cristo, ainda nesses dias, manhosamente chamados escuros e tenebrosos, era sempre mais fácil em conquistar os Vassalos rebeldes a que prestassem a devida sujeição aos seus Príncipes, do que em desentronisar estes, e relevar àqueles o Juramento de fidelidade; e para se livrarem do peso da evidência histórica, que muito os atormentava, pesaram em campo um exército de Historiadores, que tomando a liberdade Filosófica, (e por isso tem dado aos seus aranzeis o nome de Histórias Filosóficas) separam dos acontecimentos da meia idade só aquela parte, que, abstraindo de todas as mais circunstâncias, possa fazer odiosa a Autoridade Pontifícia, escondendo ardilosamente, o que lhe podia ser, não só favorável, mas até mui decoroso. Desta arte conseguem barafustar, e confundir tudo, e perverter os incautos, e desavisados, que olham para essas rapsódias, como para outros tantos Evangelhos. Costuma dizer-se, que S. Gregório VI era o flagelo dos Reis, e que tratou despótica, e orgulhosamente o Imperador Henrique; porém não se diz, ou se diz apenas por entre dicção para depor o Sumo Pontífice, e eleger outro, que o substituísse. Em uma palavra, somente os Neros, ou Calígulas, chamados Cristãos, e que na meia idade foram às vezes pouco menos que feras, é que podiam recear-se da Autoridade Pontifícia; porém os Reis bons, justiceiros, e Cristãos nunca se temeram de uma Autoridade sempre bemfazeja, e protectora para com eles. Fazendo previamente uma advertência aos nosso Sabichões, de que o ímpio Hobbes não achou nem débeis, nem ridículos certos argumentos do Cardeal Belarmino, convém dar aqui um exemplo de todas estas verdades. Que altos gritos, e clamores se têm ouvido neste Reino sobre a injusta deposição do Senhor D. Sancho II? Mas quem teve neste sucesso a maior influência? Os Nobres, e os Prelados deste Reino, que acudiram em chusmas às portas do Vaticano, instando com o Santo Padre, que se dignasse valer a um Reino, que apenas resgatado do poder dos Mouros ameaçava a sumir-se no pétago insondável da anarquia, e da guerra civil. Que faria pois nestes lances o Santo padre Inocêncio IV? Deixaria parecer em breves dias a obra de tantos anos, de tantos combates, e de tantas vítimas? Seria melhor, que todo o Reino andasse, até se consumir de todo, em uma guerra desastrosa de pais contra filhos, e de irmãos contra irmãos, ou que a Tutoria do Reino fosse dada ao Conde de Bolonha, que era o legítimo herdeiro da Coroa? Atrevo-me a dizer, que os que presumem de mais versados na História Portuguesa ainda não sabem, que o Sumo Pontífice dirigiu nesta ocasião um Breve ao Senhor D. Sancho II, já desentronisado, e residente em Toledo, em que lhe mostra os sentimentos de verdadeiro Pai, e declara, que nunca foi do seu ânimo privar do incontestável direito à Coroa Portuguesa os descendentes legítimos, quando os tivesse. E onde está o Breve? (dirá talvez algum curioso) Está impresso, e declarado genuíno pelo famoso Crítico Estêvão Baluzio. Sirva por este único exemplo de confirmar, o que tenho dito; e persuadam-se de uma vez todos os bons Portugueses, que a proporção do que se enfraquece, ou diminui a Autoridade Pontifícia em um Reino Católico, move, adianta-se, e triunfa a Seita Maçónica, por certo a mais empenhada em tirar aos Reis tudo quanto os possa fazer mais respeitados, e temidos de seus Povos.

(continuação, II parte)

25/06/14

"PORTUGAL EM ROMA" - O REI NO EXÍLIO (I)

Gregório XVI
Gregório XVI, querendo recompensar os méritos insignes de Mons. Capaccini, no Consistório de 10 de Junho de 1844, criou-o Cardial, reservando-o in petto, e publicando-o no de Abril de 1845. O Papa quis dispensá-lo de vir receber o chapéu por causa da grave afeção cardíaca que o oprimia. Pouco sobreviveu à honra da púrpura, pois que a 15 de Janeiro morreu e jaz sepultado em Santa Maria in Aquiro.

O Santo Padre, de saúde resistente quando eleito para o sólio pontifício, com a fadiga e as responsabilidades foi-se adoentando. Em 1840 nem os ares magníficos de Castelgandolfo o impediam de sofrer as febres e as terçãs.

