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23/09/17

NA SERRA ALTA - Amar a Verdade


"Se o fanatismo não fosse mau, poderiam então chamar-nos fanáticos da verdade".
(na serra alta - J. Antunes)

12/02/17

HARMONIA POLÍTICA DOS DOCUMENTOS DIVINOS (VIII)

(continuar da VII parte)
 
VERDADE



Junto da boa fama ponho a Verdade, porque se seguem dela os mesmos efeitos. Da que deve ser natural nas páticas dos Príncipes não falo, porque seria quase sacrilégio duvidar que vale tanto uma sua palavra quanto o juramento de um particular, como dizia um grande Rei (Refert Ant. Par.ormit. de rebus gestis Alphonsi Regis. Tantum valere ad fidem debere unicum Principis viri verum, quantum privatotum jusjurandum). Nem presumo que um Príncipe Cristão se deicara vencer do Gentio Epaminondas que nunca disse uma coisa por outra, ainda zombando (Alexand. ab Alexandro lib. 9. c.10); creio que todos sabem que nem devem dizer tudo o que sentem, nem mais do que sentem, pois no primeiro há imprudência, no segundo malícia. Trato da infalibilidade das promessas fazendo mercês, ou celebrando contratos; neste sentido entendo o Provérbio da Política Divina (Proverb. 20 n.28. Misericordia et veritas custodiunt Regem).
 
A Verdade Guarda o Rei
 
1. Ela é a que rege os Céus, alumia a terra, governa a República [a ordem social], sustenta a justiça; é escusado que não se passa, exército que não perece, tesouro que não se acaba, caminho que a ninguém cansa, medicina que a todos cura; sem ela a Fortaleza é fraca, a Prudência maliciosa, a Temperança miserável, traidor o Conselho (Pedro de Medina em los Dialogos de la Verdad Dial I).
 
MEIO FÁCIL PARA
Não Faltar Nas Promessas Com Pouco Cabedal
 
2. Na Política Divina (Paul. I ad Corinth 13 n 6). Se equivoca a Justiça com a Verdade. Daqui se tira que quando o cabedal não chega a todas as dívidas da Monarquia, se guarda a Verdade com observar a Justiça. A impossíveis ninguém é obrigado (L. impossibilium 145 de reg.jur.); mas quem não pode pagar tudo junto, deve ir pagando aos acredores mais antigos (Regula qui prior. 54 de reg. jur. in 6); todos assim se contentam, vendo que o que se dilata se não tira; Pelos serviços que tinha feito deixando tudo por Cristo, se contentou S. Pedro com uma promessa para o fim do mundo, porque era infalível. Ter dinheiro e mercês prontas para obrigações modernas deixando as primeiras sem satisfaçam, é contra a Verdade, se esta se observar, pouco menos se fiará da promessa que da paga. Antes nas ocasiões apertadas se obrará mais pagando o antigo; porque o cabedal que não basta para tudo que se necessita, se acrescentará infinitamente com o crédito de satisfazer o passado. Só se pode faltar à promessa lícita, quando pelo bem público se podem tomar os bens dos Vassalos; fora desta necessidade, em havendo prometido não há que cuidar (Plutarch. in Sertor. Data fides onin deliberationem excludit); reparou o Imperador Sigismundo em cumprir certa promessa excessiva a um soldo; o qual lhe disse: "podereis, Senhor, sem desonrar não prometer, mas já sem desonrar não podeis faltar." E o imperador respondeu que sendo assim, antes escolheria perder a fazenda que a fama (Aeneas Silv. lib. 3 comment. de rebus Alph. Respondit miles poteras negare cum peterem, non aute fine turpitudine quod promissum est resdindere poteris. Tunc Sigismundus; si ex duobus alterum me ferre oportet, levius rerum, inquit, quam fama jacturam subibo).
 
3. Por este meio acreditaram os Sereníssimos Reis de Portugal sua Verdade; o excelente Rei D. Diniz dizia que nada o ofendia tanto, como a falta dela; o zeloso Rei D. Duarte era tão pontual, que por ele se introduziu o Provérbio "palavra de Rei" (Chron. de D. Duarte c.19). Mas vendo nossos Príncipes que as remunerações efectivas, não eram tantas como os serviços necessários, introduziram alvarás de promessas, e tão exatamente os cumpriam, que só com a palavra (sem papel) do Grande Rei D. João II se davam os homens por bem despachados (Maris dial. 4 c.), dizendo-se das mercês que fazia, (como das do Imperador Teodósio) (Petr. Bros. in not. ad Cassiod. Var. Lib. 3 ep. 42. n. I. Tam certa fuisse illius beneficia, ut tum accepta viderentur cum sponderet) que tão certas estavam prometidas, como recebidas; e porque uma vez mal informado passou uma provisão contrária a outra, mandou dar à parte duzentos mil reis em que fora prejudicada (Resende Chron. de D. João II c. 106. Maris dial. 4, c.). Vendo também que as rendas da Coroa não chegavam talvez às despesas precisas, faziam dinheiro de fé dos contratos.
 
CONSEQUÊNCIAS
por razão
 
4. Uma é que o Príncipe que promete e não satisfaz, escurece todas as virtudes com a coisa mais indigna de seu Estado (Patrit. de reg. lib. 8 c. 20. Fides tanto splendore presuget, ut sine ea omnes Regum, ac Principium virtutes obscuriores fiant); obra pior ofendendo com engano, que se violentara com força (Tucyd. lib. 4 Iis quis indignitate sunt, turpius fraude bonesta cirumvenire, aut ladere, quam vi aperta); assim como, sujeitando sua isenção à lei da obrigação que ele mesmo se impôs, faz acção maior que a glória do Império (Guicciard. hist. Lib. I Nil Principe, aut Rep. indignius, quam fidem datam non servare).
 
5. Por esta virtude (escrevem os Historiadores)  ( Duarte Nunes Chron D. Dinis Maris dial 3. c 1 no prin.)era celebrado em todo o mundo nosso Rei D. Dinis, e já mostramos no Parágrafo precedente quam importante seja ao Príncipe a voz da fama.
 
