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26/10/18

O MASTIGÓFOTO - ("Inventários") b

(continuação da parte a)

As "Côrtes Constitucionais", ou "Côrtes Constituintes", de 1820 não têm qualquer poder e autoridade, são nulas, irregulares, ilegítimas, sectárias, escandalosas e afronta gravíssima a Portugal. Infelizmente, esta ofensa maçónica-liberal foi tida com autoridade válida por D. Pedro de Alcântara e sua gente no Brasil.

Tremam os Pedreiros Livres Portugueses!! A causa do altar é a mesma do Trono, e a quem despeja o altar do que é seu, quem propõe ao Soberano, que se desligue do Sacerdócio, que o deteste, que o esmague com pesadíssimas contribuições, está bem longe de ser amigo do Rei e do Trono! Forte receio é este que acompanha certos homens de que parecerão desviar-se das Luzes do Século se derem mostras de que são favoráveis à Igreja!!! Antes querem parecer Jansenistas, Parienses e Mações do que bons Católicos! Não podem renunciar o leite das pestilenciais doutrinas que beberam no seu Gmeiner, no seu Dannemair, e agarrados à Soberania do povo, que se lhes meteu nos cascos para nunca mais sair deles, escudam-se talvez neste princípio abominável para quererem ainda sustentar os monstruosos excessos das chamadas Côrtes Constitucionais!!! Tenho-os poupado em demasia, porém chegará uma vez o dia fatal para esses Jacobinos encobertos, ou incautos seguidores da Luz, que para não desmancharem a sua fortuna, ousam muitas vezes mentir ao Soberano, carregando sobre os mais fraco, e humilhando cada vez mais, o que já não é nem sombra do que foi no reino do Senhor D. João V, ou ainda no do Senhor D. José I que tendo para fazer as maiores despesas ou reedificações de Lisboa, e na criação de um exército, nem por isso se lembrou de impor contribuições à Igreja Lusitana! Igreja desditosa! Em paga dos teus inauditos sofrimentos no regime constitucional, é ameaçada de sucumbir ainda aos esforços da Pedreirada!! Eu bem sei onde a maioria do Congresso Demoníaco aprendeu, que só para satisfazer o povo, e acautelar o escândalo dos pequenos é que se deviam requerer Bulas para a extinção dos Mosteiros! .. Até sei quem ensinou a um dos mais campanudos Legisladores (o que fazia mui bem o papel de Asmodeu), que nós tínhamos neste reino tantos Papas, quantos eram os Bispos! Provera a Deus, que eu não soubesse mais nada! Cai-me a pena da mão à força de horror e mágoa…. que forçosamente se apodera de mim, que conheço como os dedos das minhas mãos, todos esses paus de Laranjeira, as suas artes e manhas… e que por isso hei de agora desafogar um pouco na descrição do que é ser.

(Índice da obra)

10/02/17

CONTRA-MINA Nº 45: Verdadeiros Interesses da Espanha ... (II)

(continuação da I parte)
 
Ora uma das primeiras necessidades, e por certo o maior interesse das almas generosas, é o de se mostrarem agradecidas aos seus benfeitores, quando estes sofrerem, e quando padecem; quando estão ameaçados de morte, é que mais cresce o empenho, e o desejo de satisfazerem uma dívida, que só é pesada aos corações vis, rasteiros, e degenerados...
 
Fernando I de Leão, o Magno
Temos acudido à Espanha todas as vezes que ela nos chamou, ou careceu do nosso auxílio. Portugueses, (e que Portugueses!) foram grande parte na tomada de Coimbra por Fernando Magno, assistiram à expugnação de Toledo, combateram em Alarcos, apressaram o rendimento de Sevilha, e derrotaram em 1340 um dos maiores Exércitos, que os Mouros puseram em Campo, e que tal medo incutira ao Rei Castelhano, que mandou expressamente a este Reino a Soberana sua Consorte, para que instasse com seu Augusto Pai o Senhor D. Afonso IV, a fim de que os Portugueses o livrassem do apuro, em que se via; e o nosso Poeta, que referindo este caso não desmente um só ápice a verdade histórica, põe na boca dessa aflita, e consternada Rainha as seguintes frases:
 
Por tanto, ó Rei, de quem com apuro medo
O Corrente Mulucha se congela;
Rompe toda a tardança; acude cedo
À miseranda gente de Castela:
Se esse gesto, que mostras claro, e ledo,
De Pai o verdadeiro amor asselha,
Acude, e corre, Pai, que se não corres,
Pode ser que não aches quem socorres.
 
Acudiu efectivamente o Rei Português, e seguiu-se a Victória do Salado. Mas para que é acumular sucessos antigos, de que por tantas vezes me tenho recordado neste Periódico? ... Os modernos têm sido muitos, e bem palpáveis, e sobejam para o caso presente, que por si mesmo demanda, e como exige dos nossos honrados vizinhos a mais estreita reciprocidade; mas caso dado, que a mais bem merecida gratidão fosse posta de parte, e que a Nação Espanhola, o que é incrível, nos desamparasse de todo, instam por outro lado motivos poderosíssimos, e dos quais mais costumam influir no coração humano, quero dizer, os interesses próprios; o que devereis expender um pouco mais largamente. Quem se persuadir, que o intento da Esquadrilha Maçónica é somente empossar-se de Lisboa, e do Reino de Portugal, não só poderá ser arguido de vista curtíssima; porém deverá ser chamado rigorosamente uma toupeira em assuntos, e matérias políticas... A tomada de Lisboa seria simplesmente um acessório, seria simplesmente um degrau, para subirem a coisas maiores. Já em 1820 se fez uma íntima aliança entre os Pedreiros Portugueses, e Castelhanos, e por sinal, que estes mandaram grandes somas, para que se efectuasse a Revolução do Porto em 1820... Desde então que se trata somente de se fazer uma espécie de maciço Liberal, um todo compacto, e unido, e que na Península das Espanhas haja um só Governo, e uma só Influência toda Maçónica, o que traz consigo necessariamente a deposição dos actuais Soberanos... Os Reis Fidelíssimos, e Católicos são estes Soberanos reprovados pela alta, e baixa Maçonaria, o que só de per si era bastante, para lhe conciliar o amor dos seus povos, e todo o empenho, que eles mostram pela segurança dos seus Tronos... Ainda em 1828 persistia a mesma ideia de se revolucionar a Península; e entre os papeis de um dos Generais da Tropa rebelde, se encontraram os mais decisivos argumentos, de que a desentronização dos Reis, fatais para a Maçonaria, isto é, do Senhor D. MIGUEL I, e do Senhor D. Fernando VII é, e nunca deixará de ser o alvo de todas as empresas Maçónicas, que disserem algum respeito à Península das Espanhas... Este segredo político, se ainda houver quem o trate, como tal, já deixou de o ser; e nas próprias Sessões do Parlamento Britânico, foi o Demosthenes Inglês, (hei de conservar-lhe o nome, que lhe deu o mais eloquente dos Portugueses antigos, e modernos) foi Lord Aberdeen, quem disse em voz clara, e inteligível, que o desígnio dos Liberais é fazerem D. Pedro de Alcântara, o ex-Defensor Perpétuo do Brasil, Rei, ou Imperador Constitucional das Espanhas, a quem D. Maria da Glória (acrescento eu) faria em Lisboa a mesma segunda, que o chamado Rei de Roma fazia a seu Pai Napoleão Bonaparte.
 
Daqui se vê, que o primeiro tiro, que a Esquadrilha disparar contra as fortificações, ou torres de Lisboa, deverá forçosamente ressoar até às alturas, até aos próprios cabeços das montanhas, que dividem a Força da Espanha; deverá ser o canhão d'alarme, que chame às armas todos os habitantes da Península, que forem capazes de as cingirem. Não venho a dizer com isto, que os Reinos da Espanha sejam necessariamente engolidos, em ar de almoço, pelos Exércitos Luso-Maçónicos. Dou muito pelos Voluntários Realistas de Espanha, onde não se come gato por lebre; dou muito pela firmeza, com que são mantidas invariavelmente as suas instituições políticas; dou muito pela nobre independência, com que se tem havido tantas vezes, a despeito de intrigas, e ameaças... dou tudo pela execução fiel do Plano "Anti-Maçónico, o mais simples e o mais terrível para a Seita. Metade na forca, e outra metade nula, fora dos Empregos, e sem o mais pequeno influxo, ou mostra de autoridade..". Nesta parte declaro-me absolutamente a favor dos Castelhanos, que ainda metidos entre dois fogos ostentariam as suas forças, e pode ser, que zombassem dos seus mais poderosos inimigos; o que tanto mais se reforça quanto é certo, que no caso imaginado, ou imaginário, que D. Pedro vencesse Portugal, teríamos necessariamente concluída em breves dias uma nova, e muito mais avultada emigração de tudo, quanto fosse verdadeiramente Português; e oferecendo os nossos braços, recursos, e vidas ao Rei Católico, ainda poderíamos tomar uma parte bem activa, e importante na Liberdade da Península.... Desenganem-se de uma vez os Leais Portugueses, e sirva esta ideia, não para lhes inspirar sentimentos de cobardia, e pusilanimidade; mas para lhes designar meramente, o que ainda nos resta nos casos mais infelizes, e desesperados.... Temos em a nossa retaguarda uma grande Nação Católica, e fiel ao nosso Deus, e aos seu Rei, e onde os Negros, ou Malhados nem sequer ousam abrir bico; onde os suspeitos são vigiados de contínuo, são excluídos da mais pequena governança, até nas mais insignificantes aldeias, e longe de porem pé em ramo verde, como fazem tantos, e tantos, que eu conheço em Portugal, nem sequer podem trazer consigo um triste canivete de aparar penas, visto que todas as armas, que toda a força, e autoridade está na mão dos verdadeiros Realistas único modo de quebrar as forças à Maçonaria, que tudo o mais é andar às cegas, ou perfeitamente às escuras, e em perigo contínuo de esmigalhar a cabeça, e perder a vida... Ora no meio de tudo isto não se pode negar, que terrível coisa é um mau vizinho ao pé da porta, e que certamente é do maior interesse para as Espanhas, que o ex-Defensor perpétuo do Brasil não chegue a ser Defensor momentâneo da Cidade de Lisboa... Muito enganada vem, ou quer vir a este Reino, a por muito desejada, Esquadrilha, que em seu próprio nome encerra a mais exacta, e verdadeira definição da sua índole, e dos seus principais intentos.
 
És: Quadrilha de Salteadores, que vens roubar, e por isso te acenam com os tinteiros, e castiçais de prata, em que esperas cavar a tua cobiça... És: quadrilha de Ladrões, que desejas continuar as pavorosas cenas, que se passaram desde 1820 até 1823, cresce-te a água na boca ao lembrarem-te aqueles 4800 réis diários, com que podias regalar-te, e até levantar casa de sobrado!! Comeste por uma vez... e como todos os bons Portugueses sabem optimamente, que és: quadrilha composta de aventureiros de todas as Nações, por isso ardem nos mais vivos desejos de te fazerem uma boa montaria, de que sairás, eu to afianço, bem escarmentada..... Ainda que sejas quadrilha numerosa, de uns 10$ [10.000?] como dizem, para este número sobejaram os chuços dos nossos Paisanos... e neste conflito não imitarás a sorte dos dez mil Gregos comandados por Xenofonte; e não se iluda o teu Comandante Grego com estas paridades Históricas, pois não há de escapar, nem meio; e tais migas aparecerão em nossas praias, que nem as do Campo de Alfarrobeira, que se fizeram do ensanguentado cadáver do malfadado Conde de Abrantes, lhe empatarão as vazas...
 
