17/04/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº2 (I)


NOVO VOCABULÁRIO
FILOSÓFICO-DEMOCRÁTICO


==============
N.° 2
==============

Cum desolationem faciunt, Pacem appellant.
(Tacito)

*É tão fera a perfídia
De hum cruel, e vil Mação,
Que a paz nos apregoa
Quando faz a desolação. D. Tr
 __________


Vocábulos, que mudaram de sentido, de significação, e de ideia.


LIBERDADE - É uma verdade inconcussa, que este Vocábulo mudou de significado [não mudou, mas sim o fazem acreditar outra coisa, e estrategicamente]; e também é indubitável que se não pode atinar fixamente com o que significa no novo idioma republicano. A tal ponto hão chegado as suas variações! Já se vê, como que há tido que acomodar-se aos tempos, circunstâncias, e vistas dos Democráticos. De que se vê que um mesmo dialecto tem tido significações diversas, e que nem ainda na mesma Itália se há podido fixar o seu verdadeiro significado [o verdadeiro sempre teve, o significado próprio só poderia deixar de existir caso não houvesse sobre ele a construção de todo um edifício civilizacional, filosófico, jurídico, teológico etc...]. Sem embargo, como temos tido repetidas experiências, persuasivas até ao sumo grau, do que significa Liberdade em sentido republicano, procuraremos explica-lo como Deus nos der a entender.

No primitivo dialecto democrático Liberdade não foi outra cousa que uma mercadoria imaginaria, que se conduziu a países estrangeiros, e que deviam comprar as Nações, quer quisessem, quer não.  A tal mercadoria pois se dava em cambio de quanto havia de mais precioso em todos os países, e não havia liberdade para recusar a Liberdade democrática: de sorte que se perdia a liberdade, comprando-a. Os vendedores desta liberdade ecravizante tomavam por ela quanta prata, e ouro existia; mas como nada bastava, era necessário lançar mão das joias, e mercadorias, naus, alfaias, vestuários, pinturas, munições, e artilharias. Ainda tudo isto não chegava para completar sua paga, e foi necessário entregar os sinos, as grades, as cúpulas de chumbo, as caixas dos mortos, e até as futuras rendas do ano. De maneira que nunca se consignava a mercadoria aos compradores, senão quando já estavam em pelote. Então era quando se lhes dava numa caixinha mui lisa, e tapada, a cuja abertura, mirabile visu! se achavam com a liberdade de ficarem escravos dos que lhes haviam vendido a liberdade (*). 

Logo depois se hão visto grandes variações parciais em dialectos diversos, respectivamente ao interior dos países. No dialecto terrorístico significa poder absoluto nos malvados, raivosos, bandidos de uma Nação para roubar, e matar os Cidadãos pacíficos, laboriosos, e honrados, que possuem alguns bens. No dialecto democrático simples significa – mando, posto nas mãos dos bandidos  – e nada mais; porque é experiência constante que onde eles mandam, a opressão, a tirania, o roubo, e as demais galantarias se definem com o nome de liberdade, unicamente porque são eles os que mandam; e quando se lhes tira o mando gritam descompassadamente dizendo que se perdeu a liberdade. 
No dialecto gonzistico (rústico ou popular) significa fazer cada hum o que quiser, e sempre foi este o dialecto da baixa plebe. O semi-democrático, que participa bastante do gonzistico, quer que em ponto de costumes, e de Religião haja uma liberdade sem freio; porém que os que mandam sejam homens honrados, e de bons costumes, e que o Povo tenha subordinação no político. Que tal?! O dialecto libertino não admite liberdade, enquanto não estão destruídos de todo a Religião, e os costumes, e postas as rendas do Governo nas mãos dos libertinos, e intrigantes. No meio  de tanta variedade de dialectos, parece que a única explicação, que tenha algum respeito com todos os dialectos republicanos, é definindo-a desde modo: Traça (também pode dizer capa) de velhacos para enganar tolos. 

(* Que bem aplicado é a este respeito o que disse o nosso Macedo a respeito do Frasquinho de balsamo, ou os Charlatães na Revolução no seu N.º 14 do Desengano!! São tão claros os embustes, são já hoje tão conhecidas as tramas, as velhacarias, que eles armam com o celebre frasquinho de balsamo da liberdade dos Povos, que os mesmos Povos, apesar de ignorantes, lhes tem dado com os pratos pela cara, e com hum cacete pelos lombos até desancarem. Conservem os Portugueses sempre diante dos olhos estes desenganos, e não lamentem a falta de hum homem, que depois de morto ainda fala "defuntus aduc loquitur" fala em seus escritos, segundo a sua mesma frase, por nós muitas vezes ouvida – Nós meus Desenganos deixo aos Portugueses o Mestre da Vida em política. – Este é o verdadeiro modo de combater as ideias liberais, cobri-las com o opróbrio do ridículo.Se os nossos leitores quiserem argumentos, com que se destruam pela raiz estas doutrinas, leiam o já citado Abade Torel no Primeiro Volume da terceira Edição.) D. Tr.
 
