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05/08/16

CONTRA-MINA Nº 49: Prossegue a Matéria do Nº Antecedente (b)

(continuação da parte a)

E que se fez nos tempos Constitucionais? De que grande coisa se tratava? Que fins proveitosos à Monarquia, ao Reino, e à Fé se promoviam naquela, a mais desgraçada, e abominável época? Ora já entendo, e bom é ler de vez em quando os Periódicos Liberais, pois nada escapa aos Linces Políticos seus Autores... Os embargos, ou de víveres, ou de transportes, a que sempre foi necessário proceder em tempos de guerra, todas as vezes que se intenta a glória de Adonirão, e a segurança das Colunas do grande Templo, são acções especialmente boas; porque o fim canoniza os meios; caso porém tenham lugar em obséquio dos Reis, e dos Dogmas Religiosos, então se reveste de outra índole; são violências, são roubos, são extorsões, porque destoem, ou se encaminham a destruir o grande princípio da Soberania Maçónico-Universal, porque os Irmãos Pedreiros assim como descobriram o Pacto Social, que pode ser que guardem no seu Livro dourado, que nunca se enxovalhou com uma só vista profana, talvez descobrissem alguma Verba do Testamento de Adonirão, em que lhes fossem deixadas todas as produções da terra, desde a bolota, que era (dizem eles) o sustento do homem agreste, até ao milho, e trigo, de que se mantém, e subsiste o homem civilizado... mas prescindo agora inteiramente de chistes, e motejos; o caso é, que sendo o ano pretérito o mais escasso de certos víveres, e acrescendo por outra parte a necessidade de armamentos fora do comum, e pode ser que muito acima dos que se fizeram durante a Guerra Peninsular, e o que é mais, faltando os imensos recursos pecuniários, de que se lançou mão naquela época, assim mesmo a galinha vive, e sem fome, e miséria. Não tem outra pevide, senão a que lhe tem causado os malditos Constitucionais, Pedreiros, Galinheiros, e mais caterva, ou grei de malfeitores, apostados a darem cabo do mundo, o que nunca poderão levar ao fim; pois o mundo, que toma às vezes o seu lugar, dará primeiramente cabo deles, e fará murchar de todo as suas já flutuantes, e quase perdidas esperanças.

Se tem havido neste Reino algumas extorsões, e violências, é certo, e poderia afirmar até com os mais fortes, e os mais tremendos juramentos, que se fazem todas contra vontade d'El Rei Nosso Senhor; extremamente desejoso de poupar, quanto lhe seja possível, o seu leal, e amado Povo. Se a lide presente fosse da nossa parte uma lide Constitucional, quantos, e quão pesados tributos já se teriam lançado a este Reino? Que estranhas violências não se perpetrariam à sombra do que chamavam Lei Fundamental? E o mais é que todos se calariam aprontando com língua de palmo, quanto se lhes exigisse, no que por certo não haveria nem esperas, nem delongas, nem equidades.... Paga, ou te declaro inimigo do Sistema, faria recolher ao Erário até ao último real, que aparecesse neste Reino, e a tudo isto chamariam os próprios declamadores contra o actual empréstimo lances dolorosos, porém absolutamente necessários, empregando para o desculparem quantos raciocínios lhes fosse dado excogitar em prol do seu adorado Sistema.