Desterro 11 de Janeiro de 1832.
 
Fr. Fortunato de S. Boaventura.
 
(Em o Número 44 deste Periódico Pag. 10 linha 32 onde se lê "Pio VIII" leia-se "Pio VII contra os Pedreiros Livres"; e pág. 11 linha 15 onde se lê "defender" leia-se "desfazer".)
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LISBOA
Na Impressão Régia. 1832
Com Licença

14/07/16

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 31 (I)

O PUNHAL DOS CORCUNDAS

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Nº. 31
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Ostendam gentibus nuditatem tuam

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O Axioma dos Pedreiros, Ou o Povo Soberano

Pois também eu, rançoso Teólogo, ousarei profanar o santuário impenetrável das Questões Políticas! Não admira, porque sou membro de uma Faculdade, que no sentir do Jurisperito de Setúbal foi sempre avessa de Ideias Liberais; e quando eu me pretendesse justificar da nota de ousadia, que fácil empresa tomava, se folheando o repertório geral das Sandices, fosse dar com a extraordinária, e verdadeiramente feia asserção de um soldado, que por ignorar o Direito Canónico, se julgou hábil para dissertar sobre matérias Eclesiásticas!! Pois eu não terei a mesma autoridade para me introduzir onde me não chamam, qual tiveram esses Mordomos por devoção, que se apelidaram Línguas da Magistratura, da Nobreza, do Comércio, do Corpo Militar, e do próprio Clero!! Não, Senhor, eu tenho mais jus de tratar a questão do que os tais enxertados Procuradores de quem não sabia de tal honra. A questão do Povo Soberano é mais que política; é também religiosa, e como tal foi tratada há mais de cem anos pelo maior dos Teólogos modernos. Este Sansão literário, antes de existirem Rousseau, Pradt, e Constants, deu com todos os sofismas destes heróis em terra; e faz dó que o género humano fechasse os olhos à bemfazeja luz, que desde o século XVII começava a apontar-lhe a verdadeira origem de seus males presentes e futuros [portanto, andam descuidados aqueles que nestes séculos só olharam o que disseram e fizeram os desencaminhados, e não ouvem o que foi dito pelos ortodoxos da época, preferindo recorrer aos ortodoxos incompletos muito posteriores]. Ora pois esta questão de alto cothurno há de ser tratada com vagar e madureza, como está pedindo a sua incontestável gravidade, pois uma vez que se cortem as verdadeiras raízes da árvore da liberdade, que remédio terá esta pobre senão esmorecer, definhar-se, e secar de todo? Começarei por alguns preliminares da questão, bem entendido que eu não falo a homens perversos e obdurados, falo somente aos que se deixaram iludir e arrastar daquela verdadinha, e que por felicidade são ainda Católicos.


Primeira proposição

"O respeito, a fidelidade, e a obediência que se devem aos Reis nunca se devem alterar por motivo nenhum." Quer isto dizer que se devem respeitar e servir constantemente, sejam eles como forem, bons ou maus. "Obedecei a vossos senhores, não somente quando eles são bons e moderados, mas também quando são ásperos e desabridos." (Epístola II de S. Pedro cap. 2, v. 18)

Periga o Estado, e o sossego público não tem nada de firme, se é permitido fazer levantamentos, por qualquer motivo que seja, contra os Príncipes.

A sagrada Unção está sobre eles, e o alto Ministério, que eles exercitam em nome de Deus, os preserva de todo o insulto.

Achamos David não só refusando atentar contra a vida de Saúl, mas tremendo por se ter atrevido a cortar-lhe a ponta do seu vestido, ainda que isto fosse para bom fim. "Deus me livre de eu levantar a minha mão contra o Unigénito do Senhor, e o coração de David ficou magoado, porque tinha cortado a ponta da cota d'armas de Saúl." (I Reis, c. 24, v. 6,7)

As palavras de Sto. Agostinho sobre esta passagem são notáveis. "Vós me argumentais (diz ele a Petiliano, Bispo Donatista) que aquele que não é inocente, não pode ter santidade; eu vos pergunto: se o Rei Saul não tinha a santidade do seu Sacramento e da Unção Real, que é o que causava nele veneração a David? Foi por causa desta Unção santa e sagrada que o honrou durante a vida; e lhe vingou a sua morte. E seu coração magoado tremeu, quando ele cortou a ponta do vestido deste Rei injusto. Estais vendo pois que Saúl, apesar de não ter inocência, não deixava de ter santidade, não a santidade de costumes, porém a santidade do Sacramento divino, que é santo ainda nos homens de maus costumes." (L. 2 Lit. 148 contra Petil.)

Chama-lhe Sacramento de Unção Real, ou porque ele dá este nome a todas as cerimónias sagradas, como é uso de todos os Padres, ou porque em particular a Unção Real dos Reis no povo antigo era um sinal sagrado instituído por Deus, para os fazer capazes do seu cargo, e para figurar a própria Unção de Jesus Cristo.

O que é todavia de mais importante é que Sto. Agostinho reconhece, fundando-se na Escritura, uma santidade inerente ao Carácter Real, que não pode ser apagado por algum crime.

Foi, diz ele, esta santidade, a que David, injustamente perseguido de morte por Saúl, David sagrado para lhe suceder, assim mesmo respeitou em um Príncipe reprovado por Deus, porque ele sabia que só tocava a Deus fazer justiça nos Príncipes, e aos homens o respeitarem o Príncipe, em quanto Deus o quiser conservar.

Por isso nós vemos que Samuel, depois de ter declarado a Saúl que Deus o tinha rejeitado, não deixa de o venerar. Disse-lhe Saúl: "Eu fiz mal; rogo-te porém que tomes sobre ti o meu pecado, e vás comigo para adorarmos o Senhor." Samuel lhe respondeu: "Eu não irei contigo porque rejeitaste a palavra do Senhor, e o Senhor também te há rejeitado, para que não sejas Rei de Israel. Samuel voltou as costas para se retirar, e Saúl pegou-lhe pela ponta do manto, que se rasgou. Samuel lhe disse "O Senhor separou de ti o Reino de Israel, e o deu ao teu próximo, que é melhor do que tu. Deus, poderoso e vitorioso, não se há de desdizer nunca, pois não é como um homem para se arrepender dos seus desígnios." Respondeu Saúl: "Pequei, honrai-me porém disante dos Anciãos do meu povo, e diante de todo o Israel, e voltai comigo, a fim de que eu adore o Senhor teu Deus." (I Reis, c. 15 v. 24 a 31)

Não se pode dizer mais claramente a um Príncipe que está reprovado; mas Samuel por fim se deixa comover, e consente em honrar Saúl diante dos Grandes, e diante dos povo, mostrando-nos por este exemplo que o bem público não permite que se exponha um Soberano ao desprezo.

Roboão trata muito mal o povo; e contudo a revolta de Jeroboão, e das dez tribos que o seguiram, ainda que permitida por Deus em castigo dos pecados de Salomão, não deixa de ser detestada em toda a Escritura, onde se declara: "Que voltando-se contra a casa de David, eles se revoltavam contra o Reino do Senhor, que ele possui pelos descendentes de David." ( II [?] c. 13, v. 5 a 8)

Todos os Profetas que viveram no governo dos maus Reis, Elias, Eliseu no tempo de Acab, e Jesabel em Israel; Isaias no tempo de Acaz, e Manessés; Jeremias no tempo de Joaquim, de Jeconias, e de Sedecias; numa palavra todos os Profetas no governo de tantos Reis ímpios e malvados, nunca falharam na obediência, nem inspiraram à rebelia, mas sempre à submissão e respeito.

Ouvimos Jeremias, depois da ruína de Jerusalém, e da total ruína do trono dos Reis de Judá, falar ainda com um profundo respeito de seu Rei Sedecias: "O Ungido do Senhor, que nós considerávamos como se fosse nossa própria respiração, foi prezo, por nossos pecados, quando nós lhe dizíamos: Viveremos à vossa sombra entre os gentios." (Lament. c. 4, v. 20)

Os bons vassalos não se julgavam dispensados do respeito que deviam ao seu Rei, nem depois que o seu Reino estava destruído, e que ele próprio foi levado cativo com todo o seu povo. Respeitavam ali nos ferros, e depois da queda do trono, o carácter sagrado da autoridade Real.

(a continuar)

09/05/16

NAQUELE CENTENÁRIO DA LUTA PELA TRADIÇÃO CATÓLICA

Ven. D. Manuel da Conceição Santos
O Conde do Ameal, mais conhecido pelo pseudónimo de João Ameal, dedica assim esta página, no seu livro "Um Apóstolo na Tormenta - D- Frei Fortunato de São Boaventura":

Ao Ex.mº Senhor

Digníssimo Arcebispo de Évroa

que tomou a admirável iniciativa de promover as Comemorações Centenárias, de louvor e desagravo, em honra de D. Frei Fortunato de São Boaventura;

que teve a gentileza de convidar-me a "falar sobre o grande exilado e grande vítima de ódios sectários" e a vingá-lo "das calúnias de que tem sido alvo";


e que proferiu, nas Exéquias Solenes de 16 de Dezembro, no púlpito da Sé Catedral de Évora, a magistral Oração Fúnebre daquele glorioso Prelados e Historiógrafo,

- ofereço, como testemunho de gratidão e homenagem, estas páginas escritas para servir os seus nobres intuitos e corresponder ao seu generoso apêlo.

11/08/15

FR. FORTUNATO DE S. BOAVENTURA RESPONDE A JOÃO RIBEIRO (II)

(continuação da I parte)

