21/05/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº2 (II)

(continuação da I parte)


FELICIDADE – A mudança de significado deste Vocábulo tem causado no mundo maiores males, que a peste. Tomando-o muitos no significado antigo, têm querido achar a felicidade por meio da desordem, julgando que este ente, tão buscado e rebuscado pela incontentabilidade humana, estaria porventura escondido na novidade; e milhares de ladrões e trapaceiros os confirmaram nesta falsa ideia. A experiência, todavia, há feito ver, que o que significa o Vocábulo felicidade é ultima ruína e miséria. Quando um Povo há sido despojado de tudo; quando os Santuários, e Estabelecimentos Públicos hão sofrido o mais completo saque; quando as enormes e contínuas contribuições hão posto a pedir o afazendado, e lançado a pique o comerciante; quando o lavrador e o artista hão sido obrigados a trocar o útil manejo da enxada, e da lançadeira pelo mortífero e homicida da baioneta e da espada; quando a Religião há sido insultada, e seus Ministros hão sido roubados, perseguidos, caluniados, e postos no maior desamparo e miséria; quando, finalmente, se hão dado os mais horrorosos escândalos, há chegado a seu cúmulo a relaxação dos costumes, hão sido oprimidos os bons e honrados cidadãos, e os tunantes e malsins se hão apoderado do governo, então é quando a felicidade republicana está na sua plenitude. A desgraça é, que o horrendo engano desde Vocábulo vai fazendo, que infinitos Povos corram a esta maldita felicidade republicana. Zelosíssimos são os Republicanos deste Vocábulo; e o não querer chamar felicidade à última ruína e miséria, tem custado a milhares de homens de bem desterros, prisões, cárceres, e guilhotinas. Apareça um só Povo, uma só Cidade, Vila, ou Cabana, e diga se há experimentado outra felicidade republicana, que não seja a que estamos definindo!! Desgraçados daqueles, que por uma vez sequer hão sido republicanamente felicitados! Quase que é este o único modo de ser feliz. 

Sem embargo, com estes três Vocábulos liberdade, igualdade, e felicidade se tem feito, e se vai fazendo uma prodigiosa caçada de pássaros. Na encantada selva da liberdade está estendida a rede da igualdade, e por isca (ou negaça) tem posta a felicidade. Os Patriotas são os pássaros do reclamo, e as corujas patriotas fazem também seu papel. A caça tem sido, e continua a ser, copiosa, sobre tudo de bobos, e toleirões, e não poucas aves de rapina têm caído igualmente na rede. Até agora ninguém tem encontrado mais felicidade, que a de ter sido depenado, andar assaltado de tiros, ou ter-se-lhe apertado o pescoço.

(* Que ideias cheias de indignação se nos não despertam, quando nos recordamos das promessas de felicidade, que os Regeneradores de todas as épocas nos tem apregoado?? E por outra parte, que luctuosos quadros se nos apresentam quando palpamos os males enormíssimos, e já hoje irremediáveis, que esta peste da felicidade pública tem espalhado neste malfadado Reino, sem dúvida digno de melhor sorte!! Quem fez que os Portugueses quebrassem pela primeira vez o laço da unidade moral, e o juramento de fidelidade ao seu Legitimo Soberano? Foi o fantasma da felicidade. Quem separou as Colónias da Metrópole, causando a ruína de ambas? A felicidade. Quem estagnou o Comércio? A felicidade. Quem accendeu o facho da guerra civil? A felicidade. Quem fez................... Ah! Suspendemos a pena ao contemplar a aluvião de males, que, qual torrente arrebatada, não reconhecendo limites, senão os que ela mesma forma, tem inundado, e continua a inundar este país! Felicidade!... Nome excecrável e blasfemo, quando proferido pelos liberais!... Fantasma ilusório! Tu és um veneno pestífero, que tens invadido todas as classes do Estado!! Tu prometeste aos Povos, que irão ter suas antigas Côrtes, para serem venturosos; e em troca destas lhes fizestes jurar um Código novo, antes de ser feito, cujas bases, eram as bases da impiedade, da irreligião, do indiferentismo, e a deslocação geral de todo o Sistema Monárquico, e Religioso, que por tantos séculos fez de Portugal um país de heróis!... Tu disseste aos Povos, que tinham direito para eleger seus Procuradores, que na qualidade de Deputados advogassem a Causa dos seus Constituintes; mas o votos foram comprados, os Povos nunca tiveram Procuradores, e toda a utilidade reverteu para eles!... Tu proclamaste a Religião de nossos Pais para vivermos tranquilos na nossa crença; mas bem depressa vimos o 1.º Pastor da Igreja Lusitana banido, e expatriado só por fazer algumas declarações, e restrições justas no seu juramento pela integridade da Doutrina Católica, e bem depressa se seguiu a profanação dos Templos, o aviltamento do Sacerdócio, e não tardaria a abolição do Culto Católico!! Tu disseste a um Rei pacifico, e inimigo de sangue, que o melhor meio de viver descansado, e tranquilo no meio de seus súbditos era concordar com eles, anuindo às suas propostas, confirmar os decretos do Supremo Congresso, dar amnistias quando eles quisessem, e acrescentaste mais "O Rei é inviolável" e à sombra da frondosa Árvore da Liberdade, gozaria sem cuidados nem sustos da paz de espírito, da tranquilidade d’alma, e como primeiro Magistrado da Nação teria ocasião de fazer muita gente feliz, que bem-dissesse o seu nome, chamando-lhe o Pai da Pátria; mas em lugar destas venturas, tu lhe deste a provar do amargoso cálice dos desgostos, semente da discórdia no meio da Família, armaste o braço Paterno contra o Filho Inocente, e a Esposa Carinhosa, atormentaste a seu espírito com revoluções imaginarias, e sonhadas conspirações, e quando pensaste, que era muito tempo de pôr à luz do dia aquele negocio, que há muito marchava nas trevas, descarregaste o ultimo golpe sobre uma vítima, que tantos perdões e amnistias tinha concedido! ... E então disseste "consumou-se a ventura de Portugal". As tuas promessas são semelhantes às da Serpente, que tentou os nossos Pais no Paraíso: "no dia em que comerdes da Árvore da Ciência do bem, e do mal, sereis como outros tantos Deuses, eritis sicut Dii"; mas qual foi o seu fruto?! A privação dos bens que possuíam, a desgraça, e a morte: assim tu seduzes os Povos "no dia em que comerdes o fruto da Revolução sereis outros tantos Deuses, independentes, absolutos, sábios, ilustrados, nobres, ricos, opulentos, a ninguém subordinados, mandando a todos, eritis sicut Dii!!" Mas apenas os Povos engolem o primeiro pomo de semelhante árvore, lá se vai o paraíso de delicias, que gozavam, desaparecem os bens, chovem os males, e a nudez bem depressa substitui o lugar da opulência!... Felicidade!! Na boca dos Revolucionários é o mesmo que paraíso na boca do Diabo. E ainda te atreves, fantasma ilusório, depois de proscrito, odiado, e anatematisado pela maioria da Nação Portuguesa, a assomar-te ao seu horizonte?! Embora te apresentes ornado com vestes imperiais, roçagantes, e qual outra Astrea, trazendo-nos a ventura, a paz, e fazendo reviver o reino de Saturno; não, tu não iludirás os Portugueses, demasiado conhecem eles as estranhas de tigre, e as garras de leão, que ocultas:  embora te apresentes com aspecto medonho e sanhudo, e qual outro Golas saias ao campo para insultar este segundo Israel de Deus, cá haverá um David, que só com tiro de funda te derrubará por terra...) D. Tr.

(continuação, III parte)

PORTUGAL - LEGADO DE RICARDO ESPÍRITO SANTO



Oficina da Fundação Ricardo Espírito Santo

20/05/15

REFUTAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DOS PEDREIROS ILUMINADOS

(Índice) 
REFUTAÇÃO
dos
Princípios Metafísicos, e Morais
dos
PEDREIROS LIVRES ILUMINADOS.

autor
José Agostinhode de Macedo

"Sit fas audio loqui" (Virgílio)

LISBOA
1816


PERFACÇÃO

Conheço que, para me deliberar a escrever ainda, é preciso que o amor da verdade em mim prevaleça a todas as afeições. Pelo que tenho observado, vejo que os inimigos honram; e como eu temo mais a consciência, que a fama, ainda que esta tenha sido tão injustamente abocanhada, como todos sabem, pelos infames impressos dentro, e fora de Portugal, entre os seus frenéticos clamores, fala mais alto a minha consciência, e eu cedo a seu imperioso mandamento; por isso escrevo, e escrevi. Sei donde se me disparam os tiros, e com evidência sei por quem seja formado o laço da pública, e oculta conspiração. Eu não a temo, por isso mesmo que a conheço. Um dos seus primeiros, e principais Cânones é este: ataque se caluniosamente este homem, e com a calúnia destrua-se o tal ou qual conceito, que possa ter adquirido na parte literária; escolha-se um mentecapto que o enxovalhe com insultos directos, e com os mais repugnantes despropósitos, que se não tolerariam na mais absoluta liberdade da imprensa; apadrinhem-se estes despropósitos para se não conhecerem como outros tantos crimes civis; grite-se que quanto têm composto não mostra em si o mais ligeiro vislumbre de siso comum; diga-se que são trivialidades os dois gravíssimos Tratados - A Verdade, e o Homem; que os três Poemas Oriente, Meditação, e Newton não o tiram da classe dos desleixados versificadores; diga-se finalmente que é nada como Orador; diga-se isto, ainda que seja impossível prová-lo; porque, como os mais livres ditos sempre fazem alguma ainda que ligeira impressão, sempre conseguimos infamá-lo, e com a infâmia sempre se destrói o conceito público. Ora, sem que eu apele para o juízo da Posterioridade, basta-me a voz da interna consciência, basta-me o amor da verdade para não deixar de escrever, nem de procurar em meus escritórios a pública utilidade.

