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16/02/17

"DEFEZA DE PORTUGAL" (1831) - Que Pretendem os Pedreiros com a Chegada de D. Pedro à Europa ... (VIII parte b)

D. Pedro "IV"
(continuação da parte a)
 
Eu não tenho a liberdade de perguntar ao Senhor D. Pedro por que título exerce essa Tutoria, porque me responderia que me responderia que me não importe lá com os negócios dele, nem da sua família; mas como esta Tutoria ofende os Portugueses, vou examina-la. Quero consultar Letrado sobre este negócio, e não os acho que estejam de vagar para me responder. Tão poucos são os que têm letras, havendo tantos que têm este título! Foram-se para fora do Reino algumas dúzias dos das dúzias, que poderiam responder-me, pelas muitas letras, que levaram de cá para lá, e pelas que ainda lhes vão para lá, sem embargo de dizerem por ai que seus bens rendem para o Estado; pois bem se entende que eu falho de letras de valer, que são as que valem, e não das letras de saber, que não prestam para coisa alguma; porque esses Letrados, que abalaram do Reino, nunca tiveram letras, senão tratas, que são as com que trapaceiam por toa a parte; de Livros basta-lhes a Carta Constitucional de 1826, que é uma Enciclopédia de todas as Ciências, e o seu Autógrafo de 1822, que é o armazém de todas as ideias: para esses Sábios o Digesto é mais indigesto que o ferro em boca de mosca; se ouvem falar em Pandectas, julgam ser algumas pançadas de comida; e eram esses Letrados Juízes de Fora, Corregedores de dentro, Desembargadores de baixo, e Deputados de cima: assim foi; a ignorância algum tempo administrou justiça. Caiu-me em graça o dito de um Clérigo em Lisboa, queixando-se de uma Sentença, que lhe dera um Tribunal sobre uma pendência bem clara: "O Direito destes Doutores é torto, e duro como ponta de Bode". Ora pois, na falta de Letrados, que me explicassem a dita Tutoria, deito abaixo toda a minha Livraria, que toda ela é um Larraga velho, e roto: mas este Livro foi composto por um Frade, lá perto do campo de batalha dos doze Pares de França, e ali mesmo o compôs de propósito para castigar os Clérigos, que não sabem Latim: essa Livro pois não serve para consultar o caso, porque Tutorias de Frades são mui pesadas aos Constitucionais. Ora eu bem conheço que perdi o sério, que os meus Leitores desejam; mas um pouco de desprezo castiga mais os Revolucionários do que um rabo de bacalhau. Torno pois ao exame, e seja ele feito sobre o estudo comparativo dos dois grandes Códigos, que os Revolucionários prezam mais que tudo. Constituição Política da Monarquia Portuguesa do ano de 1822, Capítulo 5º, Artigo 155: "Durante a menoridade do Sucessor da Coroa" (o Artigo 147 declara que é menor antes de ter dezoito anos completos) será seu Tutor quem o Pai lhe tiver nomeado em Testamento... e deverá ser natural do Reino. A Carta Constitucional da Monarquia Portuguesa do ano 1826, Capítulo 5º, Artigo 100 copiou a mesma disposição; só não diz de onde o Trono deve ser natural. Ora agora argumento segundo a Lei, porque argumentando aos Revolucionários, hei de argumentar-lhes pelas suas Leis, e pelos seus Livros, porque eles nem querem, nem sabem mais. Todos sabemos que a Senhora D. Maria da Glória é Filha do Senhor D. Pedro, e acreditamos que o Senhor D. Pedro é seu Pai: nem eu tenho goelas de Pato, por onde caibam aquelas caluniosas, e sórdidas expressões, com que ele com os seus Patinhos denegriu uma alta, e virtuosa Maternidade, com o fim de excluir do Trono a todos os seus Filhos, e derrubar a Dinastia mais digna de Reinar em uma vasta Monarquia. Mas o Senhor D. Pedro ainda vive, ainda não fez Testamento; e se o fez, não lhe valo, enquanto não morre; e mesmo ele não pode nomear-se a si mesmo Tutor de seus Filhos. Sei o que a isto se pode responder; mas sei as respostas, que têm todos estes argumentos, e precisões ideais, que não devem vigorecer na Sociedade. Eu vejo que o Senhor D. Pedro se esquece do nome de Pai, para com ele promover as injustas pretensões de sua Filha, ou antes as suas, e toma o nome de Tutor para louvar, e proteger a todos os Revolucionários, que buscam o nome da inocente Menina para introduzirem em Portugal outra Menina criminosa. E como isto vejo, e não percebo, faço um esforço para pôr esta obra das trevas em toda a sua luz. O senhor D. Pedro fez o seu Testamento, dispondo a favor de sua Filha de herança Portuguesa, que não era sua, nem como sua a podia tomar, adir, gozar, manter, e defender, pois se sua fosse, ou a pudesse usurpar, e conservar, de certo não disporia dela pelo seu Testamento, ou Abdicação de 29 de Abril do ano de 1826: feito este Testamento, como nenhum pode ser confirmado senão pela morte do Testador, dá-se o Senhor D. Pedro por morto para Portugal, vivendo lá no outro Mundo, que de certo não nasceu para este; e morto ficou ele para Portugal, desde que não quis viver para ele; dá porém a sua volta de lá, e ele arroja para o Mundo de cá esse desgraçado Príncipe, que também para lá não nascera: esta volta é uma espécie de ressurreição, que faz do Senhor D. Pedro morto o Senhor D. Pedro vivo; e como o dito seu Testamento ficasse confirmado pela dita sua morte, aparecendo vivo na Europa, e não podendo tomar o nome de Pai, que perdera, depois de haver entregue a sua Filha à disposição, protecção, e defensão do ex-Conde de Vila Flor, e mais Sucia, toma o de Tutor por uma dessas tenebrosas ficções da nova Filosofia, que nem a antiga, nem o Direito conheceram. Este é o mais intrincado labirinto, em que se meteu jamais Revolucionário algum. Morre o Senhor D. João VI, e os Revolucionários gritam: "Viva o Senhor D. Pedro IV". Abdica, ou testa o Senhor D. Pedro, e alguns meses despois supondo-se morto por uma ficção descalabrada dos Revolucionários, que jamais sabem o em que hão de parar, enquanto não sobem à forca, eles gritam: "Viva a Senhora D. Maria II". Manda a Regeneração do Brasil ao Senhor D. Pedro à Europa, e agora: Rei não pode ser, porque abdicou; Pai também não, porque se supôs morto para sua Filha, depois que a pôs fora do Brasil, do seu poder, e da sua educação; pois seja Tutor; e com este nome prossigam os Revolucionários a sua empresa de acabar com todos os Reis do Mundo. É verdade que cá gritam uns poucos de Soldados, e Oficiais do Regimento 4º de Infantaria: "Viva o Senhor D. Pedro IV", porém desses não há que fazer caso: não eram eles os que falavam, era o quarto de vinho, com que cada um deles fôra embriagado; mas os incógnitos, que os dirigiam, sabiam o que deviam dizer, que era "Viva o Tutor". Todavia era palavra, que os mesmos incógnitos directores não sabiam naquela hora pronunciar: também eles estavam bêbados; porque posto que a terra deles não produza vinho; depois que vieram a Portugal, e comerceiam em Portugal, não largam o vinho de tarde, nem a água-ardente de manhã: a linguagem dos bêbados é toda uma Ingresia.

