17/04/18

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº17 (II)

(continuação da I parte)


TESE

A Igreja é verdadeira e rigorosa proprietária, e nunca os seus bens se deverão ter na conta de nacionais.

Prova-se

- Pela voz da natureza.
Já mostrei de passagem (nº 14 deste Punhal) que a sustentação dos Bispos, Sacerdotes e outros Ministros do Culto Católico, uma vez admitido e reconhecido por único verdadeiro, nacional, protegido e favorecido pelos Reis e legislação fundamental do País que o admitiu, é uma dimanação clara e evidente do direito natural: e como um dos principais deveres do método escolástico é o tremendo non repetat, addat, que se fosse aplicado e formalmente imposto aos nossos sabichões ficariam amarelos, enfiados, e com as suas veneráveis cabeças a razão de juro, pois, coitadinhos! o seu minguado saber não se estende a mais do que a trazerem o mesmo cozido, assado, frito, e guisado por mil diversas maneiras; tratarei agora de recomendar pela primeira vez aos Mações Lusitanos que não se pejem de revolver os monumentos principais da antiguidade pagã, onde se encontram mil factos que devem encher de assombro e confusão os inimigos da propriedade dos bens eclesiásticos.
É falso dizer-se que o encargo dos dízimos e primícias começou na Lei Escrita... São mui anteriores os factos de Melquisedech Rei de Salem, e de Abraão, Pai dos verdadeiros crentes, donde se vê que não eram os Judeus a única Nação obrigada a satisfazer os dízimos e primícias... Acha-se na maior parte dos Filósofos e Historiadores pagãos a certeza de que os dízimos se pagavam exactamente desde tempos remotíssimos, quais puderam alcançar as tradições humanas que serviram de fundamento aos primeiros Historiadores. Poderia eu citar em abono desta verdade muitos Escritores antigos, como Tucídides, (liv. 3º) Passanias, (Eliac. et Phoc.) Diodoro de Sicília, (liv. 5º) Plutarco, (in Camilo, Scylla, Lucullo, etc.) Aristóteles, (CEcon. liv. 2º) Justino, (liv. 18-20) Cícero, (de natura Deorum (liv. 3º) mas atentando pela brevidade e concisão própria do método que vou seguindo, apenas citarei algumas passagens terminantes e decisivas dos Historiadores Gregos e Latinos. Comecemos por Heródoto, em cujo primeiro livro (pag. 45 da Edição de P. Wyseligio) se lê o seguinte conselho, que o Rei vencido (Cresso) deu a Ciro: Siste ad singulas portas aliquod ex tuis satelitibus custodes, qui auferentes vetent deddendae sint... que vem a dizer em suma que se ponham guardas ao saque feito em Sardes, para que não se desencaminhe, visto ser de absoluta necessidade o pagar dízimo de tudo a Júpiter. (1) Segue-se Xenofonte, que no liv. 5º de Expeditione Cyri, tratando de um templo que se erigia em honra de Diana, acrescenta: Prope fanum pila erecta, quae has Literas continet. Fundus Dianae Sacer. - Hoc qui possessor fruitur, quotannis consecrato decumam. (Edit. Leunclavii Paris. 1625 pag. 351).
Na oração de Agesiao Rege (pag. 657) Ipse de hostili fructus eos percepit, ut intra biennium decumam Delphico Deo consecraret C. talentis ampliorem.
Na História Grega, (liv.3º pag. 493) Delphos profectos Agis quum decumam obtulisset, etc.
Não seria grande injúria aos Pedreiros reduzir a linguagem esta versão fiel do Grego; mas demos de barato que eles poderão achar-lhe sentido (apesar de quem uma indicação feita ao já definido Congresso queria acabar o Latim de todo, como se ele não estivera já bem morto em Portugal)... e note-se para uso do povo, que eram invioláveis os Campos dedicados a Diana, e tidos por sacrílegos os que não pagavam exactamente o dízimo dos frutos, e que o Rei Agesilau, sendo, como era, um pagão, tivera do despojo feito aos inimigos a exorbitante soma de cem talentos, que considerados no seu justo valor, e segundo a raridade de certos metais naqueles tempos, fazem-me necessariamente romper nesta exclamação. "Reis gentios, a quem falava a Luz da verdade, pudestes sem a mais leve censura dos povos, antes com aplauso de todos, consagrar Templos às falsas Divindades, assinar-lhes espaçosos campos donde se tirasse a