6. Outra consequência mais sensível é privar-se de todo o comércio (L. Digna vox 4. C. de legib. Maius imperio est submittere legibus Principatum); porque se ninguém se atreve a fiar de um particular trapaceiro, que pode ser constrangido, quem ousará empenhar-se com um Príncipe mal reputado, que é livre? Pelo contrário o Príncipe que não falta, se necessitar de soldados, lhe sobejarão sobre promessas, entendendo-se que são constantes, (que uma esperança bem fundada arrisca muitas vidas); poucas comendas tem a ordem de Malta; mas porque nelas as promessas não faltam, os Cavaleiros sobejam; se necessitar de dinheiro o achará sobre sua fé, conhecendo-se que é inviolável (que é doce coisa, sem risco de perder obrigar um Príncipe); se o mercador de cabedal limitado tem um tesouro em seu crédito; quanto maior o terá o Príncipe rico sem limite? se aquele acha quem fie dele só pela paga, quanto melhor achará quem pode pagar e agradecer?
 
7. Aquela infalibilidade das promessas e alvarás de nossos Reis, levantava exércitos, e guarnecia Armadas de soldados pagos com folhas de papel; tanto que ela faltou, não se acharam mais homens para servir, do que eram as comendas vagas, e mercês efectivas para logo dar. Aquela fé dos contratos, os fazia tomar pelo justo preço das rendas; tanto que ela se rompeu, abaterem eles pela incerteza da observância. A pontualidade dos pagamentos achava empréstimos sobre o cabelo da barba de um Ministro (Couto Dec. 6 lib. 4 c.3 c.4); e naos de mercadorias sobre uma palavra (Barros Decc. i lib. 5 c. 9); depois que a cobrança foi requerimento, nada se acha sobre provisões, e consignações Reais. Zelo ignorante de maus ministros, cuidar que se acrescenta a fazenda Real com o descrédito: miserável cegueira de Alvitristas, mandar buscar minas a novo mundo, e destruir as que se têm em casa! Proceda o Príncipe verdadeiro (que é o melhor alvitre) e será tão impossível faltar-lhe crédito para quanto quiser, que parece que o mesmo Deus duvidava como poderia suceder isto, ainda entre os piores, quando politicamente preguntava aos Fariseus: Porque não credes, se vos falo verdade? (Joan. 8 n.46. Si veritatem dico vobis, quare non creditis Mihi?)
 
(continuação, IX parte)

29/08/16

NA SERRA ALTA - RAZÃO, VERDADE E JUSTIÇA


"É por pouco amor à verdade que alunos de Lógica não se preocupam adequar-se a esta fundamental ciência. Mesmo conhecendo e usando bem das regras do silogismo, alguns deles fazem grandes danos ao ajuizar as coisas da vida; ou porque lhes falte qualidade na verificação das premissas (quanto à conformidade destas com a realidade), ora porque  por estranho motivo lhes convenha algum disfarce racional (racionalismo). De forma análoga costuma a camada menos virtuosa do Povo, que considera muito pelo sentir geral, ou pelas estimas e ódios que ela sente, ou pelos próprios interesses pessoais, ou respeitos humanos, precipitando-se: fazendo sentenças sem aquele rigor ou objectividade que ela mesma gostaria de ver em tribunal no dia em que fosse acusada injustamente! "Justiça sem Verdade", exclamaria então!
Há que ter a Verdade em primeira conta, em todo o lugar, sempre, e sem espaços de neutralidade."
(na serra alta - J. Antunes)

20/07/15

A VERDADE E O ABORTO - Cardeal Arinze

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Do vídeo apenas quisemos publicar a parte que vai até aos 2:42 min.

16/12/14

ASCENDENS - informação sobre o blogue


Quem melhor que aquele que tem em quantidade para dizer que não é a quantidade que mais importa!? Pois bem, várias vezes foi dito aqui que o blogue ASCENDENS não deve ser medido pelas quantidades, e que hoje a quantidade de visitantes pode ser mais sinal mau, que bom.

Independentemente disso, também para ir lembrando ao público que há trabalho e coração na gradual edificação deste blog, achei por bem revelar o número de publicações.

Ao todo, o blog ASCENDENS tem 2451 publicações, das quais 2000 estão disponíveis e 451 estão no arquivo interno (maior parte destas esteve já publicada, e por algum motivo foram retiradas da vista do leitor). Ficam fora de qualquer apreciação todas aquelas publicações desaparecidas com as duas primeiras versões do blogue.

Nunca é pouco lembrar que a temática do blog ASCENDENS é tudo o que diga respeito à Civilização Católica, nomeadamente Lusa. Por isto, é talvez necessário hoje salientar que são recusadas as interpretações (deturpações) que firam, diminuam, deturpem, contradigam, a pureza da Fé tal como sempre o Catolicismo a entendeu (eis o que se pode chamar de "posição tradicionalista"). A ortodoxia, é aqui mais que reconhecida, é tomada como indispensável e como fundamento.

Não é por ser o blog ASCENDENS o espaço português "tradicionalista" com maior número de publicações que tal lhe garante o bom critério e a fidelidade. É mais significativo que as tantas publicações sejam feitas primeiramente com os olhos na Verdade e benefício verdadeiro.

Convém lembrar que este blogue está sujeito a revisão constante. Qualquer engano que possa haver nas publicações deverá ser imediatamente a corrigido; porque a Verdade é imutável, o blogue é mutável!

Em todo o mundo o blog ASCENDENS é o espaço com maior número de textos publicados da luta anti-liberal portuguesa (séc. XIX), textos da luta do tradicionalismo português do séc. XIX (que abrangia praticamente toda a sociedade como o seu Rei D. Miguel I, O Tradicionalista, contra a facção liberal).

Por hoje é tudo.

Viva às Cinco Chagas de Nosso Senhor, viva ao Reino de Portugal.

Pedro Oliveira.

11/12/14

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XLI)

(continuação da XL parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap.IV
Verdade e Humildade Diante de Deus

1. Cristo - Filho, anda em minha presença em verdade e simplicidade de teu coração.
Quem segue as regras da minha verdade será defendido dos ataques do inimigo e a verdade o livrará dos embusteiros e das murmurações dos maus.
A verdade te fará verdadeiramente livre e nenhum cuidado te dará o que os homens injustamente disserem de ti.

2. Alma - Sim, meu Senhor, o que dizeis é verdade e eu Vos peço a graça de ser como desejais. A Vossa verdade me ensine, me defenda e me conserve em Vós até ao fim. Ela me livre de todos os maus desejos, dos afectos desordenados, e andarei no Vosso serviço com grande desafogo do meu coração.