Ora bem ou menos bem, lá ia, sempre vigilante, sempre atento aos assuntos magnos da cristandade, viajando como entendia cumprir-lhe pelos Estados Pontifícios, e de um modo especial, como em 1845, pelas terras vizinhas de Roma. Queria ver tudo, saber tudo, para que tudo caminhasse com justiça e abundância para os súbditos. E as relações com Portugal foram-se compondo, suavizando, perdendo as arestas agudas e em 1842 já Gregório XVI dá ao Ministro de Portugal acreditado junto da sua Augusta Pessoa o apreciadíssimo presente das cidras, regalo exclusivamente reservado aos embaixadores.

Claro que o Comendador Miguéis de Carvalho e Brito exultou como de resto exultaria nesse mesmo ano a "rainha" D. Maria "II" [aspas minhas] com a aceitação do Papa para ser padrinho no baptismo do Infante que recebeu o nome de João Maria Fernando Gregório, pelo que enviou à Rainha o riquíssimo e expressivo presente da Rosa de Ouro por meio do ablegado Mons. Vizzardelli, e com ela o outro presente também precioso e raro das "Faixas Bentas".

A doença que a pouco e pouco ia minando o Pontífice, teve o seu desfecho final em 1846.

Já se disse que D. Miguel I embarcou em Silves no dia 1 de Junho e desembarcou em Génova no dia 21 do referido mês. E é verdade. Assim o garante uma carta do Marquês de Lavradio a Camilo de Rossi: "Génova (21 de Junho) - No meio de tantas angústias tive a grande satisfação de beijar a mão ao nosso caro Rei. Aqui chegou a bordo da fragata Stag depois das duas horas da tarde trazendo consigo António José Guião, o Conde de Soure, D. Bernardo de Almeida, João Gaudêncio Torres, o seu confessor, o seu Capelão, Cirurgião, criados, oficiais e um outro sacerdote. Na corveta que veio antes, tinham vindo os generais, etc, como lhe dizia na m.a última (a saber vinte e tantas pessoas, e entre elas, o Corregedor de Évora, um Juiz de Fora etc.) Sua Majestade desembarcará ente a noite e não vai para o Hotel de Londres, que eu inculquei. Os ingleses não qualidade de delicadeza que lhe não tenham feito. Sua Majestade dentro de poucos dias partirá para ir fazer uma visita ao papa, a Quem eu escrevo neste sentido por ordem do mesmo Augusto Senhor, que quer ser recebido no mais rigoroso incógnito, como V. Sª. dirá, usando do nome D. Miguel de Bragança".

(continuação, II parte)

31/05/14

"PORTUGAL EM ROMA" - AS AFRONTAS LIBERAIS E A NOMEAÇÃO POSTERIOR DE BSIPOS (II)

(continuação da I parte)

Veja-se: por morte de D. Francisco de Santa Maria da Luz foi apresentado Bispo de Macau D. Nicolau Rodrigues Pereira Rorja; para suceder ao falecido Arcebispo de Goa, D. Nicolau de S. Galdino, foi apresentado D. José Maria da Silva Torres; para Nanquim foi apresentado o P. Joaquim Pereira de Miranda; para prelado de Moçambique foi apresentado o P. António José da Maia, vigário capitular da Prelazia; para Bispo de Angola foi nomeado o P. João Baptista de Castro; para Bispo de Cabo-Verde foi apresentado o P. João Henriques Moniz, pela renúncia de D. Frei Jerónimo de Barco; por morte de D. Bernardo António de Figueiredo foi nomeado Bispo de Faro D. António Bernardo da Fonseca Moniz, padre de Braga; por morte de D. Francisco José Rodrigues de Andrade foi nomeado Bispo do Funchal D. José Xavier Cerveira e Sousa, Lente de Coimbra; para Leiria foi nomeado D. Henrique Guilherme de Carvalho; e para o Porto foi eleito D. Jerónimo J. da Costa Rebelo.

No ano de 1844 já houve, por menos necessidade, menos provisões de bispados. Foi eleito bispo de Beja o Dr. Manuel de Azevedo Loureiro; foi nomeado Arcebispo coadjutor de Braga, D. José Maria da Silva Torres; porque em Roma, no convento de S. Bernardo morreu D. Frei Fortunato de S. Boaventura, no dia 26 de Dezembro, foi eleito em 1845 Arcebispo de Évora D. Francisco da Mãe dos Homens; por morte de D. José da Assunção do eleito Bispo de Lamego D. José de Moura Coutinho; o P. Jerónimo José da Mata foi apresentado para bispo coadjutor e sucessor da diocese de Macau.

