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17/04/17

COMUNICADO ASCENDENS - "Imitação de Cristo"

Ao longo destes anos, o blog ASCENDENS fez promoção a alguns clássicos da Espiritualidade, sendo um deles a Imitação de Cristo (Tomás de Kempis) - transcrevemos e publicámos esta obra no blog. Chega-nos a informação que, depois de acabada toda a nossa publicação, o Senhor Pe. Basílio Méramo tem publicado sermões nos quais critica esta obra de "voluntarista", e que ninguém antes dele se deu conta dos erros dela. Cabe-nos então fazer um esclarecimento.

1 - O blog ASCENDENS não é órgão oficioso duma pastoral determinada, ou causa, é sim um instrumento secundário. Não raras vezes, no blog é publicado o "rodapé" ou textos de apoio de uma dinâmica privada, para que tal sirva de proveito a todos.
 
2 - A transcrição da obra Imitação de Cristo foi gentilmente executada por um colaborador, a quem o autor do blog ajudou a fugir das garras do modernismo, e liberalismo, para defesa e aceitação total do Catolicismo na sua versão tradicional, tal como ao Pensamento Católico etc..
 
3 - A recomendação dada a respeito da Imitação de Cristo como livro de iniciação levou sempre duas indicações: de ser livro introdutório a ser ajustado pelos conteúdos do Preparação Para a Morte (Sto. Afonso de Ligório), pois o livro era um pouco "sentimentalista" e feito para a vida "solitária" dos conventos. Esta recomendação foi feita também para outros casos (pessoas), não aconteceu apenas com uma, ou por acaso, ou ficou a obra recomendada sozinha.

4 - Foi anunciado no blog ASCENDENS uma boa edição da obra abundante em notas explicativas.
 
5 - A Imitação de Cristo é um livro recomendado por santos, e que fez parte da leitura de santos.
 
Não seria demasiado perguntar ao Senhor Pe. Basílio Méramo, para fins didáticos, exemplo de vida, e ilustração: em que medida a leitura da Imitação de Cristo atrasou o seu percurso de santificação?
 
Fica assim esclarecida a nossa posição, e que antes daquela opinião a respeito de alguns pontos "sentimentalistas" da obra, nunca o responsável deste blog ouvira de outro tal opinião,  e nem por isso deu a obra por inútil ou sem brilho necessário. Para OS DIAS DE HOJE, principalmente, nunca recomendaríamos esta como obra única ou principal.

07/09/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (CIII)

(continuação da CII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. XVIII
Não Se Deve Aprofundar Acerca do Mistério da Eucaristia, mas Sujeitar à Fé os Sentimentos e a razão

1. Cristo – Guarda-te do desejo curioso e inútil de sondar este profundíssimo mistério, se não queres submergir-te num abismo de dúvidas. Aquele que quiser sondar a majestade do Altíssimo será oprimido de sua glória.
Deus pode obrar mais do que o homem pode compreender. Porém, não se proíbe o devoto e humilde desejo de alcançar a verdade, àqueles que sempre estão prontos a ser instruídos e a seguir a doutrina dos santos padres.
2. Bem-aventurada a singeleza que deixa a vereda das questões difíceis para caminhar na estrada larga e segura dos mandamentos de Deus.
Se tu não compreendes o que está debaixo de ti, como compreenderás o que está acima da esfera de teu alcance?
3. Alguns padecem graves tentações sobre a fé neste sacramento; porém, isto não se deve amputar a eles, mas ao seu inimigo. Não te perturbes nem disputes com os teus pensamentos; não respondas às objecções que o demónio te sugere; mas crê firmemente na palavra de Deus, nos oráculos dos profetas e na autoridade dos santos e, assim, fugirá de ti o malvado inimigo.
É muitas vezes útil ao servo de Deus ser tentado desta sorte. O demónio não tenta assim os infiéis e os pecadores, porque já os possui com segurança; mas tenta e vexa de mil modos os que são fiéis a Deus e que O servem com devoção.
4. Não te detenhas, pois, nestas coisas, mas chega à santa mesa com uma fé firme e simples e uma piedade cheia de respeito.
Comete a Deus tudo o que não compreendes neste mistério e descansa no seio grandioso de Deus, que tudo pode.
Deus não engana a quem Nele confia, mas o homem engana-se a si mesmo, se confia em si.
Deus anda com os simples, manifesta-se aos humildes, dá inteligência aos pequenos, descobre o sentido às almas puras e oculta a Sua graça aos curiosos e soberanos.
A razão humana é fraca e pode emanar-se, mas não a fé verdadeira.
5. A razão e a luz natural devem seguir a fé, e não precedê-la nem diminui-la.
A fé e o amor mostrarão neste mistério a sua excelência e, para isso, agem de modo oculto e inefável.
Deus eterno, cujo poder não tem limites, opera maravilhas incompreensíveis no Céu e na Terra; e a grandeza das suas obras é impenetrável ao espírito do Homem. Se o Homem pudesse facilmente compreendê-las, pela luz da sua razão, elas não poderiam dizer-se maravilhosas inefáveis.

FIM DA OBRA

06/09/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (CII)

(continuação da CI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. XVII
O Grande e Ardente Desejo de Receber Jesus Cristo

1. Alma – Senhor, eu desejo receber-Vos com suma devoção, com amor ardente e com todo o afecto do meu coração, assim como desejaram receber-Vos muitos santos e almas puras, que se tornaram agradáveis aos Vossos olhos, pela santidade de suas vidas e pelo apego à sua devoção.
Ó meu Deus, amor eterno, que sois o meu bem e a minha soberana felicidade, eu desejo receber-Vos com o afecto mais ardente e com o respeito mais profundo, qual jamais teve nem pôde sentir nenhum dos Vosso santos.

2. Ainda que eu seja indigno de ter aqueles admiráveis sentimentos de amor, ofereço-Vos todo o afecto do meu coração, como se em mim se concentrassem todas aqueles inflamados desejos.
E quanto pode conceber a alma piedosa, tudo Vos apresento e ofereço, com entramanhado amor. Nada desejo reservar para mim senão oferecer-me em sacrifício, com tudo o que possuo, voluntariamente, e vibrando no maior afecto.
Senhor Deus, meu criador e Redentor, desejo receber-Vos e hoje com tanta dedicação, reverência, honra e louvor; com tanto agradecimento, dignidade e amor; com tanta fé, esperança e pureza - como Vos desejou e recebeu Vossa Mãe Santíssima, a gloriosa Virgem Maria, quando, anunciando-lhe o anjo o mistério da encarnação, respondeu, humilde e devotamente: "Eis aqui a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra."

3. E como o bem-aventurado São João Baptista, Vosso precursor e o maior dos santos, quando ainda estava encerrado no ventre materno, deu saltos de alegria em Vossa presença, com o gozo do Espírito Santo; e, depois, vendo-Vos, meu Jesus, conversar com os homens, exclamou, devota e humildemente: "O amigo do Esposo, que está em sua presença e o ouve, regozija-se ao ouvir a voz do Esposo", assim desejo eu estar inflamado de grandes e santos desejos e oferecer-me a Vós com todo o afecto do meu coração.
Por isso Vos ofereço e dedico todos os meus transportes de amor e alegria, os êxtases, os raptos, as revelações, as visões celestiais de todas as almas santas, com os acatamentos e tributos que Vos rendem eternamente todas as criaturas no Céu e na Terra; eu Vo-los ofereço, assim, como as suas virtudes e merecimentos, por mim e por todos os que se recomendaram às minhas orações, para que sejais por todos dignamente louvado e para sempre glorificado.

4. Recebei, Deus e Senhor meu, os meus votos e desejos que me animam de Vos louvar, de Vos bendizer, com amor imenso, infinito, devido à Vossa inefável grandeza.
Eis o que Vos ofereço agora e desejo oferecer-Vos em cada dia e cada momento; e convido e rogo a todos os espíritos celestiais e a todos fiéis servos, para que, unidos a mim, Vos louvem e dêem dignas acções de graças.

5. Louvem-Vos todos os povos, todas as tribos e línguas, e engrandeçam o Vosso santo e dulcíssimo nome com o sumo regozijo e inflamada devoção.
Mereçam achar a Vossa graça e misericórdia todos os que, com reverência e devoção, celebram o Vosso altíssimo sacramento e, com inteira fé, o recebem; e roguem a Deus humildemente, por mim, pecador.
E quando, depois de se terem unido a Vós, segundo os seus piedosos desejos, se retirarem da mesa celestial, saciados e maravilhosamente consolados, tenham por bem lembrar-se deste pobre desvalido.

