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07/02/18

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº10 (IV)

(continuação da III parte)

4ª Desde a perda de África até ao ano 1668

Frei Heitor Pinto - intelectual covilhanense
exilado em Castela
Abrem a cena destes infaustos dias, em que principiou a nossa escravidão, muitos Frades vítimas da sua lealdade ao Trono de seus Reis naturais; e basta-me apontar os nomes do Jerónimo Fr. Heitor Pinto, zelosíssimo propugnador dos direitos da Casa de Bragança, do Cisterciense Fr. Crisóstomo da Visitação, impertérrito seguidor da mesma causa, e que à imitação do primeiro acabou seus dias no desterro, e do ilustre Dominicano Fr. José Teixeira, que de envolta com outros Religiosos da sua Ordem foi exceptuado da amnistia que o intruso Filipe I concedera aos partidistas do Senhor D. António Prior do Crato.

Sem trocarmos agora no serviço de se fomentar por todo o Reino, e por todos os modos, a nunca interrompida afecção à Sereníssima Casa de Bragança, que maior extremo de lealdade pôde haver que o executado pelo Monge de Alcobaça Fr. António Brandão, quando se atreveu a divulgar as Cortes de Lamego, que cortavam pela raiz os supostos direitos do Rei Castelhano? Se a Monarquia surge debaixo das ruinas em que a sepultara a dominação estrangeira, acodem prontas e fervorosas as Ordens Monásticas, para lhe darem a mão--- e as rendas dos Mosteiros se empregam na justa revindicação dos nossos direitos; e quando seja necessário que os Frandes acudam aos exercícios de Marte, um frade Bernardo os afugentará da Província do Minho, e outro Frade Bernardo, pela confissão dos Autores estrangeiros, deixará em problema se lhe fica melhor o bago, se a espada.


5ª De 1668 até ao presente

Durante as épocas de segurança, de paz, de tranquilidade, assim interna como externa, custam mais a aparecer os relevantes serviços das Ordens Religiosas. A ocasião do perigo e das calamidades públicas é sempre aquela, em que melhor desenvolvem e manifestam as suas virtudes patrióticas. Eu poderia citar neste longo intervalo de mais de um século entre os Cistercienses um Historiador digno de seguir as pisadas dos Britos, e dos Brandões; entre os Theatinos uma sociedade de Atlantes, que podem com o peso do Dicionário da Língua, e da História Geanealógica da Casa Real; entre os da Terceira Ordem um D. Fr. Manuel do Cenáculo, assaz louvado quando se nomeia, e um D. Fr. Caetano Brandão, que não é só Filantropo na língua e na pena, mas que o é nas obras, aplicando os rendimentos da sua Mitra a fundações pias de todo o género, para meninos órfãos, para mulheres do mundo, para velhos doentes e estropeados, e até dando prémios a quem sobressaia em certos ramos de agricultura; cheguemos porém à Invasão Francesa, e aqui se decidirá de todo a nossa causa.

Que fizeste, Pedreiro, quando a tua Pátria se viu tantas vezes ameaçada, e afinal invadida? Mostraste uma alegria indecente e escandalosa, porque eram chegados os nossos Regeneradores; não houve serviço humilde, nem baixeza que de com grado não praticasses, a fim de teres propícios os vencedores de Marengo, e da Austerlitz...

E que fizeram os Frades? O que tu não terias ânimo de fazer, ainda que tivesses debaixo de tua chave os tesouros do Grão Mogol... Deram para a guerra quanto podiam, e mais que podiam; e tal Corporação houve, que se empenhou em mais de duzentos mil cruzados para coadjuvar o Estado (Alcobaça), e para não ficarmos regidos pelo Código Napoleónico, já muito bem traduzido em linguagem pelo sábio Jurisconsule Moura, que assim veio escarrado no então oráculo das Nações Europeias, o Monitor...

Este punhal, por mais que corte e despedace, nunca se lhe embotam os fios, e ainda vai fazer das suas na

Conclusão

Contribuir tão poderosa como eficazmente para a fundação da Monarquia Portuguesa; não só dirigir, mas executar com as próprias mãos os trabalhos mais pesados da agricultura; promover os estudos neste Reino à custa da própria fazenda; sair a campo não só com os dinheiros, mas também com risco das próprias vidas, todas as vezes que Portugal foi ameaçado de perder a sua gloriosa independência; opor um muro de bronze à tentativas de heresia e da impiedade, assim no século XVI, como nos séculos XVIII e XIX; civilizar nações estranhas, e conseguintemente sujeitá-las de bom grado à nossa Monarquia... Tais são os nossos títulos abonados por inumeráveis Escritores, e presenciados por uma infinidade de testemunhas...

Pedreiros, quais são os vossos? No curto espaço de menos de três anos, em que vossas mãos trémulas e incapazes de tudo o que é bom, sustentaram o leme dos negócios públicos, foi acima das areias do mar o de vossos delírios e atrocidades... Se continuais um ano só que fosse... nunca mais seríamos Portugueses... A vossa infâmia e a vossa incapacidade acham-se escritas de maneira indelével na desmembração do Brasil, no deficit enorme das rendas públicas, e no esgotamento da riqueza nacional; e será mais fácil meter o mar numa concha, ou fazer do preto branco, do que mostrar, ainda sofisticamente, que sois ou podeis ser úteis ao Estado.


Utilidades Religiosas, e Políticas que provém actualmente dos Mosteiros.

Ainda torno a falar convosco, eus Pedreiros, nem convinha que eu vos deixasse facilmente sem vos ter pago, quando em mim fosse, e dívida imensa em que haveis posto as Ordens Religiosas. Ficam estas para sempre enobrecidas pelo vosso ódio, exaltadas pelo vosso desprezo, cada vez mais seguras pelo vosso furor de extinções, e mais profundamente arraigadas pelos vossos Projectos de Reforma. Pode tanto a infâmia de que estais oprimidos à face da geração presente; não se começaria a propósito a demonstração das "utilidades Religiosas, e Políticas dos Mosteiros" sem que fosse apontada na cabeceira do rol porventura o mais nervoso de quantos argumentos podem trazer-se para o meu sujeito. Somos perseguidos pela Maçonaria Portuguesa, tem esta jurado abolir os Frades, porque os Frades advogam a causa da Religião Católica todas as vezes que ela é insultada e combatida, porque os Frades são adidos ao Trono, que os favorece, que os eleva, e a quem devem tudo que são de presente, enfim porque os Frades são contrários às suas obras más, tenebrosas e nefandas..... É tanto isto verdade, que mal apareceram outra vez os Jesuítas, e o S. Padre Pio VII derrogou a Bula do Papa Clemente XIV andavam tais que pareciam furiosos, e o seu trombeta Mr. de Pradt (o inimigo dos trabalhadores de Mr. Vhateaubriand sobre as vantagens, e belezas do Cristianismo) já disse que mal do género humano se estes Padres tornam a propagar-se; que infelizmente já os vê na Hungria, na Boémia, nos Estados da Casa de Áustria, no Piemonte, na Lombardia, em Nápoles; e que para mais penas sentir, já se vão metendo pela França, e que adeus ideias liberais, que esses malditos não deixaram frutificar, nem progredir.... É pois de eterna verdade, que por esse ódio figadal dos Pedreiros aos Frades se conclue necessariamente que os Frades são úteis por extremo à causa dos Reis, e à causa da Fé; e ainda que os nossos maiores não tivessem feito uma inumerável cópia nos pôr em toda a luz, como defensores natos da Igreja, e da Monarquia. Vamos pois insistindo nas propostas utilidades, e comecemos pelos que são de maior vulto para quem ainda crê que há Deus, que há Céu, que há Inferno, e que a Religião é o primeiro dever do homem inteligente, e criado para um fim sobrenatural.

