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17/04/17

COMUNICADO ASCENDENS - "Imitação de Cristo"

Ao longo destes anos, o blog ASCENDENS fez promoção a alguns clássicos da Espiritualidade, sendo um deles a Imitação de Cristo (Tomás de Kempis) - transcrevemos e publicámos esta obra no blog. Chega-nos a informação que, depois de acabada toda a nossa publicação, o Senhor Pe. Basílio Méramo tem publicado sermões nos quais critica esta obra de "voluntarista", e que ninguém antes dele se deu conta dos erros dela. Cabe-nos então fazer um esclarecimento.

1 - O blog ASCENDENS não é órgão oficioso duma pastoral determinada, ou causa, é sim um instrumento secundário. Não raras vezes, no blog é publicado o "rodapé" ou textos de apoio de uma dinâmica privada, para que tal sirva de proveito a todos.
 
2 - A transcrição da obra Imitação de Cristo foi gentilmente executada por um colaborador, a quem o autor do blog ajudou a fugir das garras do modernismo, e liberalismo, para defesa e aceitação total do Catolicismo na sua versão tradicional, tal como ao Pensamento Católico etc..
 
3 - A recomendação dada a respeito da Imitação de Cristo como livro de iniciação levou sempre duas indicações: de ser livro introdutório a ser ajustado pelos conteúdos do Preparação Para a Morte (Sto. Afonso de Ligório), pois o livro era um pouco "sentimentalista" e feito para a vida "solitária" dos conventos. Esta recomendação foi feita também para outros casos (pessoas), não aconteceu apenas com uma, ou por acaso, ou ficou a obra recomendada sozinha.

4 - Foi anunciado no blog ASCENDENS uma boa edição da obra abundante em notas explicativas.
 
5 - A Imitação de Cristo é um livro recomendado por santos, e que fez parte da leitura de santos.
 
Não seria demasiado perguntar ao Senhor Pe. Basílio Méramo, para fins didáticos, exemplo de vida, e ilustração: em que medida a leitura da Imitação de Cristo atrasou o seu percurso de santificação?
 
Fica assim esclarecida a nossa posição, e que antes daquela opinião a respeito de alguns pontos "sentimentalistas" da obra, nunca o responsável deste blog ouvira de outro tal opinião,  e nem por isso deu a obra por inútil ou sem brilho necessário. Para OS DIAS DE HOJE, principalmente, nunca recomendaríamos esta como obra única ou principal.

04/09/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (CI)

(continuação da C parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. XV
Pedir, Esperar, Receber e Conservar a Graça

1. Cristo – Deves procurar a graça da devoção com perseverança, pedi-la com ardor, espera-la com paciência e confiança, recebê-la agradecido, conservá-la com humildade, e ter grande cuidado de obrar com ela, cometendo a Deus o tempo e o modo em que lhe agradar visitar-te.
Humilha-te, quando em ti sentires pouco ou nada de devoção, sem que entretanto, desanimes ou te entristeças excessivamente.
Muitas vezes dá a Deus, em um breve movimento, o que durante muito tempo parecia ter negado, e muitas vezes concede no fim da oração o que recusou dar no principio.

2. O homem é tão fraco nesta vida que, se alcançasse sempre a graça e, em pouco tempo, na medida do seu desejo, não poderia suportá-la. Por isso deves esperar a graça da devoção com segura confiança e humilde paciência; ou, quando não te for concedida ou te for tirada secretamente, lança a culpa em ti mesmo e nos teus pecados.
Algumas vezes é bem pequena a coisa que impede ou enfraquece a graça, se, todavia se puder chamar coisa pequena o que prova de tão grande bem. Se removeres este obstáculo, seja ele grande ou pequeno, e o venceres, certamente terás o que pedires.

3. Porque logo que te entregares a Deus de todo o teu coração, e não buscares coisa alguma por teu próprio gosto, mas de todo te puseres nas Suas mãos, tu te acharás recolhido e sossegado, pois nada te será tão grande e tão jucundo como o beneplácito da divina vontade.
Aquele, portanto, que elevar a sua intenção pura ao Senhor, e tiver a sua alma desocupada de todo o afecto desordenado às criaturas, estará em condições de receber a graça e será digno de receber o dom da devoção.
O Senhor derrama as suas bênções onde acha vasos desocupados e, à proporção que o homem renuncia às coisas terrenas, e morre mais para si, pelo desprezo de si mesmo, a graça mais prontamente e em maior abundância se lhe comunica e a sua alma se eleva a uma mais alta liberdade de coração.

4. Então, transportado de admiração, verá o que não tinha visto, estará na abundância e o seu coração se dilatará, porque o Senhor está com ele e ele mesmo se pôs inteiramente nas mãos de Deus.
Deste modo, será abençoado o homem que busca a Deus, de todo o coração, e que fecha a entrada da alma a tudo o que é inútil e ilusório.
Este discípulo fiel, quando recebe a sagrada comunhão, merece a graça singular de uma união mais íntima, com o Senhor, porque não considera tanto a sua devoção ou a sua consolação particular; é a glória de Deus que ele prefere a todo o fervor e alegria espiritual que recebe neste sacramento.

26/08/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XCVIII)

(continuação da XCVII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. XII
Quem Houver de Comungar o Corpo de Jesus Cristo, Deve Preparar-se com Grande Diligência

1. Cristo – Eu sou amigo da pureza, e a origem de toda a santidade. Busco o coração puro e ali é o lugar do meu descanso.
Preparar-me uma sala grande e adornada e celebrarei em tua casa a Páscoa com os meus discípulos.
Se queres que venha a ti e fique contigo, lança fora o velho fermento e limpa a morada do teu coração.
Desterra de tudo o que é do século e o tumulto dos vícios. Assenta-te como o pássaro solitário no telhado e recorda as desordens da tua vida na amargura do teu coração.
O amigo prepara sempre para o amigo o melhor aposento, e assim é que dá a conhecer com que afecto o recebe.

2. Sabe, porém, que não podes, por mais esforços que faças, preparar-te dignamente, ainda que para isso empregasses um ano inteiro sem te ocupar de outras coisas.
No entanto, por minha graça e minha bondade, é-te permitido sentar à minha mesa, como se um rico convidasse e fizesse comer com ele a um pobre mendigo que não tivesse outra coisa a pagar senão humildade e agradecimento.
Faz o que está da tua parte e fá-lo com muita diligência. Recebe, não por preencher um costume, ou cumprir um dever rigoroso, mas com reverência, temor e amor, o corpo do teu amado Deus e Senhor, que se digna vir a ti. Eu sou quem te chama à minha mesa, quem te manda que venhas. Vem e recebe-me; eu suprirei o que te falta.

3. Quando eu te inspiro movimentos de devoção, dá graças a Deus, não porque sejas digno desse dom, mas porque tive misericórdia de ti.
Se não sentires devoção e te achares apático, preserva na oração, suplica, clama e não descanses, até que me mereças receber uma migalha da minha mesa, ou uma gota de águas saudáveis da graça.
Tu precisas de mim e eu não preciso de ti. Não és tu que vens santificar-me, a mim; sou eu que venha a ti fazer-te melhor e santificar-te.
Tu vens para que eu te santifique, para te unires a mim, para receberes uma graça nova e te abrasares no ardente desejo de adiantar na virtude. Não desprezes, pois, esta graça, mas prepara com toda a diligência o teu coração e recebe em teu seio aquele a quem amas.

4. Mas não basta apenas excitar a devoção antes de comungar; deves cuidado de a conservar, depois da comunhão. Nem é menos necessário, depois, o recolhimento e a vigilância, como o é, antes, a devota preparação; porque o cuidado que depois se tem é a melhor disposição para receber novamente maior graça. ao contrário, indispõe-se para ela o que logo se entrega com excesso às seduções do mundo exterior.
Guarda-te de falar muito, recolhe-te a algum lugar retirado e goza a companhia do teu Deus.
Tu possuis Aquele que o mundo inteiro não pode roubar-te. Sou eu a quem te deves entregar sem reservas, de sorte que, desembaraçado de todos os cuidados, não vivas mais em ti, mas em mim.

24/08/15

COMPÊNDIO ESPIRITUAL DA VIDA CRISTÃ (I)

COMPÊNDIO ESPIRITUAL DA VIDA CRISTÃ

Tirado de Muitos Autores,
pelo primeiro Arcebispo de Goa, e por ele pregado no primeiro ano a seus fregueses, pela glória e honra de JESUS Cristo nosso Salvador, e edificação de suas ovelhas.


COIMBRA
1600

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Informação do Padre Revedor:

Examinei este Compêndio da vida Espiritual, por mandado e autoridade do Supremo Conselho da Santa e geral Inquisição: e julgo por digno da Impressão. Frei Bartolomeu Ferreira.

Licença da Mesa Geral da Santa Inquisição:

Pode-se imprimir vista a informação, e um dos novamente impressos tornará a esta Mesa, para se conferir com o original antes de correrem. E este despacho se imprimirá no princípio com a dita informação. Em Lisboa, aos trinta de Outubro, Manuel Antunes Secretário do Conselho Geral o fez, de 1578. Dom Miguel de Castro, António Teles.

