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15/02/17

15 de FEVEREIRO - AGIOLÓGIO LUSITANO (I)

Agiológio Lusitano

FEVEREIRO 15
 

a) Em Pádua, a festa da transladação do nosso milagroso St. António (grande ornamento da Seráfica família, e singular glória de Portugal, e de Lisboa pátria sua) cujos ditosos moradores (que gozam depósito de suas sagradas Relíquias) obrigados dos contínuos milagres, e favores soberanos, que por sua intercessão cada dia recebem da poderosa mão de Deus, erigiram em sua honra um magnífico templo, para onde no ano 1263 com grande pompa, e solenidade foram trasladadas do convento de Sta. Maria, assistindo a esta solene festa o Seráfico Doutro S. Boaventura como Ministro Geral da Ordem Franciscana; o qual abrindo o precioso sepulcro, em que o rico penhor do sagrado corpo estava de propositado havia trinta e dois anos, o achou todo desfeito, e só a língua inteira, e fresca, e tão rubicunda, como de corpo vivo. Então (com suma reverência) tomando-a nas mãos, banhado todo em devotas lágrimas, falou com ela desta maneira: Ó língua benedicta, quae Dominum sempre benedixisti, et alios benedicere fecisti: nunc manifeste apparet, quanti meriti extitisti apud Deum. E dando-lhe devotíssimos ósculos a colocou no Santuário da Sacristia entre outras preciosas relíquias. Depois ano 1350, Guido de Monforte, Cardeal Bolonha, Legado Apostólico em Itália, em reconhecimento de milagrosamente haver escapado de uma mortal enfermidade per oração do nosso Santo, foi a Pádua, e num riquíssimo cofre de prata, segunda vez trasladou as sagradas relíquias, deixando fora parte da S. Cabeça para consolação dos inumeráveis peregrinos, que por todo discurso do ano com devoção concorrem a visitá-las, e cumprir seus votos, implorando tão poderosa intercessão.

- do comentário:
Celebra neste dia a trasladação do nosso Lisbonense St. António (de mais da Seráfica família) a Igreja de Lisboa, e a de Pádua, aquela por pátrio berço de seu nascimento, esta por depositária de suas sagradas relíquias. E há que se saber que duas vezes se fez translação do sagrado corpo; a primeira a 7 de Abril do ano 1263 (que então caiu no oitavo dia da Páscoa de Ressurreição) a segunda a 15 de Fevereiro de 1350 cuja festa no Capítulo Geral, que se celebrou em Leão de França o ano seguinte, se mandou rezar sub ritu duplici, concedendo o Papa Martinho V a todos os que visitarem em tal dia as Igrejas da Ordem 50 anos de Indulgência, e 12 quarentenas. Consta do Compêndio dos privilégios dela.
Nas Crónicas se conta (tomando-o de Pisano l. 1 Confirmitatum) que levando a língua do Santo certo Ministro Geral do lugar em que S. Boaventura a colocara, ao sair nunca acertara com a porta, e como a não pudesse tornar ao próprio lugar, a ocultou num altar, onde esteve alguns anos, até que o céu quis que fosse achada para ser venerada de todos; mostrando-se hoje aos muitos peregrinos, que por todo ano concorrem a visitar as milagrosas relíquias. As quais a cidade de Pádua devota, e agradecida as inumeráveis mercês, e favores soberanos que da poderosa mão de Deus recebeu em vida, e depois de sua morte recebe continuamente pela intercessão deste seu maravilhosos patrono lhe fabricou um magnífico, e admirável sepulcro de pórfidos, que na perfeição, magnitude, e excelência de obra excede a todos os de que se tem notícia na Cristandade. As paredes da dita capela estão adornadas de quadros de meio relevo de finíssimos alabastros, que contêm a vida e a morte, e milagres deste nosso insigne Português, patrono seu. De cujo sepulcro sai cheiro celestial, e suavíssimo, como refere o Pe. Fr. António Soares, Monge de Alcobaça no l. I c.10 de seu Itinerário da Terra Santa, cuja peregrinação foi no ano 1554:
Chegando a Pádua (diz ele) fomos logo com M. Simão Rodrigues da Companhia, e dois Reitores, que connosco vinham dos colégios de Veneza, e Pádua, tomar a bênção a St. António, e feita nossa oração fomos pela parte de fora beijar a pedra, onde jaz o Santo Padre, na qual sentimos tão grande, e celestial cheiro, que olhando uns para os outros, estávamos como fora de nós; então os Padres sorrindo-se nos disseram; que tivéssemos por certo nunca se haver apartado este celestial cheiro de seus Santíssimos ossos, desde o tempo que N. Senhor o apartou deste mundo. Meu companheiro, e eu não fazíamos mais, que cheirar por muitas vezes, e experimentar o milagre, e um de nós duvidando se porventura estaria aquela pedra empastilhada perdeu o cheiro, e vendo que o outro cheirava, e ele não, arrependeu-se, e tornou logo a cobrar o dito sentido. Ao outro dia entrando o Pe. M. Simão a dizer Missa sobre esta ara sagrada se volveu (contra seu costume) aos que estávamos detrás, como que sentira alguma coisa. E preguntando depois da Missa disse: que sentira tão grande fragrância, e que lhe cheirara em tanta maneira, que cuidava lhe havíamos posto aos pés alguma casula. Preguntamos então muito devagar deste divino cheiro, assim aos principais do convento, como da cidade, os quais nos respondiam: "O volete parlare daqueste odore? Cosi & stato sempre". E zombavam do caso que nos fazíamos deste milagre por ser tão contínuo, que já dele senão faz ali nenhum. Eu disse Missa no mesmo altar, e não me esqueci da célebre antífona: si quaeris miracula, mors, error etc.
Referem a translação de S. António neste dia demais dos Martirológios de Galesino, Maurolico, e Ferrario, St. António (in Chr. p. 3 tit.24 c.3 § 5 & 6 F.) Marcos de Lisboa (p. I l. 5 c.37 & p.3 l.2 c.2) Marieta no Flos Santorum dos Santos de Hespanha (2 p. l.26 c.21) Wadingo (in Annalibus varijs in locis.) Mattheo Alemão (na vida de St. António l.3 c.4) D. Rodrigo da Cunha (na hist. da Igreja de Lisboa 2 p. c. 37) e Fr. Artur (à Monast. no Martyr. Franc.) e outros.
 