Não se pode encobrir que por influência das opiniões modernas tem caído num certo desprezo a vida Eclesiástica, e o que ainda é mais de estranhar, nem todos os Clérigos se esmeram por adquirir e conservar os conhecimentos indispensáveis para o Estado Sacerdotal. Há tal rapazinho (e só aqui fica bem este nome) que sendo filho de pobres cavadores de enxada, todo se anoja de lhe falarem em ser Padre; assim como há Sacerdotes que só de terem lido sem atenção, e meramente por satisfazer, alguns princípios do Larraga se têm na conta de sabichões, que já não carecem de estudar mais nada para o tão árduo como delicado Ministério do Sacramento da Penitência. O próprio Voltaire conheceu tanto esta verdade que chegou a dizer que a extinção dos Frades o poria em termos de levar ao fim quanto premeditava sobre a Igreja Católica, e que nem o Clero Secular, nem os Bispos o assustavam com esses corpos numerosos, que faziam maciços impenetráveis para sustentarem a todo o custo a existência do fanatismo.

Recai pois de necessidade nas Ordens Religiosas a maior parte das confissões, e pregações; acaso as tais Ordens fossem abolidas, se experimentaria logo em todo esse Reino a maior falta de socorros espirituais, e por certo que uma grande parte dos fiéis chegaria cedo à terrível e duríssima extremidade de pedir o pão, sem haver quem lho repartisse. Nem se diga que os Frades não eram expulsos do Reino, e que reduzidos aos Estado Secular podiam assistir como dantes aos fiéis, e ministrar-lhes igualmente os socorros da vida cristã: pois quem discorre desta maneira ou não sabe, ou afecta não saber o tempo que costumam roubar os cuidados ordinários da vida, e que mui diferente coisa é o viver exonerado de procurar o necessário para a subsistência, e poder entregar-se todo às obras do Ministério Sagrado, ou descer a todos os cuidados, que traz consigo a substância, que não seria ela tão firme, e segura no reino constitucional, que desobrigasse os Ex Frades de procurarem outro modo de vida sob pena de morrerem todos à fome.

Deus livre esta Monarquia de experimentar uma carestia absoluta de Frades!! Alguns Povos, que em nossos dias têm experimentado, como são nomeadamente os Belgas Católicos, ainda hoje estão gritando por eles, e protestando que os Frades eram todo o seu remédio, e toda a sua consolação; e o mesmo ouviremos ainda hoje lastimar aos velhinhos dos colégios dos Jesuítas neste Reino, se porventura ainda existem, como é provável, muitos anciãos daquele tempo. 

Concluída que fosse entre nós a extinção dos Frades, não tardaria muito que um grande número de fiéis não perecessem destituídos do conforto dos últimos sacramentos, e que pelo menos aldeias, e povoações inteiras ficassem ao Domingo sem Missa, e que todo este Reino se fosse aproximando insensivelmente do estado a que os Mações o queriam reduzir.

Se estas vantagens puramente religiosas se fossem discutindo miudamente, por certo que não seria uma das menos consideráveis a que merece grandes aplausos a um Liberal (Mr. Mercier = Tableau de Paris), e vem a ser a assistência dos Frades aos infelizes réus desde que se lhes intima a sentença de morte até subirem ao patíbulo; nem ficariam no último lugar os deliciosos frutos, que por esta ocasião têm colhido os Frades, e de que a nossa História podia subministrar contínuos, e assinalados testemunhos.....

Onde são mais pomposas as grandes Festividades do Cristianismo, do que nos Mosteiros? Onde se ouve mais frequentemente a palavra do Senhor, que nos Mosteiros? Onde é mais fácil receber os Sacramentos da Penitência, e da Eucaristia, que nos Mosteiros? Onde há maior cópia de oradores Evangélicos não menos distintos pela ciência do que por uma vida exemplar, do que nos Mosteiros? Quem semeia a palavra de Deus tão felizmente como os virtuosos Missionários de Varatojo, e as mais filiações deste Sagrado Instituto? Se alguns Santos fundadores quiseram habilitar melhor o Clero Secular para que se empregasse frutuosamente nos mesmos trabalhos, deram-lhe a forma de Religiosos, fazendo-os viver em Mosteiros, observar a vida comum, etc., etc., etc.. Por isso nenhuma destas fundações, como por exemplo a dos Missionários do Instituto de S. Vicente de Paulo, ficaria em pé no meio da queda geral das Instituições Monásticas; e também por isso a Casa do Espírito Santo em Lisboa, que é de Clérigos Seculares, os quais se empregam com um zelo, e caridade acima de todo o elogio, na conversão, e direcção das almas, e que não tem nada com as Instituições Monásticas, assim mesmo por oito ou dez dias de livrou de experimentar o raio da extinção já despedido pelos Mações contra ela.....

Acrescendo que não veríamos tão perdida neste Reino,  por certo confiada tantas vezes a sujeitos inábeis, desacreditados, e viciosíssimos, se os nossos sabichões conseguissem moderar o espírito filosófico, que lavrado há cinquenta anos em Portugal influe onde menos se devia crer ou esperar.... mas fique para outras vez esta punhalada, em que se podem dizer bocadinhos de ouro!!!

Entremos pois nas vantagens políticas, e a fim de se evitar quanto couber no possível o tédio dos Leitores, reparta-se a matéria em pequenos artigos....