Cristo - Eu te ensinarei o que é justo e o que me agrada. Considera grande aborrecimento e tristeza os teus pecados e jamais imagines que és digno de consideração por tuas boas obras, transigindo com o pecado.
És, realmente, pecador, sujeito às paixões, preso nos seus laços. Em ti tens um peso que te arrasta para o nada; facilmente cais, facilmente és vencido, e a menor infelicidade te desanima e te perturba. Nada tens de que possas gloriar-te; muito, porém, de que te envergonhes. A tua fraqueza é maior do que possas imaginar.

3. Nada, pois, do que fazes, te pareça grande. Nada julgues sublime, preciso, admirável, nem digno de ser considerado, louvado ou desejado, senão o que é eterno.
Acima de tudo, deves colocar a verdade eterna e desagrade-te sempre a tua vileza.
Nenhuma coisa temas, vituperes e abomines tanto como os teus vícios e pecados, os quais devem entristecer-te mais do que todos os infortúnios.
Alguns não andam diante de mim com singeleza, mas levados de certa curiosidade e arrogância, querendo saber os meus segredos e entender os meus mistérios; e, assim, descuidam-se de si e da sua salvação. Estes, muitas vezes caem em grandes tentações e pecados, pela sua soberba e curiosidade, castigando-os, consequentemente, a minha justiça.

4. Teme o juízo de Deus e a ira do Omnipotente.
Não queiras penetrar as obras do Altíssimo. Examina, antes, as tuas maldades, as faltas em que caíste e a quantidade de boas obras que deixaste de fazer por negligência. Alguns põem toda a sua devoção nos livros, outros nas imagens, outros nos gestos exteriores. Trazem-me na boca, mas não no coração.
Outros há que, tendo a alma ilustrada e o coração puro, suspiram continuamente pela eternidade; afligem-se ouvindo falar da terra; fazem com repugnância o que à natureza não podem negar. Estes compreendem perfeitamente o que o espírito da verdade lhes fala ao coração. Este espírito lhes ensina a desprezar as coisas terrenas, a amar as celestes, a rejeitar o mundo e a desejar o Céu, dia e noite.

04/12/14

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XXXIX)

(continuação da XXXVIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap.II
A Verdade Fala à Alma Sem Rumor 

1. Alma - Falai, Senhor, o Vosso servo vos ouve. Eu sou o Vosso servo; dai-me inteligência para que conheça os mistérios da Vossa lei. Inclinai o meu coração às palavras da Vossa boca, fazei que elas o penetrem como um orvalho celeste.
Os filhos de Israel diziam antigamente a Moisés: "Falai-nos e nós O ouviremos; não nos fale o Senhor, porque, falando-nos, talvez morramos." Eu não Vos oro, Senhor, deste modo - antes, com o mais humilde desejo, Vos peço aquela mesma graça que Vos pediu o profeta Samuel, quando Vos dizia: "Falai, Senhor, o Vosso servo Vos ouve."
Não me fale Moisés, nem qualquer dos profetas. Podeis, sem eles, ensinar-me tudo; e eles, sem Vós, de nada me servem.

2. Eles podem muito bem proferir palavras, mas não podem dar a graça nem o espírito.
Falam de um modo admirável, mas não inflamam o coração, se estiverdes calado.
Os doutos transmitem as suas letras, mas só Vós explicais o íntimo sentido delas. Falam de mistérios, mas de Vós vem a inteligência para os penetrar. Eles nos intimam a cumprir as Vossas ordens, mas Vós nos ajudais a cumpri-las. Mostram o caminho, mas Vós nos dais a força para andar-mos. Eles actuam sobre os sentidos, mas Vós instruís e ilustrais o coração. Eles regam a superfície, mas Vós fazeis germinar a semente. Eles falam, mas Vós dais à alma os ouvidos com que perceba as suas vozes.

3. Não me fale, pois, Moisés, mas falai-me Vós, meu Senhor e meu Deus, que sois a eterna verdade. Temo morrer estéril, sendo só externamente advertido sem ser abrasado no interior.
Não me serve de condenação a palavra ouvida e não praticada; conhecida e não amada; aceite e não cumprida.
Falai, pois, Senhor, porque o Vosso servo vos ouve e porque as Vossas palavras dão a vida eterna.
Falai-me, para consolação da minha alma, para emenda da minha vida, para louvor, honra e glória Vossa.

19/09/13

LIÇÃO XIII - DA VERDADE (VI)

(continuação da V parte)

Três géneros de ministros têm todos os príncipes do mundo ao serviço, uns são diabos, outros são homens, e outros são anjos. Os primeiros são lisonjeiros, dos quais falámos já na respectiva lição, os segundos são aqueles que não vão pelo caminho largo e comum da lisonja nem pela apertada vereda da verdade e do desengano (homens frouxos e pegados às temporalidades, que vivem segundo o tempo,  acomodam-se à miséria do século, não têm valor para dizerem desenganadamente o que sentem, nem, por outra parte, pretendem adiantar-se nos lugares aprovando o mal como se fora bem, conhecem os danos e perdas que causa o mau governo, porém não se atrevem a censurá-lo e menos em representá-lo ao Príncipe, se bem talvez, ou muitas, o murmuram com seus confidentes e particulares e mostram no exterior que aprovam sua resolução, justificando-se em segredo com as partes dizendo-lhes que contra o que entendem executam as ordens superiores mas que como são mandados não podem deixar de obedecer). Destes foi aquele terceiro príncipe quinquagenário por quem o perverso rei Ocozias mandou prender o santo profeta Elias: viu por uma parte a tirania e resolução do rei, com tudo, ainda que tal, não se atreveu a replicar-lhe para não lhe dar ocasião de desgostar-se com ele, por outra vendo claramente que Deus acudia pelo seu profeta, abrasando com fogo do Céu aos outros dois ministros que lhe haviam precedido em comissão, temeu o mesmo castigo e, chegando ao profeta com grande demonstração de humildade, disse-lhe como se lê no lib. 4 dos Reis, cap I num 13 e 14: "Varão de Deus, não desprezes minha vida, nem a destes teus servos que estão comigo; contra os outros dois baixou fogo do Céu que os abrasou a eles e aos seus soldados; por tanto peço-te que te compadeças de minha vida". Se tanto temias covarde ministro o rigor da divina justiça, e conhecias a tirana resolução do teu príncipe, porque com a devida submissão e reverência lhe não dissestes: "Olhai senhor o que fazeis, que este é profeta e Ministro de Deus, o qual não consente que aqueles que O servem sejam oprimidos e mal tratados": e a estes tais, que não tem resolução, para que, quando vejam que o seu príncipe, ou os tribunais superiores lhes mandam algumas ordens, das quais pode resultar dano ao pública, ou particular contra o que pede a justiça, possam com a devida submissão e modéstia de verdadeiros vassalos, representar a inconveniência que das tais ordens resulta, se devem deixar do tal serviço, que assim o faz Deus, como se lê no cap. 3 do Apocalipse num. 16 17 com o Bispos de Laodiceia.