subsistência dos que os serviam, e repartir com mãos larga de todas as vossas conquistas e novas aquisições para o esplendor do culto... e hoje se um Rei Católico, sem defraudar os seus povos, sem o os vexar e oprimir com tributos, sem faltar à devida sustentação dos empregados públicos, manda fazer um templo em honra do Deus verdadeiro, que se ele desembainhar a espada, lhe franqueia das entranhas da terra abundantíssimas riquezas... critam, é mau Rei, é um sacristão... é indigno de reinar!!! E hão de levar-me uma injúria se eu lhes chamar estonteados, delirantes, ímpios, e blasfemos!! Continuemos, já que a indignação me fez exorbitar das regras que eu protestara seguir... Dionísio de Halicarnasso no livro primeiro das Antiguidades Romanas (Edic. de Emílio Porto - 1588 pag. 8), falando dos Pelasgos: Et Decimas ex maritimis proventibus, siqui alii, splendidissimas Delphos Deo mittebant. Aqui temos direitos de pescado admitidos e satisfeitos por aquela Nação antiquíssima, que teve de vir ao mundo séculos e séculos antes que se ouvisse no Salão das necedades que o ar, e o mar, ou as águas eram livres para todos!!
O mesmo A. no liv. 4º (pag. 133) tratando da expedição de Tarquinio Soberbo contra os Sabinos, e dos ricos despojos que por esse motivo se colheram, acrescenta: Et Decimae argenti Diis sacratae non minorem summam quam quadringentorum tolentorim efficerent (2).
Dos Autores Latinos contento-me de citar Tito Lívio, e de remeter os meus Leitores para o liv. 5º cap. 23 e 25, e aí poderão ver no facto de Camilo sobre o saque da cidade de Veios, que prometera aos Deuses se ficasse vitorioso, e nos debates subsequentes a este voto ou promessa, qual era a fidelidade dos antigos Romanos em tudo o que pertencia às suas divindades.
Donde veio pois a tantas e tão diversas nações este consentimento unânime de que se deviam pagar à Divindade, ou verdadeira ou reputada como tal, os dízimos, não só dos frutos da terra, porém de todos os boné adventícios, sem exceptuar os próprios colhidos na guerra aos inimigos?
Se este consentimento não é expressão clara e inteligível dos sentimentos da natureza, que outro nome lhe daremos? Será acaso esta reunião de pareceres e vontades? Acaso é sempre o subterfúgio dos tolos, que não ficará bem aos verdadeiros filhos da Luz... Será bebida nos livros sagrados dos Judeus? Não é admissível esta doutrina para quem sabe que muitos dos factos apontados são anteriores à primeira Tradução Grega do Antigo Testamento, e por isso deixemos aos Pedreiros a tarefa de examinarem as coisas verdadeiras deste fenómeno religioso, e aos falsos Cristãos, que furtam os dízimos, e não querem pagá-los, a mais vergonhosa inferioridade aos próprios Gentios.
Não era dificultoso juntar novos testemunhos, de que nem veio nunca à imaginação dos povos antigos que os bens liados aos serviço dos templos estivessem dependentes da fantástica Soberania do Povo, antes este olhou constantemente como sacrílegos até os próprios, que sob o pretexto de extrema necessidade se apropriaram do que fora primitivamente oferecido à Divindade. Quem sabe o horror de todas as Nações ao sacrilégio, que nem aos próprios heróis e Reis, coo Hercules, e Dionísio o Tirano perdoava estas violações de uma propriedade firmíssima e sagrada, e tem lido nas orações de Cícero o que foram de mal vistas e censuradas acremente as depredações de alguns Procônsules Romanos, que atentaram contra o que era sagrado, ou havido nesta conta, ficará plenamente convencido de que todo o esforço por se mostrar que os bens da Igreja não são nacionais é a mais severa repreensão do tenebroso século, em que tivemos a desgraça de nascer e presenciar tantas cenas de desprezo das coisas sagradas, e de indiferença para tudo o que mais importava que fosse tratado com o profundo acatamento, que merecem todas as coisas onde se imprimiu o caracter augusto de única-verdadeira Religião, que não tem de presente maiores inimigos que seus próprios, mas degenerados filhos.

(continuação, III parte)

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