25/01/18

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº10 (II)

(continuação da I parte)

Mosteiro de Santa Cruz (Coimbra), um dos mais fortes resistentes à ordem de extinção
Rematado o Projecto de Reforma, seguiu-se pedirem ao Santo Padre Pio VI (ora reinante em a Igreja de Deus, e que este Senhor talhou expressamente para os dias mais calamitosos da sua querida Esposa) que o sancionasse com a sua notoriedade Apostólica, e o fizesse dar à execução neste Reino, e seus Domínios. Coroada seja do Pai das Luzes e heroica resistência do Santo Padre aos arestos das Sociedades tenebrosas! Glória ao Pai comum dos Fiéis, que não se abalou nem de promessas, nem de ameaças, e que por meio de repulsas tão judiciosas como oportunas acudiu à Igreja das Espanhas, salvando a de cair nos infernais boqueirões, que lhe abrira a Filosofia dos nossos tempos!! Rondam agora as Ordens Religiosas uma especial homenagem à Cadeira de S. Pedro, que se ela não fosse, teriam caído todas as deste Reino no sumidouro da extinção que foi jurada nas Lobregas e hediondas cavernas do Maçonismo. Declamem agora muito à sua vontade os Teólogos à Paviense, e os Canonistas à moda Gmeineriana contra as isenções e privilégios das Ordens Religiosas. Se por ventura não fossemos imediatamente sujeitos ao Vigário de Jesus Cristo, que seria de nós? Teriam os Bispos deste Reino assaz valor e firmeza para deixarem de lavar o Decreto da nossa extinção, quando isto dependesse unicamente da sua autoridade? A que parece nova Disciplina da Igreja, e que bastaria ser aprovada, e sancionada em Concílios Gerais, para que só este nome fosse uma espécie de mordaça na boca de alguns estouvados Canonistas, foi a nossa tábua de salvamento, pela qual deveremos instar e gritar todas as vezes que formos ameaçados de naufrágio.

Arrebatei-me um pouco; mas quem se atreverá a criminar-me de menos verdadeiro, ou de exagerado? Em todo o caso seria mui airoso para um filho a sair pela honra de sua Mãe ofendida e ultrajada; e qualquer excesso, a que em tais pontos se avalanche o amor filial, costuma ser facilmente perdoado. Continuemos.

Desesperados de conseguirem os Indultos Apostólicos, por que tanto forcejaram, e que lhe foram constantemente negados(no que pode a verdade histórica se deem os justos, e merecidos louvores ao Ilustríssimo Prelado D. José Cherubini, Delegado Apostólico em Lisboa, que informou exactamente o Santo Padre de todos os procedimentos arbitrários, e impios das Côrtes Lusitanas) rasgaram a máscara, e puseram de parte os princípios mais vulgares de honra, e de decência. Fiéis ao princípio geral Fernandino "de que tínhamos bulas para tudo quando quiséssemos" começaram de fazer por autoridade própria os esbulhos, as violências, as trasladações, e confusões para que não tinham podido da obediência ao seus legítimos, e verdadeiros Prelados, e os forçaram a prestar uma obediência contra aquela que tinham jurado na presença de Deus, e de todos os seus Santos... Confundiram os Religiosos de diversos institutos à sombra de uma analogia por eles sonhada, e logo erigida em fundamento dessas misturas conducentes ao fim de promover desordens, e fazer os Religiosos desprezíveis. Arrancaram de seus pacíficos asilos as virgens dedicadas ao Senhor, e as trasladaram para lugares distantes da Capital, onde lhes dava muito nos olhos a observância dos Conselhos Evangélicos que a todo o custo pretendiam acabar, e destruir.

Ora estes diferentes horrores apenas se indicam para terem lugar mas espaçoso em outro género de escritura; mas convém agora que lançadas, para assim o dizermos, estas primeiras delineações do edifício, nos demoremos um pouco não tanto em a questão geral já sobejante tratada, e por ventura exaurida em muitos escritos destes últimos tempos, como no exame das causas desse ódio figadal, dessa aturada perseguição dos Mações contra os Frades, e na sem-razão de tantos e tão iníquos procedimentos.

Eu temo, e por ventura mais que ninguém, cansar a paciência dos Leitores, e por isso mais de uma vez obrigo em qualquer destes números a minha pena a que deixe de correr à sua vontade. Sou breve mais pelo receio de enfadar, do que por falta de matéria. Examinemos pois:

I
Causas Gerais Que Reduzo Somente a Duas

Temporal, a saber, a cobiça dos bens, e riquezas dos Mosteiros. Não se lembram dos autores e fadigas, por que tiveram de passar os antigos Monges, para deixarem um bocado de pão aos actuais; não se lembram do sem número de bocas, que se mantêm às vezes do escasso rendimento de um só Mosteiro; nãos e lembram das grossas contribuições dos Mosteiros ricos para remédio das necessidades públicas; não se lembram de que não há mulheres rendeiros e feitores do Estado, do que são os Monges, e tudo lhes parece mal empregado neles. O que uma prudente economia fez guardar e poupar avulta de tal maneira diante destes olhos fascinados e prevenidos, que lhe parece estarem vendo em cada Mosteiro as delícias de Sardanapalo, ou as riquezas de Cresso. Diz Madona Stael que há uma classe de Pedreiros Livres ou Iluminados, cujo fim principal é assenhorear-se dos empregos mais lucrativos, e que em se vendo ricos, e fartos, andam contentes. Parece-me que são estes os sentimentos de todas as classes maçónicas; e a experiência demonstra que o seu grande princípio é este "O melhor bocado para nós e para os nossos, e o pior de roer para esses cães, para esses profanos".