 
b) Em Vila Viçosa, Arcebispado de Évora, a louvável memória de Álvaro Fernandes, Sacerdote de grande virtude, e recolhimento, natural e morador da própria vila, que à imitação dos antigos Padres do Ermo (inspirado pelo céu) se retirou a uma pequena horta, desviada do povoado, e mui apta à vida solitária, e contemporânea (e tanto que depois a família dos Piedosos, satisfeita do sítio, erigiu nela a primeira casa da sua Província) onde levantado um devoto Oratório, gastou o restante da vida em perpétuo silêncio, penitência, e oração, vacando a espirituais exercícios sem afrouxar um ponto de rigor começado, sendo a todo género de estado, em particular a Sacerdotes, de virtude, e pureza um exemplar perfeitíssimo. Por seu testamento vinculou em capela a dita horta, e a mais fazenda que tinha, aquela deixou a Sacerdotes, que naquele sítio (à imitação sua) fizessem vida solitária. Ultimamente com morte felice foi chamado por Deus ao Reino perdurável, onde goza o eterno prémio de seus santos trabalhos, e merecimentos.
 
- do comentário:
Floresceu Aluaro Fernandes pelos anos 1400. Fez sua habitação fora de Vila Viçosa entre dois cabeços, onde hoje se chama S. Francisco o velho, nome que deixaram os Piedosos do tempo que ali tiveram o primeiro convento. A notícia deste Presbítero Eremita devemos a Fr. António de Nisa que na Chr. da mesma Província (l.2 c.7) o refere com grandes louvores. Se bem não sabemos, quem lhe sucedeu naquele Oratório, até vir a poder dos ditos religiosos.
 
