14/05/18

SUMOS PONTÍFICES PORTUGUESES


S. DÂMASO I

Foi S. Dâmaso Hespanhol [entenda-se: da Península Ibérica] sem controvérsia; sobre a Província, que herdou com o seu nascimento, discordam os Autores. Prevalece o juízo dos mais doutros Estrangeiros, e ainda Hespanhóis [entenda-se igualmente: da Península Ibérica] fôra de Portugal, à sentença de que foi Português. Duas terras há em Portugal, que aspiram a esta glória. Com menos fundamento a pertence a Idanha, animada com o testemunho de Dextro, Autor não admitido na nossa Real Academia. A terra de Guimarães se preza justamente de ser Pátria de S: Dâmaso. As razões em que se funda a sua justiça, expende com a erudição, que costuma o nosso Académico, e meu companheiro o Reverendíssimo Padre D. Jerónimo Contador, Clérigo Regular, nas suas bem judiciosas Memórias de Braga.

Entrou S. Dâmaso no Sumo Pontificado, no ano de 367 e no Céu em 11 de Dezembro de 384. Está sepultado na Basílica, que edificou em Roma, que hoje se chama de S. Lourenço in Damaso, tem este Epitáfio:

Sub hoc Altari condita sunt
Corpora S. Damasi PP. rt Confessoris,
Et S. Christi Martyris Eutichii.

A sua Vida escrevem todos os Autores das Vidas dos Sumos Pontífices. A este Catálogo basta alegrar ao Padre António de Macedo, da Companhia de Jesus na sua Lusitania Insulata, et Purpurata.



JOÃO XXI

Foi Português, natural de Lisboa Ocidental, baptizado na Freguesia de S. Julião. Sendo Cardeal, e Bispo Tusculano, foi eleito Sumo Pontífice na Cidade de Viterbo, no ano de 1276 e no seguinte espirou. Causou-lhe a morte na mesma Cidade a ruina de uma casa, a que sobreviveu poucos dias; morreu piamente em Viterbo a 16 de Maio de 1277. Está sepultado na Igreja Maior dedicada a S. Loureço, e tem na sepultura este Epitáfio:

Joanni Lusitano XXI
Pontificatus Max. fui mense VIII
Moritur M.CC.LXXVII

Escrevem a sua vida, além dos que tratam dos Papas, o Padre António de Macedo no livro citado; e Jorge Cardoso no Agiológio Lusitano Tom.3 no dia 16 de Maio. Os lugares, que ocupou antes da Suprema Cadeira, se verão abaixo, quando falarmos dele como Cardeal Português. Como foi Varão doutíssimo, favoreceu muito aos estudiosos, principalmente pobres, dando-lhes Benefícios para mais comodamente se aplicarem às letras.


Antipapa
MAURÍCIO BURDINO
que se chamou
GREGÓRIO VIII

Assim como se devia contar entre os Pontífices Portugueses um Papa Estrangeiro, que tivesse tido alguma Diocese em Portugal, assim se deve contra entre os Portugueses um Antipapa Francês, que teve em Portugal não só uma, mas duas Igrejas, a Episcopal de Coimbra, e a Primacial de Braga. Este foi Maurício Burdino, natural de Limoges, que teve excelentes princípios, pelos quais foi escolhido sucessivamente para aquelas duas Prelazias, que governou bem com doutrina, e exemplo.

Sendo Bispo de Coimbra foi à terra Santa, acompanhado ao seu Soberano o Conde D. Henrique, primeiro fundador do nosso Império. Voltando a Portugal, foi visitar a S. Giraldo, Arcebispo de Braga, e seu Metropolitano: este vaticinou, que ele lhe havia de suceder na Cadeira. Morto S. Giraldo, foi eleito em seu lugar Maurício, que logo partiu para Roma pedir a confirmação, e o Pálio ao Papa Pascoal II. De Roma trouxe o corpo de Santiago Interciso, que hoje se venera na Sé Primacial. Neste Reino concluiu negócios muito úteis à sua Igreja.