2ª Moral, e vem a ser a profissão do Catolicismo. Esta ainda é mais forte que a primeira, segundo é lícito discorrer pelo que sucedeu na Revolução de França, onde o saque, e a profanação dos Mosteiros foi o menos, pois em verdade foi muito mais a solene, e jurídica abolição dos votos religiosos, e um dos motivos que fizeram protestar os Bispos Deputados à Assembleia nacional (que não foram cães mudos entre os gritos de morte - A Lanterna a guilhotina, e as espadas nuas, e as baionetas apontadas ao peito) os quais seguidos imediatamente da maioria dos Bispos que foram ao todo mais de cento e trinta (faltando só quatro) e roborados com a sanção do imortal S. Padre Pio VII, viram naquele Decreto mais pesada afronta ao Evangelho, e ao Supremo Legislador dos Cristãos.

É necessário que o Povo Português tenha os olhos abertos para ver o princípio da guerra mais ou menos activa, que há trezentos anos a esta parte se tem feito aos Frades. Os Luteranos, e Calvinistas, cujos maiores pela maior parte foram Ex. Frades, bramiram contra os seus antigos Irmãos. os Protestante não querem ver nem sombra de Frades, e por isso nos Teatros de Londres quando se quer apresentar uma figura ridícula e abominável, assoma algum Comediante vestido de Frade, assim como já o desenfreado Buchanan se vestiu de Frade para castigar a seu Discípulo depois Rei da Inglaterra e da Escócia Jacob VI, para infundir-lhe desde os mais ternos anos um entranhável ódio a quem vestisse hábito religioso. Os Puritanos aborrecem de morte os Frades, e que o digam os nossos Arrábidos que seguiram até Londres a Senhora D. Catarina Infante de Portugal, Rainha da Grã-Bertanha. Os Filósofos do séc. XVIII não têm papas na língua, para dizerem à boca cheia nas suas correspondências, e em milhares de obras impressas, que se devem extinguir os Frades, porque ensinam, confessam, prégam, catequisam, e são causa de que não possa ir abaixo a Religião Católica, segundo eles querem, e ardentemente desejam. Os Pedreiros Livres onde chegam a dominar, tudo é abater as Ordens Religiosas, tudo é intimar aos Reis que se apropriem os bens das Ordens, único remédio para se curarem as feridas da Pátria, que talvez só esses desalmados abrissem, levantando casas para seus filhos, que excedem às vezes em rendimento o de Ordem Religiosas que tem dez ou doze Mosteiros!! Fizeram a mais viva guerra aos Jesuítas, porque os Jesuítas ensinavam, e pregavam; e tudo isto era de graça, pois não custava aos povos nem cinco réis!!! E dado o caso que estes Frades dominassem os gabinetes, e influíssem nos negócios políticos mais alheios do seu estado, não haveria outro remédio para os coibir senão deitar a perder os mais fortes laços que prendiam os povos aos Reis, e estragar as Missões Americanas, Africanas, e Asiáticas? Quem lê a História Eclesiástica, não acha um só Reino convertido à Fé por industria dos Sumos Pontífices, em que não apareçam Frades, e por isso é que os Frades são perseguidos, e debaixo do pretexto de chamar as coisas à primitiva, hão de ser arrancados à obediência do Único que mais proveitosamente os pode empregar em serviço da Igreja Católica!! Até aqui são princípios gerais já sobejas vezes realizados em muitas Nações Europeias, que têm aprendido à sua custa o que são os Frades, e a grandíssima falta que logo se experimenta em todos os Reinos, que cometeram o indiscutível erro de os extinguirem: porém, é justo que desçamos a um rapidíssimo exame das causas do ódio, que se lhes professa neste Reino, onde eles contam inimigos até nas próprias classes onde só deveriam encontrar amigos, e defensores.

Serei o primeiro que se afoite a descobrir uma das principais causas deste ódio, que muitos saberão, e que por efeito de um medo pânico não se atrevem a denunciar. Importa-me agora ser breve, mas claro e terminante.

P: Porque Livros se estuda nas Escolas principais deste Reino a História dos Monges, o espírito das suas instituições, e a natureza de seus privilégios?
R: Nas Aulas por Gineiner, Cavallario, e Dannemair, e cá fora por Mosheim, Gibbon, e outros que tais.
P: Donde é tirado o que dizem Gmeiner, e Dannemair sobre as Ordens Religiosas?
R: De Mosheim, Bingham, e outros Protestantes, de que Dannemair se fez eco, não sabendo dizer senão o que eles dizem.
P: E onde param os Autores clássicos sobre a origem das Ordens Religiosas?
R: Ou são desconhecidos neste Reino, ou jazem no pó das Livrarias [bibliotecas], onde ninguém os consulta.
P: E que há de seguir-se de ais Mestres, alguns dos quais têm sido expressamente condenados pelos Sumo Pontífice?
R: O que nós vemos; e enquanto rejeitada e metida a bula a infalibilidade do Pontífice Romano, se acreditar cegamente na infalibilidade de Gmeiner, de Eybel, de Montesquieu, e Gibbon, e outras tais fontes da História Monacal, não se espere senão ódio mortal aos Frades.

Mutas graças devem eles a Nosso Senhor por terem escapado à tormenta pedreiral, e muito  devem rogar ao mesmo Senhor pela vida e segurança do Império de ElRei e Senhor D. João VI, que mais de uma vez se tem chamado a si próprio o único amigo das Ordens Religiosas. Confio da prudência dos nossos inimigos, que são todos ou Pedreiros ou defensores da Soberania do Povo, que hão de poupar-me o desgosto de aclarar mais e mais o que só por necessidade de sustentar a minha causa deixo apontado para se discutir algum dia mais largamente, e se me for possível, conforme a dignidade do assunto.

(continuação, III parte)

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CDXLVII

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº10 (I)

O PUNHAL DOS CORCUNDAS


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Nº. 10

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Ostendam gentibus nuditatem tuam


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D. Pedro I do Brasil - o grande perseguidor das ordens religiosas em Portugal - estátua equestre
na Praça da Liberdade, no Porto. É o mais significativo monumento ao Liberalismo; na sua lateral tem
a lista de nomes dos desgraçados liberais ("mártires da pátria") condenados à força, que postumamente o liberalismo fez heróis.