refeitório do Mosteiro de Alcobaça

IV

Afirma positivamente o meu Censor (pag. 5) que reconhece à Doação da Herdade de Alcobaça na era de 1191, e que só nega, que precedesse aquele Voto, que precedeu à tomada de Santarém, tal qual o refere Brito, e outros. O meu Censor a pag. 60 da sua Dissertação segunda, que foi impressa de ordem da Academia Real das Ciências em 1810, explicou-se desta maneira: "Toda a História das Ciências daquele Voto (de que não há vestígios na Carta genuína do Couto de Alcobaça) para não merecer crédito algum, prescindindo mesmo das sólidas razões, que já indiquei, e se expendem pelo A. do Elucidário da Língua P. tomo I, pág. 76, bastaria figurar principalmente nela Pedro Afonso etc.. Ora sendo certo, que no Arquivo do Mosteiro de Alcobaça há duas Cartas de Couto de Alcobaça, feitas no mesmo século, e dadas pelo mesmo Soberano, o Senhor D. Afonso Henriques, não se requer muita agudeza para se concluir, que o meu Censor tem uma destas por apócrifa, e agora é que sei positivamente que se trata da segunda, e não da primeira; e como esta se endereçou a um Prelado estrangeiro, e por outra parte nos consta a verdadeira razão, por que o Senhor D. Afonso Henriques obrou desta maneira, para que havemos de rejeitá-la? Fernão Lopes, e Cristóvão Rodrigues de Azinheiro valeram-se das antigas Crónicas; e com que direito havemos de receber a sua autoridade em um sem número de factos históricos, que nunca se provam por documentos, e sermos tão escrupulosos no que é relativo às proeminências do Mosteiro de Alcobaça? Também há tradições históricas mui respeitáveis, e se as quisermos abafar, e lançar por terra, só fundados em que não há documentos coevos, que as verifiquem, então abre-se uma porta franca ao ceptissimos histórico, e nada haverá firme em leais assuntos. Suponhamos que as antigas Crónicas, de que usou Fernão Lopes, tivessem cem anos de antiguidade, e que fossem composta no séc. XIV, e vinham por esta contra a distar bons duzentos anos da tomada de Santarém, assim mesmo terei para mim que são dignas de crédito em tudo aquilo, que não for contrário por documentos; e para ver que a maior parte das nossas verdades históricas se firmam em provas como esta, eu darei por exemplo a verdadeira época da tomada de Coimbra por D. Fernando magno. Não desdenho o meu Censor a autoridade das Crónicas, ou Cronicões; por quanto a pág. 4, e seguintes da primeira Dissertação já citada, produz o Conimbricense, ou o Livro da Noa, o Lamecense, e outros: deste último confessa ele, que fôra escrito no séc. XIII, e por tanto já em caminho, e pode ser que bem adiantado, para o séc. XIV: logo aqui temos distância considerável do ano de 1064, e não há só desta vez que ele se prevalece da autoridade dos três Cronicões, apesar de que um simples exame mui posteriormente aos factos, que precederam a erecção da Monarquia Portuguesa. Não me foge a opinião do eruditíssimo P. Flores, e de outros, que dão estes mais antigos, no que fazem por vingar-lhes o préstimo, e autoridade, e porque não direi outro tanto dos Cronicões, antigos, de que certamente se valeram os Lopes, e Azuraras? Enfim a Doação feita a um Prelado estrangeiro é coisa muito notável, para que não se lhe indaguem cuidadosamente os verdadeiros motivos; dão os nosso Historiadores este motivo, e posto que o não receberemos, e admitiremos como verdadeiro? mas porque arte a segunda Doação, versando-se sobre o mesmo ponto, nem sequer nos dá uns longes da existência da primeira? Porque à primeira, vistas as sempre fixas, e dominantes ideias dos Portugueses, que sempre fugirão até das mínimas sombras da sujeição a estrangeiros, e que só fôra concedida por motivos extraordinários, devia reformar-se por morte do glorioso S. Bernardo; e o silêncio, que tanto se estranha na Doação, é no meu entender mais um indício das nobres ideias, que vogavam naqueles ditosos, e para mim saudosíssimos tempos. Se o meu Censor quisesse olhar desapaixonadamente para a primeira Doação acharia naquelas palavras da genuína Doação Cautum Facimus vobis D. Bernardo Claravallensis Caenobii Abbati, et fratribus vestris, alguma coisa digna de especial consideração. Se o Senhor D. Afonso Henriques tratasse meramente de fundar um Mosteiro do Instituto de Cister, já tinha dentro do seu Reino mais de um Mosteiro do próprio Instituto, e o que é mais, e que não se trave a negar o Autor o Elucidário na pág. 77, tinha Monges Claravalenses, que por tais se qualificam na Doação de Podentes ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra; e se oferece a um Prelado estrangeiro a sua própria herdade, é porque alguma razão poderosíssima o determinou a este passo de tanta Religião, como generosidade própria de um tal Soberano. Fica para outro lugar a mui azeda, porém assaz merecida resposta, que deverá o audacíssimo Viterbo, que já principiei a combater, e que dará mui larga matéria a diversos Capítulos da minha História das fundações dos Mosteiros Cistercienses neste Reino, e nomeadamente a um, que tratará daquela palavra herdade, em que o sobredito Viterbo nimie indulsit genio suo; e por agora (visto que não quero se prolixo) notarei de passagem, que o Mosteiro de Alcobaça, conforme os antigos Cat. dos Abades, em 1650 já contava mais de quatrocentos anos, foi fundado em 1148, e como desde este ano até 1153, data da primeira Doação, os Monges não estiveram ociosos, por isso já neste último ano havia mais terreno cultivado, a que os Reis de Portugal costumaram sempre chamar seu, até depois de todas as solenidades, que ali se encontram naquela Doação.

V

A série dos adversários do Cronista Mor Fr. Bernardo de Brito, com que o meu Censor pretendeu atemorizar-me, não opus eu senão dois modernos, que me pareceram bastantes para se desfazer a impressão, que a lista do meu Censor causasse nos menos versados na nossa História Literária. Eu tinha feito um paralelo entre o doutíssimo António Ribeiro dos Santos, e o Cónego Regrante D. António da Visitação Freire, pois disputam, ou, para melhor dizer, tentaram um ponto, em que o primeiro seguiu a opinião de Fr. Bernardo de Brito, que o segundo impugnava; decidiu-se a vitória por António Ribeiro dos Santos (que não foi esta das mais gloriosas, que alcançou durante a sua vida), e por isso eu produzi a sua autoridade com tanta maior confiança, quanto esta certo, que António Ribeiro dos Santos vindicou a existência da Obra de Zacuto, que passava constantemente por ficção do Cronista Mor. Agora sou eu confrontado com o Pe. Freire, assim como António Ribeiro dos Santos o é com o extravagante, e paradoxista Padre Harduino! pela minha parte só direi, que cedo gostosamente as palmas do triunfo ao meu contendor, que tanto se recomendou à posterioridade pela sua descomedida sátira à pessoa, e obras daquele Cronista Mor. Ambos temos seguido uma estrada totalmente diversa; se ele caminhava para o norte, eu caminhava para o sul, se para o oriente, eu para o ocidente, e por isso nunca deveremos entrar em paralelo. Eu não sei escrever História Filosóficas, ou Romances, nunca saberia dizer, por exemplo, que Fr. Bernardo de Brito, que na data das Côrtes de Tomar contaria dez para onze anos, foi traidor à Sereníssima Casa de Bragança por ter feito versos ao Monarca Espanhol Filipe o Prudente, e menos saberia afirmar, que o Cronista, auxiliado do Pe. Roman de la Higuera, supusera, e fingira os próprios livros, que cobertos de pó jaziam há séculos na famosa Biblioteca Mediolanense... Frei Bernardo de Brito, o Português castiço, como lhe chama, e com assaz razão, o meu Censor, o primeiro, que levantou à sua Pátria o gloriosíssimo Padrão de uma História geral, o que resistiu mais de uma vez a escrever as suas Obras em Castelhano, querendo antes ser menos lido, e admirado, que parecer menos Português do que realmente era; um Varão insigne, e a todas as luzes respeitável, que mereceria, e teria estátuas em Roma, e Atenas.... é arguido de traidor à Real Casa de Bragança, e é arguido pelos meus contemporâneos, como se estes fossem os verdadeiros tipos da lealdade Portuguesa!! Se não fosse agora o parce vivis alque sepultis, que vasto campo se abria ao meu estilo declamatório?

(continuação, III parte)

05/06/15

FR. FORTUNATO DE S. BOAVENTURA RESPONDE A JOÃO RIBEIRO (I)

RESPOSTA
ÀS
REFLEXÕES
DO
CONSELHEIRO JOÃO PEDRO RIBEIRO
SOBE
A BREVÍSSIMA RESPOSTA
DO
P. M. Fr. FORTUNATO DE S. BOAVENTURA
DADA POR
Fr. FORTUNATO DE S. BOAVENTURA


LISBOA
Na Impressão Régia
1830
Com Licença



RESPOSTA ÀS REFLEXÕES
DO CONSELHEIRO
JOÃO PEDRO RIBEIRO

I

Antigo Convento de S. Bento da Saúde; depois da extinção forçada das Ordens
Religiosas, a Mando de D. Pedro de Alcântara, foi feito sede das Corte Gerais
da Nação. Hoje é conhecido por Palácio de S. Bento - sede da Assembleia
da República  em Portugal.
Começando pela Introdução digo e afirmo, que é a coisa mais notável, que tem aparecido neste governo. Começa por erguir a minha Ordem de duas faltas gravíssimas: 1.ª porque não mandou alguns Monges a Lisboa, para estudarem os elementos da Arte Diplomática: 2.º por lhe faltarem Censores inteligentes, que examinassem a minha História Chronológica, e Crítica da Real Abadia de Alcobaça. Respondo à primeira: Não os mandou, porque tem na Capital do Reino apenas um começo de fundação, sem os necessários rendimentos para a subsistência de Monges, a ponto de ser indispensável, que os Mosteiros da Ordem contribuem, para que ali exista um Esmoler Mor, e um Procurador Geral. Se tivéssemos em Lisboa um Mosteiro, como o de S. Bento da Saúde, não teríamos faltado a esta aplicação, posto que, a dizer a verdade, não era preciso, que para este fim nos deliberássemos a fazer grandes sacrifícios. Quando entrei na minha Ordem (1794) tinha ela uns três Paleógrafos distintos; e se o Cronista dos Cistercienses Fr. Manuel de Figueiredo mereceu os elogios, que se lhe fazem na pág. 301 das memórias da Literatura Portuguesa, publicadas pela Academia Real das Ciências de Lisboa, como poderia ele gozar os créditos de Historiador, se lhe faltasse um dos primeiros subsídios para escrever em tais matérias? Em que Aula estudou, ou aprendeu o meu Censor o que sabia ao tempo, e que foi nomeado Lente de Diplomacia? Foi tudo nascido da própria, e nunca assaz louvada indústria; outro tanto sucedeu a Fr. António Brandão; e posto que mui longe de ombrear com este grande homem, dou graças a Nosso Senhor, que me concedeu os meios necessários para estudar a Arte Diplomática, de que tenho dado tais quais provas no meu Comentário Latino sobre os Manuscritos da Livraria do Mosteiro de Alcobaça, e na publicação de três tomos da Colecção dos Inéditos Portugueses da mesma Livraria; e o caso é, que nenhuma destas Obras se poderia fazer sem uma contínua, e aturada leitura de Códices, que foram todos escritos entre os séculos XI e XV.

II

Pelo que toca à segunda arguição, direi, e não o direi sem protestar o mais vivo agradecimento aos meus Prelados, que assim estes, como o todo da minha Ordem tiveram para si, que eu não seria tão arrojado, e louco, que sem ter um cabedal de notícias, ao menos suficiente, para entrar nas grandes empresas Históricas, de que estava, e ainda estou encarregado, me abalançaria a enxovalhar o meu crédito de envolta com o dos meus Irmãos. Entretanto não me faltou a Censura, sabiamente determinada por leis da minha Ordem; e dois Professores escolhidos de entre os melhores, que ela tem, interpuseram o seu juízo sobre a minha Obra, antes que fosse cometida às Censuras, exigidas por determinação das Leis deste Reino. Considero-me, e gostosamente me considero, numa distância quase infinita dos grandes homens, que me precederam na minha Ordem, e repare o meu Censor, que se eu me dei a escrever História sem os mais importantes, e absolutamente indispensáveis subsídios para este fim, é certíssimo que nunca será possível, que ofusquem o nome de Brito, Bradões, Santos, e Figueiredo, segundo afirma (que oxalá fosse tão verdadeira, como obsequiosamente) o meu Censor pág. 15, em conclusão do seu Opúsculo!