03/09/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (C)

(continuação da XCIX parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. XIV
O Desejo de Receber o Corpo de Jesus Cristo Arrebata As Almas Santas

1. Alma – Senhor, quanto é grande e inefável a doçura que haveria reservado para os que Vos temem! Quando me lembro de algumas almas devotas, que se chegam ao Vosso sacramento com tão fervoroso afecto, envergonho-me de mim mesmo e invade-me a confusão se considero a tibieza fria e frouxa com que me aproximo do Vosso altar e da mesa sagrada da comunhão. Envergonho-me de chegar tão seco e tão pouco movido de afecto. Envergonho-me de não sentir abrasado na presença de Deus e de não experimentar aquela amorosa atracção que experimentam tantas almas santas que, transportadas pelo desejo de comunhão e do amor sensível que arde no seu peito, não podem reprimir as lágrimas; e que, alteradas deste modo, o ardor da sua sede lhes faz abrir a boca do seu coração e do seu corpo, para Vos receber como fonte de águas vivas; pois que de outra sorte não podem aplacar a fome que as oprime, senão recebendo o Vosso corpo sagrado com toda a ânsia e alegria espiritual.
2. Ó fé verdadeiramente fervorosa! Como ela é uma prova sensível de que estais, Jesus, realmente presente neste santo sacramento! Estas almas reconhecem, na verdade, o Senhor, ao partir do pão, como os dois discípulos cujo coração estava todo abrasado quando o Mestre caminhava com eles.
Quão longe está muitas vezes de mim tão terna afeição, tão delicado amor! Sede-me propício, ó bom Jesus, benigno e misericordioso! Compadecei-Vos deste pobre mendigo e permiti que experimente, ao menos alguma vez, na comunhão um raio de fogo do Vosso amor, para que a minha fé se fortaleça, cresça a esperança em Vossa bondade e, fazendo-me conhecer as delícias desta maná celeste, jamais se extinga a minha caridade.
3. A Vossa misericórdia, Senhor, é assaz poderosa para me conceder esta graça, para encher-me do espírito do fervor e visitar-me, cheio de clemência, no dia que entenderdes dever fazê-lo. E ainda que eu não sinta os ardentes transportes dessas almas que são verdadeiramente Vossas, fazei-me, contudo, a graça de ser possuído destes desejos.
Por este motivo Vos peço me façais participadamente do merecimento das almas que tão fervorosamente Vos amam, unindo-me à sua sociedade santa.

01/09/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XCIX)

(continuação da XCVIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. XIII
Como a Alma Devota Deve Desejar-se Unir-se a Cristo no Sacramento

1. Alma – Quem me dera, Senhor, achar-me só Convosco, para Vos abrir todo o meu coração e gozar da Vossa divina majestade, de sorte que ninguém ponha em mim os olhos, nem se preocupe comigo, mas Vós somente me falásseis, e eu a Vós, como costuma conversar com o amigo com seu amigo! Isto peço, isto desejo: unir-me inteiramente a Vós, desprender meu coração de todas as coisas criadas e, pela sagrada comunhão, ou frequente celebração dos divinos mistérios, aprender a gostar mais das coisas divinas e eternas.
Ah! Senhor Deus, quando estarei tão unido a Vós, tão absorto, que me esqueça completamente de mim? Vós em mim e eu em Vós; concedei que assim permaneçamos eternamente.

2. Vós sois, na realidade, o amigo extremoso, escolhido entre milhares, no qual a minha alma se compraz de habitar todos os dias da sua vida.
Verdadeiramente, Vós sois o meu rei pacífico; em Vós está a paz e o repouso, não havendo fora de Vós senão trabalho, dor e infinita miséria.
Vós sois, verdadeiramente, um Deus oculto e não tendes comunicação com os ímpios, mas sim com os simples e humildes. Como é grande, Senhor, a Vossa bondade, que, para mostrar seu afecto por Vossos filhos, se digna nutri-los com um pão suavíssimo, que desce do Céu! Na verdade, nenhuma nação existiu que tivesse deuses tão próximos dela, como nós, que Vos temos, chegado a todos os Vossos fiéis, aos quais todos os dias Vos dais, como alimento, e confortais com a Vossa presença constante, a fim de que, contentes, elevem as mãos para os Céus.

3. Que povo haverá mais nobre do que o povo cristão? Que criatura existe debaixo do Céu, tão amada, como a alma fiel, a quem Deus se comunica para nutri-la da sua gloriosa carne? Ó graças inefável! Ó admirável bondade! Ó amor infinito, singularmente reservado para o homem! E que darei eu ao Senhor por esta graça, por esta imensa caridade? Não posso oferecer coisa mais grata do que o meu coração inteiro, para que seja unido com ele intimamente. Exultarei de alegria, quando a minha alma estiver perfeitamente unida a Deus. E dir-me-á Ele: "Se queres ficar comigo, também ficarei contigo." E responderei eu: "Dignais-Vos, Senhor, permanecer comigo, pois ardentemente desejo ficar Convosco; outro desejo não tenho, senão unir meu coração ao Vosso."

26/08/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XCVIII)

(continuação da XCVII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. XII
Quem Houver de Comungar o Corpo de Jesus Cristo, Deve Preparar-se com Grande Diligência

1. Cristo – Eu sou amigo da pureza, e a origem de toda a santidade. Busco o coração puro e ali é o lugar do meu descanso.
Preparar-me uma sala grande e adornada e celebrarei em tua casa a Páscoa com os meus discípulos.
Se queres que venha a ti e fique contigo, lança fora o velho fermento e limpa a morada do teu coração.
Desterra de tudo o que é do século e o tumulto dos vícios. Assenta-te como o pássaro solitário no telhado e recorda as desordens da tua vida na amargura do teu coração.
O amigo prepara sempre para o amigo o melhor aposento, e assim é que dá a conhecer com que afecto o recebe.

2. Sabe, porém, que não podes, por mais esforços que faças, preparar-te dignamente, ainda que para isso empregasses um ano inteiro sem te ocupar de outras coisas.
No entanto, por minha graça e minha bondade, é-te permitido sentar à minha mesa, como se um rico convidasse e fizesse comer com ele a um pobre mendigo que não tivesse outra coisa a pagar senão humildade e agradecimento.
Faz o que está da tua parte e fá-lo com muita diligência. Recebe, não por preencher um costume, ou cumprir um dever rigoroso, mas com reverência, temor e amor, o corpo do teu amado Deus e Senhor, que se digna vir a ti. Eu sou quem te chama à minha mesa, quem te manda que venhas. Vem e recebe-me; eu suprirei o que te falta.

3. Quando eu te inspiro movimentos de devoção, dá graças a Deus, não porque sejas digno desse dom, mas porque tive misericórdia de ti.
Se não sentires devoção e te achares apático, preserva na oração, suplica, clama e não descanses, até que me mereças receber uma migalha da minha mesa, ou uma gota de águas saudáveis da graça.
Tu precisas de mim e eu não preciso de ti. Não és tu que vens santificar-me, a mim; sou eu que venha a ti fazer-te melhor e santificar-te.
Tu vens para que eu te santifique, para te unires a mim, para receberes uma graça nova e te abrasares no ardente desejo de adiantar na virtude. Não desprezes, pois, esta graça, mas prepara com toda a diligência o teu coração e recebe em teu seio aquele a quem amas.

4. Mas não basta apenas excitar a devoção antes de comungar; deves cuidado de a conservar, depois da comunhão. Nem é menos necessário, depois, o recolhimento e a vigilância, como o é, antes, a devota preparação; porque o cuidado que depois se tem é a melhor disposição para receber novamente maior graça. ao contrário, indispõe-se para ela o que logo se entrega com excesso às seduções do mundo exterior.
Guarda-te de falar muito, recolhe-te a algum lugar retirado e goza a companhia do teu Deus.
Tu possuis Aquele que o mundo inteiro não pode roubar-te. Sou eu a quem te deves entregar sem reservas, de sorte que, desembaraçado de todos os cuidados, não vivas mais em ti, mas em mim.

21/08/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XCVI)

(continuação da XCV parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. X
Não se Deve Deixar a Sagrada Comunhão Sem Causa Legítima

1. Cristo – Deves recorrer muitas vezes a mim, que sou a fonte da graça e da misericórdia, a origem da bondade e da pureza das almas, para que possas curar-te de todas as paixões e vícios e venhas a ser mais forte contra as tentações e artifícios do demónio.
O inimigo, sabendo o grande fruto que se tira da santa comunhão e que ela é grandíssimo remédio contra as enfermidades interiores, emprega todas as forças para apartar dela todas as almas fiéis e devotas.

2. Eis porque alguns padecem maiores tentações do demónio, quando se dispõem a receber a sagrada comunhão. Esse espírito de malícia, segundo Job, acha-se entre os filhos de Deus, para os perturbar por sua ordinária malignidade, fazendo-os excessivamente tímidos, ou escrupulosos, para assim esfriar a sua piedade, tirar-lhes o sentimento da fé, a fim de que deixem totalmente a comunhão, ou cheguem a ela com tibieza. Mas o remédio para este mal é não estar atento a tais artifícios e fantasias que o inimigo representa, por mais ignominiosas e horríveis que sejam. Pelo contrário, todas essas abominações devem ser rechaçadas e devolvidas ao inimigo.
É necessário desprezar esse espírito infeliz e escarnecer dele e, ainda que ele excite na alma argumentos e imagens perturbadores, não se deve, sob nenhum pretexto, deixar a sagrada comunhão.

3. Algumas vezes, também, nos apartamos da comunhão, pelo demasiado desejo de uma maior fervor, ou por certa inquietação ou dúvida que nos ficou da confissão. Segue, em tais casos, o conselho dos sábios; desterra de ti as inquietações e os vãos escrúpulos, porque tudo isto é um obstáculo à graça e destrói a sólida piedade da alma. Não deixes de comungar por motivo de qualquer atribulação. Vai logo confessar-te, se estás em pecado; perdoa aos outros as ofensas que deles porventura tiveres recebido. Se ofendeste a alguém, pede-lhe humildemente perdão; e Deus te perdoará os teus defeitos.