10/06/16

ÍNDICE do "DEFESA DE PORTUGAL"

Desde Novembro de 2013 tínhamos vindo a publicar páginas do semanário "Defesa de Portugal" (ano 1831/33), obra de Frei Alvito Buela Pereira de Miranda. Não se proporcionou deixar aos leitores um índice dos números já aqui publicados, e dos que faltam publicar, coisa já necessária, tanto pela facilidade desejável na consulta, como para unificação dos vários artigos. O mesmo já fizemos com outras publicações do género.

O segundo volume da obra não se encontra disponível online, parece ter sido removido, e é um documento histórico das movimentações da maçonaria em Portugal, e da questão do apoio a D. Pedro por parte da maçonaria e liberalismo militante.

 e portanto fica o índice, o qual irá sendo actualizado depois, até que fique completo:


DEFESA DE PORTUGAL
Semanário
Periódico Político e Moral

Vol. I
(Imprensa Régia, 1833)

ÍNDICE

Nº 1 - Maçonismo (16 de Julho de 1831) [ab]


Nº 2 - Origem, Formação, e Progresso do Maçonismo (14 de Agosto de 1831) [ab, cd]

Nº 3 - Qual era a Revolução que os Pedreiros de Portugal queriam em Portugal com ocasião da chegada da Esquadra Francesa ao Tejo? (21 de Agosto de 1831) [a, b]

Nº 4 - Que pretendiam os Pedreiros de Portugal com a ocasião da entrada da Esquadra no Tejo? (21 de Agosto de 1831) [a, b, c]

Nº 5 - Que pretendiam os Pedreiros de Portugal com ocasião da chegada da Esquadra Francesa ao Tejo? (1 de Setembro de 1831) [a, b]

Nº 6 - A Senhora D. Maria da Glória, Filha do Senhor D. Pedro, Imperador do Brasil, não pode ser Rainha de Portugal. (7 de Setembro de 1831) [a, b, c]

Nº 7 - Que é que pretendem os Pedreiros na Chegada do Senhor D. Pedro à Europa? (12 de Setembro de 1831)

Nº 8 - Que pretendem os Pedrieros de Portugal com a ocasião da Chegada do Senhor D. Pedro à Europa? (22 de Outubro de 1831) [a, b]

Nº 9 - Que pretendiam os Pedreiros de Portugal com o pretexto de se aproximar a Esquadra Francesa ao Tejo? (6 de Novembro de 1831)

Nº 10 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (7 de Novembro de 1831)

Nº 11 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (9 de Novembro de 1831)

Nº 12 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (11 de Novembro de 1831)

Nº 13 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (15 de Novembro de 1831)