A PERSEGUIÇÃO DAS ORDENS RELIGIOSAS

Como faltaria aos nossos Liberais este requisito, que é de essência para ser ou parecer homem grande no séc. XIX? Esse próprio ferrete de ignomínia, que um Bispo Constitucional e Regicida imprimiu nos que aborrecem gratuitamente e como por ofício as Ordens Religiosas, é para os nossos Liberais um título de honra, e mais um brasão que deve acrescentar-se aos muitos que eles tem ganhado à custa da antiga Crença, e da Piedade Cristã. "Um óleo figadal às Ordens Religiosas é o carácter dominante das Seitas modernas" explica-se desta maneira o citado Bispo (Mr. Gregoire); e se de uma tal asserção podemos tirar consequências da maior honra para o Estado Religioso, nada mais se exigia por outro lado, para que os Pedreiros Livres requintassem naquele ódio, e o manifestassem por todas as artes e meios, que a sedução, as intrigas, e as baionetas puseram ao seu alcance. Tal Pedreiro houve, que ostentou publicamente de seguir o novo sistema, porque este lhe deparava em seus dias o gostinho de assistir à extinção da Canalha fradesca, e que só esta doce esperança o faria desembainhar gostosamente a espada, a fim de cometer a mais abominável perfídia, voltando-a contra quem lha cingira, e o cumulara de honras e privilégios.

A república Maçónica em 1914 fez juntar esta placa ao monumento Liberal da estátua equestre de D. Pedro de Alcântara. Lateralmente contém a lista de nomes dos desgraçados liberais e maçons a quem a maçonaria insiste em chamar "mártires da pátria". Estes devotos de D. Pedro, o maior inimigos das Ordens Religiosas em Portugal, que a todas extinguiu.
Todas as miras Fernandinas se puseram logo nos cabedais e possessões dos Mosteiros, como seguríssimos fiadores do sistema, que ou conseguiram faze-lo andar para diante quando alguma vez emperrasse nos maus passos e caminhos por que deveria transitar, ou em último recurso tapariam o deficit enorme, que às mãos cheias de outro Português espalhado na França e na Inglaterra pelos irmãos Propagandistas, causariam antes de pouco tempo.

Tão aleivoso como ingratos, mostravam-se fagueiros e benévolos para com as próprias vítimas destinados ao sacrifício, e aí dos Mosteiros que ficavam expostos à passagem destas aves de rapina, quando vieram fazer o seu ninho na Capital do Reino, pois viram consumir-se em um dia o que talvez chegaria para o seu gasto ordinário de muitos meses!!! Apenas repimpados no Trono Bragantino, que pasmou de se ver assim usurpado e denegrido, com sairão logo de assoalhar, por via dos seus emissários incumbidos de apalparem os ânimos, e sondarem a opinião pública, as sátiras indecentes, os aleives mais descomedidos, e as calunias mais atrozes, contra os frades, que nem sequer pestanejavam ou se buliam contra um sistema, que vão proclamando por entre arcos triunfais, e uma adesão, que parecia livre e espontânea, de todo o Reino. Quase não assomou um só dia no nosso horizonte esse memorando Astro da Lusitânia, sem despejar alguma porção de suas manchas e fazes contra as Ordens Religiosas, e que em se lembrasse de vexar e denegrir algum Mosteiro, em qualquer dos seus habitadores, achava sempre uma porta aberta de par em par naquele execrado papel, em que a mordacidade supria as vezes de talento, e a desenvoltura das expressões era todo o mérito que o fez estimado da gentinha, e dos adeptos. Quando poderão esquecer neste Reino essa torrente de calúnias despejada sobre os Padres de Maceiradão, sobre os Padres Carmelitas descalços dos Conventos do Porto, e de Olhalvo?

Tais infâmias só deverão ter cabimento nos anais dos Filibusteiros, ou dos Argelinos; e para nossa vergonha foram tramadas por homens Portugueses!!! Não... Não ...

Que se havia de esperar de escritores subalternos, que por ventura mais apertados de fome que de outro qualquer poderoso e estímulo, se metiam por devoção na Irmandade dos caluniadores, quando o próprio Diário do Governo se ocupava gostosamente em recolher nessa verdadeira estrebaria de Augeas toda a imundície dos Claustros... Se algum Frade vicioso ou descontente queria desafogar a sua paixão... escrevia para o Diário do Governo... e o Diário do Governo lançava em suas hediondas páginas mais este documento de licença e de imoralidade... e como se tudo isto fôra ainda pouco, e ainda muito abaixo da importância e dignidade da matéria; os próprios Corifeus da Horda Revolucionária, furtando à Nação o tempo que esta julgou conceder-lhes para somente a felicitarem, e remirem da viuvez em que se considerava na ausência do seu Rei, do seu Benfeitor, do seu querido, e tão querido Pai; geraram um novo Periódico, que debaixo do nome de Independente só realizou esta alcunha pondo-se muito acima do que fôra decretado nas Bases, e na própria Lei da Liberdade da Imprensa, vomitando contínuos insultos às Ordens Religiosas, qualificando de inimigas da Pátria as mais conspícuas e autorizadas Corporações, e fazendo-se o arauto dessa Tolerância Religiosa, único fim de todos os novos Legisladores. Pobre de quem saísse ao encontro desses Fernandes, desses Borges, ou não temesse os prestígios da Moura encantada, que por mais razão que tivesse, e por mais força de que revestisse os seus argumentos, deveria necessariamente ou fugir ou ser amarrado num calabouço, que a este ponto chegaram as pomposas liberdades que os nossos Regeneradores tantas vezes nos prometiam e anunciavam.

No meio porém de todos esses ameaços feitos as Ordens Religiosas notou-se uma certa inacção, um certo desleixo assaz repreensível em homens audazes e empreendedores. Aprontou-se tarde o Projecto de Reforma, Ainda mais tarde se discutiu, e parece que não foi desserviço, antes especial favor para as Ordens Religiosas todo esse procedimento, pois as medidas legais, e não os dicteiros das Gazetas são as que podem mostrar o verdadeiro espírito dos Governos.