4. De que aproveita dilatar por muito tempo a confissão e proceder do mesmo modo quando à comunhão? Purifica, urgentemente, a tua alma; vomita, a toda a pressa, o veneno da culpa; recebe o remédio saudável e achar-te-ás melhor do que se adiares indeterminadamente o seu uso. Se hoje deixares de comungar por uma razão, amanhã deixarás por outra talvez maior. Assim, irás, protelando e cada vez te acharás menos hábil para receber a sagrada eucaristia. Tira-te, o mais breve possível, dessa tibieza, porque de nada aproveita viver tanto tempo na ansiedade e na perturbação pelos obstáculos que todos os dias te serão opostos à participação deste divino sacramento.
É muito nocivo dilatar a comunhão por largo tempo, pois que esta demora ocasiona, de ordinário, na alma, grave frouxidão. Quão doloroso é considerar que existem pessoas tão tíbias, que raras vezes se confessam e vão adiando sempre as suas comunhões por não se verem obrigadas e viver com mais cuidado na guarda da sua alma!

5. Quão pouco é o amor e a devoção dessas pessoas, que tão facilmente se dispensam da santa comunhão! Pelo contrário, quão feliz e agradável a Deus é aquele que viver de tal modo, com tal pureza de consciência, que se acha disposto para comungar todos os dias, se lhe fora permitido, e o pudesse fazer sem nota de parecer afectado ou singular!
Aquele, porém, que algumas vezes, deixa de comungar, por humildade, ou por alguma causa legítima que o impede, é digno de louvor pelo respeito que consagra a este santo mistério. Mas se se sente cair, pouco a pouco, na tibieza, deve despertar a si mesmo e fazer o que, de sua parte, lhe compete; e o senhor o socorrerá no seu desejo, atendendo a sua boa bondade, que é o que ele especialmente considera.

6. Quando estiver legitimamente impedido de comungar, deve, ao menos fazê-lo em espírito, por um desejo interior e uma santa intenção, caso em que não deixará de receber o fruto deste sacramento.
Todo o homem que tem uma piedade, sincera, pode comungar espiritualmente, cada dia e cada hora, sem que nada ou alguém o embarace, colhendo todos os frutos do divino mistério. Deve, contudo, pelo menos em determinados dias e determinados tempos, receber sacramentalmente o corpo do seu Salvador, com um afecto cheio de respeito, e procurar, nesta acção tão santa, mais a glória de Deus, do que a própria consolação. A alma comunga misticamente, recebendo, de modo invisível, verdadeiro alimento, todas as vezes quantas medita, piedosamente, nos mistérios da encarnação e da paixão do Redentor, e se abrasa no seu amor.

7. Quem não se dispõe para comungar senão por ocasião de alguma festa, ou porque o costume o obriga, a maior parte das vezes não estará preparado. Feliz aquele que se oferece ao Senhor em holocausto todas as vezes que celebra ou comunga!
Não sejas muito demorado nem muito apressado na celebração da santa missa. Conforma-te com o uso ordinário e regular daqueles com quem vives.
Não deves ser molesto aos outros nem causar enfado, mas ir pelo caminho comum que seguiram teus maiores, atendendo mais ao aproveitamento alheio do que à tua inclinação ou devoção particular.

20/08/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XCV)

(continuação da XCIV parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. IX
Oferecendo a Deus o Santo Sacrifício, Devemos Orar por Nós e Por Todos

1. Alma – Senhor, tudo o que há, no Céu e na Terra, é Vosso. Desejo consagrar-me a Vós, por uma oblação voluntária, e ser perpetuamente Vosso. É pois, na simplicidade do meu coração, que eu me ofereço a Vós neste dia, para ser eternamente Vosso escravo, para Vos servir e para me imolar à Vossa glória.
Recebei este sacrifício, que Vos faço de mim, junto com o do Vosso precioso corpo, que Vos ofereço, hoje, na presença dos anjos, que a ele assistem, invisivelmente, a fim de que seja para a salvação minha e de todo o povo.
 
2. Senhor, eu Vos apresento, sobre o altar da Vossa misericórdia, todos os pecados e delitos que cometi diante de Vós, desde o dia do meu primeiro pecado, até esta hora, para que os queimeis e consumais a todos com o fogo da Vossa caridade.
Apagai todas as minhas manchas e purificai a minha consciência de todo o pecado. Restituí-me a graça que perdi, ofendendo-Vos, perdoai-me inteiramente os meus defeitos, acolhei-me sob as asas da Vossa amizade e dai-me o ósculo da paz.
 
3. Que posso fazer, para expiar os meus pecados, senão confessa-los humildemente, chorando a minha miséria e implorando, de contínuo, a Vossa clemência? Rogo-Vos, meus Deus, que ouçais favoravelmente a este pecador prostrado na Vossa presença.
Eu tenho sumo desgosto de todos os meus pecados e estou na resolução da não mais cair neles para o futuro. Gemo e gemerei com dor toda a minha vida, pronto a fazer penitência dos meus crimes e a satisfazer por eles segundo as minhas forças.
Perdoai os meus pecados, para glória do Vosso nome, e salvai esta alma que resgatastes com o Vosso precioso sangue. Eu me entrego à Vossa misericórdia, e me resigno nas Vossas mãos; tratai-me segundo a Vossa bondade e não segundo a minha iniquidade.
 
4. Eu vos ofereço, também, todas as minhas boas obras, ainda que muito poucas e imperfeitas, para que as emendeis e santifiqueis, de sorte que Vos agradem e que sejam aceitas, fazendo-as Vós melhores do que são, a fim de que me leveis, apesar das minhas incapacidades e omissões, a um santo e feliz destino final.
 
5. Eu Vos ofereço, também, todos os santos desejos das almas piedosas, todas as necessidades dos meus parentes e amigos, irmãos e irmãs, de todos os que me fazem algum bem, ou aos Vossos servos, por amor de Vós.
Eu Vos ofereço ainda as necessidades daqueles que desejaram ou pediram que orasse ou dissesse missa por eles e pelos seus, ainda que estejam nesta ou na outra vida.
Peço-Vos, Senhor, que todas essas pessoas recebam, por este sacrifício, os auxílios da Vossa graça e experimentem os socorros da Vossa consolação, os efeitos do Vosso patrocínio, nos perigos, e os alívios que esperam receber nas suas aflições, a fim de que, livres de todos os males, possam render-Vos, alegremente, as graças recebidas.
 
6. Também Vos ofereço as minhas orações e os sacrifícios de propiciação, especialmente por aqueles que me têm ofendido, injuriado, agravado, danificado em alguma coisa; também por aqueles a quem causei, por minhas acções ou palavras, advertida ou inadvertidamente, alguma tristeza, alguma humilhação, alguma perturbação, algum desgosto ou algum escândalo, para que nos perdoeis os nossos pecados e as ofensas que temos feito uns aos outros.
Arrancai, Senhor, do fundo dos nossos corações, todas as nossas suspeitas, indignação, disputa ou cólera, para que possamos conviver, sem ofensas à caridade nem diminuição do amor fraternal.
Perdoai-me, meu Deus, aos que imploram a Vossa misericórdia; dai a Vossa graça aos que dele necessitam; fazei-nos de tal modo que, sendo dignos de gozar neste mundo dos Vossos dons, nos adiantemos no caminho da vida eterna.

14/08/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XCIV)

(continuação da XCIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. VIII
Jesus Cristo Oferece-se Todo Por Nós, Na Cruz; Nós nos Devemos oferecer a Ele, Sem Reserva de Coisa Alguma

1. Cristo – Assim como Eu Me ofereci, voluntariamente, a Deus Pai, pelos teus pecados, no altar da Cruz, tendo os braços estendidos e o corpo nu, de sorte que em Mim nada ficou que não servisse a este Sacrifício que devia reconciliar o Céu com a Terra, tu deves, também e do mesmo modo, oferecer-te voluntariamente, cada dia, no Sacrifício da Missa, constituindo-te em oferta pura e santa a Deus, com todas as forças e afectos do teu espírito.
Que desejo Eu de ti, com mais empenho, senão que te dês a Mim, sem reservas? De tudo o que Me deres, não faço caso, não estando tu na mesma dádiva. Eu procuro a ti e não os teus presentes.

2. Do mesmo modo que tu, possuindo tudo, nada possuis na realidade, não possuindo a Mim, assim também nada de quanto me deres ser-Me agradável, se juntamente não Me fizeres o sacrifício de ti mesmo.
Oferece-te e dá-te a Mim, todo inteiro, e a tua oblação Me será aceite. Considera que Eu Me Sacrifiquei, todo inteiro, a Deus, meu Pai, por amor de ti; que dei todo o meu corpo e todo o meu sangue para nutrir a tua alma, a fim de que, fazendo-Me todo teu, tu te fizesses também todo Meu.
Se permaneceres em ti mesmo e não te ofereces voluntariamente par tudo o que Eu quiser de ti, a tua oblação não é inteira e a união que houver entre nós será imperfeita.
Essa voluntária oferta de ti mesmo nas mãos de Deus deve preceder todas as tuas obras, se queres adquirir a verdadeira liberdade e o dom da minha Graça.
A razão pela qual há tão poucos que sejam verdadeiramente livres e esclarecidos, é porque não sabem renunciar inteiramente a si mesmos. Por esse motivo sempre será actual a palavra que pronunciei, dizendo: "Ninguém pode ser Meu discípulo sem renunciar a quanto possui."
Se queres portanto, ser, na realidade, Meu discípulo, oferece-te a Mim, com todos os teus afectos.