 
c) Em Cambaia na Índia Oriental, a paixão de Simão Feio, escriturão que foi da Alfândega de Dio, no tempo que ElRei de Cambaia, Senhor de Durante com seu filho, pós cerco àquela praça, que durou sete meses, a qual D. João Mascarenhas, seu Capitão, defendeu com bravo valor acudindo-lhe o grande D. João de Castro, que de Goa levou muita gente de socorro. Neste cerco Simão Feio (como pessoa principal, inteligente, e valorosa) obrou muito, servindo diversas vezes de Embaixador de uma a outra parte, até que da última (por não concederem os nossos o que o bárbaro Rei pedia) ficou lá preso, com os que o acompanhavam; a todos os quais, com muitos outros Portugueses, que haviam cativado por aqueles marítimos portos (indignados os Gentios da insigne, e milagrosa victória, que os nossos deles alcançaram na defensão daquela praça) meteram em ásperas, e cruéis prisões, dando-lhes grandes baterias com graves opróbrios, para que deixada a lei de Cristo, seguissem a abominável seita Maometana. O que tudo os valerosos soldados Evangélicos sofreram com paciência constante. Mas vendo os idólatras, que nenhuns terrores eram bastantes aos dobrar, lhes ofereceram ricas dádivas, e a Simão Feio, que o fariam Senhor de vassalos; e como nada disto aproveitasse, porque os confessores da Fé desprezavam todas suas vãs honras, e acrescentamentos, foram condenados à morte. Chegado o desejado dia da execução, posto Simão Feio a porta do cárcere, com fervorosas palavras que o Espírito Santo naquela hora lhe ditava, animou a todos para o último combate lembrando-lhes o momentâneo prazo desta vida, e as eternas coroas, que Deus lhes tinha deputado na outra, se confessando seu nome a sacrificassem por seu amor. Corroborados todos com tão abrasadas palavras, e cheiros de superior fortaleza, e paciência sofreram por Cristo serem despedaçados, e finalmente degolados, com que deram perfeição a suas gloriosas palmas. E para o céu mostrar quão odorífero lhe fora este suave holocausto, logo no próprio lugar, rebentou uma perene fonte de água, na qual indiferentemente lavando-se Mouros, e Cristãos todos cobram saúde de suas enfermidades, apregoando a Simão Feio por Santo, com grande glória de nossa sagrada religião.
 
- do comentário:
Com a insigne vitória, que D. João de Castro, Governador da Índia, alcançou DelRei de Surrate no ano 1546 de tal maneira se encheu de furor ElRei Sultão de Cambaia, que para se vingar dos nossos mandou matar a Simão Feio, e aos mais Portugueses, que estavam lá cativos; cujo número uns fazem de 20 outros o estenderam a 30 (de todos só ficou em lembrança Atanásio Freire, nobre cidadão de Goa) os quais em Fevereiro de 1547 deram as vidas pela confissão da Fé gloriosamente. Assim o refere Diogo de Couto (décad. 6 l.4 c.4) Fr. António de S. Romão na História da Índia (l.4 c.2 e6) Lopo de Sousa no cerco de Dio, e outros. Quem quiser saber as particulares circunstâncias desta victória, que algumas foram miraculosas, veja Lucena na vida de S. Francisco Xavier (l.6 c.I) Maphaeo de rebus (Indicis in fine libri tertij), e Andrade na Crónica RelRei D. João III.
 
 
d) Item em Damão, na costa da Cambaia, a morte gloriosa de Fr. Pedro da Madalena, que sendo Converso, e filho do convento de S. Domingos de Lisboa, ano 1548 passou àquelas parte em companhia de Fr. Diogo Bermudes, primeiro Vigário Geral da Ordem. E depois de assistir na fábrica da Igreja de Sta. Bárbara, uma das quatro Vigairarias, que em Goa tem à sua obediência a dita religião; mandado ao novo convento de Damão, sobre a qual cidade vindo um copioso exército do Grão Mogor, ele foi o primeiro que se pós no campo a defensa (como Alferes da milícia Cristã) arvorando um devoto Crucifixo, imitando nesta heroica acção a seu Padre S. Domingos, que deste modo acompanhava os esquadrões Católicos contra os hereges Albigenses. A batalha foi tão travada, como incerta a victória, porque muitos dos nossos desesperados da poderem conseguir deram as costas. Mas ele (como valeroso Alferes) perseverando a pé quedo, sem nunca desamparar o posto, animando a todos a pelejarem pela Fé, mereceu ser feito preciosa vítima de Cristo, ficando entre inumeráveis mortos, não vencido, mas triunfante, e vencedor, pois em guerra tão santa (contra infiéis) deu gloriosamente a vida, confortando os Católicos.