Assim discorreram ainda hoje os Pedreiros Livres para se fazerem menos odiosos, e talvez para serem tidos na conta de protectores (à francesa pode ser) e amigos dos Frades!!! Estratagema é este não menos ocioso que ridículo, que nem esses mesmos poderão ficar largo tempo iludidos! Sempre com os olhos fitos na sua honrada vizinha, e no bom ou mau sucesso das traças de seus Regeneradores, virão os nossos que a extinção dos Mosteiros de Espanha foi um dos principais incentivos da guerra civil, e que depois de ter coberto de luto inumeráveis famílias que se mantinham da beneficência e generosidade daqueles Mosteiros; depois de ter chegado a uma vida errante, vagabunda, e miserável os há pouco fartos e abastados; depois de ter feito despejar nos cofres Nacionais somas imensas, que tiveram a mesma sorte da água com que as Danaides, conforme a antiga mitologia, deviam encher uma pipa sem fundo; longe de preencher as vistas dos Reformadores, só conseguiu aumentar e engravescer os já crescidos males da Pátria... assustaram-se... retrocederam um pouco, a fim de poderem lá mais para diante fazer a salvo quanto pretendiam ...

Foi decretado nas Lojas Maçónicas que a extinção das Ordens Religiosas fosse lenta e vagarosa. Não obstante a impaciência de muitos Vigilantes, Rosa Cruzes, e Veneráveis, para os quais já tardavam muito as formosas Quintas de Fôja, de Almaiara, da Cardiga, e outras semelhantes, concordou-se nas delongas, como de absoluta necessidade para se obter o fim sem graves incómodos, e sem perigo de comoções, e efervescências populares, já que uma Ordem, que não é das ricas, e o devia ser pelo muito que a tenho visto empregar-se no serviço da Igreja e da Pátria, quero dizer a dos Agostinhos Descalços, sendo a própria que exigia a supressão de alguns dos seus Conventos, achou a mais viva resistência nos povos circunvizinhos dos tais Conventos, que poderiam às Côrtes a conservação dos seus Frades, que não o seu refúgio nas doenças da alma e do corpo, sustentando os pobres nas suas portarias, e assistindo a todos de dia e de noite nos transes da passagem deste mundo para a eternidade.

Guardando para outra vez um exame seguido e especial dos Projectos de Reforma dos Regulares, que as circunstâncias do tempo não consentiram fossem analisados da maneira que convinha, e então farei ver a monstruosa ilegalidade de tais Comissões, e a ignorância dos mui altos sabedores que as formalizaram, nomeadamente o primeiro, visto que os Autores do segundo fizeram talvez mais do que se devia esperar de homens sufocados pela irresistível preponderância da Facção Fernandina; por ora tocarei somente em uma anedota, que põe à claras o verdadeiro espírito daquela Comissão. Tenho-a de um varão egrégio em ciência e costumes, por quem suspiram as principais Mitras deste Reino, e que fez parte das Côrtes chamadas Constituintes, o qual ouvindo nomear a Comissão de Reforma dos Regulares, lembrou-se (pelos bons estudos que tem nestas matérias, e noutras as mais estranhas do fim principal de suas continuadas e indefesas aplicações) lembrou-se de apontar algumas espécies de interesse para os tais colaboradores do Projecto de Reforma. Chegou à porta do gabinete, ou casa onde trabalhavam, e por obrar de boa fé, e segurar-se, perguntou.. Trata-se de reforma, ou de extinção? De extinção. Respondeu um Ex-Frade, classe esta donde costumam sair desde Lutero para cá os melhores reformadores das Ordens Religiosas, como veremos a seu tempo!! A Estas palavras retirou-se pasmado o nosso Transmontano, e nunca mais duvidou que o Sistema Constitucional era ou se reputava incomparável com a existência de Frades, pois de que servem Frades em um Reino que apostáta do Cristianismo? E o Sistema Constitucional, como o traçaram os nossos Regeneradores, não pode existir sem a mais viva, e encarecida guerra ao Cristianismo: sim ao Cristianismo, que prescreve a sujeição aos Rei como dever de consciência, e nem os próprios Neros julga amovíveis do trono; sim ao Cristianismo, que fulmina todos os juramentos de liberdade, de igualdade, e ódio à realeza; sim ao Cristianismo, que será constantemente uma barreira invencível ao progresso das Ideias Liberais, que onde entrarem, e dominarem, hão acarretar necessariamente consigo a expulsão dos Frades, Clérigos e Bispo, das Santas Imagens, dos Sacramentos, e de tudo que cheirar a princípios Cristãos. Perdoem-me os Leitores esta pequena digressão, e voltem comigo ao meu principal intento.

(
continuação, II parte)

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 6

O PUNHAL DOS CORCUNDAS

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Nº. 6
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Ostendam gentibus nuditatem tuam

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O SIGILISMO

Quem zomba e escarnece das próprias armas, que só de vista afugentam o Demónio, é certamente pior que o Demónio.

Atqui od Liberais e Pedreiros zombam e escarnecem das próprias armas que afugentam o Demónio, isto é, do sacrossanto e adorável Estandarte da Cruz...

Ergo

Os Liberais e Pedreiros são piores que o Demónio

Da proposição maior ninguém duvida, excepto os que sobranceiros à crença do vulgo, não admitem coisa alguma que cheire a substância espiritual, e que se dariam por envergonhados se fizessem o sinal da Cruz, a que os tais meus Senhores têm substituído um gestozinho de enxota moscas, por certo o mais galante e o mais expressivo da sua íntima, cordial, e fervorosa devoção.

