Mostrar mensagens com a etiqueta Entendimento. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Entendimento. Mostrar todas as mensagens

17/04/17

HISTÓRIA DOS MILAGRES DO ROSÁRIO (VIII)

(continuação da VII parte)
DIÁLOGO I
A Devoção do Santíssimo Rosário Tem Virtude Para Livrar da Morte Aqueles a Quem Outros Querem Matar e Para Se Fazerem Amizades Entre os Que se Querem Mal.

Anselmo e D. Hector fidalgo

Partidos os três companheiros do Colégio da Purificação de Évora, antes de chegar ao Mosteiro de nossa Senhora do Espinheiro, que é da ordem dos padres de S. Jerónimo, pela outra parte do caminho vinha um homem a cavalo galopando com uma lança na mão, o qual se chama D. Hector. No modo de correr e no rosto aceso, e afrontado, dava a entender, que alguma paixão o movia, e muito mais quando lhe preguntou se haviam visto entrar no mosteiro um homem (o qual nomeou por seu nome) dizendo que lhe deixava morto seu irmão, e que ele também o queria matar. Mas o padre Anselmo chegando-se a ele, lhe disse que não viram tal homem. Ele querendo caminhar adiante, com cortesia lhe lançou mão da rédea do cavalo, e o deteve, dizendo-lhe que lhe fizesse mercê de se deter com ele um pouco, e que logo poderia caminhar.
- Não é este tempo de conversação de Religiosos - disse ele - senão de tornar por minha honra, e tomar vingança da morte de meu irmão, tão injusta, e civil.
- Aqui daremos remédio a vossa honra - disse Anselmo - e o matador não ficará sem vingança.
Ficou então o fidalgo movido com a promessa de duas coisas que ele tanto desejava; e como tinha crédito da pessoa com quem falava, parou. E dando o cavalo a um moço, que naquele tempo chegou, lhe disse Anselmo:
- Entremos a fazer oração - porque o Mosteiro estava muito preto - e saberemos também se o matador se tem aí acolhimento.

Ficou contente D. Hector, e chegando à igreja, foram logo fazer oração diante da Imagem de nossa Senhora, que é de grande devoção, e nela a tem toda a cidade. Acabando a oração, Anselmo disse aos dois companheiros, à parte, que com muita devoção rezassem ambos o terço do Rosário, que nosso Senhor alumiasse aquele homem no negócio de sua salvação, que ele lhe queria falar devagar.
Assentados ambos:
- Senhor D. Heitor, neste negócio que pretendei, que é vingança da morte de vosso irmão e satisfazer vossa honra matando, em tudo andais enganado, porque quanto à honra, antes a perdeis com Deus, e com os homens bons Cristãos que com estes se deve ter a honra, antes a perdeis como Deus, e com os homens bons Cristãos que com este devem ter conta, porque matando a vosso próximo com a vingança, fazeis contra o que vos manda vosso Deus e vosso Rei, e todo o que não obedecer a seu Rei, é tido por homem de pouca fidalguia e primor, e perde honra, e não haveis de ter conta com os que tendo o nome de Cristãos, não guardam sua lei. Quanto à vingança, Deus a toma à sua conta, quem vos saberá vingar, e se nas coisas de honra vos fiais de capitães, e Reis, tomando-os por juízes em vossas brigas, muito mais vos haveis de fiar de Deus, e tomá-lo por juiz quem vos manda que lhe deixeis a vingança, e da que por vossa mão tomardes vos podem nascer mui grandes males para vossa pessoa e Casa.

- Agora vejo - disse D. Hector - quanto nos cega a paixão e como andamos enganados ante todo o mundo, na matéria da vingança; porque me parece que em poucas palavras me deixastes tudo o que se podia dizer, e fico persuadido a ter conta com a lei de Deus, e com minha alma, que há de viver para sempre, e deixar a vingança a Deus, que ele como pai terá conta com minha honra, e como juiz castigará aos matadores.