- do comentário:
Achamos Fr. Pedro umas vezes nomeado com o apelido da Madalena, outras de S. Domingos; mas com qualquer deles é certo que foi natural de Lisboa, verão muito prudente, e de grande virtude, e por isto o escolheu o Pe. Mestre Fr. Francisco de Bovadinha (sendo Provincial de Portugal) para com ele fechar o duodécimo número dos religiosos (à imitação do Apostolado) com que se deu princípio à Congregação da Índia. Foi morto em Damão no ano 1580. Referem já seu triunfo. Fr. João dos Santos na Etiópia Oriental (p.2 l.2 c.5), Fr. Afonso Fernandes na História Ecclesiástica (l.2 c.9) e in Concert. praed. (pág.307), Lopez nas Chr. in fine (p.4 c.37), Fr. Luís de Sousa p.1 l.3, e outros.

(continuação, II parte)

10/02/13

STo. ANTÓNIO DE LISBOA E DE PÁDUA (II)

(continuação da I parte)

Igreja de Sto. António (Lisboa)

Tal perturbação lhe trouxera ao ânimo a entrada na igreja dos cruzeiros dos restos mortais daqueles mártires corajosos e intemeratos, que, alcançada difícil licença e triunfante do Prior D. João César, que o não queria deixar sair da sua Ordem, com a resposta sempre humilde e sempre a mesma: sicut Domino placuit, ita factum est, D. Fernando, da Ordem de Santo Agostinho, trocou a murça pela roupeta de estramenha e se passou a Santo António dos Olivais, onde, depois de novo ano de noviciado, tanto ou mais exemplar do que o primeiro, professou em 1222 com o nome de António.

Combatente denotado de nova milícia, frei António cuidou para logo da realização de suas cogitações íntimas e de achar meio de se passar a Marrocos, para ali, entre gentios, pregar o Evangelho e seguir a vida

Daqueles santo soldados
Determinados e unidos
De Deus queridos e amados,
Remendados e despidos
De fé vestidos e armados;

 Daqueles gracos valentes
Ausentes da natureza,
Na grandeza em Deus presentes,
Penitentes na esperança
E na pobreza contentes;

Daqueles que a vida amada,
Foi desprezada e esquecida,
Abatida e maltratada,
Pela amada, entena vida
Merecida e desejada.

De Santo António dos Olivais saiu frei António para Lisboa, e desta cidade para África, levando por companheiro a frei Filipe, da mesma Ordem.

Mal chegado às plagas Africanas foi António salteado de grave doença e não pôde começar a vida nova de esperançado martírio, a quem tão afincadamente se devotava: volveu à Europa.

Escrito era, porém, no livro do destino daquele filho de Lisboa que o franciscano mais não voltaria à sua pátria: uma tempestade lhe desnorteia o navio e o arremessa às costas do norte da Sicília, onde aporta em Messina, indo habitar o convento Taurominiense.

Estava então para se reunir em Assis o Capítulo Geral da Ordem Franciscana: para ali se encaminhou Frei António, e nele tomou parte o notável irmão, conhecendo naquela agremiação pessoalmente ao Patriarca da Ordem, Francisco.

S. Francisco de Assis
Parece averiguado que não fizeram grande cabedal do frade português os Prelados das diversas casas da Ordem ali congregados, quiçá pela humildade e acanhamento do frade desconhecido, e que apenas um frei Graciano o convidara a comsigo ir para o seu convento, junto a Bolonha. Foi.

Ia começar o viver de frei António em terra estranha, longe da pátria, que não mais veria.

Achando-se um dia em Forli, onde fôra ordenar-se, por mandado de seu Guardião improvisou António talvez o seu primeiro sermão, que tão do agrado foi de Francisco de Assis, que este o mandou logo estudar mais para Vercelle.

Em Bolonha, Montpelier, Pádua e Tolosa ensinou Teologia o filho de Lisboa, prégando por toda a parte com muita unção evangélica, com muita erudição e com triunfos de muito edificar.

De aparência robusta, Frei António era fraco, ou por complicação, ou, o mais provável, pelas consequências do viver que se impusera de mortificações nos jejuns exagerados, nas vigílias, na oração prolongada, no extasi, no ser enfermeiro de confrades, na imposição de todos os incómodos da vida ao corpo, desde a infância torturado de contrariedades.

