27/03/18

NOSSA SENHORA DA GARDUNHA (II)

(continuação da I parte)


A sumptuosa fábrica, que aqui edificou o Autor da natureza para morada de sua Mãe Santíssima, e para amparo, e casa de refúgio, dos que a ela recorrem a buscar os seus favores, merecia uma melhor pena que a descrevesse, e que com todas as circunstâncias a tratasse, porque há muitas de que se devia fazer caso; mas como o meu assunto é somente referir os Santuários de passagem, assim o farei com este, o que é nesta maneira. Sobre o mais alto da Serra da Gardinha, uma légua de Castelo Novo, e outra de Alpedrinha, e pouco mais de outra dos lugares de Alcongosta, Alcaide, Souto da Casa, e Castelejo, se levanta uma penha acumulada de monstruosas pedras, a modo de pirâmide, e em circuito, altura, e distância de uma milha. No meio desta distância, para a parte do Ocidente, se descobre uma lhanura, ou terrapleno, que mais parece que o fabricou a arte, que a natureza. Desta parte se mostra uma boca, que do pé da mesma penha forma uma entrada, como porta de uma casa de abobada, e tão alta, que por ela cabia muito bem um guião arvorado no tempo das romagens, que das vilas, e lugares concorriam a visitar a Senhora em Procissão: suposto, que já agora não é tão alta a entrada; porque o Ilustríssimo Bispo da Guarda D. Luís da Silva (hoje Arcebispo de Évora) indo a visitar aquele Santuário, lhe mandou fabricar um formoso portado de pedra lavrada.

Depois da entrada vai fazendo por dentro (toda ao nível) uma airosa, e clara concavidade por todos os quatro lados, a modo de corpo de Igreja tão espaçosa, que cabe nela a maior parte do povo nos dias principais de suas romagens, e celebridades. O que mais admira é, que na extremidade deste corpo fez a natureza dois braços colaterais, onde está um Altar em que se diz Missa, que chamam o Altar de fora, e estreitando-se logo com outra entrada que tem suas grades de ferro, vai prosseguindo mais estreita como Capela até ao Altar mor, em que também se diz Missa, onde está o nicho da Senhora, ficando toda esta distância coberta de um côncavo rochedo a modo de abóbada, a que serve de zimbório, e obelisco o remate da mesma penha. Não sei que se possa referir de outra Casa da Senhora, nem que haja outra maravilha mais rara. Porque se nas fábricas do Loreto, Monserrate, e Pilar de Saragoça intervieram os Anjos, e na fábrica das outras intervieram os homens; na fábrica deste Templo, e desta Capela, podemos dizer, que interveio a mesma Senhora, e o mesmo Artífice supremo, fazendo-a muito de propósito para deposito daquela Sagrada Imagem.

E não parecerá coisa nova assistir Maria Santíssima às grandes fábricas do universo, pois nos diz o Espírito Santo nos Provérbios: Quando appendebat fundamenta terrae, cum eo eram cuncta componens; que ela em sua companhia compusera, e formara todas as coisas. O terrapleno desta penha, e entrada da Igreja da Senhora da Serra, está cercada de algumas Capelas, e Ermidas bem ornadas; e algumas Celas, que um Ermitão devoto fabricou à sua custa, para viver, com um poço de água perene. Está também ali uma cova, onde viveu outro Ermitão Sacerdote por algum tempo, onde fazia rigorosa penitência, e uma santa vida, até que depois, por causa de achaques, lhe foi preciso fazer uma Cela, que é a de que agora usam, e onde vivem os Ermitões. A Imagem da Senhora tem três palmos de altura, e a matéria é pedra rija, mas de muito excelente escultura. Porém a piedade, e a devoção dos que a servem a têm vestida, e adornada de preciosos vestidos. Da Senhora da Serra escreveu a nossa instância, o que fica referido da Senhora, e de outras Imagens, o Doutor José Salvado Cinza, Médico [+1694] de Alpedrinha. Concorrem a festejar a Senhora os três povos de Castelo Novo, Alpedrinha, e Alcongosta, em procissão nas Oitavas da Páscoa, e cada um destes povos faz seu dia, com Missa cantada, e Sermão.

SEMANA SANTA - de Sto. Afonso de Ligório


Em 2016 publicámos a Semana Santa de Sto. Afonso de Ligório. Este ano voltamos a recomendar:

DOMINGO DE RAMOS
SEGUNDA FEIRA SANTA
SEXTA FEIRA SANTA, de TARDE
SÁBADO SANTO (Manhã, e Tarde)

NOSSA SENHORA DA GARDUNHA (I)

Serra da Gardunha

TITULO XII
Da milagrosa Imagem de nossa Senhora da Serra da Gardunha

Entre as Vilas de São Vicente da Beira, que fica para a parte Sul, e dista de Castelo Branco cinco léguas ao Noroeste, e as Vilas de Castelo Novo, e a de Alpedrinha, da parte do Nascente, e a Vila da Covilhã da parte do Norte, e os lugares do Souto da Casa, Castelejo do termo da mesma Vila da Covilhã, da parte do Ocidente, se levanta uma grande Serra (muito mais digna de nome, e fama que a da Estrela tão nomeada), que lhe fica em distância de cinco léguas; senão é que a quiseram compreender nela como braço seu. Esta se vê cercada de muitos lugares, e povoações, como são (além das Vilas, e lugares nomeados) os muitos lugares dos temos das mesmas Vilas de São Vicente, Castelo Novo, Alpedrinha, Covilhã, Alcaide, Alcongosta, e outros que não têm número. Fica-lhe também diante de sete léguas a antiga Egitânia, hoje Idanha a Velha, que foi uma das mais nobres, e populosas Cidades de Espanha, ao redor da qual se vê uma grande campina, a que chamam os campos de Idanha, semeados de lugares, e castelos, que foram povoados, e edificados (como outros mais afastados) das ruinas da mesma Egitânia, e de outros do seu circuito, como são a Cidade da Guarda distante dez léguas, que lhe sucedeu na Igreja Episcopal, a Vila de Penamacor, Penagracia, Monsanto, Idanha a Nova, Segura, e Salvaterra. 

Esta Serra, que melhor lhe convinha o nome de um agregado de jardins pelo vistoso de suas árvores, e delicioso de suas fontes, e regatos, adornada de muitas ervas cheirosas, e árvores, que tendo o nome de silvestres, por serem nascidas espontaneamente, ou plantadas pelo soberano Agricultor, são domésticas pelas excelentes frutas que produzem; outras plantas, e cultivadas pela indústria dos homens, de tão diversos, e regalados frutos, e de tão suaves, e extraordinários gostos, que servem de admiração; como são os verdeais, as camoezas, capanduas, repinaldos, ginjas garrafais, e outras muitas frutas em tanta quantidade, que não só provém a muita parte deste Reino, mas de Castela.

Nesta serra pois levantaram os Cavaleiros Templários um Castelo, ou Convento (porque foram muitos os que fundaram na Província da Beira). Um destes Conventos foi o da Serra da Gardunha, que na língua Arábica, donde tomou o nome, quer dizer, acolhimento da Idanha; porque guarda, significa acolhimento: odunha, ou odonha por corrupção de vocabulário vale o mesmo que Idanha, a que parece não chegava a pronuncia dos Mouros. E a razão de se lhe dar este nome foi; porque sendo combatida, e devastada por eles a Idanha, ou Egitânia, seus moradores, e os dasw terras do seu contorno se acholheram àquela Serra como a castelo, e um presidio forte de onde se podiam defender.

Nesta ocasião levaram os moradores da velha Idanha, em sua companhia, uma devotíssima Imagem da Mãe de Deus, que tiraram de uma das sua Igrejas, que parece já naqueles tempos resplandecia em milagres, e com ela alegres, ou animados se davam por seguros, para se defenderem de seus inimigos os Bárbaros. Já este tempo estavam os Cavaleiros do Templo nesta Serra, e nela se defendiam, e aos Cristãos das correrias dos Mouros; até que ElRei D. Sancho I edificou a Cidade da Guarda, para onde se passaram os moradores, que da Idanha ainda ali residiam. No ano de 1199, assenta o Pe. Mestre Fr. António Brandão na sua IV parte do Mon. Lus. que fizera da acção ElRei D. Sancho I à Ordem dos Templários da Cidade das Idanha, já habitada outra vez dos Cristãos. E no mesmo ano, diz, dera foral o mesmo Rei à Cidade da Guarda, para onde havia passado a Cadeira Episcopal da Idanha.

Passados à Guarda os que viviam na Serra da Gardunha, deviam ficar ainda na mesma Serra os Cavaleiros, ou fosse que passando a povoar a Idanha, em virtude da doação feita à Ordem em 5 de Julho de 1199 ficou a Santa Imagem ainda na sua Casa, que lhe haviam fabricado os da Idanha; e ao depois invadindo os Mouros a Serra, esconderam os Cristãos a Santa Imagem na lapa onde depois foi servida de se manifestar.

Foi o caso, que perdendo-se uma menina de Alcongosta da companhia de sua mãe, que em uma tarde havia saído a buscar lenha a esta Serra, lá foi achar o seu cuidadoso desvelo, depois de nove dias, junto a uma penha, ou dentro de uma lapa, que servia de Casa, e de Altar àquela soberana Imagem; e vendo-a a mãe viva, quando a considerava já tragada de alguma fera, lhe perguntou com admiração onde estivera, e quem a sustentara: ao que a menina respondeu, que fora um Senhora Tia, que naquela Casa morava, apontando com o dedo para a lapa, e que lhe dava sopas de leite a comer, e água por uma campainha onde entrando a mulher, descobriu aquele precioso tesouro da Imagem da Senhora posta no mesmo Altar, que era o último pendor da lapa, e nicho em que hoje é servida, e venerada; mas admirável pelo estranho da natureza, que pelo magnifico e sumptuoso da arte.