Licença do Ordinário:

Pode-se imprimir. Lemos.

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Tabuada do Que se Contem Neste Livro

Em dois Estados se divide esta obra, estado do pecado mortal, e estado da graça: o qual compreende quatro partes. A primeira trata da Doutrina Cristã, a segunda dos pecados, a terceira dos remédios conta eles, a quarta da oração e perfeição espiritual, com devotos exercícios.


Estado de Pecado Mortal
- Do estado do pecado mortal e suas condições
- Que na vontade está a salvação
- Consideração de que bens priva o pecado mortal
- Consideração dos males presentes que traz o pecado
- Consideração da vã esperança da vida
- Consideração dos juízos divinos
- Dos males que o pecado traz depois da vida
- Consideração dos juízos divinos
- Dos males que o pecado traz depois da vida
- Consideração das penas
- Consideração do nada e pouquidade do homem
- Da cegueira do pecado
- Epílogo do dito

Estado da Graça
- Do estado da graça, e sua obrigação
- Da ordem da penitência
- Que é negar a si mesmo
- Da mortificação da vontade
- Da mortificação do entendimento
- Da mortificação da sensualidade e sentidos exteriores
- Da Cruz da penitência
- Que a penitência é leve
- Da sequela de Cristo na sua doutrina
- Em que consiste seguir a Cristo

Primeira Parte da Doutrina
- Do "creio em Deus Pai"
- Do divisão do Credo
- Do primeiro artigo
- Do segundo artigo
- Do terceiro artigo
- Do quarto artigo
- Do quinto artigo
- Do sexto artigo
- Do sétimo artigo
- Do oitavo artigo, e dos sete dons do Espírito Santo
- Do nono artigo
- Do décimo artigo
- Do undécimo artigo
- Do último artigo, e da glória eterna
- Da benaventurança e glória dos justos

Segunda Parte da Doutrina Cristã
- Dos dez mandamento da lei de Deus
- Dos mandamentos em geral
- Do primeiro mandamento
- Do segundo mandamento
- Do terceiro mandamento
- Do quarto mandamento
- Do quinto mandamento
- Do sexto mandamento
- Do oitavo mandamento
- Do nono e décimo mandamento
- Dos seis mandamentos da santa madre Igreja
- Do primeiro mandamento da Igreja
- Dos dias de guarda, e jejum
- Dos segundo mandamento
- Do terceiro mandamento
- Do quarto mandamento
- Do quinto mandamento
- Do quinto mandamento da Igreja
- Dos pecados capitais
- Do pecado em geral
- Como se cometeu o pecado
- Da soberba
- Da luxúria
- Da ira
- Da inveja
- Da gula
- Da preguiça
- Dos pecados contra o Espírito Santo
- Dos pecados da participação, ou alheios
- Dos cinco sentidos
- Das sete circunstâncias dos pecados
- Dos que podem pecar

Terceira Parte da Doutrina Cristão
- Do primeiro remédio dos pecados, convém saber, das três virtudes teologais
- Da Fé
- Da Esperança
- Da Caridade
- Do segundo remédio dos pecados, convém saber, das quatro virtudes Cardeais
- Da Prudência
- Da Temperança
- Da Fortaleza
- Da Justiça
- Do terceiro remédio dos pecados, convém saber, das sete Virtudes Morais
- Da Liberdade
- Da Castidade
- Da Paciência
- Da Caridade
- Da Sobriedade e Temperança
- Da Diligência
- Do remédio geral dos pecados
- Dos remédios dos pecados veniais
- Do quarto remédio dos pecados convém a saber, dos sete Sacramentos
- Dos Sacramentos em gera
- Do Baptismo
- Da Confirmação
- Da penitência
- Da contrição
- Da Confissão e suas condições
- Do modo da Confissão
- Do modo da Confissão frequentada que comummente é de veniais
- Da Satisfacção
- Da Restituição
- Porque que coisas se dá a satisfacção da esmola
- Das obras de misericórdia
- Do jejum
- Do sacramento da ordem
- Do sacramento do matrimónio

Quarta Parte da Doutrina
- Da necessidade da oração
- Que é a oração
- Qual deve ser a oração
- Da oração do Pater noster em latim
- Da oração do Pai nosso em linguagem [vernáculo]
- Declaração dele
- Oração para pedir graças à Santíssima Trindade
- Oração para pedir graças ao Padre [Pai]
- Oração ao Filho
- Oração ao Espírito Santo
- Oração à Virgem, para alcançar ajuda e graça
- Da oração da saudação em latim e linguagem
- Da oração da Salve Regina em latim e linguagem
- Oração aos Santos para pedir a graça
- Oração para antes da Comunhão
- Oração a nossa Senhora antes da Comunhão
- Oração depois da Comunhão
- Oração a nossa Senhora depois da Comunhão
- Do fazimento de graças, depois da sagrada Comunhão
- Do modo que se deve ter no ouvir da Missa
- Oração a nossa Senhora antes da Missa
- De como se há de ouvir a primeira parte da Missa
- Da segunda parte da Missa
- Da terceira parte da Missa
- Do fazimento de graças de toda a vida de Cristo depois da Missa, ou em qualquer tempo
- Da perfeição da vida
- Dos graus da vida espiritual
- Da vida do amor pelo entendimento
- Da via unitária
- Das chagas para o amor unitivo
- Da vida unitiva
- Das achegas para o amor unitivo
- Do amor unitivo
- Do exercício das aspirações amorosas
- Dos quatro ramos da árore das aspirações
- Do oferecer, primeiro ramo das aspirações
- Do pedir
- Do conformar
- Do unir
- Do segundo exercício do nome de JESUS
- Do terceiro exercício do fazimento de graças
História da Vida de Cristo
- Anunciação do Anjo a nossa Senhora
- A visitação de S. Isabel
- Da prenhez da Virgem e da revelação feita a José da sua pureza
- O nascimento do Senhor
- A Circuncisão do Menino Jesus
- A vida e adoração dos Reis Magos
- A Purificação de Nossa Senhora
- Da morte dos Inocentes e fuga para o Egipto
- Quando se perdeu o Menino Jesus sendo de doze anos
- Do baptismo de Cristo
- Do jejum, e tentação de Cristo
- A Transfiguração de Cristo
- Dos mistérios da sagrada paixão
- Do lavatório dos pés, e mistério da Cruz
- A oração do horto
- A prisão do Senhor
- A apresentação diante dos juízes
- A coroação de espinhos
- Do lavar a cruz às costas
- De como o Senhor foi crucificado
- Das sete palavras que o Senhor falou na cruz
- O desentimento do Senhor da Cruz
- A ressurreição do Senhor
- De Como o Senhor apareceu aos discípulos
- A Ascenção de nosso Senhor Jesus Cristo
Exercício dos Dias da Semana
- Exercício de segunda feira
- Exercício de terça feira
- Exercício de quarta feira
- Exercício de quinta feira
- Exercício de sexta feira
- Exercício de sábado
- Exercício de domingo
- Exercício de cada dia, que compreende todos os exercícios para os que não têm tanto tempo
- Exercício de cada hora

Fim
(a continuar)

21/08/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XCVI)

(continuação da XCV parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. X
Não se Deve Deixar a Sagrada Comunhão Sem Causa Legítima

1. Cristo – Deves recorrer muitas vezes a mim, que sou a fonte da graça e da misericórdia, a origem da bondade e da pureza das almas, para que possas curar-te de todas as paixões e vícios e venhas a ser mais forte contra as tentações e artifícios do demónio.
O inimigo, sabendo o grande fruto que se tira da santa comunhão e que ela é grandíssimo remédio contra as enfermidades interiores, emprega todas as forças para apartar dela todas as almas fiéis e devotas.

2. Eis porque alguns padecem maiores tentações do demónio, quando se dispõem a receber a sagrada comunhão. Esse espírito de malícia, segundo Job, acha-se entre os filhos de Deus, para os perturbar por sua ordinária malignidade, fazendo-os excessivamente tímidos, ou escrupulosos, para assim esfriar a sua piedade, tirar-lhes o sentimento da fé, a fim de que deixem totalmente a comunhão, ou cheguem a ela com tibieza. Mas o remédio para este mal é não estar atento a tais artifícios e fantasias que o inimigo representa, por mais ignominiosas e horríveis que sejam. Pelo contrário, todas essas abominações devem ser rechaçadas e devolvidas ao inimigo.
É necessário desprezar esse espírito infeliz e escarnecer dele e, ainda que ele excite na alma argumentos e imagens perturbadores, não se deve, sob nenhum pretexto, deixar a sagrada comunhão.

3. Algumas vezes, também, nos apartamos da comunhão, pelo demasiado desejo de uma maior fervor, ou por certa inquietação ou dúvida que nos ficou da confissão. Segue, em tais casos, o conselho dos sábios; desterra de ti as inquietações e os vãos escrúpulos, porque tudo isto é um obstáculo à graça e destrói a sólida piedade da alma. Não deixes de comungar por motivo de qualquer atribulação. Vai logo confessar-te, se estás em pecado; perdoa aos outros as ofensas que deles porventura tiveres recebido. Se ofendeste a alguém, pede-lhe humildemente perdão; e Deus te perdoará os teus defeitos.