Nº 14 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (21 de Novembro de 1831)

Nº 15 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (22 de Novembro de 1831)

Nº 16 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (14 de Dezembro de 1831)

Nº 17 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (2 de Janeiro de 1832)

Nº 18 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (3 de Janeiro de 1832)

Nº 19 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (4 de Janeiro de 1832)

Nº 20 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (6 de Janeiro de 1832)

Nº 21 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (10 de Janeiro de 1832)

Nº 22 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (14 de Janeiro de 1832)

Nº 23 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (26 de Janeiro de 1832)

Nº 24 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (31 de Janeiro de 1832)

Nº 25 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (1 de Fevereiro de 1832)

Nº 25 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (4 de Fevereiro de 1832)

Nº 27 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (10 de Fevereiro de 1832)

Nº 28 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. ( 22 de Fevereiro de 1832)

Nº 29 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (24 Fevereiro de 1832)

Nº 30 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (25 de Fevereiro de 1832)

Nº 31 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (10 de Março de 1832)

Nº 32 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (18 de Março de 1832)

Nº 33 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (29 de Março de 1832)

Nº 34 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (29 de Março de 1832)

Nº 35 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (2 de Abril de 1832)

Nº 36 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (5 de Abril de 1832)

Nº 37 - Bico d'Obra na Grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. ( 9 de 1832)

Nº 38 - O Castigo do Douro. (11 de Abril de 1832)

Nº 39 - A Ilha Terceira. (16 de Abril de 1832)

Nº 40 - As Trevas em Portugal (18 de Abril de 1832)

Nº 41 - A tempestade em Portugal. (12 de Maio de 1832)

Nº 42 - Continua a Tempestade em Portugal. (24 de Maio de 1832)

Nº 43 - Continua a Tempestade em Portugal. (31 de Maio de 1832)

Nº 44 - Continua a Tempestade em Portugal. (5 de Junho de 1832)

Nº 45 - Continua a Tempestade em Portugal. (7 de Junho de 1832)

Nº 46 - Continua a Tempestade em Portugal. (12 de Junho de 1832)

Nº 47 - Continua a Tempestade em Portugal. (25 de Junho de 1832)

Nº 48 - Continua a Tempestade em Portugal. (28 de Junho de 1832)

Nº 49 - Continua a Tempestade em Portugal. (30 de Junho de 1832)

Nº 50 - Continua a Tempestade em Portugal. (3 de Julho de 1832)

Nº 51 - Continua a Tempestade em Portugal. (9 de Julho de 1832)


Vol. II

Nº 52 - 

05/06/15

Pe. Fr. ALVITO MIRANDA - UM TRADICIONALISTA PORTUGUÊS (I)

CONTEXTO

O Portugal do séc. XIX foi prolífero em sermões anti-liberais. Demos guerra à facção liberal-maçónica, já os demais Reinos da Cristandade estavam no cativeiro e reduzidos a pequenos grupos, espalhados pelos territórios cristãos. Sim, ao que parece, Portugal é o último Reino resistente, agrilhoado desde 1834 (aos Salazaristas que ficaram inquietos, recomendo este artigo).

Esta foi uma luta do Clero, da Nobreza, do Povo, tendo à frente o próprio Rei, o Senhor D. Miguel.

Diga-se sem receio, e com frontalidade: o Reino de Portugal fez guerra ao Liberalismo, foi o último Reino Católico a cair.

O inimigo: os menos engraçados* e mais desgraçados, mercenários, a Maçonaria internacional, o Liberalismo, um Rei que fixasse o Constitucionalismo, e um "investidor": a banca internacional (Mendizabal e Rotchild).

Ao contrário do que muitos querem fazer parecer, a resistência portuguesa não foi meramente militar, nem é principalmente militar. Embora os feitos militares anti-liberais, pela sua natural visibilidade encham os olhos e permaneçam facilmente nas memórias, o liberalismo não se caracteriza pela força militar. Reduzir a luta portuguesa a coisa militar, ou principalmente militar, é não saber o que o liberalismo é, e pouco entender Portugal. Na verdade, o veneno liberal é ideológico, erro fundamentalmente Filosófico-Teológico que, depois, à medida que vai ganhando espaço, se desdobra nas suas várias consequências e nas mais variadas áreas: política, militar, estética, social, etc....

Depois da vitória liberal, o inimigo montou o seu edifício sobre o erro liberal, qual semente do colapso da Monarquia e dos Costumes, da Filosofia Cristã, enfim, da Fé e do entendimento das Leis Divina e Natural. Se depois de 1834 houve vários momentos de recuperação, pequenos oásis, e se os monarcas conseguiram por vezes gerir com sóbrio aplauso, tudo isso se deve ao carácter espiritual da Santa Religião.

Antes de 1834 o Clero, que no geral ainda mantinha a ortodoxia e o entendimento do pensamento católico, enfim, que se guiava pela Tradição, tratou de proteger as almas, com o maior recurso à oração colectiva, aos sacramentos, e todas as práticas para maior exercício da virtude e de aprazer a Deus, mesmo que muitos desses Sacerdotes não tivessem tecido comentários ao Liberalismo, pois não o conheceram nunca.

