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01/06/17

IDADE MÉDIA EXAGERADA - ESCRAVATURA DETURPADA


É bom mostrar que a Idade Média não foi aquilo que há mais de meio século tem andado em forte circulação. Contudo, o que deveria ter sido uma actitude de reposição dos factos não raras vezes transformou-se no exagero oposto: certos meios mostram a Idade Média tão excelente que apagam importantes factos históricos, e inventam ou exageram outros que lhes convenham. Estas tendências são mais fáceis nas regiões do planeta que não tiveram "Idade Média"; mas como as Américas são muito populosas, estas opiniões tornam-se gradualmente presentes nos países das mesmas línguas.
 
No ano que passou, certo pensador católico das Américas argumentava que os cristãos não tinham contacto com a escravatura na Idade Média. Então, leia-se:

"Com tanto horror os nossos Bispos olharam o Judaísmo que, sob pena de excomunhão não permitiam aos Agricultores Católicos que os Judeus lhes bendissessem os primeiros frutos (Can. 45 de Elvira); nem sequer comer com os Judeus, sob pena de excomunhão (Id. Can. 50; e Cán. 6 de Constança). Para evitar todo o perigo de subversão [não porque a escravatura fosse proibida], proibiu-se [civilmente] aos judeus terem mulheres, concubinas, e escravas que fossem cristãs; e além disso terem algum ofício de República [cargo público] (III Concílio de Toledo, Cán. 14, e IV de Toledo Cán. 65). No IV Concílio de Toledo (Cán. 58) proibiu-se aos Fiéis, Clérigos e Leigos, aceitarem suborno de Judeus para prestar favor e auxílio à sua perfídia ["perfídia" no sentido próprio]. Os infractores deveriam ser expulsos da Igreja. Os cristãos recém convertidos que fizessem o comércio com Judeus pertinazes, deveriam entregar-se (acaso como Escravos) aos Cristãos, e os não convertidos [apenas] açoitados em castigo (Id. Cán. 62). Em juízo não se admitiam por testemunhas os que do Cristianismo apostataram ao Judaísmo; porque aos homens não se pode ser fiel quem não o foi a Deus (Id. Cán. 64). Também não se lhes permitia ter Escravos Cristãos [podiam ter escravos de outra religião em território cristão] (Id. Cán. 66, e 7 do X Concílio de Toledo). (Analisis de las antiguidades eclesiásticas de España - I Tomo, Pe. Fr. Manuel Villodas; Valladolid, 1840)
 
Repetimos vezes sem conta que, o próprio conceito de "escravatura" hoje veiculado não é o mesmo que antes do séc. XVIII (e até o XIX) nos Reinos cristãos, e que o conceito actual (deturpação) veio na sequência da crítica dos opositores da Igreja (os novos pensadores); a qual deturpação foi-se estendendo (ao mesmo tempo que, entre aqueles que aplaudiam, surgiu a prática da mesma escravatura destituída de verdadeiro sentido cristão). Como os leitores já tiveram oportunidade de ler aqui, o sentido próprio de "escravatura" radica no "estado" da pessoa (ou melhor, da falta dele) e não em qualquer forma de tratamento.

Depois de nos lerem, é lamentável que pensadores católicos da actualidade, os quais  estão comprometidos pelas obras que publicaram, pelas palestras que deram, pela ligação a movimentos onde dão voz, pelo público que os segue e repete, continuem teimosamente a tentar contrariar-nos, de longe, sem uma única refutação aos argumentos, ou às fontes. A respeito destes, fica difícil acreditar que valorizem o mandamento de "honrar pai e mãe, e outros legítimos superiores", ou que consideram os nossos antigos reis Pais na Pátria, e que não os "destituam" de "graça de estado". Estes pensadores, não descontentando a herança liberal, abandonam a razão, as fontes históricas, e o debate científico.

Aos teimosos pensadores há que perguntar, pelo menos uma vez: se demonstramos que o vosso conceito de "escravatura" não é o que os cristãos tiveram até existir iluminismo, porque difundis que estamos a defender a "escravatura" (vosso conceito)!? Não é verdade que vós também defendeis uma ideia contra-corrente de "Idade Média", e achais injusto que vos digam "que horror... defender a selvajaria da Idade Média, não é de cristãos"? Há que fazer desenhos?..........

24/10/16

BIBLIOTECA ASCENDENS - difusão (XI)

(continuação da X parte)

[requisição gratuita das obras: ver aqui]

656 - História da Vida, Morte, Milagres, Canonização, e Trasladação de Santa Isabel Sexta Rainha de Portugal... (D. Fernando Correia Delacerda - Bispo do Porto. Lisboa Ocidental, ano 1735) [Pt. - 490 pág.]

660 - História de Portugal - I Tomo (J. Pedro Oliveira Martins. Lisboa, ano 1908) [Pt. - 670 páginas]

663 - Aqui se contíene una disputa, o controversia: entre el Obispo don fray Bartolome de las Casas, o Ca[?], Obispo que fue de la Ciudad Real de Chiapa que es en las Indias, parte de la nueva España, y el doctor Bines de Sepulveda (...) que las conquistas de las Indias contra los Índios eram licitas, y el Obispo por el contrario defendio y afirmo aver sido y ser impossible no serlo: tyranicas injustas y iniquas (...) (ano 1552) [Esp. - 115 paginas de cores]

666 - Apontamentos Para  história da Dominação Castelhana em Portugal - Opúsculo Anti-Ibérico (Visconde de Trancoso. Lisboa, ano 1870) [Pt. - - 40 páginas; incompleto]

667 - Análise Crítica dos Acontecimentos de Espanha Desde 1868 até 1875 (Ferreira da Costa. Lisboa, ano 1875) [Pt. - 48 páginas; incompleto]

674 - Memórias Para a História de Portugal, Que Compreendem o Governo DelRei D. João I ... - II Tomo (José Soares da Silva. Lisboa Ocidental, ano 1731) [Pt. - 480 páginas]

675 - Memórias de Fr. João de S. José Queiroz, Bispo do Grão-Pará, com uma extensa introdução e notas ilustrativas (Camilo Castelo-Branco. Porto, ano 1868) [Pt. - 230 páginas]

681 - Instrucções destinadas para os Navios de Guerra Portugueses e Ingleses que tiverem a seu cargo o impedir o Comércio ilícito de Escravos (Londres, 28 de Julho de 1817 - publicado no Rio de Janeiro, Impressão Régia, 1817) [Pt. e Ing. - 6 páginas de cor]

684 - ALVARÁ régio de 26 de Janeiro de 1818 - Imprensa Régia (lei de proibição de comerciar escravos da Costa de África, proibição de resgate de escravos..) [Pt. - 4 páginas]

688 - Newton, poema (José Agostinho de Macedo. Lisboa, ano 1815) [Pt. - 167 páginas; 2ª edição aumentada]

689 - Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Composto Sobre os que até ao presente se têm dado ao prelo, e Acrescentado de vários Vocábulos extraídos dos Clássicos Antigos, e dos Modernos de melhor nota, que se acham universalmente recebidos. (Lisboa, ano 1806) [Pt. - 877 páginas]

692 - ALVARÁ régio, Belém - Lisboa a 3 de Outubro de 1758 (para impedir certas situações e condições relativas à vida dos escravos). [Pt. - 3 páginas de cor]

(continuação, XII parte)

28/02/16

ESTADO DO PARÁ E A PROMOÇÃO DA ESCRAVATURA, POR D. JOÃO VI - Documento


"Tendo em mui particular consideração animar, e promover a introdução da Escravatura na Capitania, e Estado do Gram Pará, que sendo mui vasto, é ainda mui falto de Povoação: Hei por bem determinar, que de todos os Escravos que se exportarem para aquela Capitania, não só se não paguem Direitos alguns da saída em Angola, e da entrada no Pará; mas também que das Fazendas, que se exportarem do Pará com o valor, ou produto da venda dos Escravos, trazendo a competente Guia da Junta da Fazenda da mesma Capitania, que verifique isto mesmo, se não pague Direito algum de entrada, ou saída nesta Capital, ficando esse valor isento de todo o Direito. o Conselho da Fazenda o tenha assim entendido, e faça executar. Palácio de Queluz em 19 de Outubro de 1798.