Por outra parte é necessário confessar, que debaixo de uma capa demasiadamente larga, e protectora de grandes velhacos, e de grandes ladrões, se tem coberto algumas notórias extorsões, e violências... A capa, em que já falei tantas vezes, é a capa de Realismo, e afeição a ElRei Nosso Senhor, que não é mais vezes outra coisa senão Pedreirismo ardilosamente disfarçado, e amor a interesse, e vantagens particulares, e nada mais. Já apontei em alguma parte dos meus Escritos a máxima de um famoso Democrata, ou Republicano dos nossos dias "Quando fores Ministro de algum Rei absoluto, farás quantas asneiras te vierem à lembrança, e debaixo daquele escudo, ou farás descontentes, ou aumentarás o seu número." Quantos heróis tenho eu visto procederem neste sentido! Ah Mondeguistas, e Pedreiros convertidos, quem não vos conhecer, que vos compre.... Ministro, que pretextando ordens imperiosas, e absolutas, esbulham o pobre de meia dúzia de alqueires de pão, que ele reserva, ou para subsistir, ou para semear o seu caminho, e que fazem quantas equidades podem ao rico, ao poderoso, porque este manda bons presentes.... é inimigo d'ElRei, e é inimigo da sua Pátria.... Conhece-se à primeira vista, que eu não falo de todos os Magistrados territoriais; porém somente daqueles, que sobre maneira fiéis ao Materialismo, e Indiferentismo, que aprenderam nas Cavernas Coimbrãs, não tem, nem buscam outra glória, senão a deste mundo; e à força de meditações sobre a ciência de viver, tem descoberto os meios de serem ricos per saltum, assim como por outro não menos assombroso conseguiram a ciência de mês e meio, que os habilitou para serem outros Papinianos, ou Cujacios. Longe de mim a ideia, ou lembrança de querer macular a bem estabelecida reputação dos Magistrados sábios, incorruptíveis, e sinceramente afeiçoados à Causa do Trono, e da Fé. Sabe perfeitamente os da Aurora quase eles sejam, e a estes, e só a estes, é que dirigem, sob as aparências do mais desmarcado vitupério, a mais nervosa, e a mais gloriosa apologia:

"Os Magistrados depredadores, e venais foram ocupar o lugar dos homens honrados, e virtuosos." (Ita Aurora Nº 3 pág. 39)

Vem a dizer, segundo a força dos termos há muito adoptados na fraseología Maçónica... os Realistas sucederam aos Pedreiros Livres na administração da Justiça. E o caso é que os Ministros do tempo Constitucional eram uns anjinhos, que nem sabiam o que era roubo, extorsão, ou violência. Eram um modelo perfeito, e acabado de todas as virtudes. Pois de Religião? Eram fiéis executores de todos os preceitos Evangélicos. Ah! Sem dúvida perdeu muito a Nação Portuguesa, em que fossem demitidos estes sustentáculos da honra, e proibidade Lusitana, e parece andar às escuras, e às apalpadelas desde que perdeu estes Luzeiros da Sabença, estes novos, e mais heróicos Abdolimos, e Fabrícios... Por certo que deu o cabelo aos escrevinhadores da Aurora todas as vezes que se lhes antolha o já crescido número dos bons, e escolhidos Magistrados, que ocupam certos Lugares de Letras, em que muito poderão obstar aos progressos da Luz. Braga, tão fiel ao seu Rei e de mais a mais tendo por Corregedor da sua Comarca um Gaspar Homem Pinto, que sendo Corregedor em Pinhel, me deixava viver tranquilo no Mosteiro de Aguiar, não obstante as fúrias Thomazinas, que obrigariam a qualquer outro, que fosse menos impávido que ele, a desenterrar-me, sendo necessário, das próprias entranhas da terra!! O Porto, o saudosismo Porto, onde se engendram, onde se preparam, onde se fazem os primeiros ensaios do Poderio Maçónico, o Porto sujeito à direcção de um António Joaquim Pinto Moreira, que gemeu debaixo dos ferros Constitucionais, e que sendo tal, como é, nunca poderia merecer aos Pedreiros as honrosas qualificações de honrado, e fiel, que merece aos bons Portugueses!! Bastem os dois para exemplo, ainda que me custe a deixar em silêncio os autores Corregedores de Tomar, e de Santarém; e passando a outras considerações, que terrivelmente os pungem, e amofinam, quanto lhes terá sido amargo, que desse pequeno, mas valente, e denodado troço de Académicos, que se mediram com eles nas vizinhanças de Coimbra, tenham saído para a Magistratura os próprios, que sendo necessário tocarão a pena, com que sentenciam as Causas Civis, e Crimes, pela espada, com que se atravessam os rebeldes, e Pedreiros... Que Juízes de Fora têm actualmente Beja, Monsaraz, Alandroal, e Estremoz, e o Torrão do Alentejo! Só esta Província oferece tal número de Magistrados empunhando a Vara da Justiça com a própria mão já costumada, e afeita, ou a disparar tiros, ou a brandir a espada, que forçosamente os da Aurora, quiçá noutro tempo seus Colegas, hão de tremer da influência de tais homens em seus respectivos territórios!