Deu a mulher notícia da preciosa dracma, que achara, ao Prior de Alcongosta sua terra, e ele foi o primeiro que a foi buscar, e venerar, convocando o Clero, e povo, e a levaram com grande festa, e alegria de todos para a Matriz de Alcongosta, e a colocaram no Altar mór, que é dedicada esta Igreja à Conceição da Senhora. Daqui procedeu o ficarem os Priores daquele lugar com a posse da Senhora, e juntamente com as ofertas, e emolumento daquele Casa, que fica distante de Alcongosta uma légua, e não o ficarem os Priores das Igrejas de Castelo Novo, e Alpedrinha, sobre que se referem algumas patranhas, como a de fugir a Senhora para a Igreja de Alcongosta, e estar nela mais um dia, do que nas outras. Aqui começou logo a Senhora a resplandecer em milagres, e maravilhas, e tantas, que era aquela lapa uma perene piscina de saúde.

(continuação, II parte)

25/03/18

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CDLXXI

Sermão sobre Sta. Teresa de Ávila em dia de Ramos - "PRO MULTIS"


§II

345. Declara melhor o que tenho daquele soberano Juiz, e Senhor Sacramentado, em outro sucesso milagroso, e raro, e foi, que comungando Teresa aquele divino Pão em dia de Ramos, antes que passasse a forma Sagrada ao estômago, ficou com grande suspensão, da qual como volvesse em si depois de um espaço, lhe pareceu que verdadeiramente tinha toda a boca cheia de sangue, e a si mesma, e que todo os seu rosto, e toda ela estava banhada no mesmo sangue tão quente, como se então se acabara de derramar. Era excessiva a suavidade, que com este divino banho sentia, e disse-lhe o Senhor: Filha eu quero, que o meu sangue te aproveite, e não haja medo, que te falte minha misericórdia. Eu o derramei com muitas dores, e tu o gozas com grande deleite; como o vez. (46) Há maior maravilha? Há maior fineza? Há prova mais clara para confirmar o discurso em que estamos, e nossa matéria? O sangue que derramou Cristo por todos, e pela redenção de todo o mundo; e agora o lemos derramado só por Teresa. E que o extremo que Cristo o obrou por todo o mundo, o obrasse só por Teresa, e a maior maravilha, obrar só por Teresa o extremo, que tinha obrado por todos, a publica a mais amada, e uma que vale por tudo na estimação Divina.

346. Entre mortais agonias se via o Amorosíssimo, e Amabilíssimo Redentor do mundo no Horto. Tão mortal foi o seu sentimento, que se viu às portas da morte, e correu o sangue, como a preparar-lhe na terra a sepultura: Factus est ejus, sicut guttae sanguinis decurrentis in terram. (47) Razão foi esta porque Hildeberto chamou a esta agonia Cruz antes da Cruz, ou morte antes da morte: Sanguineus sudor Crux fuit ante Crucem (48) Agora o maior reparo: se uma morte na Cruz do Calvário bastava para redemir, e remediar todo o mundo; para que fez Cristo este antecipado extremo de derramar o sangue na cruz do Horto? É, que o sangue, que derramou na cruz do Calvário, era para todos, e por todos: Redimisti nos in Sanguine tuo. Per crucem tua redimiste mundum. Porém o sangue, que derramou na cruz do Horto, era para remediar os seus amados Discípulos: Ut fidem, videlicet, Discipulorum, quam terrena adhuc fragilitas arguebat, suo sanguine purgaret. (49) Maior dúvida. Pois o mesmo sangue derramado na cruz do Calvário, não era bastante para remédio dos Discípulos, e de todos? É certo, que sim. Pois para que era repetir, e antecipar a efusão do sangue na cruz do Horto? É, que eram os Discípulos os mais amados; e uns que seu amor parece, que avaliava por todos; pois na ceia, quando os tinha pelos pés, e nas palmas: Caepit lavare, disse o Evangelista, que tinha nas mãos a todos: Omnia, dedit ei Pater in manus: Omnia, idest homines. Comenta Jerónimo; e para os publicar por tais, achou seu amor necessário, singularizá-los no benefício. Em benefício comum derramou Cristo no Calvário o sangue, e o que aqui fez por todos, fez seu amor no Horto singularmente pelos mais amados Discípulos; mostrando, que a singularidade com que por eles derramava o sangue era a mais singular prova para mostrar o muito, e singular amor, que lhe tinha; que eles eram uns, que o seu amor avaliava por todos; pois só por eles obrava o que pelo bem se todos fazia: Sanguineus sudor crux fuit ante crucem. Ut fidem Discipulorum suo sanguine purgaret.

347. Escuso aplicar o texto ao nosso intento, porque é trabalho supérfluo. Passo a confirmar o pensamento com as palavras que disse aquele Senhor, quando instituiu aquela divina iguaria, o qual falando do seu sangue disse: Hic est enim sanguis meus, qui pro multis essundetur. (50) E em São Lucas disse: Qui pro vobis essundetur. (51) Num Evangelista diz; este é o meu sangue, que será derramado por muitos: Pro multis essundetur, em outro Evangelista diz que o sangue será derramado pelos Apóstolos: Pro vobis essundetur; e que mistério tem dizer Pró vobis, e pro multis? Em dizer que seria derramado o sangue por todos se dizia, que seria derramado pelos Apóstolos. Parece logo supérflua a palavra Pro vobis. Notem, que assim como diz Pro vobis, e pro multis, também diz: Essundetur, e essunditur, como está no Grego. (52) Derramou Cristo o sangue na Cruz por todos: Pro multis essundetur, e derramou só pelos Discípulos no Cenáculo: Pró vobis essunditur. In Sacramento altaris sub speci vini dum sumitur (53) Para mostrar os Discípulos mais amados, quis fazer por sós eles a efusão do sangue, que havia de fazer por todos; mostrando em isto o seu amor os avaliava por todos os Justos: Pro vobis, pro multis; pois só por eles derramava no Cenáculo o sangue, e chegava a fazer o extremo, que por todos na Cruz havia de obrar: Qui pro multis essundetur, pro vobis essunditur. Assim Cristo, quando quis dar o maior testemunho, de como os seus Discípulos eram do seu amor o maior emprenho: Cum dilexisset suos in finem delexit eos; (54) Para publicar como eles eram o maior desvelo do seu amor, declarou  como eles na sua estimação valiam por todos os Justos: Omnia idest homines; e para declarar isto não achou prova mais evidente, que derramar só por eles no Horto, e no Cenáculo o sangue, que derramou por todos no Calvário. Assim também o mesmo Cristo, para declarar o muito, que a Teresa amava, derramou o sangue só por ela; e fazendo só por ela o extremo que por todos obrara, a publicou mais amada, e uma que valia por todos na estimação Divina. (do IV sermão de Fr. António de Santo Eliseu, no II tomo do Estrela Dalva, 1740)

10/03/18

O BOM CRISTÃO É PATRIOTA - ESPANHA OCUPADA


O patriotismo não é facultativo aos católicos
.

O Patriotismo vem na sequência do mandamento "Honrar pai e Mãe e outros legítimos superiores", diz a Igreja. Este mandamento em todas as suas derivações é hoje muito abandonado e transgredido; daqui que não admira que também as consequências se manifestem tão visivelmente. A falta de patriotismo, a desobediência e desonra aos legítimos superiores e aos pais é tão notória hoje quanto o são os castigos e ameaças correspondentes.

O mundo cristão está a sofrer uma invasão programada, a mais cruel já vista; pois é silenciosa, não nos é dado o direito de voz, nem alternativa, nem defesa, nem coisa alguma que não seja a de aceitar o dito programa de auto-extinção!

Quem sabendo isto não  deve preocupação grave?

Podia ser sobre outros tantos países, mas este vídeo é sobre a ocupação que está sendo feita em Espanha:



06/03/18

NA SERRA ALTA - Quando a Pureza da Fé Deixa de Estar na Frente


"O Concílio Vaticano II é reflexo de um período anterior característico, em que pensamento católico mitigado, modernismo, liberalismo, activismo crescente, voluntarismo etc. coabitaram no mesmo espaço dos Sacramentos tradicionais, Magistério,etc.. Isto pode ser melhor considerado quanto mais atendermos à diferença de situações de cada região no mundo católico. (...) Com o anúncio do Concílio, os Bispos desejaram uma ampla reforma que travasse a propagação de erros, apurando e definindo. Contudo, estava também armado o aggiornamento, quer por forças externas, quer internas não oficiais eclesiásticas, e leigas."

(na serra alta - J. Antunes)

27/02/18

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº10 (V)

(continuação da IV parte)

1ª Letras humanas


Direi só uma palavra, sendo-me fácil dizer muitas ao caso... O estudo das Línguas orientais no conceito da Europa sábia é de absoluta necessidade para quem capricha de se estremar dos Hotentotes, e Caraíbas. Quem soube, e sabe a fundo neste Reino a Língua Santa, a Língua Hebraica, se não os Frades? Se me vierem à mão com um dos mais egrégios sabedores desta Língua em nossos tempos, que era Cónego Secular do Evangelista, e morreu Bispo do Funchal, respondo que esse mesmo entra facilmente na regra geral que assinei tratando dos filhos de S. Filipe Néri, e S. Vicente de Paulo...