Temos em Portugal uma cidade, antiga Côrte dos nossos Reis, e ilustrada para todo sempre, não só pelo grande nome do imortal Capitão e Alcaide Mór Martim de Freitas, mas também pelos seus leais habitantes, que se o não fossem, que poderia concluir o Freitas, vendo-se em aperto, e sozinho contra os soldados de ElRei D. Afonso III! Berço de indignes Varões em todas as idades da nossa Monarquia, também o foi da gloriosíssima revindicação da nossa independência em 1385.... Assento de uma Universidade das mais célebres da Europa, e que à maior parte delas há cedido alguns dos seus conspícuos e egrégios Professores.... Coimbra finalmente é quem há de acudir-me com as mais terminantes e decisivas provas da menor; mas importa fazer primeiro uma separação mui essencial a quem não se propõe fazer ataques directos e pessoais... que só eram lícitos, e sancionados em o primeiro Diário do Governo, durante o regime constitucional!!

O Corpo Docente, ou dos Lentes da Universidade, é por ventura o mais aferrado às instituições antigas, o mais adido à Casa Reinante, herança esta dos abalizados Mestres, que em 1580 no meio do estrondo das armas sustentaram quase firmes e inabaláveis colunas o direito da Sereníssima Senhora D. Catarina, e o mais oposto às novas instituições, que lhes ofereciam manifestamente o cunho da mais descarada e insolente democracia....

Nessa parte eu folgo de o tratar com a imparcialidade e justiça, de que ele se faz credor; e seria o cume da sandice e da maldade, se um corpo incessantemente favorecido por ElRei Nosso Senhor se tivesse mostrado ingrato e rebelde. Fiquemos nisto para sempre. Todas as vezes que eu censurar ou estranhar alguma coisa pertencente à Universidade, terei somente em vista as doutrinas, e raríssimas vezes os homens; pois dos que seguiram com ardor e entusiasmo a causa liberal posso dizer com toda a verdade:

Apparent rari nantes in gurgite vasto.

Ora em Coimbra há meses a esta parte declarou-se uma febre ou febrão constitucional, que logo no primeiro dia chegava os enfermos a uma completa indiferença para tudo o que mais deve interessar um Cristão, e um maníaco e insanável furor de atacar as superstições, que na linguagem Pedeiral soam largamente, e compeendem desde as genuflexões e sinal da Cruz até ao Mistério da Santíssima Trindade, e da Redenção do homem feita por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Surdio como por encanto neste recém-passado Maio (tempo bem azado e próprio!!!) uma cáfila de excelentes Periódicos, Liberais, onde sobressaiam as redundâncias do talento por ventura capaz de segurar na queda o grão sistema, se o pobrezinho depois que se lhe aplicaram esses malditos cáusticos de Verona (caso triste, e miserando!!) não prometesse a toda a hora favorecer-nos com a sua ausência, ou precipício nos quintos infernos....

Tem a mesma data o sucesso horroroso, e nunca visto em Portugal desde que é Reino livre e independente, e que só teria lugar sob a dominação Mouresca, e então mesmo seria despido dos graus de malícia, de estudada e sistemática perversidade, que marcaram e distinguiram a coroa, e o remate das obras constitucionais, ou tenebrosas, posto em Coimbra a três de Maio....

Nenhum Cristão ignora que esse dia é especialmente consagrado à Invenção da preciosa Cruz do Salvador, feita por mandado, e diligência da Imperatriz Mãe do grande Constantino.... Já houve na mesma Cidade exemplos de insulto e desacato a várias Cruzes de pedra, que nesse tempo se julgaram efeitos de loucura ou bebedice.... porém nunca houve nem se temia que houvesse uma inteira demolição e destruição de todas as Cruzes existentes na Cidade e suas mais próximas cercanias. Era uma glória justamente reservada para os tempos constitucionais! É de advertir que uma pessoa temente a Deus, e mui devota das Almas do Purgatório, fizera erigir muitos Calvários de pedra nas diferentes saídas de Coimbra, e por sinal que importou cada um em 4:800 réis de despesa, que não faltará em Coimbra quem os tivesse por mais bem empregados em algum destruidor de Cruzes; mas o certo é que a obra se concluiu à medida dos desejos de quem podia gastar com quisesse o quera seu, e que não foi roubado à Nação.

Já por vezes a impiedade rangera os dentes... e muito duraram as Cruzes para a vontade que lhes tinham estes seus endiabrados inimigos. Não é nada, aprontar-se a falange infernal, por ventura ao mesmo ponto em que saía das lojas.. desesperada e sedenta de estragos... repartem-se os vigilantes, e mais quadrilha, poem mãos à obra... e na manhã seguinte fica a Cidade tão pasmada como estremecida de que os raios do Céu não caíssem imediatamente sobre ela, para lhe infligirem o castigo, que por muito menos tiveram de padecer as cidades enterradas no Lago Asphalites!!! Foi tal a consternação, que dificultosamente poderia caber em linguagem; e só quem a viu de perto, quem examinou o próprio teatro de tão inaudita como nefanda perversidade, é que poderia, mais à força de lágrimas que de vozes, expor dignamente o susto que se apoderou dos habitantes de Coimbra, apenas viram o que nunca imaginaram ver!!

Logo se viu que falhara a Tentativa Maçónica para desapegar os povos da sua confiança nos Mistérios e prerrogativas da Cruz; e mais de um juízo atilado prévio que era chegado o prazo final da audácia, ou da impiedade Maçónica.. E se o povo de Coimbra se limitou a bramir contra o execrável atentado, e não rompeu logo em outras demonstrações do seu ódio figadal ao Liberalismo, é por ser Cristão.. Sobejava-lhe o valor para esmagar os tão débeis como impuros sustentáculos do Maçonismo; porém sobejando-lhe igualmente a discrição para ver que a espada da Lei é a única, que sem perigo de se ultrajar o Senhor da vida e da morte, ou de se perturbar o sossego público, se desembainhará oportunamente contra os fautores, e instigadores de tais excessos.