(a continuar)

18/09/13

LIÇÃO XIII - DA VERDADE (V)

(continuação da IV parte)

Sem esta virtude da verdade não pode haver honra nem estimação, porque, conforme ao que diz Pio II, o mentir é de pessoas baixas; e assim assentamos que por nenhum caso pode mentir cristão algum, ainda que da mentira pudessem resultar grandes bens; pois nunca se hão-de obrar males parar consegui-los, como escreve S. Paulo (ad Roman. cap. 3 num. 8), mas principalmente carrega mais esta obrigação sobre os Ministros, nos quais quer Deus a verdade no íntimo de seus peitos, e que ainda no exterior resplandeça no seu Pontífice Sumo, por símbolo e representação de quanto se agrada dela; e assim consta do cap. 28 do Exodo, n. 30 e do cap. 8 do Levítico num. 8 que trazia sobre o peito uma figura, cujo título era Verdade. E o domínio para enganar aos simples com esta imitação, conta S. Francisco Xavier (lib. 3 Epistol. 5) que no Japão o seu Pontífice se chama Mioxit, que significa coração de verdade. Conta Eliano (lib. 14 de varia Historia cap. 34) que os Egípcios observam que os juízes fossem os mais justos e sinceros de todos, e que para símbolo de sua pureza trouxessem ao pescoço uma imagem da verdade; e o mesmo escreve Diodoro (lib. 2 cap. I dos Reys do Egypto). Os ministros foram criados para separarem a verdade da mentira, e o justo do injusto, e mal podem os que não forem verdadeiros e amigos da verdade fazer esta separação com acerto, nem se pode esperar que sejam verdadeiros para os outros os que são memoriosos para si.

(continuação, VI parte)

16/09/13

LIÇÃO XIII - DA VERDADE (IV)

(continuação da III parte)

 Todos os elogios e triunfos da verdade são afrontas e vencimentos da mentira, que é uma falsa significação da voz com intenção de enganar, e de quem S. João, no cap. 5 n 4, dá por pai o diabo; e Santo Agostinho (tractatu 42 in Joan.) diz que como Deus gerou o Filho, que é a Verdade, o demónio tendo caído gerou como filha a mentira; e David (Psalm 5 n 7) testemunha que Deus perderá todos os mentirosos, e que perecerá o que falar mentira. Nos Provérbios (cap. 9 num. 90) de três coisas ameaça Deus, que nos mesmos Provérbios (cap. 6 num. 16 e 19) afirma que O aborrecem; uma é a mentira, e outra o testemunho falso, que é o mesmo; e é no cap. 22 num. 22 dos Provérbios diz que são abominações para Deus os beiços mentirosos; e Job (cap. 72 num. 4) se recata tanto da mentira que diz que a não permitirá à sua língua, nem mesmo pensar nela. Na Sardenha, diz Solino (cap. 10) há uma fonte donde metiam ao que jurava, e se havia jurado mentira saía dela cego, e se dizia verdade ficava livre. Em Lienna havia outra, que era gostosa e agradável aos que dela bebiam se falavam verdade, e o contrário aos que a não diziam. Platão (Dialog. 12 de legib.) pôs uma lei contra os mentirosos, que se agora observasse nem se mentira tanto, nem tantas vezes enganavam os homens uns aos outros; diz pois, que quando algum oficial de nossa República tomar qualquer obra com obrigação de acabá-la dentro de certo tempo limitado, se o tal não cumprir a verdade, primeiramente Deus o castigará, e sem isso desde agora o condenamos a que pague o valor em que se havia concertado pela dita obra, e que a acabe logo, sem que por isso se lhe satisfaça coisa alguma. Maior [lei era] a que usavam os mafilenses, entre os quais havia lei, o que se havendo libertado algum amo a seu escravo, depois disto o tal mentisse a seu amo, o mandavam tornar à escravidão. Mais adiante passavam os Lício, dos quais escreve Heráclides (lib. I de Politiis) que em colhendo em mentira a qualquer pessoa, sem terem respeito a qualidades, primeiramente a vendiam em pública almoeda, e ainda que ele, e toda a sua geração fosse livre, ficava por cativo; para que lhe não ficasse esperança de resgate, lhe confiscavam toda a sua fazenda, deixando-o não menos pobre de fazenda, que de liberdade. Os Índios aos que mentiam lhe punham silêncio perpétuo. ElRey Ataxerxes mandou furar a língua com três cravos a um soldado que mentiu. Do nosso Rei D. Diniz conta-se que lhe ouviam dizer que nenhuma coisa mais o ofendia que uma mentira; e com razão devem ser castigados os mentirosos, pois, como diz Aristóteles, não pode haver coisa mais prejudicial nas Repúblicas que homens mentirosos, que não merecem crédito, ainda quando falam verdade; razão que bastava para que todo o homem fugisse deste vício.