(a continuar)

29/01/18

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº10 (III)

(continuação da II parte)

Mosteiro de Alcobaça
Brevíssima Enumeração, ou Indicação Dos Serviços Feitos Pelas Ordens Religiosas à Monarquia Portuguesa

Antes de começar este acto de justiça para com as Ordens Religiosas estabelecidas neste Reino, deverei protestar, que apenas escrevo o que tenho de memória, e que fica salvo o direito a cada uma das sobreditas Ordens para manifestarem ao público as suas utilidades pretéritas e presentes. Oxalá que este meu ensaio conseguisse animá-las todas, para que cheias de um nobre e santo ardor pela sua respectica glória, deputassem os seus mais beneméritos filhos para escreverem, ao menos resumidamente, sobre tão importante objecto! Destinando-me apenas a indicar-lhes a gravidade, e o interesse, repartirei os serviços dos Frades pelas épocas mais notáveis da História Portuguesa.

1ª Antes da Monarquia:

Quem foram os que sustentaram na antiga Lusitânia os restos de um atenuado, porém glorioso Catolicismo, senão os Frades? Quem foram os cooperadores da liberdade das Espanhas, quando mais inundadas de Mouros, senão Frades? Que foram as Ordens Militares das Espanhas em sua origem, senão Comunidades Religiosas, que incessantemente ou levantavam suas mãos ao Céu, ou brandiam nos campos a lança e a espada? Quem foram os que rebatiam a fúria dos Agarenos no campo de Montemor-o-Velho, senão os Frades capitaneados pelo Abade João? Quem foram os principais auxiliares da restauração de Coimbra nos dias de Fernando Magno, senão os Frades Bentos de Lorvão? Derramados estes por todas as Províncias do que então se dizia Portugal, fizeram então mesmo luzir na agricultura aquela Província onde tinham maior cópia de Mosteiros, e não esperaram que Portugal fosse Monarquia independente para lhe desbravarem as montanhas, e reduzirem a cultura as mais empinadas serras, e as mais ingratas penedias, de que pode ser ainda hoje testemunha o Mosteiro antiquíssimo de S. João de Pendorada.

2ª Fundação da Monarquia até ao reino do Senhor D. João I

Aí começam os Pedreiros a morderem-se de raiva, e a vomitarem toda a sua peçonha contra a que eles chamam exorbitantíssima doença feita pelo Senhor D. Afonso Henriques ao Mosteiro de Alcobaça.... E deveria pouco este Rei ao Santo Abade de Claraval, devendo-lhe a confirmação de um título, que conforme as ideias recebidas naquele tempo não irá por diante sem aquela poderosíssima intercessão? E ficará devendo pouco este Reino a uma colónia de Frades, que receberam uns matos povoados de feras, e dentro de um século, à força de cultivarem a terra por suas próprias mãos, apresentaram um jardim aos que vinham de longe pedir-lhes, debaixo de certos encargos, uma parte do fruto e consequência dos seus trabalhos?

Outro tanto se deve afirmar do Mosteiro de Santa Cruz; e só Pedreiros manhosos e refalsos terão cara para ninguém que foram estes dois grandiosos Mosteiros bem como o dourado berço, em que se embalou na sua infância o Trono Português, que sem o poderoso auxílio destes Frades mal poderia combater felizmente os muito e quase insuperáveis obstáculos que o cercaram ao nascer: pois que negócio grave se decidiu naqueles tempos onde não figurassem principalmente o Abade de Alcobaça, e o Prior de Santa Cruz?

É quanto basta para os Mações, que não admitem profecias nem milagres; que se eu escrevera somente para os bons Portugueses, contentava-me de os levar à prodigiosa escalada dos muros de Santarém, e a doação de Alcobaça por certo ficaria a mais justa, valiosa, e inabalável... Pedreiros, eu torno para vós... Quem sabia nesses tempos alguma coisa de Dialectica, de Física, e de Medicina?... Os Frades... e chamamos um Frade primeiro Médico de ElRei D. Afonso III? Quando se tratou de fundar-se uma Universidade, quais foram os principais instigadores de tão profícua e gloriosa lembrança? Os Frades Crúzios, Bernardos, e Bentos.... Não eram planistas em seco, de que abunda, e por extremo, a nossa idade... Concorreram com avultadas somas para o salário dos primeiros Lentes; e a Universidade de Coimbra não poderá levar-se nunca desta origem fradesca, grão desar para ela no conceito dos seus alunos Mações...

3ª Desde o Senhor D. João I até à perda do Senhor D. Sebastião nos campos de África

Quem era o digno restaurador do Trono Português ameaçado nos fins do séc. XIV de cair em mãos de estrangeiros? Era um Frade professo na Ordem de Avis. Quem luzio à frente dos seus aclamadores na Cidade de Coimbra? A Corporação Benedictina. Quem afrontou o poder de Castela, e o dos Alcaides de Óbidos, Torres Novas, e Leiria, que seguiam a voz da Infanta D. Brites [Beatriz], para sustentar a DelRei D. João I, acudindo com viveres ao seu exército postado em Aljubarrota, com um reforço de mil homens bem armados, e com a sua própria pessoa durante a fugida do exército Castelhano? O Abade de Alcobaça D. João Dornela.

Encontro os Frades inesperáveis desse glorioso Monarca em suas expedições ultramarinas: são Frades os seus principais Conselheiros, e muitas vezes fez descansar em Frades o prazo dos negócios públicos.

Mas adiante os Frades acompanham os nosso primeiros descobridores: são eles os que dirigem as Missões Africanas, e especialmente a do Congo; e os Reis de Portugal por indústria dos Frades tem já convertidos à Fé muitos Reis por seus tributários.

Os Frades, como Santo António de Lisboa, D. Fr. Álvaro Pais, e Fr. Vicente o Pregador insigne, e outros muitos precederam a desejada restauração das Letras? Se as humanas tanto medraram e floresceram neste Reino, deve-se o melhor dos seus frutos ao Dominicano Fr. André de Resende, ao Jerónimo D. Fr. Braz de Barros, e aos Crúzios D. Damião da Costa e D. Heliodoro de Paiva.

Se os nossos estudos teológicos darão então um grande brado por toda a Cristandade, quem ignora que os Dominicanos Fr. Francisco Foreiro, e Fr. Jerónimo da Azambuja; que os Eremitas Augostinianos D. Fr. Gaspar do Casal, e D. Fr. João Soares; que o Cruzio D. Pedro de Figueiró, e o Jerónimo Fr. Heitor Pinto, e outros muitos Frades, tiveram a maior parte nestes brasões do Reino Português?