06/02/13

STo. ANTÓNIO DE LISBOA E DE PÁDUA (I)


"No dia 15 de Agosto de 1195 nascera em Lisboa, em casas nobres junto à Sé metropolitana, um menino, a quem seus pais batizaram com o nome de Fernando.

Sé de Lisboa - em frente dela está a casa de Sto. António,
onde está também a igreja de Sto. António
Fernando martins de Bulhões foi o segundo filho de Martim de Bulhões e de D. Teresa Taveira.

De crer é que aquele Martim de Bulhões fosse descendente de algum Cruzado Francês, dos que, conjuntamente com os Ingleses, Flamengos e outros ajudaram a D. Afonso Henriques na tomada de Lisboa, em 1147.

De um Vicente era filho o api de Sto. António, provavelmente o tronco da família.

Além de Fernando nasceram do consorcio de Martim de Bulhões três filhos mais: Pedro, o primogénito, que casou com Maria Pires; uma menina, cujo nome se não determina, e Maria Martins Taveira, que, a muitas instâncias do irmão Fernando, professou em S. Miguel das Donas. 

Parece averiguado que Fernando começára em menino a dar evidentes sinais de puro ascetismo.

Assim foi que, mal chegado à idade própria, entrara de frequentar a Sé de Lisboa, como uma das escolas, que havia naquele tempo, para ali aprender as primeiras letras.

Como é sabido nas sés e nos mosteiros residia a instrução no princípio da monarquia.

Acentuando-se em Fernando, com o crescer dos anos, a natural inlcinação para a religião cristã, à falta de melhores dados históricos, afirma a tradição que na Sé de Lisboa fôra ele Menino do Côro.

Chegado à idade de quinze anos, e não podendo resistir ao íntimo chamamento, que o atraia para a vida monástica, buscou um dia aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, em S. Vicenten de Fóra, recente fundação do primeiro Afonso, e das mãos do Prior, D. Gonçalo Mendes, recebeu ele a murça de S. Agostinho, começando sua vida religiosa por ser portero daquela casa.

Fervorosamente humilde e crente, o seu noviciado foi um modelo exemplificativo de observância e de amor religioso:

Do mamativo amável
Sai o amor admirável,
Depois é o amor durável
Sempre em todo o estado.

como escreveu um cavaleiro da mesma milícia sagrada.

Depois anos volvidos, começou de entrar no espírito do novo agostinho a ideia de se passar ao mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, onde, ao tempo, havia notáveis professores de Filosofia e Teologia.

Munido de cartas de D. Gonçalo Mendes e de seu Professor em S. Vicente de Fora, entrou frei Fernando em Coimbra, nos fins de setembro de 1212, sendo mui bem recebido em Santa Cruz do Prior daquela casa, D. João Cesar, que para logo o entregou aos cuidados e ensino de D. Raimundo, varão dos mais doutros e virtuosos, que então havia naquele mosteior.

Ali permaneceu o jovem religioso até ao ano de 1221 em que, depois de u ano de combates, deliberado resolutamente, com fé vivíssima e santa, se passou à Ordem dos Menores de S. Francisco, que havia casa em Sto. António dos Olivais.

Fôra o caso demovente da mudança da Ordem a chegada a Coimbra de Afonso Pires de Arganil, em 1220, mandado de Tarifa, na Espanha, por ordem do Infante D. Pedro, o aventuroso irmão de Afonso II, com as cabeças dos cinco Mártires de Marrocos, os Franciscanos ali mortos pela Fé de Cristo, Acúrcio, Adjuto, Bernardo, Pedro e Otto.

(continuação, aqui)

Os cinco mártires de Marrocos

13/06/12

Sto. ANTÓNIO DE LISBOA, DOUTOR DA IGREJA - 13 de Junho

"SANCTUS ATO' ULIXBONENSIS"

Hoje, dia 13 de Junho de 2012, festejamos Sto. António de Lisboa (ou de Pádua - é provavelmente o único santo a ter duas designações oficiais).

Como vai sendo costume, Deus tem marcado a Portugal com este número 13 (vá-se lá saber o motivo).