(continuação, V parte)

06/09/13

LIÇÃO XIII - DA VERDADE (III)

(continuação da II parte)

É tão afirmada a verdade que não há nação, por mais bárbara que seja, que não faça dela o maior apreço. Os atenienses amavam-na tanto que houve lei naquela República pela qual absolviam ao Rei que confessava seu delito, como conta Alexandre (ab Alexandro lib. 3 ca. 5). Os Lacedemónios não queriam vê-la em boca de gente ruim, e assim quando algum homem de mau nome dizia alguma sentença, cuja verdade se assentava, mandavam que a pronunciasse outro de boa fama. O mesmo achamos, segundo Santo Ephrem. tom. I cap. de lingua mala, haver significado a majestade encarnada, quando mandou aos demónios que calassem e não o publicassem por Cristo, para que uma tão grande verdade não se ouvisse por língua sacrílega. Epaminondas nem deveras, nem zombando dizia, ou consentia dizer coisa contrária ao que sentia. Xenócrates pela opinião que tinha de verdadeiro, era crido sem juramento em qualquer caso, que testemunhava. DelRey D. João II escreve Mariz (dialog. 4 cap. 12) que era tão verdadeiro que nunca se lhe ouvira dizer uma coisa por outra, ainda que fosse em matéria leve. De Fr. António Lourenço, franciscano, escreve Barros (decad. 2 lib. 7 cap. 3) que estando cativo em Cambaia, pediu licença para vir a Goa tratar do seu resgate, e por não poder negociar dentro do tempo, que prometeu, se voltou ao cativeiro de que admirado o Rei, lhe deu liberdade, e a todos os mais Portugueses cativos. Semelhante caso conta "Cabreira em A História delRey Filippe II" (lib. 12 cap. 18) do Doutor Baltasar de Amaral, Corregedor da Corte, que estando cativo em batalha delRey D. Sebastião, e vindo com licença dos Mouros a tratar do seu resgate, depois de ter feito o que vinha fazer, tornou ao cativeiro, igualando o que fez Atilo Régulo, que sendo Capitão dos cartagineses, e tendo prometido ao Capitão Xântipo, de tornar, quis mais cumprir uma palavra, tornando para receber a morte, que ficar em Roma salvo, e mentiroso. Estando em Calecute cativos certos portugueses em tempo de Lopo Soares de Albergaria, mandaram um único a pedir ao governador que fizesse pazes para que fossem livres; e por não parecer conveniente a Lopo Soares fazer pazes, disse ao menino, se que se deixasse ficar, mas ele antes quis ir para o cativeiro, que faltar à verdade que tinha prometido. Do nosso Infante D. Fernando diziam os Mouros que fôra santo, por três razões, primeira, porque nunca mentia, segunda, porque sempre orava, terceira, porque era virgem.

(continuação, IV parte)

01/09/13

LIÇÃO XIII - DA VERDADE (II)

(continuação da I parte)

Em aquela disputa, sobre que coisa era maior poder diante daquele rei gentio, Dario, depois de se haver ponderado o poder DelRey, do vinho, e da mulher, concluiu Zorobadal com vivas razões, que era maior a força da verdade; e por isso o subiu ElRey à maior privança, como refere Estobeu no sermão II. Perguntando Pitágoras, que coisa fazia os homens mais semelhantes a Deus, respondeu, que o fazer benefícios, e exercitar verdades. É uma tocha a verdade, que com nenhum vento se apaga, e com nenhum ar se move, ainda que mais a cerque o vento da contradição: é um tesouro, disse Demétrio, tão rico, que o esconde a natureza nas entranhas da terra, e se descobre com o tempo, pelo qual a chamou um poeta grego (segundo refere Aulo Gelio no lib. 12 cap. 12) filha do tempo: "Veritas temporis filia"; que ainda que às vezes, como velho, tarda mais do que se queira ao fim, atrás desses passos tão medidos, e pausados, quando menos cuidam os que a desejam, a vêm chegar em seu socorro; por tanto, em semelhantes apertos, é muito bem ter sabido o conselho de Séneca (lib. 2 de ira cap. 22) que diz, que sempre se há-de esperar tempo para que se aclare; porque não há coisa tão oculta e escondida que se não venha a saber, como aliás diz São Lucas (cap. 12). Poucos tutores hámister a verdade, porque ela mesma acode à sua justiça; ainda que no mar da mentira a assaltem os corsários da traição, engano, maldade, e aleivosia, não a renderão, pois bem pode a falsidade com sua inchada espuma fazer por afogá-la, mas não o alcançará, porque quando mais sumida a tem as águas da tormenta, se levanta dentro das ondas, como lua cheia, quando se eleva sobre o horizonte, que parece a escurecem os crus vapores da terra, porém em pouco espaço descobre seu rosto claro, e prateado; e por isso diz S. Crisóstomo (homilia 3) tal é a condição da falsidade, que ainda sem haver quem a pretenda descobrir, se conhece; tal a da verdade, que ainda havendo quem a impugne, se manifesta; e Cícero exclama: "Oh grande força da verdade, que por si mesma se defende contra os engenhos, astúcias, e traições de todos!" É a verdade como a palma, que quando mais oprimida, mais direita se levanta: "Multorum improbitatedepressa virtus emergit, innocentiae defensio in terclusa respirat" - assim o disse Cícero; e o experimentou, pois segundo refere Plutarco in vita Catonis, cinquenta vezes em diversos tempos, por diferentes delitos foi acusado entre os romanos, mas em todas saiu livre. Noventa e cinco vezes foi exposto em juízo Aristofanes, entre os gregos, e em todas foi dado sem culpa; porque àquele que a verdade defende, tarde ou cedo, os põem a salvo.

(continuação, III parte)

31/08/13

LIÇÃO XIII - DA VERDADE (I)