Mas que fui eu dizer! Um Pedreiro, que não conhece o verdadeiro objecto da Teologia, como há de tomar interesse nos progressos da Rainha das Ciências? Um Pedreiro, que tacha de fanatismo as diligências que já tiverem feito ou possam fazer daqui em diante para ser exaltado o Nome de Jesus Cristo, já se enjoaria, e não pouco, das Missões do Cónego; e por isso não o irritemos com a lembrança das nossas Missões da Índia, do Japão, da China, e de toda a Costa de África, nem lhe desafiemos o seu riso de piedade, mostrando-lhe o crescido número de Frades Pregadores e Mártires de Jesus Cristo, e passemos ao exame dos trabalhos que ele mais preza, ou finge estimar.

Os Religiosos de Santa Cruz de Coimbra exercitam, cultivam, e animam por todos os modos a Arte Tipográfica, que mal pensavam eles em que viria a dar esse instrumento da propagação das luzes. Se os Frades Arrábidos, Dominicos, e outros, sabem morrer pelo seu próximo na chamada peste grande de 1569, também os que restaram daquele contágio souberam morrer ao lado delRei D. Sebastião nos campos de África, fechando gloriosamente, no meio das próprias desgraças, e época do maior florescimento das Ordens Religiosas deste Reino.

Debalde se quererão opor os nomes de João de Barros, D. António Pinheiro, e Francisco de Andrade, como verdadeiros Mestres da nossa linguagem, aos nomes dos Carmelitas D. Fr. Amador Arraes, e Fr. Simão Coelho, do Cisterciense Fr. Bernardo de Brito, do Jerónimo Fr. Heitor Pinto, e do Dominicano Fr. Luís de Sousa, que já em 1578 era homem feito nas Letras humanas.. Quem não vê deste ligeiro esboço que todas as glórias, excepto a das armas, competem ao grau mais eminente às Ordens Religiosas!

(continuação, IV parte)

21/01/15

IMAGEM DA VIDA CRISTÃ (I)

(da obra "Imagem da Vida Cristã", de Fr. Heitor Pinto)

DIÁLOGO DA VERDADEIRA FILOSOFIA
(adaptação nos diálogos, por Ascendens)

I
Capítulo

Da excelência da vista sobre os outros sentidos, e da descobrimento da verdade.

Indo praticando pelos cemceirais de Coimbra ao longo do Mondego dois amigos, que saíram da cidade, um deles dado muito ao estudo da humanidade, que presumia excessivamente de discreto e grande filósofo, e queria antes parece-lo, que sê-lo, da condição dos que escolhem antes latão lustroso, que prata sem lustro, outro menos humanista, mas mais humano, encontraram com um ermitão, homem religioso e letrado, de que tinham conhecimento doutro tempo, em que todos naquela universidade estudaram e conversaram. E depois de sandados, e passarem ante si algumas amorosas palavras, perguntou o filósofo ao ermitão como estava, e que anos tinha de idade, porque lhe parecia mais velho do que ele julgava ser:

- Ermitão: Eu não estou, nem tenho nem um só ano de idade; e o mesmo podem com verdade dizer de si todos os homens.

- Filósofo: É nova opinião, essa.

- Er: Nem é nova nem opinião, se não antiga e manifesta verdade. Que se fora nova começara há pouco, mas ela é sentença dos sábios antigos, que de si deixaram gloriosa memória: e se fôra opinião fôra de coisas contingentes e incertas, mas ela é necessária e certíssima.

- Fi: E eu tenho-a por falsíssima. E é ou tão são dúvida, que a não terá nisso, se não quem segundo o costume dos académicos, quiser em tudo duvidar.

- Companheiro: Aí há verdades que não parecem, não por não serem, mas por não entendermos a diversidade do estilo em que são ditas. Digo isto, porque o padre, como se desnaturou do mundo, para que quanto dele estivesse mais apartado, tanto estivesse com Deus mais unido, e quanto mais longe estivesse da terra, e de si ainda mais longe, tanto mais perto estivesse do céu, tem outro estilo tão diferentes do nosso, que havemos de entender: que se o não estendemos é porque passa ele além das balisas do nosso entendimento, mas não porque em suas palavras haja erro, nem falsidade.

- Fi: Não sei porque sem razões, para escusar uma sem razão: pois de querer escusar uma nascem muitas. Assim, como lançando uma pedra num grande poço se faz um círculo na água, e dele procede outro maior, e este maior faz outro mais estendido, após o qual vem outro e outros cada vez maiores, quase em infinito, assim de um erro nasce outro, e este traz outro consigo maior, após o qual vem muitos outros cada vez maiores, quase em infinito, se lhe não atalham logo no princípio. Fácil coisa seria atalhar logo no princípio a um rio, entupindo-lhe a fonte, donde nasce, ou lançando-lha por outra banda: mas depois que nele entrada de muitos rios se faz poderoso e profundo, não há quem lhe possa resistir. Isto é o que diz Aristóteles, que pequeno erro no princípio se faz grande no fim, e que dado um inconveniente se seguem muitos. E às vezes de não apagar uma palha, se vem atear o fogo numa e noutra até que se vem a queimar toda uma casa, e de pequena faisca se faz grande incêndio.

- Co: Eu não me determino logo tão asinha como isso a condenar, o que não acabo de entender. E sempre tive para mim que as coisas se haviam de julgar com deliberação. Que como diz Bias o filósofo, segundo refere Laercio, nenhuma coisa é mais contrária a deliberar que a ira e a pressa. E não vos pareça que repreendo a diligência nas obras, antes tenho para mim que não há coisa que ela não vença. Porque assim como a negligência é mãe de todas elas. Ela é uma mina de bens, e a negligência um pego sem fundo, em que todos se alagam. Mas a diligência há-de ser pesada, e levando nos pés as esporas da ligeireza e velocidade, há-de levar na mão as rédeas da razão e do conselho: de maneira que na deliberação há de ver tardança, e na execução da boa obra pressa. Donde veio aquele tão antigo como famoso proverbio: Apressa-te devagar. O que também quis significar o Imperador Tito Vespasiano, filho do grande Vespasiano, quando mandou pôr por divisa nas suas medalhas um golfinho velocíssimo, enrodilhado numa âncora vagarosa.