4. De que aproveita dilatar por muito tempo a confissão e proceder do mesmo modo quando à comunhão? Purifica, urgentemente, a tua alma; vomita, a toda a pressa, o veneno da culpa; recebe o remédio saudável e achar-te-ás melhor do que se adiares indeterminadamente o seu uso. Se hoje deixares de comungar por uma razão, amanhã deixarás por outra talvez maior. Assim, irás, protelando e cada vez te acharás menos hábil para receber a sagrada eucaristia. Tira-te, o mais breve possível, dessa tibieza, porque de nada aproveita viver tanto tempo na ansiedade e na perturbação pelos obstáculos que todos os dias te serão opostos à participação deste divino sacramento.
É muito nocivo dilatar a comunhão por largo tempo, pois que esta demora ocasiona, de ordinário, na alma, grave frouxidão. Quão doloroso é considerar que existem pessoas tão tíbias, que raras vezes se confessam e vão adiando sempre as suas comunhões por não se verem obrigadas e viver com mais cuidado na guarda da sua alma!

5. Quão pouco é o amor e a devoção dessas pessoas, que tão facilmente se dispensam da santa comunhão! Pelo contrário, quão feliz e agradável a Deus é aquele que viver de tal modo, com tal pureza de consciência, que se acha disposto para comungar todos os dias, se lhe fora permitido, e o pudesse fazer sem nota de parecer afectado ou singular!
Aquele, porém, que algumas vezes, deixa de comungar, por humildade, ou por alguma causa legítima que o impede, é digno de louvor pelo respeito que consagra a este santo mistério. Mas se se sente cair, pouco a pouco, na tibieza, deve despertar a si mesmo e fazer o que, de sua parte, lhe compete; e o senhor o socorrerá no seu desejo, atendendo a sua boa bondade, que é o que ele especialmente considera.

6. Quando estiver legitimamente impedido de comungar, deve, ao menos fazê-lo em espírito, por um desejo interior e uma santa intenção, caso em que não deixará de receber o fruto deste sacramento.
Todo o homem que tem uma piedade, sincera, pode comungar espiritualmente, cada dia e cada hora, sem que nada ou alguém o embarace, colhendo todos os frutos do divino mistério. Deve, contudo, pelo menos em determinados dias e determinados tempos, receber sacramentalmente o corpo do seu Salvador, com um afecto cheio de respeito, e procurar, nesta acção tão santa, mais a glória de Deus, do que a própria consolação. A alma comunga misticamente, recebendo, de modo invisível, verdadeiro alimento, todas as vezes quantas medita, piedosamente, nos mistérios da encarnação e da paixão do Redentor, e se abrasa no seu amor.

7. Quem não se dispõe para comungar senão por ocasião de alguma festa, ou porque o costume o obriga, a maior parte das vezes não estará preparado. Feliz aquele que se oferece ao Senhor em holocausto todas as vezes que celebra ou comunga!
Não sejas muito demorado nem muito apressado na celebração da santa missa. Conforma-te com o uso ordinário e regular daqueles com quem vives.
Não deves ser molesto aos outros nem causar enfado, mas ir pelo caminho comum que seguiram teus maiores, atendendo mais ao aproveitamento alheio do que à tua inclinação ou devoção particular.

MORTIFICAÇÃO DO ENTENDIMENTO

Cap. V
DA MORTIFICAÇÃO DO ENTENDIMENTO


Quando a porta da fortaleza está bem guardada, seguro podes dormir: assim o que tem boa guarda na vontade e coração forte de todos os males, e origem de todos os bens, seguro pode andar. Todavia para maior facilidade da guarda é necessário vigiar sobre os escravos, criados, e gente de casa, porque sendo estes mal criados, e desmandados, senão tiveres cuidado sobre eles dar-te-hão trabalho, e inquietação. De semelhante maneira, além da mortificação da vontade, e para mais facilmente seres senhor dela, deves ter vigia sobre o entendimento, que é um rapaz vagabundo demasiadamente desmandado e trabalhoso, e de todo desobediente.

Três maneiras há de pensamentos uns que em si não são maus nem pecados mortais, como são os castelos de vento, que o entendimento faz, que não aproveitam estes, dado caso que de sua colheita não sejam pecado mortal, fazem porém grande dano, porque se os consentes, é sinal que tens o coração vazio, e acabado de fazeres um castelo de vento, ficarás triste, e a cabeça esvaída, e tu cansado como se trabalharas com pedra e cal sendo tu vento, e facilmente virás a cair em pecados mortais, e torpes desejos, pela qual razão não deves consentir tais imaginações.

A segunda maneira de pensamentos danosos são, quando trazes à memória pensamentos de pecados mortais, ou de algumas pessoas com deleitação da carne, ainda que não consintas no pecado nem na deleitação. Estes tais pensamentos são muito prejudiciais. Porque deves com diligência enxotar estas molcas e maus pensamentos de teu entendimento, e em nenhuma maneira lançar mão deles. porém se viverem contra tua vontade, e forem importunos, não canses em os lançar de ti; porque esta contenda te fica em gloriosa coroa. Estes dois modos de imaginações deves mortificar e não dar lugar que o entendimento ande vagabundo por ela pois facilmente podem levar a pecado mortal, não te poderás muito tempo conservar no estado da graça.

A terceira maneira, são os pensamentos bons; como do cuidado da casa, da família e fazenda e dado que sejamos bons, em tempo podem vir que te danem e te impeçam de ter a vontade com Deus. Como estando na igreja à Missa, e em oração e recolhimento, e ocupado nas coisas de tua alma; porque assim como então não são necessários, podem distrair-te e tirar-te do negócio espiritual em que estás ocupado: porque em tal tempo mais servem a imagem de JESUS crucificado, e os pensamentos dessa morte e paixão, e teus pecados, que não os da sua casa, e se quiseres aproveitar na virtude recolhendo-te um pedaço de tempo com Deus, sabe que qualquer pensamento pode impedir a devoção, como se dirá na quarta parte. O que agora é necessário para te conservares no estado da graça, e não pecar mortalmente é, não consentir nas vagabundas e torpes imaginações, mortificando o entendimento. (Compendio Spiritual da Vida Christam ... Coimbra, 1600)

14/08/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XCIV)

(continuação da XCIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. VIII
Jesus Cristo Oferece-se Todo Por Nós, Na Cruz; Nós nos Devemos oferecer a Ele, Sem Reserva de Coisa Alguma

1. Cristo – Assim como Eu Me ofereci, voluntariamente, a Deus Pai, pelos teus pecados, no altar da Cruz, tendo os braços estendidos e o corpo nu, de sorte que em Mim nada ficou que não servisse a este Sacrifício que devia reconciliar o Céu com a Terra, tu deves, também e do mesmo modo, oferecer-te voluntariamente, cada dia, no Sacrifício da Missa, constituindo-te em oferta pura e santa a Deus, com todas as forças e afectos do teu espírito.
Que desejo Eu de ti, com mais empenho, senão que te dês a Mim, sem reservas? De tudo o que Me deres, não faço caso, não estando tu na mesma dádiva. Eu procuro a ti e não os teus presentes.

2. Do mesmo modo que tu, possuindo tudo, nada possuis na realidade, não possuindo a Mim, assim também nada de quanto me deres ser-Me agradável, se juntamente não Me fizeres o sacrifício de ti mesmo.
Oferece-te e dá-te a Mim, todo inteiro, e a tua oblação Me será aceite. Considera que Eu Me Sacrifiquei, todo inteiro, a Deus, meu Pai, por amor de ti; que dei todo o meu corpo e todo o meu sangue para nutrir a tua alma, a fim de que, fazendo-Me todo teu, tu te fizesses também todo Meu.
Se permaneceres em ti mesmo e não te ofereces voluntariamente par tudo o que Eu quiser de ti, a tua oblação não é inteira e a união que houver entre nós será imperfeita.
Essa voluntária oferta de ti mesmo nas mãos de Deus deve preceder todas as tuas obras, se queres adquirir a verdadeira liberdade e o dom da minha Graça.
A razão pela qual há tão poucos que sejam verdadeiramente livres e esclarecidos, é porque não sabem renunciar inteiramente a si mesmos. Por esse motivo sempre será actual a palavra que pronunciei, dizendo: "Ninguém pode ser Meu discípulo sem renunciar a quanto possui."
Se queres portanto, ser, na realidade, Meu discípulo, oferece-te a Mim, com todos os teus afectos.