O liberalismo também tinha discretos adeptos no meio eclesiástico, e foram estes promovidos depois da vitória liberal: é demonstrativo que as eleições que D. Pedro para o Episcopado não seguem mais o critério da ortodoxia, mas sim a orientação política (que, ao fim e ao cabo, em altos cargos eclesiásticos implica certa preferência ideológica, ou, pelo menos, permissividade às políticas dominantes).

D. Pedro de Alcântara, depois da sua vitória, exigiu ao Papa (com a expropriação dos bens e rendas que sustentavam a Santa Igreja Patriarcal) a extinção da Santa Igreja Patriarcal de Lisboa. O Clero estava então dividido em várias posições que podemos agrupar: a) aqueles que anteriormente já tinham tomado o lado dos liberais, e sabiam que haviam de ser promovidos com uma vitória liberal, e aqueles que não estavam pelos princípios mas apenas preocupados em ir na linha de quem estivesse no poder; b) aqueles que sendo tradicionalistas preferiram não representar ameaça directa aos liberais para conservarem os cargos eclesiásticos, pensando que impediriam que as suas ovelhas de ir parar às mãos de piores pastores (este grupo possibilitou um abrandamento da derrocada, tanto que muitos deles tiveram a esperança de uma restauração, contudo acabaram mais por ir gerindo a passagem do Tradicionalismo católico ao enraizamento do liberalismo); c) aqueles que fomentaram uma linha mais franca, pregando a Verdade, também condenando e demonstrando os erros dos liberais e do liberalismo, entregando-se nas mãos de Deus pelas consequências óbvias de defenderem o Reino e o Catolicismo (estes foram depois perseguidos, difamados, exilados, mas nunca refutados). o Clero do "grupo" c, em geral admirava e orientava-se também pelo apostolado do "grupo" b: o Arcebispo D. Fr. Fortunato de S. Boaventura, por exemplo, aquando do seu cativeiro em Roma, foi auxiliado por outros Bispos que em Portugal tinham resolvido fazer um apostolado mais silencioso.


O Pe. Fr. ALVITO MIRANDA

Vilarelho da Raia
Os escritos portugueses anti-liberais que a nós chegaram são sobreviventes entre outros tantos que foram queimados, escondidos, perdidos. Os escritos anti-liberais foram perseguidos (e segundo indicações bastante claras, alguns ainda estão inacessíveis ao público e saíram até das listas da Biblioteca Nacional...).

Entre os apóstolos portugueses do anti-liberalismo está uma figura que se destaca por uma particularidade: sendo galego de origem (nascido em 1791), quis tomar a naturalidade portuguesa (cá morreu, em Vilarelho da Raia, em Outubro de 1862); eis o Pe. Fr. Alvito Buela Pereira de Miranda, do qual começo por trazer-vos a carta de naturalização:


CARTA DE NATURALIZAÇÃO

1.ª De Alvito Buela Pereira de Miranda

"As Côrtes Gerais, Extraordináarias e Constituintes da Nação Portuguesa, atendendo ao que lhes foi representado por Alvito Buela Pereira de Miranda, natural de Santiago, Reino de Galiza, Egresso da Congregação Beneditina, o qual reside em Vila Real, ensinando Gramática Latina por Provisão da Junta da Directória Geral dos Estudos: Concedem ao Suplicante Carta de naturalização sem dependência de outra alguma diligência, para que possa gozar de todos os direitos e prerrogativas, que competem aos Naturais do Reino-Unido de Portugal, Brasil e Algarves.

Paço das Côrtes em 22 de Dezembro de 1821. Francisco Manuel Trigoso d'Aragão Morato, Presidente, António Ribeiro da Costa, Deputado Secretário, João Baptista Felgueiras, Deputado Secretário." (Collecção Dos Decretos, Resoluções e Ordens das Cortes Geraes, Extraordinárias e Constituintes da Nação Portugueza, Desde a Sua Instalação em 26 de Janeiro de 1821 ... - Parte I; Coimbra, 1822. pág. 310)

A participação do Pe. Alvito Miranda na defesa de Portugal, por si, já quase haveriam de naturalizá-lo! Defendeu a Verdade, e com ela combateu os erros liberais e a Maçonaria, enfim, grande prestação na defesa de Portugal. Que o digam as suas publicações assim chamadas: "Defesa de Portugal - Semanário Periódico, Político e Moral" (as quais, não trazendo nada de novo, mas por isso mesmo são testemunho da universalidade do assunto e da imutabilidade da nossa Doutrina e Pensamento católico (nada de diferente haveria para concluir dos ataques que o Reino de Portugal estava a sofrer). Há total unidade entre esta do Pe. Alvito Miranda e os sermões e obras escritas por outros autores portugueses e estrangeiros. Esta unidade não proveio de uma especulação e combinação de algum grupo intelectual que tivesse tal como objectivo.

O beneditino Padre, Pregador Régio, e em favor dos méritos de alguns fiéis que estavam aos seus cuidados, alcançou do Rei, para eles, uma medalha de ouro com a efígie real.