III

Da primeira Reflexão do meu Censor, e que responde ao 1º§ da minha Brevíssima Resposta, se conclui a olhos vistos a causa verdadeira, porque tanto se insiste, e porfia em que os Coutos de Alcobaça fossem povoados ao tempo, em que se fez a primeira Doação do Senhor D. Afonso Henriques. Parece dar-se a entender, que o Soberano lhe doou meramente a sua herdade, e que o mais foi usurpado pelos Monges, que não seguiram a modestíssima reserva dos Cónegos Regrantes de Santa Cruz de Coimbra, que sendo-lhes doada a herdade de Tamuge em Torres, até agora se tem contentado com ela. Pergunto ao meu Censor, se algum ocioso quisesse impugnar os títulos, por que ele é Cónego, e Lente, é Cronista do Ultramar, é Conselheiro, ficaria ele de bom ânimo, e se lhe chegassem ao vivo, deixaria de queixar-se de tão monstruosa injustiça? Não se encheria de mais justa indignação, a ponto de não evitar o próprio estilo declamatório, que mais de uma vez me tem lançado em rosto? Desengane-se o meu Censor, e com ele toda a grei de conspiradores, que tem jurado arrasar, e nivelar com o chão o antigo Mosteiro de Alcobaça, desenganem-se todos por uma vez, que a verdade nua, e crua é esta. À excepção e alguns pedaços de terreno cultivado nos distritos de Porto de Moz, e Óbidos, tudo o mais era ermo, e inculto, e que os próprios nomes de Cela Velha, Cela Nova, Vestiaria, Valado, Salir do Mato, e outros muitos estão mostrando a novidade das Povoações, e os principais autores, a que elas se devem; e para dizer tudo por uma vez, tal era a penúria de argumentos, em que laborava o meu Censor, que a pág. 9 das suas Breves Reflexões escrevia assim: "Como poderia o Conde Henrique sustentar as guerras, que teve; como seu filho conquistar Santarém, sitiar Lisboa, e vencer em Ourique cinco Reis Mouros, se do seu estreito Principado fossem inclusas, e inabitadas terras tais como as de Alcobaça?" Pois não é líquido, e fora de toda a controvérsia, que os Portugueses das Províncias do norte foram os conquistadores da Província da Estremadura? Se a Praça de Santarém foi escalada por duzentos e cinquenta Portugueses, era talvez necessário, que forçosamente se completasse este número com as imaginadas recrutas dos Coutos de Alcobaça? Não dariam as Províncias do Norte esse apoucado número de combatentes, que se mediram no Campo de Ourique com o poderio imenso da Mauritânia? E que maior prova de moderação posso eu dar, que o remeter-me ao silêncio, e abster-me de censurar neste lance, e mui amargamente, o meu Censor? Sem haver mudança de folha acharei coisas mais sérias, e mais dignas de uma completa refutação.

(continuação, II parte)

10/05/15

MEMÓRIAS PARA A VIDA DA BEATA MAFALDA (I)

MEMÓRIAS PARA A VIDA DA BEATA MAFALDA

de Fr. Fortunato de S. Boaventura

As três irmãs Beatas, filhas de D. Sancho I de Portugal: Teresa, Sancha e Mafalda.

Capítulo I
DOS PAIS, NASCIMENTO E PÁTRIA DA RAINHA D. MAFALDA

Muito acima do que permitem os meus débeis talentos se eleva hoje a minha pena, ousando escrever as acções memoriáveis da Rainha D. Mafalda. Elas são tantas em número, e cada uma de tal merecimento, que os meus trabalhos hão-de ser antes uma tosca e desengraçada relação, que fatiga os Leitores sem contribuir para o seu gosto e utilidade, do que uma história bem pensada, a qual discutindo a razão dos factos sobre unir ao preço do historiador o preço, ainda mais estimável, do bom siso e da reflexão.

Não obstando, porém, a falta do engenho, discrição, ciência dos factos e outras qualidades, que formam o historiador, a força de um preceito, a que não soube resistir, me faz lançar mãos desta obra com empenho e ardor; e confiado na protecção e assistência do Senhor, que para as obras mais importantes escolhe muitas vezes os mais débeis instrumentos, começo a falar dos pais da Rainha D. Mafalda, segundo a promessa que fiz à testa do presente capítulo.

O venerável D. Afonso Henriques, fundador da Monarquia portuguesa, depois de rechaçadas por tantas vezes e com tanta glória as forças da Mauritânia, havia segurado a posse deste Reino, quando escolheu para esposa de seu filho D. Sancho a Rainha D. Dulce, filha de Raimundo Berenguer, Conde de Barcelona, e de Petronila, Rainha herdeira de Aragão, a quem seu Pai Ramiro, o Monge, tinha deixado a Coroa e as fortunas do século para continuar as profissão do Instituto Beneditino, que nos seus primeiros anos abraçara.

Esta união foi a mais ditosa, e de quantas figuram na nossa história foi também a mais fecunda em prodígios de santidade, pois dela nasceram o imediato sucessor da Coroa (D. Afonso II, Rei de Portugal), dois Soberanos (D. Pedro Conde de Urgel e Soberano de Malhorca, e D. Fernando Conde de Flandres), uma Esposa (D. Berenguela) de Valdemaro II Rei de Dinamarca, além de outros (D. Henrique e D. Raimundo) que na idade tenra foram chamados para uma Coroa de eterna duração, a mesma que as Rainhas suas irmãs D. Teresa, D. Sancha (D. Teresa foi Rainha de Leão, mas, obrigada a separar-se de Afonso IX, seu esposo, recolheu-se no célebre Mosteiro de Lorvão, onde plantou a Reforma cisterciense, e morreu em cheiro de santidade - assim ela, como sua irmão a Rainha D. Sancha, que fundou e governou o Mosteiro de Celas da mesma Reforma, foram beatificadas pelo S. padre Clemente XI), D. Branca preferiram às deste mundo, e nesta sucessão ocupa um lugar bem distinto a Rainha D. Mafalda, de quem vou tratando.

Sobre a ordem do seu nascimento variam muito as opiniões dos historiadores. um deles, que dos nacionais é o mais antigo que pode consultar-se (D. Pedro Conde de Barcelos, filho do Rei Dinis no seu Nobiliário de Portugal, que suplementou o cronista-mor João Baptista Lavanha, e foi publicado em Roma no ano de 1640, a pág. 30), nomeia a Rainha D. Mafalda antes de nomear as Rainhas B. Teresa e B. Sancha; não falando porém na discrepância, que se observa entre os nossos historiadores, eu sigo que das três beatificadas Rainhas D. Mafalda foi a última na ordem do nascimento. Moveram-me a abraçar esta opinião não só as disposições testamentárias do Rei D. Sancho I, onde se nomeia D. Mafalda depois de se nomearem as Rainhas D. Teresa e D. Sancha, mas também algumas doações (doação que ElRei D. Sancho e a Rainha D. Dulce fizeram do lugar de Ota ao Mosteiro de Alcobaça, lavrada em Março de 1189, na qual aparecem as duas Rainhas D. Teresa e D. Sancha, mas não aparece a Rainha D. Mafalda, o que faz ver que fez o mesmo Rei a Guterre Anes de quatro casais na Anadia, em Abril de 1209, e nesta figura em último lugar a Rainha D. Mafalda, o que faz ver que era mais nova de suas irmãs. Uma e outra doação vêm apontadas a pág. 170 e seg. do 4º tomo da História Genealógica de Portugal, que escreve D. António Aetano de Sousa) que nos restam daquele tempo, as quais afiançam uma verdade já defendida pelo sábio cronista Fr. António Brandão.

É mais dificultoso assinar o tempo e o lugar do seu nascimento; e, havendo nestes pontos a maior obscuridade, não ouso apontar com certeza uma e outra circunstância. Não pensava deste modo um particular historiador (José Pereira Baião na obra que intitulou Portugal Glorioso e Ilustrado, etc., e que saiu em Lisboa, no ano de 1727) da sua vida, o qual marca o nascimento em 1195, especificando além disto o dia 13 de Maio, que foi na sua opinião o mesmo em que ela nasceu e ultimamente lhe dá por berço a famosa e antiga cidade de Coimbra, que era naqueles tempos a Côrte dos Soberanos portugueses. Nesta parte, em que a opinião é mais bem fundada, não passa todavia de simples ainda que plausível conjectura, e seja muito embora provável que a Rainha D. Mafalda nascesse em Coimbra, certeza porém deste facto nem a descobri, nem a pude alcançar, mormente quando é notório que o Rei D. Sancho I e sua esposa e Rainha D. Dulce saíram da capital e viajaram por muitas partes do Reino.

No que respeita à circunstância do tempo, não vi até agora nem historiador, nem documento, donde se pudesse alcançar tamanha clareza; vendo porém, que a Rainha D. Mafalda ainda não figura numa doação lavrada em 20 de Fevereiro de 1195, quando ela já figura noutra doação feita no mês de Junho de 1196, posso concluir sem violência, ou temeridade, que a Rainha D. Mafalda nasceu no intervalo de tempo, que se conta desde 20 de Fevereiro de 1195 até Junho de 1196; e desta sorte nem absolutamente roubei à cidade de Coimbra uma das suas mais belas prerrogativas, nem à Rainha D. Mafalda o incidente de haver nascido no mesmo dia em que o taumaturgo português Santo António ilustrou a cidade de Lisboa com o seu nascimento.

(continuação, II parte)

24/03/15

A CONTRA-MINA Nº 1: Razão do Título da Obra (I)

CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,

por

Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.

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Nº 1
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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Razão do Título da Obra

O modo de proceder dos Mações foi por largos anos oculto e subterrâneo, e posto que hoje trabalhem mais à cara descoberta é só no momento das suas victórias; pois como refinados Materialista, que todos eles são, e sem a mais leve esperança além desta vida presente, receiam muito, em frase própria deles, comprometer-se. Nestas ideias é que os assassinos de Condeixa mandaram antecipadamente um seu Emissário, para verificar se os desgraçados Lentes, e sua comitiva levariam armas de fogo, que se porventura levassem um só bacamarte, uma só espingarda, por certo que ficaria a empresa adiada para quando não houvesse o tal mais que afrancesado comprometimento. É pois fora de toda a dúvida, que o plano antigo e primordial da Seita, ainda hoje se desempenha, e que um grande número de Sócios e Irmãos trabalhe a coberto de dia, e ainda de noite; e tais conheço eu, que têm feito o seu papel de Realistas magistralmente, e de um modo capaz de enganarem, já se sabe, aqueles, que ignoram os factos anteriores de suas prodigiosas vidas... São estes ainda piores e mais daninhos, que os Mações declarados, ou já sem máscara, nem cobertura, que os defenda, e prosseguindo constantemente em seu primeiro ofício de Pedreiros, Mineiros, ou Sapadores, fazem de dia tais serviços à Causa da Realeza, que mui facilmente se possam voltar contra ela, e destruí-la; e se congratulam de noite pela facilidade, com que os tolos, ou profanos engoliram a peta, e julgaram por sinceros amigos de Realeza, o que tem sido, e hão-de ser até à morte os seus mais encarniçados inimigos. Sendo pois certo e inconcusso, que os Ministros de cá trabalham, e trabalharão incessantemente pelo bom êxito do rebentar da Mina, ou do Mina de lá, que mais bem achado título se pode dar a um novo Periódico do que este de Contra-Mina? Dei a minha satisfação, e já entro na matéria.

Do principal obstáculo a uma Revolução em Portugal, ou do Amor, que os Portugueses têm ao mui Alto e Poderoso Senhor D. MIGUEL I.