Não me seja estranhado, que eu nomeie poucos, ao mesmo passo que era facílimo especializar outros; porém ou não faço cartas de nomes; e de mais a mais ninguém me encomendou o Sermão, e é por outro lado incontroversa a liberdade, que tem os Escritores de nomear estes, ou aqueles, que mais lhe agradem, e que mui casualmente lhes possam ocorrer, do que certamente não resulta para os não lembrados, ou esquecidos o mais pequeno dezar, ou nota, porque devam criminar-me, ou arguir-me. Ainda teria muito que dizer a este propósito, se as gritarias dos Auroras me não chamassem de novo para as lides, e combates.

D. Miguel, O Tradicionalista
O Senhor D. Pedro Duque de Bragança (aliás futuro Imperador Constitucional, e Ideal das Espanhas) vai colocar sua filha no Trono, (Hoc opus hic labor: não basta dizê-lo, porque muito desejos tais, como este, morreram em flor) e restituir aos Portugueses a Constituição, (Por certo que não ganhará com esta restituição, nem as alvissaras, nem o ficar absolvido de tantos males, e danos gravíssimos, que tem feito à Nação Portuguesa. Não lhe pode trazer um presente mais envenenado, e mais aborrecido para ela, do que a Constituição, que já naufragou no Brasil, evaporando-se por uma vez aquele Podersinho Moderador, que passou por alto à perspicácia dos Lycurgos, e dos Numas Pompílios) e às Leis o seu Império (e como poderá entrar neste Império a Lei Fundamental da Monarquia?). O Senhor D. Pedro está longe de pretender exercer o menor acto de vingança (quem deixará de fiar-se em ar de Proclamações incendiárias dentro de garrafas lacradas, ou bexigas porcórias, para se despejarem pelas ruas, e praças de todas as Cidades, e Vilas deste Reino). O seu grande desejo é acabar as discórdias civis, que têm infelicitado a Nação, no meio da qual ele nasceu (pois ninguém tal há de dizer... não há cão, nem gato, que não saiba que D. Pedro é o único Autor de nossas discórdias, pela teima de nos querer empurrar sua filha por Soberana; e é bem para lastimar que ele acenda os brandões da discórdia, e da guerra civil, desacreditando o seu nome, e cobrindo-o de uma nódoa indelével, que o estigmatizará em quanto o mundo for mundo). Sua Majestade é tão oposto a praticar actos de tirania, quanto D. Miguel (dobra essa língua, patife; é o Senhor D. Miguel, e bem Senhor de aniquilar, e enterrar por uma vez a Maçonaria Lusitana) o é de praticar actos de humanidade (costuma dizer-se em casos tais "os Anjos lhe respondam" neste porém já eu lhe respondi o necessário, assim como os factos mais autênticos respondem todos os dias a favor do Clementíssimo Rei, que nos governa). No discurso do seu Reinado de oito anos há mil exemplos de generoso perdão a ingratos. (E seja exemplo mil e um o do bárbaro castigo, de que já por vezes tenho falado, e que tão cruelmente se infligiu a Soldados Portugueses...) Os próprios inimigos de Sua Majestade, (alto lá, que não deixarei passar esta, sem a devida prefacção. Se D. Pedro é simplesmente Duque de Bragança, porque título, ou carga de água possuirá o tratamento de Majestade? Porém tudo isto leva água no bico, latet anguis, bem a dizer, Majestade, que Reinará em Portugal, como eles querem, mas que nunca poderão levar ao fim; pois a boa Princesa do Grão Pará, por eles feita Rainha de Portugal, vendo seu Ilustre Pai desacomodado, e sem ter onde caia morto, forçosamente se compadecerá de quem lhe deu o ser, e mil Coroas, que possuísse, mi Coroas cederia em obséquio do Augusto Fundador de Reinos, e de Impérios) os próprios inimigos de Sua Majestade, ainda no meio da manifestação do seu ódio, são obrigados a confessar, (o que fazem quanto menos podem) que na verdade o Imperador não era tirano. (Haja vista ao juízo, que fazem do Ex-Imperador a Sentinela da Liberdade, e a Árvore F[?], [veja-se o Nº 47 da Contra-Mina) que são boas, e idóneas testemunhas do conceito, que se faz no Brasil do perpétuo Defensor, e primeiro Imperador daquele vasto Continente. Se eu não digo mais a este intento, e se mui deliberadamente refreio, e modero os voos da minha pena, é porque D. Pedro é filho do Senhor D. João VI, e irmão do Senhor D. Miguel I. Não lhe valessem estes dois Privilégios, e veríamos então a que pretensão in solidum as enlutadas palavras da tirania. É tão fácil de sustentar neste Artigo a boa fama do Senhor D. Miguel I, que não buscarei outra testemunha, que não seja o próprio D. Pedro d'Alcantara. Este Príncipe, ou Duque de Bragança, escrevendo a seu Augusto Pai em data de 19 de Junho de 1822 lançou estas memoráveis expressões:
"Peço a Vossa Majestade que deixe vir o Mano Miguel para cá, seja como for, porque ele lhe é aqui muito estimado, e os Brasileiros o querem ao pé de mim, para me ajudar a servir no Brasil....Espero que Vossa Majestade lhe dê licença, e lhe não queira cortar as sua fortuna futura.... Vossa Majestade conhece a razão, e há de conceder-lhe a licença, que eu, e o Brasil tão encarecidamente pedimos, pelo que há de mais sagrado...." (Gazeta Universal de 1822 Nº 199)
Quem será pois o tirano? Será o bem quisto, ou o mal quisto de todo o Brasil?