Ainda que muitos, e gravíssimos escritores o não houveram dito, a experiência comum o dirá, que males todos de que ainda não deixou de ser vítima a Europa, vêm das mãos ímpias, sacrílegas, e homicidas do Iluminismo. As desgraças políticas dos Tronos, e das Nações daqui vieram: estas estão em parte reparadas com a força das armas dos mesmos Soberanos, contra quem se haviam conjurado dos Iluminados, e cuja ruína tinham jurado, e iam promovendo. Mas a ruína dos Tronos não se buscava senão pela ruína dos costumes; e a ruína dos costumes não se promovia senão pelos absurdos princípios metafísicos, e morais da incredulidade: negam isto os Iluminados; porém uma verdade, ainda que seja teimosamente negada, não deixa de ser verdade. Neguem o que quiserem, eu sei que o Iluminismo não é mais que o Epicurismo mal entendido: com este se pretende dissolver o laço da Religião, alucinar os incautos, e procurar converter os erros do entendimento na corrupção do coração. Pede-me o amor da verdade que ataque, e ataque deveras: eu não os temo; os que eu conheço, são outros tantos ignorantes. Há anos apareceram nesta Capital uns folhetos mal escritos, intitulados: "O Segredo Revelado", só tem de meu este título, pediram-me para eles o meu nome; como a intenção, e a causa eram justas, não duvidei dar o meu nome; tudo aquilo não é mais do que um rigorosa tradução da compilação de Barruel. Amotinei contra mim os Pedreiros Livres; e as cartas anónimas que recebi, e conservo, em que se me ameaçava de morte, só me fizeram rir. A Pedreiral conspiração tinha por motivo o que disse Barruel, e que um curioso entendedor de francês traduzido: eu não necessito de Barruel para combater os Pedreiros, nem de outras armas mais que as da razão para fazer desaparecer o Iluminismo, ao menos do entendimento, ainda que o não arranque do coração; porque nestes Senhores o erro é um capricho, e uma teima, seguida, e sustenida com tanto afinco que ainda hoje, depois de verem abatido, e pulverizado o grande Colosso que tinha os pés de barro, nutrem fantásticas esperanças de uma quimérica regeneração pela dissolução de todos os princípios sociais, e religiosos. Ainda se embalam com o embelêco, e ridícula imagem de uma dominação de que eles fossem. Querem e buscam estes Demagogos pertinacissimos, que o jugo da consciência se arremesse, que até a mesma voz da lei natural se sufoque, para que a liberdade de pensar se siga a liberdade do obrar. ainda que a matéria seja gravíssima, como se verá do presente Tratado, não me posso abster de uma expressão fortemente irrisória: tenho observado, e conhecido nos Iluminados um Quichotismo metafísico, querendo vingar a humanidade (dizem eles) dos agravos que lhe fez a Religião; mas nesta vingança dos agravos consiste, e tem consistido a desgraça da humanidade. Tire-se aos homens a Religião, tudo será anarquia política, anarquia moral, anarquia social. Devo pois arrostar-me com estes homens. Se eu perguntar a um Iluminado quem seja? Creio que me responderá o que respondeu Pitágoras a Clemente: "Sou filósofo"; mas não Filósofo no simples, e natural sentido em que o entendeu Pitágoras, isto é, amante, ou estudioso da sapiência: dir-me-há que é Filósofo em sentido mais levantado, e sublime - Este mesmo Iluminado, modestíssimo, o diz muitas vezes transportado, e cheio de persuasão do próprio mérito. Sim, sofra-o em paz a vergonha, ou o ciume dos outros Filósofos; seja este iluminado o sábio, o homem superior às preocupações; seja finalmente aquele grande génio, que entre as trevas comuns descobriu o modo de combinar entre si as duas coisas, que pareciam mais alheias, e estranhas, isto é, tudo quanto de mais doce e suave podia gostar a humanidade, com tudo aquilo que de mais augusto, e santo tinham a Religião, e a Virtude: ajunte, e ligue Virtude, e Religião perfeita com a mais esquisita sensualidade do Mundo; combinação na verdade maravilhosa!!! mas combinação que deve ser maduramente examinada. Este exame, em que farei consistir esta refutação, se reduz a três partes. Examinarei na primeira se esta Filosofia é coisa tão rara, e nova, como dizem os Iluminados. Examinarei na segunda, se os Dogmas desta Filosofia concordem com a verdadeira Religião, e verdadeira virtude. Examinarei na terceira, se destes Dogmas venha aos homens a que se promete tão extraordinária, e nunca sentida felicidade. Destes exames deve resultar a ideias justa, e clara do Iluminismo. É por ventura a Filosofia dos Iluminados uma obra prima? É acaso uma invenção de nova sapiência, e uma refutação da antiga? É um sistema de mais sábia Religião, e virtude, ou uma máquina de iniquidade, e de impiedade? É um segredo que encaminha para a vida feliz, ou uma ilusão que consigo traz a miséria, e vitupério? É acaso uma obra digna da admiração, do apreço, e do amor do Mundo o mais culto, ou obra digna do aborrecimento, e desprezo do Mundo inteiro? Eis aqui as grandes coisas, que é preciso conhecer. Não me tacharão estes Senhores de cerimónia, e nem por isso Jornais Portugueses em Inglaterra deixarão de vir, como costumam, enfeitados de descomposturas, e que fazem eco alguns mentecaptos em Portugal. Neste escrito falará a nua, e puríssima verdade, e ver-se-há, que se nos raciocínios humanos se descobre evidência, nestes se encontra. Aceitem este trabalho os homens de bem; a sua aprovação é a minha recompensa, à qual eu ajunto o testemunho interior da consciência que me brada, que poso dizer com mais razão que o Sofista de Genebra: Vitamque impendere vero.

(continuação, cap. I)

UMA TRISONATA DE BACH (Tim de 11 anos)

MEMÓRIAS PARA A VIDA DA BEATA MAFALDA (II)

Beata D. Mafalda
(continuação da I parte)

Capítulo II
EDUCAÇÃO E PRIMEIROS ANOS DA RAINHA D. MAFALDA

Os sucessos da infância, que bem pouco ou nada interessam nos homens de uma classe ordinária, contemplam-se de diversos modos naquelas personagens que conseguiram um nome célebre e recomendável à posterioridade. Eles merecem a atenção do historiador, que muitas vezes se cansa em descobrir já nos fundamentos a grandeza do edifício. Tratando pois de averiguar as primeiras acções da Rainha D. Mafalda, não farei senão conjecturas, já que a notória escassez de monumentos e notícias, já que a notória escassez de monumentos e notícias daquele tempo não permite avançar mais longe.

Contam alguns escritores, que a Rainha D. Dulce vigiou particularmente sobre a educação desta filha e que levava a tal ponto o seu extremo para com ela, que jamais consentiu,que lha tirassem dos seus braços na idade mais tenra e que vendo-a já crescida em anos se comprazia muito, porque já reluziam nela alguns indícios da sua futura santidade; mas confessando os historiadores (Fr. Bernardo de Brito, José Pereira Baião e outros) que a Rainha D. Dulce morreu a 11 de Setembro de 1198 e tendo eu já mostrado que o nascimento da Rainha D. Mafalda não sucedeu antes do ano de 1195, daqui resulta necessariamente que a Rainha D. Dulce não teve o gosto de admirar as nascentes virtudes de uma filha, a qual no tempo da sua morte contaria apenas três anos de idade; não duvido, porém, que a Rainha D. Mafalda recebesse de sua augusta Mãe as provas de ternura correspondentes à idade, pois é sentimento bem ordinário a todas as mães o prodigalizarem os mimos e afagos, na conjuntura em que mais se necessitam.