11/08/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XCIII)

(continuação da XCII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. VII
O Exame de Consciência e o Propósito de Emenda

1. Cristo – É necessário que no sacerdote de Deus, que deseja celebrar, consagrar ou receber este santo mistério, procure, primeiro que tudo, chegar a Ele com o coração sumamente humilde e como o mais profundo respeito, fé viva e uma intenção tal que não tenha outro fim senão a honra de Deus.
Examina a tua consciência com todo o cuidado; purifica-a, quanto possível, por uma verdadeira contrição e humilde confissão, sorte que não tenhas nem vejas nela coisa que te cause algum remorso ou te prive de chegar com liberdade a receber tão grande bem. Concebe um vivo arrependimento de todos os teus pecados em geral e dói-te, ainda mais, dos teus defeitos quotidianos. Se o tempo te permitir, confessa a Deus, no segredo do teu coração, todas as misérias a que te reduzem as tuas paixões.
 
2. Mostra, pelas tuas preces, a pena que tens de ser ainda tão carnal e mundano; tão pouco mortificado nas paixões; tão cheio de desejos desordenados; tão negligente na guarda dos sentidos; tão perseguido de perniciosas imaginações; tão inclinado às coisas sensíveis; tão pouco cuidadoso de entrar no interior de ti mesmo; tão fácil para o riso e a dissolução; tão duro para a compunção e as lágrimas; tão pronto para as lassidões e comodidades do corpo; tão vagaroso para o fervor e a austeridade; tão curioso para ouvir as novidades e contemplar coisas belas; tão indisposto para abraçar as coisas humildes e desprezíveis; tão ardente no desejo de possuir muito; tão moderado para o dar; tão avarento no reter; tão indiscreto no falar; tão inobservante do silêncio; tão pouco regulado nos costumes; tão pouco circunspecto nas acções; tão desordenado no comer; tão surdo às vozes de Deus; tão pronto para o descanso; tão preguiçoso para o trabalho; tão vigilante para ouvir anedotas e fábulas; tão sonolento para as sagradas vigílias; tão apressado para acabá-las e tão distraído para atendê-las; tão negligente nas rezas das horas diurnas; tão tíbio na celebração do santo sacrifício; tão seco na santa comunhão; tão fácil em distrair-se; tão difícil em recolher-se; tão ligeiro em irar-se; tão disposto a desprezar os outros; tão precipitado nos juízos; tão severo nas repreensões; tão alegre nas prosperidades; tão triste nos infortúnios; tão fecundo em resoluções, mas tão estéril em transformá-las em actos.
 
3. Depois de haver confessado e chorado estes e outros semelhantes defeitos, com grande dor e arrependimento, resolve, firmemente, emendar a tua vida e esforçar-se por ser cada vez melhor. Em seguida, entrega-te a mim. Com resignação completa e inteira vontade, oferece-te, para glória do meu nome, sobre o altar do teu coração, como um holocausto perpétuo, cometendo-me, fielmente, o seu cuidado do teu corpo e da tua alma, a fim de que possas chegar dignamente a Deus, ou para Lhe oferecer o sacrifício, ou para receber utilmente o sacramento do meu corpo.
 
4. Não há oferta mais digna, nem satisfação maior, para apagar os pecados, do que oferecer-se a Deus no sacrifício, ou para comunhão, com intenção pura e perfeita, ao mesmo tempo que o meu corpo e o meu sangue são oferecidos ao pecador arrependido.
Se o homem fizer o que lhe cumpre, da sua parte, e na verdade se arrepender, todas as vezes que se chegar deste modo a mim, pedindo a graça e o perdão, juro, por mim mesmo, que não quero a morte do pecador, mas que se converta e viva, pois não me lembrarei mais dos seus pecados, antes lhos perdoarei todos.

05/08/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XCII)

(continuação da XCI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. VI
Que se deve Fazer Antes da Comunhão 

1. Alma – Senhor, quando considero a Vossa grandeza e a minha vileza, tremo, e confundo-me todo.
Se não me chego a Vós, fujo da vida; se me chego indignamente, comento um grande crime.
Que farei, pois, ó meu Deus, que sois quem me protege das minhas necessidades?

2. Ensinai-me o caminho direito, que devo seguir; dai-me prática breve, que possa servir-me de regra para a santa comunhão.
Importai-me muito saber como deve preparar-se o meu coração para receber utilmente este santo mistério, ou para oferecer-Vos este grande e divino sacrifício, com a piedade e reverência que lhe são devidas.

24/07/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XC)

(continuação da LXXXIX parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. IV
São Concedidos Muitos Bens Aos que Comungam Devotamente

1. Alma – Senhor Meu Deus e meu Senhor, preveni o Vosso servo, com as bênçãos da Vossa doçura, para que possa chegar com devoção e dignamente ao Vosso grande sacramento. Excitai o meu coração a que Vos ame e livrai-me da tibieza em que vivo. Derramai em mim a Vossa graça saudável para que goste, em espírito, da doçura celeste, cuja abundância se encerra neste sacramento, como em sua fonte.
Alumiai também os meus olhos, para que contemplem tão grande mistério. Fortalecei-me para que eu o creia com uma fé firmíssima.
Este mistério é obra de um poder não humano, mas divino; não foi o pensamento do homem, mas a Vossa sabedoria que o instituiu. Não há homem capaz de compreender, por si mesmo, a excelência e grandeza deste mistério. É objecto que excede a própria luz e penetração dos anjos. Que posso conceber de um segredo tão sublime e sagrado, eu que sou um pecado indigno e um punhado de terra e cinza?

2. Senhor, meu Deus, eu chego a Vós, na simplicidade do meu coração, com uma fé firme e sincera. Chego, porque Vós me mandais que chegue com confiança e respeito; e creio verdadeiramente que estais presente, como Deus e como Homem, no Vosso divino sacramento. Vós quereis que Vos receba e que me una a Vós pelos laços da caridade. Imploro, pois, a Vossa bondade, e peço-Vos a graça especial de que a minha alma seja absorvida por Vós e se abisme de tal sorte no Vosso amor, que jamais cuide em procurar consolações senão em Vós.
Este sacramento tão sublime é a salvação da alma e do corpo e o remédio para todas as enfermidades espirituais: ele cura os nossos vícios; refreia as nossas paixões; vence ou enfraquece as tentações que nos combatem; infunde em nós maiores graças; faz crescer a virtude nascente; firma a fé; fortalece a esperança; activa e dilata o fogo da caridade.

3. Ó meu Deus, que sois o salvador da minha alma, o recuperador da fraqueza humana, o distribuidor de todas as consolações do espírito, Vós tendes dado, e dais ainda, muitas vezes, neste sacramento, muitas graças àqueles que Vos amam e Vos recebem dignamente. Estas graças, que neles infundis, servem-lhes de consolação nas diferentes atribulações em que se acham.
Vós tirais do fundo das suas amarguras para a esperança da Vossa protecção e, derramando, neles uma nova graça, os encheis de luz e alegria.
Assim, aqueles que, antes da comunhão, se achavam inquietos e aflitos, sem devoção e sem afecto, depois de nutridos por este alimento celeste tornam-se melhores e mais fervorosos. Vós que tratais assim os Vossos escolhidos por uma ordem admirável da Vossa sabedoria, para que reconheçam verdadeiramente, por sua própria experiência, quanta é a sua fraqueza e quais são as graças e as virtudes que não podem ter senão vindas de Vós.
Eles experimentam que, de si próprios, são frios, duros, indevotos, e que de Vós é que recebem o fervor, a piedade e a alegria.
E, com efeito, quem é aquele que, chegando, com humildade, à fonte das delícias celestes, não recebe dela, ao menos, uma pequena doçura? Quem é que, estando junto a um grande fogo, não recebe calor algum? Vós sois, ó meu Deus, esta fonte cheia e superabundante; sois este fogo, que sempre arte e nunca se extingue.

4. Se, pois, não me é concedido beber da abundância desta fonte, até saciar-me, ao menos permiti que chegue a minha boca à corrente dessa água divina, para que me refrigere e não morra de sede.
Se eu ainda não posso ser tão celestial como os querubins e os serafins, procurarei, contudo, animar-me por movimentos de piedade e preparar o meu coração para que, recebendo humildemente este sacramento de amor, sinta ao menos em mim algumas faíscas do divino incêndio.
Dignais-Vos, meu bom Jesus e Salvador Santíssimo, suprir pela vossa bondade infinita tudo o que me falta para receber-Vos condignamente. Vós Vos oferecestes para isto mesmo, quando chamastes todos os homens, dizendo-lhes: "Vinde a mim todos, os que trabalhais, e estais oprimidos, e eu vos consolarei."

5. Eu, na verdade, trabalho com o suor do meu rosto. Sinto penas que me atormentam o coração; pecados que me oprimem: tentações que me inquietam; paixões que me prendem nos seus laços; e não vejo quem, no estado em que me encontro, possa ajudar-me, ou livrar-me, ou salvar-me, senão Vós, meu Deus e Salvador. Eu me ponho, com tudo o que me pertence, entre as Vossas mãos, para que me guardeis nesta vida e me conduzais à eterna. Recebei-me favoravelmente, já que preparastes o Vosso corpo para alimento e o Vosso sangue como bebida da minha alma. Ó meu Salvador e meu Deus, fazei-me a graça de que, à proporção que eu chegar a esta santo mistério, cresça em mim o afecto da devoção e da piedade.