Quem duvida que o conhecimento da Língua Árabe é importantíssimo nesta Monarquia por amor das nossas relações com as Regências Barbacenas, em que vai muito a segurança do nosso Comércio, e o recobrarem a sua liberdade muitos dos nossos Compatriotas, que gemem nos ferros, e masmorras de Argel? Quem são os sabedores desta Língua? Os Frades da Terceira Ordem, e que por sinal as Côrtes Ordinárias tiraram ou furtaram o que lhes pertencia, e eles tinham ganhado à custa de mim trabalhos e perigos; e notarei de passagem que se a Academia Real das Ciências de Lisboa atraiu recentemente os louvores da Petropolitana deve-o aos escritos de um Frade mui perito nesta Língua.

2ª Agricultura

Dá-se uma volta, por todo o Reino, e onde influem, ou dominam Frades, aparece tudo no maior auge de perfeição, e cultura, empregam-se muitos braços, e subsiste muita gente de se aplanarem montanhas escabrosas, e até vive uma infinidade de pedreiros de se construirem grossas paredes, que obstem à fúria das correntes, e das inundações. As próprias terras, que pagam quarto e dízimo,  longe de serem abandonadas recriam os olhos pela sua formosura, e enchem os celeiros do Lavrador pela sua abundância. Comparem-se as quintas dos Jesuítas no seu estado actual ao que já foram algum dia, e ficará o ponto da agricultura resolvido de maneira, que não possa admitir mais objecção ou réplica.

3ª Socorro aos pobres, aos mendigos, aos enfermos, e a toda a casta de infelizes...

Há Ordens Religiosas especialmente destinadas para a redenção dos cativos, e para assistirem aos enfermos, e às Heroínas Cristãs filhas de S. Vicente de Paulo começam de assombrar a Capital do Reino com os prodígios de caridade já vulgares no resto da Europa. Ora neste particular quem será tão cego, e tão ousado, que negue os quotidianos bens físicos que as Ordens Monásticas e Mendicantes fazem de contínuo à pobreza? Haja vista às portarias dos Frades na hora de jantar, e ainda o que se vê, e admira, é o menos.... Haja vista aos remédios que se distribuem gratuitamente das suas boticas para os enfermos necessitados, haja as avultadas porções de alimentos que saem para muitas pessoas honestas e recolhidas; e se pudessem ver-se outras esmolas feitas no espírito do Evangelho, sem a esquerda saber o que faz a direita; esmolas não só das comunidades, mas também dos particulares; esmolas, que tantas vezes arrancam a pobre donzela das garras da indigência e do demónio, e livram a triste viúva de ver expirando à fome os seus queridos filhos... apareceria uma soma de benefícios capaz de impor silêncio aos maldizentes, e aos Pedreiros....

Mosteiro de S. Cruz de Coimbra, eu desafio todas as Casas Seculares, e Episcopais deste Reino para me apresentarem um só rival que chegue a ombrear contigo, e só me daria por vencido quando se pudesse mostrar, o que é impossível, que tu não és como o primeiro delegado da Providência na Cidade que te conhece te respeita, e que te professa um amor tão justo como encendido!!

4ª Ciência

Os Frades não sobressaem em todas, porque os não deixam matricular em todas. - Fossem Canonistas, e Legistas, assim como são Teólogos, e veríamos... Que progressos não fizeram na própria Faculdade de Medicina os Frades de S. João de Deus, enquanto lhe não fecharam a porta!! Se lançarmos uma vista de olhos para a Ciência que menos tolerava admitir Frades no seu grémio (que a dizer a verdade nem Rogério Boschovich era para a indispor contra os Frades, nem ao seu Criador neste Reino se podia tirar a nódoa Jesuítica) veremos que sendo necessário dar-lhe impulso e vida, entram nela um Frade Bento, um Frade Grilo, e um Frade de S. João de Deus.

Não me foge ao concluir, uma certa objecção que algum dos que presumem de oculatíssimos poderá fazer-me, e é que injuriei o Clero Secular no que tenho expendido!!! Olhe, meu tolinho, meu Pedreiro disfarçado, fiz ao Clero onde conheço muitos, e mui virtuosos Membros, e onde conheci e tratei de perto um D. Manuel de Aguiar, a mesma injúria que podia fazer aos Frades, quem ao ver o estado actual das nossas Missões Americanas se pusesse a gritar. Enfim venha quem vier... só Jesuítas faziam aqui milagres.... tudo aqui mostra e confirma, que Deus Nosso Senhor roborou a sua Igreja com o subsídio que lhe trouxe o glorioso S. Inácio.

Sobre Frades essenciais ou não essenciais à Igreja, sobre o não haver Frades na Igreja Primitiva, e sobre a propriedade nacional dos bens Fradescos, ainda se falará conforme a importância do sujeito, mas importa agora combater mais directamente os Pedreiros Livres.

Conclusão

O Despotismo é sempre abominável para mim, que lhe professo aquele horror, para que a razão e o Evangelho de sobejo me autorizam.

Quer ele me apareça vestido de farrapos constitucionais, quer de fardas azuis, ou vermelhas ricamente agaloadas, quer de púrpura, há-de ser o eterno sítio da minha indignação, e do meu desprezo. Nunca hei-de fazer tréguas com ele, ainda que me seja necessário mudar de pátria.... Por dois instantes, que me restam para viver, confio em Deus que me assistirá com os seus dons para nunca desmentir o meu carácter, e os meus princípios. Em França há Monges de S. Bernardo, e é quanto basta para quem não quer mais nada deste mundo.... Ninguém pois se deve ter por mais autorizado que eu para ser um eco da pura verdade.

Quando acabaram de crer os Reis da Europa que sobejas vezes têm sido enganados por seus Ministros, infames adeptos do Maçonismo, que tudo é carregar sobre os Frades, arrancar-lhes até os olhos da cara, enquanto eles se tratam à grande, e levantam casas mui opulentas à causa de uma venalidade, que seria indecorosa nos próprios gabinetes de Nero, e Calígula? Que serviços tem para alegrar as suas respectivas nações, que eles fizeram governar por Ateus, e Pedreiros Livres, dando-lhes os empregos mais honrosos e lucrativos, e porventura assinando a condição sine qua de ser Pedreiro Livre para entrar nos Ministérios Eclesiásticos, e Civis? Homens grimpas, e versáteis como as suas ideias ambiciosas, que só estas fazem a mola real de todos os seus procedimentos, são de ordinário os primeiros, que, fechando as bolsas quando se trata de acudir às necessidades da pátria, tudo é denunciarem os bens dos Frades, que muito embora pereçam de forme, em paga de terem sustentado o peso da indignação maçónica!!

Não é de presumir que entre nestas generalidades o Rei de Portugal, que tem um Soberano cordial amigo dos seus Povos, e sinceramente apegado às instituições antigas, e que (eu o afianço aos bons Portugueses) não ama os Pedreiros Livres, como se irá vendo cada vez melhor pelo decurso dos tempos. Ninguém sabe melhor que ele a que ponto subiram nesta época os sentimentos de lealdade nas Ordens Religiosas.... Quem premeia largamente os que só por breves horas desembainharam a espada a favor da Monarquia, não terá ânimo de castigar as Ordens Religiosas, por lhe terem sido extremamente fiéis, e por terem passado três anos de mortal agonia sempre com o cutelo na garganta, e prontas para o extermínio, para a desolação, e para a morte, o que lhes seria mais doce, que o apostatarem da fidelidade ao Trono. As Ordens Religiosas acham-se de todo exaustas; os povos ou foram exonerados pelas Côrtes de pagarem metade, ou para melhor dizer tacitamente o foram de pagarem um só real que fosse, pois a tanto chegaram os extremos do ódio, e da perseguição! (*) Gravalhas, e oprimi-las de novo será o mesmo que condená-las a um género de morte por ventura mais consumidor e mais tirano, do que esse que ameaçava infligir-nos o Sistema Constitucional; e aliviá-las será dar um devido prémio por sua fidelidade à Religião e ao Trono, e pelas injúrias e perseguições, que resignadamente sofreram: daqui resultaria uma grande utilidade pública, e um grande aumento à defecada agricultura, que assim como tem encontrado nos claustros o seu maior progresso, acharia também agora neles o seu restabelecimento; aliás virá a sentir em muitas Províncias as convulsões de um moribundo, com notável prejuízo do Reino: o que será um tremendo golpe sobre o mais interessante ramo da opulência nacional.

(continuação, VI parte)

26/02/18

SEM "MÚSICA FAST-FOOD" - PORTUGAL


A 13 de Maio de 2017, a canção portuguesa "amar pelos dois" venceu o Eurovision Song Contest , foi cantada em português (o que faz ainda mais admirar), e obtendo o record histórico de pontuação desde 1956.

A quem é de fora convém saber que este festival da Eurovisão acontece na Europa como evento musical com mais auditório; nele compete uma canção de cada país; tem entre os europeus mais de meio século, é um acontecimento de encontro (infelizmente, o seu controle tem sido apetecível aos grupos ideológicos que se tentam impor).

Qual foi o segredo do estrondoso sucesso da canção portuguesa, que mesmo sem tradução é cantada por vários fãs por todo o mundo? Adianto um: não haver instrumentos eléctricos!

No momento da vitória o intérprete Salvador Sobral incentivou os europeus a fugirem da linha de "música fast food". A composição é realmente bela e simples, e da autoria de Luiza Sobral (irmã de Salvador Sobral); a orquestração de Luís Figueiredo foi também um dos motivos de sucesso.

Os candidatos para o Eurovision 2018 no geral corrigiram já a linha musical que tinha vindo a decair nos últimos anos.