E quais foram os directores da sua educação? Não falta quem atribua esta glória a suas irmãs a B. Teresa e B. Sancha; e com efeito não negamos que a frequência dos bons exemplos, que ela observa nas suas virtuosas Irmãs, influísse muito para dirigir os seus costumes; mas devo repartir aquela glória com outra personagem, que até hoje foi desconhecida pelos seus historiadores e panegiristas (José Anastácio de Figueiredo, oficial da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino e substituto da Cadeira de Diplomática, novamente criada em Lisboa, é o 1º dos nossos escritores que atribui a criação da Rainha D. Mafalda a D. Urraca Viegas e assim na sua Nova Malta Portuguesa). É D. Urraca Viegas, filha de D. Moniz de Ribadouro e esposa do Conde D. Vasco Sanches, a qual, doando uma grande parte dos seus bens (a doação de D. Urraca Viegas e uma relação antiga dos bens que ela abrange podem ver-se nas provas nº 1 e 2) à Rainha D. Mafalda, lhe chama expressamente sua aluna, o que se corrobora ainda mais pelos Breves de Inocêncio III (vem na colecção que fez Balúzio das Epístolas de Inocêncio III, nº 115, e foi datado em S. João de Latrão, a 13 de Outubro de 1212), Gregório IX (o Breve de Gregório IX, é datado em Perúgia a 15 de Maio de 1230) e Inocêncio IV (o Breve de Inocêncio IV, é datado em Leão a 11 de Agosto de 1246 e com o antecedente vai lançado nas provas, que fazem um apêndice a estas Memórias), expedidas à instância da Rainha D. Mafalda, nos quais além da herança, que D. Sancho I seu Pai lhe tinha deixado, se confirma a que lhe deixou D. Urraca, da qual se diz que nutria e adoptara por filha a Rainha D. Mafalda; argumentos invencíveis para se mostrar que D. Urraca Viegas teve uma grande parte na sua educação.

Ninguém duvida que correspondesse perfeitamente aos cuidados e fadigas que por ela se tomaram e que muito suavizaria a docilidade do seu natural; e agora mais que nunca eu sinto a falta de historiadores coevos, que nos relatariam, com miudeza, quais foram as primeiras ocupações de uma vida, que para o diante se há-de manifestar por tantos prodígios e maravilhas, como se verá no decurso destas Memórias.Eles nos fariam ver um coração insensível aos encantos e delícias da Côrte, para suspirar unicamente pelas delícias do amor divino; e, pasmando justamente de verem em anos tão curtos as virtudes mais adiantadas, celebrariam a sua frequência na oração e outros exercícios de piedade, a resolução mais que varonil com que abraçava os rigores da vida penitente, a sua prontidão em socorrer os miseráveis e outros lances de religião e beneficência muito superiores a quantos dela nos referem os nossos cronistas guiados somente por conjecturas.

Todos eles afirmam unanimemente que a Rainha D. Mafalda só teve por igual na formosura em todas as Espanhas sua irmã a Rainha D. Teresa, donde se vê que a Omnipotência Divina a quis adornar com todo o género de perfeições, para a fazer admirável nas suas ordens da graça e da natureza; nem duvido que ela sobressaísse em outras prendas acomodadas ao seu sexo, nas quais se desdouro ou menoscabo da sua elevação e grandeza, passaria todo o tempo que lhe restava da oração e dos mais exercícios virtude; e, sendo-me permitido argumentar, por semelhança, que os exercícios da sua mocidade seriam os mesmos de suas irmãs, a B. Teresa e a B. Sancha, por não querer alargar muito as presente Memórias, remeto os meus Leitores para uma elegante e atilada descrição, em que aquele exercícios se retratam ao vivo (Fr. Francisco de S. Agostinho Macedo, desde a pág. 13 até 16, da obra que intitulou Vita Theresiae Reginae Legionis Dominae Jerabicae e saiu em Roma, no ano de 1667).

Aperfeiçoados por esta maneira os dons da graça e da natureza, ela começou a ser benquista de todos, ganhando com a sua presença os bens merecidos e universais aplausos de quantos a viam e admiravam (no Livro 1º das honras e devassos de Além-Douro da leitura nova do tempo DelRei D. Dinis, que se guarda na Torre do Tompo, existe memória, a pág. 60, de que a Rainha D. Mafalda passara os seus primeiros anos em Louredo de Moázeres e aí fôra educada. V. Provas nº 5º). Sabendo conciliar o respeito com a afabilidade, ciência bem árdua, pois é fácil tocar os dois extremos da baixeza e da soberba, não lhe era dificultoso mostrar um gesto senhoril, quando o exigia o decoro da majestade, nem fazer um benigno acolhimento aos pobres e miseráveis, quando o pedia o exercício das virtudes cristãs, que eram o principal objecto das suas diligências e cuidados.

à vista de tão belas disposições e das mais que se ignoram, não é destituída de fundamentos a conjectura dos que lhe atribuem uma decidida resolução de consagrar-se a Deus e não acolher outro esposo além do celeste. Ainda que não haja documento ou autor contemporâneo, que afiance esta resolução, ela se conclui naturalmente da repugnância com que a Rainha D. Mafalda aceitou as propostas de casamento, em que abaixo falarei, e que é atestada pelos historiadores mais antigos depois que examinaram e pesaram na balança da crítica as tradições que lhe dizem respeito.

(a continuar)

18/05/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXV)

(continuação da LXXXIV parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações
 

Cap. LVIII
Não Se Deve Investigar As Coisas Do Alto Nem Os Ocultos Juízos De Deus

1. Cristo – Filho, não disputes sobre assuntos muito elevados e sobre os ocultos juízos de Deus.
Não indagues a razão pela qual o senhor desampara uns e leva outros a grandes graças; nem os motivos que a este levam às aflições e aquele a tantas honras e glórias. Estas coisas excedem a inteligência dos homens e, por mais esforço que eles façam por penetrá-las, não poderão jamais desvendar, pelo seu raciocínio, a profundeza dos meus juízos.
Quando o inimigo te tente nesta matéria, ou os homens curiosos te consultem, responde-lhes o que diz o Profeta: "Justo sois, Senhor, e justos são os Vossos juízos." e também aquilo do mesmo Profeta: "Os juízos do Senhor são verdadeiros e em si mesmos cheios de justiça."
Ao homem pertence temer e não examinar os meus juízos, porque são incompreensíveis ao entendimento humano.

2. Não inquiras nem discutas sobre o merecimento dos santos; qual seja o mais santo ou o maior no reino dos Céus. Isto não serve senão para produzir debates inúteis, nutrindo a soberba e a vã glória, das quais nascem, depois invejas e discórdias.
Um disputando por parte de um santo, outro por parte de outro, ambos teimam com tal soberba que cada qual pretende que o seu santo seja o preferido.
Nenhum fruto se tira de semelhantes averiguações, que desagradam aos próprios santos.
Eu não sou o Deus da discórdia, mas da paz, e esta paz procede da verdadeira humildade e não da exaltação.

3. Há pessoas que, por zelo ou predilecção, se afeiçoam mais a uns santos do que a outros, mas essa afeição é mais humana do que divina.
Sou eu quem criou todos os santos, lhe dei a graça e lhes comuniquei a minha glória. Eu sei os merecimentos de cada um deles, eu os preveni com as bênçãos da minha doçura. Eu os predestinei, antes de todos os séculos, os meus eleitos. Eu os escolhi do mundo, e não eles a mim. Eu os chamei pela graça, e os atraí pela misericórdia, e os fiz passar por muitas provações. Eu derramei nos seus corações inefáveis consolações; dei-lhes a perseverança e coroei a sua paciência.

4. Eu conheço todos desde o primeiro até ao último, e amo todos com um amor incalculável.
Eu devo ser louvado em todos os meus santos, bendito em todas as coisas e honrado em cada um deles, que tão gloriosamente exaltei e predestinei sem prévio merecimento algum da sua parte.
Quem, pois, despreza o menor dos meus santos, não honra o maior, porque eu fiz o pequeno e o grande.
O que menospreza algum dos meus santos, menospreza a mim e a quantos estão no reino do Céus.
São todos um, pelo vínculo da caridade; têm um mesmo sentimento e uma mesma vontade e amam-se todos com o mesmo amor.

5. Além disso, o que é mais sublime ainda, eles têm mais amor a mim do que a si e aos seus méritos. Arrebatados acima de si mesmos, acima do seu próprio amor, passam inteiramente ao meu, no qual acham a sua felicidade e o seu repouso.
Nada pode apartá-los deste grande objecto, porque, cheios da eterna verdade, ardem no fogo inextinguível do amor.
Nada disputem, portanto, sobre o estado dos santos, os homens carnais, que não amam senão a sua própria conveniência, e os seus gestos particulares. Esses homens elevam ou abaixam o valor dos santos, segundo os caprichos pessoais e não segundo a regra da eterna verdade.

6. Em muitos tal procedimento é fruto da ignorância, sobretudo naqueles que, pouco esclarecido, a ninguém, de ordinário sabem amar com um perfeito amor espiritual. Amam a umas pessoas mais do que a outras, por um afecto natural e por uma amizade humana e, do mesmo modo como amam as coisas terrenas, julgam dever amar as celestes.

7. Foge, pois, filho meu, de tratar curiosamente daquilo que exceda a tua ciência, mas põe todo o teu cuidado em merecer ao menos o ultimo lugar no reino de Deus.
Quanto houvesse quem descobrisse qual era o mais santo e o maior do reino dos Céus, de que lhe serviria esse conhecimento, se não tomasse daqui motivo para mais se humilhar e para se render maiores louvores ao meu nome?
Muito mais amo aqueles que consideram a grandeza dos seus pecados, a escassez das suas virtudes e a imensa distância que os separa da perfeição dos santos, do que aqueles que discutem sobre a maior ou menos glória deles.
É melhor rogar aos santos, com orações e lágrimas, pedindo-lhes humildemente o seu patrocínio, do que indagar, com fútil curiosidade, os segredos da sua glória.