"Em o Real Paço da Bemposta, no dia 13 de maio, ElRei Nosso Senhor, dando por Sua Régia Bondade a Sua Augusta Mão a beijar ao Padre Alvito Buela Pereira de Miranda, Bacharel em Filosofia, Prégador Régio; e Abbade de S. Miguel de Rebordosa, em despedida para o regimen de sua Igreja, e deferindo as suas muito humildes supplicas, permittio o uso da Medalha com a Sua Real Effigie às pessoas seguintes: João Pinto de Azevedo, Clérigo in Minoribus de Alvações do Corgo na Comarca de Villa Real de Traz-os-montes; D. Maria Leonor Henriqueta Coutinho de Vilhena, da casa de Penuadona, seus netos Melchor Pereira Coutinho de Vilhena e Menezes, D. MariaCandida Coutinho de Vilhena e Menezes, João pereira Coutinho de Vilhena e Menezes; o Presbytero Joaquim António Fernantes, e suas tias Rita de Cassia, e Clara Delfina, de Ferreiros de Avões, todos do termo de Lamego; José Manoel de Sousa, sua mulher D. Joana Magdalena de Moraes Sarmento, e suas filhas da Villa de Vinhaes; João da Costa S. Tiago, Proprietario do Porto, sua mulher D. maria Rita, suas filhas e filhos, e sua sogra D. Marianna Izabel; Fr. Bento de Santa Gertrudes Magna, Cartorio Mór da Congregação de S. Bento; João da Silva Gomes e Castro, sua mulher D. margarida Peixoto, seus filhos, e filhas; Manoel da Silva Mattos, de S. Christovão do Muro, ex.Ouvidor do Concelho da Maia; o Capitão Commandante das Ordenanças da Honra de Baltar, José Luiz Pinto, seus irmãos Alferes das mesmas Ordenanças, Francisco José Pinto, e António José da Silva Júnior, suas irmãs D. Rita, D. Maria, e D. Thereza, e seu cunhado João Joaquim de Miranda, Alferes das Ordenanças da Companhia de Paço de Sousa; Maria Ventura Ferreira Maciel, de Santa Maria de Sozella; Fr. Manoel da Rocha, Vigário de Cette; D. Maria Delfina da Motta Teixeira, irmã de José da Motta Teixeira, Cadete de Infantaria Nº 12; o Padre Joaquim Barbosa, Cura de S. Miguel de Rebordosa; o Padre Geral da Congregação de S. Jerónymo, Fr. Joaquim Mendes de Vasconcellos; Fr. Francisco de Borja, Secretário da mesma Congregação; o Padre José Bernardo Pinto, Vigário de Santa marinha da Costa, do Termo de Guimarães; as filhas, mai, sogra, e cunhada de António de Abreu Araujo, de S. Clemente de Basto; o Capitão Mór Domingos Teixeira de Barros, seu irmão, irmãs, tio, tias e avô, da Fregueszia de Gagos; o Padre António de Andrade, Vigario de Gagos; o Padre Bernardo Guedes, Coadjutor da Igreja de Valdeboaço; o Reitor da Freguezia de Ribas, Bernardo de Abreu e Lima; o Padre José António Machado, de Casaes da mesma Freguezia; na Freguezia dos Prazeres, o Padre Francisco Teixeira de Campos, e sua sobrinha; José Coelho Machado; António Teixeira Bezerra; Manoel Cardoso de Azeredo, e sua filha D. Clara de Azeredo; na Frguezia de Molares, o Padre José Peixoto; Manoel António Machado; João António de Castro, da Ribeira de Valle de Bouro; Padre Manoel Teixeira da Cunha, de Molares, e seu irmão o Padre Francisco Teixeira da Cunha; o Escrivão da Camara, Francisco Alves de Moura, e sua mulher D. Rita Joaquinha de Magalhães; Manoel Antunes Pinto, e sua mulher; na Fregueszia de S. Romão do Corgo, o Padre José machado de Barros; D. Maria Machado de Andrade, seu filho, e filha, da Casa das Caselhas; António Ignacio da Cunha, de Freixeiro, no Concelho de Aguiar de Sousa, em Cristello; Bernardo da Motta, sua mulher D. maria Teixeira, seus filhos e filhas; no Concelho de Cabedeiras de Basto, João Pinto da Cunha e Sousa, sua mulher D. Miquelina Delfina de Mello, seus filhos, filhas, e irmãs; o Padre Manoel Borges, da casa do Portelo da Villa de Basto; Geraldo da Cunha de Molares; o Doutor António de Barros, da Freguezia de S. Gens, no Condelho de Monte Longo; José António Filippe da Silva Vieira, sua mulher D. Roza Maria de Castro, seus filhos e filhas, da Freguezia de Fafe, no mencionado Conselho de Monte longo; Fr. José Luiz, Procurador dos Trinos de Santarém; Manoel José Coelho de Freitas, Reitor de Santa Christina de Nogueira; Caetano da Cunha, Medico do Partido de Santa Cruz de Riba Tamega; Francisco Manoel de Almeida, Capitão de malta, da Villa do Freixiel, Comarca de Villa Real de Traz-os-montes, e sua irmã Josefa Marcellina de Almeida Crespo; João Baptista de Sousa Carvalho, sua mulher e filhas, de Villa nova da Cerveira; João Manoel Rodrigues de Almeida, sua mulher e chunhadas de Villa nova da Cerveira; Nicolau José da Silva, Estudante de Grammatica em Vianna do Minho; Manoel José Martins, da mesma Villa; José Manoel Pinto de Andrade, da mesma Villa; António José Pereira de Amorim, Capitão de Ordenanças de Villa nova da Cerveira, emigrado na Hespanha, e sua mulher; João de Paços, Escrivão da Camara da Villa de Monção, e sua família; Gonçalo José da Rocha Pereira de Castro, da mesma Villa de Monção, e sua família; Jacincho Luiz Coelho, Major Reformado, de Vianna do Minho, sua mulher e família; Bento José do Valle Monteiro, Reitor de Santa Eulalia de Lara; e declara o Padre Alvito por este artigo, que todas as Medalhas que em todo o tempo alcançou da Regia Bondade do Augusto Soberano forão e são em ouro."