23/07/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXIX)

(continuação da LXXXVIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. III
A Grande Utilidade de Comungar Frequentemente

1. Alma – Senhor, eu chego à Vossa presença com o fim de participar das Vossas bênçãos e das Vossas graças e para que me encha de alegria no banquete sagrado, que tendes preparado para o pobre, na abundância da Vossa doçura. Em Vós se acha tudo o que posso ou devo desejar. Vós sois a minha salvação , a minha redenção, a minha esperança, a minha fortaleza, a minha honra, a minha glória.
Derramai, pois, hoje, a Vossa alegria na alma do Vosso sereno, porque a Vós, Ó Jesus, meu Senhor, levanto o meu espírito.
desejo de receber-Vos com devoção e respeito. Desejo que entreis na minha casa, para que mereça, como Zaqueu, a Vossa bênção e seja posto no número dos filhos de Abraão.
A minha alma suspira por alimentar-se do Vosso corpo e o meu coração deseja unir-se a Vós.
 
2. dai-Vos a mim, Senhor, e isto me basta. Fora de Vós, todas as consolações são falsas. Não posso estar sem Vós; sem Vós não posso viver. Por este motivo, convém que eu me chegue a Vós muitas vezes e Vos receba como remédio da minha salvação, para que não desfaleça no caminho por falta deste alimento celeste.
Isto mesmo nos ensinastes, misericordioso Jesus, quando, pregando aos povos e curado-os das suas diferentes enfermidades, dissestes, aos Vossos discípulos: "Não quero que vão em jejum para suas casas, pois temo que desfaleçam no caminho."
Fazei, agora, o mesmo comigo, já que Vós deixastes ficar entre nós, no sacramento instituído para consolo dos que Vos seguem.
Sois o delicioso sustento da alma e quem Vos receber dignamente torna-se participante e herdeiro da glória eterna. Caindo eu em pecando tantas vezes e, por insignificantes dificuldades, lanço-me no desânimo e no relaxamento, é necessário que me renove, e purifique, e me reanime de novo, por meio de orações, confissões e comunhões frequentes, pois receio que, abstendo-me por muito tempo destes santos exercícios, venha a esfriar nos meus bons propósitos.
 
3. Todos os sentidos do homem tendem para o mal, desde os verdes anos, e o homem irá cada vez pior, se a Vossa graça o não socorrer. A Santa Comunhão, portanto, nos aparta do mal e nos fortifica no bem.
Se agora, que eu comungo, ou, se sou sacerdote, celebro, tantas vezes me sinto frouxo ou negligente, que seria se eu não tomasse um tal remédio e não recorresse a tão grande protecção? Ainda que eu, se for sacerdote, não celebre todos os dias por qualquer indisposição, deverei, pelo menos receber a Santa Comunhão, para ter parte em tão grande graça.
A principal e quase única consolação da fiel, durante a sua peregrinação neste mundo, é lembrar-se muitas vezes do seu Deus e receber, como todo o fervor, o dilecto do seu coração.
 
4. Ó bondade prodigiosa! Vós, que sois o Criador e a vida original de todos os espíritos, dignai-Vos de vir a uma pobre alma e empregar todas as riquezas da Vossa Divindade e da Vossa humanidade, para enchê-la de bens, na sua indigência! Ó feliz alma, que tens a dita de receber devota e santamente o teu senhor e teu Deus e que, recebendo-O, te enches de uma alegria espiritual! Quando é grande o Senhor que te visita! Quanto é amável o hóspede que recebes! Quanto é doce aquele que vem fazer-te companhia! Quanto é fiel o amigo que te vem ver! Quanto é belo o Esposo que vem unir-se a ti! Quanto é grande e digno de ser amado, pois que excede infinitamente tudo o que se pode amar ou desejar nesta vida!
Emudeçam, diante de Vós, dulcíssimo amado meu, o Céu e a Terra, com todos os ornatos de que os vestistes, porque tudoo que ele têm, de glória e de beleza, foi por munificiência da Vossa liberalidade, nunca chegando a igualar a formosura do nome daquele cuja sabedoria é infinita.

22/07/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXVIII)

(continuação da LXXXVII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. II
Neste Sacramento Manifesta Deus ao Homem a Sua Bondade e o Seu Amor

1. Alma – Confiado, Senhor, na Vossa bondade, na Vossa misericórdia infinita, chego a Vós, como enfermo ao seu médico e salvador; como faminto e sequioso à fonte da vida; como pobre ao Rei do Céu; como escravo ao Senhor Soberano; como criatura ao meu Criador; como aflito Àquele que, por sua piedade, me consola em todas as minhas penas.
Mas de onde me vem, meu Deus, a graça de virdes a mim? Quem sou eu para que Vós mesmo Vos entregueis a mim? Como se atreve o pecador a aparecer na Vossa presença? Como Vos dignais chegar a um pecador?
Vós conheceis o que eu sou e sabeis que em mim não há bem algum que Vos obrigue a dar-me a graça. Confesso a minha vileza; reconheço a Vossa bondade; louvo a Vossa misericórdia; rendo graças à Vossa caridade infinita.
Certamente, por Vós mesmo o fazeis, e não por meus merecimentos, para que eu compreenda mais clara e sensivelmente a grandeza da Vossa bondade, a extensão do Vosso amor, o excesso da Vossa humildade neste grande mistério.
Pois que assim Vos agrada, mandais que assim se faça, recebo com alegria o favor com que me honrais e desejo que os meus pecados não me façam indigno dele.

2. Ó Jesus, cuja doçura é inefável! Que respeito, que louvores, que acções de graça não devemos dar-Vos pela participação do Vosso santo corpo?
Não há homem sobre a Terra que possa dignamente explicar a excelência deste sacramento.
Mas que posso eu pensar nesta comunhão, chegando-me a Vós, meu Senhor, para quem não posso ter o devido respeito e a quem desejo, entretanto, receber dignamente?
Que posso eu pensar melhor e mais saudável do que humilhar-me profundamente diante de Vós e adorar a Vossa bondade infinitamente elevada acima de mim?
Louvo-Vos, ó meu Deus, e desejo que sejais bendito para sempre. Desprezo a mim mesmo e humilho-me diante de Vós, até ao profundo abismo da minha vileza.

3. Vós sois o Santo dos santos e eu sou a escória da escória dos pecadores. Vós não Vos dedignais de abaixar-Vos até mim, que não sou digno de levantar os olhos a Vós.
Vindes a mim, quereis estar comigo; convidais-me à Vossa mesa; quereis dar-mea comer o manjar celeste; quereis dar-me o pão dos anjos, que não é outra coisa senão Vós mesmo, pão vivo, que descestes do Céu e que dais a vida ao Mundo.

4. Eis aqui o excesso do Vosso nome, do vosso abatimento e da Vossa bondade. Quem poderá, por tão grandes benefícios, dar-Vos as graças e louvores que Vos são devidos? Oh! Quão salutar e proveituoso foi vosso desígnio, ao instruirdes este sacramento! Suave e delicioso banquete em que Vós mesmo Vos deste em alimento! Como são admiráveis as Vossas Obras! Quão grande o Vosso poder, queão inefável a Vossa palavra! Falastes e tudo foi feito. O que mandastes, executou-se logo.

5. É maravilha que transcende o conhecimento humano, mas digna de todo o crédito, que, sendo Vós verdadeiro Deus e verdadeiro homem, estejais todo inteiro nas pequenas espécies de pão e vinho, sendo comido por quem Vos recebe, sem que sofrais a menor destruição. Vós, Senhor de todas as coisas, e que de nada necessitais, quisestes habitar connosco, por meio deste Vosso sacramento.
Conservai, pois, sem mancha, o meu coração e o meu corpo, para que, com alegre e pura consciência, possa celebrar, frequentemente, os Vossos mistérios e recebê-los para a salvação da minha alma, visto que os instituístes e ordenastes, principalmente para Vossa glória e memória do Vosso amor.

6. Alegra-te, alma minha, e dá a Deus graça por um dom tão grade e por esta consolação tão singular que Ele te deixou neste vale de lágrimas.
Todas as vezes que celebras este mistério e recebes o corpo de Jesus, renovas a obra da tua redenção e participas de todos os merecimentos do Salvador.
A caridade deste Senhor não padece diminuição alguma e as riquezas da redenção que Ele adquiriu, em nosso benefício, jamais se esgotam. Prepara-te, pois, para este acto, com uma renovação espiritual constante e considerando este mistério com uma renovada atenção.
Todas as vezes que celebres, ou assistas à missa, faz como se fora pela primeira vez e como se Jesus Cristo, nesse momento, baixasse à Terra e encarnasse no sei da Virgem, ou então, que estivesse sofrendo e morrendo na cruz pela salvação de todos os homens.

18/07/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXVII)

(continuação da LXXXVI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. I
A Extrema Bondade que Jesus Cristo Nos Manifesta Dando-nos o Seu Santo Corpo

1. Cristo – Vinde a mim todos os que estais fatigados e oprimidos, e eu vos consolarei. O pão que eu vos dera é a minha carne, a qual devo sacrificar pela vida do mundo. Tomai e comei; este é o meu corpo, o qual será entregue por amor de vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue vive em mim e eu viverei nele. As palavras que vos digo são espírito e vida. 