8. Os santos dar-se-iam por muito contentes, se os homens soubessem contentar-se e permanecer nos limites da sua fraqueza, reprimindo a liberdade dos seus discursos.
Eles não se gloriam dos seus próprios merecimentos, porque não atribuem a si bem algum, antes tudo referem a mim, que tudo lhes dei pela caridade infinita que tive com eles.
Eles estão de tal sorte cheiros de amor da minha Divindade e de uma superabundância de delícias, que nada falta a sua glória, nem pode faltar à sua soberana felicidade.
Quanto mais os santos são elevados na glória, tanto mais são humildes e chegados a mim, abrasando-se no meu divino amor. Por isso diz a Escritura: "Eles depõem as suas coroas diante do Trono de Deus; prostram-se diante do Cordeiro; adoram Aquele que vive em todos os séculos dos séculos."

9. Muitos inquirem qual seja o maior santo do reino de Deus, e não cogitam de saber se serão dignos de ser contados entres os menores espíritos que o habitam.
É coisa grande ser o menor no Céu, onde todos são grandes, porque serão chamados filhos de Deus e o serão na realidade.
O menor dos eleitos valerá por mim, e o pecador, mesmo depois de uma longa vida, morrerá para sempre.
Perguntando-me os meus discípulos qual fosse o maior no reino dos Céus, respondi-lhes: "Se não vos converterdes e vos fizerdes como meninos, não entrareis no reino dos céus. Quem, pois, se humilhar e fizer como este menino, será o maior no reino dos Céus."

10. Ai daqueles que recusam humilhar-se voluntariamente, com os pequeninos, porque a porta do meu reino de Deus, porque a porta do reino dos Céus lhes estará trancada.
Ai também dos ricos, que têm neste mundo as suas consolações, porque, quando os pobres entrarem no reino de Deus, eles ficarão chorando do lado de fora.

Humildes, regozijai-vos! Pobres, transportai-vos de alegria! Porque vosso é o reino de Deus, se verdadeiramente me servires.

17/05/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXIV)

(continuação da LXXXIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações
 

Cap. LVII
O Homem Não Deve Desanimar Quando Cai Em Alguma Falta

1. Cristo – Filho, mais que agradam a paciência e a humildade nos reveses do que muita consolação e fervor na prosperidade.
Porque te entristeces quando dizem alguma coisa contra ti? Ainda que ela fosse de importância, nem por isso deverias inquietar-te. Deixa-a passar; ela não é nova, nem a primeira, nem será a ultima que se diga contra ti, se viveres muito tempo.
Sabes dar bons conselhos e alentar os outros com palavras, mas, quando te achas oprimido por alguma tribulação, logo te faltam o conselho e o esforço. Considera a tua grande fragilidade, que muitas vezes experimentas nos pequenos dissabores, e crê que tudo o que sucede é para o teu bem.

2. Lança de teu coração, o melhor que puderes, toda a impressão que o mal lhe possa fazer, e se a tribulação chegou a tocar-te, não permitas que te abata e embarace por muito tempo o teu espírito.
Sofre com paciência, se não podes sofrer com alegria.
Posto que te custe ouvir o que se diz de ti e sintas ímpetos de cólera, reprime-te e não deixes a tua boca pronunciar palavras desordenadas, que escandalizem os fracos. A comoção depressa se aplacara e a dor da tua alma será suavizada pela minha graça. Eu ainda vivo, diz o Senhor, e estou pronto a assistir-te e consolar-te mais do que nunca, se puseres a tua confiança em mim e me invocares.

3. Toma por ânimo e arma-te de constância para sofrer ainda mais do que tens sofrido. Não te julgues perdido por te veres muitas vezes aflito e tentado gravemente. És homem e não és Deus, és carne e não anjo.
Como poderás viver para sempre em estado de virtude, quando esta faltou ao anjo no Céu e ao primeiro homem no Paraíso? Eu elevo e curo todas as enfermidades; faço subir até à participação da minha Divindade os que conhecem a sua fraqueza.

4. Alma – Senhor, bendita seja a Tua palavra, mais doce à minha boca do que um favo de mel. Que faria eu, no meio de tantas atribulações e angústias, se a Vossa santa palavra não me confortasse? Que importa o que sofro, ou venha a sofrer, se eu chegar ao porto de salvação?

Dai-me, Senhor, um bom fim, uma feliz passagem para o Céu, meu Deus, lembrai-vos de mim e conduzi-me pelo caminho mais direito para o Vosso reino.

15/05/15

A BANDEIRA AZUL E VERMELHA - Breve reflexão.

Este artigo terá várias repetições das mesmas ideias, para que não passem aos distraídos:

A Casa Real Portuguesa, em tempos do Senhor D. João VI, tinha por suas a combinação de cores azul-vermelho. As cores da Casa de Bragança, eram (e são) azul-branco.

As tropas Reais, evidentemente, usavam a identificação cromática da Casa Real, e as tropas de D. Pedro usaram as da Casa de Bragança, porque assim compete. Contudo, pelo lado de D. Pedro, não houve apenas milícias de azul e branco, e muitos nem militares eram, havia estrangeiros (inclusivamente chefes militares franceses). Igualmente, da nossa parte, não havia apenas milícia da Casa Real, porque as milícias nesse tempo pertenciam também a várias Casas, cada qual com suas cores. Nesta diversidade, e como a guerra era interna, os vários soldados por vezes ficaram agrupados sobre aquelas cores (não necessariamente). Temos o caso do Remexido, o qual levou a resistência militar até às últimas (o que nos dá mais que obrigação de lhe erguer monumento de herói), e que tinha para si as cores da Casa Real, mas que, ao que parece, também eram as cores soldadescas da Casa algarvia por quem lutava!

Não foi D. Miguel quem levou as cores vermelho-azul para a Casa Real, nem foi D. Pedro quem designou cores para a Casa de Bragança. Sem dúvida alguma, sendo justos na avaliação, há que reconhecer que nesse tempo eram estas as cores OFICIAIS das respectivas Casas, e não as cores oficiais de "causas". Não se pode dizer que o azul-branco deixara de ser o conjunto de cores da Casa de Bragança, e que tivesse passado a ser o da causa liberal, constitucional,... não troquemos casas por causas. Não se pode dizer que o azul-vermelho deixara de ser o conjunto de cores da Casa Real, para passar a ser o da causa tradicional (a defesa da Fé católica, do Rei, e do Reino na sua integridade). Contudo, há uma identificação necessária entre a Casa Real e ela mesma, ou seja, a permanência na sua integral tradição; não pode haver uma identificação da Casa de Bragança com o liberalismo, a não ser por acidente momentâneo, pelo qual havemos de dizer: o Casa de Bragança não pode ser liberal, tem que ser tradicional, tem que ser fiel aos seus princípios fundacionais, e que fora deles ela não É nem pode realmente. Disto também se conclui que a atitude de D. Pedro não é mais que privada, e não pode obrigar a Casa de Bragança nem manchar os seus antecessores nem vindouros, nem comprometê-los, porque aquele que indo contra os princípios da Casa não pode usar a casa como garante de contra-princípios. As cores que o liberalismo pretendeu dar a uma bandeira que representasse o Reino de Portugal, ao fim e ao cabo, nem sequer são as da Casa de Bragança, ma sim as da causa liberal.

A bandeira branca, é a bandeira que os nosso Reis conheciam como aquela que estava sobre todas as existentes em Portugal, sobre todas as Casas, incluindo a Casa Real. Os liberais lutaram indevidamente com as cores de uma das Casas contra Portugal (e assim se diz como um dos argumentos para a legitimidade de D. Miguel: que D. Pedro lutou contra as tropas portuguesas) e derrubaram a bandeira branca, colocando uma outra, azul-branca (a bicolor), para a substituir. Nunca houve o mesmo procedimento relativamente ao azul-vermelho, porque, evidentemente, essas cores são as da Casa Real que se abriga com as outras casas sob a bandeira branca.

O liberalismo-maçonaria estava por D. Pedro,  ou melhor, estava contra D. Miguel (pois este, como quase todo o Portugal, e com a Igreja, combatia as novas e ilegítimas ideias e ímpias doutrinas). A fim de contas, o projecto internacional da Maçonaria passava pela aniquilação das "monarquias católicas", instauração de "semi monarquias" ("monarquia constitucional") ou até mesmo repúblicas, desde que nelas ficassem assentes os princípios que mais tarde pudessem estourar definitivamente com aquilo que restava da Civilização Europeia (Católica), por fim infiltrar a Igreja até a controlar desde o topo (se bem que antes houve várias tentativas de destruir a Igreja de forma menos "moderada" e declarada, forma demasiado visível que afastava a população cristã. Por isso, o apoio da Maçonaria a D. Pedro deve-se a que este era a mais credível alternativa contra tudo o que representava D. Miguel na sua legitimidade.