- Fi: É verdade que pela âncora se entende a tardança, e pelo golfinho a pressa: porque Aristóteles afirma que é ele ligeiríssimo. E opinam no seu segundo livro da natureza dos peixes diz, que nadam os golfinhos tanto pela água, como voam as aves pelo ar. E Plínio no seu nono livro da história natural diz, que são os mais ligeiros de todos os animais, assim aquatiles [aquáticos], como terrestres, como volátiles [voadores]. E não somente Tito Vespertino, mas Octaviano Augusto se soía muito deleitar com esse provérbio, como conta Aulo Gelio no décimo das suas noites Aticas, e Macróbio no sexto dos Saturnaes. Mas isso se entende, quando se representam algumas dúvidas, que fazem distrair o ânimo em diversos pareceres. Entram há dever deliberação vagarosa, e maduro conselho, o qual há-de ser secreto: e por isso edificaram os antigos romanos o templo de Conso, a quem eles chamavam deus dos conselhos, debaixo da terra. E após o conselho se há de seguir a execução com tanta diligência, que pareça que o efeito precedeu à deliberação, de maneira que primeiro pareça feito, que cuidado. Mas quando as coisas são tão manifestas, que nelas não há que deliberar, de que serve gastar o tempo em conselhos: e ocupar o juízo em escolher quantas coisas a vária fantasia lhe representa, e o pensamento em fazer dificuldades, onde as não há? Quando os erros são tão claros, como é este do padre, para que é senão condená-los logo sem mais?

- Co: Eu, todavia suspendo o entendimento, até ver como vós padre provais, que nem vós, nem homem algum está, nem tem anos de idade. Folgaria muito em saber como pode isso ser.

- Fi: Isso, disse o filósofo, não sabereis vos nunca.

- Co: Porquê?

- Fi: Porque o que nem é não se pode saber.

- Er: Eu vos provarei o que digo, se vós não tiverdes os ouvidos entupidos e opilados.

- Fi: Antes creio eu que no-los entupireis vós com palavras, e enfim não a dareis a vossa empresa.

- Co: Coisa é esta que eu em estremo folgaria de ouvir. E para isto assente-mo-nos.

- Fi: Assente-mo-nos, que eu estarei aqui encostado a esta verde e sombria árvore, e ouvi se vos bem parecer.

- Co: Vós padre podeis dizer o que quiserdes, sem nos pedirdes as vontades, em especial a minha, que não discrepará da vossa.

(a continuar)

12/08/14

EXORCISMOS CONTRA PERIÓDICOS E OUTROS MALEFÍCIOS (I)

Pe. José Agostinho de Macedo

EXORCISMOS;
CONTRA
PERIÓDICOS
E
OUTROS MALEFÍCIOS

"Fugite Partes Advereae."

(Pe. José Agostinho de Macedo)

LISBOA
1821

(Com Licença da Comissão de Censura)


EXORCISMOS

Costuma-se chamar flagelo, ou praga tudo aquilo que consigo traz calamidades para os povos, para os indivíduos, para os campos, paras as sementeiras; ninguém ignora o dano que o pulgão causa às vinhas do alto, e do baixo Douro, e de toda a parte: não só se empregam homens, e mulheres na extinção da lagarta, mas a piedade de muitos povos deste Reino recorre a um poder sobrenatural, e espiritual, que é o raio da excomunhão, pedindo aos seus respectivos Curas que de sobrepeliz lisa, hisope, e caldeirinha, acompanhados de seus competentes sacristães (e bastava só a presença, e a vista deste) vão excomungar o pulgão, intimando-lhe que se retire, e que se quer comer, que deixe as parras, e vá para as charnecas ao tojo, e à carqueja "Fugite partes adversae". Contra as trovoadas também há exorcismos contra o flagelo da peste, há exorcismos contra as coisas más que aparecem, e infestam, e inquietam as casas. Serve-se a Divina Justiça destes açoites para punir os crimes dos homens. Assim o vemos praticado contra os egípcios, mandando-lhes o Senhor  o flagelo dos gafanhotos, que lhes codeassem as searas todas, e o das moscas que pela sua infinita multidão importunassem, picassem, inquietassem homens, e animais brutos. Esta justiça vingadora proporciona as pragas aos tempos, aos sujeitos, aos costumes, aos caracteres, e até à isoles dos séculos; e ao século da política, que outra praga se devia adoptar que não fosse a dos periódicos políticos? Sim, saiu dos arsenais da ira celeste esta praga sem fim, sem modo, sem jeito, e sem juízo, para atormentar os homens desde as margens do Oby, e Roristhenes, até à grande levada da rua de S. Bento, que precisa de um cano para a gente e não afogar. Os portugueses, gente tão fiel, tão pacífica, e tão devota, não escapou também da maçada. Como é certo que o Senhor até nos seus mesmos Anjos encontra iniquidades, e manchas nas suas estrelas!! Fosse qual fosse o crime dos portugueses, o castigo é visível. Eu não me posso persuadir que fosse a ideia do nosso melhoramento, porque na efeméride o remédio é de justiça, e o crime não está em o aplicar, está em o desprezar. Quem duvida de nossas enfermidades, e mazelas políticas? Quem não via a fazenda mal administrada, e a justiça mal distribuída? Não, não é, nem pode ser esta a causa da praga periodical: aqui anda carta encoberta, alguma tínhamos nós feito, ou estamos para fazer. Portugal está coberto, alastrado, entulhado de periódicos, como o Egipto, e mais que o Egipto de rãs, de gafanhotos, de moscas, de diabos. Apareceu um astro maligno, ou de maligna influência, que multiplicou as chuvas, as cheias, as inundações, as tempestades, os soltos vendavais dos periódicos, dos flagelos, das pragas que nos apoquentam; não há forças humanas que se oponham, e contrastem os lastimosos estragos desta febre amarela; não há cordão que lhe vede a passagem, não precisas forças sobrenaturais, exorcismos com eles "Fugite partes adversae". Eu não sou Cura, mas às vezes arvora um soldado em Ans-

...

pessada tal, e qual eu vou excomungar este pulgão devastador, seja a pena o hisope, o tinteiro a caldeirinha, a razão, e o amor da Ordem o Exorcismo "Fugite partes adversae". Conta-se nas crónicas, em que tudo se conta, que os padres da Companhia [de Jesus], excomungaram no Brasil as formigas que lhe davam cabo de suas rosas, e plantações; e os Franciscanos, não sei onde, os ratos que lhe iam, ou aos melões da cerca, ou aos motrecos do toucinho, que conservam na despensa (daqui a pouco não terão esse trabalho, porque os periodiqueiros não querem nem Franciscanos, nem ratos, nem toucinho, nem despensa, querem eles só comer tudo). As formigas, e os ratos desaparecerão por virtude do exorcismo, e diminuirá a praga dos periódicos? Terão ao menos os tristes censores um bocado de tempo para comer, e para dormir? Não sei: mas a razão deve exorcizar este flagelo, e pôr um dique a esta cheia real "Fugite partes adversae".