Com a rública do Príncipe N. Senhor" [D. João VI]

29/01/16

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº5 (III)

(continuação da II parte) 

GOVERNO, GOVERNAR – Há pouco tempo, que estes Vocábulos egrau-se a ser propriedade dos perversos Filósofos Democráticos. Antes desta época, não era o Governo considerado por eles, senão como egrau de sua sanguinária mordacidade, e como a coisa mais vergonhosa do Mundo. Porém empenhou-se o Diabo, e permitiu Deus que o Governo caísse em suas mãos: e eis-aqui a ocasião de nos explicarem, o que entendiam por aquelas palavras. O Governo Republicano Filosófico é unha com carne com a Política (vid.) Democrática. Lançar a espada da discórdia entre os Cidadãos pacíficos; destruir o Clero, o culto, e os costumes; aniquilar a Religião; consumir até aos tutanos os possuidores, e afazendados com enormes contribuições; arruinar o Comércio com excessivos pedidos; cerrar a boca a toda e qualquer Representação (especialmente se contém verdades, e reclamações) com presídios, desterros, e fuzilaturas; pôr nos lugares de Juízes homicidas e ladrões; enviar por Intendentes os falsificadores de Câmbios, e Moedas; por Directores os ímpios e orgulhosos; e por Cobradores os mais cruéis e fanáticos: eis-aqui o que em idioma Republicano se chama verdadeiro Governo. E como infalivelmente, se os Diabos viessem governar a terra, vale de ter instalado este modo de governar, por isso nos parece que com muita mais razão deve chamar-se Governo Demoniocrático, do que Democrático também não falta quem assegure que governar, em a língua moderna, deve traduzir-se em a antiga na palavra destruir. Porém deixemos isto, que seria um nunca acabar. 

Há homens capazes de pôr a sua língua no Céu mais puro; e os há que têm a vilania de assegurar que os Governantes Democráticos não têm feito maldita a coisa, que seja boa. A estes selvagens lhes diria tanto, e tão bem, que os deixaria sem alentos! Porque, descarregado o Governo Democrático (por meio da simplificação de sua política) dos fastidiosos cálculos do Comércio, Rendas, e Artes, e provendo a todas estas coisas com os facílimos arbítrios de tirania, e opressão, tem-se estado por isso ocioso? Não tem gasto todo o seu tempo, e lugar em importantíssimas tonteiras? Não há empregado seus suavíssimos, e paternais cuidados, suas perspicazes ideias, seus talentos sublimes em grandes bagatelas, e puerilidades tão ridículas, que a um mesmo tempo serão o imortal monumento da sua sabedoria, e sua glória, e o mais autêntico testemunho da pouca vergonha, e crassa ignorância dos antigos Governos, que nem sequer se egraus volver os olhos a tamanhas frioleiras? Pois que? É pouco negócio ter feito numerar as casas, escrever os nomes dos caminhos, onde os não havia, introduzir o modo de contar à Ultramontana, destruir as rótulas, e adufas, e outras duzentas coisas mais, qual delas mais necessária, e importante? Quantos cuidados, suores, e fadigas não tem custado ao Governo Democrático as árvores da escravidão, digo, da liberdade; os laços, sua cor, e o tamanho que deviam ter? Tem-se trabalhado por ventura tanto em achar a quadratura do circulo, como eles têm trabalhado em resolver, se os barretes, ou gorras vermelhas (distintivo da fúria Republicana) se deveriam trazer por dentro, ou por fora do chapéu, sobre de que cor seriam as Bandeiras Republicanas; sobre a destruição dos escudos d’armas dos Nobres; sobre os títulos de Cidadão, e Cidadoa; sobre o tamanho dos sabres, e se os haviam de trazer de rastos, ou suspensos? Hão brilhado pouco seus talentos, sua invenção, e sua egrause em introduzir nos passaportes a cor da barba, a testa, olhos, cabelos, boca, orelhas, e narizes? (e muito favor nos fazem em não pedir que descubramos mais um olho para eles verem, e tomarem feições, etc.) Enfim vamos adiante... E hão roído pouco as unhas, e estragado pouco os miolos em idear as Festas Patrióticas, e arranjar umas Canções, em que estão disputando a primazia, os embustes, as poucas vergonhas, e o mais perverso fanatismo? E depois de todas estas coisas, e outras infinitas, haverá quem diga, que o génio benéfico Democrático não há sobressaído a todos os mais Governos na arte de governar? Basta ler seus Proclamas, seus Escritos, e suas interessantíssimas Dissertações impressas, e estampadas sobre a ignorância crassíssima dos Povos no modo de contar as horas; e basta um lançar d’olhos sobre os engenhosíssimos Diálogos entre os corrimãos, e os egraus, e outras muitas Obras tão excelentes como esta, para poder formar ideias da eminente, e profunda Ciência Democrática sobre matérias de Governo. 

Porém tudo isto é uma bagatela em comparação das imensas fadigas, que há empregado, para baptizar com diferentes nomes as imposições, os direitos, e alcavalas, que tem crescido sem limite, debaixo dos nomes de donativos patrióticos, empréstimos forçados, loteria de bens, e outros sessenta mil. E onde vamos a parar com as angústias mortais, que teve que sofrer, para achar novos meios de animar o aturdido fanatismo, e sustenta-lo; de persuadir a seus tiranizados escravos, que eram livres; de fazer crer aos infelizes, e desgraçados, que gozavam felicidade; e de que acreditassem cegamente que aqueles mesmos, que enganam, seduzem, intrigam, roubam, e assassinam o Povo, são os seus mais leais, sinceros, e benéficos amigos? Aturdir-se-á, e pasmará a posteridade ao ouvir que a Política Democrática prevalece-o por algum tempo em certos Países a benefício da confusão da língua; e ficará atónita ao saber as medalhas, os monumentos, os louvores, e congratulações dadas pelos Povos com tanta profusão àqueles mesmos, que os privavam inteiramente da Religião, liberdade, independência, bens, comércio, cultura, costumes, e de quanto pode aliviar, e adoçar as amarguras, e dissabores do homem sobre a terra. E poder-se-á negar ao Republicanismo Filosófico a verdadeira arte de governar? Uma coisa há boa, e é que já se não dá engano, sobre qual seja ou não o Governo Filosófico Democrático. Conservar a Religião, a pureza de costumes, e as propriedades: castigar os blasfemos, dissolutos, e delinquentes; prover as necessidades, e aflições dos Povos; fomentar o comércio, agricultura, e as artes; manter em segurança, e quietação a honra, a vida, e os bens dos súbditos fiéis, e honrados; e tudo aquilo finalmente que outras vezes se chamava governar bem, se chama republicanamente tiranizar, e por conseguinte está mil léguas distante, pelo menos do Governo Democrático. Destruir numa Sociedade quanto há de verdadeiramente útil, e seguro; ter a todo o bom Vassalo num tremor perpétuo por sua consciência, vida, bens, e honra; introduzir em os mando os facinorosos e ateus; sustentar o mais horrível despotismo em favor dos confiscos, dos desterros, e das espoliações; introduzir no Estado o Ateísmo, a anarquia, a libertinagem, a miséria universal, e tudo quanto até agora se chamou verdadeira tirania, é cabalmente o que em idioma Republicano se chama governar bem; e o que, por conseguinte constitui todo o Governo Filosófico Democrático. E porque se chama isto bom governo? A razão não pode ser mais concludente; é porque nele há laços tricolores, largos chifarotes, fanatismo, cabeças destroncadas, escritos insolentes, e abominável libertinagem; porque o vilão, o lacaio, e o malsim são os que obtêm os Empregos, e os que são saudados com os títulos de Tenentes, Capitães, Chefes de Batalhões, ao mesmo tempo que estão exercendo os honradíssimos Ofícios de esbirros, denunciantes, e até muitas vezes outros infinitamente piores. 