IGUALDADE – É tal o ruído, que se tem feito com este Vocábulo, que com razão se pode chamar o pandeiro republicano. A prática com tudo tem manifestado até à evidência que o famoso vox poetereaque nihil a nada se pode melhor aplicar, que ao Vocábulo igualdade; porque nada há neste mundo tão vazio de sentido, e significação. E se não, vamos a contas. 

Há por ventura um só homem, que tendo senso-comum se persuada que um criado é um ente desprezível, e vil, só porque traz uma libré, e que basta tirar-se-lha para que de repente seja igual a seu amo? Que basta dar o nome de Cidadão a um cómico, a um mendigo para fazê-los iguais ao lavrador honrado, e ao poderoso comerciante? Que tirando aos Nobres os Títulos de Condes, Marqueses, etc. e dando-lhes o de Cidadãos, imediatamente se estabelece a igualdade entre o rufião, e o bem educado, o civil, e o grosseiro, o brutal, e o civilizado? Logo o Vocábulo igualdade, em sentido republicano, não é mais que uma consumada loucura, e uma voz sem significado.

DOCUMENTO AUTÊNTICO
Relativo à Igualdade Republicana

MEMORIAL DO ASNO (BURRO)

Ao Conselho Republicano dos Animais.
“Um Irmão vosso, tão animal como o mais pintado de VV. SS., e tão igual como vós, recorre à vossa notória probidade, e acrisolada justiça contra a desgraça da sua sorte.”
“Minhas prolongadas orelhas, o vil nome de burro, e o que é pior que tudo isto, a albarda, que estou obrigado a trazer, me expõe ao escarneu, e às chufas, e risadas de quantos me vêm. Toca pois, e pertence à vossa profunda sabedoria dar remédio a uma injustiça, que ofende o imprescriptível direito de igualdade.
Decretado ser caso urgente, se resolveu: 

“Que sendo contrario à igualdade republicana todo e qualquer sinal exterior de vileza, e não havendo poder para acrescentar as orelhas aos que as têm curtas; devemos mandar, e efectivamente mandamos, que se corte as orelhas a todos os animais, que as têm compridas, como são os burros, as lebres, os coelhos, etc. etc. proibindo outrossim, debaixo de penas gravíssimas, todo o nome de leão, elefante, etc. etc. E ordenamos, que para o diante não se ouça outro nome na republica animalesca, que o geral e honroso de animal. Pelo que pertence à albarda, depois de uma madura deliberação decidimos, que longe de ser cousa desonrosa, é o mais apreciável distinctivo, com que deve honrar-se todo o verdadeiro democrático, que não tem empunhado o governo. E que sendo verdade, que pelo tamanho da albarda é que se distinguem os graus de patriotismo, sendo o burro tão excelente  patriota, devia trazer desde aquele dia uma albarda, que valesse por três; e com isto saúde, paz, e fraternidade.”
Pasmado ficou o pobre asno com a suma honra patriótica de uma tão grande albarda; porém orgulhoso assim com sua nova, e imaginaria dignidade, não lhe ficou curral de animais, em que se não apresentasse com o vistoso adorno de suas cortadas orelhas, e seu título de animal, discorrendo à liberal de governo com os leões, de política com as zorras, de destreza com os tigres, de melodia e trinados com os rouxinois, e de ideias pitorescas com o pavão. Sua sonora e triunfante voz ressoava em todos os ângulos, e só a moderava algum tanto, quando empinava as patas para atirar coices. 

(* Que bela imagem não é esta do Povo Soberano?! Com o fantasma da igualdade o seduzem; e apenas os corifeus do partido se acham montados em os lugares, acabou-se a igualdade, e começa a opressão: grita o Povo, leva as suas queixas aos Supremos Conselhos Nacionais, são tomadas em consideração, descem ás Comissões, sobem à Suprema Assembleia; mas qual é a resolução??... A mesma que se deu ao burro, cortem-se-lhe as orelhas, isto é, tire-se-lhe alguma cousa que ainda possui, e tire-se a todo daí para cima até ficarem sem camisa: e em quanto à albarda, isto é, aos tributos que o Povo paga, e o jugo que sofre, diga-se que estas são coisas mui patrióticas, que é necessário que todos concorram para a manutenção da República, e que longe disto ser desairosos, é ao contrario uma sinal característico de patriotismo; por tanto, em lugar de uma albarda, três, e uma que valha por três: faça-se empréstimos para nós comermos, e concertarmos nosso Palácios; e o Povo que pague com os tributos, ou albardas, que ele não sente, porque lhe dizemos que é igual a todos, e ainda que atire alguns coices pouco importa, com tanto que traga a albarda. 
Nada mais prodigioso nas Revoluções, que a brevidade, e a destreza, com que a ínfima plebe, principalmente das Capitais, aparece de repente ilustrada, sábia, e doutora!! Faz-se uma Revolução, publica-se a igualdade, e num momento aparecem os Cafés, e as Barbearias transformadas em Liceus, e Academias; e aqueles, que há muito deviam estar em galés, que começaram pela caixa do açúcar, fizeram seus ensaios na arte de furtar lenços, e calção muitas vezes à custa do Senado, estes são os Lycurgos e os Solons do nosso Século: enchendo as boca de Rousseau e Voltaire, que nunca leram, nem entendem; falam de Religião e Teologia, como se eles fossem Julianos, Celsos, e Profírios; falam de Governo, como se fossem outros Joães das Regras: a Religião é taxada de fanatismo, as Ceremonias de superstições, as Leis antigas de despotismos, etc. etc. Mas triste sorte é a do burro, sempre traz albarda encima de si, e a sua maior proeza é empinar as patas, e atirar coices!... Eis-aqui a vossa pintura, filibusteiros, e bandidos! falais de tudo, mas em tudo sois asnos, e perfeitamente burros, só obrais alguma cousa digna de vós, quando atirais redondos coices; mas muitas vezes vos saem caros; porque vossos irmãos também vos dão o pago.) D. Tr.