Festejamos um Doutor da Igreja, patrono secundário de Portugal (sendo o primeiro a Imaculada Conceição, Rainha de Portugal) e chefe militar do Brasil (por iniciativa do saudoso D. João VI).

Real Convento de Mafra
(dedicado à Imaculada Conceição e a Sto. António de Lisboa)

Em 1946, o Papa Pio XII declara Sto. António de Lisboa Doutor da Igreja:


Carta Apostólica
EXULTA LUSITANIA FELIX
Pio XIIPara perpétua memória

"Exulta, ó feliz Lusitânia; regozija-te, feliz Pádua, porque a terra e o céu vos deram um homem que, qual astro luminoso, não menos brilhante pela santidade da vida e pela insigne fama dos milagres do que pelo esplendor da doutrina, iluminou e continua a iluminar todo o universo!

António nasceu em Lisboa, a primeira cidade de Portugal, de pais cristãos, ilustres por virtude e sangue. Pode deduzir-se de muitos e certos indícios que desde os primeiros alvores da vida, foi abundantemente enriquecido pela mão do Omnipotente com os tesouros da inocência e da sabedoria.

Ainda muito jovem, tendo vestido o hábito monástico entre os Cónegos Regulares de Santo Agostinho, durante onze anos dedicou-se com o maior empenho a enriquecer a sua alma com as virtudes religiosas e o seu espírito com a sã doutrina. Elevado depois à dignidade sacerdotal por graça do céu, enquanto vai aspirando à vida mais perfeita, os cinco Protomártires Franciscanos em missão de Marrocos consagram com seu sangue os princípios da Religião Seráfica.

E António, cheio de entusiasmo por triunfo tão glorioso da fé cristã, sentindo-se inflamado de vivíssimo desejo do martírio, (vestido o hábito franciscano), dirigiu-se contente numa nau a Marrocos e chegou felizmente às praias africanas.

Vítima, no entanto, pouco depois, de grave enfermidade, viu-se obrigado a retomar a nau para voltar à pátria. Desencadeando-se então formidável tempestade, e sendo levado para uma e outra parte nas asas do vento e das ondas, finalmente, por disposição divina, é arrojado ao mais remoto extremo da costa italiana. Dali, desconhecendo o lugar e as pessoas, pensou em dirigir-se à cidade de Assis, onde então se celebrava o Capítulo Geral da Ordem dos Menores.

Chegado ali, teve a dita de ver e conhecer o Seráfico Pai São Francisco, cujo dulcíssimo aspecto o encheu de consolação e o incendiou de novo ardor seráfico. Tendo-se divulgado mais tarde a fama da celestial doutrina de António, o mesmo Seráfico Patriarca, ao tomar dela conhecimento, confiou-lhe o ofício de ensinar Teologia aos seus frades, mandano-lhe este suavíssimo diploma: "A Frei António, meu bispo, Frei Francisco deseja saúde.

Apraz-me que ensines aos frades a sagrada Teologia, contanto que neste estudo não extingas o espírito da santa oração e devoção, como na Regra se prescreve''.

António cumpriu fielmente o ofício do magistério, e deve considerar-se o primeiro professor da Ordem Franciscana. Ensinou primeiro em Bolonha, então primeira sede dos estudos; depois em Tolosa e, finalmente, em Montpellier, onde igualmente floresciam os estudos.

António ensinou a seus irmãos, recolhendo frutos abundantíssimos e, como lhe ordenara o Seráfico Patriarca, não deixou esmorecer o espírito da oração, antes o Santo de Pádua procurou instruir os seus discípulos não só com o magistério da palavra, mas ainda muito mais com o exemplo duma vida santíssima, conservando e defendendo especialmente o branco lírio da pureza virginal.

E Deus não deixou de lhe manifestar várias vezes quanto foi estimado pelo Cordeiro Jesus Cristo este amor que tinha à pureza. E fetivamente, enquanto Antônio estava rezando solitário na sua cela eremítica, todo absorto com o espírito em Deus e com os olhos voltados para o céu, eis que, de repente, num raio de luz lhe aparece o Divino Menino Jesus, cingindo-se ao colo do jovem franciscano, e com os seus bracinhos cumula de carícias o nosso Santo que, anjo em carne humana, arrebatado em suavíssimo êxtase, vai pascendo entre os lírios' (Cant 2,16) junto com os anjos e com o Cordeiro Divino.