Destas notícias, o número mais recente, diz:

"Em addicionamento ao artigo da Gazeta N.º 123, declara o padre Alvito Buela Pereira de Miranda, que são comprehendidos no uso das Medalhas com a Real Effigie, Bento Ribeiro de Aguiar, Proprietário em Vila Caiz; o Padre Domingos Alves, de Villar da Veiga; e João José da Cunha, de Villa Coiz, cujos nomes não foram inseridos naquelle artigo por esquecimento, bem como os de D. maria da Conceição, Viuva, de Penafiel, seus filhos, e filhas."

"Em o Real Paço de Queluz, no dia 3 do corrente Março, ElRei Nosso Senhor, anuído por Sua Régia Bondade às humildes súplicas do Padre Alvito Buela Pereira de Miranda, Pregador Régio, permittio o uso da Medalha de ouro com a Sua Augusta Effigie às pessoas seguintes: o Bacharel José Maria Ribeira e Fernandes, e sua família; António Ferreira Botelho, sua filha Marianna da Assumpção, e seu genro Francisco Pereira de Figueiredo, de Villa Real de Traz-os-Montes; Francisco de Sousa, Sargento da 3.ª Companhia das Milícias da mesma Villa; Anna Preciosa do Carmo, e seu marido José Lopes dos Santos, Soldado reformado, do lugar de Covas do Douro; João Pinto de Sousa, Ajudante do Piloto Mór da barra do Porto, e sua família; Vicente Ignacio dos Santos, Piloto de número da mesma barra, e sua mulher Maria Rita de Cássia; Manuel da Costa Cardoso, e sua mulher Jeronyma Casimira da Encarnação; José Pinto Carneiro, António José de Sousa, e Euzébio Joaquim da Conceição, Pilotos de número da mesma barra; Francisco José Pereira, servindo de Piloto Escrivão; Luiz Vicente Leite de Moraes, Cónego Secular de S. João Evangelista, em Santo Eloy, no Porto; Fr. Luiz de Nossa Senhora do Pilar, Pregador Jubilado da Régula Observância de Portugal, da Freguesia de Santo Estêvão de Gerás; o Padre José do Espírito Santo da Costa, Coadjutor da Freguesia do Bairo; José Moreira Pinto Barboza, empregado na fábrica da aguardente da Companhia; Dionizio Joaquim Pinto, empregado nos armazens da Companhia, e sua filha D. Rita Emília de Cassia; Manuel Pinto, e sua família do Porto; Luiz Manuel de Sousa, empregado na Camara Ecclesiástica do Porto, e sua família; José Francisco de Lima, Cirurgião do Porto; Lino Cardoso Carneiro de Paria Souto maior, e suas irmãs, proprietário em S. Miguel dos Açores; José Dias, da Vila do Moção, Bispado de Castello Branco; e Fr. Nicolau de Santo António, Procurador do Convento da Santíssima Trindade, em Lisboa." (Gazeta de Lisboa N.º 74, ano 1830. pág. 298)

Faço questão de publicar estes nomes, porque podem motivar algum leitor a mais pesquisas.

Estes pedidos do Pe. Alvito Miranda não são exclusivos seus, pois foram prática comum de ilustres eclesiásticos. Continuemos com o N.º 60 da mesma gazeta:

"Em o Real paço de Queluz, no dia 3 do corrente Março, ElRei Nosso Senhor annuindo generosamente às súplicas do Padre Alvito Buela Pereira de Miranda, Prégador Régio, permittio o uso da Medalha de ouro com a Sua Augusta Effigie, a Gonçalo José Carneiro, ex-Juiz Ordinario da Freguezia, e Honra de Louredo, na Comarca de Pennafiel; a António de Lemos, Fidalgo Cavalleiro da Casa Real, da Villa da Touça, na Comarca de Trancozo; e a André de Almeida Alcoforado, e a sua mulher D. Roza Secundina de Almeida, da quinta da Ponte, em Villa Real de Traz os Montes."