Alma – Estas Vossas palavras, Ó Jesus, são a verdade eterna, posto que não fossem proferidas em um mesmo tempo nem escritas em um mesmo lugar. Pois que elas são Vossas e são verdadeiras, eu as devi receber com acções de graça e fielmente. Elas são Vossas, porque Vós as proferistes, e também são minhas, porque as dissestes para minha salvação. Como alegria as recebo da Vossa boca, para que se imprimam profundamente no meu coração. Palavras cheias de tanta piedade, de tanta doçura e de tanto amor, elas me estimulam, mas os meus próprios delitos me enchem de temor e a impureza da minha consciência me proíbe de participar de tão grade mistério. A doçura das Vossas palavras me convida a Vos receber, mas o peso e o número dos meus pecados me apartam de Vós.

2. Mandais que chegue a Vós, com confiança, se quero ter parte Convosco, e que receba o alimento da imortalidade, se desejo alcançar uma vida e uma glória que durem para sempre. "Vinde a mim, vós que estais fatigados e oprimidos, e eu vos consolarei."
Ó palavra, a mais doce, a mais amável, que um pecador pode ouvir! Por ela vos dignais, o meu Deus e meu Senhor, convidar o pobre e o necessitado à participação do Vosso corpo santíssimo! Mas, quem sou eu, Senhor para que me chegue a Vós? Toda a imensidade dos Céus não Vos pode conter; e Vós dizeis: "Vinde a mim."

3. Quem pode conceder esta piedosíssima bondade e este amoroso convite?
Como me atreverei a chegar a Vós, eu que não sinto em mim bem algum que possa dar-me confiança bastante para ir a Vós?
Como não temerei fazer-Vos entrar na casa da minha alma, depois de Vos haver ofendido tantas vezes?
Os anjos e os arcanjos Vos reverenciam; os santos e os justos temem a Vossa presença, e Vós dizeis: "Vinde até mim todos."
Quem creria isto, se Vós, Senhor, o não dissésseis? Quem se atreveria a chegar a Vós, se Vós mesmo o não mandásseis?
Noé, que era tão justo, trabalho cem anos na fábrica da arca, a fim de nele salvar-se com poucas pessoas. Como poderia eu preparar-me em uma hora, para receber com reverência na minha alma o criador do Mundo?

4. Moisés, Vosso grande servo e Vosso amigo especial, fez uma arca de madeira incorruptível e cobriu-a de ouro puríssimo, para nela colocar as tábuas da Lei; e eu, que não sou senão uma criatura corrupta, atrever-me-ei a receber na minha alma o próprio legislador e supremo autor da vida?
Salomão, que foi o mais sábio dos reis de Israel, empregou sete anos para edificar um templo magnífico, à glória do Vosso nome; celebrou a sua dedicação pelo espaço de oito dias; ofereceu mil hóstias pacíficas: colocou solenemente a Arca da Aliança no lugar santo que lhe tinha sido preparado, ao som de trombetas e aos gritos de alegria de todo o seu povo. E eu, infeliz, o mais pobre de todos os homens, como Vos introduzirei na minha casa, se apenas posso aplicar a Vós escassa meia hora? Oxalá que, ao menos uma vez, empregasse dignamente esse tempo.

5. Ó meu Deus, quanto trabalharam estes santos para agradar-Vos! Ai de mim, que tão pouco faço e tão pouco tempo gasto em dispor-me para a Santa Comunhão! Raramente me recolho por completo e raríssimas vezes desterro do meu espírito todas as distracções. Seria justo que, na presença da Vossa Majestade, não atendesse eu a pensamentos pecaminosos, pois não é um anjo que devo receber no meu coração, mas o Rei dos anjos.

6. Há uma grandíssima diferença entre a Arca da Aliança, com tudo o que ele continha, e o Vosso Corpo puríssimo, com todas as graças e dons inefáveis de que é revestido. Grandíssima diferença existe entre os sacrifícios da Lei, que não eram mais do que uma figura das maravilhas futuras que devíeis fazer, e a verdadeira hóstia do Vosso Corpo, que vem completar todos os sacrifícios antigos. Porque, pois, não me abraso no Vosso amor, à vista da Vossa adorável presença? Porque não me preparo com mais cuidado para receber os Vossos santos mistérios, considerando quanto os antigos patriarcas, profetas, reis e príncipes mostravam tanta paixão rendendo o culto que Vos é devido?

7. David, o piedoso rei, dançou diante da arca, lembrando-se dos benefícios concedidos antigamente a seus pais; fez diversos instrumentos de música; compôs salmos; ordenou que se cantasse com pela graça do Espírito Santo. Ensinou os filhos de Israel a louvar a Deus, de todo o seu coração, e a aplaudi-lo todos os dias por um era reverenciada com tanta devoção; se houve tanto cuidado de louvar a Deus diante dela, que respeito e que devoção não devo ter eu e todo o povo fiel, quando nos achamos na presença do augustíssimo sacramento ou recebemos o corpo de Jesus Cristo?

8. Muitos correm diversos lugares para visitar as relíquias dos santos, para admirar as acções de suas vidas, contemplar com assombro a grandeza e magnificência de suas igrejas, e beijam os seus ossos sagrados, envoltos em ouro e seda.
E eu Vos vejo, meu Deus, que sois o Santo dos santos, o Criador dos homens, o senhor dos anjos, presente sobre o altar.
Os homens muitas vezes vão às igrejas, chamados pela curiosidade ou pela novidade, e tiram pouco proveito de emenda, principalmente quando nelas entram por motivos tão levianos, sem ser tocados por verdadeira contrição. Esquecem que, no sacramento do altar, estais presente como Deus e como Homem e, quando Vos visitamos dignamente, nos encheis de graças que nos fazem eternamente felizes. Não é um movimento de leviandade, de curiosidade ou de sensualidade que nos atrai a Vós, mas uma fé firme, uma esperança viva e uma caridade sincera.

9. Ó Deus, criador invisível do Mundo, quem não admirará o modo com que procedeis a nosso respeito? Quem pode suficientemente descrever esta doçura e bondade, que tendes com os Vossos escolhidos, aos quais ofereceis como alimento este augusto sacramento? Isto é o que transcende a nossa compreensão. Isto é o que mais atrai as almas que Vos são consagradas e que mais acende os seus afectos. Neste sacramento inefável é que os Vosso fiéis servos, que trabalham, de contínuo, em purificar-se de todos os seus defeitos, recebem a grande graça da devoção e um novo amor da virtude.

10. Ó graça admirável e oculta neste sacramento, conhecida só dos fiéis de Jesus Cristo, mais ignorada dos infiéis e dos escravos do pecado! Este mistério infunde em nossa alma a graça do Espírito Santo; recupera-lhe as forças perdidas; restitui-lhe a formosura que a fealdade do pecado lhe tinha roubado. Esta graça é, algumas vezes, tão abundante e dá ao homem um tão grande fervor de devoção, que não só a sua alma, mas o seu mesmo corpo sente, apesar da sua fraqueza, haver recebido maiores forças.

11. Nós deveríamos sentir e chorar a nossa negligência e tibieza, vendo o pouco fervor com que recebemos a Jesus Cristo, que é toda a esperança e fez todo o merecimento dos Seus escolhidos. Ele é a nossa santidade e a nossa redenção. Ele é a nossa consolação no deserto desta vida, como é no Céu a eterna felicidade dos santos.
Deve, pois, para nós, ser grande motivo de dor ver que tantas pessoas têm tão pouco afecto a este santo mistério, que é a alegria do Céu e a salvação do Universo.
Ó cegueira e dureza do coração humano, que tão pouco atende a um dom tão inefável e que, pelo uso de o receber, se distrai na inadvertência de que o recebe!

12. Se este sacramento fosse celebrado num só lugar e consagrado por um só sacerdote em todo o Mundo, que respeito não teriam os homens por este único sacerdote! E com que ardor não assistiram à celebração dos santos mistérios! Mas o amor de Deus quis que houvesse muitos sacerdotes e Jesus Cristo se oferecesse em muitos lugares, para que se estendesse a comunhão do seu Santo corpo por todo o Mundo.
Graças Vos sejam dadas, ó bom Jesus, pastor eterno, que Vos dignastes sustentar os pobres e desterrados, com o Vosso precioso corpo e o Vosso precioso sangue, e convidar-nos com palavras preferidas por Vossa sagrada boca à participação destes mistérios, dizendo: "Vinde a mim, todos os que estais fatigados e oprimidos, eu vos consolarei."

15/07/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXVI)

(continuação da LXXXV parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações
 

Cap. LIX
Devemos Pôr Somente em Deus Toda a Nossa Esperança

1. Alma – Senhor, qual é a confiança que posso ter nesta vida?
Ou qual é a minha maior consolação entre todas as coisas que existem debaixo do sol? Porventura não sois Vós, meu Senhor e meu Deus, cuja misericórdia não tem limites? Onde me foi bem sem Vós? Que mal posso eu sentir estando Convosco? Mais quero ser pobre por amor de Vós do que rico sem Vós. Mais quero peregrinar no mundo Convosco do que possuir o Céu sem Vós.
Onde estais, está o Céu; onde não estais, está a morte e o Inferno. Vós sois o objecto dos meus desejos; por isso é necessário que Vos envie os meus gemidos, as minhas orações e os meus clamores.
Em ninguém posso confiar inteiramente, de ninguém posso esperar os imediatos socorros às minhas necessidades, senão de Vós, ó meu Deus.
Sois a minha esperança e a minha confiança; sois em tudo o meu consolador.