Creio que não há mais que desejar para que fiquemos certos, e mui certos de pedra e cal (certeza bem própria de quanto se trata de Mações), que estes, e só estes monstros, por extremo fiéis ao antigo decreto de esmagar o infame (Esmagar o infame - é a divisa dos veneráveis Mestres Voltaire, Alambert, Rei da Prússia, etc., etc., etc. Um campanudo Mestre da Universidade entende por este infame, não a J. Cristo, porém o fanatismo.... Para perto se mudou. Aqui fanatismo em linguagem corrente de toda a correspondência de Voltaire é a Superstição Cristícula ou Religião Católica... Ergo... Fique para outra vez a conclusão, que será de levar couro e cabelo, quando se lhe juntarem as provas da Teologia de Voltaire), traçaram e executaram o plano de atirar ao chão, e destruir todas as Cruzes.... que se fazem o terror, e o espanto dos demónios, acharam desta vez outros piores, que levaram uma noite de fio a pavio só para darem cabo de tantas Cruzes.

Se algum Campeão dessa ainda há poucos dias formosa Dulcineia me quisesse argumentar que eu uso do sofisma - non causae pro causa - que misturo alhos com bugalhos, e que confundo com a Divina Constituição os abusos que se fizeram dela.. respondo facilmente.. Onde só há erros e abusos inumeráveis de tal porte como esses que acabo de referir, e nenhum bem que valha trinta réis, está demonstrado invencivelmente que a causa, de que tanto se abusa, não só é má, porém abominável e péssima....

Não resmungueis; senão empurro-vos a infalível autoridade do vosso Evangelista Rousseau, e ficais aí de queixo caído.

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LISBOA: NA IMPRESSÃO RÉGIA. 1823
Com licença da Real Comissão de Censura.

O PUNHAL DOS CORCUNDAS Nº 11

O PUNHAL DOS CORCUNDAS

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Nº. 11
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Ostendam gentibus nuditatem tuam

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AS DUAS SOBERANIAS

Não trato agora da Soberania dos Reis. Já disse e torno a dizer que esta é inconcussa, indestructível, e que a antiguidade em peso se declarou a favor do Governo de um só... O Príncipe dos Poetas há pouco menos de trinta séculos sancionava os direitos da Soberania dos Reis, e condenava os governos Representativos ou Constitucionais, pondo na boca do mais judicioso e experimentado dos Heróis Gregos aquela memorável sentença... "Não é bom o governo de muitos, um só é que deve governar." (Illiad. liv. 2º). Conheço que este dito amargará aos nossos mais famosos Publicistas; mas tenham paciência, que ainda é agora... Vai-se acabando o tempo dos risinhos sardónicos, fiéis substitutos da sabedoria moderna, e vão caindo de maduros esses decantados axiomas em que já não era lícito argumentar... Cedo nos veremos em coisa que lhes será pesadíssima, e já declaro que hei de rir-me dessa enfiada de nomes mágicos de Eybels Gmeiners, Filangieres, e outros oráculos... Razões e mais razões... Fontes genuínas e mais fontes genuínas... Nada de Cânones viciados, e mal entendidos, nada de autoridades truncadas ou interpoladas... Tem de passar bem má vida comigo, que antes quisera ser escravo em Argel, do que ser bem reputado pelos nossos Sabichões, que antes quero que me chamem esturrado e fanático, do que me apelidem tolerante, comedido, e que sei viver... Tomara eu saber morrer pela Fé, e confirmar-me todos os dias na santa loucura, de que blasonava o grande Apóstolo S. Paulo (Nos stulti propter Christum).

Quis preparar certos bichaços, para que instruídos suficientemente de qual é o meu ânimo, ou rasguem, ou deitem ao fogo este maldito papel, e não estraguem na sua leitura os preciosos momentos que se devem gastar com os Paynes, Constants, e Pradts, e mais Irmãos da Confraria Liberal.

Duas Soberanias têm havido na Europa desde a queda do Império Romano até aos nossos dias, e a qual delas mais conspícua e estrondosa. A Soberania dos Papas, que se ingeriam nas temporalidade dos Reis, que punham e depunham os Soberanos, que absolviam os Povos do juramento de fidelidade ( Cá em nossos dias fez o mesmo um certo Jam, ou Manuel Fernandes, e ninguém lhe contestou esse direito, que só é odioso nos Papas!!), e cometiam outras desordens, que se acreditarmos o Grão Fleury, e o Grão Racine, por bem pouco não puseram à dependura a civilização, as artes e a felicidade da Europa.

A Soberania do Povo é a segunda, que levantada sobre as ruinas da primeira, logo por entrada arrancou à obediência do Pai comum dos Fiéis Províncias e Reinos inteiros, esmigalhou Septros e Coroas, proclamou solenemente que os Reis eram seus verdadeiros súbditos, e no séc. XVIII, em que mais se despregaram as suas fúrias, não tem às costas menos de quatro a cinco mil homens de vítimas, ainda sem computarmos o efeito dos golpes descarregados sobre a geração futura...

Esta é hoje a formosa, a deleitável, a única soberania de que importa dizer bem, carregando-se de altivez a sua por ventura mais desgraçada que criminosa antecessora... Ora pois nem tanto sofrer, que a paciência também cansa.