Têm notado alguns Políticos, que sendo a Alemanha o principal berço, onde se criam as Seitas modernas, e achando-se os Estados do Imperador da Áustria, como rodeados do incêndio, que muito de propósito se acendeu nas principais Universidades do Reinos vizinhos, assim mesmo aquele Imperador nunca tenha sentido as fúrias revolucionárias, e o desastroso efeito das Sociedades ocultas, que levaram até às bordas do precipício a Monarquia Prussiana. Dá-se comummente uma razão disto, que me parece bem fundada. Estão certos os Vassalos do Imperador da Áustria, que o seu destino, bem longe de melhorar, há-de piorar, e muito, se fizerem uma Revolução; e por isso a boa administração, e os cuidados paternais do Governo afastam dos povos a mínima ideia de se revoltarem contra um Soberano Legítimo, e universalmente considerado mais Pai, que Soberano; assim como refreiam a insolência dos Demagogos, para que não se abalancem a uma empresa temerária, e que forçosamente há-de ser mal sucedida.

mapa de Portugal (1561)
Parece-me que nas mesmas circunstâncias estaria o Povo Português, se nunca tivesse sentido a Revolução de 1820. Lançou esta às mãos cheias tais sementes de corrupção, de imoralidade, e do pior de todos os males, que é o Ateísmo, que desencaminhada uma parte da Nação, tem como levantado neste pequeno território duas Nações mais desavindas entre si, do que foram os Judeus para com os Samaritanos. Onde havia menos Religião, aí se fizeram mais conquistas; e onde só havia uma simples tintura, ou aparência de Religião, bebida em charcos venenosos, como por exemplo na façanhosa, e essencialmente Liberal, ou ímpia Escola dos afamados Pavienses, bastou acenar com a trolha ou mitra, e choveram os adeptos, que viram ser este o caminho mais fácil para os empregos, e distinções, único alvo de certa classe de mercenários, que se chamam abusivamente de Portugueses. Ficou todavia uma parte, e é certamente a maior da Nação, por extraviar, e corromper, nem desceu até às classes mais baixas da Sociedade o contágio das más doutrinas; e o Povo Lusitano (ainda é a muitos respeitos, o mesmo que pôs no Trono o Senhor D. João I, e conservou nele por espaço de 27 anos contra os últimos esforços de uma grande Potência o Senhor D. João IV.) [Fr. Fortunato de S. Boaventura, noutros escritos mostra que não foi o povo que legitimou D. João I e insurge-se contra esta ideia; aqui o "pôs no Trono" significa a força feita pelo povo, contra todas as adversidades, para aclamar activamente aquele a quem o Trono devia ser entregue por todas as legítimas razões, e não por capricho popular.]

(continuação, II parte)

MASTIGÓFORO - INTRODUÇÃO (III)

(continuação II parte)

Ninguém definiu melhor as amnistias do que um Rei, que vinha sentar-se num trono, rubicado com o sangue do seu malfadado Pai. Quando propuseram a este Rei (Carlos II de Inglaterra) a amnistia, e o esquecimento, disse para os circunstantes "Entendo; amnistia para os meus inimigos, e esquecimento para os meus amigos." Já notei em outra parte dos meus escritos, que esta amnistia pareceu tão excessiva, e desaresoada ao Parlamento, que exceptuou dela os matadores de Carlos I, para que a Europa não julgasse pelo esquecimento, ou perdão de tal crime, que a nação fora cúmplice de Cromwel, e seus sequazes. Muito mal trazidas foram pelo discursador as amnistias de Henrique IV de França, e de Filipe V de Espanha. Teve aquele Rei muitos contradictores à sua elevação ao trono, por ser Protestante, logo que cessou este motivo, cessaram as maiores contradições; e os que fugiam de Henrique IV ainda herege, vieram deitar-se aos pés de Henrique IV já católico, e seria preciso nestas circunstâncias, que o Rei desmentisse a profissão de católico, para negar o perdão, aos já convertido sem seus amigos: Filipe V sabia perfeitamente, que nem o ódio à sua pessoa, nem o desprezo da última vontade de seu antecessor, eram o fundamento da viva oposição, que lhe fizeram algumas Cidades, e Fidalgos de Espanha, e não mostraria ser próximo descendente de Henrique IV se punisse severamente qualquer adesão ao seu competidor, e por ventura como dotado que era de alma nobre, teria sobejos motivos para admirar a constância dos que intimamente persuadidos da justiça do Arquiduque, tinham feito os maiores esforços para sustentarem o que lhe parecia direito; só o traidor que se vende a todos os partidos, merece o desprezo de todos, porque nenhum servirá de coração, e como importa... É pois audácia Maçónica levada aos últimos apuros, o quererem tais homens comparar-se aos homens de outro tempo, em cujas almas nunca frutificaram as venenosas sementes do mais descarado Ateísmo. Se Henrique IV, e Filipe V tiveram a desgraça de encontrar no seu Reino pessoas imbuídas de princípios anti-sociais, como são os Pedreiros Livres, teria mais que cortar a espada, que feriu o Marechal Biron, e muito mais que escrever a pena, que lavrou a sentença do Almirante de Castela... Enfim, se os Pedreiros querem amnistias das novas, que possam ter certa analogia com a que eles tão ansiosamente demandam, e meter à cara, limitem-se ao caso da revolução Francesa, e à triste necessidade, que obrigou Sua Majestade Cristianíssima, a olhar benignamente, e até contemplar com mercês, e favores, os próprios que cortaram ao ferro da guilhotina a cabeça do seu Augusto Irmão Luís XVI. Mas que vantagens tirou ele desse generoso, e nunca visto esquecimento de injúrias feitas ao trono? A sua primeira amnistia aos Franceses, depois de restituído ao trono dos seus maiores, produziu o efeito de se trabalhar em Paris, a cara descoberta, no regresso do usurpador, e tal amnistia, que bem longe de o firmar no trono, o fez baixar dele, não é das que favorece o discursador. Se voltarmos para a segunda, é certo que os mais envolvidos na segunda entronização do usurpador, se evadiram pela fuga à severidade das Leis, que se eles tivessem ficado em Paris, ou em qualquer outra parte de França, teria o Marchal Ney mais companheiros na sua desgraça. Da segunda amnistia foram exceptuados os regicídios, pois ninguém dirá, que o ser arrojado para fora da sua pátria, seja um galardão, e uma felicidade; no meio porém de tudo isto importa sabermos qual é a opinião dos homens sisudos da França em pontos de amnistia. Eu começaria agora pelo testemunho de Mr. de Chateaubriand, se o verídico, e eloquente Abade de Vilar (Luís Gaspar Alves Martins - Na sua excelente Dedicatória a ElRei Nosso Senhor, que vem à frente da tradução da Questão nacional do Abade Barruel, e onde a linguagem do coração, arrebata, e faz extasiar os verdadeiros amigos da pátria, por mais vezes que a leiam, e meditem) não tivesse já escolhido o melhor, e mais terminante de quanto diz a este propósito aquele grande homem de Estado; e por isso deverei cingir-me a outras autoridades menos respeitáveis sim; mas nem por isso menos verdadeiras.

Luis XVI
Ninguém a meu ver tem discorrido mais a propósito sobre as amnistias, do que um anónimo Francês, o qual depois de se lastimar com toda a razão, de que a palavra amnistia tinha sido 25 anos como o sinal de novas desgraças, por tal modo, que proferida desde os primeiros ensaios da revolução Francesa, acarretou logo as mortandades de Avinhão, após esta os furores de Setembro, e imediatamente o regicídio de Luís XVI, acrescenta o seguinte "Se um homem cuja habitação se tivesse alagado, querendo logo a toda a força viver debaixo de coberto, edificasse outra com os próprios entulhos da primeira, dispostos quase da mesma sorte, em que a sua queda os deixará,, o viajante que ali passara no tempo do desastre, voltando poucos dias depois, certamente se admiraria de ver ao longe o novo trabalho, e da prontidão com que se fizera, mas chegando-se perto, havia de trocar a sua admiração em lástima. É preciso, diria ele, que seja bem grande a cegueira do dono desta casa, pois não vê que ela há-de cair assim como a primeira.... Reflectindo sobre a nossa revolução , o povo Francês, edificando uma nova constituição, apenas outra, apesar de todas as suas diligências, lhe tem escapado, e pondo o esquecimento do passado, e a conservação de todas as injustiças, como o principio fundamental de todas as constituições, parece-me aquele homem de que há pouco falei, todo embebido em reconstituir a sua casa, e tomando cuidados inúteis para a livrar de outra queda." (Du Minist. par. Leopold de Massacré, pag. última.)

Ora aqui está o conceito em que os bons Franceses têm essas decantadas amnistias, e se parece ao Discursador, que a indulgência de Luís XVIII o tem consolidado no trono dos seus maiores, engana-se torpemente. Já observámos o que ele tirou da amnistia, concedida no ponto de reassumir o ceptro dos seus maiores. Tudo ia ás mil maravilhas, tudo eram incensos, e adorações ao vivo retrato de bondade de Henrique IV, e vai senão quando aparece o homem da Ilha de Elba, conquista a França sem dar um tiro, e vai enxovalhar segunda vez o trono dos Borbons na França, convulsa, e atemorizada, porém quieta, e sem se mexer, quando o seu Rei fugia, ou se retirava. Não fosse o poder dos exércitos Aliados, não fossem os heroísmos, obrados no campo de Waterloo, e veríamos quem ainda hoje ocupava o trono da França! Se Luís XVIII já tem conseguido espezinhar o monstro, que insuflara o General Breton, e os Liberais, ou Pedreiros, seus cúmplices, deve-o muito menos ao amor dos Franceses, do que aos seus poderosos Aliados. Sucedesse, o que Deus não permita, que os magnânimos Alexandre, Francisco, e Frederico, entregavam a França ao seu destino, e protestavam abrir mão de sustentarem à força de armas o princípio da legitimidade, e veríamos a que ponto chegava ainda a influência revolucionária, naqueles já sobremaneira escarmentados povos "Eu sou chamado invencívelmente (escrevia a este propósito um Autor Francês em 1815) para as ideias, que nunca me deixam, e que me perseguem em toda a parte; eu lhe acrescentarei novas explanações, pois nisto é que está o perigo todo, e só desta arte poderemos achar salvamento. Já pintei o mais vivamente que pude, essa inaudita harmonia, que se dá em os numerosos agentes da revolução; eu os mostrei, formando no meio do estado, outro povo sujeito a Leis particulares, estabelecidos em uma hierarquia maravilhosa, para mandar, e obedecer, tão despótica em mandar, como servil em obedecer, e que tem por este modo a dobrada organização de uma sociedade secreta de Iluminados, e Pedreiros, que medra, e se fortifica no seio das trevas; e de uma potência política, que manobra com estampido, logo que é necessário, e quando é necessário. Nesta combinação a mais infernal, que nunca inventou a malícia humana, poderá a Irmandade fazer quanto quiser, enquanto o principio da sua existência não for atacado, e toda a potência, que enviarem contra ela, e que não trate senão de a combater por meio de concessões, e mudanças tímidas, e parciais, não poderá ter senão uma existência frágil, e passageira. Com efeito apenas derem a esta máquina política, e misteriosa, chefes que lhe sejam estanhos, logo os chefes verdadeiros se acolhem à sombra, e por meio de uma simples comunicação, como alguns dos principais subalternos, as relações directas acham-se imediatamente restabelecidas; se intentarem romper-lhe as fileiras, metendo-lhe de permeio, alguns sujeitos, hábeis na dissimulação, procuram no mesmo instante entre os irmãos Pedreiros, e atrevo-me a dizer, quase por instinto, o ponto de contacto mais próximo, para entrarem desta sorte no movimento comum, que leva tudo consigo: Foi por este encadeamento habilmente combinado de tantas molas, dirigidas todas ao mesmo fim, que durante o ano da primeira restauração, Savary pôde governar a polícia, Maret, ou Carnot o interior, e cada Perfeito adido a Bonaparte, o departamento vizinho daquele, onde tinham posto por escárnio um Perfeito Realista. Assim a execrável aranha restaura com uma actividade incessante as mínimas alterações, que experimenta o seu mortífero tecido, e escondida no centro deste laço inexticável, sente o mais pequeno abalo de seus fios os mais imperceptíveis, embrulha neles a sua preza, e depois de assassinar cobardemente, pode devorá-la sem perigo." (Des Revolutionaires, Paris 1815)