(* Grandes serviços desta natureza devemos aos nossos Regeneradores. Sobre a cor, e forma do laço gastaram-se bastantes Sessões: e o que não custou a saber se conselho, se devia escrever com c, ou com s? Suaram aquelas testas dos Pais da Pátria sobre uma Questão de tão grave transcendência! E gastaram-se um par de moedas tesas! Mas por fim ficámos na mesma.) D. Tr. 


MODO, MANEIRA – Vocábulos de entrincheiramento, o que fazem um grande papel entre os filósofos Republicanos. Longe de que os evidentes, e excessivos males produzidos por seu endiabrado Governo os façam entrar em si e conhecer seu erro, ao contrario se acolhem aos mais ridículos, e frívolos pretextos para escusar seus pérfidos, e desatinados projectos. Dizem que seu plano não pode ser melhor; porém que os executores é que o deitam a perder pela maneira, com que o introduzem, e executam. Porém quem pode tapar a boca, a quem quiser dizer o mesmo da Tirania, da Anarquia, e de todas quantas coisas más há no Mundo? Porque se, como eles dizem, sua Democracia é boa em si, e só tem de mau o que se lhe pega dos executores; como acontece que tantos, e tantos engenhos, sem terem visto o modo, e a maneira destes Agentes, tem anunciado um por um todos o males, que deviam nascer do sobredicto Governo? E por que maneira pretenderam os Filósofos que se deva introduzir em os Povos sua monstruosa invenção, ou perfeito Quixotismo? Os Povos achavam-se mui bem, e não estavam do humor daquele, que, estando bom, morreu, porque quis estar melhor. Os Povos tinham sobeja luz para conhecer que era o maior dos disparates depreender-se dos braços paternais de um Soberano amável, e religioso, para ir lançar-se em as garras de cruéis, e fanáticos ímpios. E suposta esta evidente verdade, que outro modo, ou maneira ficará aos executores do modo, se não estava outro em seu arbítrio? De boa mente quisera eu que me dissessem que maneira há para mudar a natureza das coisas. Porque se num Povo bom, sincero e pacífico devem infalivelmente prevalecer nas eleições os astutos, os intrigantes, os audazes, os embusteiros, os ambiciosos e os sem consciência, se numa multidão (mormente se é imoral, e irreligiosa) são inevitáveis as opiniões; se das opiniões nascem indispensavelmente discórdias, das discórdias nascem partidos, e dos partidos tirania; como tem valor estes malvados para atribuir ao modo, o que evidentemente procede da natureza intrínseca da coisa? Além de que: depois que um partido chegou finalmente a superar o outro, não lhe fica outro modo de sustentar-se senão pela tirania, do mesmo modo, que ao vencido não lhe resta outro arbítrio para levantar-se, que o dos estragos, matanças, e violências. Logo todas estas belezas são inseparáveis do Republicanismo moderno. Porque o querer supor os homens em geral com rectidão, e amor pelo bem público, com desinteresse privado, com virtude, e concórdia, etc. etc., como perfidamente supõe os filósofos para inculcar o seu Governo, é supor verdadeiras as falsíssimas fábulas dos poetas, que sendo embustes na boca dos Filósofos. Disparates haverá no mundo; porém eu aposto que não haverá um maior, que o de estabelecer por fundamento da democracia aquilo mesmo, que não póde ser efeito senão da Verdadeira Religião, e de um Governo Sábio. O melhor modo, por tanto, e a melhor maneira, que deviam ter os Filósofos de escusar-se, seria pronunciar bum redondo "ergo erravimus". Porém Lúcifer quer antes ser Lúcifer por toda a eternidade, que fazer uma confissão tão ingénua; e os filhos (não se devem escandalizar, porque se intitulam filhos da luz) não podem deixar de sair ao Pai.


ENGENHO – Vocábulo comummente mal aplicado, ainda no tempo antigo, mas que se há tirado de suas relações, e não tem guardado nenhuma medida em poder dos Democráticos. É já hoje bem sabido que é pleito ganhado por eles, o chamar engenho à malícia, e tê-los por uma mesma coisa, ainda que sejam, como na realidade são, entre si bem diferentes. Daqui vem que, tendo os Democráticos tanta malícia, tem por isso mesmo tantíssimo engenho. A experiência, não obstante, ensina por todas as partes ao homem que a maior malícia é sempre propriedade dos mais idiotas, e rústicos, que privados de todo o engenho, quando se trata de fazer bem, tem sem embargo alguma coisa mais que sobrada malícia para o mal. É verdade que ainda há no Mundo homens honrados e leais; porém, o que são estes, se os compararmos com o prodigioso número de traidores, falsários, e embusteiros? Nada. Pois eis-aqui porque em nossos dias há tantos engenhos. Senhor, olhe que para violar Pactos, Juramentos, e Convenções, e para faltar à sua palavra, e afirmar hoje o contrário do que se disse ontem, não se necessita de muita perspicácia. Estamos conformes; porém necessita-se não ter vergonha, nem carácter; e isto basta hoje em dia para passar por homem de engenho. Deixêmo-nos de disputas, e digamos de uma vez: em quanto estes figurões impostores acharem que lhes dê crédito, há de figurar com eles a malícia e a iniquidade. Porém os homens por um pouco meditem, reflexionem, cotejem a sua conducta, examinem os Escritos, e registrem com miudeza as costuras a estes Mágicos de Salerno, e não somente aparecerão aos olhos de todos tão malvados, mentecaptos, como na realidade são, mas até se convencerá o Mundo do perverso leite, que podem dar.



BENS NACIONAIS – Termo inventado em Língua Democrática, para fazer contraste ao Vocábulo Propriedade. A violação das propriedades era outrora na Sociedade o emprego dos homens mais viciosos, e corrompidos, que nela viviam. Os bens adquiridos por este modo se chamavam bens roubados; e o que os adquiria, se chamava ladrão. As Leis deviam não levar muito a bem semelhantes aquisições, e deviam o que quer que seja a respeito da forca, e galés. Mas nos tempos presentes, onde governam os Republicanos, passou isto a ser negócio de Nação, e por tanto mudou-se-lhe justamente o nome; e os bens roubados, em termos mais polidos, se chamam bens Nacionais. O mais curioso é que se lhes dá este nome, ainda antes de se roubarem aos Proprietários. 


HUMANIDADE – Apenas haverá página, ou linha dos Livros Filosóficos, ou Proclamas Republicanas, onde se não ache esta palavra, e onde se não recomende, se louve, e se exalte até às nuvens. Porém a verdade é, que entre os Democráticos não tem ela outro lugar senão nos Livros, apesar de ser certo que também costuma aparecer em seus lábios, porém isso somente quando estão mais raivosas suas entranhas, e quando tratam de enganar-nos. Pelo que respeita a seus factos, aposto a olhos fechados, que não se descobre neles senão a mais atroz ferocidade? Esta manifesta contradição entre os ditos e factos dos Republicanos se concilia sem embargo perfeitamente. Quando o negócio é de não Republicanos, humanidade toma-se, e entende-se em seu próprio, e antigo significado; quando o caso é pelo contrário, volta-se a casaca, e tomam a humanidade em sentido democrático. Segundo isto, não há dúvida que a humanidade deve definir-se conforme a qualidade da pessoa, a quem se refere. Se é a quem não é Filosofo Democrático, é uma virtude que o distingue das bestas, e das feras. E se é a um Republicano, é uma virtude própria de feras, por onde ele se diferença dos homens. 