"É a verdade, segundo Aristóteles (lib. 2 Metb.) uma adequação da causa como entendimento; ou segundo Santo Tomás (2. 2. quaest. 110) uma parte da justiça, que ordena nossas acções a satisfazer as obrigações que temos à humana sociedade; ou segundo outros, uma qualidade essencial das coisas, que divinamente caiem sobre o ânimo, que de si mesma profere valor, aonde indefinidamente as forças do ânimo se propagam; ou segundo Epiménedes, é a que rege os Céus, alumia a terra, sustenta a justiça, governa a República, confirma o que é claro, aclara o que é duvidoso, e com ela todas as virtudes tem sua perfeição; ou segundo Chilo, uma homenagem, que nunca cai, um escudo, que se não passa, um tempo, que não se muda, uma frota que não perece; uma flor, que não se murcha, um mar, que não se altera, um porto donde nada periga; ou segundo Platão, um centro donde repousam todas as coisas, um norte por donde todo o mundo se governa, um antídoto com que todos se curam, uma sombra onde todos descansam, um terreiro donde todos tiram, um alvo donde poucos acertam; ou segundo Equines [Echines], uma força sem a qual a fortaleza é fraca, à prudência é malícia, a temperança é miséria, a justiça é sanguinolenta, a humildade é traidora, a paciência é fingida, a castidade é vã, a riqueza é perdida, a piedade é supérflua; ou segundo Anaxágoras, uma vida, que nunca morre, um electuário, que a todos fará, uma lua que nunca se eclipsa, uma porta que a nada se cerra, um caminho, que a ninguém cansa, É finalmente a verdade um dos maiores atributos de Deus, que disse por Zacarias no cap. 8 num. 8 falando com os moradores de Sião, e Jerusalém,que se a seus olhos lhe pareceram poucas as relíquias, que lhe ficavam, não seria difícil aos poderosos ajuntar outros do Oriente, e Ocidente, trazendo-os a habitar em meio de Jerusalém, constituíndo-se por Deus da verdade, e da justiça, que são os atributos, de que mais se preza nosso verdadeiro Deus; e por acreditar mais a verdade, disse Cristo de si mesmo, como refere S. João no cap. I 4 n.6: "Eu sou o caminho, a verdade, e a vida, e ninguém pode chegar aos olhos de meu Pai se não é por mim"; e o mesmo São João na Epístola I num, 6 querendo dar a conhecer a Cristo Senhor nosso, escolheu por melhor meio para conseguir o intento dizer: Cristo é a verdade. Não se contentou o Eterno Padre [Eterno Pai] com declarar-se por Deus da verdade em Sacarias, nem que o mesmo Filho se chamasse verdade, e que São João dissesse que Cristo e a verdade eram uma mesma coisa; mas também quis que o Espírito Santo, que procede de ambos, ficasse conhecido também por Deus da verdade; e assim mandou ao Filho, como escreveu S. João no c. 16 num. 3 dizendo aos Apóstolos com a ternura que lhe causava o falar em apartar-se deles para ir-se para o Pai, vendo seus corações afligidos, e dizendo-lhes grandes mistérios, rematou que tinha mais coisas que dizer-lhes, porém que não estavam capazes de entendê-las até que o Espírito da Verdade viesse a ensinar-lhes toda a verdade; e quase todo o Evangelho de S. João no cap. 4 está semeado de apoios da verdade; referindo o mistério da Encarnação, diz, que habitou com os homens o Filho de Deus, que verão sua gloria, que como filho Unigénito do Pai está cheio de graça, e de verdade, e David (Salmo 118 num, 142) chama verdade à lei de Deus; e o maior tesouro, que o professor dela pode ter, é a verdade, como ensina o Espírito Santo no cap. 23 dos Provérbios num 23. É a verdade em suma um licor suavíssimo, que se talvez deixa humilhar-se das águas da falsidade, torna a sair em no crespo de suas ondas mais resplandecentes: com a lei se descobriu a verdade, com o escreve Platão: Lex est veritas inventrix, porque com a falta desta se ia já perdendo o conhecimento dela no mundo, que com a lei, imitadora da verdade, segundo o mesmo Platão: Lex est veritatis imitatrix, a conserva no coração dos homens.

(continuação, II parte)

29/11/12

EM NOME DE UMA FALSA VERDADE

 "Vai ouvir as verdadinhas todas" - ouvimos tantas vezes dizer isto, sobretudo a rapariguinhas. Evidentemente que estas "verdadinhas" são uma deturpação do conceito "verdade", deturpação conatural ao azedume, e usada como forma cobarde de poder. Tal actitude chega a ser tão pouco caridosa que se desresponsabiliza de toda a má consequência que advenha deste dizer as "verdadinhas".  Comportamento íntimo da mesquinha irritação, por vezes acto de vingança fingidamente autorizado por suposto dever de dizer a verdade seja como for e quando for: a única regra que ali parece existir é a satisfação pessoal. Nunca essas pessoas vestem com tanto empenho a pele de "defensores da verdade"! Este uso de suposta verdade, é, ao fim e ao cabo, uma abuso contra a verdade, é uma falsidade afastada do "viver em verdade" e o "agir em verdade".

Os fins não justificam os meios, nem os meios justificam os fins... - assim o sabemos da moral.

Bem poderíamos chamar a esse mau uso da verdade "verdade de Satanás", da mesma forma que, com a factualidade e as afirmações verdadeiras, também a besta engana - e assim diz o povo: "com a verdade me enganas". Ora, a "verdade" retirada do seu contexto de bem, de amor, de beleza, de justiça, não pode ser Verdade nem produzir bem, nem justiça, nem ordem, nem beleza, nem amor. Há que distinguir, portanto, entre "verdade" de coisas como "factualidade" ou "verdadeiro".

Não pretendo fazer aqui profundas demonstrações e explicações. Apenas faço um alerta para que muitos possam sair de certos erros muito difundidos, de certos vícios muito enraizados e acalentados por certos grupos, e pela sociedade moderna em geral.

09/10/12

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (III)

(continuação da II parte)


A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis


Cap. III
Da Doutrina da Verdade

1. Bemaventurado aquele a quem a verdade por si mesma ensina, não por figuras, e vozes que passam, mas como em si é. A nossa estimação, e o nosso sentido muitas vezes nos engana, e é pouco o que conhece. Que aproveita a subtil especulação a respeito das coisas ocultas e obscuras, pelas quais não seremos repreendidos se não as conhecermos até ao dia do juízo? Grande loucura é, que, deixando as coisas úteis e necessárias, nos apliquemos com gosto às curiosas e danosas. Verdadeiramente tendo olhos não vemos.

2. Que se nos dá dos géneros e espécies dos Lógicos? A quem fala o Verbo Eterno, de muitas opiniões se desembaraça. Deste só Verbo saem e falam todas as coisas; E este é o princípio que nos fala a nós. Ninguém entender, ou julga rectamente sem Ele. Aquele, a quem Deus é todas as coisas, que todas as coisas refere a Deus, e em Deus vê todas as coisas, poderá ser firme de coração e permanecer pacífico em Deus. Oh Deus verdadeiro, fazei-me uma mesma coisa convosco, e caridade perpétua. Enfastia-me muitas vezes ler e ouvir muitas coisas: em Vós está tudo o que quero, e o que desejo. Calem todos os Doutores e emudeçam todas as criaturas à vossa vista; somente me falai Vós.