Daqui se vê claramente a índole dos Pedreiros na França, que é propriamente o centro da Maçonaria Europeia, e bem sei que a tudo isto se chama terrorismo ou exageração de princípios, mas nisso mesmo se descobre o espírito da seita, cujo fim é adormentar e iludir, para que ninguém pressinta a bulha que fazem os seus trabalhos subterrâneos, e o mais é que os mesmos da confraria lá de tempos a tempos deixam escorregar da pena algum dos seus melhores segredos. Reparem os meus leitores neste que lhes vou meter pelos olhos dentro, e vejam que tais são os amigos de trolha: "Todos os homens grandes foram intolerantes, e é necessário, que o sejam. Quando se encontre no caminho um Príncipe benigno, é necessário prégar-lhe a tolerância para ele cair no laço, e para que o partido esmagado tenha tempo de se levantar pela tolerância que se lhe concede, e de esmagar o adversário pelo seu turno." (Correspondance de Grimm 1. juin 1772, 1 part. Tom 2. pag. 242, et 243)

(continuação, IV parte)

23/03/15

MASTIGÓFORO - INTRODUÇÃO (I)

INTRODUÇÃO
ao
MASTIGOFORO,
ou EXAME DO DISCURSO SOBRE AMNISTIAS,
EMBUTIDO NA GAZETA DE LISBOA

(N.º 25)

por
O Autor do MAÇO FERREO ANTI-MAÇÓNICO [Fr. Fortunato de S. Boaventura]

LISBOA
(1824)

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Venenum aspidum sub labiis eorum.

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Ninguém diga desta água não beberei. Tinha eu já bem adiantado o N.º 1.º do Mastigóforo, em que mostro o verdadeiro sentido das palavras, e frases, tabalioas do Maçonismo, e por ter já definido a palavra Amnistia em o N.º 29 do Punhal dos Corcundas, apenas dizia: "É palavra grega, e bem grega, há-de parecer a muitos, quando eu lha explicar. Amnistia é um acto de clemência da parte dos Reis, ou qualquer outras autoridades superiores, concedido regularmente para sufocar ódios, e partidos, e contemplar o verdadeiro arrependimento; mas depois que os Mações vieram, ou saíram à luz, quer dizer outra coisa mui diferente. Amnistia é uma carta de seguro para trabalhar desafogadamente em novas conspirações, e uma licença para fazerem outra, em que se possam manter, e segurar melhor do que na primeira, de que foram perdoados. Julgava-me pois desaforntado para sempre de tal palavrinha, e neste comenos, fazem-me ler o Discurso embutido na Gazeta de Lisboa (N.º 25) que me desmancharia a igrejinha se eu me não resolvesse logo a bater o campo.

Àlerta, vamos-lhe ao fole. Que brilhante discurso sobre amnistia! Se eu escrevera assim tão culta, e aprimoradamente outro galo me cantaria! Mas infelizmente privou-me a natureza desse dom celeste de abrilhantar os nadas, e de os fazer parecer coisas grandes! Se eu exordiasse na matéria dos perdões, e dos esquecimentos, diria tudo com muita simplicidade, e não me esquecendo do Ex fumo dare Lucem, por certo, que não me arrogaria os plenos poderes do Maçonismo, que fazem acalmar as tempestades do Oceano pela serenidade do Céu, fruto da aparição do benigno Sol vernal... Porém que mais vivo, harmonioso, e retumbante não é o discurso modelado por outro gosto mais fino, e mais depurado.!!. Ainda me não farto de o ler, e se eu fosse homem rico de certo o faria em lâminas de ouro, para servir de norma aos discursos infantinos; pois esta classe gosta muito de ouro pele, de boles boles, e outras semelhantes quinquilharias. Vamos ao caso, e tomemô-lo sério, que bem me custa quando se trata de mais vil canalha, que Nosso Senhor deitou a este mundo.

Seria necessário compor um livro para refutar por inteiro um Discurso, onde formigam os erros políticos, e religiosos, e os maiores desacertos, e falsidades. Por isso eu me restingirei ao que me pareceu mais digno de censura, a que devem estar sujeitos todos os escritos, quando são olhados como peças de eloquência, ou de política. Tratarei de comabeter o que me azedou mais, e que mostrarei ser digna produção do Século Maónico.

Deixando agora de parte essas Virtudes Romanas, que foram muito menos do que o atilado Escritor pensa, ou finge pensar, e que por estatuto da Maçonaria se exaltam acinte, para serem deprimido as virtudes cristãs, que por isso nenhum papel distinto fazem em toda essa perlonga de felicidades para o género humano; começarei por atear, e forçar esse intrincheiramento de amnistias velhas, com que nos mata a paciência, mas que felizmente há-de ir a terra com um sopro, não de embravecidos aquilões, mas de um plácido Zefiretto. Esses homens, a quem foram concedidas as amnistias velhas, eram homens de outra laia, as mais das vezes iludidos, e desencaminhados por intrigantes hábeis, e ardilosos, que lhes pintavam o crime debaixo das sedutoras aparências de um dever sagrado; eram homens capazes de ensino, e de arrependimento, o que não sucede, nem pode suceder com os Revolucionários Pedreiros Livres. Já o grande Burke os definiu maravilhosamente, e os taxou de incorrigíveis. Com ateus não há nem pode haver capitulação; toda a que houver cederá em transtorno, e ruína total de sociedade, e por boas contas a sociedade vem a perder mais em um só realista cobardemente assassinado pelos Mações, do que em milhares destes infames condados à morte por inimigos de toda a Religião, e de toda a Sociedade. Para que o elegante discursador procedesse de boa fé, ou com boa Lógica, devia mostrar-nos primeiramente, que uma sociedade obrigada pelos mais terríveis juramentos a exterminar os Reis, e abolir o Catolicismo, possa abrir mão facilmente destes artigos capitais, que são o móvel, e o último de potência das suas tenebrosas reuniões. Olhando, como de facto olham para Reis, como uns liberticidas, e inimigos dos povos, e para os Sacerdotes, como propagadores do fanatismo; como poderão eles congraçar-se deveras com o trono que detestam, e com a Fé, que desejam exterminada do universo? Uma seita que envolve contradição a tudo, e com tudo, o que nós mais respeitamos, nunca existirá sem urdir novas tramas, e novos meios de suplantar os seus inimigos, e prova de não a conhecer, ou de pertencer a ela, quem abona os seus frutos procedimentos, de leais, religiosos, e irrepreensíveis. Um erro parcial chega a emendar-se, a quinta essência de todos os delírios, e de todos os erros, não dá esperanças de correcção, a menos que esta se digne baixar do alto dos Céus, onde existe a graça, que converteu os Saulos... Mas que digo eu? O próprio Saulo obrava por aferrado à sua lei, obrava com um zelo mal entendido, mas sincero, e mais filho de ignorância que de perversidade; e quem sustentará que os Mações pecam por ignorância, e que por um exaltado amor à justiça têm querido aliviar o género humano, como eles dizem, dos insuportáveis ferros do despotismo... O erro dos Mações é de vontade, e não de entendimento, é só de pura malícia, e em todas as histórias dos grandes crimes, que têm desonrado o género humano, eu não encontro um só comparável a este, e é necessário, que remontando-me a outra classe de seres, eu descubra no pertinaz, e afincado orgulho de Satanás, e dos Anjos rebeldes, uns visos de semelhança com o pecado dos Mações... Observam estes o mau sucesso das teorias modernas, acabam de ver toda a Europa alagada em sangue, e nem por isso deixam de querer tentar em a sempre Leal, e afamada Lusitânia, mais outro ensaio das suas doutrinas, e acarretam sobre nós esse dilúvio de males, que a despeito das clemências, e das amnistias, clamaram sempre vingança justa, e legal contra os seus autores, por ser este o único expediente saudável para empecer à continuação dos mesmos delírios, e para fazer cair em si, os que são inacessíveis à poderosa influência dos remorsos. Todo o Soberano pois que cegamente perdoar aos Mações, levando simplesmente de ideias de clemência, qual Deus não tem, (porque Deus castiga os maus) longe de cumprir os seus deveres, e de ser propício a esses malvados, prejudica-se gravemente a si próprio, fazendo-se responsável por todos os crimes, que eles perpetrarem para o futuro, e estanca-lhes as fontes do conhecimento próprio, da viva consideração de seus erros, e da abominação de seus crimes. Perdoar a um réu de crimes atrocíssimos, e deixá-lo vaguear a seu sabor pelo meio da sociedade, que ele perturbou com as suas intrigas, denúncias, e maldades, é mais um acto de arbitrariedade, que de clemência, e os que são chamados pela Providência para dizerem aos Reis a pura verdade, e a desfiguram a ponto de fazerem consistir a imagem de Deus nos Soberanos, em perdoarem a torto, e a direito, são bem pouco amigos do seu Rei, e da sua pátria. Não merece tal censura o Duque de Sully, arrastado pelo discursador para o indecente papel da campainha das amnistias. já transcrevi em o N.º 29 do punhal dos Corcundas, as suas formais palavras, que nem por isso favorecem a doutrina dos Mações, que é filantrópica todas as vezes que se consideram, ou estão debaixo; assim como é tirânica, e violenta, quando estão em cima... ("Para lhe irmos arrancar as entranhas, beber-lhe o sangue, e lançar aos corvos o imundo cadáver ainda palpitante!!" - Gazeta de Lisboa N.º 32 pág. 131). Vossa majestade, dizia aquele grande homem de estado a Henrique IV de França, tem todas as razões para dar castigos exemplares, e era o meu voto, que se infligissem a essas almas ímpias, que não podem ser metidas na razão, e contidas no seu dever, nem pelo amor, e consideração à vistude, nem por se lhes fazerem benefícios, nem por se lhes perdoarem os crimes, nem pela apreensão do castigo. Parece que o Duque de Sully fazia antecipadamente o retrato dos Pedreiros Livres, e quem depois de ler o seu voto, ousa chamá-lo para defensor das amnistias liberais, e indiscretas, bem mostra ser hóspede nos mesmíssimos factos históricos, de que abusa para sustentar a sua causa... Não é porém de admirar, que o nosso discursador falhe, e claudique perpetuamente no que alega da história dos reinos estrangeiros, quando parece não ter lido nunca a história de Portugal, o que por certo agrava o seu delito, pois não se contentando de ser o advogado dos Pedreiros Livres, corrompe, e adultera os factos de nossa história, como quem diz para os seus botões. Escreveu para um rancho de estúpidos, que ficaram de boca aberta para quanto eu disser, e ninguém ousará contrariar o privilégio de inerrância Maçónica. O ínclito restaurador da Monarquia Portuguesa citado para exemplo dessas amnistias sempre fatais, e desairosas para os Soberanos! O Senhor D. João I disfarçando, e perdoando aos que lhe faltaram à fé!!! É uma afronta mais pesada para ele do que foi a perpetrada pelos Franceses, quando em 1810 lhe despedaçaram o seu jazigo no Convento de Batalha; pois estes lhe espalharam os ossos, e lhe perturbaram o repouso das suas frias, e desanimadas cinzas, e o dicursador ataca-lhe a reputação, e faz quando nele é para que este Soberano deixe de ser entre nós o da boa memória? Ainda mesmo que se concedesse a existência desta sonhada amnistia, nem por isso ganhavam os Pedreiros Livres uma só polegada de terreno. Era tão melindrosa, e sujeita a dúvidas, nesse tempo a questão sobre quem devia suceder na Coroa, se a Filha do último Rei o Senhor D. Fernando, se os filhos do Senhor D. Pedro, e de D. Inês de Castro, se o Mestre de Avis, quando é líquida, e fácil de decidir em nossos tempos já desassombrados daquelas turbulências, e auxiliados do poder em tais lances irresistível dos acontecimentos, que afinal deram a Coroa ao que no princípio da contenda, parecia o último dos pretendentes. Os que seguiam a voz, ou da Rainha de Castela, ou dos Infantes, filhos de D. Inês de Castro, seguiram mau partido é certo, mas quem sabe a fundo o que se passou naquelas eras, quem compara o assentado nas Côrtes de Leiria, anteriores, necessariamente se inclina a favorecer os que deixaram a voz do Mestre de Avis, pelo menos enquanto ao crime de Lesa Majestade, de que podem ser arguidos. ora os Pedreiros Livres estão em um caso mui diferentes; e em comparação destes podem aqueles ser tidos como outros tantos modelos de obediência, e lealdade ao Trono Português. Erravam sim os entendimentos, chamando para a Sucessão um Rei que devia ser excluído, conforme as Leis fundamentais do Reino, porém os corações eram Portugueses, e caminhavam para onde assentaram que existia o direito à Coroa. os Pedreiros Livres conheciam, e deviam conhecer o direito com que reinava em Portugal, e suas conquistas o mui Alto, e Poderoso Rei o Senhor D. João VI, mas fiéis ao ímpio, e sacrilégio juramento de exterminar os Soberanos, tiveram a sacrílega ousadia (ainda hoje me estremece o coração de quanto vi, e ouvi neste assunto!) de o esbulharem do trono, e de o condenarem a ser um simples mandatário dos aresto do Maçonismo!! Tanto maior, e mais punível é este crime, quanto menos razão havia para o cometerem, e para enxovalharem o crédito nacional! mas demoremos este quadro e infâmias, e atrocidades, consultemos os Livros do primeiro ano do governo do Senhor D. João I, e vejamos como ele tratou os que seguiram a voz de Castela. Estremeço de ser fastidioso, mas pede o caso que se patenteie, e desmascare a ignorância do tal discursador. São factos extraídos da Torre do Tombo, pelos Cronistas mores Brandões, em cuja autoridade eu me fio, como se estivera revolvendo os próprios originais.