Agora no Nº 45:

"Em 10 de Dezembro do anno ultimo ElRei Nosso Senhor, annuindo às supplicas do Padre Alvito Buela Pereira de Miranda, Prégador Régio, permittio o uso da Medalha de ouro com a Sua Real Effigie, ao Padre Francisco Vaz de Carvalho, Prioste da Real Colegiada de Chaves; aos Padres Simão Borges de Abreu Leite, Francisco Xavier de Moraes, António Soares Castro e Vaz, Aberto Borges de Abreu Leite, Ecónoos; Francisco José Coelho, Francisco Borges de Macedo, Coadjutores; Manuel José dos Reis, Thesoureiro; José António Chaves, Sacristão; todos da mesma Real Collegiada; ao Padre Rei Manuel de Santa Rosa e Lima, Religiosa de Xabregas; João Bernardino da Silva Borges; Joaquim António Paredes, Negociante, e sua irmã Margarida Rosa; Manoel Joaquim da Rocha, todos de Chaves; Frei Francisco do Antigo Fiores, suas irmãs Thereza, e Maria Flores, e seus cunhados, irmão, sobrinhos, sobrinhas, primos, e primas, das casas dos Montes, Cervos, e Cortiços; Frei Francisco da Vila Verde, ex-Definidor; Frei José de Villarinho, e sua família; Frei António do Porto Paiva, Religiosos da Província da Piedade; José Rodrigues Vaz, Tenente Coronel Refornado das Milicias de Villa Real, sua mulher D. Maria Pinheiro de Mattos, e sua filha Francisca Thereza Rodrigues Vaz Bravo; o Padre Manoel Dias Cupertino de Sales, Vigário de S. Torquato, termo de Guimarães; Manoel Dias Pinheiro, e Anna Justina da Encarnação, seus sobrinhos; o Padre Manoel Fernantes de Sesedello; a Christovão José Pereira; António José Antunes, sua mulher, e seus filhos Francisco José, e Domingos José Antunes; Manoel Soares de Oliveira, e seu filho; José António Fernantes, sua mulher, e filhos; o Padre Manoel José da Silva, todos de Guimarães; o Padre Joaquim António Pereira de Parafita das duas Igrejas; João Ferreira do Espírito Santo; o Padre Domingos Lopes de Faria; Sebatião José de Mattos, e a sua mulher, de Meinede; todos na Comarca de Penafiel."

O número mais recente, diz:

"Em addicionamento ao artigo da Gazeta N.º 123, declara o padre Alvito Buela Pereira de Miranda, que são comprehendidos no uso das Medalhas com a Real Effigie, Bento Ribeiro de Aguiar, Proprietário em Vila Caiz; o Padre Domingos Alves, de Villar da Veiga; e João José da Cunha, de Villa Coiz, cujos nomes não foram inseridos naquelle artigo por esquecimento, bem como os de D. Maria da Conceição, Viuva, de Penafiel, seus filhos, e filhas."

* - Em graça; as almas que não estão em graça estão em desgraça.

(a continuar)

19/11/13

"DEFEZA DE PORTUGAL" (1831) - Que Queriam com a Entrada da Esquadra Francesa (IV c)

(continuação da parte b)

Eu fiz esta digressão, para a qual apenas chega o papel, e menos chegará a paciência dos meus leitores, e ainda a não concluí. Há pouco mais de um ano, que moro neste conselho, e daí a poucos rezes concebi os desejos, de que ele se unisse ao Julgado, e Comarca de Penafiel, não só porque esta cidade inspira aos seus rústicos os mais sólidos sentimentos de realeza, senão porque o concelho lhe está mais próximo, do que para ele está a cidade do Porto na distância de quatro lagoas, evitando-se assim o frequente trato destes povos com a ralé daquela cidade, para onde tem de caminhar diariamente em razão das suas pendências, e acções judiciárias, e por isso mesmo fazerem ali o seu comércio, que com mais vantagem civil, e moral poderiam fazer em Penafiel. Se este pensamento fosse levado à presença do augusto Rei, que nos rege, Ele o aprovaria, em conhecendo a sua utilidade, porque este bom rei nenhuma coisa deseja tanto como a felicidade dos seus vassalos. Pensar-se-há que a canalha, de que acabo de falar, não merecia tão longa digressão; mas eu pelo contrário entendo que a Polícia não devia perder de vista estes desprezíveis instrumentos do maçonismo, porque por eles se colhe o que ele premedita, e forja; pois que estes rústicos não sabem levantar de sua cabeça estas notícias, e elas têm algum fim. Dir-se-me-há que em Lisboa se sabe tudo; mas eu digo que nem tudo a tempo: a ralé mais infame da Côrte sabe as notícias malhadas, antes que a polícia, que as poderia saber ao mesmo tempo, se lançasse mão dos meios, que despreza, e são de desprezar menos nesta parte. Lá há um bom número de casas da prostituição, onde entram pela meia-noite, pouco mais, ou menos os prosélitos do maçonismo, que andam à caça de novidades; aí as publicações, aí as festejam, e daí as espalham: lá se leem as folhas inglesas, francesas, lá se vêm, e cantam os hinos constitucionais novamente compostos na Ilha Terceira, lá se traslade a correspondência, e mais papelada do ex-Conde de Vila Flor, lá se soube, antes que o Governo o soubesse, do infeliz sucesso das tropas reais no ano de 1829; lá finalmente entram pedreiros de alto lote, e de altos títulos. Já que essas casas se toleram para perdição da mocidade, e apodrecimento da senitude, saiba tirar-se delas ao menos o partido de saber, o que tramam os pedreiros; que a canalha rústica pode tornar-se útil, dando-lhe que fazer; aí estão essas estradas públicas, que é uma vergonha, e uma ruína; e como eles dizem que o senhor D. Pedro trouxe do Brasil milhões, e milhões, com que vem enriquecer os povos de Portugal, vão-lhe aplainando as estradas, por onde ele há-de fazer a sua entrada, e trabalhem até que ele venha, que assim trabalham toda a sua vida, não estarão ociosos, não falarão tanto, e não inquietarão os povos. eis como na mesma digressão, sem querer, formei um ponto de Defeza de Portugal: dar que fazer a esta cáfila de rotos constitucionais, salteadores de estrada, roubadores de igrejas, e amotinadores do povo, que são os principais instrumentos, de que nos povos tem lançado mão para desmoralizar tudo, e para arruinar tudo essa vil seita de Pedreiros Livres.