O vídeo "amar pelos dois - Why it's diferente from pop music" explica tudo muito bem, e já o iremos ver. Contudo cabe discordar da parte final do vídeo: sim, é certo que as bandas de música em décadas anteriores tinham mais "sumo" que hoje, mas elas mesmas também foram a decadência da música que lhes era anterior.

O vídeo explica tudo:

 (atenção: na parte final há uma ou outra situação que pode desgastar o pudor)


18/02/18

INESPERADO - REGRESSO DA RADIO CONVICCIÓN ?


Encontrada por acaso a ligação da extinta Radio Convicción, e experimentada depois, eis que... o inesperado: o linck abriu!

Não temos grandes informações a dar do fenómeno, porque nem houve tempo para explorar o assunto. Segundo parece pela data da primeira publicação, a Radio Convicción terá reaparecido em Outubro de 2017. No site não aparece mais que publicações, não há ligação para aceder a qualquer transmissão de áudio.

Que rádio é esta? Para quem não sabe, esta foi uma rádio tradicionalista do Chile subsidiada pela FSSPX, e que tinha como maior finalidade a formação católica.

O que vai acontecer? Quem tiver notícias, informe.

17/02/18

MEMÓRIA - Dias Proibidos ao Espectáculo

Procissão do Enterro do Senhor - Braga

Dias em que são proibidos os espectáculos públicos

- Quarta feira de Cinza e em todas as Sextas feiras de Quaresma
- Desde Sábado de Lazaro até Domingo de Páscoa inclusive
- Quinta feira de Ascensão, Domingo do Espírito Santo, e dia da Procissão do Corpo de Deus da Cidade [de Lisboa - igualmente em todo o Reino]
- Nos dias 24 de Setembro, 1, 2 e 15 de Novembro, e 25 de Dezembro.
- Nos dias de luto da Côrte, por morte de Rei, Rainha ou Pessoa Real.
- Nos dias em que se fizerem preces públicas por grandes calamidades.

(Alemanaque de Lembranças Luso-Brasileiro - 1858)

Enquanto alguns Reinos se tornaram protestantes, enquanto que outros se tornaram "neutros" por dividirem o território com o protestantismo, enquanto outros estavam ocupados com a república laica, Portugal e Espanha permaneceram com leis e costumes antigos e de grande valor cujo catolicismo é a base. Em algumas cidades de Portugal, já para nem falar de Vilas e Aldeias, as manifestações púbicas religiosas continuam a ser consideradas de toda a cidade. Esta subsistência está mais amplamente manifesta na SEMANA SANTA, parte central da Quaresma.

Enquanto que em outros lados a Quaresma esteva muito limitada ao PARTICULAR, em Portugal tinha aplicação social e de Estado. Onde numa república laica, como aquela que hoje nos ocupa, se proíbem os espectáculos em dias de jejum e abstinência quaresmal?

Se abandonarmos as nossas obrigações, é mal. E se abandonarmos os nossos direitos, também é mal (não defendamos o contrato social de Rousseau, que faz razia de direitos e deveres, e distribui a todos por igual). O português, distingue.


VIA SACRA NAS RUAS DE LISBOA - 2018


Como ainda é costume em Portugal, na Quaresma a Via Sacra é feita pelas ruas, à noite, passando pelas 14 estações abrigadas em capelinhas antigas.

Em Lisboa tais capelinhas não existem nas ruas de todas as paróquias. Portanto, seria esperado ver nestes casos a realização da neo-Via Sacra de 15 estações. Mas não. No centro de Lisboa, à noite, pelas ruas, continua a Via Sacra de 14 estações, acompanhada de outros santos momentos: Confissões, Lausperene, e até Missa tradicional (segundo consta).

A Quaresma ainda mostra ser de grande importância para os portugueses. No Interior ainda se conserva a Procissão dos Penitentes (que correr riscos), a qual se manteve desde a Idade Média. A Semana Santa em Portugal e Espanha ainda mostra como para os nossos antigos um tempo da máxima gravidade, devoção, seriedade, e conversão interior.

14/02/18

CANAL PEDRO de OLIVEIRA - Actualizações - Fevereiro 2018


O Canal de Youtube PEDRO de OLIVEIRA fez um percurso positivo até ao seu último vídeo. Por acidente, 2 vídeos com partes editadas foram perdidos por motivos informáticos; estes iriam inaugurar a série BANDEIRAS (na qual se pretende mostrar a natureza e origem de bandeiras "nacionais" em Portugal e Brasil). Outros dois temas estão iniciados; sendo um uma refutação aos Rosa-Cruz em certa tese sobre o Real Convento de Mafra, e o outro sobre umas falsas aparições em Portugal.

Até ao momento há um total de 9 vídeos originais, sendo um deles uma transmissão em directo (não acessível ao público), e sendo outro a resolução de uma dúvida sobre os solstícios (também não acessível ao público).

VIDEO MAIS VISUALIZADO DE SEMPRE - "Pinhal de Leiria Sem Mistérios" (500)
VIDEO PÚBLICO MENOS VISUALIZADO DE SEMPRE - "Mix I" (200)

NO TRIMESTRE QUE DECORRE:
- o público foi 56% masculino, e 44% feminino;
- 65% do público é brasileiro, 33% é português, etc..
- o vídeo mais visto é o "Pinhal de Leiria Sem Segredos", depois o "Mix I", em seguida o "Livros II B", e o "Livros II A".

O canal vai com mais de 1900 visualizações, e 47 inscritos, que significa que cresce a modesta velocidade.

Até breve.

09/02/18

HUMOR - Covilhã homenagiada pela Rádio Comercial

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CDLXII

"DEFESA DE PORTUGAL" - AS TREVAS em PORTUGAL (d)

(continuação da parte c)

Administrar fielmente a Fazenda Real! Ora eu já deu uma coça nos Judas, mas como foi de papel, não prestou: é necessário que lhes aconteça como ao de quem fala hoje a Igreja "Suspensus crepuit medius" enforça-los, e rebentá-los. Mas quem são esses Judas? é pergunta, que há pouco me fizeram de Lisboa. Eu não estou em circunstâncias de responder "Qui intingit manum in paropside".... Todo o que siza da Fazenda Real, ou que faz para sua culpa que ela não medre, é Judas; e o que mais culpas tiver a este respeito, é o Judas maior. Mas não faltam Teólogos, Padres, e Frades, que persuadam a esses Judas que não ofendem a Deus, por muito que menoscabem a Fazenda delRei, que é o Ungido de Deus! Teólogos, Padres, e Frades dos Judas, que nas suas decisões, respostas, e na mesma administração dos Santos Sacramentos não seguem a tradição, seguem somente a razão, especialmente se esta fôr dourada, ou argumentada, ou mesmo açucarada, ou engarrafada, ou emantilhada. Pois também a razão sem tradição nos Padres Mestres! Também as trevas nesses Reverendos Provinciais, Secretários, Definidores, e mais Camerários Religiosos? Também nos Conventos não há luz?

Igreja dos Clérigos erguida em 1732 no Porto, símbolo da generosidade portuguesa para com os Clérigos mais necessitados.
Tocam as tabuletas: agora sim, agora são as mesmas trevas em pessoa: espreito os Conventos; também lá, também lá! As mesmas Freiras dos... apagarão a luz, então em trevas! Não haverão remédios? Sim: logo que cesse a matraca, se ela for bem ouvida, a luz aparecerá. O malhadismo, ou as trevas têm aparecido, e vão aparecendo por toda a parte, até mesmo onde a luz parecia inextinguível; o espírito de Satanás pôde já introduzir-se nas Eleições dos Regulares, para ali se encabeçar o erro, e o vício. Uma Abadessa Malhada! Que lições de inocência poderá dar às suas Religiosas? As suas subalternas, e adjacentes não serão também da escolha da mesma Abadessa? Não franquearam elas as portas à devassidão, e à licença? Não serão consentidas comunicações escandalosas, tratos vergonhosos? E se ainda alguma Religiosa, a quem Deus queira reservar para si, levantar a sua voz em defesa das tradições do seu Convento, não será ela abafada pela gritaria das outras, que não querem seguir mais que a sua razão, estando a sua razão somente na libertinagem? Desgraçadas as Religiosas, que vivem debaixo do Abadessado Malhado, ou das trevas, que vale o mesmo!!! Quanto a mim, a haver de sofrer um dos males, quereria antes ser governado por Malhados, que por Malhadas, porque uma Malhada é um vórtice de inconsequências, e de maldades; roda, que não para, nem há prégo, que a sujeite, enquanto não der cabo de tudo o que encontra. As Religiosas porém, que buscam remédios aos seus achaques de espírito, achá-los-hão na oração, e no sofrimento; sem embargo de que não contradiz à humildade uma súplica em termos ao Bispo, ou Governador do Bispado, se ele quiser atender às Esposas de Jesus Cristo. Mas basta de remédios de Freiras; porque não nasci eu para dissipar as trevas dos Conventos, nem para lhes tirar as suas malhas!