Com efeito é triste a condição das coisas humanas! Não há um bem puro sem a mistura de algum mal! Não há direito sem avesso! A nobre obra da intentada regeneração veio unida à praga dos periódicos. Já ninguém se entende. A multidão dos faladores fez parar a majestosa obra da Torre de Babilónia: onde todos falam, ninguém se entende. A confusão das línguas deitou aquela grande fábrica a perder, um oficial pedia tijolo, o servente levava cal; o falatório era de alto a baixo, e como ninguém se entendia, todos desampararam o edifício até que se abateu de todo, e aparecem alguns pedaços dispersos, que ainda o ano passado disse a Gazeta parda de Lisboa, que de lá trouxera um tijolo um viajante antiquário inglês. Calem-se diabos "Fugite partes adversae". Olhem que se malogra a obra da prometida ventura aos aportuguese. Mas quem são os periodiqueiros! É preciso conhecer o género, ou a casta de diabos para se lhes fazer o competente exorcismo. No Evangelho se fala de um género de demónios, que não se iam embora senão com o jejum; e eu creio que o jejum, ou a barriga vazia é quem acarretou sobre as nossas cabeças a nuvem periodiqueira. A fome, e só a fome. "Fugite partes adeversae".

Tinha eu observado com mágoa do meu coração, pesquisando o mundo miúdo, onde há muito que estudar, que muitos indivíduos desamparavam, e abandonavam seus ofícios embandeirados com acesso à Casa dos Vinte e Quatro, e de cuja massa se tirava o muito honrado, e o seu competente escrivão, com estrada aberta para as mais pingues capatásias, e se davam a empregos bem alheios da sua honrada instituição: por exemplo, abraçavam a profissão de Malsins, cujo corpo nem é, nem foi, nem deve ser inviolável; porque as merecem, e as levam a todo o instante, e ainda não ouvi no acto da tunda a cidadão nenhum honrado, outra palavra, que não fosse esta "É bem feito, nunca as mãos te doam". Outros se metem a homens da vara, que não poucas vezes são varejados. Outros dão em cómicos, vida folgazã, e divertida, ouvem assim é, o estrépito do bordão, mas é ao longe, eu ali os conheci na minha mocidade de todos os ofícios: sapateiros muitos, ou quase todos, livreiros, passamaneiros, cabeleireiros; e aqui parávamos até agora, e a quem lembraria, que no momento em que Portugal necessitava de mais luzes, mais ciência, mais conhecimentos, que coadjuvassem a mais árdua, e difícil empresa, os martelos, as enchóz, os formões, as sovelhas, as tripessas, as cadeiras, os bancos, os burís, as forjas, os foles tudo seria desamparado, e que os seus cultores se converteriam em periodiqueiros? parece que para a grande arte de escritor senão necessita de outra coisa mais que saber formar bem ou mal, tortos ou direitos os caracteres do alfabeto "Fugite partes advversae". Boileau dizia a um que se metia a poeta "Sê antes pedreiro" assim o leio na Arte Poética. Fugi diabos, ide para as vossas oficinas, tornai para a enchó, para os sarrafo. Se podes fazer bem uma cadeira, para que te metes a fazer tão mal um periódico? Quero ilustrar a nação: com desejo é esse, eu to louvo, eu o aprovo, tomara eu fazer outro tanto; mas cada qual no seu ofício, e neste pode ilustrar a sua nação; as artes fabris, que em nosso velho estilo chamávamos mecânicas, também ilustram a pátria. Tão pouco a ilustram os artistas italianos no macarrão fino, na letria, na estrelinha, e no salame? Que coisa de mais lustre que o verniz inglês? Olha para essas botijas de graxa corrosiva como faz durar umas botas pelo longo espaço de oito dias! Que lustre para aquela nação termos aqui pelo nosso dinheiro aquelas botijas com as marcas, e sinetes dos seus autores para se não adulterarem, e para se evitar o contrabando naquela importantíssima fazenda da primeira necessidade, e inevitável importação? Sê artista constitucional, faz cadeiras, lustra madeiras, pule, e repule metais, mas periodiqueiro! "Fugite partes adversae".

Ora, se é praga deixar o próprio ofício, para ser periodiqueiro, ainda é mais flagelo não ter ofício, para ser periodiqueiro, ainda é maior flagelo não ter oficio nenhum, senão o de periodiqueiro. Viva um ocioso pelos cantos dos botequins, desde que eles se abriram, até que se fechavam, deste pilhava a torrada, daquele o jantar, nunca se sabia onde morava, nem onde dormia; o calote o vestia, o calote o calçava; e de repente salta ao meio do mundo com um periódico "Fugite partes adversae". Que quer este diabo, com a folha diária, ou semanal? Ilustra a nação. Como? Copiando muito mal da aluvião dos periódicos castelhanos, (muitos são vem escritos) retalho aqui, fala acolá, reflexão além, mas tudo sem ordem, sem uma ideia dominante, sem um fim, e quando este devia ser fixar a opinião sobre um objecto único, grande, público, vantajoso à causa, não faz mais que desvairá-la de tal maneira, que ninguém se entende, nem sabe de que freguesia é. Se este fôra só o mal, era grande, mas não era muito funesto. O pior é abrir a porta às correspondências, ou reais, ou fantásticas, e transcrever quantos desaforos lhe enviam, ou fingem que lhe enviam. Que vantagens tem tirado a nação desta praga periodical desde o dia 24 de Agosto, em que se deu o primeiro, e premeditado passo para a regeneração politica deste Reino? Talvez que maiores males, do que bens. Seque-se a uma mal entendida liberdade de falar uma mais mal entendida liberdade, de pensar, e obrar. Anunciar-se, e prometer-se a liberdade civil em uma Constituição, que ou marque, ou restrinja os direitos do Soberano, e os do cidadão, não é arrojar, ou arremessar todo o jugo de obediência social de que resulta a harmonia, e a ordem do Estado, e desta a prosperidade pública, e particular, "Fugite partes adversae". Demónios, eu esconjuro, deixai Portugal, ide para as áreas gordas. Manda-se no exorcismo às trovoadas que vão cair para os matos incultos para as charnecas maninhas, para os areais desertos, que deiem os semeados, que não caiam onde façam dano ao gado, aos homens, aos edifícios; eis aqui o que eu vos mando, ó manada de copiadores "Fugite partes adversae".