3. Quanto algum for mais recolhido consigo, e mais singelo em seu coração, tanto mais e mais altas coisas entenderá sem trabalho; porque de cima recebe o lume da inteligência. O puro, singelo, e constante espírito não se distrai, ainda que se ocupe em muitas coisas, porque todas faz para honra de Deus e cuidadosamente procura não buscar em alguma o seu próprio interesse. Quem mais te impede e perturba qe a afeição de teu coração não mortificada? O bom e devoto varão primeiro ordena interiormente as obras, que exteriormente deve fazer; nem segue as contrárias da inclinação viciosa, mas ele as leva ao arbítrio da certa razão. Quem tem maior combate que aquele que trabalha por se vencer a si mesmo? E este devia ser todo o nosso empenho, vencer-nos a nós mesmos aumentando cada dia o nosso esforço e melhorando-nos em nosso aproveitamento.

4. Toda a perfeição desta vida tem anexa a si certa imperfeição, e toda a nossa especulação se embaraça com alguma escuridade. O humilde conhecimento de ti mesmo é mais certo caminho para Deus, que o esquadrinhas a profundidade da ciência. Não se deve culpar a ciência ou qualquer outra notícia das coisas, pois em si é considerada boa, e ordenada por Deus, mas sempre se lhe há-de antepor a boa consciência e a vida virtuosa. Mas porque muitos estudam mais para saber, que para viver, erram muitas vezes e pouco ou nenhum fruto colhem.

5. Oh, se tanta diligência pusessem em desarreigar os vícios e plantar virtudes, como a põem em mover questões! Não se fariam tantos males, nem tantos escândalos no povo, nem haveria tanta dissolução nos Mosteiros. Certo que, no dia do Juízo, não perguntarão o que lemos; nem quão elegante temos falado, mas quão religiosamente vivido. Dizei-me: onde estão agora todos aqueles Doutores, mestres, que conhecestes quando viviam e floresciam nos estudos? Já outros possuem as suas rendas, e não sei se há quem deles se lembre. Em sua vida pareciam alguma coisa, e hoje não há deles memória.
 
6. Oh, que apressadamente passa a glória do mundo! Proverá a Deus que a sua vida concordará com a sua ciência [conhecimento], e então tiveram bem lido, e bem estudado! Quantos por sua vã ciência se perdem neste mundo que tratam pouco do serviço de Deus; e porque escolhem antes ser grandes que humildes, se desvanecem em seus pensamentos! Verdadeiramente grande é aquele que, na sua estimação, é pequeno e que avalia em nada a maior honra. Verdadeiramente prudente é aquele que tem por imundícia todas as coisas da terra para ganhar a Cristo. É verdadeiramente aquele que faz a vontade de Deus e deixa a sua.

06/03/12

DOUTRINA CATÓLICA SOBRE O PAPA (I)

"O Papa é o chefe supremo da Igreja universal. Tem potestade directa sobre os Bispos, Sacerdotes e Fiéis. Exerce a tripla potestade, legislativa, executiva e judicial na Igreja, que por vontade de seu Divino Fundador, é uma instituição monárquica.

Alem disto tem ainda uma qualidade, da qual carece qualquer outro homem na terra: é infalível quando se dão certas e determinadas condições. para que um pronunciamento pontifício seja infalível o Papa deve:

1) Falar como Supremo Doutor e Pastor da Igreja [universalidade];
2) Definindo uma doutrina;
2) Em assunto de Fé, Moral e Costumes;
4) Obriga a todos [obrigatoriedade].

O Papa, ao ser Vigário de Nosso Senhor Jesus Cristo tem como missão ser inteiramente fiel à doutrina do nosso Divino Redentor, transmitir o Depósito da Fé, o que está encerrado na Tradição e nas Escrituras. pois é dogma de Fé que a Revelação pública ficou encerrada com a morte do último Apóstolo. Nada se pode agregar a este sagrado depósito, somente se pode explicá-lo no decurso dos século. Por isto, quando a Igreja define um novo dogma, não inventa nada, mas apenas que precisa uma verdade sempre transmitida na Tradição ou contida nas Escrituras.

O Romano Pontífice é o pai comum de todos os fiéis, os quais devem rezar por Ele. A liturgia católica assinala-nos uma oração admirável pelo Vigário de Jesus Cristo: "roguemos por nosso Pontífice Bento XVI, para que Deus o conserve, o vivifique, o torne feliz na terra e não o deixe cair nas mãos dos seus inimigos".

Pois o Papa pode cair nas mãos dos seus inimigos, que são inimigos seus enquanto inimigos da Igreja. Ou seja, comunistas, socialistas, maçons, liberais de toda o tipo dos quais está infestado o planeta e, receamos muito,  também no Vaticano. O Papa também pode cair nas redes do inimigo maior, Satanás, enganando-se ou incorrendo em pecado. Nunca a Igreja ensinou que o Sumo Pontífice fora omnissapiente ou impecável [o que não peca], e só é infalível quando se dão as circunstâncias já assinaladas, ou se reafirma uma doutrina universalmente ensinada pela Igreja em todo o tempo e lugar. Um erro do Papa - pior se recair em matéria de Fé ou moral - pode ter consequências terríveis, pois os meios de comunicação, nas mãos dos inimigos de Deus, difundem-no igualmente como se fosse a voz da Igreja. Ou seja, propaga-se uma confusão sobre o que há de acreditar-se ou fazer-se, sobre o que é correcto e o que é errado, Chega-se a chamar bem ao mal e mal ao bem.


Mas ainda que os Papas caiam em erro, os fiéis devem-lhes guardar respeito e a veneração devida, mas sem segi-los no erro. Alguns dizem: "prefiro enganar-me com o Papa, que estar em verdade contra Ele". Esta frase de falsa piedade circula muito hoje em dia. Mas meditando um pouco a respeito do que Nosso Senhor disse: "Eu sou [...] a Verdade" (João, 14,6), a sentença de piedade aparente começa a parecer suspeitosamente a seguinte: "prefiro estar com o papa do que estar com Jesus Cristo". o que evidentemente fere o ouvido de quem tenha amor a Deus.

(continuação, aqui)

13/12/11

ANTI-GOYISMO / ANTI-SEMITISMO

Recebi há tempos um interessante mas problemático artigo. Quanto o quis publicar tentei recortá-lo para não exaltar alguma corrente política, contudo não consigo fazer tantos cortes e manter o sentido principal. Os cortes que tentei fazer referem-se à FSSPX, seus Bispos e Director Geral. Assim, apenas subscrevo o que é dito sobre a questão do semitismo/holocausto/anti-semitismo deixando ao leitor a tarefa de separar os assuntos.