Os autores coevos dão testemunho da muita luz que brilhou na doutrina de Antônio, aliada da pregação da palavra divina, e com eles os autores mais recentes que unanimemente celebram com altos louvores a sua sabedoria e exaltam até ao céu a sua robusta eloquência.

Quem atentamente percorrer os "Sermões" do paduano, descobrirá em Antônio o exegeta peritíssimo na interpretação das Sagradas Escrituras e o teólogo exímio na definição das verdades dogmáticas, bem como o insigne doutor e mestre em tratar as questões de ascética e de mística - tudo o que, como tesouro da arte divina da palavra, pode prestar não pouco auxílio, especialmente aos pregadores do Evangelho, pois constitui rica mina de onde os oradores sacros podem extrair as provas, os argumentos oportunos para defender a verdade, impugnar os erros, combater as heresias e reconduzir ao recto caminho.

Ademais, como António costumava confirmar as suas palavras com passos e sentenças do Evangelho, com pleno direito merece o título de "Doutor Evangélico". De fato, de seus escritos, como de fonte perene de água límpida, não poucos Doutores e Teólogos e oradores sacros têm extraído, e podem continuar a extrair, a sã doutrina, precisamente porque vêem em António o mestre e o doutor da Santa Mãe Igreja.

Sisto IV, na sua Carta Apostólica Immensa, de 12 de março de 1472, escreve o seguinte: "O bem-aventurado Antônio de Pádua, como astro luminoso que surge do alto, com as excelentes prerrogativas dos seus méritos, com a profunda sabedoria e doutrina das coisas santas e com a sua fervorosíssima pregação, ilustrou, adornou e consolidou a nossa fé ortodoxa e a Igreja católica".

Igualmente Sixto V, na sua Bula Apostólica de 14 de janeiro de 1486, deixou escrito: "O bem-aventurado Antônio de Lisboa foi homem de exímia santidade..., e cheio também de sabedoria divina".

Além disso, o nosso imediato predecessor Pio XI, de feliz memória, na sua Carta Apostólica Antoníana Sollemnia, publicada em l de março de 1931 por ocasião do sétimo centenário da morte do santo e dirigida ao Exmo. Sr. D. Elias da Costa, então Bispo de Pádua e agora Cardeal da Santa Igreja Romana e Arcebispo de Florença, celebrou a divina sabedoria com que este apóstolo franciscano se dedicou a restaurar a santidade e a integridade do Evangelho.

Apraz-nos também recordar da mencionada carta do nosso predecessor as seguintes palavras: "O taumaturgo de Pádua levou à sociedade do seu proceloso tempo, contaminada por maus costumes, os esplendores da sua sabedoria cristã e o suave perfume das suas virtudes... O vigor do seu apostolado manifestou-se de modo especial na Itália. Foi este o campo das suas extraordinárias fadigas. Com isto, porém, não se quer excluir outras muitas regiões da França, porque António, sem distinção de raças ou de nações, a todos abençoava no âmbito da sua actividade apostólica: portugueses, africanos, italianos e franceses, a todos, enfim, a quem reconhecesse necessitados do ensinamento católico. Combateu depois com tal ardor e com tão feliz êxito contra os hereges, isto é, contra os Albigenses, Cátaros e Patarenos, na época enfurecidos quase por toda a parte a tentarem extinguir no ânimo dos fiéis a luz da verdadeira fé, que foi chamado com razão "martelo dos hereges".

Nem se pode calar aqui, pelo peso e importância que representa, o sumo elogio que Gregório IX tributou ao Paduano, depois de ouvir a pregação de Antônio e comprovar o seu admirável viver, chamando-o "Arca do Testamento" e "Arsenal das Sagradas Escrituras".

É igualmente mui digno de memória que, a 30 de maio de 1232, onze meses apenas depois da sua morte, o taumaturgo de Pádua seja inscrito no Catálogo dos Santos, e que, terminado o solene rito da canonização, o mesmo Gregório IX, segundo contam, tivesse entoado em voz alta, em honra do novo Santo, a antífona própria dos Doutores da Igreja: Ó grande Doutor, luz da Santa Igreja, Bem-aventurado António, amante da lei divina, rogai por nós ao Filho de Deus!