As trevas estarão também nos Religiosos? Como? Empunhando o Ceptro algum dos Súcios, e afilhados de José da Silva Carvalho! Tocará logo a matraca sobre os bons Religiosos! Licença à depravação, soltura às paixões, desenfreio à mocidade! Lá irá até a Ordem de S. Francisco, se Deus lhe não permitisse uma duração igual à do Mundo! Pedreiros, Constitucionais, Malhados, também nas Igrejas, nos Conventos, e empolgando os maiores Empregos!.. De certo é entregar aos inimigos da Igreja o Património da mesma Igreja! Logo que eu vejo ocupando lugar numa Congregação de Regulares algum Padre de pouca idade, de menos merecimentos, mas de muita presunção, e que já aspira a uma Mitra!!... Estou para dizer Adeus às Corporações Religiosas, se não tivesse em Deus uma esperança viva, de que não há de permitir que as trevas ocupem para sempre toda a terra! Continuam as trevas. Onde? Em uma grande Sé de Portugal! Como? Ora apalpem lá como puderem, porque isto não o vê quem deve; mas eu lho digo. Um Clérigo de mau nome em toda a extensão da palavra desde os pés até à cabeça, desde o seu nascimento até à sua elevação, procura em toda a Diocese assinaturas do Clero, Nobreza, e Povo, para que ElRei Nosso Senhor o eleja para Bispo, ou Arcebispo, ou o quer que é, que a língua não quer chegar!!! As trevas continuam, mas a Epigrafe não. Apaga-se a luz: se os Portugueses querem ver, e ouvir o que lhes convém, sigam todos os costumes, que seus Ascendentes praticavam no ano de 1732, e haverá então Justiça, e Religião; haverá Paz, e Prosperidade; haverá Rei, e Vassalos; todas as coisas estarão no seu lugar, e eu no que me cumpre, que é o da morte, para não ver tantas, e tantas coisas, que parecem inventadas pelo diabo, para não haver coisa boa. [demova-se aquele que amaldiçoa o séc. XVIII sem discriminar Reinos]

Rebordosa 18 de Abril de 1832.


Fr. Alvito Buela Pereira de Miranda

07/02/18

CONVERSAS - O RITO ROMANO


Transcrevemos de um debate no Facebook a parte final, onde o interveniente que defendeu a Missa Tradicional resumiu assim o que havia dito:

"Tradicionalista - nem há necessidade de discutir mais, porque o assunto está mais que trabalhado principalmente por outros:
1 - O Missal de Paulo VI não é nenhum melhoramento ou evolução do Missal de João XXIII. Quem o diz? O Card. Ratzinguer explica, e está publicado, que o Missal de Paulo VI não proveio da Tradição, mas que foi uma fabricação de gabinete. O próprio Mons. Bugnini, responsável na elaboração do dito missal, explica porque ele foi feito ( no seu livro "a Reforma Litúrgica"). Diz que a intenção no Missal de Paulo VI é criar uma formulação da Missa resultante da remoção de tudo o que da Fé católica pudesse não coincidir com a formulação luterana. Se até então a Igreja tinha considerado o Rito Romano como um edifício da Doutrina/Fé, com o Missal de Paulo VI todos os elementos da Fé que desautorizam a heresia protestante foram removidos (lindo! ). Por isso, os maiores críticos deste Missal não tiveram qualquer dificuldade em acha-lo "protestantizante". Além disto, também a sua elaboração foi acompanhada por 6 protestantes (depois recebidos por Paulo VI - existe a foto do momento, publicada no l'Observatore Romano) diz-se "protestantizado". Assim, como seria de esperar, e segundo o que vemos hoje, os católicos ficam abertos a "interpretações" protestantes a respeito das coisas cristãs, ou seja, verdadeiramente vítimas do escândalo que ali passivamente sofrem com a assistência àquelas Missas. Ex: a Doutrina Católica ensina que a Missa é "Santo Sacrifício", enquanto que hoje se diz e abusa de que a missa é a Ceia, e são raros os católicos que agora ouvem dizer "sacrifício".
2 - O projecto para um novo missal deste tipo não veio por via do Concílio Vaticano II, como querem dizer alguns, porque em sessão conciliar o mesmo projecto foi logo reprovado.
3 - O Missal que fixou o Rito Romano foi o chamado "de S. Pio V". 400 (ou 200!?) anos antes disto o Rito Romano tinha sido corrompido com inovações locais, aqui e ali os contaminados pela liturgice, os vaidosos "litúrgicos", e outros tantos motivos injustificáveis de inovações contrárias ao sentido e equilíbrio do Rito, produziram novas formas assentes em Missais. S. Pio V proibiu todos estes Missais alterados durante tal período, e manteve todos os mais antigos. O Missal de João XXIII não surge como uma nova formulação da Missa, mas sim como uma PUBLICAÇÃO, uma edição do Rito Romano fixado por S. Pio V, submetida (a regra é o de S. Pio V), agora com a introdução das rubricas (tipo de notas de rodapé, que antes existiam em outro livro externo), etc.. Como a regra do rito Romano na Missa é o de S. Pio V, a edição de João XXIII nunca fez a regra (o que permite por ele continuar a rezar os dois Confiteor, sem estar a violar coisa alguma). Vc. diz bem ao referir uma evolução no Rito Romano, e a Igreja o disse sempre... mas usa "evolução" como hoje o fazem os teólogos que seguiram a inovação, e perderam o anterior: com o sentido moderno marcado pelo "evolucionismo", e não segundo o pensamento católico (St. Tomás de Aquino).... vale MUITO a pena dizer algo sobre isto, e vai gostar:
a) Evolução não significa mutação, e estas são ideias na realidade opostas. Os evolucionistas dizem "evoluiu, porque mutou", e os católicos, e os clássicos sempre disseram precisamente o contrário. Repare.
b) Uma semente de roseira em POTÊNCIA contém a roseira, já com todas as características que virão etc... Quando a semente entra na terra e recebe as condições necessárias vai aparecendo gradualmente como roseira. Isto não é fruto de mutação.... isto é EVOLUÇÃO, porque gradualmente da POTÊNCIA se passa a ACTO. Evolução sempre tinha sido entendida como VÉU que cobre algo e que depois revela o que lá esteve sempre.
Passemos ao Rito Romano que foi ensinado por Nosso Senhor a S. Pedro (segundo a milenar tradição diz). A evolução que daqui podemos verificar não é mais que um desdobramento das mesmas verdades que sempre estiveram contidas no rito e que a seu tempo foram tomando visibilidade conforme a necessidade. Ex: em França nasceu a elevação da Hóstia na consagração, por necessidade que o grande espaço e quantidade de fiéis... Cristo imolado sempre foi dado em adoração, porque é aquele o momento em que está elevado na CRUZ (Santo Sacrifício da Cruz). A NÃO ELEVAÇÃO, anteriormente, expressava menos a realidade CONTIDA. Logo, é uma evolução verdadeira a precisão deste gesto associado ao Santo Sacrifício.
Parece-me o suficiente... Mas se tiver qualquer outra questão a este respeito, faça o favor de dizer."

Ainda que o autor da resposta tenha organizado as ideias por pontos, lembramos tratar-se de uma conversa de facebook, à qual há que dar o devido desconto.

Aproveitamos a ocasião para fazer uma queixa: ao queremos encontrar no Google uma foto de uma Missa Tridentina de aspecto mais SIMPLES, não conseguimos até ao momento... São todas muito brilhantes... enfim, coisas dos novos tempos! Continuaremos a procurar algo belo, mas mais sóbrio, porque faz falta.

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº10 (IV)

(continuação da III parte)

4ª Desde a perda de África até ao ano 1668

Frei Heitor Pinto - intelectual covilhanense
exilado em Castela
Abrem a cena destes infaustos dias, em que principiou a nossa escravidão, muitos Frades vítimas da sua lealdade ao Trono de seus Reis naturais; e basta-me apontar os nomes do Jerónimo Fr. Heitor Pinto, zelosíssimo propugnador dos direitos da Casa de Bragança, do Cisterciense Fr. Crisóstomo da Visitação, impertérrito seguidor da mesma causa, e que à imitação do primeiro acabou seus dias no desterro, e do ilustre Dominicano Fr. José Teixeira, que de envolta com outros Religiosos da sua Ordem foi exceptuado da amnistia que o intruso Filipe I concedera aos partidistas do Senhor D. António Prior do Crato.

Sem trocarmos agora no serviço de se fomentar por todo o Reino, e por todos os modos, a nunca interrompida afecção à Sereníssima Casa de Bragança, que maior extremo de lealdade pôde haver que o executado pelo Monge de Alcobaça Fr. António Brandão, quando se atreveu a divulgar as Cortes de Lamego, que cortavam pela raiz os supostos direitos do Rei Castelhano? Se a Monarquia surge debaixo das ruinas em que a sepultara a dominação estrangeira, acodem prontas e fervorosas as Ordens Monásticas, para lhe darem a mão--- e as rendas dos Mosteiros se empregam na justa revindicação dos nossos direitos; e quando seja necessário que os Frandes acudam aos exercícios de Marte, um frade Bernardo os afugentará da Província do Minho, e outro Frade Bernardo, pela confissão dos Autores estrangeiros, deixará em problema se lhe fica melhor o bago, se a espada.


5ª De 1668 até ao presente

Durante as épocas de segurança, de paz, de tranquilidade, assim interna como externa, custam mais a aparecer os relevantes serviços das Ordens Religiosas. A ocasião do perigo e das calamidades públicas é sempre aquela, em que melhor desenvolvem e manifestam as suas virtudes patrióticas. Eu poderia citar neste longo intervalo de mais de um século entre os Cistercienses um Historiador digno de seguir as pisadas dos Britos, e dos Brandões; entre os Theatinos uma sociedade de Atlantes, que podem com o peso do Dicionário da Língua, e da História Geanealógica da Casa Real; entre os da Terceira Ordem um D. Fr. Manuel do Cenáculo, assaz louvado quando se nomeia, e um D. Fr. Caetano Brandão, que não é só Filantropo na língua e na pena, mas que o é nas obras, aplicando os rendimentos da sua Mitra a fundações pias de todo o género, para meninos órfãos, para mulheres do mundo, para velhos doentes e estropeados, e até dando prémios a quem sobressaia em certos ramos de agricultura; cheguemos porém à Invasão Francesa, e aqui se decidirá de todo a nossa causa.