Roma
Como em 1840 morresse o Cardial patriarca D. Fr. Patrício da Silva, o Governo nomeia para o substituir D. Fr. Francisco de S. Luís que só é confirmado em 1843, sendo depois promovido ao cardinalato, sendo ablegado do barrete Mons. Vizzardelli e portador o guarda nobre Borgia de Velletri. Mons. Vizzardelli era auditor da Nunciatura que fôra nomeado quando o Internúncio e Delegado Apostólico Mons. Capaccini em 1841 e que foi para Lisboa pelo caminho de Londres e que em Lisboa se conservou até 1843, ano em que foi nomeado para lhe suceder Mons. Camilo di Pietro que esteve até 1853 como Internúncio e depois até 1858 como Núncio.

Mons. Capaccini foi pessoa eminente, diplomata que muita parte teve no restabelecimento das relações entre a Santa Sé e os vários Estados da Europa depois do Congresso de Viena e na conclusão das Concordatas que se negociaram naquela época. Nascera em Roma em 14 de Agosto de 1784 e fôra aluno do Seminário Romano (1793-1808), ordenando-se em 1807. Em 1811 foi para Milão como preceptor da Casa do Conde de Lambertenghi e depois como adido ao observatório astronómico de Nápoles.

De Nápoles regressou a Roma em 1815 e foi pelo Cardial Litta apresentado ao célebre Cardial Consalvi, o qual tendo conhecimento do engenho de Capaccini o chamou à Secretaria de Estado e bem depressa se valeuda sua habilidade para o restabelecimento das relações diplomáticas com várias nações.

Leão XII em 1824 nomeou-o substituto da Secretaria dos Breves e de lá o enviou aos Países Baixos para a estipulação de uma Concordata que foi negociada em 18 de Junho de 1827. No ano seguinte - 1828 - o mesmo Pontífice o nomeou Internúncio em Bruxelas. E Gregório XVI, sucedendo a Pio VIII em 1831 chamou-o a Roma, fê-lo Prelado Doméstico e Substituto da Secretaria de Estado e mais tarde, por causa da promoção de Mons. Luís Frezza ao Cardinalato, fê-lo Secretário da Congregação dos Negócios Extraordinários, que renunciou por motivos de saúde.

No entanto, no mesmo ano de 1837, teve uma missão em Viena de Junho a Outubro; outra em Outubro de 1838 em Florença com Meternich; outra em Nápoles em 1839; e ainda outra, de Abril a Dezembro de 1841, em Haia e Londres.

Depois da sua permanência em Lisboa, onde conquistou a amizade do povo e do Governo, reentrou em Roma no dia 24 de Novembro de 1843 mas em condições muito más de saúde pelo excesso de trabalho.

(a continuar)

17/05/14

"PORTUGAL EM ROMA" - D. MIGUEL I, D. PEDRO I e o PAPA GREGÓRIO XVI

Gregório XVI
"Bartolomeu Alberto Capellari foi o Pontífice eleito para suceder a Pio VIII, num conclave que durou 50 dias, e que tomou o nome de Gregório XVI. O Cardial Capellari tinha nascido em 18 de Setembro de 1765 em Belluno, no norte da Itália, de João Baptista e Júlia Cesa. Em 1783 vestira o hábito de monge camaldulense em S. Miguel de Murano, de Veneza, tomou o nome de Mauro e celebrou a primeira Missa em 1787.

Destinado pelos superiores para companheiro do Suprior Geral em Roma chegou aqui em 1795; e em 1800 foi nomeado Vigário Abacial do Mosteiro de S. Gregório; e em 1805 foi Abade e sucessivamente Procurador Geral e Vigário Geral da sua Congregação. E a fama das suas virtudes e do seu talento ia crescendo!

Pio VII nomeou-o consultor de diversas congregações, visitador apostólico das universidades da Perusa, Camerino, Macerata e Fermo; e no Consistório de 21 de Março de 1825 criou-o Cardial e mais tarde Prefeito da Propaganda Fide. Em seguida, foi Plenipotenciário para concluir uma Concordata com o Rei dos Paises-Baixos. À morte de Leão XII o Cardial Mauro Capellari interveio no Conclave de 1829 donde saíu eleito o Pontífice Pio VIII. E à morte deste, a 2 de Fevereiro de 1831, foi eleito Papa.