O artigo intitula-se "Chega Agora o Grande Divisor", da autoria de Michael Hoffman (fundador do The Hoffman Center for the Study of Anti-Goyimism), publicado a 30 de Agosto deste ano.

Não sou revisionista, tal como em outra oportunidade referi, enquanto o revisionismo não tiver ou não puder assumir um compromisso com a verdade. Enquanto isto não acontece, bastará a um católico ser católico para que, tendo compromisso com a Verdade, estar na obrigação de olhar a história apenas segundo a mesma linha.

ATENÇÃO: relembro que, apenas subscrevo o que respeita à crítica ao indevido uso de "antisemitismo" como arma:

04/12/11

RÁDIO CRISTIANDAD - SEDEVACANTISTA, OU NÃO?

Espada de dois Gumes
Como dizem os brasileiros "vou dar um BASTA".

Agora mesmo o leitor "José", na caixa de mensagens, veio dizer-me que a Rádio Cristiandad é sedevacantista. 

Há anos conheci o trabalho de tal rádio, fui seu ouvinte. Quando cheguei à Argentina fui alertado de que tal rádio não devia ser escutada por ser sedevacantista. Fiquei muito admirado, pois não me parecia lógico. Depois de um ano fui informado de que a Rádio Cristiandad nega o sedevacantismo e opõem-se-lhe, e esta informação tinha sido dada pela própria rádio (fonte segura).

A Rádio Cristiandad tem publicada a actualização de um trabalho que defende a inviabilidade do sedevacantismo. É certo que até hoje, todos os que perante mim disseram que a rádio é sedevacantista nunca sabem realmente porque nem sabem apresentar para comprovativo um texto publicado ou um áudio. Todos dizem que foi o padre x que lhes disse, ou que foi o padre z, ou que foi o primo da amiga da sogra...

BASTA...

Quem aqui vier acusar alguém ou grupo sem fundamentação será humilhado por caluniador. A calúnia é pecado mortal ("não levantar falsos testemunhos").

Assim tomo a iniciativa de perguntar aos responsáveis da Rádio sobre a orientação da rádio face ao sedevacantismo. O resultado será publicado aqui. Entretanto, lanço o repto a todos os que dizem que a Rádio Cristiandad é sedevacantista para mostrarem quais são as afirmações da Rádio que levam a concluir tal coisa. Os resultado dos envios será igualmente publicados, e a privacidade, evidentemente, será respeitada caso seja solicitada. Enviem este artigo para o maior número de pessoas.

01/12/11

"HOLOCAUSTO" É DOGMA?

Parece que certos membros da hierarquia da Igreja Católica cada vez mais apresentam o "holocausto" como assunto que há de ser intocável aos católicos.

Em primeiro lugar há que analisar que tipo de matéria é esta do "holocausto". Em segundo lugar, há que saber que tipo de assuntos pertencem à hierarquia católica defender e reprovar, e em que grau:

1 - O "holocausto" é um assunto que deve ser primeiramente abordado sobre o ponto de vista das ocorrências históricas e pelos mesmos princípios e métodos que os historiadores têm usado ao longo dos tempos tanto para os casos mais simples como para os mais complexos.

O estudo e investigação da História tem metodologias, debruça-se sobre dados objectivos e faz a apreciação do todo dos dados ao seu alcance. Há certamente casos de insuficiência de elementos que levem a não poder concluir certas investigações. O que nunca se achou certo, e é contra os princípios da honestidade (moral) e da investigação científica, é a recusa de informação válida por contradizer um pré-julgamento ou uma anterior conclusão. O objecto da História são os acontecimentos passados e não uma determinada versão desses acontecimentos. O próprio "positivismo científico", o que costumam chamar hoje de "ciência" sabe que a possibilidade de erro existe no domínio humano e, por isso, conta com a revisão e reformulação das suas descobertas sempre que encontrar nelas imperfeições, ou as abandonaria caso fossem erradas.

O tema "holocausto", como qualquer outro assunto sério que se diga "histórico", não deve ser produto de interesses nem da parcialidade, e deve contar com a leitura feita da totalidade e da qualidade dos dados existentes. A dogmatização deste tema é tanto mais ofensivo quanto menos seriedade for dada ao todo da informação comprovada.

16/11/11

SANTO OFÍCIO DEMOCRÁTICO? - O PRIMAZ DAS ESPANHAS

D. Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas (título ameaçado pelo pós-conciliar e sobreposto título igual criado para o Arcebispo de Toledo), brinda-nos agora com mais uma "impossibilidade". Pede-nos que condenemos os discursos cheios de mentira.


Mas o que significa isto?!


Segundo o que a Santa Igreja sempre nos explicou, a mentira pressupõe consciência de ir contra a verdade, o que é pecado. A afirmação que tem intenção da verdade mas que não coincide com a verdade dize-se "falsa", e não é pecado.


A mentira implica engano propositado. Denunciar mentiras, como nos pede o Reverendíssimo Primaz das Espanhas, significa reconhecer que quem espalha o erro fá-lo de conhecimento. Isto de achar que os fiéis têm discernimento das intenções dos outros, quando os outros são igualmente fiéis, é correcto?! Como esperar que os fieis distingam num discurso o que é má intenção se nem estão preparados para distinguir o erro e são  formados para a não aceitação de tantas verdades da Santa Doutrina?! Será que hoje as os católicos ainda vivem segundo a Doutrina e sabem quase por intuição (culturalmente) fazer estas distinções?! Não. Evidentemente que não, o pensamento dominante não é mais aquele emanado da Santa Doutrina. O trabalho de preservar assim moralmente os fiéis, doutrinalmente e nos costumes, pertencia ao Santo Ofício (evitando antigos costumes de barbárie em que o povo e autoridades faziam "justiça" pela próprias mãos e sem sequer o acusado ter possibilidade de defesa, evitando a difusão da mentira socialmente, preservando a verdade não qual se deve acreditar, afastando a falta de moral dos burlões e dos maus políticos).

O Primaz das Espanhas terá democratizado o Santo Ofício!? Voltou à mão do povo o julgamento tacanho, numérico, que a inquisição, por graça de Deus tinha já em séculos vindo resolver!?

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