(* Acabando de traduzir este artigo da humanidade despertou-se-nos a lembrança, do que há pouco lemos em a fala do Rei dos Ingleses, em que ele diz ter feito um Tratado com a França sobre a Escravatura, para destruir este flagelo, que há tantos Séculos pesa sobre a humanidade, para cujo efeito se haviam reunir as forças navais das duas Nações em certos pontos etc. Ora, a falarmos a verdade, a nossa política é tão rasteira, e nós tão pouco versados nas maniversas inglesas, que não podemos compreender como a humanidade Negra, que vive nos Sertões de África, lhes mereça tanta atenção, quando a humanidade branca, que vive debaixo de Leis férreas na Irlanda, e nas Colónias, em que dominam; assim como não podemos compreender como estas duas Nações se arvorassem em Procuradores dos Negros, para quem a Escravatura sem dúvida era um benefício, e dispusessem de forças Marítimas numa ocasião, em que sem dúvida outras questões mais graves deviam chamar a sua atenção: também não sabemos como seja necessária essa união de Esquadras para um fim tão diminuto, como é obstar ao Contrabando dos Negros: Latet anguis in herba: aqui há serpente escondida, e é muito venenosa. Talvez se realize agora, o que há muito disse um Periódico Francês (l’Avenir) que tendo havido na França tantos Governos, desde que começou a Revolução, ainda lhe restava ter um, que era a liga do Leopardo com o Galo: cremos não estar longe. Estas Esquadras, que se diz reunirem-se por causa dos Negros, quem sabe para onde endireitaram a proa! Nos papéis Franceses se escreveu, e a nossa mesma Gazeta nos afiançou que a Esquadra, que saíra de Toulon em Junho do ano passado, ia para a Grécia, e eis senão quando aparece-nos no Cabo do Espichel, logo em Cascais, e da a pouco em Lisboa; e se nos não enganámos uma Curveta Inglesa fez sinais na véspera com tijelhinhas, e no dia com bandeirolas, que todos virão etc. E porque não acontecerá agora o mesmo? Que errem o rumo?! Não, não nos apanham de susto; não nos adormecem. Talvez também os 8 ou 10 mil homens, que viera para Toulon, com o fim aparente de irem para Argel mudar a Guarnição, talvez que venham entrar na Esquadra, que vai defender os direitos dos Negros?! Olhem vossas mercês, que há duas qualidades de Negros: Negros, a quem os raios do Sol na Zona tórrida fazem da cor de azeviche; e Negros, discípulos do diabo, que trabalhão às escuras; é provável que por causa destes, e por causa da escravidão, e exortação, que um Fernando [Fernando VII de Espanha?], e um MIGUEL lhes prepara, se unam essas Esquadras. Mas, quid ad nos? Que nos importa tudo isso?! Toda a Nação é sempre poderosa, e demasiado forte, quando trata de defender a sua independência, a sua Religião, e o seu Rei: E que Rei?! Suspendemos por ora os nossos juízos a este respeito, e não queremos que este mesquinho papel aumente mais o número das exortações. Ah! Se fizéssemos a oração pela passiva, que bem que ficava então esta palavra exortações! (a bom entendedor meia palavra basta) mas lembrámos sempre a todo o mundo, se possível é, que lance os olhos sobre a história do passado, e verá sempre que aquelas Nações, que tem sido auxiliadoras de Portugal, tem crescido, e fizeram-se opulentas com as suas Alianças, donde resultava haver uma rivalidade imensa, sobre quem havia proteger mais este cantinho do Mundo; e pelo contrário aquelas, cuja Política era oprimir-nos, desandaram da sua grandeza, e nunca mais voltaram a ser, o que eram. Veja a Política do grande Richelieu, e do profundo Pitt: e o que se encontra nela?! Dar a mão a Portugal a todo o custo, para sustentar a grandeza de qualquer daqueles Estados. Não falharam os seus planos, e a repetida experiência o mostrou. Mas uma Política que tenha por base princípios opostos, poderá ter os mesmos resultados?! Não, não. Porque princípios diversos produzem diversas consequências. E talvez seja este o meio, de que a Providência queira servir-se para confirmar as promessas feitas ao 1.º Afonso, deprimindo o orgulho, e premiando a inocência..... Esta é a esperança, e quase certeza.) D. Tr.

__________________________________
LISBOA:
NA IMPRESSÃO RÉGIA. ANO 1832.
Com Licença.


(Fim do N.º 5)

21/08/15

MORTIFICAÇÃO DO ENTENDIMENTO

Cap. V
DA MORTIFICAÇÃO DO ENTENDIMENTO


Quando a porta da fortaleza está bem guardada, seguro podes dormir: assim o que tem boa guarda na vontade e coração forte de todos os males, e origem de todos os bens, seguro pode andar. Todavia para maior facilidade da guarda é necessário vigiar sobre os escravos, criados, e gente de casa, porque sendo estes mal criados, e desmandados, senão tiveres cuidado sobre eles dar-te-hão trabalho, e inquietação. De semelhante maneira, além da mortificação da vontade, e para mais facilmente seres senhor dela, deves ter vigia sobre o entendimento, que é um rapaz vagabundo demasiadamente desmandado e trabalhoso, e de todo desobediente.

Três maneiras há de pensamentos uns que em si não são maus nem pecados mortais, como são os castelos de vento, que o entendimento faz, que não aproveitam estes, dado caso que de sua colheita não sejam pecado mortal, fazem porém grande dano, porque se os consentes, é sinal que tens o coração vazio, e acabado de fazeres um castelo de vento, ficarás triste, e a cabeça esvaída, e tu cansado como se trabalharas com pedra e cal sendo tu vento, e facilmente virás a cair em pecados mortais, e torpes desejos, pela qual razão não deves consentir tais imaginações.

A segunda maneira de pensamentos danosos são, quando trazes à memória pensamentos de pecados mortais, ou de algumas pessoas com deleitação da carne, ainda que não consintas no pecado nem na deleitação. Estes tais pensamentos são muito prejudiciais. Porque deves com diligência enxotar estas molcas e maus pensamentos de teu entendimento, e em nenhuma maneira lançar mão deles. porém se viverem contra tua vontade, e forem importunos, não canses em os lançar de ti; porque esta contenda te fica em gloriosa coroa. Estes dois modos de imaginações deves mortificar e não dar lugar que o entendimento ande vagabundo por ela pois facilmente podem levar a pecado mortal, não te poderás muito tempo conservar no estado da graça.

A terceira maneira, são os pensamentos bons; como do cuidado da casa, da família e fazenda e dado que sejamos bons, em tempo podem vir que te danem e te impeçam de ter a vontade com Deus. Como estando na igreja à Missa, e em oração e recolhimento, e ocupado nas coisas de tua alma; porque assim como então não são necessários, podem distrair-te e tirar-te do negócio espiritual em que estás ocupado: porque em tal tempo mais servem a imagem de JESUS crucificado, e os pensamentos dessa morte e paixão, e teus pecados, que não os da sua casa, e se quiseres aproveitar na virtude recolhendo-te um pedaço de tempo com Deus, sabe que qualquer pensamento pode impedir a devoção, como se dirá na quarta parte. O que agora é necessário para te conservares no estado da graça, e não pecar mortalmente é, não consentir nas vagabundas e torpes imaginações, mortificando o entendimento. (Compendio Spiritual da Vida Christam ... Coimbra, 1600)

19/04/15

A IGREJA - MATRIMÓNIO DOS ESCRAVOS



TITULO LXXI
Do Matrimonio dos Escravos

303. Conforme a direito Divino, (1) e humano os escravos, e escravas podem casar com outras pessoas cativas, ou livres, e seus senhores lhes não podem impedir (2) o Matrimónio, nem o uso dele (3) em tempo, e lugar conveniente, nem por esse motivo os podem tratar pior, nem (4) vender para outros lugares remotos, para onde o outro por ser cativo, ou por ter outro justo impedimento o não possa seguir, e fazendo o contrario pecam (5) mortalmente, e tomam sobre suas consciências as culpas de seus escravos, que por esse temor deixam muitas vezes estar, e permanecer em estado de condenação. Pelo que lhe mandamos, e encarregamos muito, que não ponham impedimentos a seus escravos para se casarem, nem com ameaças, e mau tratamento lhes encontrem o uso do Matrimónio em tempo, e lugar conveniente, nem depois de casados os vendam para partes remotas de fora, para onde suas mulheres por serem escravas, ou terem outro impedimento legitimo, os não possam seguir. E declaramos, que posto que casem, ficam escravos (6) como de antes eram, e obrigados a todo o serviço de seu senhor. 