Os liberais, não podendo usar a bandeira de Portugal, porque não se distinguiriam, usaram a de D. Pedro, ou seja, a da Casa de Bragança, à qual chamaram  eles mesmos de "a bicolor" (indicando pela negativa que aquela contra a qual lutaram não era bicolor). Esta bandeira foi usada para toda a causa liberal em Portugal, e passaria a ser depois a bandeira "nacional", que derrubara a BRANCA (bandeira do Reino de Portugal). Temos uma substituição, portanto: um grupo que substituiu a bandeira do Reino pela bandeira da Casa de Bragança porque colocou à frente da causa liberal a D. Pedro de Alcântara Duque de Bragança.

Conclusão:

A combinação zul-vermelha é a da Casa Real, e estas cores são usadas para os servidores da Casa Real, inclusivamente para as milícias, segundo decreto real feito por D. João VI.

A bandeira oficial do Reino de Portugal, pelo menos em tempos de D. João VI e D. Miguel, era branca.

O uso da combinação de cores azul-vermelho foi usado num contexto interno, para identificar ALGUNS daqueles que se juntavam às tropas da Casa Real (os fiéis); muito mais foi com aqueles que se juntaram às tropas da Casa de Bragança, com as respectivas cores. Este é, recordemos, apenas um contexto militar e pontual, mas que também foi aproveitado posteriormente (e a isto há que dar o devido valor, mas com as devidas distinções).

Quanto ao conflito geral, ideológico, político, religioso, estrutural, a nossa bandeira do Reino de Portugal era a BRANCA (é a branca), e a sua inimiga era "a bicolor" azul-branca, e a verde-vermelha da ocupação republicana.  [o regime liberal e o republicano, não são legítimos, ainda que possam ser tolerados]

A questão da TRADIÇÃO (necessariamente católica), da LEGITIMIDADE (segundo a Lei divina, moral, e doutrina católicas), de PORTUGAL (necessariamente católico), joga-se com a bandeira branca, sob a qual a azul-vermelha é essencialmente um episódio bélico.

Dizer que a bandeira azul-vermelha era a bandeira de D. Miguel, é tão certo como ser a de D. João VI, ou a da Casa Real, ou a do servidores da Casa Real... mas... ela nunca foi oficial, e em parte é fruto de uma construção afectiva de alguns grupos que se julgam "tradicionalistas" etc... Ninguém acreditou que uma vitória de D. Miguel haveria de pretender a substituição da bandeira branca por uma outra bicolor (azul-vermelha). Os órgãos "oficiais" liberais deram notícias sobre "a bicolor", quando foi asteada no Castelo de S. Jorge (Lisboa), o que indica que o liberalismo não lutou contra outra "bicolor" como causa, mesmo que no campo de batalha muitas bicolores houvessem, mas que nunca foram tomadas como suficientemente universais para representarem a causa ou formarem unidade. Foi a bandeira branca, portanto a bandeira do REINO DE PORTUGAL, aquela contra a qual os "bi" (liberais e maçons) lutaram.

12/05/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXIII)

(continuação da LXXXII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações
 

Cap. LVI
A Renúncia De Nós Mesmos e a Imitação De Cristo Na Cruz 

1. Cristo – Filho, quanto mais puderes sair de ti, mais poderá chegar-te a mim. Assim como não desejar coisa alguma externa produz a paz interna, mas também o afastar-se de si mesmo produz a união com Deus. Quero que aprendas a perfeita renúncia de ti mesmo, para que vivas segundo a minha vontade, sem resistência e sem queixa. Segue-me. Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Sem caminho não se anda, sem a verdade nada se conhece, sem a vida nada se vive. Eu sou o caminho que deves seguir, a verdade na qual deves crer, a vida interminável. Eu sou o caminho recto, a verdade suprema, a vida feliz e incriada. Se permaneceres no meu caminho, encontrarás a verdade, a verdade te libertará e alcançarás a vida eterna. 

2. Se queres entrar na vida eterna, guarda os meus mandamentos. Se queres conhecer a verdade, crê em mim. Se queres ser perfeito, abre a tua mão de tudo o que tens. Se queres ser meu discípulo, renuncia-te a ti mesmo. Se queres possuir a vida eterna, despreza a presente. Se queres ser exaltado no Céu, humilha-te neste mundo. Se queres reinar comigo, leva comigo a minha cruz, porque somente os servos da cruz encontram o caminho da bem-aventurança e da luz verdadeira. 

3. Alma - Meu Deus e meu Senhor, se a Vossa vida foi tão preciosa e desprezível ao mundo, fazei-me a graça de imitar-vos, sofrendo o desprezo do mundo, pois, conforme dissestes, o servo não é maior que o seu senhor, nem o discípulo superior ao mestre. Exercita-se o Vosso servo na imitação da Vossa vida, porque nela está o meu bem e a verdadeira santidade. Tudo o que leio e ouço fora dela não me consola nem me satisfaz inteiramente. 

4. Cristo – Filho, porque conheceste e leste todas essas coisas, bem-aventurado serás se as imitares. Quem sabe os Meus mandamentos, e os observa, dá prova de seu amor por mim; eu também o amarei, manifestando-me a ele e assentando-o comigo no reino do meu Pai. 

5. Alma – Jesus, meu Senhor, concedei que chegue até a mim o que dissestes e prometestes, fazendo-me digno de que mereça tamanha graça. Eu recebi das Vossas mãos a cruz: hei-de levá-la até à morte, como Vós ma impuseste. A vida de um bom religioso é uma cruz, cruz, porém, que leva ao Paraíso. Já comecei a carregá-la; não convém que volte para trás nem que a deixe. 

6. Eia, meus irmãos, caminhemos juntos; Jesus será connosco. Abraçámos a cruz por amor de Jesus; preservaremos nela. Ele nos ajudará, pois é nosso chefe e nosso guia. Como nosso rei, vai a nossa frente para combater por nós, sigamo-Lo com valor; ninguém tema nem enfraqueça; preparemo-nos para morrer valentemente nesta guerra e fujamos de nos manchar com o infame crime de desertores da Cruz.

10/05/15

MEMÓRIAS PARA A VIDA DA BEATA MAFALDA (I)

MEMÓRIAS PARA A VIDA DA BEATA MAFALDA

de Fr. Fortunato de S. Boaventura

As três irmãs Beatas, filhas de D. Sancho I de Portugal: Teresa, Sancha e Mafalda.

Capítulo I
DOS PAIS, NASCIMENTO E PÁTRIA DA RAINHA D. MAFALDA

Muito acima do que permitem os meus débeis talentos se eleva hoje a minha pena, ousando escrever as acções memoriáveis da Rainha D. Mafalda. Elas são tantas em número, e cada uma de tal merecimento, que os meus trabalhos hão-de ser antes uma tosca e desengraçada relação, que fatiga os Leitores sem contribuir para o seu gosto e utilidade, do que uma história bem pensada, a qual discutindo a razão dos factos sobre unir ao preço do historiador o preço, ainda mais estimável, do bom siso e da reflexão.

Não obstando, porém, a falta do engenho, discrição, ciência dos factos e outras qualidades, que formam o historiador, a força de um preceito, a que não soube resistir, me faz lançar mãos desta obra com empenho e ardor; e confiado na protecção e assistência do Senhor, que para as obras mais importantes escolhe muitas vezes os mais débeis instrumentos, começo a falar dos pais da Rainha D. Mafalda, segundo a promessa que fiz à testa do presente capítulo.

O venerável D. Afonso Henriques, fundador da Monarquia portuguesa, depois de rechaçadas por tantas vezes e com tanta glória as forças da Mauritânia, havia segurado a posse deste Reino, quando escolheu para esposa de seu filho D. Sancho a Rainha D. Dulce, filha de Raimundo Berenguer, Conde de Barcelona, e de Petronila, Rainha herdeira de Aragão, a quem seu Pai Ramiro, o Monge, tinha deixado a Coroa e as fortunas do século para continuar as profissão do Instituto Beneditino, que nos seus primeiros anos abraçara.

Esta união foi a mais ditosa, e de quantas figuram na nossa história foi também a mais fecunda em prodígios de santidade, pois dela nasceram o imediato sucessor da Coroa (D. Afonso II, Rei de Portugal), dois Soberanos (D. Pedro Conde de Urgel e Soberano de Malhorca, e D. Fernando Conde de Flandres), uma Esposa (D. Berenguela) de Valdemaro II Rei de Dinamarca, além de outros (D. Henrique e D. Raimundo) que na idade tenra foram chamados para uma Coroa de eterna duração, a mesma que as Rainhas suas irmãs D. Teresa, D. Sancha (D. Teresa foi Rainha de Leão, mas, obrigada a separar-se de Afonso IX, seu esposo, recolheu-se no célebre Mosteiro de Lorvão, onde plantou a Reforma cisterciense, e morreu em cheiro de santidade - assim ela, como sua irmão a Rainha D. Sancha, que fundou e governou o Mosteiro de Celas da mesma Reforma, foram beatificadas pelo S. padre Clemente XI), D. Branca preferiram às deste mundo, e nesta sucessão ocupa um lugar bem distinto a Rainha D. Mafalda, de quem vou tratando.