2. Todos buscam os seus próprios interesses; Vós, porém, não buscais senão a minha salvação e o meu aproveitamento, fazendo que tudo seja em minha utilidade.
Ainda que muitas vezes me exponhais a tentações e trabalhos, contudo ordenais estes sucessos ao meu bem particular, pois é Vosso costume provar de mil modos os Vossos escolhidos.
Assim, eu não devo amar-Vos e louvar-Vos menos nestas provas do que se me prodigalizásseis as Vossas celestes consolações. 

3. Em Vós, pois, meu Deus, ponho toda a minha esperança e refúgio. No Vosso seio lança todas as minhas tribulações e angústias, pois fora de Vós não vejo senão fraqueza e insegurança.
Não acho amigos que me sirvam, poder que me sustente, sábio que me aconselhe, livro que me console, tesouros que me protejam, retiro que me assegurasse defesa; mas em Vós encontro o amigo que me assiste, o protector que me sustenta, sábio que me ensina, a verdade que me consola, o tesouro que me enriquece, o asilo que me põe em segurança. 

4. Tudo o que parece conduzi-me à posse da felicidade e da paz nada significa sem Vós; nem, com efeito, pode fazer-nos verdadeiramente felizes.
Vós só, ó meu Deus, é que sois o fim supremo de todos os bens, o centro da vida, o profundo abismo da ciência.
A mais completa consolação dos Vosso servos é pôr em Vós toda a sua esperança.
A Vós elevo os meus olhos, me Vós espero, meu Deus e Pai de misericórdia.
Abençoai e santificai a minha alma com a Vossa bênção celeste, para que ele venha a ser a Vossa santa morada, o trono da Vossa eterna glória, e para que não se ache no Vosso tempo coisa que Vos possa ofender.
Olhai para mim segundo a grandeza da Vossa bondade e a amplitude das Vossas misericórdias.
Ouvi a oração deste Vosso pobre servo, que vive desterrado de Vós na região das sombras da morte.
Amparai e conservai a alma do Vosso servo, exposto a todos os perigos desta vida corruptível.
A Vossa graça me acompanhe sempre e ela me conduza, pelo caminho da paz, à pátria da perpétua claridade. Amém.

18/05/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXV)

(continuação da LXXXIV parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações
 

Cap. LVIII
Não Se Deve Investigar As Coisas Do Alto Nem Os Ocultos Juízos De Deus

1. Cristo – Filho, não disputes sobre assuntos muito elevados e sobre os ocultos juízos de Deus.
Não indagues a razão pela qual o senhor desampara uns e leva outros a grandes graças; nem os motivos que a este levam às aflições e aquele a tantas honras e glórias. Estas coisas excedem a inteligência dos homens e, por mais esforço que eles façam por penetrá-las, não poderão jamais desvendar, pelo seu raciocínio, a profundeza dos meus juízos.
Quando o inimigo te tente nesta matéria, ou os homens curiosos te consultem, responde-lhes o que diz o Profeta: "Justo sois, Senhor, e justos são os Vossos juízos." e também aquilo do mesmo Profeta: "Os juízos do Senhor são verdadeiros e em si mesmos cheios de justiça."
Ao homem pertence temer e não examinar os meus juízos, porque são incompreensíveis ao entendimento humano.

2. Não inquiras nem discutas sobre o merecimento dos santos; qual seja o mais santo ou o maior no reino dos Céus. Isto não serve senão para produzir debates inúteis, nutrindo a soberba e a vã glória, das quais nascem, depois invejas e discórdias.
Um disputando por parte de um santo, outro por parte de outro, ambos teimam com tal soberba que cada qual pretende que o seu santo seja o preferido.
Nenhum fruto se tira de semelhantes averiguações, que desagradam aos próprios santos.
Eu não sou o Deus da discórdia, mas da paz, e esta paz procede da verdadeira humildade e não da exaltação.

3. Há pessoas que, por zelo ou predilecção, se afeiçoam mais a uns santos do que a outros, mas essa afeição é mais humana do que divina.
Sou eu quem criou todos os santos, lhe dei a graça e lhes comuniquei a minha glória. Eu sei os merecimentos de cada um deles, eu os preveni com as bênçãos da minha doçura. Eu os predestinei, antes de todos os séculos, os meus eleitos. Eu os escolhi do mundo, e não eles a mim. Eu os chamei pela graça, e os atraí pela misericórdia, e os fiz passar por muitas provações. Eu derramei nos seus corações inefáveis consolações; dei-lhes a perseverança e coroei a sua paciência.

4. Eu conheço todos desde o primeiro até ao último, e amo todos com um amor incalculável.
Eu devo ser louvado em todos os meus santos, bendito em todas as coisas e honrado em cada um deles, que tão gloriosamente exaltei e predestinei sem prévio merecimento algum da sua parte.
Quem, pois, despreza o menor dos meus santos, não honra o maior, porque eu fiz o pequeno e o grande.
O que menospreza algum dos meus santos, menospreza a mim e a quantos estão no reino do Céus.
São todos um, pelo vínculo da caridade; têm um mesmo sentimento e uma mesma vontade e amam-se todos com o mesmo amor.

5. Além disso, o que é mais sublime ainda, eles têm mais amor a mim do que a si e aos seus méritos. Arrebatados acima de si mesmos, acima do seu próprio amor, passam inteiramente ao meu, no qual acham a sua felicidade e o seu repouso.
Nada pode apartá-los deste grande objecto, porque, cheios da eterna verdade, ardem no fogo inextinguível do amor.
Nada disputem, portanto, sobre o estado dos santos, os homens carnais, que não amam senão a sua própria conveniência, e os seus gestos particulares. Esses homens elevam ou abaixam o valor dos santos, segundo os caprichos pessoais e não segundo a regra da eterna verdade.

6. Em muitos tal procedimento é fruto da ignorância, sobretudo naqueles que, pouco esclarecido, a ninguém, de ordinário sabem amar com um perfeito amor espiritual. Amam a umas pessoas mais do que a outras, por um afecto natural e por uma amizade humana e, do mesmo modo como amam as coisas terrenas, julgam dever amar as celestes.

7. Foge, pois, filho meu, de tratar curiosamente daquilo que exceda a tua ciência, mas põe todo o teu cuidado em merecer ao menos o ultimo lugar no reino de Deus.
Quanto houvesse quem descobrisse qual era o mais santo e o maior do reino dos Céus, de que lhe serviria esse conhecimento, se não tomasse daqui motivo para mais se humilhar e para se render maiores louvores ao meu nome?
Muito mais amo aqueles que consideram a grandeza dos seus pecados, a escassez das suas virtudes e a imensa distância que os separa da perfeição dos santos, do que aqueles que discutem sobre a maior ou menos glória deles.
É melhor rogar aos santos, com orações e lágrimas, pedindo-lhes humildemente o seu patrocínio, do que indagar, com fútil curiosidade, os segredos da sua glória.

8. Os santos dar-se-iam por muito contentes, se os homens soubessem contentar-se e permanecer nos limites da sua fraqueza, reprimindo a liberdade dos seus discursos.
Eles não se gloriam dos seus próprios merecimentos, porque não atribuem a si bem algum, antes tudo referem a mim, que tudo lhes dei pela caridade infinita que tive com eles.
Eles estão de tal sorte cheiros de amor da minha Divindade e de uma superabundância de delícias, que nada falta a sua glória, nem pode faltar à sua soberana felicidade.
Quanto mais os santos são elevados na glória, tanto mais são humildes e chegados a mim, abrasando-se no meu divino amor. Por isso diz a Escritura: "Eles depõem as suas coroas diante do Trono de Deus; prostram-se diante do Cordeiro; adoram Aquele que vive em todos os séculos dos séculos."

9. Muitos inquirem qual seja o maior santo do reino de Deus, e não cogitam de saber se serão dignos de ser contados entres os menores espíritos que o habitam.
É coisa grande ser o menor no Céu, onde todos são grandes, porque serão chamados filhos de Deus e o serão na realidade.
O menor dos eleitos valerá por mim, e o pecador, mesmo depois de uma longa vida, morrerá para sempre.
Perguntando-me os meus discípulos qual fosse o maior no reino dos Céus, respondi-lhes: "Se não vos converterdes e vos fizerdes como meninos, não entrareis no reino dos céus. Quem, pois, se humilhar e fizer como este menino, será o maior no reino dos Céus."

10. Ai daqueles que recusam humilhar-se voluntariamente, com os pequeninos, porque a porta do meu reino de Deus, porque a porta do reino dos Céus lhes estará trancada.
Ai também dos ricos, que têm neste mundo as suas consolações, porque, quando os pobres entrarem no reino de Deus, eles ficarão chorando do lado de fora.

Humildes, regozijai-vos! Pobres, transportai-vos de alegria! Porque vosso é o reino de Deus, se verdadeiramente me servires.

17/05/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXIV)

(continuação da LXXXIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações
 

Cap. LVII
O Homem Não Deve Desanimar Quando Cai Em Alguma Falta

1. Cristo – Filho, mais que agradam a paciência e a humildade nos reveses do que muita consolação e fervor na prosperidade.
Porque te entristeces quando dizem alguma coisa contra ti? Ainda que ela fosse de importância, nem por isso deverias inquietar-te. Deixa-a passar; ela não é nova, nem a primeira, nem será a ultima que se diga contra ti, se viveres muito tempo.
Sabes dar bons conselhos e alentar os outros com palavras, mas, quando te achas oprimido por alguma tribulação, logo te faltam o conselho e o esforço. Considera a tua grande fragilidade, que muitas vezes experimentas nos pequenos dissabores, e crê que tudo o que sucede é para o teu bem.