304. Mas para que este sacramento se não administre aos escravos senão estando capazes, e sabendo usar dele, mandamos aos Vigários, Coadjutores, Capelães, e quaisquer outros Sacerdotes de nosso Arcebispado, que antes que recebam os ditos escravos, e escravas, os examinem se sabem a Doutrina (7) Cristã, ao menos o Padre nosso, Ave Maria, Creio em Deus Padre, Mandamentos da Lei de Deus, e da Santa Madre Igreja, e se entendem a obrigação do Santo Matrimónio, (8) que querem tomar, e se é sua intenção permanecer nele para serviço de Deus, e bem de suas almas;  e achando que a não sabem, ou não entendem estas coisas, os não recebam até as saberem, e sabendo-as os recebam, posto que seus (9) senhores o contradigam, tendo primeiro as diligencias necessárias, e as denunciações correntes, ou licença nossa para os receber sem elas, a qual lhe daremos, constando que se lhes impedirá o Matrimónio, (10) fazendo-se as denunciações antes de se receberem. E conformando-nos com a Bula do Papa Gregório XIII. dada em 25 de Janeiro de 1585. mandamos que todos os Párocos, quando receberem alguns escravos dos novamente convertidos, em que haja suspeita de que estão casados na sua terra, (posto que não sacramentalmente) com eles dispensem no dito antigo Matrimónio.

fonte: (Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, Feitas e Ordenadas pelo Ilustríssimo e Reverendíssimo Senhor D. Sebastião Monteiro da Vide, Arcebispo do dito Arcebispado, e do Conselho de Sua Majestade... Lisboa Ocidental, 1719) 

18/04/15

13/03/15

SENHORES E ESCRAVOS NOS ENGENHOS PORTUGUESES DO Séc. XVII (I)

(Fonte: Cultura e Opulência do Brasil...; André João Antonil. LISBOA, 1711)


CAPÍTULO IX
Como se há-de haver o Senhor do Engenho com seus Escravos

Os Escravos são as mãos, e os pés do Senhor do Engenho; porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar, e aumentar a Fazenda, nem ter Engelho corrente. E do modo, com que se há-de com eles, depende tê-los bons ou maus para o serviço. Por isso é necessário comprar cada ano algumas Peças, e repartí-las pelos Partidos, Roças, Serrarias, e Barcas. E porque comummente são de Nações diversas, e uns mais boçais que outros, e de forças muito diferentes; se há-de fazer a repartição com reparo, e escolha, e não às cegas. Os que vêm para o Brasil, são Ardas, Minas, Congos, de S. Tomé, de Angola, de Cabo Verde, e alguns de Moçambique, que vêm nas Naus da Índia. Os Andas e os Minas são robustos. Os de Cabo Verde e S. Tomé são mais fracos. Os de Angola criados em Luanda são mais capazes de aprender ofícios mecânicos que os das outras partes ja nomeadas. Entre os Congos há também alguns bastante industriosos, e bons, não somente para o serviço da Cana, mas para os Ofícios, e para o maneio da casa.

Uns chegam ao Brasil muito rudes, e muito fechados, e assim continuam por toda a vida. Outros em poucos anos saem ladinos, e espertos, assim para aprenderem a Doutrina Cristã, como para buscarem modo de passar a vida, e para se lhes encomendar um barco, para levarem recados, e fazerem qualquer diligência das que costumam ordinariamente ocorrer. As Mulheres usam de foice, e de enxada, como os Homens: porém nos Matos, somente os Escravos usam de machado. Dos ladinos se faz escolha para Caldeireiros, Carapinas, Calafates, Tacheiros, Barqueiros, e Marinheiros; porque estas ocupações querem maior advertência. Os que desde novatos se meteram em alguma Fazenda, não é bem que se tirem dela contra sua vontade; porque facilmente se amofinam, e morrem. Os que nasceram no Brasil, ou se criaram desde pequenos em casa dos Brancos, afeiçoando-se a seus Senhores, dão boa conta de si; e levando bom cativeiro, qualquer deles vale por quatro boçais.

Melhores ainda são para qualquer ofício do Mulatos: porém muitos deles usando mal do favor dos Senhores, são soberbos, e viciosos, e prezam-se de valentes, aparelhados para qualquer desaforo. E contudo eles, e elas da mesma cor, ordinariamente levam no Brasil a melhor sorte; porque com aquela parte de sangue de Brancos, que têm nas veias, e talvez dos seus mesmos Senhores, os enfeitiçam de tal maneira, que alguns tudo lhes sofrem, tudo lhes perdoam; e parece, que se não atrevem a repreendê-los; antes todos os mimos são seus. E não é fácil decidir coisa, se nesta parte são mais remissos os Senhores; pois não falta entre eles, e elas, quem se deixe governar de Mulatos, que não são os melhores: para que se verifique o proverbio, que diz: Que o Brasil é Inferno dos Negros, Purgatório dos Brancos, e Paraíso dos Mulatos e das Mulatas; salvo quando por alguma desconfiança, ou crime, o amor se muda em ódio, e sai armado de todo o género de crueldade, e rigor. Bom é valer-se de suas habilidades, quando quiserem usar bem delas, como assim o fazem alguns; porém não se lhes há-de dar tanto a mão, que peguem no braço; e de Escravos se façam Senhores. Forrar Mulatas desinquietas, é perdição manifesta; porque o dinheiro, que dão para se livrarem, raras vezes sai de outras minas, que dos seus mesmos corpos, com repetidos pecados: e depois de forras, continuam a ser ruína de muitos.

Opõem-se alguns Senhores aos casamentos dos Escravos e Escravas; e não somente não fazem caso dos seus amancebamentos, mas quase claramente os consentem, e lhes dão princípio, dizendo: Tu Fulano a seu tempo casarás com Fulana; e daí por diante os deixam conversar entre si, como se já fossem recebidos por Marido e Mulher: e dizem que os não casam, porque temem que enfadando-se do casamento, se matem logo com peçonha, ou com feitiços; não faltando entre eles Mestres insignes nesta Arte. Outros, depois de estarem casados os Escravos, os apartam de tal sorte por anos, que ficam como se fossem solteiros: o que não podem fazer em consciência. Outros são tão pouco cuidadosos do que pertence à salvação dos seus Escravos, que os têm por muito tempo no Canavial, ou no Engelho sem Baptismo: e dos batizados muitos não sabem, quem é o seu Criador, o que hão-de crer, que lei hão-de guardar, como se hão-de encomendar a Deus, a que vão os Cristãos à Igreja, porque adoram a Hóstia consagrada, que vão a dizer ao Padre e ajoelham ou lhe falam aos ouvidos; se têm alma e se ela morre ou para onde vai quando se aparta do corpo. E sabendo logo os mais boçais, como se chama, e quem é seu Senhor; quantas covas de Mandioca hão-de plantar cada dia; quantas mãos de Cana hão-de cortar; quantas medidas de lenha hão-de dar; e outras coisas pertencentes aos serviço ordinário de seu Senhor: e sabendo também pedir-lhe perdão, quando erram, e encomendar-se-lhe, para que os não castigue, como prometimento da emenda, dizem os Senhores, que estes não são capazes de aprender a confessar-se, nem de pedir perdão a Deus, nem de rezar pelas contas, nem de saber os dez Mandamentos: tudo por falta de ensino, e por não considerarem a contra grande, que de tudo isto hão-de dar a Deus, pois (como diz S. Paulo) sendo Cristãos, e descuidando-se dos seus Escravos, se hão com eles pior, do que se fossem Infiéis. Nem os obrigam os dias Santos a ouvir Missa; antes talvez os ocupam de sorte, que não têm lugar para isso; nem encomendam ao Capelão doutriná-los, dando-lhe por este trabalho, se for necessário, maiores estipêdio.