O povo romano que lhe conhecia as virtudes ficou contente com a escolha feita pelo Sacro Colégio; e na primeira vez que o Papa saiu a passeio, aclamou-o com alma e levou-o em triunfo pelas ruas da cidade, tirando os cavalos da carruagem. Ia com Sua Santidade o Cardial Bernetti, seu pro-Secretário de Estado, que mais tarde, em 1836, deveria ser substituido pelo Cardial Lambruschini, ex-Núncio em Paris.

Gregório XVI, antigo monge camaldulense, era um devoto fervorosíssimo da Regra de S. Bento, razão por que entendeu instituir a Ordem Equestre de S. Gregório Magno com a Constituição "Quod Dummis" de 1 de Setembro de 1831.

D. Miguel I que reinava em Portugal enviou a Roma na qualidade de Embaixador D. António de Almeida, Marquês de Lavradio, que pediu ao Santo Padre a provisão dos bispados, ao contrário dos agentes de D. Maria II, pretendente ao trono, que se esforçaram por impedir a instituição canónica dos bispos nomeados pelo Rei.
D. Miguel I, de Portugal
Gregório XVI a quem importava acima de tudo prover aos interesses religiosos de Portugal, perturbados pelos acontecimentos políticos, em 5 de Agosto de 1831 com a Constituição "Sollicitudo", referindo-se ao que haviam feito os seus antecessores em semelhantes contingências, declarou que entrando ele e os seus sucessores em negociações com alguém e enviando núncios ou legados, não entendiam das aos mesmos algum direito ou prejudicar os direitos de outrem, mas tinham unicamente em mira a felicidade espiritual dos povos.

Feita esta declaração fundamental, o Papa reconheceu D. Miguel I, recebeu o seu Embaixador e ordenou a instituição canónica dos bispos apresentados.

D. Pedro I do Brasil
Enquanto D. Pedro I, depois de abdicar o Império do Brasil a favor do filho D. Pedro II, e querer tomar o título de Duque de Bragança, veio à Europa tentar reconquistar para a filha o Reino de Portugal, Gregório XVI, no Consistório de 30 de Setembro do mesmo ano, criou Cardial o Núncio Mons. Justiniani, reservando-o in petto e publicando-o a 11 de Junho de 1832. O solidéu cardinalício foi levado a Lisboa pelo guarda nobre João Baptista Pondolfi, servindo de ablegado Mons. Minardi, auditor da Nunciatura.

D. Pedro I, depois de dois anos de áspera luta, toma Lisboa no fim de Julho de 1833 e obriga o Rei e irmão D. Miguel I a sair de Portugal. Logo que formou um governo tomou posse, estabeleceu na capital uma comissão com fim à "reforma" do clero, "aboliu" os privilégios que gozava, declarou vagas as Sés providas durante o reinado de D. Miguel I, "suprimiu" os conventos e, além de outros actos de perseguição, intimou o pro-Núncio Cardial Justiniani a deixar Portugal no prazo de poucos dias."

(o texto tem correcções)

(a continuar)

02/03/11

MAÇONARIA E SEU PROGRAMA DE TOMAR A IGREJA - DOCUMENTOS RECONHECIDOS PELOS PAPAS

Vou pegar nas palavras de Mons. Lefebvre, no seu livro "Do Liberalismo à Apostasia", para fazer introdução ao que vai seguir. 

"Os papeis secretos da Alta Venda dos Carbonários que... [caíram em mão católica e foram levados às] mãos do Papa Gregório XVI, cobrem o período de 1820 a 1846. Foram publicadas a pedido do Papa Pio IX, por Crétineau-Joly em sua obra "LÉglise Romaine et la Révolution" (vol. 2, Ed. orig., 1859; reimpr. "Cercle de la Renaissance Français", Paris 1976. Mons. Delassus reproduziu em "La Conjuration Antichretienne", DDB, 1910, T. III, pg.1035  - 92.) Pelo Breve de aprovação dirigido ao autor em 25 de Fevereiro de 1861, Pio IX confirma a autenticidade dos documentos, mas não permitiu que fossem divulgados os nomes reais dos membros da Alta Venda implicados com esta correspondência. Estas cartas são pavorosas, e se os Papas pediram sua publicação foi para que os fiéis saibam da conspiração contra a Igreja (...)."

Vamos   ao mais importante das cartas:

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