Entrarão por ventura os Sumos Pontífices no exercício daquela soberania por chamamento da Escritura, da Tradição, ou por Decreto de algum Concílio Geral? Não.... e assim respondo, porque a verdade é o meu único norte. Mas donde lhes veio tão estranha autoridade, que por certo não exercitaram os Pontífices do primeiro século? Responda em meu lugar um Sabichão, um Filósofo de mão cheia, um Robinet, que no seu Dicionário Diplomático (V. Pape) afirma sem rebuço que os Reis e os povos deram essa autoridade aos Sucessores de S. Pedro, e que eles como interessados nela, mamais deverão ser arguidos de a terem exercitado... Bem... Já temos a favor dos Papas uma autoridade clássica... E as Cruzadas, e os Reis depostos? Sim, Senhor, já lá vamos. As Cruzadas livraram a Europa de ser inundada pelo Turbante Mussulmano, e de experimentar a sorte da África, e da Ásia Cristã; e não é nada o último golpe descarregado sobre as vistas ambiciosas do Império de meia Lua, nas águas de Lepanto, é devido a um Papa, e até o Protestante Bacon estranhava que ainda não estivesse canonizado este Pontífice amigo dos homens. Não me esquecem os Reis depostos... No meio do que antiga e modernamente se há discutido sobre esta matéria pouco me importa o que dizem os Luternos, os Calvinos, os Buchanans, os Miltons, e os próprios Marianas; e cortando o nó górdio das incertezas do famoso Grócio, enunciarei mui clara e despejadamente o meu sentir... A nossa Divina Religião manda sofrer os próprios tiranos, e jamais consentirá ela que seus Filhos atentem contra os Ungidos do Senhor... Entretanto é o sumo grau da incoerência, e da sandice que os Padreiros censurem nesta parte a soberania dos Papas... quantas guerras civis e assoladoras se pouparam no género humano por via desta jurisdição pacífica, e benfazeja!.. Eram por ventura dignos de reinar certos homens que acinte flagelavam, e destruíam os seus povos? E se esses povos se acolhiam ao sagrado do Trono Pontifício, entregando a uma só palavra o que sem este meio teriam conseguido à força de armas, seriam por isso mais repreensíveis que os Regicidas de Carlos I de Inglaterra, e Luís XVI de França? Que raio seriam mais temíveis e estragadores; os do Vaticano que feriam muitas vezes uma só cabeça, u os da Assembleia Nacional, os da Convenção, os do Direito Executivo, e os de Napoleão, que em breves horas deixavam um campo alastrado de mortos, e moribundos, que por bem pouco não reduziram a Europa a um deserto, que ao menos era possível fazer-se de Lisboa até Moscovo, uma calçada dos ossos das suas vítimas. 

Creio que muitos dos meus leitores (tanto podem os prejuízos de educação literária!!) se tem maravilhado destas asserções hoje triviais por toda a Europa, e seguidas por A. A. Católicos, e Protestantes. Há quem defenda que a soberania temporal dos Sumos Pontífices, qual foi exercida lá nos séculos onze, doze, treze, etc. etc. foi um grande benefício para o género humano, e que a Europa deve a esta Soberania tão odiada pelos Filósofos, e Pedreiros toda a sua civilização e grandeza. Imprimiu-se a obra em 1816, e ainda não houve quem lhe respondesse... nem é fácil, pois os sábios da moda correm, correm, debicam, defloram, e nada mais. Logo que apareça algum que estude, examine, e pese os fundamentos, de qualquer ordem que eles sejam, pode estar certo de que ninguém lhe sai ao caminho, nem lhes fará abandonar o campo...

Ora que façam outro tanto à soberania do povo, e que se metam a demostrar que foi um grande benefício para o género humano... Ah! Não tenham medo que tal aconteça, ainda que dos Chorões da Ermonville ressurgisse o demonstrador de paradoxos, o coroado pela Academia de Dijon, o Grão Rousseau!!

Não me faltava que dizer ao propósito das soberanias... mas fica o melhor no tinteiro, porque ainda é cedo... e os ares ainda me não apresentam aquela serenidade, que virá com o tempo, e com os nunca assaz louvados esforços da Santa Aliança...

Quem nome foi agora escorregar-me da pena!! Aí dá um fanico em algum dos meus leitores... pois toca a fazê-lo tornar a si, e diverti-los... que nem sempre hão de tratar-se questões de polpa...


Ó Hirco Cervo

Apareceu, apareceu... Já o vemos, já o possuímos, e não obstante o passar até agora como impossível na ordem da natureza, só ele não apareceria no séc. XIX, século das coisas raras, estupendas, e maravilhosas!! Muito perderam os Buffons, os Lineos, os Lacepedes, e outros que não chegaram a ver o que eu vejo, e que eu admiro.

Metade do Corpo das tais animálias é de Veado, e a outra é de Bode ou Cabrão... Oh que linda mistura de feições, de gestos, e de movimentos!! Não me farto de os ver, de os analisar, e dar vivas ao meu século, que os gerou e produziu! Não é um só que apareceu, de modo que seja necessário andar à mostra pelo Reino... há muitos nas cidades principais, já os há nas vilas, e o que é mais, ja penetraram nas aldeias e choças dos pastores! Sendo tanta a bicharia, talvez pareça à primeira vista que perderam o ser de monstros, e devem fazer uma nova espécie... Nova espécie... Fora... isso não, que teríamos em campo os Senhores Materiais ou Materialistas a gritarem que estes bicharocos foram gerados pelo simples esforço da matéria... Não Senhor, não é nova espécie. São muitos, e são monstros. Posso afirmar com toda a segurança, que é uma raça hibrida, e que dentro em seis anos já não haverá nem fumos de Hico Cervo em Portugal. Continuemos todavia a sua descrição, que é importante e divertida.

São de várias cores e tamanhos, umas azuis, outros negros, outros brancos, outros pardos, uns apessoados, e de figura gigantesca, outros da marca de Judas, e quase pigmeus... Sendo o seu natural viverem nas cavernas onde estiveram por muito tempo sem haver quem desse fé de tais brutalidades. Sabiam há pouco das suas vivendas, e fizeram-se mais conhecidos do que se fossem gatos pardos... Fazem liga com os Leões, Tigres, Leopardos, e Onças, e não lhes pesa o pé uma onça quando se trata de servirem aqueles bichaços, e de lhes facilitarem a presa de animais pequenos, mansos, e inocentes... Por isso mesmo que degeneraram das espécies primitivas, dão-lhes contínuas mostras de ódio figadal, desejam trincar-lhes o próprio coração, e lhes fazem quanto mal podem, ora mordendo, ora escoucinhando, e até desalojando-as de suas pacíficas moradas. Se a bem ordenada república dos industriosos Castores é a admiração dos naturalistas a ponto de lhes estudarem todos os seus passos, trabalhos, e edifícios, quanta lhes deverá excitar a sociedade dos Hirco Cervos, que sobressaem até nos ofícios mecânicos, e especialmente de pedreiro?