(a continuar 25)

24/02/14

EXERCÍCIO QUOTIDIANO - VIDA DA ALMA

Exercício Quotidiano

"Em despertando qualquer Irmão da Boa morte, pela manhã, faça o sinal da Cruz, e diga com toda a reverência devida:

"Louvada seja a Santíssima Trindade, Padre, Filho e Espírito Santo, três Pessoas, e um só Deus verdadeiro. Bendito, e louvado seja o Santíssimo Sacramento, e a Imaculada Conceição da Virgem Maria Senhora nossa concebida sem mácula do pecado original."

Reze um Padre nosso, e uma Avé Maria ao Anjo da guarda, e outro tanto ao Santo do seu nome, para que o livre de todos os perigos da alma, e do corpo.

Enquanto se está vestindo, lembre-se, que algum dia o não há-de poder fazer, antes outros os vestirão com uma mortalha para ir em pés alheios para a sepultura, e com esta consideração evitará naquele dia tudo, o que na hora da morte não quereria ter obrado.

Depois de vestido, a primeira diligência deve ser buscar o seu oratório, ou lugar, onde tenha alguma Imagem Santa, e devota, e diante dela dar graças a Deus nosso Senhor, por todos os benefícios, e mercês, que lhe tem feito. E logo fará acto de Fé, Esperança, e Caridade, que poderão ser nesta forma:

"Creio, Senhor, tudo o que crê, e ensina a Santa Madre Igreja de Roma, e nessa Fé protesto que quero viver, e morrer, pois só nela há salvação. Espero na vossa misericórdia, e nos merecimentos de meu Senhor Jesus Cristo que hei-de alcançar a Bemaventurança, e gozar da vossa soberana companhia, para a qual fui criado. Amo-Vos, meu Deus Trino, e uno, sobre todas as coisas criadas, e me pesa de todo o meu coração de vos ter ofendido; proponho, Senhor, de nunca mais vos ofender, por serdes vós a suma bondade só digna de ser amada. Eu vos ofereço, meu Senhor, a minha alma com todas as suas potências, e sentidos, eu vos ofereço todas as minhas obras, palavras, e pensamentos, que neste dia, e em todos os de minha vida obrar, falar, e cuidar, desejando que tudo se ordene, como desde agora o ordeno à maior honra, e glória vossa. E para ser mais agradável esta oferta diante do vosso Divino Acatamento, apresento juntamente com ela o Santíssimo Sangue de meu Senhor Jesus Cristo por mão da Virgem Maria minha Senhora, e Mãe vossa. E vós, meu Senhor Jesus Cristo Redentor, e Salvador meu, lembrai-vos do Sangue, que por esta alma derramastes, e não permitais, que se malogre o infinito preço de vossos merecimentos, por estes vos peço que me deis graça eficaz, para que sempre viva, como verdadeiro Cristão, e na hora da morte, entregando a minha alma nas vossas mãos acabe a vida temporal para começar a eterna. Virgem Maria Mãe do meu Senhor Jesus Cristo, pelo amor, que lhe tivestes, e tendes, vos peço que sejais meu amparo neste dia, e em todos os de minha vida; para que nunca o ofenda, para que sempre o ame, e conserve a sua graça."

Saindo de Casa procure, que o primeiro caminho, que fizer, seja para a Igreja; e então como em todas as vezes, que entrar nela, faça oração ao diviníssimo Sacramento, à Virgem Senhora, e aos Santos, a que tiver devoção. E não se esqueça de vezes respeitadas visitar os cinco Altares, para lucrar as Indulgências, que são mui proveitosas, para livrar das penas do Purgatório; advertindo que enquanto estiver na Igreja, que é Templo, e casa de Deus, esteja com muito recolhimento, modéstia, e devoção.

Não saia da Igreja, sem que primeiro ouça Missa; assistindo a ela com toda a atenção, e devoção devida, acompanhando o Sacerdote em tudo, o que obra naquele altíssimo Mistério, ou rezando pelas suas Contas.

Ouvida a Missa com a sobredita devoção, se irá ocupar nas coisas de seu ofício, ou obrigação; sendo muito liso, e verdadeiro nos seus negócios: dando toda a expedição devida, ao que tem a seu cargo, e em todas as suas obras tendo sempre diante dos olhos, o não fazer pecado algum, nem coisa, que desagrade aos Divinos olhos.

Todas as vezes, que ouvir o relógio dar horas, levante o pensamento a Deus, fazendo alguma breve jaculatória, e se estiver ocupado em algum negócio em companhia de outros, a pode fazer interiormente, sem que alguém a perceba.

Quando ouvir fazer sinal com as badaladas às Avé Marias, ou seja de madrugada, ou ao meio dia, ou à boca da noite, reze sempre, como se costuma, a fim de ganhar as Indulgências; e se estiver na rua, pare enquanto reza.

Procure estar sempre ocupado, e nenhum tempo ocioso, porque a ociosidade é origem de todos os males.

Quando na sua encontrar o diviníssimo Sacramento, ou que vaia em procissão, ou a servir de viático a algum enfermo, o acompanhe sempre, porque lucra muito na veneração deste altíssimo Mistério.

Quando encontrar algum defunto, que levam a sepultar, não deixe de rezar por sua alma, ao menos um Padre nosso, e uma Avé Maria, e recolhendo-se dentro de si, considere, que também lhe há-de chegar a sua hora em que seja visto naquele estado, e tenha muito cuidado de ser devoto das Almas, oferecendo por elas tudo quanto puder, porque são muito agradecidas.

Haja-se com todos com muita afabilidade, e benevolência, tendo o devido respeito aos maiores, mais graves, e mais velhos; e com mais especialidade aos Prelados, e Sacerdotes reconhecendo neles a pessoa de Cristo, lembrando-se, que dizia o Santo Padre S. Francisco que se encontrara na rua, juntamente a S. João Baptista, e a um Sacerdotes, primeiro havia de fazer veneração, e reverência ao Sacerdote, que ao Santo.

Aos pobres, que lhe pedirem esmola pelo amor de Deus, ou pelas Chagas de Cristo, ou por outro qualquer motivo, santo, e bom, manda sempre contentes, e com alguma coisa; e quando não tiver que lhes dar, os despeça com muita caridade, e benevolência, para que o exterior seja indício da vontade interior, que tinha de os favorecer.

As suas práticas sejam sempre ou de coisas indiferentes, do que possa pelo Mundo, ou do que ouvem nos Sermões, e Práticas, do que lêm nos livros espirituais, e devotos, e de nenhuma sorte falem palavras jocosas, nem desonestas, e muito menos descubram faltas alheias, nem murmurem do seu próximo.

Recolha-se para casa antes da noite, e faça, que na sua família (se tiver) se conserve sempre o santo temor de Deus, atendendo muito à boa educação de seus filhos, e de seus escravos, evitando-lhes toda a ocasião de culpa, e fazendo que rezem todos os dias o Santíssimo Rosário da Senhora, ou a Coroa, ou o Terço com a Ladainha da mesma Senhora.

As devoções, que tiver, cumpra todos os dias para ter em seu favor sempre os Santos, de quem é devoto; e não se deite nunca sem primeiro fazer exame de consciência, para ver como naquele dia se houve em obras, palavras, e pensamentos, e com muito maior excepção, e cuidado, na véspera do dia, que se houver de confessar, e para que o faça com perfeição, pomos aqui o modo como o pode fazer."