Que fizeste, Pedreiro, quando a tua Pátria se viu tantas vezes ameaçada, e afinal invadida? Mostraste uma alegria indecente e escandalosa, porque eram chegados os nossos Regeneradores; não houve serviço humilde, nem baixeza que de com grado não praticasses, a fim de teres propícios os vencedores de Marengo, e da Austerlitz...

E que fizeram os Frades? O que tu não terias ânimo de fazer, ainda que tivesses debaixo de tua chave os tesouros do Grão Mogol... Deram para a guerra quanto podiam, e mais que podiam; e tal Corporação houve, que se empenhou em mais de duzentos mil cruzados para coadjuvar o Estado (Alcobaça), e para não ficarmos regidos pelo Código Napoleónico, já muito bem traduzido em linguagem pelo sábio Jurisconsule Moura, que assim veio escarrado no então oráculo das Nações Europeias, o Monitor...

Este punhal, por mais que corte e despedace, nunca se lhe embotam os fios, e ainda vai fazer das suas na

Conclusão

Contribuir tão poderosa como eficazmente para a fundação da Monarquia Portuguesa; não só dirigir, mas executar com as próprias mãos os trabalhos mais pesados da agricultura; promover os estudos neste Reino à custa da própria fazenda; sair a campo não só com os dinheiros, mas também com risco das próprias vidas, todas as vezes que Portugal foi ameaçado de perder a sua gloriosa independência; opor um muro de bronze à tentativas de heresia e da impiedade, assim no século XVI, como nos séculos XVIII e XIX; civilizar nações estranhas, e conseguintemente sujeitá-las de bom grado à nossa Monarquia... Tais são os nossos títulos abonados por inumeráveis Escritores, e presenciados por uma infinidade de testemunhas...

Pedreiros, quais são os vossos? No curto espaço de menos de três anos, em que vossas mãos trémulas e incapazes de tudo o que é bom, sustentaram o leme dos negócios públicos, foi acima das areias do mar o de vossos delírios e atrocidades... Se continuais um ano só que fosse... nunca mais seríamos Portugueses... A vossa infâmia e a vossa incapacidade acham-se escritas de maneira indelével na desmembração do Brasil, no deficit enorme das rendas públicas, e no esgotamento da riqueza nacional; e será mais fácil meter o mar numa concha, ou fazer do preto branco, do que mostrar, ainda sofisticamente, que sois ou podeis ser úteis ao Estado.


Utilidades Religiosas, e Políticas que provém actualmente dos Mosteiros.

Ainda torno a falar convosco, eus Pedreiros, nem convinha que eu vos deixasse facilmente sem vos ter pago, quando em mim fosse, e dívida imensa em que haveis posto as Ordens Religiosas. Ficam estas para sempre enobrecidas pelo vosso ódio, exaltadas pelo vosso desprezo, cada vez mais seguras pelo vosso furor de extinções, e mais profundamente arraigadas pelos vossos Projectos de Reforma. Pode tanto a infâmia de que estais oprimidos à face da geração presente; não se começaria a propósito a demonstração das "utilidades Religiosas, e Políticas dos Mosteiros" sem que fosse apontada na cabeceira do rol porventura o mais nervoso de quantos argumentos podem trazer-se para o meu sujeito. Somos perseguidos pela Maçonaria Portuguesa, tem esta jurado abolir os Frades, porque os Frades advogam a causa da Religião Católica todas as vezes que ela é insultada e combatida, porque os Frades são adidos ao Trono, que os favorece, que os eleva, e a quem devem tudo que são de presente, enfim porque os Frades são contrários às suas obras más, tenebrosas e nefandas..... É tanto isto verdade, que mal apareceram outra vez os Jesuítas, e o S. Padre Pio VII derrogou a Bula do Papa Clemente XIV andavam tais que pareciam furiosos, e o seu trombeta Mr. de Pradt (o inimigo dos trabalhadores de Mr. Vhateaubriand sobre as vantagens, e belezas do Cristianismo) já disse que mal do género humano se estes Padres tornam a propagar-se; que infelizmente já os vê na Hungria, na Boémia, nos Estados da Casa de Áustria, no Piemonte, na Lombardia, em Nápoles; e que para mais penas sentir, já se vão metendo pela França, e que adeus ideias liberais, que esses malditos não deixaram frutificar, nem progredir.... É pois de eterna verdade, que por esse ódio figadal dos Pedreiros aos Frades se conclue necessariamente que os Frades são úteis por extremo à causa dos Reis, e à causa da Fé; e ainda que os nossos maiores não tivessem feito uma inumerável cópia nos pôr em toda a luz, como defensores natos da Igreja, e da Monarquia. Vamos pois insistindo nas propostas utilidades, e comecemos pelos que são de maior vulto para quem ainda crê que há Deus, que há Céu, que há Inferno, e que a Religião é o primeiro dever do homem inteligente, e criado para um fim sobrenatural.

Não se pode encobrir que por influência das opiniões modernas tem caído num certo desprezo a vida Eclesiástica, e o que ainda é mais de estranhar, nem todos os Clérigos se esmeram por adquirir e conservar os conhecimentos indispensáveis para o Estado Sacerdotal. Há tal rapazinho (e só aqui fica bem este nome) que sendo filho de pobres cavadores de enxada, todo se anoja de lhe falarem em ser Padre; assim como há Sacerdotes que só de terem lido sem atenção, e meramente por satisfazer, alguns princípios do Larraga se têm na conta de sabichões, que já não carecem de estudar mais nada para o tão árduo como delicado Ministério do Sacramento da Penitência. O próprio Voltaire conheceu tanto esta verdade que chegou a dizer que a extinção dos Frades o poria em termos de levar ao fim quanto premeditava sobre a Igreja Católica, e que nem o Clero Secular, nem os Bispos o assustavam com esses corpos numerosos, que faziam maciços impenetráveis para sustentarem a todo o custo a existência do fanatismo.

Recai pois de necessidade nas Ordens Religiosas a maior parte das confissões, e pregações; acaso as tais Ordens fossem abolidas, se experimentaria logo em todo esse Reino a maior falta de socorros espirituais, e por certo que uma grande parte dos fiéis chegaria cedo à terrível e duríssima extremidade de pedir o pão, sem haver quem lho repartisse. Nem se diga que os Frades não eram expulsos do Reino, e que reduzidos aos Estado Secular podiam assistir como dantes aos fiéis, e ministrar-lhes igualmente os socorros da vida cristã: pois quem discorre desta maneira ou não sabe, ou afecta não saber o tempo que costumam roubar os cuidados ordinários da vida, e que mui diferente coisa é o viver exonerado de procurar o necessário para a subsistência, e poder entregar-se todo às obras do Ministério Sagrado, ou descer a todos os cuidados, que traz consigo a substância, que não seria ela tão firme, e segura no reino constitucional, que desobrigasse os Ex Frades de procurarem outro modo de vida sob pena de morrerem todos à fome.

Deus livre esta Monarquia de experimentar uma carestia absoluta de Frades!! Alguns Povos, que em nossos dias têm experimentado, como são nomeadamente os Belgas Católicos, ainda hoje estão gritando por eles, e protestando que os Frades eram todo o seu remédio, e toda a sua consolação; e o mesmo ouviremos ainda hoje lastimar aos velhinhos dos colégios dos Jesuítas neste Reino, se porventura ainda existem, como é provável, muitos anciãos daquele tempo. 

Concluída que fosse entre nós a extinção dos Frades, não tardaria muito que um grande número de fiéis não perecessem destituídos do conforto dos últimos sacramentos, e que pelo menos aldeias, e povoações inteiras ficassem ao Domingo sem Missa, e que todo este Reino se fosse aproximando insensivelmente do estado a que os Mações o queriam reduzir.

Se estas vantagens puramente religiosas se fossem discutindo miudamente, por certo que não seria uma das menos consideráveis a que merece grandes aplausos a um Liberal (Mr. Mercier = Tableau de Paris), e vem a ser a assistência dos Frades aos infelizes réus desde que se lhes intima a sentença de morte até subirem ao patíbulo; nem ficariam no último lugar os deliciosos frutos, que por esta ocasião têm colhido os Frades, e de que a nossa História podia subministrar contínuos, e assinalados testemunhos.....

Onde são mais pomposas as grandes Festividades do Cristianismo, do que nos Mosteiros? Onde se ouve mais frequentemente a palavra do Senhor, que nos Mosteiros? Onde é mais fácil receber os Sacramentos da Penitência, e da Eucaristia, que nos Mosteiros? Onde há maior cópia de oradores Evangélicos não menos distintos pela ciência do que por uma vida exemplar, do que nos Mosteiros? Quem semeia a palavra de Deus tão felizmente como os virtuosos Missionários de Varatojo, e as mais filiações deste Sagrado Instituto? Se alguns Santos fundadores quiseram habilitar melhor o Clero Secular para que se empregasse frutuosamente nos mesmos trabalhos, deram-lhe a forma de Religiosos, fazendo-os viver em Mosteiros, observar a vida comum, etc., etc., etc.. Por isso nenhuma destas fundações, como por exemplo a dos Missionários do Instituto de S. Vicente de Paulo, ficaria em pé no meio da queda geral das Instituições Monásticas; e também por isso a Casa do Espírito Santo em Lisboa, que é de Clérigos Seculares, os quais se empregam com um zelo, e caridade acima de todo o elogio, na conversão, e direcção das almas, e que não tem nada com as Instituições Monásticas, assim mesmo por oito ou dez dias de livrou de experimentar o raio da extinção já despedido pelos Mações contra ela.....