É de ver e de pasmar a suma agilidade com que maneiam a trolha e a colher, mexem e remexem a cal, e sabem destruir para melhor edificarem

Se algum dos meus leitores por mais esperto e agudo tiver percebido que o Hirco Cervo é o Frade Constitucional, por isso não termos grande bulha, a pesar de que o assunto foi agora tocado bem pela rama... Atrás de tempos tempos vêm, e até ao lavar dos cestos é vindima......

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LISBOA: NA IMPRESSÃO RÉGIA. 1823
Com licença da Real Comissão de Censura.

18/01/18

ASSOCIAÇÃO "CAUSA TRAVESTI" !?

A associação despretensiosamente autodenominada "Causa Tradicionalista", à qual não podemos reconhecer como tradicionalista, por mais puzzles que faça, veio agora com mais uma das suas.

Sem grandes demoras ...


9 de Outubro de 2016

O blog VERITATIS publica "Carta de Alfredo Pimenta a Caetano Beirão" e coloca uma imagem onde faz valer o "Deus, Pátria, Reis", e desvaler o "Deus, Pátria, Cortes/Foros, Rei".

Imagem do referido artigo
No Dia Seguinte ...

Uma das cabeças fundadoras da associação comenta assim no seu grupo de facebook "Bandeira Branca", dirigindo-se ao autor do blog VERITATIS :

Guilherme Koehler: para inventar estás por aí 3 vezes porque curiosamente a CAUSA TRADICIONALISTA defende "DEUS - PÁTRIA - FOROS - REI" como os Carlistas, logo está confirmado exactamente o contrário, chamaste aos Carlistas semi-liberais. Isto até levou a que um deles (Carlos Sánchez Morago) se manifestasse com ar de indignação! E deves ter grandes problemas de visão porque as letras são bem grandes e facilmente visíveis =)  [e publica a imagem que segue]

Adicionar legenda
No mesmo dia, a respeito do mesmo artigo, o autor do blog VERITATIS foi "inteligentemente" "aplaudido" pelo Presidente da associação "Causa Tradicionalista", o DR. Luís Andrade Dos Santos (por prudência preferimos não mostrar o dito "aplauso" e dedicatória. O autor do VERITATIS foi expulso e bloqueado.


18 de Janeiro de 2018

No Facebook, a página da associação "Causa Tradicionalista" publica uma imagem com a legenda seguinte:


"Deus, Pátria e Rei
"Têm-me acusado muitas vezes de fanático, intolerante e intransigente. Sou-o quanto pode sê-lo quem vive num século desvirilizado, essencialmente burguês, materialista e céptico, e percorreu as sete partidas do mundo da cultura à procura da verdade nova, para só encontrar verdades falsas, à busca desinteressada do Sol e só encontrou crepúsculos frios. Quando voltei, desiludido, à minha tenda levantada no meio do tumulto, verifiquei que a única solução acessível às minhas inquietações e angústias era a tradição.
E regressei à secular tradição portuguesa – a Deus, à Pátria e ao Rei.
(Alfredo Pimenta em "A Nação", 1948.)"





Em 5 horas já 13 usuários deram o seu "gosto" na publicação.



O público que saiba que antes da criação da travestida associação já nós, tradicionalistas, a tínhamos recusado, por termos confirmado duas realidades:
1 - Quem a queria formar, além de não ser tradicionalista, parecia estar mais interessado em explorar uma nova fatia de mercado político;
2 - Porque sabíamos que haveria o risco de rebaixar a Tradição Lusa aos defeitos e erros das militâncias espanholas (António Sardinha foi o caso).

Lamentamos que muito boa gente movida por bons sentimentos tenha tropeçado na dita associação....  Não é por aí ... aí é já o desvio!

Vestem o "Deus, Pátria, Rei", ou o espanhol "Deus, Pátria, Foros (Côrtes), Rei"!? Que roupagem vestem?

01/01/18

LEVANTAMENTO DE EXCOMUNHÃO AO REI DEFUNTO

A História de Portugal é tão rica e grande que nem os portugueses a conhecem bem... sim, e nem os historiadores a abrangem e descobriram em suficiência. Portugal, o Reino Desconhecido, que toda a gente sabe onde fica, e vai.

Quem sabe que depois de morto D. João IV foi desenterrado pela Inquisição para ser submetido a um rito de levantamento de excomunhão injusta?


"Os Inquisidores de Lisboa levantando a excomunhão a El Rei D. João IV", lê-se na estampa.

O motivo da pertença excomunhão era falso. Queixou-se Espanha de que D. João IV teria usurpado o Trono de Portugal ao Rei Felipe IV de Espanha; a Inquisição portuguesa onde os cargos estavam ocupados por aqueles que se mostravam benéficos a Espanha aplicou a excomunhão; bastante depois viu-se obrigada a levantá-la.

Sobre este caso deveria haver um mais amplo levantamento de dados da época. Assim queira Deus.

ABRI O ANO COM "BOAS NOTÍCIAS"

Presépio "Simpsons)
O Santuário de Fátima tem cada vez mais "investimentos" e novidades, mas que, segundo o que se ouve e lê em comentários, está a tornar-se um espaço feio, e absurdo.

Para um órgão destes, e para um santuário tal, há que ter juízo adequado para escolher organista!
Recentemente, foi o "presépio Simpson" a fazer justiça ao "enriquecimento" cultural, que tem invadido o Santuário de Fátima nestes últimos anos. Mas esta invasão de marxismo cultural (sim... ) não fica apenas pela poluição visual, como ficou visto pela escolha e critérios do novo organista do Santuário: um jovem "fixe" que já provou a Portugal a ignorância de quem o colocou no cargo.


A investigação que fizemos revelou que uma única é a pessoa que está na base dos "novos critérios" artesanais... . Chama-se Marco Daniel Duarte, é Director do Serviço de Estudos do Santuário de Fátima, e do respectivo Museu (aqui). Certamente, o DR. Marco é muito organizado em suas ideias, muito fundamentado em autores, muito ágil e activo em seu trabalho, mas ideologicamente desviado do pensamento católico.

As queixas existem, crescem... e se isto não INVERTE e corrige, terá que ser responsabilizado quem para os cargos recrutou o DR. Marco!

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