- Ó Jesus, Jesus - disse Anselmo - não me pudera agora acontecer coisa de maior contentamento, que ver-nos livres de tão grande barranco, em que o demónio vos queria deitar, mas sabei que por intercessão daquela Senhora, e de seu santo Rosário, que aqueles padres rezaram entretanto que estivemos falando, vos mudou o coração [e iluminou a mim no falar], e em lugar do ódio de vosso próximo, vos pôs [entendimento e] amor, e perdão da injúria.

- Como ? - perguntou D. Hector - a devoção do Rosário tem virtude para mudar o [entendimento e o]coração e fazer amigos, como eu sinto em mim, que o estou já com quem me matou meu irmão, folgarei muito de o ouvir.

(continuação, IX parte)

21/08/15

MORTIFICAÇÃO DO ENTENDIMENTO

Cap. V
DA MORTIFICAÇÃO DO ENTENDIMENTO


Quando a porta da fortaleza está bem guardada, seguro podes dormir: assim o que tem boa guarda na vontade e coração forte de todos os males, e origem de todos os bens, seguro pode andar. Todavia para maior facilidade da guarda é necessário vigiar sobre os escravos, criados, e gente de casa, porque sendo estes mal criados, e desmandados, senão tiveres cuidado sobre eles dar-te-hão trabalho, e inquietação. De semelhante maneira, além da mortificação da vontade, e para mais facilmente seres senhor dela, deves ter vigia sobre o entendimento, que é um rapaz vagabundo demasiadamente desmandado e trabalhoso, e de todo desobediente.

Três maneiras há de pensamentos uns que em si não são maus nem pecados mortais, como são os castelos de vento, que o entendimento faz, que não aproveitam estes, dado caso que de sua colheita não sejam pecado mortal, fazem porém grande dano, porque se os consentes, é sinal que tens o coração vazio, e acabado de fazeres um castelo de vento, ficarás triste, e a cabeça esvaída, e tu cansado como se trabalharas com pedra e cal sendo tu vento, e facilmente virás a cair em pecados mortais, e torpes desejos, pela qual razão não deves consentir tais imaginações.

A segunda maneira de pensamentos danosos são, quando trazes à memória pensamentos de pecados mortais, ou de algumas pessoas com deleitação da carne, ainda que não consintas no pecado nem na deleitação. Estes tais pensamentos são muito prejudiciais. Porque deves com diligência enxotar estas molcas e maus pensamentos de teu entendimento, e em nenhuma maneira lançar mão deles. porém se viverem contra tua vontade, e forem importunos, não canses em os lançar de ti; porque esta contenda te fica em gloriosa coroa. Estes dois modos de imaginações deves mortificar e não dar lugar que o entendimento ande vagabundo por ela pois facilmente podem levar a pecado mortal, não te poderás muito tempo conservar no estado da graça.

A terceira maneira, são os pensamentos bons; como do cuidado da casa, da família e fazenda e dado que sejamos bons, em tempo podem vir que te danem e te impeçam de ter a vontade com Deus. Como estando na igreja à Missa, e em oração e recolhimento, e ocupado nas coisas de tua alma; porque assim como então não são necessários, podem distrair-te e tirar-te do negócio espiritual em que estás ocupado: porque em tal tempo mais servem a imagem de JESUS crucificado, e os pensamentos dessa morte e paixão, e teus pecados, que não os da sua casa, e se quiseres aproveitar na virtude recolhendo-te um pedaço de tempo com Deus, sabe que qualquer pensamento pode impedir a devoção, como se dirá na quarta parte. O que agora é necessário para te conservares no estado da graça, e não pecar mortalmente é, não consentir nas vagabundas e torpes imaginações, mortificando o entendimento. (Compendio Spiritual da Vida Christam ... Coimbra, 1600)

TEXTOS ANTERIORES