Sobre a ordem do seu nascimento variam muito as opiniões dos historiadores. um deles, que dos nacionais é o mais antigo que pode consultar-se (D. Pedro Conde de Barcelos, filho do Rei Dinis no seu Nobiliário de Portugal, que suplementou o cronista-mor João Baptista Lavanha, e foi publicado em Roma no ano de 1640, a pág. 30), nomeia a Rainha D. Mafalda antes de nomear as Rainhas B. Teresa e B. Sancha; não falando porém na discrepância, que se observa entre os nossos historiadores, eu sigo que das três beatificadas Rainhas D. Mafalda foi a última na ordem do nascimento. Moveram-me a abraçar esta opinião não só as disposições testamentárias do Rei D. Sancho I, onde se nomeia D. Mafalda depois de se nomearem as Rainhas D. Teresa e D. Sancha, mas também algumas doações (doação que ElRei D. Sancho e a Rainha D. Dulce fizeram do lugar de Ota ao Mosteiro de Alcobaça, lavrada em Março de 1189, na qual aparecem as duas Rainhas D. Teresa e D. Sancha, mas não aparece a Rainha D. Mafalda, o que faz ver que fez o mesmo Rei a Guterre Anes de quatro casais na Anadia, em Abril de 1209, e nesta figura em último lugar a Rainha D. Mafalda, o que faz ver que era mais nova de suas irmãs. Uma e outra doação vêm apontadas a pág. 170 e seg. do 4º tomo da História Genealógica de Portugal, que escreve D. António Aetano de Sousa) que nos restam daquele tempo, as quais afiançam uma verdade já defendida pelo sábio cronista Fr. António Brandão.

É mais dificultoso assinar o tempo e o lugar do seu nascimento; e, havendo nestes pontos a maior obscuridade, não ouso apontar com certeza uma e outra circunstância. Não pensava deste modo um particular historiador (José Pereira Baião na obra que intitulou Portugal Glorioso e Ilustrado, etc., e que saiu em Lisboa, no ano de 1727) da sua vida, o qual marca o nascimento em 1195, especificando além disto o dia 13 de Maio, que foi na sua opinião o mesmo em que ela nasceu e ultimamente lhe dá por berço a famosa e antiga cidade de Coimbra, que era naqueles tempos a Côrte dos Soberanos portugueses. Nesta parte, em que a opinião é mais bem fundada, não passa todavia de simples ainda que plausível conjectura, e seja muito embora provável que a Rainha D. Mafalda nascesse em Coimbra, certeza porém deste facto nem a descobri, nem a pude alcançar, mormente quando é notório que o Rei D. Sancho I e sua esposa e Rainha D. Dulce saíram da capital e viajaram por muitas partes do Reino.

No que respeita à circunstância do tempo, não vi até agora nem historiador, nem documento, donde se pudesse alcançar tamanha clareza; vendo porém, que a Rainha D. Mafalda ainda não figura numa doação lavrada em 20 de Fevereiro de 1195, quando ela já figura noutra doação feita no mês de Junho de 1196, posso concluir sem violência, ou temeridade, que a Rainha D. Mafalda nasceu no intervalo de tempo, que se conta desde 20 de Fevereiro de 1195 até Junho de 1196; e desta sorte nem absolutamente roubei à cidade de Coimbra uma das suas mais belas prerrogativas, nem à Rainha D. Mafalda o incidente de haver nascido no mesmo dia em que o taumaturgo português Santo António ilustrou a cidade de Lisboa com o seu nascimento.

(continuação, II parte)

ESTÁ TUDO BEM ...!!!

Pe. Felix Sardá y Salvany
"Sem dúvida (...) que a primeira preocupação notada em tempos de epidemia é sempre a de pretender que tal epidemia não existe. Não há memória nas diferentes [epidemias] que nos afligem em nossos tempos, ou em tempos passados, de que alguma vez não tenha ocorrido este mesmo fenómeno. Quando se começa a reconhecer que existe, a enfermidade, no silêncio, conta já entre a população com um grande número de vítimas devoradas. Os meios oficiais têm por vezes sido os propagadores mais entusiastas da mentira; e casos houve em que, pela Autoridade, chegaram a ser afrontados apenas aqueles que assegurassem que o contágio era verdade. É isto análogo ao que acontece na ordem moral que estamos tratando. Depois de cinquenta, ou mais anos, de viver em pleno Liberalismo, todavia ouvimos pessoas de grande muita responsabilidade perguntar com candidezs assombrosa: "Ena! Dais crédito a isso do Liberalismo?, Não serão esses exageros dizeres, provenientes de rancores políticos?, Não seria melhor não dar ouvidos a esses assuntos que só trazem dúvidas e incómodos?" ... Tristíssimo sinal, quando a infecção empesta de tal forma a atmosfera, que já pelo hábito dela não a percebem a maior parte daqueles que a respiram!" (do I Cap. do El Liberalismo es Pecado; Sardá y Salvany - séc. XIX)

09/05/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXII)

(continuação da LXXXI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações
 

Cap. LV
Da Corrupção Da Natureza E Da Eficácia Da Graça Divina

1. Alma - Meu Deus e meu Senhor, que me criastes à Vossa imagem e semelhança, dai-me essa graça, que me mostrastes ser tão poderosa e tão necessária para a salvação, a fim de que eu vença as más inclinações da minha natureza corrompida, que me arrasta para o pecado e para a perdição.
Eu sinto na minha carne a lei do pecado oposta à lei do meu espírito e que me leva cativo a dar obediência à sensualidade. Confesso que não posso resistir a tamanhas paixões, sem a assistência da Vossa graça santíssima ardentemente infundida no meu coração.

2. Eu necessito da Vossa graça poderosa para vencer a minha natureza inclinada ao mal desde os meus mais tenros anos.
Essa natureza decaída no primeiro homem e viciada pelo pecado, transmite a todos os homens a pena de um crime; de sorte que a mesma natureza, que criastes boa e recta, deve ser considerada fraca e enferma, visto que, entregue a si mesma, os seus movimentos nos arrastam para o mal e para as coisas da Terra. Na verdade, a pouca força, que lhe ficou, é como uma pequena brasa coberta de cinzas.
Essa faísca é a razão natural envolta em densas trevas, possuindo ainda o discernimento do bem e do mal e fazendo a distinção do verdadeiro e do falso. Todavia, sente-se incapaz de cumprir o que aprova, pois já não possui a plena luz da verdade nem a pureza dos seus afectos.

3. Daqui vem, meu Deus; que eu, considerado segundo o homem interior, que em mim habita, me deleito na Vossa lei, reconhecendo-a por boa e tão justa que condena todo o mal e ensina a fugir do pecado.
Mas ao mesmo tempo sirvo a lei do pecado, segundo a carne, obedecendo mais à sensualidade do que à razão, de modo que, achando eu em mim a vontade de fazer o bem, não encontro o meio de o executar. Muitas vezes me proponho fazer o bem, mas, faltando-me a graça para ajudar a minha fraqueza, deixo tudo à menor resistência que encontro e desfaleço. Resulta daí que, conhecendo o caminho da perfeição e vendo claramente o que devo fazer, mas oprimido sob o peso da minha própria corrupção, não me elevo ao que é mais perfeito.

4. Quanto, Senhor, me é necessária a Vossa graça para começar o bem, para nele prosseguir e para o aperfeiçoar!
Eu nada posso fazer sem ela; mas tudo posso em Vós, com o socorro da Vossa graça.
Ó graça verdadeiramente celeste, sem ti não há algum merecimento próprio e até os mesmos dotes da natureza não são dignos de consideração. As artes, a riqueza, a formosura, o valor, o espírito e a eloquência, nada são diante de Vós, ó meu Deus, sem a Vossa graça.
Os dotes da natureza são comuns aos bons e aos maus; porém, a graça, ou a caridade, é dom próprio dos escolhidos, e aqueles que a possuem são julgados dignos da vida eterna. A excelência desta graça é tanta que nem o dom da profecia, nem o poder de obrar milagres, nem a mais alta contemplação valem alguma coisa sem ela.
A mesma fé e esperança, e todas as outras virtudes, não são agradáveis sem a graça e a caridade.

5. Ó beatíssima graça, que do pobre espírito fazeis rico de virtudes e ao opulento converteis em humilde de coração, vinde, descei sobre mim, enchei-me das vossas consolações, para que a minha alma não desfaleça entre a fadiga e as angústias do meu espírito.
Peço-Vos, Senhor, que eu ache a graça diante dos Vossos olhos; ela só me basta, ainda que me falte tudo o que a natureza deseja.
Por mais tentado e molestado com muitas tribulações, não temerei mal algum, enquanto a Vossa graça me assistir. Ela é a minha força, o meu conselho, o meu fundamento. E mais poderosa do que todos os inimigos, mais sábia do que todos os sábios.