(continuação, II parte)

04/02/15

D. FR. FORTUNATO DE S. BOAVENTURA EM ROMA

D. Fr. Fortunato de S. Boaventura, Arcebispo de Évora.
"Ao lado de D. Miguel estava D. Fr. Fortunato de S. Boaventura, Arcebispo eleito de Évora, homem de fogo e de talento, pessoa com natas qualidades de condutor e muito da confiança do papa Gregório XVI. Um homem de ideias claras e palavras claras. Foi a ele que o Papa, por um breve, concedeu todos os poderes para as graças espirituais que de Portugal se solicitavam enquanto durou o estado das coisas políticas e religiosas, já se vê, sempre de acordo com o Cardial De Gregório, então o Penitenciário-Mor. Foi portanto D. Fr. Fortunato o Delegado Pontifício para os negócios espirituais de Portugal, como em certo modo o era D. Miguel junto dos emigrados que em Roma embalados de esperanças se iam, sabe Deus como, aumentando. Mas não era D. Fr. Fortunato homem para enganar os outros. Em 1837, em face do que sabia, era o primeiro a aconselhar os portugueses emigrados na Cidade Eterna a procurar suas vidas, pois que não seria possível continuar-lhes por mais tempo os socorros que estavam recebendo.

Porque eles, os emigrados, passaram verdadeiras necessidades. Não no princípio quando o dinheiro não era muito escasso e a certeza de uma próxima vitória e de uma volta breve à terra saudosa lhes alimentava o coração e a vaidade de sofrer e servir um ideal, e lhes robustecia os ímpetos de aniquilar os adversários liberais quer de dentro que de fora do país." ("Portugal em Roma", Vol. II. Pe. José de Castro; Lisboa, 1939, pág. 257 - com "nihil obstat" e "imprimatur")

16/12/14

DO CONDE D. HENRIQUE - por D. Fr. Fortunato de S. Boaventura (VII)

(continuação da VI parte)

XIX

Então de quem é descendente o nosso Conde D. Henrique, me perguntarão com certa impaciência os meus leitores! Já tenho respondido, que dos soberanos da Hungria. Mas de que modo, e qual a sua ascendência paterna? Confesso, que não me atrevo a decidir; porém não tenho por ora, nem com que me desvaneça inteiramente da origem borgonhesa, nem com que tenha por demonstra a origem veneziana. Fazem-me grande peso os autores coevos, a saber, Hermano Contrato e Wippo; mas o texto da crónica do primeiro tem sofrido tais interpolações e alterações que só por ele não me julgo em termos para afirmar, que o citei exactamente; e posto que o segundo, até pela sua naturalidade, possa e deva pesar mais na balança, fico todavia perplexo ao ver, que João Pistorio o não seguiu, quando era o próprio editor clássico dos venezianos e suas coisas não achei suficiente clareza para me decidir por uma vez.

Coroa do Rei Sto. Estêvão da Hungria

XX

Mas que faremos (podem continuar os meus leitores) aos dois argumentos fortíssimos, que vêm a ser: 1º que o Rei D. Pedro não teve descendência dos seus dois matrimónios; 2º que os nossos historiadores seguiram o cronista Duarte Galvão, e quando mais a Fernão Lopes, que não haverá testemunho anterior aos dias deste cronista, que nos prove tal ascendência? Em quanto ao primeiro responderei, com os autores alemães e húngaros, de prole nihil constat, (1) o que não é afirmar, que de certo não a houve; e pela narração de Hermano Contrato, que depois de nos contar, o que ele qualifica de perfídia dos húngaros contra D. Pedro seu Rei, acrescenta que depois de serem mortos os que foram leais... variis cum conjuge sua alendum deportat, ao que na edição, que eu pude consultar, se ajuntou à margem uma variante mais difícil de entender, e pareceu-me que filios cum conjugesua alendos deportat poderia ser a verdadeira lição; e quando na Hungria não ficassem vestígios de que o Rei Pedro tivera filhos do segundo matrimónio, creio que não seria esta a primeira vez em que a memória de pessoas, que tivessem deixado na infância o país da sua naturalidade, fosse absolutamente desconhecida neste, e mui vulgar no outro,ou na sua pátria adoptiva. Enquanto ao segundo; se os nossos historiadores tivessem lido o testamento do Arcebispo e heroi português D. Lourenço Vicente, que se guarda no arquivo da Sé de Braga, teriam sido mais comedidos em censurar os cronistas Lopes e Galvão, e não teriam desdenhado do epitáfio, que o Arcebispo D. Diogo de Sousa mandou pôr no jazigo do Conde; pois muitos anos antes de 1512, isto e, em 1397, ao mais tardar, escrevia o louvado arcebispo esta verba em seu testamento: "Mando sepultar e subterrar o meu corpo na capela minha, que ordenei de consentimento do Cabido da dita igreja Catedral de Braga, junto com as paredes da dita igreja, e aí onde jaz enterrada a Rainha D. Teresa e o Conde D. Henrique seu marido, filho que foi de el-Rei de Hungria."

Quem defendeu com a espada nos memoriáveis campos de Aljubarrota o Senhor D. João I era versado nas ciências e letras humanas, e frequentou os liceus de Tolosa, Montepellier e Paris, era assaz digno de sustentar com exactidão e devido conhecimento de causas a verdadeira linhagem dos nossos Reis; e a sua pena é para mim não menos valiosa na presente questão histórica, do que o foi a sua espada nas questões políticas e lides guerreiras.

(continuação, VIII parte)

10/12/14

CONTRA-MINA Nº 42: Reconhecimento a D. Miguel I Dado Pelo Papa Gregório XVI (II)

(continuação da I parte)

Nada há mais frequente, e vulgar nas Escolas maiores, e menores, do que repreender a nimia influência, que os Papas tiveram por muitos séculos no Estado político, e temporal das Nações Europeias, e haverá mui poucos mancebos instruídos, que não saibam de cór as virulentas declamações do Abade Millot, e do Abade Ducreux, (ambos postos em linguagem [vernáculo], e ambos corrumptores da mocidade, e neste particular muito mais o primeiro do que o segundo) declamações, digo, contra os chamados excessos dos Sumos Pontífices. Ora se estes, como os homens mais atilados, e mais sábios do seu tempo, foram muitas vezes constituídos árbitros das discórdias entre os Reis, e os Povos, ou de uns com outros Povos, e faziam uma espécie de Tribunal, a que eram chamados os negócios [assuntos] mais árduos daquele tempo; se há testemunhos irrefragáveis do que os próprios Reis desentronizados lhes reconheciam essa Autoridade Política, e Civil, para que é condená-los de que usassem de Poderes, que ninguém lhes disputava, e que todo o Mundo Cristão lhes conferia? Suponha-se embora, que foi abuso intolerável, que houve algum excesso ou demasia; porém é de justiça absolver os homens, e condenar meramente o século, quem tais coisas sucederam, ou se praticara; vou falando em suposição, e nunca decido o que não e pertence decidir; mas para atordoar os Sabichões Portugueses é necessário, que eu lhes diga, que a própria matéria dos seus risos, dos seus escárnios, e dos seus motejos, não o é para isso na opinião de um dos maiores Sábios modernos; e daqui vem, que nesses pontos de Autoridade, e Jurisdição Pontifícia é lícito, que eu chame hóspedes aos tais Sabichões. Que dirão eles, caso eu me pusesse a defender, como justa, e hem para desejar, a antiga primazia dos Sumos Pontífices sobre o temporal dos Reis?..... Aí me deitavam fogo por mil partes, brindado-me, na forma do seu antigo costume, com uma boa porção de nomes afrontosíssimos. Pois desde já lhes recomendo, que lancem fogo, e chamem toda a casta de nomes injuriosos ao grande Leibnitz, que não era Ultramontano, e que era Protestante. Reconhece este Sábio, que era ultilíssimo o restabelecimento da antiga Autoridade do Papa. Assim o diz na segunda Carta a Mr. Grimaressa (Tomo 5º das suas Obras pág. 65) pelo teor seguinte:

"Tenho lido alguma coisa do projecto de Mr. de S. Pierre, para manter uma paz perpétua na Europa. Lembro-me da divisa de um Cemitério, que consistia nestas palavras, "Pax perpetua" porque os mortos não têm bulhas, porém os vivos são de outros humores, e mais poderosos, e por isso não fazem grande caso dos Tribunais; seria necessário pois que todos esses Senhores dessem uma fiança Cavalheira, ou depositassem no Banco do Tribunal, o Rei de França, por exemplo, cem milhões de escudos, e o Rei de Grã-Bretanha à proporção, para que as Sentenças do Tribunal pudessem executar-se à sua custa, no caso de serem refractários....
Lembro-me de um Discurso neste sentido, e queira que Luzerna na Suíça fosse o assento do Tribunal. Quanto a mim sigo o voto de o estabelecer: mesmo em Roma, e de fazer o Papa seu Presidente, assim como outrora ele fazia o papel de Juiz entre os Príncipes Cristãos."