Façamos aqui uma pausa, e desde os Sinceirais do Mondego enviaremos uma Contra-Mina, ou Fulminante, ou quase Fulminante aos Pedreiros Livres da Capital, que se darão a perros, por verem que a sua obra, longe de prosperar, todos os dias coxeia, retrograda, e corre perigo de ficar em nada.

Desterro, 5 de Fevereiro
de 1832

Fr. Fortunato de S. Boaventura

15/05/15

A BANDEIRA AZUL E VERMELHA - Breve reflexão.

Este artigo terá várias repetições das mesmas ideias, para que não passem aos distraídos:

A Casa Real Portuguesa, em tempos do Senhor D. João VI, tinha por suas a combinação de cores azul-vermelho. As cores da Casa de Bragança, eram (e são) azul-branco.

As tropas Reais, evidentemente, usavam a identificação cromática da Casa Real, e as tropas de D. Pedro usaram as da Casa de Bragança, porque assim compete. Contudo, pelo lado de D. Pedro, não houve apenas milícias de azul e branco, e muitos nem militares eram, havia estrangeiros (inclusivamente chefes militares franceses). Igualmente, da nossa parte, não havia apenas milícia da Casa Real, porque as milícias nesse tempo pertenciam também a várias Casas, cada qual com suas cores. Nesta diversidade, e como a guerra era interna, os vários soldados por vezes ficaram agrupados sobre aquelas cores (não necessariamente). Temos o caso do Remexido, o qual levou a resistência militar até às últimas (o que nos dá mais que obrigação de lhe erguer monumento de herói), e que tinha para si as cores da Casa Real, mas que, ao que parece, também eram as cores soldadescas da Casa algarvia por quem lutava!