6. Ela é a mestra da verdade, a regra da disciplina, a luz do coração, a consolação dos males, o inimigo da tristeza, a dissipadora do temor, o sustento da devoção e a mãe das santas lágrimas.
Que sou eu, sem ela, senão lenha seca, tronco inútil, próprio para ser lançado no fogo?
Preveni-me, pois, Senhor, da Vossa graça, e fazei que ela me acompanhe sempre e me conserve continuamente na prática das boas obras, por Vosso Filho Jesus Cristo.  

07/05/15

A GUERRA DA DESCOLONIZAÇÃO - Prós & Contras (RTP1)









Primeira parte:



Segunda Parte:


IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXI)

(continuação da LXXX parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações
 

Cap. LIV
Os Diversos Movimentos Da Natureza E Da Graça

1. Cristo - Filho, cuida bem em bem discernir os movimentos da natureza dos da graça, porque eles são muito subtis e contrários, e apenas o homem espiritual e esclarecido pode distingui-los.
Todos desejam o bem e, nas suas palavras e obras, buscam algum bem; por isso se enganam muitos com as aparências do bem.
A natureza é artificiosa; arrasta a maior parte dos homens, engana-os e prende-os com os seus atractivos. Ela tem sempre por fim a sua própria satisfação. Ao contrário, a graça caminha na simplicidade, evita as ilusões das aparências, não arma ciladas e tudo faz puramente por Deus, em quem repousa como em seu fim último.

2. A natureza não quer morrer, nem ser oprimida, nem domada; não obedece de boa vontade, nem pode sofrer que a sujeitem. A graça, pelo contrário, faz que a alma trabalhe por mortificar-se; que resista à sensualidade; que deseje sujeitar-se; que apeteça ser domada; que não queira usar da própria liberdade; que estime viver debaixo da disciplina; e que, longe de desejar ter império sobre alguma coisa, ame ser e viver debaixo de Deus, pronta a humilhar-se por amor ao mesmo Senhor.
A natureza trabalha pelo seu próprio interesse e considera a utilidade que pode tirar dos outros. A graça não põe interesse pessoal no que faz, pois só pensa em ser útil a muitos.
A natureza recebe convosco as honrarias e a veneração. A graça atribui a Deus todas as homenagens e glórias.

3. A natureza teme a humilhação e o desprezo. A graça gosta de sofrer injúrias por amor de Jesus Cristo.
A natureza ama a ociosidade e o descanso do corpo. A graça não pode estar ociosa e dedica-se diligentemente ao trabalho.
A natureza procura as coisas belas e atraentes e tem horror às coisas vis e grosseiras. A graça deleita-se com as coisas simples e humildes, não rejeita o áspero e o rude nem se envergonha se lhe é forçoso servir-se de vestidos velhos e usados.
A natureza olha para os bens temporais; regozija-se quando ganha, entristece-se quando perde, irrita-se com a menor palavra injuriosa.
A graça não considera senão o que é eterno; não se perturba com nenhuma perda; não se irrita com as palavras ásperas: porque o seu tesouro e a sua alegria foram colocados no Céu, onde nada perece.

4. A natureza é avarenta; mais estima receber do que dar; somente ama o que lhe é próprio e particular. A graça é caritativa; ama o bem comum; evita tudo o que representa egoístico interesse; contenta-se com o pouco e julga que é melhor dar do que receber.
A natureza inclina-se para as criaturas; para os prazeres do corpo, para os divertimentos e passatempos. A graça inclina-se para Deus e para as virtudes; renuncia às criaturas; foge do mundo; aborrece os apetites da carne; limita as recreações; envergonha-se de todas as vezes que lhe é necessário aparecer em público.
A natureza folga de ter consolações externas, que lhe afaguem os sentidos. A graça só acha consolação em Deus e, desprezando todos os bens visíveis, não acha a sua alegria senão no invisível e supremo bem.

5. A natureza é interessada em tudo o que obra. Nada faz gratuitamente. Pelos benefícios que espalha, espera alcançar ouros iguais ou maiores ou, pelo menos, aplausos e louvores. Deseja que sejam tidas em altas considerações as suas benemerências. A graça, entretanto, não busca recompensas temporais; não pede por prémio senão a Deus; dos bens do mundo não quer mais do que os porventura necessários para com eles servindo a Deus, adquirir os bens eternos.

6. A natureza orgulha-se de ter muitos admiradores e amigos; com vaidade alardeia a nobreza do seu nascimento; anda à vontade dos poderosos; lisonjeia os ricos e admira com fervor os que, nestes particulares, lhe são semelhantes.
A graça ama os próprios inimigos e não se envaidece do grande número de amigos; de nada lhe vale a linhagem onde não há virtude; favorece mais ao pobre do que ao rico; não lisonjeia os poderosos, mas compadece-se dos inocentes e aflitos; ama as almas simples e sinceras e não as artificiosas; exorta sempre os bons a serem melhores e a assemelharem-se ao Filho de Deus pelo exercício das virtudes.
A natureza queixa-se facilmente do que lhe falta e do que lhe é penoso. A graça, com perseverança, sofre a pobreza.

7. A natureza tudo ordena para si; para si peleja e disputa
A graça tudo dirige para Deus, como a fonte de que tudo dimana. Não atribui a si bem algum; de si nada presume; não disputa nem pretende impor o seu arbítrio aos outros, mas em tudo sujeita os seus sentimentos à Sabedoria Eterna, ao juízo de Deus.
A natureza deseja saber segredos e novidades; gosta de aparecer e experimentar tudo o que os sentidos podem apreender; deseja ser conhecida e fazer coisas que lhe mereçam louvores e a admiração dos homens.
A graça não trata de saber novidades nem curiosidades, porque sabe que esta paixão decorre do homem corrompido e velho e que nenhuma coisa é nova e durável sobre a Terra. Ela nos ensina a reprimir os sentidos, a vã complacência e a humana ostentação; a ocultar tudo o que é digno de um justo louvor, escondendo-se a virtude sob o véu de uma sincera humildade; e a não procurar nas coisas e na ciência senão o proveito espiritual e a glória de Deus. Não quer para si, nem para as suas obras, a exaltação dos homens, mas, se esta for inevitável, que reverta na exaltação de Deus, que prodigaliza os dons pessoais com a mais larga liberalidade.

8. Esta graça é uma luz sobrenatural e especial dom de Deus, o selo dos eleitos, o penhor da salvação, pois eleva o homem das coisas terrenas ao amor das celestiais e de carnal que era o torna espiritual.
Quanto mais dominada estiver a natureza, tanto maior a graça ao homem se comunica, de sorte que ele se reforma dia a dia, por novas comunicações, segundo a imagem de Deus.

05/05/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXX)

(continuação da LXXIX parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações
 

Cap. LIII
A Graça De Deus Não Se Comunica Aos Que Se Apegam Às Coisas Terrenas

1. Cristo - Filho, a minha graça é um dom precioso, que não sofre mistura de coisas estranhas nem de consolações mundanas. Deves, pois, afastar de ti todos os impedimentos da graça, se desejas que ela te seja infundida.
Procura um lugar retirado; vive só contigo; evita conversas; ora com fervor e cuida de trazer a consciência pura e o coração compungido. Avalia em nada o mundo todo, prefere o serviço de Deus a todas as coisas exteriores, pois não podes, ao mesmo tempo, tratar comigo e deleitar-te nas coisas transitórias. É necessário que te apartes das pessoas conhecidas, que te são amáveis, e que te prives de todas as consolações temporais. Assim exorta o Apóstolo a todos os fiéis para que se considerem neste mundo como peregrinos e estrangeiros.

2. Quanta confiança terá na hora da morte aquele que não se deixou prender por nenhum afecto da Terra! Ter, porém, o coração desprendido, não o compreende o espírito ainda enfermo, porque não pode o homem carnal conhecer a liberdade do homem interior. Quem deseje ser verdadeiramente espiritual, deve renunciar a estranhos e a parentes e de ninguém guardar-se mais do que de si mesmo.
Se, perfeitamente, a ti mesmo te venceres, facilmente serás vencedor sobre tudo o mais. A maior das vitórias é triunfar de si mesmo.  Quem tem a alma sujeita, de sorte que a sensualidade obedeça à razão e a razão a mim, é vencedor de si mesmo e senhor do mundo.

3. Se pretenderes subir ao cume da mais alta perfeição, deves começar varonilmente, pondo o machado à raiz da árvore, para que arranques e destruas em ti essa oculta e desordenada inclinação que te prende a ti mesmo e ao teu bem particular e sensível.
Esta paixão desordenada e violenta, que faz o homem amante de si mesmo, é como planta de que saem numerosos ramos de variados vícios, que devem ser, não apenas cortados, mas extirpados até à raiz. E ver-se-á que, vencida e destroçada esta paixão, o homem encontrará serena paz e doce tranquilidade.
Poucos são, no entanto, os que trabalham por morrer para si mesmos, libertando-se das suas inclinações; por isso ficam embaraçados em seus afectos, jamais podendo elevar-se, em espírito, acima de si mesmos.
Aquele que desejar seguir-me, com toda a liberdade, deve mortificar as suas tendências más e não se prender a criatura alguma com amor apaixonado. 