Foi este precisamente o motivo por que desde o primeiro momento se começou a tributar na sagrada liturgia a Santo António o culto próprio dos Doutores da Igreja, e no missal, "segundo o costume da Cúria Romana", se pôs em sua honra a missa dos Doutores. Esta missa, mesmo depois da correcção do calendário, introduzida pelo Pontífice São Pio V em 1570, nunca deixou de se usar até nossos dias em todas as famílias franciscanas e nos cleros das dioceses de Pádua, de Portugal e do Brasil.

Pela mesma razão de tudo quanto até agora temos dito, logo depois da canonização de António, se impôs o costume de apresentar à veneração do povo cristão, na pintura e na escultura, a imagem do grande apóstolo franciscano, levando em uma das mãos ou perto um livro aberto, índice da sua sabedoria e da sua doutrina, e tendo na outra uma chama, símbolo do ardor da sua fé.

Por isso, a ninguém deve admirar que não somente toda a Ordem franciscana, em especial por ocasião dos seus Capítulos Gerais, mas também muitos ilustres personagens de todas as classes e condições tenham exprimido muitas vezes o vivo desejo de ver confirmado e estendido a toda a Igreja o culto de Doutor, desde há séculos tributado ao Taumaturgo de Pádua.

Estes desejos intensificados principalmente por ocasião do sétimo centenário da morte de Santo António, em vista também das honras extraordinárias a ele tributadas, a Ordem dos Frades Menores, primeiro ao nosso imediato predecessor Pio XI e recentemente também a Nós, apresentou súplicas ardentes para que nos dignássemos contar a António entre os Santos Doutores da Igreja.

E como para exprimir o mesmo desejo concorre também o sufrágio tanto de muitos Cardeais da Santa Igreja Romana, de Arcebispos e Bispos, de Prelados, Ordens e Congregações religiosas, como de outras doutíssimas personagens eclesiásticas e seculares e, finalmente, de mestres de Universidades, instituições e associações, julgamos oportuno confiar ao exame da Sagrada Congregação dos Ritos assunto de tanta importância.

Esta Sagrada Congregação, mostrando-se, como costuma, disposta a seguir as Nossas ordens, elegeu uma Comissão especial e oficial, para que fizesse exame cuidadoso da proposta. Pedido, pois, e obtido em separado e depois dado à estampa o voto de cada um dos comissionados, não faltava mais que interrogar os membros da Sagrada Congregação sobre se, dadas as três condições que o Nosso predecessor Bento XIV requer no Doutor da Igreja universal, isto é, santidade insigne, eminente doutrina celeste e declaração pontifícia, julgava que se podia declarar Santo António Doutor da Igreja universal.

Na sessão ordinária celebrada no Vaticano a 12 de junho de 1945, os Eminentíssimos Cardeais encarregados dos assuntos da Sagrada Congregação dos Ritos, depois que o Nosso amado filho Rafael Carlos Rossi, Cardeal-Presbítero, Secretário da Sagrada Congregação Consistorial e relator desta causa, fez sobre ela o devido relatório, e depois de ter ouvido o parecer do Nosso amado filho Salvador Natucci, Promotor Geral da Fé, deram o seu próprio assentimento.

Estando assim as coisas, Nós, por Nossa espontânea e boa vontade, secundando o desejo de todos os Franciscanos e de todos os demais citados, pelo teor da presente carta, de ciência certa e com madura deliberação e com a plenitude do poder apostólico, constituímos e declaramos a Santo António de Pádua, Confessor, Doutor universal da Igreja, sem que possam obstar as Constituições e Ordenações Apostólicas e qualquer outra coisa em contrário. E isto o estabelecemos, decretando que a presente carta deva ser e permanecer sempre firme, válida e eficaz, e surta e obtenha o seu pleno e inteiro efeito, que assim, e não de outra maneira se deva julgar e definir; como também, a partir deste momento, declaramos inválido e nulo tudo quanto porventura intente contra as preditas disposições qualquer pessoa ou autoridade por conhecimento ou por ignorância.

Dada em Roma, junto de São Pedro, sob o anel do Pescador, no dia 16 de janeiro, festa dos Protomártires Franciscanos, no ano de 1946, sétimo do nosso Pontificado."

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