Não foi D. Miguel quem levou as cores vermelho-azul para a Casa Real, nem foi D. Pedro quem designou cores para a Casa de Bragança. Sem dúvida alguma, sendo justos na avaliação, há que reconhecer que nesse tempo eram estas as cores OFICIAIS das respectivas Casas, e não as cores oficiais de "causas". Não se pode dizer que o azul-branco deixara de ser o conjunto de cores da Casa de Bragança, e que tivesse passado a ser o da causa liberal, constitucional,... não troquemos casas por causas. Não se pode dizer que o azul-vermelho deixara de ser o conjunto de cores da Casa Real, para passar a ser o da causa tradicional (a defesa da Fé católica, do Rei, e do Reino na sua integridade). Contudo, há uma identificação necessária entre a Casa Real e ela mesma, ou seja, a permanência na sua integral tradição; não pode haver uma identificação da Casa de Bragança com o liberalismo, a não ser por acidente momentâneo, pelo qual havemos de dizer: o Casa de Bragança não pode ser liberal, tem que ser tradicional, tem que ser fiel aos seus princípios fundacionais, e que fora deles ela não É nem pode realmente. Disto também se conclui que a atitude de D. Pedro não é mais que privada, e não pode obrigar a Casa de Bragança nem manchar os seus antecessores nem vindouros, nem comprometê-los, porque aquele que indo contra os princípios da Casa não pode usar a casa como garante de contra-princípios. As cores que o liberalismo pretendeu dar a uma bandeira que representasse o Reino de Portugal, ao fim e ao cabo, nem sequer são as da Casa de Bragança, ma sim as da causa liberal.

A bandeira branca, é a bandeira que os nosso Reis conheciam como aquela que estava sobre todas as existentes em Portugal, sobre todas as Casas, incluindo a Casa Real. Os liberais lutaram indevidamente com as cores de uma das Casas contra Portugal (e assim se diz como um dos argumentos para a legitimidade de D. Miguel: que D. Pedro lutou contra as tropas portuguesas) e derrubaram a bandeira branca, colocando uma outra, azul-branca (a bicolor), para a substituir. Nunca houve o mesmo procedimento relativamente ao azul-vermelho, porque, evidentemente, essas cores são as da Casa Real que se abriga com as outras casas sob a bandeira branca.

O liberalismo-maçonaria estava por D. Pedro,  ou melhor, estava contra D. Miguel (pois este, como quase todo o Portugal, e com a Igreja, combatia as novas e ilegítimas ideias e ímpias doutrinas). A fim de contas, o projecto internacional da Maçonaria passava pela aniquilação das "monarquias católicas", instauração de "semi monarquias" ("monarquia constitucional") ou até mesmo repúblicas, desde que nelas ficassem assentes os princípios que mais tarde pudessem estourar definitivamente com aquilo que restava da Civilização Europeia (Católica), por fim infiltrar a Igreja até a controlar desde o topo (se bem que antes houve várias tentativas de destruir a Igreja de forma menos "moderada" e declarada, forma demasiado visível que afastava a população cristã. Por isso, o apoio da Maçonaria a D. Pedro deve-se a que este era a mais credível alternativa contra tudo o que representava D. Miguel na sua legitimidade.

Os liberais, não podendo usar a bandeira de Portugal, porque não se distinguiriam, usaram a de D. Pedro, ou seja, a da Casa de Bragança, à qual chamaram  eles mesmos de "a bicolor" (indicando pela negativa que aquela contra a qual lutaram não era bicolor). Esta bandeira foi usada para toda a causa liberal em Portugal, e passaria a ser depois a bandeira "nacional", que derrubara a BRANCA (bandeira do Reino de Portugal). Temos uma substituição, portanto: um grupo que substituiu a bandeira do Reino pela bandeira da Casa de Bragança porque colocou à frente da causa liberal a D. Pedro de Alcântara Duque de Bragança.