04/05/15

LIBERALISMO TÍMIDO CONTRA "ABSOLUTISMO"

Não bastaram os artigos aqui publicados, não lhe bastou o debate ganho a reputado nome do integralismo, não lhe bastou ler outras tantas conversas, não lhe bastou a razão; certamente que o problema não estará na razão...

Para os anti-liberais verdadeiros há a certeza de que houve uma vitória do liberalismo, houve a queda em todos os Reinos Católicos (sendo o nosso o último), e o que se foi seguindo, com alguns intervalos, de forma não tão linear, foi o desenvolvimento do liberalismo (pensamento). Portanto, é mais certo que os anti-liberais altamente qualificados do séc. XVIII e inícios de XIX tenham sabido do assunto, e não tanto aqueles que só depois de um século aparecem com movimentos supostamente anti-liberais e de tentativas de restaurar o Trono. Eis o caso do Integralismo.

António Sardinha, que não era católico (demonstração dos efeitos prolongados das vitória política liberal e republicana), não seguiu a tradição católica Lusa (a última a ser parada), e foi converter-se e beber à tradição espanhola, já contaminada. Convertido, de Espanha chega António Sardinha tentando interpretar "à espanhola" aquilo que é Portugal...

O resultado é limitado, e os frutos, na realidade não são muitos, pois no integralismo há erros, de tal modo que por ele teriam sido degolados ou desprezados os nossos ARAUTOS da RESISTÊNCIA LUSA, encabeçados pelo Arcebispo de Évora D. Fr. Fortunato de S. Boaventura (maior em santidade e em sabedoria que qualquer membro do integralismo desde a sua fundação). Outro erro, mais discreto, nada católico, é que o integralismo sujeita-se aos EFEITOS, e faz sujeitar os PRINCÍPIOS para a obtenção dos mesmos efeitos. Como sabemos, para o católico, importam os PRINCÍPIOS, e em segundo plano, se necessários, os EFEITOS. assim vemos, por exemplo, como o Integralismo acaba por rodar em torno de soluções pragmáticas, de tal forma que por esse motivo se vai fragmentando.

Enfim... "Absolutismo", como já foi sobejamente explicado no blog ASCENDENS, é um slogan liberal para fragilizar a "monarquia tradicional" a quem o atribuia, com o fim de a dissociar o poder, do MONARCA; assim, viu-se a Nobreza francesa tentada a querer parte do poder do Rei, e a alcançar para isso o modelo da "monarquia" inglesa... o que acabou em república! Enfim ... não se pode esperar que mentes liberais não sonhem em ter o poder que pertence aos outros, nem que compreendam de outra forma. Tal como no séc. XIX podemos ver como as obras de Fr. Fortunato de S. Boaventura, e de Pe. Agostinho de Macedo foram PERSEGUIDAS e queimadas (falta tanta e tanta literatura deste Arcebispo, e com sorte se salvou bom número de coisas em bibliotecas privadas em Portugal e no estrangeiro), podemos também supor que houve uma gigantesca produção de obras de ideologia oposta! "Absolutismo", embora tenha sido palavra depois adquirida pelos adeptos da monarquia tradicional, por oposição aos liberais militados, é uma dessas palavras propagandistas, um "ismo", que as gentes pós liberais leram e ouviram nunca segundo a voz do Reino Católico que caiu em 1834...

E aqui temos um exemplo à imagem dos mitos criados pelos "vencedores", quais 25 de Abril, qual "Salazarismo" ... No blog ASCENDENS foi adiantado um neologismo, aqui criado, por necessidade de dar nome ao que não tinha, que é o "absolutismo português", fenómeno que não se refere a reinados mas sim ao modo como nos apropriámos no séc. XIX, em Portugal, da palavra "absolutismo" no apenas para nos diferenciarmos daquilo que os Liberais atacavam. Enfim ... todas estas matérias são explicáveis, são lógicas, há fontes suficientes, e não é mais justificável que os opositores tapem a razão recorrendo à suposta autoridade de alguns ideólogos que faleceram num passado recente.

REAL CONVENTO DE MAFRA (Portugal)

Palácio Nacional de Mafra

Palácio Nacional de Mafra

Posted by Panoramas Aéreos on Domingo, 3 de Maio de 2015

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXIX)

(continuação da LXXVIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações
 

Cap. LII
O Homem Não Se Deve Julgar Digno De Consolações Mas Somente Merecedor De Castigo

1. Alma - Senhor, eu não sou digno de que me consoles e me visites algumas vezes; por isso me tratais com justiça quando me deixais na indigência e desamparo em que me vejo.
Ainda que eu derramasse lágrimas que igualassem as águas do mar, mesmo assim não seria digno da Vossa consolação. Portanto não mereço outra coisa senão ser castigado, porque Vos tenho ofendido praticando pecados em grande número e qualidade. Quando isto considero, acho-me indigno da menor das Vossas consolações.
Vós, porém, Deus clemente e misericordioso, que não quereis que pereçam as Vossas obras, a fim de que demonstrem as riquezas da Vossa bondade sobre os vasos da Vossa misericórdia, Vos dignais de consolar, de modo sobre-humano, a Vosso servo, ainda que ele não mereça tamanha graça.
E não há comparação, entre as Vossas consolações e os discursos frívolos e inúteis dos homens.

2. Que fiz eu, Senhor, para que me concedais a consolação celeste?
Não me lembro de ter feito bem algum; lembro-me, entretanto, de que sempre estive pronto para o pecado e preguiçoso para a emenda. É verdade que não posso negar. Se dissesse o contrário, estaríeis contra mim e não haveria quem me defendesse.
Que tenho merecido pelos meus pecados, senão o Inferno e o fogo eterno? Confesso que sou digno do maior desprezo e que não mereço colocar-me entre aqueles que se dedicam ao Vosso serviço. Ainda que me custe ouvir isto, todavia, por amor à verdade, falo contra mim mesmo, para que mais facilmente alcance a Vossa misericórdia.

3. Que direi, cheio de culpas e de confusão como me encontro? Não posso abrir a boca senão para dizer esta só palavra: Pequei, Senhor, pequei; tende piedade de mim, perdoai-me, e concedei-me algum tempo, para que eu desafogue a minha dor antes que chegue o momento de descer para a terra cheia de trevas e envolta nas sombras da morte.
Que mais exigis de um culpado e mísero pecador, senão que tenha contrição e se humilhe pelos seus pecados.
Do verdadeiro arrependimento e da humildade do coração nasce a esperança do perdão, reconcilia-se a consciência perturbada, recupera-se a graça perdida, defende-se o homem da ira futura; e Deus, saindo ao encontro da alma penitente, recebe-a com paternal abraço e ósculo da paz.

4. A humilde contrição dos pecadores, ó meu Deus, é para Vós, uma oferenda mais agradável do que outro qualquer sacrifício e recende odor mais suave do que os perfumes e o incenso.
É o bálsamo com que Madalena ungiu os Vossos pés, pois nunca desprezastes um coração contrito e humilhado.
Na contrição encontramos  refúgio contra o inimigo; nela se lavam as manchas algures contraídas.

03/05/15

POEMA - A ElRei D. JOÃO IV

A ElRei D. João IV

"Que logras Portugal? Um rei perfeito.
Quem o constituiu? Sacra piedade.
Que alcançaste com ele? A liberdade.
Que liberdade tens? Ser-lhe sujeito.
Que tens na sujeição? Honra e proveito.
Que é o novo rei? Quase deidade.
Que ostenta nas acções? Felicidade.
E que tem de feliz? Ser por Deus feito.
Que eras antes dele? Um labirinto.
Que te julgas agora? Um firmamento.
Temes alguém? Não temo a mesma Parca.
Sentes alguma pena? Uma só sinto.
Qual é? Não ser um mundo, ou não ser cento
Para ser mais capaz de tal Monarca."

(Sóror Violante do Céu, a Décima Musa)

01/05/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXVIII)

(continuação da LXXVII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações
 

Cap. LI
Procurar As Obras Humildes, Se Nos Acharmos Incapazes Para As Grandes

1. Cristo - Filho, não podes conservar-te sempre no fervor das virtudes e no mais alto grau da contemplação.
É necessário que, algumas vezes, por causa da depravação da natureza, desças a coisas baixas e leves com repugnância o peso desta vida corruptível.
Enquanto viveres nesse corpo mortal, sentirás o coração enojado e oprimido. Convém, pois, que na carne gemas muitas vezes e dela te venham sofrimentos, porque não te podes aplicar continuamente aos exercícios da vida espiritual e à contemplação das grandezas de Deus.

2. Convém que neste tempo te apliques a ocupações humildes e exteriores e te alegres na prática das boas acções, esperando com firmeza e confiança, o meu regresso a ti e os remédios com que te livro das tuas penas.
Farei que te esqueças dos teus trabalhos e gozes perfeita paz.
Exporei à tua vista o delicioso jardim das minhas Escrituras para que, dilatando por ele o teu coração, comeces a correr pelo caminho dos meus mandamentos.
Então dirás com São Paulo: "Todos os sofrimentos da vida presente não têm comparação com a glória que um dia nos será manifestada."

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