A causa é uma só, há já, e sobeja só um periódico que a anuncie, com aqueles incidentes, ou acidentes que lhe são análogos, e que com ela tenham relação, ou analogia, ou que dela dependam, ou a ela se encaminhem, que faça conhecer a nação qual seja o seu estado actual, qual possa ser o se estado futuro; o que deva fazer, o que deva esperar, como deva sem ingerência respeitar o Governo; para isto basta meia folha de papel, e não seja muito cara, porque sendo os tributos necessários não só no Governo Monárquico representativo, mas até no mais extremo, e puro Republicanismo, sem que o Estado utilize, há 681 anos de existência política, ainda Portugal não sofreu um tributo mais pesado do que o preço da praga periodical "Fugite partes adversae". Todos a dizerem o mesmo, e todos a dizerem nada. É preciso ilustrar a nação, isto é, levar as luzes liberais a todas as classes, todos são iguais diante da lei, todos devem conhecer os seus deveres, é preciso que o Povo conheça o que se faz, para aprovar o que se faz. Convelho, e ninguém está mais convencido desta necessidade do que eu, nas actuais circunstâncias, porém os meios são os periódicos? Basta qualquer diabo, que deixando a ferramenta, ou a ociosidade do botequim, e o calcadouro do Rossio, pegue na pena, e escreva um periódico, dando-lhe um título extravagante, e ridículo, Mnemosine, Astro, Amigo, Sentinella Liberal, Constitucional, Indagador, e o último diz o mesmo que diz o primeiro; e todos com uma linguagem avessa; e há tal mestre de grego, ou hebraico, que nele fala, e não em português, porque não escreve quatro linhas, que não falte às regras mais gerais da sintaxe portuguesa, ou que não diga uma parvoíce em política; e todos eles não dão a conhecer, com o pretexto de ilustrar a nação, mais do que o estímulo da fome, que lhes devora o bandulho. Eu não gosto de lhes ouvir chamar patifes, desenvergonhados, hipócritas; nada disso eles têm, fome, e nada mais que fome. Eu os tenho observado em todas as nossas vissitudes, que não são poucas, nem pêcas, são verdadeiros camaleões, tomam a tintura do ar em que respiram: nove meses os vi franceses da gema, nunca falavam de Napoleão que não viesse o trambolhão "o Grande" clamando, que devia ser coroado pela Academia o discurso, que fez no Alentejo um Juiz de fora louco a favor da teologia francesa: pois este mesmo periodiqueiro apenas aí apontaram os ingleses, parecia um cidadão de Londres; compôs logo para o Teatro nacional dois Elogios dramáticos, o primeiro com este título "Dos Triunfos Bretões se apraz Diana" bonito!! nele eram os ingleses opostos nos céus, e os franceses nos infernos: o segundo com este "o Nome" coisa tão escandalosa em louvores de ingleses, que nem o mesmo elogiado o quis ouvir. Como isto são factos públicos, eu os repito para fazer conhecer a igualdade de carater dos periodiqueiros, a fome, e só a fome. Pois os governadores passados! Isso na boca dos periodiqueiros, não só eram águias, eram Sulys, eram Turenas, Monchs; Anjos, Arcanjos, Santos, Bem-aventurados, isto se ouvia no Teatro, nas trarjas das luminárias, nas praças, nos emblemas, nas estampas que de todos se abriram. Ora até o Coronel da polícia, que se chamava Canavarro, homem de dias, segundo me lembro, foi assim pintado por um periodiqueiro "Canavarro genti que Heitor pareces" Isto está impresso... "Fugite partes adversae". Este mesmo periodiqueiro dis no Nº ... do seu papel "Gemiamos debaixo do jugo do poder arbitrário". Alexandre da Rússia, Francisco d'Austria, Frederico da Prússia, jorge de Inglaterra, eram na boca, e nos impressos deste periodiqueiro homens descidos do céu, para fazerem a felicidade da Terra, e darem a liberdade aos povos: hoje no seu periódico não "Esses tiranos sacrilegamente aliados, vacilantes nos seus ímpios Tronos"... "Fugite partes adversae". E não aumentam estes periodiqueiros prodigiosamente o volume do dicionário das grimpas, que se publicou em França para notar, e dar a conhecer ao mundo estes e outros que tais? "Fugite partes adversae".

Quem não conhece o peso desta praga devastadora, e exorcismada, quando pela manhã logo, e muitas vezes ainda não é o Sol nado, abre a sua janela, ou se vê obrigado a ir á rua cuidar na sua vida? Uma nuvem de rapazes, ministros executores da prega, levanta as desconcertadas vozes, e grita ... (aqui soa o estalo do açougue da cólera celeste). Quem leva o Astro! Quem vem ao Liberal! Quem quer o suplemento a dez réis! Quem se tenta com o Constitucional! Quem me acaba meia dúzia de Menemosines! Quem leva o resto do Amigo! Quem quer a peso o Artista! Quem compra o Indagador! isto em todos os becos, em todas as alfurjas, às portas de todas a tabernas! "Fugite partes adversae". Dissipai-vos tempestades, retirai-vos enxames de vespas, e zanganos, deixai em paz o mundo, dai um dia de respeito à miserável Lisboa.

As Côrtes, dizia um periodiqueiro, não devem ser formadas, nem do Clero, nem da Nobreza, nem do Povo, porque o Clero é um pelotão de Clérigos, a Nobreza é um pelotão de Fidalgos, e o Povo é um pelotão de homens fatigados e pobres "Fugite partes adversae". Vem cá praga, pois se os deputados não devem ser tirados, nem dos Clérigos, nem dos Nobres, nem do Povo, depois destas três classes que constituem a maça total da nação, que te resta, que te fica, onde os hás de ir buscar! "Fugite partes adversae". Há praga como esta? Há! que até o exorcismo não tem força para a afugentar!!