Conclusão:

A combinação zul-vermelha é a da Casa Real, e estas cores são usadas para os servidores da Casa Real, inclusivamente para as milícias, segundo decreto real feito por D. João VI.

A bandeira oficial do Reino de Portugal, pelo menos em tempos de D. João VI e D. Miguel, era branca.

O uso da combinação de cores azul-vermelho foi usado num contexto interno, para identificar ALGUNS daqueles que se juntavam às tropas da Casa Real (os fiéis); muito mais foi com aqueles que se juntaram às tropas da Casa de Bragança, com as respectivas cores. Este é, recordemos, apenas um contexto militar e pontual, mas que também foi aproveitado posteriormente (e a isto há que dar o devido valor, mas com as devidas distinções).

Quanto ao conflito geral, ideológico, político, religioso, estrutural, a nossa bandeira do Reino de Portugal era a BRANCA (é a branca), e a sua inimiga era "a bicolor" azul-branca, e a verde-vermelha da ocupação republicana.  [o regime liberal e o republicano, não são legítimos, ainda que possam ser tolerados]

A questão da TRADIÇÃO (necessariamente católica), da LEGITIMIDADE (segundo a Lei divina, moral, e doutrina católicas), de PORTUGAL (necessariamente católico), joga-se com a bandeira branca, sob a qual a azul-vermelha é essencialmente um episódio bélico.

Dizer que a bandeira azul-vermelha era a bandeira de D. Miguel, é tão certo como ser a de D. João VI, ou a da Casa Real, ou a do servidores da Casa Real... mas... ela nunca foi oficial, e em parte é fruto de uma construção afectiva de alguns grupos que se julgam "tradicionalistas" etc... Ninguém acreditou que uma vitória de D. Miguel haveria de pretender a substituição da bandeira branca por uma outra bicolor (azul-vermelha). Os órgãos "oficiais" liberais deram notícias sobre "a bicolor", quando foi asteada no Castelo de S. Jorge (Lisboa), o que indica que o liberalismo não lutou contra outra "bicolor" como causa, mesmo que no campo de batalha muitas bicolores houvessem, mas que nunca foram tomadas como suficientemente universais para representarem a causa ou formarem unidade. Foi a bandeira branca, portanto a bandeira do REINO DE PORTUGAL, aquela contra a qual os "bi" (liberais e maçons) lutaram.

18/02/15

ALGUNS AJUSTES PARA O ESTUDO DE D. FR. FORTUNATO DE S. BOAVENTURA

Sobre o Arcebispo de Évora D. Fr. Fortunato de S. Boaventura diz o liberal autor Inocêncio Francisco da Silva:

"D. Fr. Fortunato de S. Boaventura nasceu em Alcobaça à volta do ano de 1778 [seu pai era livreiro da vila]. Professou a Regra de S. Bernardo no Mosteiro de Alcobaça, em 25 de Agosto de 1795. Frequentou, na Universidade de Coimbra, a Faculdade de Teologia, nela se doutorou em 6 de Julho de 1810 [outros autores dizem 8 de Junho de 1811]. Foi professor [regente da cadeira] de História no Colégio das Artes. Em 27 de Agosto de 1831 foi nomeado reformador geral dos Estudos [cargo que até então tinha cabido a D. Francisco Alexandre Lobo, Bispo de Viseu]. Em 29 de Setembro deste mesmo ano, foi apresentado Arcebispo de Évora, e confirmado neste lugar pelo Papa Gregório XVI em 24 de Fevereiro de 1832, e sagrado em 3 de Junho deste mesmo ano [o próprio Rei o tinha nomeado, segundo fez saber, para dar a tão importante diocese um Bispo de grandes virtudes reconhecidas e pessoa digna de muita confiança]. Pouco tempo esteve em Évora. Triunfando a causa de D. Pedro, e "restabelecido" [aspas minhas] o governo constitucional, de cujas doutrinas foi sempre adverso, retirou-se [foi exilado] em 1834 para a Itália, vivendo os últimos anos em Roma, sem conforto e com pouquíssimos recursos económicos [como sempre o fez e faria qualquer bom monge]. Faleceu nesta cidade em Dezembro de 1844, e foi sepultado na igreja de S. Bernardo."