("Breve Direcção Para o Santo Exercício da Boa Morte...". Pe. José Aires. LISBOA OCIDENTAL, 1726)

16/09/13

LIÇÃO XIII - DA VERDADE (IV)

(continuação da III parte)

 Todos os elogios e triunfos da verdade são afrontas e vencimentos da mentira, que é uma falsa significação da voz com intenção de enganar, e de quem S. João, no cap. 5 n 4, dá por pai o diabo; e Santo Agostinho (tractatu 42 in Joan.) diz que como Deus gerou o Filho, que é a Verdade, o demónio tendo caído gerou como filha a mentira; e David (Psalm 5 n 7) testemunha que Deus perderá todos os mentirosos, e que perecerá o que falar mentira. Nos Provérbios (cap. 9 num. 90) de três coisas ameaça Deus, que nos mesmos Provérbios (cap. 6 num. 16 e 19) afirma que O aborrecem; uma é a mentira, e outra o testemunho falso, que é o mesmo; e é no cap. 22 num. 22 dos Provérbios diz que são abominações para Deus os beiços mentirosos; e Job (cap. 72 num. 4) se recata tanto da mentira que diz que a não permitirá à sua língua, nem mesmo pensar nela. Na Sardenha, diz Solino (cap. 10) há uma fonte donde metiam ao que jurava, e se havia jurado mentira saía dela cego, e se dizia verdade ficava livre. Em Lienna havia outra, que era gostosa e agradável aos que dela bebiam se falavam verdade, e o contrário aos que a não diziam. Platão (Dialog. 12 de legib.) pôs uma lei contra os mentirosos, que se agora observasse nem se mentira tanto, nem tantas vezes enganavam os homens uns aos outros; diz pois, que quando algum oficial de nossa República tomar qualquer obra com obrigação de acabá-la dentro de certo tempo limitado, se o tal não cumprir a verdade, primeiramente Deus o castigará, e sem isso desde agora o condenamos a que pague o valor em que se havia concertado pela dita obra, e que a acabe logo, sem que por isso se lhe satisfaça coisa alguma. Maior [lei era] a que usavam os mafilenses, entre os quais havia lei, o que se havendo libertado algum amo a seu escravo, depois disto o tal mentisse a seu amo, o mandavam tornar à escravidão. Mais adiante passavam os Lício, dos quais escreve Heráclides (lib. I de Politiis) que em colhendo em mentira a qualquer pessoa, sem terem respeito a qualidades, primeiramente a vendiam em pública almoeda, e ainda que ele, e toda a sua geração fosse livre, ficava por cativo; para que lhe não ficasse esperança de resgate, lhe confiscavam toda a sua fazenda, deixando-o não menos pobre de fazenda, que de liberdade. Os Índios aos que mentiam lhe punham silêncio perpétuo. ElRey Ataxerxes mandou furar a língua com três cravos a um soldado que mentiu. Do nosso Rei D. Diniz conta-se que lhe ouviam dizer que nenhuma coisa mais o ofendia que uma mentira; e com razão devem ser castigados os mentirosos, pois, como diz Aristóteles, não pode haver coisa mais prejudicial nas Repúblicas que homens mentirosos, que não merecem crédito, ainda quando falam verdade; razão que bastava para que todo o homem fugisse deste vício.

(continuação, V parte)

08/04/13

PORTUGAL NA CAPELA SIXTINA - O RESGATE DOS ESCRAVOS E O ROSÁRIO

"Os dois homens pendurados no rosário do fresco mais famoso da Capela Sixtina,
O Juízo Final, de Miguel Ângelo, simboliza a evangelização portuguesa na Índia e em África."
Os feitos portugueses causaram muita admiração em Roma; e Deus quis que Miguel Ângelo desse testemunho disso, para os que haveriam de vir, no painel principal da Capela Sixtina (sobre o altar mor), pintando a cena "o resgate dos escravos" (na qual Portugal com um longo rosário faz subir a África e a Índia).

Portugal lançando um rosário
"Entre as dezenas de figuras desenhadas por Miguel Ângelo na famosa pintura "Juízo Final" - almas perdidas, anjos, demónios, apóstolos e santos - destacam-se dois homens pendentes num Rosário, em movimento ascendente de salvação.

Eles estabelecem uma relação simbólica com Portugal. São um negro e um indiano agarrados a um terço. O primeiro representa o continente africano, o segundo o mundo oriental e o rosário a oração.

Falta um índio da América - facto que talvez se possa atribuir à animosidade que então reinava contra os espanhóis. Mas a mensagem é clara: levado pelos missionários portugueses, o Evangelho salvaria o novo mundo do fim dos tempos." (Vera Moura - blogue Cavalo Selvagem)

Será que foi aqui respeitada a ordem cronológica e o índio é aquela figura na nuvem, de mãos postas, que olha para Portugal mas ainda não está a ser puxado?

O RESGATE DOS ESCRAVOS E OUTROS BENS DADOS POR DEUS

Infante D. Henrique
"Com estes cativos soube o Infante muitas coisas das quais tanto desejava, e foram elas de qualidade que o Infante as mandou significar ao Papa Martinho V, como primícias de tão novos furtos. O qual, a petição do Infante, fez perpétua doação à Coroa destes Reinos de toda a terra que se descobrisse por este mar Oceano do Cabo Bojador até às Índias inclusive; e para todos os que nesta conquista morressem concedendo Indulgência plenária. E depois confirmaram esta doação o Papa Eugénio IV, e Nicolau V, e Sixto IV que mais que todos a ampliou, pondo excomunhão e interdito aos outros Príncipes e pessoas que nas ditas terras entrassem sem licença dos Reis de Portugal. E além dos quintos que o Infante para a Ordem de Cristo já tinha por ElRei concedidos, também o Infante D. Pedro, seu irmão que então governava o Reino, lhe fez mercê que ninguém pudesse passar aquela conquista sem sua especial licença. Com estas mercês e graças começou o Infante a prosseguir sua conquista com mais poder e autoridade, e com menos pregas e maldições. E porque Antão Gonçalves lhe disse que alguns daqueles mouros queriam dar por seu resgate certos escravos da Guiné, de cujos ardores a gente tanto fabulava, o mandou o Infante outra vez continuar em seus descobrimentos; e estando para partir aconteceu que um Baltazar, gentil-homem da Casa do Imperador Frederico III, que ele mandara ao Infante para na conquista de África ganhar honra e ser armado Cavaleiro, pediu licença ao Infante par ir naquele descobrimento da Guiné, como a mais nova coisa em que então se falava no mundo; porque desejava ver-se em uma grande tormenta que depois pudesse contar na sua terra: e sucedeu-lhe tanto ao certo que, tendo eles partido, lhe sobrevoei um temporal tão grande e temeroso que chegou, segundo dizia o estrangeiro, nunca tal tinha visto. Todavia sossegado o vento, chegaram ao Cabo já deles conhecido, onde alcançaram pelo resgate dos cativos, que levavam: dez negros de terras diferentes e uma boa quantidade de ouro em pós, que foi o primeiro que nestas partes se resgatou.
Nuno Tristão - em Bissau
Depois, no ano de 1443, Nuno Tristão descobriu a ilha de Arguim, e outras junto dela, a que chamaram "das Garças" por haver nelas tantas que serviram de refeição ao navio; e das ilhas trouxe a este Reino mais de quarenta negros cativos que cá se estimaram muito por sua estranha figura. Vendo o ouros e os escravo, e a esperança que davam os ministros deste descobrimento, começou o povo a confessar a bondade da conquista rompendo todos a uma voz em louvores ao Infante em tudo o que ele queria e servindo-o animosamente. E os primeiros foram os moradores de Lagos, por serem mais vizinhos ao Infante; os quais se ofereceram liberalmente e armaram à sua custa seis caravelas e por Capitão delas um Escudeiro honrado chamado Lançarote, que fora Moço da Câmara do Infante. E não fizeram mais em sua viagem que trazer de mais estima, pelas informações que deles tomava."