E que dizem estas pragas, estes priodiqueiros? Todos aflux o mesmo, que não haja "frades". Esta gente, que se não fossem os periódicos, andaria pelas portarias dos frades, não têm irmãos, não têm cunhados, não têm primos, não têm sobrinhos, não têm parentes? E não poderão ser tudo isto, eles dos frades, e os frades deles? Donde vieram, onde nasceram estes frades? São acaso os Lazaronis que vieram para a Trafaria fazer chapéus de palha com mortes às costas!? Não: são portugueses, aqui nascidos, filhos de portugueses, irmãos de outros portugueses pelo sangue, e pela pátria. Que fizeram!? Perderam o direito de cidadão!? Porque delitos!? Ah! Periodiqueiros!Quantos de vocês foram "frades"? Têm rendas. Pois que hão de comer, pedra! Deram-lhas, aumentaram-nas, eles com sua indústria, e trabalho: o homem observador, em vendo fazenda bem cultivada, charneca bem roteada, já não pergunta de quem é, é dos "Frades", porque não são tolos, sabem fazer valer o que tem, rendem-lhe, e contem se vendem os frutos, eles não semeiam se vendem os frutos, eles não semeiam arroz, não pescam bacalhau, não fabricam manteiga, não se vestem de folhas de figueira como Adão, e Eva; tudo isto compram com o dinheiro que fazem nos frutos que colhem da sua lavra; são verdadeiramente lavradores, e de tudo param direitos. Mas os Franciscanos, e Capuchinhos, que não têm real de seu? Isso é verdade, porque S. Francisco foi o maior político do Mundo, parece que desde logo se viu, que aquela ordem devia dar à luz um Cisneros, um Xisto V e um Ganganelli. Não lhe deu propriedade alguma, pegou numa sacola de pano de linho, e disse, "ide pedir de comer", e isto basta, substituem noventa mil homens, sem real na manga. Pedem, assim é, mas servem. Oh! se em um dia de chuva tempestuosa um periodiqueiro saísse do canto do botequim, e fosse por esses campos, e por essas aldeias, veria os verdadeiros coadjutores dos veneráveis párocos. Saem os tristes Capuchinhos de madrugada, um vai dizer Missa dali a uma légua, outro dali a duas, e ajudar o Cura de tal nas confissões, outro a assistir a um moribundo. Então como vão eles, a cavalo? No cavalo dos capuchos. Vão a pé como os cães, atascados em lama, alagados da chuva, e talvez voltem com a barriga vazia. Se esta praga de periodiqueiros famintos, malévolos, e ociosos não pôde ir tão longe, (porque estão ocupados na sublime tarefa de ilustrar a pátria espalhando luzes) vá ao menos de tarde até Enxabregas, veja na sacristão Presidente, como um Sargento de Brigadas a fazer o detalhe das patrulhas, um vai para Braço de Prata a um enterro, outro para Palma de cima, ou Palma debaixo, aí vão trinta homens com cara de fome, enlameados, e pingados por quatro mil réis, e uma torcida. Eis aqui a que os periodiqueiros chamam o peso da sociedade, os corpos de mão morta opulentíssimos. Ora pois venham acompanhar para casa os dois enterros; que acham para cear no refeitório? Linguados de cerca, que vem a ser umas ervas migadas como quem faz salada para perus; e se arde a santa, meio quartilho de vinho mais aguado, e desenxavido que um periódico. Que riquezas estas para o Estado, dizem os periodiqueiros! Esqueceu isto ao autor da Economia Política!! mas os Bentos! Os Bentos cultivaram o Minho, muito antes de haver Reino de Portugal, e contribuíram sempre para a prosperidade, e abundância daquela grande província, o que tem é seu, e a muitos mosteiros foi dado pelos reis suevos que antes ali dominaram. E os Bernardo? Esses são os Cressos, e os Lucullos da fradaria. Enganam-se, senhores periodiqueiros, filhos da fome, talvez que esses bernardos o tirem há muitos anos de si para o darem ao Estado; e a respeito desta respeitável Congregação, são mais as vozes, que as nozes. Chega ElRei D. Afonso Henriques ao alto de um outeiro: onde ainda está um padrão, e diz "se eu tomar Santarém aos mouros, darei a S. Bernardo todos esses matos, e brenhas que daqui se avistam até ao mar"; por então ainda aquilo era dos mouros, e do pão de meu compadre grande pedaço ao meu afilhado. Mas que pedaço! Matagais onde havia ursos: e que fizeram os frades? Os coutos de Alcobaça, o retalho mais fértil, e mais bem cultivado do Reino. Ora não merecerá isto um pão para estes homens comerem? Começou a Congregação a compor-se dos homens mais ilustres de Portugal, um irmão do primeiro Rei ali vestiu a Cuculla, assim continuou sempre, foi o asilo dos filhos segundos das famílias mais nobres, e não só são beneméritos da pátria pela cultura das terras, mas até pelas armas no lance da mais perigosa restauração. para a victoria de Aljubarrota, talvez contribuisse mais o D. Abade Geral de Alcobaça (lugar de que senão dedignou o Cardeal Rei) com a sua gente, que toda a ala dos namorados, que com sua Madresilva nas bandeiras, e o seu Men Rodrigues, fugiam como lebres. Isto foi um acaso. São beneméritos da pátria epal sua literatura? Literatura!! Sim senhores escomeados, e mostrem-me vossas mercês (e mostrem-me com verdade) um corpo de história mais completo, mais farto, mais trabalhado, que a Monarquia Lusitana! Isto não se fez nos cafés, onde vossas mercês morriam de fome, e agora impam de políticos. Ingratos contra os frades! Se querem aprender, e estudar, pegarão nos livros clássicos, e no frontespício acharão sempre um "Frei" antes do nome do autor. Fr. Heitor Pinto, Fr. Amador Arrais, Fr. João de Ceita, Fr. Luís de Sousa, Fr. Roque do Soveral, D. Basílio de Faria, Fr. João dos Santos; e frades sem Frei, acharão António Vieira, Baltazar Teles, etc. etc. etc.. Se não fossem os frades, e os clérigos, que coisa seria a literatura portuguesa? Periodicos não fizeram eles "Fugite partes adversae". Os frades portugueses foram assombrar o mundo cristão, e não cristã, com a sua literatura. Vocês franchinotes periodiqueiros que não sabem português, saberão as línguas orientais, hebraica, árabe, siríaca, grega, caldaica como Fr. Jerónimo d'Azambuja, e Fr. Francisco Foreiro? Saiu do botequim político Fr. João Soares, Bispo de Coimbra, e Fr. Gaspar do Cazal, Bispo de Leiria, e Diogo de Paiva de Andrade, irmão de Fr. Tomé de Jesus, criados pelos frades da Graça, para serem os árbitros no Concílio de Trento! Pois não comam estes homens nem uma assorda, tudo para o Estado, e venham três vintêns pela folha do papel, porque alguns mereciam ser açoitados "Fugite partes adversae". Deixem os frades, que os que têm de seu, cultivam as terras, e são lavradores com zelo, e com juizo, cultivaram ainda mais as letras, foram úteis ao Estado, reduziram as conquistas a cultura, alderam milhões de tapuias; e se quiserem considerar os frades em geral, verão prodigios de saber, verão em França cabeças de frades bentos, rapadas por fora, isso é verdade, mas muito cheias por dentro. Serão os periodiqueiros tão doutos como Fr. João Mabillon, ou Fr. Bernardo de Montfaucon? Serão como Fr. Paulo Sarpi, ou como Fr. Jacinto Gerdil, ou como Fr. Henrique Noris, ou como Fr. Honufrio Panvini? Todos estes frades foram um milagre de saber, e não teologia só. mas tudo o que se chama ciência humana, e com efeito o tal Fr. Henrique Noris compôs, desenterrando raríssimas medalhas, uma história, que se chama "Épocas Siro-Macedónicas"coisa tão original que fará sempre pasmar todos os séculos, se apesar da força destes exorcismos, não se fizerem todos os séculos periodiqueiros "Fugite partes adversae".

(continuação, II parte)

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