Acrescendo que não veríamos tão perdida neste Reino,  por certo confiada tantas vezes a sujeitos inábeis, desacreditados, e viciosíssimos, se os nossos sabichões conseguissem moderar o espírito filosófico, que lavrado há cinquenta anos em Portugal influe onde menos se devia crer ou esperar.... mas fique para outras vez esta punhalada, em que se podem dizer bocadinhos de ouro!!!

Entremos pois nas vantagens políticas, e a fim de se evitar quanto couber no possível o tédio dos Leitores, reparta-se a matéria em pequenos artigos....

(a continuar)

06/02/18

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CDXLX

"DEFESA DE PORTUGAL" - AS TREVAS em PORTUGAL (c)

(continuação, parte b)

O campo é mui vasto para seguir, e expender a força de todas estas considerações; em esta Folha posso andar-lhe somente pela rama, mas sem ir à casca: as deduções são imensas, e eu tenho fito especial, em que queria acertar sem fazer grande estrondo. Quais são hoje os Funcionários Públicos, Ministros de Estado, Bispos, Generais, Grandes, e Titulares, (finalmente não exceptuo um só, nem a mim mesmo) que além da sua razão sigam a tradição, tendo esta pelo contraste da sua Ciência, da sua Justiça, da sua Religião, dos seus Costumes? Os que presarem a tradição, têm luz, não estão em trevas; os que não seguem senão a sua razão, estão em trevas. Ora bem; estão as trevas em Portugal, ou não? Ou por outra forma; Portugal está em trevas, ou não? Se ele segue a tradição tanto na sua Política, como na sua Religião, ele não esta em trevas, ou não há trevas em Portugal, pois que no seguimento de sua tradição tem luz, que o guie. Mas eu estou escrevendo na Quarta Feira da Semana Santa; a Igreja celebra neste dia as trevas sobrepostas à terra pela Morte do Salvador do Mundo: temos pois hoje trevas sobre todo o Orbe: mas estas são trevas celebradas, e aplaudidas, porque a Luz tornou a aparecer. Não são estas as trevas, de que eu prometi falar; trevas não choradas, mas amadas; trevas não pretéritas, mas presentes; trevas enfim, que parece não podem ser afugentadas. Porquê? Porque falta a Religião, falta a justiça, falta a razão, falta a luz, que brilha, quando se caminha pela razão, pela justiça, e pela Religião dos Maiores; eis pois as trevas em Portugal, ou Portugal em trevas.

Que ensina a tradição Portuguesa sobre as obrigações dos Vassalos para com ElRei? Obedecer-Lhe; defender o Estandarte Real; correr contra o inimigo, que acomete o Poder do Rei; pagar ao Rei os tributos, que Ele impõe; administrar fielmente a Fazenda Real; observar, e cumprir todos os Contractos com ElRei, e com os seus Ministros. Esta tradição é também Religiosa; ela é necessária à conservação da Sociedade. Mas a razão duma parte dos Portugueses de todas as Classes não segue esta tradição; eilos pois em trevas. Expendamos a tradição.

Obedecer a ElRei. Ah! Quantos dizem que não é pecado perante Deus o desobedecer-Lhe! Que não é matéria sujeita à Confissão! Que cada qual pode subtrair-se à sua obediência, sem pecar, todas as vezes ao mesmo desobediente, ou à sua família não resulte detrimento!! Eis a razão, e eis as trevas! Porém é isto o que ensina uma parte do Sacerdócio Português, e é esta a doutrina, que seguem os Povos! Não escrupulizam os Cristãos de desobedecer a ElRei! Falo, e escrevo de ciência certa. Onde estão os Pastores de Israel?

Defender o Estandarte Real. A deserção é na verdade um pecado gravíssimo; e os cúmplices, fautores, ou conselheiros dos desertores são réus do mesmo crime. Mas uma boa parte do Sacerdócio ensina que desertar não é pecado, que cada qual pode poupar-se ao trabalho quanto poder, seja como for; que ninguém está obrigado a opor-se aos perigos da guerra: os Povos seguem esta doutrina: há muitos Párocos, que encobrem os desertos; e Conventos também! Onde estão os Pastores de Israel? Falo, e escrevo sem susto de me enganar.

Correr contra o inimigo, que acomete o Poder do Rei. Esta obrigação reconheceu o Cristianismo na mesma Defesa dos Príncipes Gentios! Mas hoje ensina-se commumente (ao menos por este País, em que habito) que os Povos podem licitamente resistir ao Recrutamento com mão armada, revoltar-se contra a Ordenança, que ao Recrutamento procede; fazer fogo não só em próprio livramento, mas também no livramento de quaisquer Recrutas, ou sejam para a 1ª Linha, ou para a 2ª. Os Povos praticam livremente esta doutrina, ao menos no desgraçado Concelho de Aguiar de Sousa, (desgraçado em quanto não estiver reunido ao Julgado de Penafiel) e em outros muitos ejusdem furfuris, ac farinae. Alguns Párocos dão favor a estes valentões, que resistem às Autoridades. Pessoas de lenço ao pescoço oram por eles! Isto é pouco; os mesmos Párocos, e outros Sacerdotes, alguns Conventos, alguns desses Senhores de casaca, ou casacas de Senhores, lhes dão asilo em suas casas! O mais é haver Sacerdotes, Párocos, e Conventos, que têm dado, e dão couto aos inimigos mais encarniçados do Poder Real, e lhes escondem até o dinheiro, sem o qual o Exército, que peleja por ElRei, não pode passar. E Tudo isto não é pecado? Onde estão os Pastores de Israel? Eu não falo somente dos Ministros do Sacerdócio; o negócio é também com os Senhores Doutores in utroque jure, ou in uno tantum, que assim obram, assim instruem, como se lá as suas Leis não vedassem toda a resistência à Autoridade, toda a cumplicidade com o crime, e com os perpetradores do crime, e todo o asilo aos inimigos delRei. Eis a razão, eis as trevas em Portugal! Logo que apareceu a insurreição do Porto do ano de 1820 despedi-me das velhas Ordenações do Reino, com quem eu estava muito casado, ainda que velhas, e já refugadas pelos Senhores Doutores Barbilimpinhos; e adoptei em seu lugar a Constituição, que me custou quatrocentos réis, e mais de quatro milhões custou ela à Nação Portuguesa. Com efeito não tornei mais a ver as velhas Ordenações do Reino, e não me acho mal, porque em seu lugar observou-se comumente a razão particular dos Senhores Doutores: não gracejo; perguntem lá por isto ao Porto! Também agora estou para renunciar mui formalmente o meu Larraga, porque as suas doutrinais não são as correntes: já as de Simonia, e de Usura eram somente observadas pelos que não podem haver aquilo, que faz o objecto do pecado, e por isso tais Tratados não estão no meu Larraga; mas, como digo, estou resolvido a deixá-lo só na pele, porque aquilo de obediência às Autoridades do Poder do Rei, não é doutrina, de que façam grande apreço os Sacerdotes na sua instrução aos Povos, os Povos na confissão dos seus pecados, os Doutores nos seus conselhos aos Povos! Falo, e escrevo de ciência certa!

Pagar ao Rei os tributos, que Ele impõe. Este artigo e os que seguem, tem uma extensão, que o dia, em que estas coisas escrevo, não o sofre; mas saibam quantos estas poucas trevas a palparem, que se isentam de pagar todos os que o podem fazer; que procuram muito que os tributos carreguem sobre os outros; que delongam a sua solução, quanto lhes é possível; que finalmente olham para este ónus não como uma obrigação Religiosa, mas como um gravame Político, do qual não é pecado sacudir-se! Esta é a doutrina, que se inculca aos Povos, e que os mesmos inculcadores, e os Povos abraçam com muita vontade. Eis a razão, eis as trevas! A Igreja, a tradição dos nossos maiores ensinavam pelo contrário: veio porém a razão, e por isso só pintou aos Povos como livre o que era necessário, e obrigatório! E não há quem levante a voz por Deus, e por ElRei?