02/08/15

MÁXIMAS DE Sto. INÁCIO DE LOYOLA e SENTIMENTOS DE S. FRANCISCO XAVIER (I)

MÁXIMAS
de
SANTO INÁCIO 

Fundador da Companhia de Jesus

e

SENTIMENTOS
de
SÃO FRANCISCO
XAVIER

 
Apóstolo das Índias


 RIO DE JANEIRO
1934

Sto. Inácio de Loyola


PREFÁCIO


Firmado por A. Carayon, a edição francesa de 1860, de que traduzimos este opúsculo, traz o seguinte antelóquio:

“Duas edições das Máximas de Santo Inácio e dos Sentimentos de São Francisco Xavier esgotaram-se em pouco tempo. O êxito deste opúsculo, que traz em seu titulo nomes tão venerados, a ninguém surpreenderá. O P. Bouhours, reunindo estas máximas, fez não somente obra de piedade filial, como bem mereceu de quantos deixam gostosamente os livros cheios de sentimentos afectuosos, para se nutrirem dos mais másculos ensinamentos da fé; deu armas a esses homens de coragem cuja dedicação e piedade se mostram menos por palavras do que por actos marcados pelo cunho da virilidade humana.
Muito pudéramos ter acrescentado a este opúsculo, aumentando-o com grande numero de passagens tiradas da Vida de Santo Inácio, que publicaremos proximamente: melhor havemos porém julgado fazer cingindo-nos a reproduzir exactamente a edição de 1683. Por mais pequeno que seja este volume, contém tesouros inesgotáveis de direcção: não é um livro de leitura, senão que uma fonte de meditações, um arsenal cheio das melhores armas. As cousas que nos diz uma vez e tão brevemente podem todo dia vir-nos em auxílio em meio aos nossos desfalecimentos, e restituir-nos ao coração primitiva energia. Foi à força de repetir a São Francisco Xavier a mesma verdade, as mesmas palavras, que Santo Inácio fez de um homem vaidoso e cativado por ambições humanas um religioso, um apóstolo, cujos trabalhos e êxitos têm sido tantas vezes comparados aos dos primeiros e mais ilustres propagadores do Evangelho”.

Revela-nos este preâmbulo que o nosso livrinho data de 1683, com reprodução exacta na edição de 1860, donde o transladamos. Tem assim todo o sabor e encanto das coisas antigas e preciosas, na colenda vetustez dos seus já 250 anos.

Vadiando séculos, põe-nos em contacto com a alma e o coração de dois grandes luzeiros da Igreja, pedras angulares da Companhia de Jesus. E, com isto, é com a própria alma da Companhia que nos põe em seu contacto; que essa grande alma realmente se retraça nestas singelas páginas, impregnadas todas da frescura e da força viva das nascentes.

Livrinho de grande valor ascético e directivo (e nem menos, talvez, de valor literário), “substractum” dessa doutrina vigorosa que tem feito da milícia inaciana, através dos tempos, a milícia de invictados “vândalos sublimes do cordeiros”, dos “Átilas da fé”, o nosso opúsculo está destinado a difundir o beneficio de uma orientação espiritual sublime, plasmada no mais puro sentimento de Deus; orientação prática e segura, que tem gerado múltiplos e óptimos frutos de santidade, e de cuja eficácia o grande Apóstolo das Índias se erige em exemplo eloquente, prestigiando com a mais feliz das experiências, sancionando com a mais bela prática a teoria do mestre.

Surgindo no ano em que, com todo o carinho, se celebra em nosso país a glória do imortal Anchieta, pela condigna comemoração do IV.º Centenário do seu nascimento, surge em ocasião muito oportuna esta edição vernácula; pois, ocioso é frisa-lo, celebrar Anchieta é magnificar o espírito e a doutrina dos seus fundadores.

Por bem inspirada tenho, pois, a minha empresa, só me restando esperar que mereça realmente aplaudida e resulte realmente benfazeja.

Rio – Março de 1934.
Luiz Leal Ferreira

(continuação, II parte)

23/07/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXIX)

(continuação da LXXXVIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. III
A Grande Utilidade de Comungar Frequentemente

1. Alma – Senhor, eu chego à Vossa presença com o fim de participar das Vossas bênçãos e das Vossas graças e para que me encha de alegria no banquete sagrado, que tendes preparado para o pobre, na abundância da Vossa doçura. Em Vós se acha tudo o que posso ou devo desejar. Vós sois a minha salvação , a minha redenção, a minha esperança, a minha fortaleza, a minha honra, a minha glória.
Derramai, pois, hoje, a Vossa alegria na alma do Vosso sereno, porque a Vós, Ó Jesus, meu Senhor, levanto o meu espírito.
desejo de receber-Vos com devoção e respeito. Desejo que entreis na minha casa, para que mereça, como Zaqueu, a Vossa bênção e seja posto no número dos filhos de Abraão.
A minha alma suspira por alimentar-se do Vosso corpo e o meu coração deseja unir-se a Vós.
 
2. dai-Vos a mim, Senhor, e isto me basta. Fora de Vós, todas as consolações são falsas. Não posso estar sem Vós; sem Vós não posso viver. Por este motivo, convém que eu me chegue a Vós muitas vezes e Vos receba como remédio da minha salvação, para que não desfaleça no caminho por falta deste alimento celeste.
Isto mesmo nos ensinastes, misericordioso Jesus, quando, pregando aos povos e curado-os das suas diferentes enfermidades, dissestes, aos Vossos discípulos: "Não quero que vão em jejum para suas casas, pois temo que desfaleçam no caminho."
Fazei, agora, o mesmo comigo, já que Vós deixastes ficar entre nós, no sacramento instituído para consolo dos que Vos seguem.
Sois o delicioso sustento da alma e quem Vos receber dignamente torna-se participante e herdeiro da glória eterna. Caindo eu em pecando tantas vezes e, por insignificantes dificuldades, lanço-me no desânimo e no relaxamento, é necessário que me renove, e purifique, e me reanime de novo, por meio de orações, confissões e comunhões frequentes, pois receio que, abstendo-me por muito tempo destes santos exercícios, venha a esfriar nos meus bons propósitos.
 
3. Todos os sentidos do homem tendem para o mal, desde os verdes anos, e o homem irá cada vez pior, se a Vossa graça o não socorrer. A Santa Comunhão, portanto, nos aparta do mal e nos fortifica no bem.
Se agora, que eu comungo, ou, se sou sacerdote, celebro, tantas vezes me sinto frouxo ou negligente, que seria se eu não tomasse um tal remédio e não recorresse a tão grande protecção? Ainda que eu, se for sacerdote, não celebre todos os dias por qualquer indisposição, deverei, pelo menos receber a Santa Comunhão, para ter parte em tão grande graça.
A principal e quase única consolação da fiel, durante a sua peregrinação neste mundo, é lembrar-se muitas vezes do seu Deus e receber, como todo o fervor, o dilecto do seu coração.
 
4. Ó bondade prodigiosa! Vós, que sois o Criador e a vida original de todos os espíritos, dignai-Vos de vir a uma pobre alma e empregar todas as riquezas da Vossa Divindade e da Vossa humanidade, para enchê-la de bens, na sua indigência! Ó feliz alma, que tens a dita de receber devota e santamente o teu senhor e teu Deus e que, recebendo-O, te enches de uma alegria espiritual! Quando é grande o Senhor que te visita! Quanto é amável o hóspede que recebes! Quanto é doce aquele que vem fazer-te companhia! Quanto é fiel o amigo que te vem ver! Quanto é belo o Esposo que vem unir-se a ti! Quanto é grande e digno de ser amado, pois que excede infinitamente tudo o que se pode amar ou desejar nesta vida!
Emudeçam, diante de Vós, dulcíssimo amado meu, o Céu e a Terra, com todos os ornatos de que os vestistes, porque tudoo que ele têm, de glória e de beleza, foi por munificiência da Vossa liberalidade, nunca chegando a igualar a formosura do nome daquele cuja sabedoria é infinita.

18/07/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXVII)

(continuação da LXXXVI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. I
A Extrema Bondade que Jesus Cristo Nos Manifesta Dando-nos o Seu Santo Corpo

1. Cristo – Vinde a mim todos os que estais fatigados e oprimidos, e eu vos consolarei. O pão que eu vos dera é a minha carne, a qual devo sacrificar pela vida do mundo. Tomai e comei; este é o meu corpo, o qual será entregue por amor de vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue vive em mim e eu viverei nele. As palavras que vos digo são espírito e vida. 

Alma – Estas Vossas palavras, Ó Jesus, são a verdade eterna, posto que não fossem proferidas em um mesmo tempo nem escritas em um mesmo lugar. Pois que elas são Vossas e são verdadeiras, eu as devi receber com acções de graça e fielmente. Elas são Vossas, porque Vós as proferistes, e também são minhas, porque as dissestes para minha salvação. Como alegria as recebo da Vossa boca, para que se imprimam profundamente no meu coração. Palavras cheias de tanta piedade, de tanta doçura e de tanto amor, elas me estimulam, mas os meus próprios delitos me enchem de temor e a impureza da minha consciência me proíbe de participar de tão grade mistério. A doçura das Vossas palavras me convida a Vos receber, mas o peso e o número dos meus pecados me apartam de Vós.

2. Mandais que chegue a Vós, com confiança, se quero ter parte Convosco, e que receba o alimento da imortalidade, se desejo alcançar uma vida e uma glória que durem para sempre. "Vinde a mim, vós que estais fatigados e oprimidos, e eu vos consolarei."
Ó palavra, a mais doce, a mais amável, que um pecador pode ouvir! Por ela vos dignais, o meu Deus e meu Senhor, convidar o pobre e o necessitado à participação do Vosso corpo santíssimo! Mas, quem sou eu, Senhor para que me chegue a Vós? Toda a imensidade dos Céus não Vos pode conter; e Vós dizeis: "Vinde a mim."