(...)

"E quando frutificou em louvor de Deus a Cristandade destes homens do Congo pela conversão do seu rei, tão pouco aproveitou o que ElRei fez no requerimento d'ElRei de Benij, cujo senhorio está entre o Congo e o castelo de S. Jorge da Mina. Porque no ano do Senhor mil e quatrocentos e oitenta e seis também este rei de Benij mandou pedir a ElRei D. João que lhe mandasse sacerdotes para doutrinarem na Fé de Cristo ao qual se queria de novo converter. E trouxe este Embaixador, um João Afonso de Aveiro, que tinha já descoberto naquelas partes uma grande ilha que se chamou com o seu nome (e também foi o primeiro que trouxe a este reino pimenta da Guiné que nós chamamos de rabo, e não tão boa como a da Índia). Mas como ElRei de Benij  pediu os sacerdotes, mais por se fazer poderoso com nosso favor contra seus inimigos, que com desejo de baptismo aproveitaram pouco os Ministros dele que ElRei lhe tinha mandado com uma feitoria para o proveito que davam os escravos de Benij ao trato do ouro da Mina; os quais ElRei mandou logo vir todos por esse motivo, e porque a terra era doentia tanto que entre as pessoas que faleceram nela estava o mesmo João Afonso de Aveiro (que foi o primeiro que assentou aquele trato, feitoria, e comércio).

Castelo de S. Jorge da Mina, no Gana
E porque muito tempo este resgate de escravos de Benij, e Congo para a Mina, sempre correu por navios, que do Reino os iam lá resgatar, e nele intervinham rezados inconvenientes de se fazerem Mouros, ou se tornarem gentios, por não serem escravos, ElRei D. João III, até cujo tempo durou este resgate nesta forma, lembrando mais da salvação de tantas almas, que do proveito da sua fazenda, mandou, que cessasse este trato. E por ser esta obra de louvor de Deus, ele deu logo a ElRei o galardão dela com dobrado proveito, abrindo-lhe outra Mina abaixo da cidade de S. Jorge, donde começou a correr grande cópia de ouro, que importava muito mais do que se havia pela venda de escravos." ( DE MARIZ, Pedro. Diálogos de Vária História ...; Lisboa 1758 Cap. IV)

06/04/13

ESCRAVATURA - FINALMENTE APARECERAM OS CRÍTICOS

Escrava Agar (A. Testamento)
Faz alguns meses que redigi o artigo "Solicitação Aos Católicos - A Escravatura", no qual apelei: "Há mais ou menos um ano pedi a esse meu amigo brasileiro que, por favor, me enviasse todo o material sobre a escravatura e o Magistério da Igreja , [dados] naquela tal cadeira. Infelizmente, se bem me lembro, [diz que] não tem tal material com ele. Sendo assim, peço aos que este artigo lerem que, por favor, me enviem informação a respeito da [suposta] condenação da escravatura em si mesma, por parte da igreja. Estou quase convicto que a escravatura nunca foi condenada pela Igreja [mas sim situações más envolvendo escravos]".

Como podemos ver pela transcrição, com a finalidade de não deixar ponta alguma de fora nesta matéria pedi me enviassem possíveis desconhecidos dados fiáveis que mostrassem que a Igreja condenou realmente a Escravatura em si mesma.

Há pouco tempo apareceu um jovem brasileiro, muito inflamado, que trocou a possibilidade de dar colaboração por uma "disputa de capoeiro"; as varias tentativas de argumento apenas reforçaram o contrário daquilo a que se propunha. Eu tinha então começado a publicação do "Contra a Mitificada "Escravatura" da Seita dos Filósofos" (Transcrição do documento "Concordância das Leis de Portugal e das Bulas Pontifícias.." por D. José Azeredo Coutinho), e mal terminei de publicar tudo recebemos aqui um comentário de um leitor português com sintomas de indignação. O argumento deste é o mais forte argumento do outro, ambos apoiados no conhecido trabalho feito pela Associação Cultural Montfort (Brasil).

Há dificuldade em olhar a "escravatura" é em grande parte devido aos estereótipos divulgados tão insistentemente. O leitor ao ouvir "escravatura" continuará a ouvir todo o discurso seguinte agarrado à imagem previamente adquirida. Dificilmente colocarão em dúvida o conceito que têm de "escravatura", respondendo previsivelmente e tão prontamente segundo o "programa" para o qual nos formataram! Mas, também essa imagem moderna de "escravatura" tem servido para dar força e propaganda à declaração de direitos humanos; acresce que abriu certa corrida a um novo e estranho recurso: para canonizar causas particulares, hegemonias nacionais, a credibilidade de instituições, legitimação de "monarquias", se procure beatificar e canonizar pessoas a isso ligadas.

Como não me proponho tratar definitivamente este assunto, proponho aos leitores que leiam a série de artigos "Contra a Mitificada "Escravatura" da Seita dos Filósofos" sem grandes preocupações (senão pode acontecer que algum leitor fique preso a um ou outro pormenor) e tente entender o que está em jogo, o contexto, o problema, os argumentos. Desta leitura parecem-me de salientar (para o nosso caso) as ideias seguintes:

1 - Quem são os contestatários da escravatura (portanto, quem é a "seita dos filósofos"), e quais os seus argumentos e motivos;

2 - Quais são os argumentos de autoridade inquestionável dados por D. José Azeredo Coutinho?

Aqueles dois leitores (voltemos a eles) tinham usado um único documento pontifício como argumento de autoridade. Contudo, os argumentos de autoridade apresentados por D. José Azeredo Coutinho são em maior número e maior autoridade. Não creio que o desencontro destes dois leitores da autoridade superior apresentada pelo autor seja totalmente consciente, nem venha a ser persistente depois da leitura deste artigo (embora motivados por condicionamentos sociais-ideológicos, e causas em marcha). Se estes leitores apresentaram um argumento menor, contra um argumento maior, não significa necessariamente que o argumento por eles escolhido careça de veracidade ou autoridade, mas sim mal usado/interpretado. Foi mal usado, sim!

Argumentos maiores são as Sagradas Escrituras e sucessivas Bulas Papais. Há que considerar que a escravatura, antiquíssima, não é necessariamente má como se acredita hoje, e por isso nunca tinha sido condenada como tal. É apenas isto. No séc. XIX um Papa proibiu a escravatura; no anterior séc. XVIII o poderoso Marquês de Pombal (que deu o primeiro passa na expulsão universal dos Jeuítas na própria Igreja) proibiu o "comércio de escravos" -  e há nisto uma ligação com a tal "seita dos filósofos". Esta proibição régia, claro está, também não pode ser condenação à escravatura em si mesma, nem o tal único documento Papa (o qual monstra que no séc. XIX o conceito de "escravatura" já começava a perder o sentido próprio). O fenómeno da escravatura no liberalismo acaba por gradualmente coincidir com aquilo que os pais do Liberalismo tinham atirado de culpas à Igreja. Isto fica demonstrado pelas intervenções papais ao longo da história, nunca tinham condenado a escravatura, mas sim os casos pontuais onde houve mau agir de um ou de alguns senhores para com escravos, ou para proibir a escravatura de índios; assim o séc. XIX (tempo da mentalidade liberal) tornou tão sistemático o mau agir contra tudo e contra os escravos que "escravatura" e "mau agir" se conotaram um com o outro, com a mesmíssima força pretendida pela "seita dos filósofos" (maçonaria).

Penso em redigir depois outro artigo que contribua para o entendimento daquela escravatura como bem desejável, antes do séc. XIX.

Espero ter exprimido o problema dos dois leitores contra o autor ilustre e dado parte da solução.

Gostaria de ser contactado caso hajam discordantes...

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