Agora pergunto eu; acaso endoideceria o Emulo de Newton? Por certo que não endoideceu. Esta qualificação pertence in solidum a outra casta de homens; e por ser a mais branda, e menos lesiva, que outras e verdadeiras, é um grande favor para certos miseráveis tarelos, que ainda em mantilhas da infância literária desdenham do Papa, contestam-lhe as suas essenciais prerrogativas, e fazem gala de aborrecer, e deprimir, quanto neles é, o próprio, do qual em outras circunstâncias se dizem respeitosos, e obedientes filhos....

D. Miguel I
Mas para que me demoro eu tanto nestas vindícias da Autoridade dos Papas, chegando a enfurecer-me, e talvez a descomedir-me.... Já me reporto, e voltando a princípios, ou ideias moderadas, que têm às vezes seu cabimento, direi com toda a franqueza, que os Pedreiros Livres deste Reino têm sido, nomeadamente desde Abril de 182[8?], até 29 de Setembro de 1831, (nada menos, que três anos sólidos com seus pozinhos por cima) uns incensáveis apregoadores da Suprema Autoridade Pontifícia. Como se demorava o Reconhecimento do Senhor D. MIGUEL I, e parecia estar ainda mui distante, não havia para eles um proceder, nem mais arrassoado, nem que mais lhe enchesse as medidas; neste caso, e só nesse caso tinha Poderes politicos ilimitados, e como Vigário de Jesus Cristo, e Soberano de Roma pesava tanto na balança para excluir o denominado intruso na Coroa destes Reinos, como para firmar cada vez mais o Trono da Senhora D. Maria da Glória. Era um gosto ver os Diabos feitos prégadores! E com efeito, quem poderia conter uma gargalhada de riso, ao ler numa parede do inferior, ou da primeira Sala de uma Estalagem nas vizinhanças do Porto.. esta legenda:

"O Senhor D. MIGUEL não é Rei, porque o Sumo Pontífice não quer que ele o seja, e já mandou excomungar todos os Bispos do Reino, que lhe pagassem Contribuições."

Apaguei esta inscrição, por ser daquelas, que nem Grutero, nem Muratori queriam aproveitar; e só notei, que os arestos da Seita se endereçavam nesse tempo (1830) a seduzir o Povo. Já neste intuito fizeram vincular uma chamada Bula do Santo Padre Leão XII em 1829, que é a obra prima do delírio, e da impostura; e que logo em seu frontispício mostrava ser ficção armada, por quem não sabia os estilos da Cúria Romana; porém como tudo lhes serve para os seus fins, assim mesmo a enviaram a muitos Párocos das Aldeias, talvez na esperança de os intimidarem, caso os não pudessem convencer.

Depois pois de um golpe, e desfizeram-se completamente as armadilhas Pedreirais pela decisão do Santo Padre Gregório XVI, e desapareceu por uma vez toda a incerteza, que muito afligia, e inquietava os leais Portugueses, que jactando-se mais de serem Cristãos, que de outro qualquer de seus predicados, ou ingénitos, ou adquiridos, nenhum Reconhecimento consideraram mais valioso do que este, e por isso nenhum outro como este desejavam com tanto ardor, e impaciência. E desanimariam acaso os Pedreiros Livres com este inopinado revéz? Mudariam de linguagem, ou emudeceram para sempre, como deviam fazer, caso tivessem honra, e vergonha? Não costumam ser homens, que se intimidem de quanto seja mentir, e caluniar. Seja embora a mentira demarcada, e palpável, seja a calúnia não só inverosímil, mas até repugnante, e das que envolvem contradição manifesta, de tudo se aproveitam, e a tudo isto recorrem, não tanto para destruir, como para escurecer a própria verdade claríssima, e indestrutível.

(continuação, III parte)

03/12/14

CONTRA-MINA Nº 10: Seita Universal (IV)

(continuação da III parte)

E deixará o tal Catecismo em maior segurança as vidas, que as fazendas? Vejamos outra pergunta "Como proíbe a Lei natural o homicídio? Reposta: Pelos motivos os mais fortes da própria conservação pois em primeiro lugar o homem, que vai atacar outro, expõe-se ao risco de ser morto, em execução do direito da própria defesa. 2º Se chega a matar ficam os parentes, e amigos do morto, e a Sociedade com o direito de matarem, e já não pode viver com segurança."

Não há caminho, nem mais breve, nem mais sumário para convencer um matador, de que o mal não consiste na acção de matar, porém nos castigos, que o ameaçam. Aqui não se trata da consciência estar, ou não está sossegada; pois com tanto que o criminoso sique seguro, do que não haverá quem lhe pague no mesmo troco, ou moeda, tudo o mais é de pouca monta, e melhor é deitá-lo para traz das costas; e por isso os ladrões, que tiram ambas as coisas, isto é, o dinheiro, e a vida, estão nas circunstâncias de se dizer, que praticam uma acção virtuosa, pois atenderam nomeadamente à própria segurança, conforme as instruções do ruinoso Cidadão Volney! [hoje há muitos que praticam esta "moral" da segurança própria chamando-lhe "prudência"]

E um ímpio deste jaez, um inimigo capital da Revelação Divina, foi o Árbitro de uma escola, que devia servir de norma, e regra a todas as Francesas do mesmo género, e por isso teve a alcunha de Normal? Foi, foi, e as suas Lições de História, que têm andado neste Reino livremente pelas mãos da incauta mocidade, que tem sido elogiadas por beneméritos Professores, deram mais outro, e bem claro testemunho do que prestes se devia esperar de uma Nação dirigida por tais Mestres, e influída por tais doutrinas. Chegou a haver em Paris, correndo o ano de 1797, um Colégio de Ateus!! Sim, um Colégio de Ateus, e foi o próprio autor chamado "Colégio de Luís o Grande" e que, por efeito das mudanças Republicanas, se denominou "O Colégio igualdade". "Há de presente neste Colégio (ouçamos testemunha coeva, autorizada, e ocular) mais de trezentos Estudantes... Aqui não só está proscripto rigorosamente qualquer exercício de Religião; porém até se evita o pronunciar-se o nome de Deus, e aqueles infelizes meninos deitam-se, e levantam-se como brutos. Há todavia alguns, que observando felizmente os conselhos de seus pais, fazem oração de manhã, e à noite, porém às furtadelas, quando se vestem, ou já deitados na cama, para se pouparem às investidas dos seus condiscípulos, (Ah Coimbra, Coimbra de 1821, e 1822, e 1826, isto é contigo! "Mutatto nomine de te fabula narratur") principalmente dos Matemáticos, que já constituídos adoradores de Deus "Natureza" afectam despejadamente o maior desprezo do bom Deus [trocar o francesismo pela formulação apropriada: a Deus benigno], e metem à bulha a Religião de seus Pais... Como é possível que haja homens, que se encarreguem de tal modo de educação? Sabemos que alguns já têm representado ao Governo, mas deu-se-lhes em resposta, que em atenção aos direitos do homem, os Estudantes podem escolher livremente um Deus, e uma Religião, e que não é descente ao povo Francês o entreter com insignificâncias os Estudantes, cujas despesas ele abona; pois se a Nação mostra que não conhece a Deus, parecia mal, que os filhos fossem mais devotos que sua mãe. Desta arte sucede o Ateísmo de facto ao Ateísmo de direito... Já não é permitido a um Empregado público anunciar um Deus oficialmente, e todo o indivíduo, que é educado à custa do povo Soberano, por isso mesmo se deve reputar que é Ateu politicamente! Quanto se ouviu falar de uma Política assim? Em que País, ou em que século se tem visto um Colégio de Ateus? Justo Céu! E que pode ser um Colégio de Ateus, senão um viveiro de monstros, e uma sentina infecta, donde não pode sair outra coisa, que não seja barbaridade de corrupção, e maldade!"

Mons. Étienne Antoine de Boulogne, Bispo de Troyes
Assim escrevia no sobredito ano, em Paris, e à face do Direito Executivo, o grande Bispo de Troyes Mons. de Boulogne, que desceu à sepultura, antes que chegasse a presenciar, o que ele tantas vezes prognosticou, e lamentou, como ainda mais claramente se pode ver em sua Pastoral contra os Livros ímpios, que corre impressa em linguagem [vernáculo], que deveria ser como o Breviário de todos os Pais de Família neste Reino.

Temos visto que o Ateísmo reinou legalmente em França, por espaço notável, e ainda que pareceu cair em desprezo, mormente depois que um tigre, melhor dissera um Demónio, chamado Robespierre, Decretou a existência do Ente Supremo, nem por isso deixou ele de prevalecer na França desde 1794 até 1801, para o que basta advertir, que neste grande intervalo houve um já licença absoluta, e ilimitada para todas as Seitas velhas, e novas, para todas as Religiões falsas, menos para a verdadeira, que é a Católica, Apostólica Romana, que continuou a ser cada vez mais ultrajada, e perseguida nas pessoas dos seus mais fiéis Ministros. Não havia uma só escola pública em França, onde se tratasse de Catolicismo, e onde fosse celebrado o Santo Sacrifício do Altar!!! Só estes bons oito anos de Ateismo prático nos explicariam mui satisfatoriamente os horrendos extravios da geração presente; mas por infelicidade as próprias causas, donde se esperou, que pelo menos se diminuíssem tão grandes males, foram grande parte, em que estes subissem de ponto, e ameacem transtorno à face do Universo. Assaz conhecem os meus Leitores, que a matéria se vai alargando, muito mais do que eu presumia, quando comecei a tratá-la. É pois de absoluta necessidade o fazerem-se algumas subdivisões, e discutir especialmente:

1. Se a educação da Mocidade Francesa melhorou, ou piorou, durante o Consulado império, ou tirania de Bonaparte;
2. Se a milagrosa restauração de Luís XVIII foi mais bem sucedida neste particular, e atalhou, quando se devia esperar de um Rei Cristianíssimo, o progressos da impiedade;
3. Que passos se têm dado neste Reino, para se imitar, no próprio artigo da educação, o procedimento dos Liberais Franceses.

Tracei a matéria dos três números seguintes. Se fizer tremer os ímpios, que deicam sair ainda por entre dentes a sua frívola esperança de nos tornarmos Franceses [não se refere aqui realmente a França nem os franceses, mas sim a situação que a França estava a sofrer, pois a França verdadeira, e os verdadeiros franceses, são necessariamente bons católicos], e Ateus, e se por outra parte consolar os bons, alentando-os na sua bem fundada esperança, de vermos ainda curadas radicalmente, pelos nosso incomparável Monarca, todas as nossas feridas:

Eu só desta glória ficarei contente.

Colégio do Espírito Santo em Coimbra, 18 de Janeiro de 1831

Fr. Fortunato de S. Boaventura.

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