3. Quem pode conceder esta piedosíssima bondade e este amoroso convite?
Como me atreverei a chegar a Vós, eu que não sinto em mim bem algum que possa dar-me confiança bastante para ir a Vós?
Como não temerei fazer-Vos entrar na casa da minha alma, depois de Vos haver ofendido tantas vezes?
Os anjos e os arcanjos Vos reverenciam; os santos e os justos temem a Vossa presença, e Vós dizeis: "Vinde até mim todos."
Quem creria isto, se Vós, Senhor, o não dissésseis? Quem se atreveria a chegar a Vós, se Vós mesmo o não mandásseis?
Noé, que era tão justo, trabalho cem anos na fábrica da arca, a fim de nele salvar-se com poucas pessoas. Como poderia eu preparar-me em uma hora, para receber com reverência na minha alma o criador do Mundo?

4. Moisés, Vosso grande servo e Vosso amigo especial, fez uma arca de madeira incorruptível e cobriu-a de ouro puríssimo, para nela colocar as tábuas da Lei; e eu, que não sou senão uma criatura corrupta, atrever-me-ei a receber na minha alma o próprio legislador e supremo autor da vida?
Salomão, que foi o mais sábio dos reis de Israel, empregou sete anos para edificar um templo magnífico, à glória do Vosso nome; celebrou a sua dedicação pelo espaço de oito dias; ofereceu mil hóstias pacíficas: colocou solenemente a Arca da Aliança no lugar santo que lhe tinha sido preparado, ao som de trombetas e aos gritos de alegria de todo o seu povo. E eu, infeliz, o mais pobre de todos os homens, como Vos introduzirei na minha casa, se apenas posso aplicar a Vós escassa meia hora? Oxalá que, ao menos uma vez, empregasse dignamente esse tempo.

5. Ó meu Deus, quanto trabalharam estes santos para agradar-Vos! Ai de mim, que tão pouco faço e tão pouco tempo gasto em dispor-me para a Santa Comunhão! Raramente me recolho por completo e raríssimas vezes desterro do meu espírito todas as distracções. Seria justo que, na presença da Vossa Majestade, não atendesse eu a pensamentos pecaminosos, pois não é um anjo que devo receber no meu coração, mas o Rei dos anjos.

6. Há uma grandíssima diferença entre a Arca da Aliança, com tudo o que ele continha, e o Vosso Corpo puríssimo, com todas as graças e dons inefáveis de que é revestido. Grandíssima diferença existe entre os sacrifícios da Lei, que não eram mais do que uma figura das maravilhas futuras que devíeis fazer, e a verdadeira hóstia do Vosso Corpo, que vem completar todos os sacrifícios antigos. Porque, pois, não me abraso no Vosso amor, à vista da Vossa adorável presença? Porque não me preparo com mais cuidado para receber os Vossos santos mistérios, considerando quanto os antigos patriarcas, profetas, reis e príncipes mostravam tanta paixão rendendo o culto que Vos é devido?

7. David, o piedoso rei, dançou diante da arca, lembrando-se dos benefícios concedidos antigamente a seus pais; fez diversos instrumentos de música; compôs salmos; ordenou que se cantasse com pela graça do Espírito Santo. Ensinou os filhos de Israel a louvar a Deus, de todo o seu coração, e a aplaudi-lo todos os dias por um era reverenciada com tanta devoção; se houve tanto cuidado de louvar a Deus diante dela, que respeito e que devoção não devo ter eu e todo o povo fiel, quando nos achamos na presença do augustíssimo sacramento ou recebemos o corpo de Jesus Cristo?

8. Muitos correm diversos lugares para visitar as relíquias dos santos, para admirar as acções de suas vidas, contemplar com assombro a grandeza e magnificência de suas igrejas, e beijam os seus ossos sagrados, envoltos em ouro e seda.
E eu Vos vejo, meu Deus, que sois o Santo dos santos, o Criador dos homens, o senhor dos anjos, presente sobre o altar.
Os homens muitas vezes vão às igrejas, chamados pela curiosidade ou pela novidade, e tiram pouco proveito de emenda, principalmente quando nelas entram por motivos tão levianos, sem ser tocados por verdadeira contrição. Esquecem que, no sacramento do altar, estais presente como Deus e como Homem e, quando Vos visitamos dignamente, nos encheis de graças que nos fazem eternamente felizes. Não é um movimento de leviandade, de curiosidade ou de sensualidade que nos atrai a Vós, mas uma fé firme, uma esperança viva e uma caridade sincera.

9. Ó Deus, criador invisível do Mundo, quem não admirará o modo com que procedeis a nosso respeito? Quem pode suficientemente descrever esta doçura e bondade, que tendes com os Vossos escolhidos, aos quais ofereceis como alimento este augusto sacramento? Isto é o que transcende a nossa compreensão. Isto é o que mais atrai as almas que Vos são consagradas e que mais acende os seus afectos. Neste sacramento inefável é que os Vosso fiéis servos, que trabalham, de contínuo, em purificar-se de todos os seus defeitos, recebem a grande graça da devoção e um novo amor da virtude.

10. Ó graça admirável e oculta neste sacramento, conhecida só dos fiéis de Jesus Cristo, mais ignorada dos infiéis e dos escravos do pecado! Este mistério infunde em nossa alma a graça do Espírito Santo; recupera-lhe as forças perdidas; restitui-lhe a formosura que a fealdade do pecado lhe tinha roubado. Esta graça é, algumas vezes, tão abundante e dá ao homem um tão grande fervor de devoção, que não só a sua alma, mas o seu mesmo corpo sente, apesar da sua fraqueza, haver recebido maiores forças.

11. Nós deveríamos sentir e chorar a nossa negligência e tibieza, vendo o pouco fervor com que recebemos a Jesus Cristo, que é toda a esperança e fez todo o merecimento dos Seus escolhidos. Ele é a nossa santidade e a nossa redenção. Ele é a nossa consolação no deserto desta vida, como é no Céu a eterna felicidade dos santos.
Deve, pois, para nós, ser grande motivo de dor ver que tantas pessoas têm tão pouco afecto a este santo mistério, que é a alegria do Céu e a salvação do Universo.
Ó cegueira e dureza do coração humano, que tão pouco atende a um dom tão inefável e que, pelo uso de o receber, se distrai na inadvertência de que o recebe!

12. Se este sacramento fosse celebrado num só lugar e consagrado por um só sacerdote em todo o Mundo, que respeito não teriam os homens por este único sacerdote! E com que ardor não assistiram à celebração dos santos mistérios! Mas o amor de Deus quis que houvesse muitos sacerdotes e Jesus Cristo se oferecesse em muitos lugares, para que se estendesse a comunhão do seu Santo corpo por todo o Mundo.
Graças Vos sejam dadas, ó bom Jesus, pastor eterno, que Vos dignastes sustentar os pobres e desterrados, com o Vosso precioso corpo e o Vosso precioso sangue, e convidar-nos com palavras preferidas por Vossa sagrada boca à participação destes mistérios, dizendo: "Vinde a mim, todos os que estais fatigados e oprimidos, eu vos consolarei."

15/07/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXVI)

(continuação da LXXXV parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações
 

Cap. LIX
Devemos Pôr Somente em Deus Toda a Nossa Esperança

1. Alma – Senhor, qual é a confiança que posso ter nesta vida?
Ou qual é a minha maior consolação entre todas as coisas que existem debaixo do sol? Porventura não sois Vós, meu Senhor e meu Deus, cuja misericórdia não tem limites? Onde me foi bem sem Vós? Que mal posso eu sentir estando Convosco? Mais quero ser pobre por amor de Vós do que rico sem Vós. Mais quero peregrinar no mundo Convosco do que possuir o Céu sem Vós.
Onde estais, está o Céu; onde não estais, está a morte e o Inferno. Vós sois o objecto dos meus desejos; por isso é necessário que Vos envie os meus gemidos, as minhas orações e os meus clamores.
Em ninguém posso confiar inteiramente, de ninguém posso esperar os imediatos socorros às minhas necessidades, senão de Vós, ó meu Deus.
Sois a minha esperança e a minha confiança; sois em tudo o meu consolador.

2. Todos buscam os seus próprios interesses; Vós, porém, não buscais senão a minha salvação e o meu aproveitamento, fazendo que tudo seja em minha utilidade.
Ainda que muitas vezes me exponhais a tentações e trabalhos, contudo ordenais estes sucessos ao meu bem particular, pois é Vosso costume provar de mil modos os Vossos escolhidos.
Assim, eu não devo amar-Vos e louvar-Vos menos nestas provas do que se me prodigalizásseis as Vossas celestes consolações. 