Eram por aquele tempo muitos, e grandes os agravos, que D. Bernardo, Arcebispo de Toledo, e Legado Apostólico em Hespanha, fazia aos Prelados destas Províncias, e principalmente ao Arcebispo de Braga Maurício Burdino, dos quais este se foi queixar ao Papa Pascoal II, e não se contendo dentro dos termos da defensiva, passou a acusar a D. Bernardo, pertencendo, que se lhe tirasse por incapaz, e velho já caduco, o Arcebispo de Toledo, dizem, que com ânimo de suceder-lhe, o que não crerei facilmente; porque sei que os Autores, que escreveram deste infeliz Arcebispo, disseram muitas coisas contra a verdade dos sucessos, e não estava Maurício tão malquisto em Braga, que quisesse deixar por Toledo a Primazia de Hespanha; mais verosímil é, que quisesse suceder a D. Bernardo na Legacia dela, e por ventura, que só esta com amovível, e causa das perturbações, que padeciam os Bispos de Hespanha, pretenderia Maurício, que se tirasse a D. Berardo, o que o Papa não fez, não querendo desconsolar a um Arcebispo velho, e benemérito da Igreja.

Achava-se por desgraça Maurício ainda em Roma no ano 1117 em que Henrique IV eleito Imperador, entrou com um Exército em Roma, para obrigar ao Papa Pascoal II a que o coroasse; o que o Pontífice por certas causas não queria fazer, e por isso se retirou a Monte Cassino, e daí a Benevento. Na ausência do Papa pertenceu Henrique, que o Clero Romano o coroasse, e não o conseguindo, fez-se coroar por Maurício, Arcebispos de Braga, e Primaz da Hespanha, que não tendo valor para não condescender com as injustas instâncias de um Imperador na testa de um Exército, nem podendo fugir, como tinha feito o Papa, o coroou, apesar do mesmo Pontífice, que justamente indignado contra Maurício, o declarou excomungado no Concílio, que celebrou em Benevento, no ano de 1117.

Com a morte de Pascoal II e eleição de Gelásio II sucedida em 2 de janeiro de 1118 melhorou a fortuna de Maurício; porque Gelásio não só o absolveu, e lhe restituiu o Pálio; mas mandou-o por seu Legado ao mesmo Imperador Henrique IV a quem era muito aceito. Mas indignado o Imperador, de que o Papa o não tivesse recebido em Roma, e tivesse fugido para Caieta, fez eleger em seu lugar a Maurício, sem que este na sua instrução tivesse mais culpa, que o consentimento, e o chamar-se logo Papa, com o nome de Gregório VIII e fazer tudo o mais, que podia, como se fosse legítimo Papa; e assim prescreveu, até que Calisto II sucessor de Gelásio II o cercou no ano de 1121 na Cidade de Dufri, adonde se tinha feito forte, e entregando-lho os moradores daquela pequena cidade, em Abril do mesmo ano, o levou diante de si montado em um Camelo com o rosto para trás, para maior castigo da sua culpa; e assim entrou em Roma, e daí o mandou preso para o Mosteiro da Cova no Reino de Nápoles; de donde depois foi mandado por ordem do mesmo Calixto II para o Castelo de Janula, adonde esteve preso em quanto viveu aquele Papa. Seu sucessor Honório II eleito no ano de 1124 mandou mudar a Maurício para o Castelo de Furmon na Campanha de Roma, que nos anos adiante foi mais célebre por ser a prisão, que nos anos adiante foi mais célebre por ser a prisão, em que o Papa Bonifácio VIII mandou meter a S. Celestino V depois de ter renunciado o Sumo Pontificado. Neste Castel acabou Maurício a sua larga vida; escreve-se, que em todo o tempo destas prisões fez penitência dos seus pecados, em que tinha tido muitos a quem erradamente seguir, e que teve não poucos, que infelizmente o imitassem, sendo muito poucos os Antipapas, que lhe deram exemplos para o arrependimento, e muito menos os que dele o tomaram. Escrevem a sua vida, além dos Escritores das dos Pontífices, o Senhor D. Rodrigo da Cunha na História de Braga (parte 2. cap. 8 e 9), Estêvão Baluzio (no tomo 3 das Miscelâneas, desde a página 471). Dele fala o eruditíssimo Marquês de Mandejar na sua eruditíssima Dissertação da Pregação de Santiago em Hespanha (cap. 10 desde a folha 60 verso até 75), e ultimamente o nosso eruditíssimo Académico o Senhor Francisco Leitão Ferreira, no seu Catálogo dos Bispos de Coimbra (§ 23).

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