2. Lança de teu coração, o melhor que puderes, toda a impressão que o mal lhe possa fazer, e se a tribulação chegou a tocar-te, não permitas que te abata e embarace por muito tempo o teu espírito.
Sofre com paciência, se não podes sofrer com alegria.
Posto que te custe ouvir o que se diz de ti e sintas ímpetos de cólera, reprime-te e não deixes a tua boca pronunciar palavras desordenadas, que escandalizem os fracos. A comoção depressa se aplacara e a dor da tua alma será suavizada pela minha graça. Eu ainda vivo, diz o Senhor, e estou pronto a assistir-te e consolar-te mais do que nunca, se puseres a tua confiança em mim e me invocares.

3. Toma por ânimo e arma-te de constância para sofrer ainda mais do que tens sofrido. Não te julgues perdido por te veres muitas vezes aflito e tentado gravemente. És homem e não és Deus, és carne e não anjo.
Como poderás viver para sempre em estado de virtude, quando esta faltou ao anjo no Céu e ao primeiro homem no Paraíso? Eu elevo e curo todas as enfermidades; faço subir até à participação da minha Divindade os que conhecem a sua fraqueza.

4. Alma – Senhor, bendita seja a Tua palavra, mais doce à minha boca do que um favo de mel. Que faria eu, no meio de tantas atribulações e angústias, se a Vossa santa palavra não me confortasse? Que importa o que sofro, ou venha a sofrer, se eu chegar ao porto de salvação?

Dai-me, Senhor, um bom fim, uma feliz passagem para o Céu, meu Deus, lembrai-vos de mim e conduzi-me pelo caminho mais direito para o Vosso reino.

12/05/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXIII)

(continuação da LXXXII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações
 

Cap. LVI
A Renúncia De Nós Mesmos e a Imitação De Cristo Na Cruz 

1. Cristo – Filho, quanto mais puderes sair de ti, mais poderá chegar-te a mim. Assim como não desejar coisa alguma externa produz a paz interna, mas também o afastar-se de si mesmo produz a união com Deus. Quero que aprendas a perfeita renúncia de ti mesmo, para que vivas segundo a minha vontade, sem resistência e sem queixa. Segue-me. Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Sem caminho não se anda, sem a verdade nada se conhece, sem a vida nada se vive. Eu sou o caminho que deves seguir, a verdade na qual deves crer, a vida interminável. Eu sou o caminho recto, a verdade suprema, a vida feliz e incriada. Se permaneceres no meu caminho, encontrarás a verdade, a verdade te libertará e alcançarás a vida eterna. 

2. Se queres entrar na vida eterna, guarda os meus mandamentos. Se queres conhecer a verdade, crê em mim. Se queres ser perfeito, abre a tua mão de tudo o que tens. Se queres ser meu discípulo, renuncia-te a ti mesmo. Se queres possuir a vida eterna, despreza a presente. Se queres ser exaltado no Céu, humilha-te neste mundo. Se queres reinar comigo, leva comigo a minha cruz, porque somente os servos da cruz encontram o caminho da bem-aventurança e da luz verdadeira. 

3. Alma - Meu Deus e meu Senhor, se a Vossa vida foi tão preciosa e desprezível ao mundo, fazei-me a graça de imitar-vos, sofrendo o desprezo do mundo, pois, conforme dissestes, o servo não é maior que o seu senhor, nem o discípulo superior ao mestre. Exercita-se o Vosso servo na imitação da Vossa vida, porque nela está o meu bem e a verdadeira santidade. Tudo o que leio e ouço fora dela não me consola nem me satisfaz inteiramente. 

4. Cristo – Filho, porque conheceste e leste todas essas coisas, bem-aventurado serás se as imitares. Quem sabe os Meus mandamentos, e os observa, dá prova de seu amor por mim; eu também o amarei, manifestando-me a ele e assentando-o comigo no reino do meu Pai. 

5. Alma – Jesus, meu Senhor, concedei que chegue até a mim o que dissestes e prometestes, fazendo-me digno de que mereça tamanha graça. Eu recebi das Vossas mãos a cruz: hei-de levá-la até à morte, como Vós ma impuseste. A vida de um bom religioso é uma cruz, cruz, porém, que leva ao Paraíso. Já comecei a carregá-la; não convém que volte para trás nem que a deixe. 

6. Eia, meus irmãos, caminhemos juntos; Jesus será connosco. Abraçámos a cruz por amor de Jesus; preservaremos nela. Ele nos ajudará, pois é nosso chefe e nosso guia. Como nosso rei, vai a nossa frente para combater por nós, sigamo-Lo com valor; ninguém tema nem enfraqueça; preparemo-nos para morrer valentemente nesta guerra e fujamos de nos manchar com o infame crime de desertores da Cruz.

09/05/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXII)

(continuação da LXXXI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações
 

Cap. LV
Da Corrupção Da Natureza E Da Eficácia Da Graça Divina

1. Alma - Meu Deus e meu Senhor, que me criastes à Vossa imagem e semelhança, dai-me essa graça, que me mostrastes ser tão poderosa e tão necessária para a salvação, a fim de que eu vença as más inclinações da minha natureza corrompida, que me arrasta para o pecado e para a perdição.
Eu sinto na minha carne a lei do pecado oposta à lei do meu espírito e que me leva cativo a dar obediência à sensualidade. Confesso que não posso resistir a tamanhas paixões, sem a assistência da Vossa graça santíssima ardentemente infundida no meu coração.

2. Eu necessito da Vossa graça poderosa para vencer a minha natureza inclinada ao mal desde os meus mais tenros anos.
Essa natureza decaída no primeiro homem e viciada pelo pecado, transmite a todos os homens a pena de um crime; de sorte que a mesma natureza, que criastes boa e recta, deve ser considerada fraca e enferma, visto que, entregue a si mesma, os seus movimentos nos arrastam para o mal e para as coisas da Terra. Na verdade, a pouca força, que lhe ficou, é como uma pequena brasa coberta de cinzas.
Essa faísca é a razão natural envolta em densas trevas, possuindo ainda o discernimento do bem e do mal e fazendo a distinção do verdadeiro e do falso. Todavia, sente-se incapaz de cumprir o que aprova, pois já não possui a plena luz da verdade nem a pureza dos seus afectos.

3. Daqui vem, meu Deus; que eu, considerado segundo o homem interior, que em mim habita, me deleito na Vossa lei, reconhecendo-a por boa e tão justa que condena todo o mal e ensina a fugir do pecado.
Mas ao mesmo tempo sirvo a lei do pecado, segundo a carne, obedecendo mais à sensualidade do que à razão, de modo que, achando eu em mim a vontade de fazer o bem, não encontro o meio de o executar. Muitas vezes me proponho fazer o bem, mas, faltando-me a graça para ajudar a minha fraqueza, deixo tudo à menor resistência que encontro e desfaleço. Resulta daí que, conhecendo o caminho da perfeição e vendo claramente o que devo fazer, mas oprimido sob o peso da minha própria corrupção, não me elevo ao que é mais perfeito.

4. Quanto, Senhor, me é necessária a Vossa graça para começar o bem, para nele prosseguir e para o aperfeiçoar!
Eu nada posso fazer sem ela; mas tudo posso em Vós, com o socorro da Vossa graça.
Ó graça verdadeiramente celeste, sem ti não há algum merecimento próprio e até os mesmos dotes da natureza não são dignos de consideração. As artes, a riqueza, a formosura, o valor, o espírito e a eloquência, nada são diante de Vós, ó meu Deus, sem a Vossa graça.
Os dotes da natureza são comuns aos bons e aos maus; porém, a graça, ou a caridade, é dom próprio dos escolhidos, e aqueles que a possuem são julgados dignos da vida eterna. A excelência desta graça é tanta que nem o dom da profecia, nem o poder de obrar milagres, nem a mais alta contemplação valem alguma coisa sem ela.
A mesma fé e esperança, e todas as outras virtudes, não são agradáveis sem a graça e a caridade.

5. Ó beatíssima graça, que do pobre espírito fazeis rico de virtudes e ao opulento converteis em humilde de coração, vinde, descei sobre mim, enchei-me das vossas consolações, para que a minha alma não desfaleça entre a fadiga e as angústias do meu espírito.
Peço-Vos, Senhor, que eu ache a graça diante dos Vossos olhos; ela só me basta, ainda que me falte tudo o que a natureza deseja.
Por mais tentado e molestado com muitas tribulações, não temerei mal algum, enquanto a Vossa graça me assistir. Ela é a minha força, o meu conselho, o meu fundamento. E mais poderosa do que todos os inimigos, mais sábia do que todos os sábios.

6. Ela é a mestra da verdade, a regra da disciplina, a luz do coração, a consolação dos males, o inimigo da tristeza, a dissipadora do temor, o sustento da devoção e a mãe das santas lágrimas.
Que sou eu, sem ela, senão lenha seca, tronco inútil, próprio para ser lançado no fogo?
Preveni-me, pois, Senhor, da Vossa graça, e fazei que ela me acompanhe sempre e me conserve continuamente na prática das boas obras, por Vosso Filho Jesus Cristo.  

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