Para que não dê a falsa ideia de que D. Fr. Fortunato tivesse sido abandonado ou esquecido no final da vida, e que esse fosse o motivo da sua vida em pobreza, convirá lembrar que, segundo publicou em 1843 o "Il Mercurio di Roma" o nosso grande português morava no Convento de S. Anderea della Vall.

A biografia é breve porque não conseguiram apagá-la. Que vivas haveriam de querer dar os vencedores liberais a um Monge Arcebispo que durante as invasões francesas escreveu contra elas e contra o que elas representavam? (leia-se o opúsculo "Quando da Infame Conducta de Napoleão Bonaparte para com os Diferentes Soberanos da Europa, desde a sua intrusão no Governo Francês até Junho de 1808")

Em Maio de 1820 Fr. Fortunato foi nomeado correspondente da Academia Real das Ciências, e no ano seguinte nomeado sócio livre. O seu prestígio como historiador profundo e de rigor está também reconhecidos pela nomeação para Cronista da Ordem de S. Bernardo (cargo habitualmente desempenhado por monges que deixaram elevado nome na nossa história).

A grande parte dos sermões proferidos por D. Fr. Fortunato de S. Boaventura, os quais eram proferidos e publicados pela Imprensa da Universidade de Coimbra, foram depois na sua maioria queimados quando a mesma Imprensa foi ocupada pelos liberais (por via da Junta Liberal do Porto); acto do mais invertido critério de censura.

Parte superior da Capela mór da Sé de Évora
D. Fr. Fortunato de S. Boaventura nunca deixou o Arcebispado de Évora, e sempre, como de direito, continuou a agir como Arcebispo de Évora no exílio. Antes da sua partida para Roma, as falseadas novas "autoridades eclesiásticas" sobrepostas por via do ilegítimo governo liberal usurpante violentaram-no a sair da Arquidiocese. Escreveu então duas pastorais aos seus diocesanos a dar conta das ocorrências; uma foi escrita em Pombal a 15 de Setembro de 1833, e a outra em Condeixa a 21 de Outubro seguinte.

Tudo isto é uma pequena mostra para que se entenda porque as biografias que os liberais compuseram são tão reduzidas e pouco claras quando dizem respeito aos seus adversários, e aumentam as páginas aos do maldito liberalismo (pois chegam a colocar diante do Povo estátuas erguidas aos criminosos com o metal roubado de outras tantas estátuas a homens que sempre defenderam o que Portugal sempre defendeu).

Também, para que não se pense que D. Fr. Fortunato de S. Boaventura foi um caso isolado (embora seja personagem peculiar), ou que tivesse uma causa e visão muito originais (coisa que os liberais sempre tentam fazer crer: assim pareceria que a causa não foi nacional, mas sim de um grupo minoritário de indivíduos), devo lembrar ao, no texto transcrito, o liberal Inocêncio Francisco da Silva trata por "retirou-se em 1834 para a Itália" o que na verdade foi exílio forçado. O próprio D. Pedro de Alcântara, em carta a Gregório XVI, em Outubro de 1831, insurge-se contra o reconhecimento dado por Sua Santidade ao Rei D. Miguel, e ameaça que não aceitaria nunca a nomeação dos novos Bispos por D. Miguel. Caso ele tirasse o Rei D. Miguel do Trono, dizia que expulsaria do Reino a tais Bispos como rebeldes e traidores. O que é certo é que, passados alguns meses, o Santo Padre confirma tais Bispos, entre eles D. Fr. Fortunato de S. Boaventura. Assim que D. Pedro usurpou o Trono cumpriu com a ameaça.

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