(continuação, parte d)

"DEFESA DE PORTUGAL" - AS TREVAS em PORTUGAL (b)

(continuação, parte a)

D. Fr. Fortunato de São Boaventura - Arcebispo de Évora. Defensor da Tradição católica em Portugal, contra o liberalismo e a maçonaria (séc. XIX)
A origem pois, a fonte, o princípio, o começo de todas as verdades primitivas, e necessárias ao homem, ou elas sejam Teológicas, ou Filosóficas, e estas em toda a acepção da palavra, está na tradição, ou notícia, que se deu ao homem. Aqui está a luz; fora daqui as trevas. Hão de se pois reconhecer, e aprender as verdades na Autoridade? Eis o homem besta, dizem os pimpões da Filosofia; mas eu lhes digo, antes o cego tenha homens que o guiem, do que as suas mãos, e pés: bem me entendem os adversários. Porém o que eles não entenderam é o que seja Autoridade; eu digo somente que o contraste de todas as verdades necessárias ao homem é a tradição, e a tradição não é a Autoridade; estudem a distinção esses presados de Sábios em qualquer Ciência, em que eles estejam versados: a razão pois, (e esta é a importantíssima consequência, que eu quero deduzir, e a demonstração, da qual está sobejamente encetada) que não segue a tradição, não segue a luz; está em trevas, seja em que Ciência, Arte, Faculdade, Profissão, e exercício fôr: a razão, que, no que diz respeito a Deus, não segue a tradição, caminha sem luz, anda às cegas, vai às apalpadelas, e isto é assim ou seja na que chamam Religião Revelada, ou na que chamam Natural. Epicuro é um perfeitíssimo pedante em matéria de Religião, porque não seguiu a tradição; a razão em um Médico, ou Cirurgião, Faculdades, u Profissões que mil vezes se dividiram, e outras mil se reuniram, não seguindo a tradição, que poderá indigitar em Hypocrates, ou em Galeano, ou em Paracelso, ou em outros dos mesmos tempos, vai perdida, caminha sem bússola, naufraga, e, o que é pior que tudo, faz naufragar a vida dos seus semelhantes: a razão num Filósofo, que não segue a tradição, é a razão dum cavalo furioso, que tomou, não a luz, mas o freio nos dentes, e deu consigo no pântano da sua vergonha, da sua ruína, e da sua morte; mas eu deixo estes meus amigos para outro dia que lá lhes chegará a sua Semana de amargura: a razão em um Jurista, ou Canónico, ou Civil, que não segue a tradição, a qual poderá achar nas suas próprias fonte, é a razão dum porco, que não sabe levantar o focinho da terra, ou que não pode olhar para a cara da gente! Oh! Quanto eu não teria aqui a dizer sobre homens, que tem no vulgo a consideração de Sábios em Direito, e, por não seguirem senão a sua razão, são a vergonha de toda a Jurisprudência! A razão em um Gramático, que não segue senão a sua razão, é a razão dum remendão de sapatos, que deita tombas novas em sapatos velhos, trazendo para o séc. XIX verbos, conjugações, géneros, e pretéritos, que já não tinham uso no séc. I!!!

D. Marcel Lefebvre, Arcebispo de Tule, defensor da Tradição católica na crise pós conciliar.
Seria coisa de nunca acabar; a razão de qualquer homem, que só segue a sua razão com desprezo da tradição, que é o contraste certo de todas as verdades convenientes ao homem, em qualquer matéria que for, em qualquer cargo, exercício, ou teor de vida, é a razão cega; não vê, não distingue, não conhece as verdades, porque lhe falta a luz; está em trevas; se acerta, é por acaso, foi às apalpadelas, e tropeçou em terra firme, devendo ter caído em um cachopo; ele erra de propósito, não pode deixar de errar, porque não pode conhecer que erra à falta de luz, que rompa as trevas; a razão desse homem, que não segue a tradição, seria uma razão inovadora, uma razão discordante, destrutora, e desordenada, por isso mesmo que se não ajustava à tradição, que é o contraste da verdade, a pedra de toque da justiça, o magnete da paz, o íman da Religião. Que é um homem sem tradição? Um bruto sem prisão; ou subjuga-lo, e metê-lo em seguro, ou matá-lo; é um revolucionário; é um díscolo, com quem os homens não podem ter paz; é um rebelde, que fará a guerra a Deus, e a ElRei, ainda que a sua razão admita algumas vezes as ideias necessárias de Deus, e de ElRei, pois que ele as admitiu como por acaso; tropeçou com elas; caiu para ali; mas como a tradição não segura a sua razão, esta se descartará facilmente com qualquer outra impulsão.

(continuação, parte c)

04/02/18

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CDXLIX

"DEFESA DE PORTUGAL" - AS TREVAS em PORTUGAL (a)


As Trevas em Portugal

"Nos fuimus fortes;et nos modo sumus; et nos aliquando erimus."

Dizem comumente os lamentadores dos Séculos passados que via faltando a Religião; e eu digo também que sim, porque falta a justiça; e falta a justiça, porque a razão falta. Qual a causa por que a razão falta ao homem, que é racional? Porque lhe falta a luz. Pois aí estão as trevas, as quais não são outra coisa, que privação, carência, ou falta de luz: o homem não vê a luz; somente por meio da luz vê os corpos lúcidos, os que brilham, ou aqueles, sobre que reflectem os raios da luz: isto dizem os Filósofos modernos, e dizem bem, se sabem o que dizem: o homem também não vê as trevas, porque não tem luz para as ver: também dizem isto os Filósofos. Mas o Vulgo diz que a luz se vê, e que as trevas se apalpam, ainda que se não vêm: não sei quem diz melhor: digo somente que, se o Vulgo se meter a Filósofo, pode perder as esperanças de ver a luz, e fique certo que só trevas apalpará. Eu falo nestas coisas com licença dos Filósofos, ou ao menos com título: todavia certo como estou, de que os Filósofos não têm feito nas Ciências, ou pouco menos, senão baralhar as ideias, adoptar outros vocábulos, ralhar uns dos outros, e saber menos o que mais ralha, meto o título do Filósofos no meu Larraga, e como Clérigo de mão furada, que não sabe mais que do seu Larraga, e não fará pouco se o entender bem, levanto a minha voz, e digo: Não há homem vivente que tenha visto a luz: Logo todos os homens estão em trevas. Ora aí se armam contra mim quantos campam de lidos, e de lentes, e já que lhes nego a luz buscam apalpar-me nas trevas; devagar, Senhores Mestres: Deus é a luz, e só ele luz: Quem viu a Deus? Nenhum vivente: aí está pois como todos os homens estão em trevas. Esta linguagem é Sagrada, e é sublime; desço algum tanto da altura, a que a Fé, que é uma participação enigmática da luz, me elevara, e digo: todos os homens (e nesta proposição ajunto as mulheres, já que as dos nossos dias querem correr parelhas com os homens) estão em trevas mais, ou menos; quero dizer, em trevas mais ou menos densas, sinais, ou menos frangíveis, dissipáveis, ou penetráveis: aqueles que se dizem ilustrados são os que estão em trevas mais voláteis, mais versáteis, e, deixem-me assim dizer, algum tanto diáfanas; esta linguagem não é totalmente imprópria para explicar verdades, que de mistura são Teológicos, e Filosóficos. Os homens não conhecem as coisas em toda a sua essência, ou em toda a sua cognoscibilidade: as verdades, ou Divinas, ou Humanas, nunca atingem a evidência com tanta força, que o homem enquanto vive não possa vê-las de uma forma obscura: finalmente a razão humana nunca está cheia cá na terra; mais defeituosa que a Lua, a qual recebe do Sol toda a sua claridade, a razão do homem sempre está em quarto minguante, ou no último quarto do seu quarto ocidente, que bem pode dizer-se que está em trevas, pois a luz, que tem, ou está a despedir-se que está em trevas, pois a luz, que tem, ou está a despedir-se, ou já no seu ocaso.

Venho de falar, e continuo Teológica, e Filosoficamente: todo o homem está em trevas; mas todo ele tem em si disposição, capacidade, ou potência para ver a luz, ou a substância, que emitem a luz. Esta luz não está no homem; recebe-a o homem. De quem? De Deus. Mas como pode persuadir-se que Deus comunica a luz ao homem? Todos os conhecimentos primordiais, ou, chamemos-lhes assim, constituintes do homem, ou eles digam respeito à Religião, ou à Sociedade, ou aos misteres da conservação, e da vida, vem da tradição; não do discurso do homem, sim de que o homem foi ensinado de uma maneira qualquer a tudo o que era mister com referência a Deus, aos outros homens, e a si mesmo. Só Deus pôde ensinar o homem, pois que nenhum homem nasceu ensinado: a razão pois do homem foi ensinada no seu princípio, foi ilustrada, foi irradiada: Logo todos os Conhecimentos necessários ao homem, ou digam respeito à Religião, ou à Sociedade, ou à Filosofia necessária, vieram ao homem do ensino; ou, que vale o mesmo, todas as verdades primitivas são tradicionais. Eis Deus; eis a tradição afugentando as trevas, luzindo ao homem, que em trevas estava envolto, para que veja o que lhe convém, e o que não; para que saiba distinguir o bem do mal, a verdade da mentira, a ciência do erro: enquanto o homem não perder de vista essa tocha da primitiva tradição, a qual, não obstante que parece esconder-se no princípio já não conhecido de tão longos Séculos como o homem conta, todavia, ainda mesmo assim ao longe, desde alguma luz; em quanto não virar as costas a esta luz, que ainda lhe aparece; enquanto andar no seguimento desta luz, que é uma faiscasinha de Deus que é luz verdadeira, poderá dizer-se que o homem não está totalmente em trevas; antes, que anda, e vê por onde anda, rompendo, e afastando as trevas para um, e outro lado; poderá dizer-se que a razão do homem ainda atinge muitas verdades, e que é capaz, no seguimento desta luz, de atingir todas as que lhe são necessárias para se saber dirigir com Deus, consigo mesmo, e com os outros homens: eu falo de todas as verdades, e de todos os conhecimentos necessários ao homem debaixo das ditas considerações, e insisto que todos eles vieram ao homem pela tradição, ou pelo ensino, e notícia, que no seu princípio lhe foi dado: O homem não formou a ideia de Deus: esta ideia vem-lhe da tradição: o primeiro homem a transmitiu ao segundo; Deus mesmo a ensinou ao primeiro; outro tanto deve dizer-se de todas as ideias verdadeiras primitivas, e necessárias ao homem; não é tempo de fazer demonstrações; os princípios, tenho: excepto as verdades Metafísicas, que pendem das nossas ideias, do ajuste que fazemos com as palavras, de combinações a nosso arbítrio, porque essas, muito agradáveis, e mesmo vistosas que pareçam, não são necessárias ao homem, nem para a Religião, nem para a Justiça, nem para a Sociedade.

(continuação, parte b)

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