(continuação da I parte)
![]() |
| Gouveia |
Transcrevo do título "O nobre exemplo de Gouveia - Uma procissão de 2 horas, sob uma chuva torrencial":
"Badalaram as onze da noite.
A escuridão é espessa, impenetrável.
Do Céu cai chuva copiosa, que inunda as estradas e os campos.
Que fará Gouveia que se aproxima? De longe, ao subir a rampa que leva de Vinhó a Gouveia, dir-se-ia, que a vila-fábrica, tão agitada sempre no tumulto das suas máquinas, da sua população trabalhadora, dormia calma, alheia à visita que iria receber. Breve se dissipou a ilusão. um grupo de morteiros mostrou que Gouveia velava, e pouco depois, Gouveia surgia, na agitação tumultuosa da sua ansiedade e do seu fervor. Ali, aos balcões, ao limiar do seu casario, Gouveia está em peso, com suas autoridades, com seus patrões, com os seus operários, com o seu comércio, com os seus lares. E lá dentro, apenas luzes, muitas luzes, flores muitas flores, arcos, legendas, uma decoração e uma iluminação eufórica.
A empresa que fornece a luz electrica declarou que ninguém pagaria a luz daquela noite, que podia toda a gente gostar a que quisesse. Essa seria a homenagem da empresa a Nossa Senhora! E Gouveia foi toda uma mancha branca a esgarçar a treva daquela noite tão escura no espaço como branca nas almas. Chovia, chovia sempre. Mas as manifestações continuavam, cheias de ardor, com fé e entusiasmo, como se a luz do luar de uma noite calma e acolhedora, caísse, doce e meiga, sobre Gouveia. E lá vai a Senhora na sua berlinda, para que a chuva copiosa a não molhe. E a chuva não cessa, nem os cantos, nem as aclamações. Cresce a chuva não cessa, nem os cantos, nem as aclamações. Cresce a chuva e cresce o entusiasmo, num desafio dinâmico. Mas um momento, a chuca, como querendo dar ao fervor das almas o último desafio, desatou a cair a potes, em catapultas. Dir-se-ía que as fontes do céu se haviam rompido e uma tromba de água contínua desabava sobre a terra.
A estrada fez-se ribeiro e todos caminhavam encharcando os pés e as cabeças. Quem recua?
Ninguém. Quando a chuva é mais abundante, verdadeira cascata, um grupo de homens, com aplauso da multidão, faz parar a berlinda, arranca dela a imagem, coloca-a sobre os ombros, e, com cânticos mais ardentes e aplausos, prossegue a procissão, sob a mesma fúria da chuva, que logo abrandou ....
E foi assim, sob chuva copiosa, que a Virgem Peregrina prosseguiu durante duas horas, pelas ruas da vila, cuja população a seguir, sem afrouxar no seu ardor e na suas manifestações. Não cremos que prova de Fé, mais viva, mais impressionante se tenha dado ou venha a dar-se no decurso da peregrinação de Nossa Senhora em qualquer outra parte do mundo.
Poderia esperar-se que, chegando à igreja, a turba debandasse a tomar roupa seca, enxuta. Pois não. A igreja encheu-se de lés a lés e, com o padre Marcos no púlpito, a rezar, a pregar, a cantar, a turba ficou a pé firme até de manhã.
Poderia esperar-se que, chegando à igreja, a turba debandasse a tomar roupa seca, enxuta. Pois não. A igreja encheu-se de lés a lés e, com o padre Marcos no púlpito, a rezar, a pregar, a cantar, a turba ficou a pé firme até de manhã.
Quando o sol começa a espreitar Gouveia por entre nuvens que forravam o céu, Gouveia estava aos pés de Cristo: - uma comunhão, que se avalia feita por mais de um milhar de pessoas. O capuchinho Vilas Boas preparara as almas e as almas responderam ao apelo do Céu. Todos os actos do programa da manhã correram com devoção e brilho. A nota destacante da jornada foi a Missa Campal. Não é fácil descrever essa magnificente manifestação. Umas vinte mil pessoas se juntaram naquele vasto campo, que sobe da avenida para o Senhor do Calvário, ao alto do que se erguia o altar do Sacrifício.
Momento a momento, a turba engrossa e todo o amplíssimo recinto se enche completamente de uma multidão copiosa e ondulante. Erguem-se bandeiras ao céu, trovejam as aclamações, rasgam-se cânticos de piedade. A multidão reza, canta e espera.
Ao lado, um friso comovente de doentinhos: crianças, adultos, velhos - gama impressionante de todas as misérias. Mas a turba não cessa de rezar nem de cantar. E a missa começa, dialogada, através de altos falantes no meio de uma ordem e compostura edificantes. Poucas vezes temos visto a massa da população, que em verdade estava ali Gouveia em peso: uma lição a colher e guardar para tanta coisa que é preciso que se faça com urgência. (...)
E foi depois a consagração da vila e do Concelho a Nossa Senhora, feita pelo ilustre Presidente da Câmara (...), entregando no coração de Nossa Senhora os destinos de todo o Concelho, para quem pediu as melhores graças e bênçãos. E logo se procedeu à bênção dos doentinhos (...)
E foi depois a consagração da vila e do Concelho a Nossa Senhora, feita pelo ilustre Presidente da Câmara (...), entregando no coração de Nossa Senhora os destinos de todo o Concelho, para quem pediu as melhores graças e bênçãos. E logo se procedeu à bênção dos doentinhos (...)
A meio da piedosa cerimónia, correu um alvoroço pela multidão. Uma criança doente teria recuperado a saúde. Não obtivemos mais notícias do acontecimento.
Mas para tornar grande e histórica aquela jornada gloriosa, não precisava Gouveia de outro milagre que o da sua presença em apoteose aclamadora, naquela montanha sagrada. (...)
Se é verdade que português igual a católico, com igual verdade, português igual a devoto de Maria, até porque, nessa devoção bem compreendida, está toda a economia da Redenção. (...)
O cântico do adeus, com a revoada de lenços que se agitavam em sentimento comunicativo, explica bem as lágrimas que de tantos olhos caiam em catadupas. E já a Senhora descia a rampa para Rio Torto e ainda, lá cima, os lenços, em adejo ardente, se agitavam em saudade.
[em continuação veremos com em Celorico Nossa Senhora recebe as Chaves da vila]
(continuação, III parte)
(continuação, III parte)