Rebordosa, de onde o autor escreveu estas linhas que lemos
Havia eu meditado, como disse, muitas vezes, com que enganos poderiam os portugueses ser novamente arrastados a uma revolução, e jamais podia atinar o como. Regresso d'ElRei? Nós temos Rei, não carecemos de outro, nem queremos outro. Cortes? As baixas, as comunas, as das Necessidades, as de 1820, essas deixaram-nos sem ter que comer, porque o pouco, que antes delas havia, foi pouco para eles. Câmaras? Como foram de alto, e baixo, à maneira de volvo, cheiram mal, enjoam, e até nos fazem secar a pele pelas peles, que umas trouxeram, e pelas que as outras esfolaram. Comércio? É coisa que não há em parte alguma, senão de petas, de traficâncias, de maldades, e de roubos. Liberdade? Nós vivemos como queremos, estamos contentes, e nunca fomos tão livres como agora, que temos um Rei à nossa vontade, que nos governa suavemente pelas Leis, com que viveram nossos pais e avós. Senhora Dona Maria da Glória? É muito menina; pode ser enganada, mas não enganar-nos: Nós nunca fomos governados por crianças, nem por mulheres quando temos varão: ela carece de tutor, e nós temos Rei de maior idade, Nosso Tutor, Pai, e Amigo. Regência? Quantas tivemos em nome de mulher, ainda que fosse de maior idade, sempre nos fizeram desejar Rei: por outra parte, regência de mariólas, quer dizer, desses brejeiros, que estão na Ilha Terceira, e doutros que tais que desejam lá estar, e sem os que podíamos bem passar, só serve para governar pretos forros; e nós nunca fomos escravos. Eu não podia pois, de qualquer lado que me virasse, saber a maneira, porque os portugueses podem ser novamente enganados; pois que isso de guerra da parte dos franceses, guerra da parte dos ingleses, ataque dos da Ilha Terceira, (que tudo isto, e mais dizem, e não cessam de dizer os tolos) pareceu-me sempre história da carochinha, porque os portugueses nunca foram conquistados à força, senão por traição. Digo que não podia saber a maneira, porque os portugueses podem ser novamente enganados, se o senhor D. Pedro não acabasse de chegar do Brasil, e os pedreiros se não aproveitassem deste sucesso e desta notícia para tentar outra revolução em Portugal. Direi pois o partido, que estes malvados pretendem tirar da chegada do senhor D. Pedro à Europa, porque a isso me abriu caminho a resposta do farrapão destas aldeias dizendo que os milicianos iam ao Porto para dar vivas ao senhor D. Pedro; mas não pense alguém que eu fale com menos delicadeza, e modéstia do augusto Imperador do Brasil: é um Soberano; ainda que não é português, é irmão do Nosso Rei, filho de um rei que teve as honras de Imperador do Brasil, e isto basta, e sobeja para que eu não deva, nem possa, nem queira faltar-lhe ao respeito: a causa dos Pedreiros Livres não é a do senhor D. Pedro, porque se o fosse não o arrojariam do Brasil: mas como os pedreiros se servem deste nome para revolucionar Portugal, o que não podem conseguir senão enganando os portugueses, eu vou no seguinte número desfazer-lhes esta moeda, pôr-lhe a calva ao sol, e deitar-lhes por terra esse edifício de embustes, e de trapaças, que andam fabricando, para acabar de perder a Portugal.

Rebordosa 21 de Agosto de 1831

Alvito Buela Pereira de Miranda

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