3. Em Vós, pois, meu Deus, ponho toda a minha esperança e refúgio. No Vosso seio lança todas as minhas tribulações e angústias, pois fora de Vós não vejo senão fraqueza e insegurança.
Não acho amigos que me sirvam, poder que me sustente, sábio que me aconselhe, livro que me console, tesouros que me protejam, retiro que me assegurasse defesa; mas em Vós encontro o amigo que me assiste, o protector que me sustenta, sábio que me ensina, a verdade que me consola, o tesouro que me enriquece, o asilo que me põe em segurança. 

4. Tudo o que parece conduzi-me à posse da felicidade e da paz nada significa sem Vós; nem, com efeito, pode fazer-nos verdadeiramente felizes.
Vós só, ó meu Deus, é que sois o fim supremo de todos os bens, o centro da vida, o profundo abismo da ciência.
A mais completa consolação dos Vosso servos é pôr em Vós toda a sua esperança.
A Vós elevo os meus olhos, me Vós espero, meu Deus e Pai de misericórdia.
Abençoai e santificai a minha alma com a Vossa bênção celeste, para que ele venha a ser a Vossa santa morada, o trono da Vossa eterna glória, e para que não se ache no Vosso tempo coisa que Vos possa ofender.
Olhai para mim segundo a grandeza da Vossa bondade e a amplitude das Vossas misericórdias.
Ouvi a oração deste Vosso pobre servo, que vive desterrado de Vós na região das sombras da morte.
Amparai e conservai a alma do Vosso servo, exposto a todos os perigos desta vida corruptível.
A Vossa graça me acompanhe sempre e ela me conduza, pelo caminho da paz, à pátria da perpétua claridade. Amém.

18/05/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXV)

(continuação da LXXXIV parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações
 

Cap. LVIII
Não Se Deve Investigar As Coisas Do Alto Nem Os Ocultos Juízos De Deus

1. Cristo – Filho, não disputes sobre assuntos muito elevados e sobre os ocultos juízos de Deus.
Não indagues a razão pela qual o senhor desampara uns e leva outros a grandes graças; nem os motivos que a este levam às aflições e aquele a tantas honras e glórias. Estas coisas excedem a inteligência dos homens e, por mais esforço que eles façam por penetrá-las, não poderão jamais desvendar, pelo seu raciocínio, a profundeza dos meus juízos.
Quando o inimigo te tente nesta matéria, ou os homens curiosos te consultem, responde-lhes o que diz o Profeta: "Justo sois, Senhor, e justos são os Vossos juízos." e também aquilo do mesmo Profeta: "Os juízos do Senhor são verdadeiros e em si mesmos cheios de justiça."
Ao homem pertence temer e não examinar os meus juízos, porque são incompreensíveis ao entendimento humano.

2. Não inquiras nem discutas sobre o merecimento dos santos; qual seja o mais santo ou o maior no reino dos Céus. Isto não serve senão para produzir debates inúteis, nutrindo a soberba e a vã glória, das quais nascem, depois invejas e discórdias.
Um disputando por parte de um santo, outro por parte de outro, ambos teimam com tal soberba que cada qual pretende que o seu santo seja o preferido.
Nenhum fruto se tira de semelhantes averiguações, que desagradam aos próprios santos.
Eu não sou o Deus da discórdia, mas da paz, e esta paz procede da verdadeira humildade e não da exaltação.

3. Há pessoas que, por zelo ou predilecção, se afeiçoam mais a uns santos do que a outros, mas essa afeição é mais humana do que divina.
Sou eu quem criou todos os santos, lhe dei a graça e lhes comuniquei a minha glória. Eu sei os merecimentos de cada um deles, eu os preveni com as bênçãos da minha doçura. Eu os predestinei, antes de todos os séculos, os meus eleitos. Eu os escolhi do mundo, e não eles a mim. Eu os chamei pela graça, e os atraí pela misericórdia, e os fiz passar por muitas provações. Eu derramei nos seus corações inefáveis consolações; dei-lhes a perseverança e coroei a sua paciência.

4. Eu conheço todos desde o primeiro até ao último, e amo todos com um amor incalculável.
Eu devo ser louvado em todos os meus santos, bendito em todas as coisas e honrado em cada um deles, que tão gloriosamente exaltei e predestinei sem prévio merecimento algum da sua parte.
Quem, pois, despreza o menor dos meus santos, não honra o maior, porque eu fiz o pequeno e o grande.
O que menospreza algum dos meus santos, menospreza a mim e a quantos estão no reino do Céus.
São todos um, pelo vínculo da caridade; têm um mesmo sentimento e uma mesma vontade e amam-se todos com o mesmo amor.

5. Além disso, o que é mais sublime ainda, eles têm mais amor a mim do que a si e aos seus méritos. Arrebatados acima de si mesmos, acima do seu próprio amor, passam inteiramente ao meu, no qual acham a sua felicidade e o seu repouso.
Nada pode apartá-los deste grande objecto, porque, cheios da eterna verdade, ardem no fogo inextinguível do amor.
Nada disputem, portanto, sobre o estado dos santos, os homens carnais, que não amam senão a sua própria conveniência, e os seus gestos particulares. Esses homens elevam ou abaixam o valor dos santos, segundo os caprichos pessoais e não segundo a regra da eterna verdade.

6. Em muitos tal procedimento é fruto da ignorância, sobretudo naqueles que, pouco esclarecido, a ninguém, de ordinário sabem amar com um perfeito amor espiritual. Amam a umas pessoas mais do que a outras, por um afecto natural e por uma amizade humana e, do mesmo modo como amam as coisas terrenas, julgam dever amar as celestes.

7. Foge, pois, filho meu, de tratar curiosamente daquilo que exceda a tua ciência, mas põe todo o teu cuidado em merecer ao menos o ultimo lugar no reino de Deus.
Quanto houvesse quem descobrisse qual era o mais santo e o maior do reino dos Céus, de que lhe serviria esse conhecimento, se não tomasse daqui motivo para mais se humilhar e para se render maiores louvores ao meu nome?
Muito mais amo aqueles que consideram a grandeza dos seus pecados, a escassez das suas virtudes e a imensa distância que os separa da perfeição dos santos, do que aqueles que discutem sobre a maior ou menos glória deles.
É melhor rogar aos santos, com orações e lágrimas, pedindo-lhes humildemente o seu patrocínio, do que indagar, com fútil curiosidade, os segredos da sua glória.

8. Os santos dar-se-iam por muito contentes, se os homens soubessem contentar-se e permanecer nos limites da sua fraqueza, reprimindo a liberdade dos seus discursos.
Eles não se gloriam dos seus próprios merecimentos, porque não atribuem a si bem algum, antes tudo referem a mim, que tudo lhes dei pela caridade infinita que tive com eles.
Eles estão de tal sorte cheiros de amor da minha Divindade e de uma superabundância de delícias, que nada falta a sua glória, nem pode faltar à sua soberana felicidade.
Quanto mais os santos são elevados na glória, tanto mais são humildes e chegados a mim, abrasando-se no meu divino amor. Por isso diz a Escritura: "Eles depõem as suas coroas diante do Trono de Deus; prostram-se diante do Cordeiro; adoram Aquele que vive em todos os séculos dos séculos."

9. Muitos inquirem qual seja o maior santo do reino de Deus, e não cogitam de saber se serão dignos de ser contados entres os menores espíritos que o habitam.
É coisa grande ser o menor no Céu, onde todos são grandes, porque serão chamados filhos de Deus e o serão na realidade.
O menor dos eleitos valerá por mim, e o pecador, mesmo depois de uma longa vida, morrerá para sempre.
Perguntando-me os meus discípulos qual fosse o maior no reino dos Céus, respondi-lhes: "Se não vos converterdes e vos fizerdes como meninos, não entrareis no reino dos céus. Quem, pois, se humilhar e fizer como este menino, será o maior no reino dos Céus."

10. Ai daqueles que recusam humilhar-se voluntariamente, com os pequeninos, porque a porta do meu reino de Deus, porque a porta do reino dos Céus lhes estará trancada.
Ai também dos ricos, que têm neste mundo as suas consolações, porque, quando os pobres entrarem no reino de Deus, eles ficarão chorando do lado de fora.

Humildes, regozijai-vos! Pobres, transportai-vos de alegria! Porque vosso é o reino de Deus, se verdadeiramente me servires.

09/05/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXII)

(continuação da LXXXI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações
 

Cap. LV
Da Corrupção Da Natureza E Da Eficácia Da Graça Divina

1. Alma - Meu Deus e meu Senhor, que me criastes à Vossa imagem e semelhança, dai-me essa graça, que me mostrastes ser tão poderosa e tão necessária para a salvação, a fim de que eu vença as más inclinações da minha natureza corrompida, que me arrasta para o pecado e para a perdição.
Eu sinto na minha carne a lei do pecado oposta à lei do meu espírito e que me leva cativo a dar obediência à sensualidade. Confesso que não posso resistir a tamanhas paixões, sem a assistência da Vossa graça santíssima ardentemente infundida no meu coração.

