16/04/18

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº17 (I)

O PUNHAL DOS CORCUNDAS

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Nº. 17
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Ostendam gentibus nuditatem tuam

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DEMOSTRAÇÃO DA IGNORÂNCIA, DA MÁ FÈ, E DA PERVERSIDADE COM QUE OS MAÇÔES PROCEDEM NA FAMIGERADA QUESTÃO SOBRE A NATUREZA DOS BENS ECLESIÁSTICOS


PRELÚDIO

Entre os outros ardis e maranhas de que lançaram mão as seitas modernas para o ataque geral e desesperado contra o maior bem do género humano, que é a Divina Religião de Jesus Cristo, sem a qual seria de presente mui difícil estremar os homens das mais embravecidas feras, tratou-se com singular afinco e perseverança de eliminar das aulas, exercícios e certames literários o método escolástico. Obrigava este a uma precisão e dedução tal de princípios, que seria impraticável sustentar-se qualquer opinião sobre que se tivessem feito estudos superficiais; e como além disto era inimigo de atavios e enfeites, e amava somente a verdade numa e crua, de que arte poderia servir a homens cuja ciência era toda fundada em castelos de vento, recheada de imposturas, e naturalmente inimiga da Polémica, isto é de se meter ao fogo? Pretextarão ou fingirão meter nas aulas o método socrático, de que logo mostraram não ter a menor ideia, pois quando nos é permitido alcançar dos Diálogos referidos por Xenofonte, Platão, e outros, aquele homem a certos respeitos extraordinário, e diante de quem são zero os mais decantados filósofos modernos, era consequente nos meus princípios, não divagavam fora da questão, e as suas ideias levavam sempre o caminho direito para a verdade, do qual se extraviavam quando mais não podia ser, e lhes faltava absolutamente o único farol que os livraria de enganos, e a que mais sábios dos Atenienses se mostraria mais agraciado que os nossos Filósofos se tivera a fortuna de o conhecer. Não haja medo que os nosso Sabichões Pedreiros queriam disputas em forma, nem o antigo estilo do objicies primo, objicies secundo. Cheira-lhes tudo isto a um ranço intolerável, e da mesma sorte que um estudo de mês e meio os fez sábios, autores, e oráculos da Nação, também um risinho de dois segundos os livra de se meterem em camisas de onze varas, isto é, na forma silogística, de que sairiam não só pouco airosos, mas até envergonhados e corridos. Enfim no que respeita à sabença dos modernos tenho assentado numa analogia, que a meu ver é exactíssima. Quando os homens estudavam por livros grandes, por livros in folio, saiam homens grandes, homens in folio (magni in folio); porém logo que principiaram a ter séquito os livros pequeninos, e muito enfeitadinhos, saíram os homens pequeninos em ciência, apesar de enfeitados de ouropel, missangas, e outras quinquilharias; aquela matrona que devia respirar em tudo decência, compostura, e gravidade, apareceu nos trajes de uma desenvolta e ridícula prostituta. Serei eu acaso um defensor do método escolástico, e tratarei de o vingar até em seus próprios abusos, e nas intrincadas e ociosas questões com que ele enredou singularmente a Dialética e Metafísica, donde passaram e se comunicaram infelizmente à própria Teologia? Não, e Deus me livre de tal ideia; sustento porém, e sustentarei sempre, que o método escolástico, fosse como fosse, ao menos era método; e eu hoje no modo por que se levam ordinariamente as questões, na rude e indigesta máquina de espécies amontoadas fora de propósito, e nas misérrimas evasivas que se costumam dar aos argumentos em contrário, não posso ver nem sequer uns longes do método socrático, aliás excelente para se descobrir e sustentar a verdade, quando os combatentes são judiciosos, estudaram a matéria, procedem de boa fé, e pretendem aclarar, e não confundir ou escrever.

Tenho pois dado a minha satisfação aos leitores sisudos, para que não estranhem a nova ordem que intento guardar na presente discussão. No que toca aos Pedreiros, Iluminados, Liberais, Radicais (e tudo o mais que acaba, e deve por certo acabar em ais!!!), serei tanto mais afortunado, quanto for maior a estranheza que eu lhes fizer; pois eu, que por cartas anónimas (as quais brevemente hão de sair a lume para crédito imortal da Seita) sou o maior dos profanos, ignorante chapado, porque não sou iniciado nos mistérios grandes e pequenos da nova Ceres Eleusina, ou da sapientíssima Jardinagem, obrarei sempre como quem sou, como parecido aos Gregos na falta de honra e probidade, e terei dado no vinte quando faça enraivecer a maldita Pedreirada.

Começarei pois de estabelecer uma tese geral, e de a ilustrar com as mais escolhidas provas (que será lástima serem deduzidas de outra parte que não seja a única ciência humana, e ciência dos gafanhotos, mas que lhe hei-de eu fazer se esta minha inimizade com a luz já agora tem de fazer-me companhia até à sepultura?) Proporei as objecções principais da Maçonaria; aparecerá e dançará na corda (ah! que gravíssimos danos, que males hoje irreparáveis se teriam poupado se Luís XVI tivesse feito arcabuzear ou dançar por uma vez na corda o Excelentíssimo Conde de Mirabeau, de quem eu falo, quando as leis e uma sentença formal o condenavam à morte, que ele merecia de sobejo!!)

O mais fino que se havia dito na Assembleia Nacional de França contra a propriedade dos bens da Igreja, ainda que já velho e sediço, entrará hoje em cena com seu vestidinho francês, que só ele cativa os nossos papalvos, assim como a devassidão de seus autores é uma eficacíssima e irresistível carta de recomendação para muitos dos nossos Mondeguistas...

(continuação, II parte)

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