2. Eu necessito da Vossa graça poderosa para vencer a minha natureza inclinada ao mal desde os meus mais tenros anos.
Essa natureza decaída no primeiro homem e viciada pelo pecado, transmite a todos os homens a pena de um crime; de sorte que a mesma natureza, que criastes boa e recta, deve ser considerada fraca e enferma, visto que, entregue a si mesma, os seus movimentos nos arrastam para o mal e para as coisas da Terra. Na verdade, a pouca força, que lhe ficou, é como uma pequena brasa coberta de cinzas.
Essa faísca é a razão natural envolta em densas trevas, possuindo ainda o discernimento do bem e do mal e fazendo a distinção do verdadeiro e do falso. Todavia, sente-se incapaz de cumprir o que aprova, pois já não possui a plena luz da verdade nem a pureza dos seus afectos.

3. Daqui vem, meu Deus; que eu, considerado segundo o homem interior, que em mim habita, me deleito na Vossa lei, reconhecendo-a por boa e tão justa que condena todo o mal e ensina a fugir do pecado.
Mas ao mesmo tempo sirvo a lei do pecado, segundo a carne, obedecendo mais à sensualidade do que à razão, de modo que, achando eu em mim a vontade de fazer o bem, não encontro o meio de o executar. Muitas vezes me proponho fazer o bem, mas, faltando-me a graça para ajudar a minha fraqueza, deixo tudo à menor resistência que encontro e desfaleço. Resulta daí que, conhecendo o caminho da perfeição e vendo claramente o que devo fazer, mas oprimido sob o peso da minha própria corrupção, não me elevo ao que é mais perfeito.

4. Quanto, Senhor, me é necessária a Vossa graça para começar o bem, para nele prosseguir e para o aperfeiçoar!
Eu nada posso fazer sem ela; mas tudo posso em Vós, com o socorro da Vossa graça.
Ó graça verdadeiramente celeste, sem ti não há algum merecimento próprio e até os mesmos dotes da natureza não são dignos de consideração. As artes, a riqueza, a formosura, o valor, o espírito e a eloquência, nada são diante de Vós, ó meu Deus, sem a Vossa graça.
Os dotes da natureza são comuns aos bons e aos maus; porém, a graça, ou a caridade, é dom próprio dos escolhidos, e aqueles que a possuem são julgados dignos da vida eterna. A excelência desta graça é tanta que nem o dom da profecia, nem o poder de obrar milagres, nem a mais alta contemplação valem alguma coisa sem ela.
A mesma fé e esperança, e todas as outras virtudes, não são agradáveis sem a graça e a caridade.

5. Ó beatíssima graça, que do pobre espírito fazeis rico de virtudes e ao opulento converteis em humilde de coração, vinde, descei sobre mim, enchei-me das vossas consolações, para que a minha alma não desfaleça entre a fadiga e as angústias do meu espírito.
Peço-Vos, Senhor, que eu ache a graça diante dos Vossos olhos; ela só me basta, ainda que me falte tudo o que a natureza deseja.
Por mais tentado e molestado com muitas tribulações, não temerei mal algum, enquanto a Vossa graça me assistir. Ela é a minha força, o meu conselho, o meu fundamento. E mais poderosa do que todos os inimigos, mais sábia do que todos os sábios.

6. Ela é a mestra da verdade, a regra da disciplina, a luz do coração, a consolação dos males, o inimigo da tristeza, a dissipadora do temor, o sustento da devoção e a mãe das santas lágrimas.
Que sou eu, sem ela, senão lenha seca, tronco inútil, próprio para ser lançado no fogo?
Preveni-me, pois, Senhor, da Vossa graça, e fazei que ela me acompanhe sempre e me conserve continuamente na prática das boas obras, por Vosso Filho Jesus Cristo.  

17/04/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXII)

(continuação da LXXI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XLV
Deve-se Procurar a amizade de Deus e Não a Dos Homens

1. Alma - Socorrei-me, meu Deus, na atribulação, porque é vã toda a segurança que se funda no homem. Quantas vezes me tenho enganado, não achando fidelidade onde contava achá-la! Quantas vezes também a achei onde menos a presumia!
Assim, toda a esperança que se põe nos homens é vã, mas em Vós, meu Deus, é que está a salvação dos justos.
Bendito sejais, meu Senhor e meu Deus, em tudo o que nos sucede. Nós, fracos e inconstantes, facilmente nos mudamos e deixamos enganar.

2. Que homem há que guarda a sua alma com tanta vigilância e circunspecção, que jamais caia em engano algum, ou em alguma dúvida que o embarace?
Aquele que confia em Vós e que Vos procura na simplicidade do seu coração, não está tão exposto a estes tristes incidentes; e se cai, por muito que se haja embaraçado, Vós de tais embaraços o livrareis depressa ou lhe trazeis generosa consolação, porque não desamparais os que esperam em Vós até o fim.
Nenhuma coisa há no mundo mais rara do que um amigo fiel, que persevere firme em assistir ao seu amigo em todos os seus males.
Só Vós, Senhor, sois o amigo único e soberano, e ninguém há que mereça este nome senão Vós.

3. Quão sábia era aquela alma quando, à vista dos maiores tormentos disse: "A minha alma está fundada e solidamente estabelecida em Cristo".
Se eu estivera nesse feliz estado, não fariam impressão sobre mim tão facilmente, os temores humanos e as palavras ofensivas.
Quem pode prever tudo? Quem pode guardar-se dos males futuros? Se os males previstos já fazem sofrer tanto, que dizer dos imprevistos? que tão duramente ferem? Mas, pobre de mim, porque não me acautelei melhor? Porque razão me fiei dos homens? O que é certo é que somos homens, e nada mais que homens fracos, ainda que muitos nos julguem e chamem anjos. A quem, pois, daremos crédito, senão a Vós, que sois a verdade, que não engana nem pode ser enganada?

4.
Vós, meu Deus, nos destes um sábio conselho, quando nos dissestes que o homem tem por inimigos os próprios domésticos e que não deveríamos dar crédito quando alguém nos dissesse: Cristo está aqui, ou ali.
Eu aprendi esta verdade por uma triste experiência, e Deus queira que ela sirva para fazer-me mais sábio de futuro do que para convencer-me da minha imprudência passada.
Guarda, diz-me alguém, guarda, nisto que te revelo, inviolável segredo. Calo-me, não digo nada, e, crendo que a coisa está em absoluto sigilo, venho a saber que ela se fez pública por leviandade daquele mesmo que tanto me encomendou sobre ela o silêncio. Livrai-me, Senhor, destes homens faladores e imprudentes, para que não caia em suas mãos e nem cometa tais faltas.
Ponde na minha boca palavras sinceras e verdadeiras e apartai da minha língua a leviandade e o artifício, pois quero evitar em mim o que não quero sofrer nos outros.

5. Quanto é bom e proveitoso à paz não falar dos outros, não crer tudo o que no dizem nem repeti-lo irreflectidamente; abrir-se com poucos,  buscar sempre a Vós, que vedes os corações, e não se deixar levar pelos ventos dos discursos humanos, mas desejar que tudo, dentro e fora de nós, se cumpra segundo o beneplácito da Vossa vontade!
Quanto é seguro, para conservar a graça celeste, fugir das pompas do mundo e não desejar aquilo que cause admiração dos homens, e seguir cuidadosamente tudo aquilo que nos dê emenda em nossa vida e concorra para aumentar o nosso fervor!

6. A quantos tem arruinado a virtude conhecida e louvada antes do tempo!
Quanto foi sempre útil conservar a graça no silêncio, no transcurso desta vida frágil, a qual se passa em tentação e peleja!

11/04/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXVII)

(continuação da LXVI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XL 
O Homem de Si Nada Tem de Bom e de Nada Deve Gloriar-se 

1. Alma - Senhor, quem é o homem para que Vos lembreis dele, ou o filho do homem, para que o visiteis? Que merecimento tem o homem para que lhe concedais a Vossa graça. Senhor, com que razão posso eu queixar-me no caso de que me desampareis? Com que justiça posso não levar a bem que não me concedais o que Vos peço?
Certo que eu posso pensar e dizer com verdade: Meu Deus, nada posso; nada bom tenho de mim; em tudo tropeço e sempre caminho para o nada. Se Vós não me assistis, nem me ajudais de modo completo, logo fico tíbio e dissoluto.

2. Vós, porém, Senhor, sempre sois o mesmo.
Por toda a eternidade, permaneceis sempre bom, sempre justo, sempre santo, fazendo bem justa e santamente todas as Vossas obras e dispondo-as segundo a Vossa admirável sabedoria. Mas eu, que mais pendo para o mal do que para o bem, não estou sempre em um mesmo estado, porque sou temporal e sujeito à variedade dos tempos. Contudo, acho-me melhor logo que Vos agrada socorrer-me
Sem precisar de nenhum auxílio humano, basta-me o Vosso, de sorte que não possa eu jamais mudar de face e de tal modo me fortaleça que o meu coração só para Vós se converta e semente em Vós descanse.

3. Se eu bem soubesse desprezar todas as consolações humanas, na consideração de que este é o meio de adquirir o fervor do espírito, ou de que me encontro impossibilitado de ser consolado por qualquer homem, imposta me seria a necessidade de não recorrer senão a Vós, e isto seria grande motivo para eu esperar a Vossa graça e para me alegrar com o dom de uma nova consolação.

4. Eu Vos rendo, Senhor, as graças por serdes a fonte de onde dimana todo o bem que me sucede.
Eu, homem inconstante e fraco, não sou na Vossa presença mais do que um nada e uma pura vaidade.
De que posso, portanto, gloriar-me, ou com que motivo apetecer estimações? Acaso por ser um nada? Mas isto é o cúmulo da vaidade. A vã glória é, na verdade, uma peste detestável e a maior de todas as ilusões, pois que nos priva da verdadeira glória e nos despoja da graça celeste.
O homem, enquanto agrada a si mesmo, desagrada a Vós e, enquanto deseja os louvores humanos, perde as verdadeiras virtudes.

5. A verdadeira glória e a alegria santa consiste em gloriar-se cada um em Vós e não em si; regozijar-se na Vossa grandeza e não na sua própria virtude; nem deleitar-se em alguma criatura, senão por amor de Vós.
Louve-se o Vosso nome e não o meu; glorifiquem-se as Vossas obras e não as minhas. Louvem e abençoem todos os homens a Vossa grandeza e nada participe eu em tais louvores.
Vós sois a glória e a alegria do meu coração. Todo o dia me gloriarei e me alegrarei em Vós, pois que em mim nada tenho em que gloriar-me, pois tudo em mim são as minhas fraquezas.

6. Os homens, à imitação dos Judeus, buscam a glória uns dos outros. Eu buscarei aquela que só vem de Deus. Toda a glória humana, todas as honras temporais e todas as grandezas do mundo, comparadas com a glória eterna, não passam de loucura e vaidade.
Ó minha verdade, ó minha misericórdia, ó meu Deus, ó Trindade beatífica, a Vós só seja dada a honra, o louvor, a glória e a virtude, por infinitos séculos dos séculos.

31/03/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXV)

(continuação da LXIV parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XXXIII

A Pouca Firmeza Do Coração Humano, Que Não Poderia Estar Fixo Senão Em Deus

1. Cristo - Filho, não te fies na tua disposição presente, porque depressa se mudará em outra.
Enquanto viveres, estarás sujeito às mudanças, ainda que não queiras.
Achar-te-ás ora na alegria, ora na tristeza; ora na paz, ora sem sossego; ora na devoção, ora sem ela; ora no fervor, ora sem ele; ora na modéstia, ora na leviandade.
Mas o verdadeiro sábio, instruído no espírito, elevas-se acima desta vaidade, permanece firme em todas estas mudanças. Não considera o que se passa em si mesmo, nem de que parte sopram os ventos da inconstância humana. Pensa só em adiantar-se no seu caminho, recolhendo e reunindo todos os movimentos do seu coração, para os pôr em mim, como seu único e verdadeiro fim.
Assim é que, tendo sempre fixos em Mim os olhos simples da pura intenção, poderás permanecer inalterável e sempre o mesmo, no meio da diversidade dos sucessos que ocorrem nesta vida.

2. Quanto mais a intenção for pura, tanto mais a alma se achará constante entre as tempestades que a combatem. Mas este olhar tão puro facilmente se escurece porque o apartam de mim para o porem em alguma coisa humana que lisonjeia os sentidos.
É coisa raríssima achar uma alma inteiramente livre e cuja pureza não seja manchada pela névoa de algum interesse inconfessável.
O Evangelho mostra duas intenções nos judeus que vieram da Betânia visitar Marta e Maria. Eles vieram não só para ver a Jesus, mas também para ver a Lázaro.
Deves, pois, purificar o sentido da tua intenção, para que seja simples e recto e para que se dirija só a Mim, apesar dos vários objectos que se lhe apresentarem.

24/03/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXIV)

(continuação da LXIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XXXII

Negar-se a Si Mesmo e Despojar-se de Toda a Cobiça

1. Cristo - Filho, não podes possuir uma perfeita liberdade, sem que renuncies inteiramente a ti mesmo. Todos os proprietários da sua alma, que estão possuídos do amor-próprio, vivem em prisões e em ferros. Eles estão cheios de desejos e paixões, curiosos e errantes; buscam as coisas que lhes podem dar prazer, e não as de Jesus Cristo. Fazem muitas vezes esforços por levar uma vida mais pura, mas começam o edifício sem alicerces, e a sua construção não permanece.
Tudo o que não vem de Deus não pode ser firme e perdurar. Não te esqueças desta palavra breve, mas cheia de sentido: "Deixa tudo e acharás tudo". Renuncia aos teus vãos desejos e acharás o verdadeiro descanso. Considera bem esta verdade e, praticando-a, saberás tudo.

2. Alma - Senhor, uma piedade tão pura não é obra de um dia nem o brinquedo de um menino. Neste breve ditame, que foste servido dar-me, se encerra tudo o que há de mais perfeito na vida religiosa.

Cristo
- Filho, quando te é proposto o caminho dos perfeitos, não deves apartar-te dele, nem logo esmorecer. Antes, pelo contrário, deves forcejar por conseguir este estado sublime, ou ao menos suspirar por ele, inflamado em santo desejo. Quem dera que chegasses ao ponto de não seres amador de ti mesmo, mas vítima da minha vontade e daquele que te dei por condutor e pai. Então, tu me agradarias muito e toda a tua vida seria acompanhada de gosto e paz.
Ainda te restam muitas coisas para deixar, e, se as não deixas por amor de mim, não alcançarás jamais o que pedes.
Aconselho-te que me compres este ouro provado pelo fogo; quer dizer: esta sabedoria celeste que pisa aos pés do mundo e todas as suas vaidades. Para a possuíres renuncia a toda a sabedoria terrena e a toda a falsa complacência de ti mesmo.

17/03/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXIII)

(continuação da LXII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XXXI

Desprezar as Criaturas Para Encontrar o Criador

1. Alma - Senhor, eu necessito de mais graça para estabelecer-me em tal estado que nenhuma criatura possa embaraçar-me. Enquanto eu tiver inclinação para alguma coisa terrena, não poderei livremente voar para Vós. Este é o grande voo que desejava o Profeta, quando dizia: "Quem me dera asas como a pomba para poder voar e descansa."
Que coisa mais descansada que a intenção pura, e que coisa mais livre que o coração que nada deseja do mundo? É necessário, pois, que a alma se eleve acima de todas as criaturas e se separe de si mesma, arrebatada e fora de si, compreendendo que Vós sois o Criador do Universo e que nenhuma semelhança tendes com as criaturas, no que elas têm de inferior por se eximirem das Vossas leis.
A alma, não estando assim desembaraçada, não poderá livremente aplicar-se nos objectos celestiais.
O motivo pelo qual existem hoje tão poucas pessoas contemplativas decorre do facto de que poucos sabem separar-se do amor das criatuas e dos bens transitórios.

2. Não se pode chegar a este estado sem uma grande graça, que eleve a alma e a transporte acima de si mesma. O homem que não possui esta elevação do espírito e que não vive desapegado do amor das criaturas, para unir-se perfeitamente a Deus, nenhuma atenção merece pelas luzes e raras qualidades que tiver.
Quem não ama somente o único, imenso e eterno Bem, permanecerá muito tempo no seu estado imperfeito.
Tudo o que não é Deus é nada, e por nada se deve julgar.
Há uma grandíssima diferença entre a ciência de um homem de piedade e a de um hábil teólogo. A luz que vem do Céu, pela influência da graça, é muito mais nobre do que aquela que se adquire pelo trabalho e pelo esforço do espírito humano.

3. Muitos há que desejam contemplação, mas que não trabalham por adquiri-la. O que os impede de chegarem a um estado tão feliz é o contemplarem as coisas sensíveis, tratando pouco de mortificar o espírito e o coração. Não sei que espírito nos conduz, nem tão-pouco o que pretendemos, dizendo-nos espirituais e empregando tanto trabalho e cuidado em tudo o que é vil e transitório, ao mesmo passo que raramente recolhemos os nossos sentidos para meditar sobre o nosso mundo interior.

4. Grande desgraça! Ainda não temos entrado bem em nosso coração, e logo saímos dele para tratarmos das coisas externas, sem fazer um rigoroso exame das nossas obras.
Não atentamos para onde caminham os nossos afectos nem choramos, vendo que tudo em nós é impuro.
A Escritura diz que, havendo toda a carne corrompido o seu caminho, por esta causa inundou o dilúvio toda a Terra. Quando, pois, os nossos afectos se corrompem, logicamente se corrompem as acções que se lhe seguem, o que denota falta de virtude interior. Do coração puro é que procede o fruto da vida pura.

5. Olha-se atentamente a tudo o que o homem faz; mas não se olha do mesmo modo se é sólida a virtude e pura a intenção com que as faz. Examina-se com cuidado se é forte, rico, formoso, hábil nas artes, se escreve ou conta perfeitamente, ou se é bom oficial; mas não se faz conta de saber se é pobre de espírito, sofredor, manso, devoto e espiritual.
A natureza não considera senão o exterior do homem; porém, a graça dirige-se ao seu interior. A natureza engana-se muitas vezes; mas a graça espera em Deus para não ser enganada.

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