(continuação, II parte)

15/04/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXI)

(continuação da LXX parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XLIV
Fugir das Disputas Para Conservar a Paz da Alma

1. Cristo - Filho, deves conduzir-te em muitas coisas como os ignorantes e considerar-te como morto sobre a terra e o mundo morto para ti. Também deves fazer-te surdo a muitas coisas e não prestar atenção senão ao que pode conservar a paz da tua alma.
Vale mais que apartes os olhos daquilo que não te agrada, deixando a cada um a liberdade de pensar como lhe parecer, do que te embaraçares em argumentos e disputas.

2. Alma - Ó Senhor, a que estado estamos reduzidos!
Chora-se uma perda temporal, atormenta-se e morre a gente por um nada; e esquece-se de que a alma se perdem e essa perda tão horrorosa vem tarde à memória.
Atende-se ao que pouco ou nada aproveita e não se faz caso algum do que é sumamente necessário; porque o homem, pelo peso das suas más tendências, todo se dá às coisas exteriores e nelas descansa com prazer, se Vós não o fazeis entrar em si mesmo.

ASCENDENS - A Conferência Encomendada


No passado sábado, dia 11 de Abril (2015), a conferência "encomendada", aqui anunciada, decorreu segundo o agrado de quem "encomendou".

Os problema técnicos de comunicação e tecnologia apareceram; o número de participantes, o qual se esperava e queria que fosse muito "familiar", e por conta de quem encomendou, ficou ainda mais abalado pelos problemas de ligação. Contudo, os temas agradavam, e agradou a exposição e explicação. No final, as habituais perguntas.

Esta pequena conferência, encomendada, foi coisa de última hora e acabou por inesperadamente adiantar-se a uma outra que está prevista para breve (a qual sofreu adiamento).

O blog ASCENDENS espera solucionar definitivamente aqueles problemas tecnológicos. Embora a opção de transmissão via youtube seja mais estável, continuaremos a preferir a forma mais privada, a qual usamos (apenas para contas gmail).

OS NOTÁVEIS DESACATOS OCORRIDOS EM PORTUGAL (III)

(continuação da II parte)


Sé do Porto
Aconteceu na Sé da Cidade do Porto (Refere este caso Gabr. Per. de Carv. De Man. Reg. P 2ª Cap. 53 n. 24 fol. 331) em 11 de Maio de 1614. Foi roubado do Sacrário o Sagrado Vaso com as Sagradas Fórmulas. Nunca pôde ser descoberto o executor do delito.

Fez-se por este motivo uma grande Procissão de Penitência de noite, em que foram descalços o Bispo D. Gonçalo de Morais, e o Governador, que então era das Justiças, Diogo Lopes de Sousa 4ª da Relação daquela Cidade (ó tempos, ó costumes). Semelhantes demonstrações de desagravo se fizeram em Lisboa, Coimbra, e por todo o Reino.


Sucedeu em Lisboa, na Freguesia de Santa Engrácia, na noite de 15 de Janeiro de 1630. Foi arrombado o Sacrário, e roubadas as Sagradas Formas de um Cofre de tartaruga guarnecido de prata, e de um Vaso também de prata sobre-dourado; e roubados também alguns ornatos dos Altares.

O réu, que se supôs deste delito, foi sentenciado a ir arrastado pelas ruas públicas até ao lugar, onde cometeu o crime, a serem-lhe ali cortadas as mãos, e queimadas à sua vista; e depois ser ele queimado vivo, e as cinzas lançadas ao mar.

Por este motivo se instituiu uma Irmandade composta de cem Irmãos, da principal Nobreza da Côrte, com o título de Escravos do Santíssimo Sacramento, que costumam fazer todos os anos um Tríduo na Real Capela da Ajuda, e costuma também ElRei assistir à Festa do primeiro, e último dia.


Aconteceu na Igreja da Freguesia do Santíssimo Nome de Jesus de Odivelas, na madrugada do dia 11 de Maio de 1671, tempo da Regência de ElRei D. Pedro II (Refere este caso o Advogado, que foi nomeado para defender o réu, Manuel Alves Pegas, no seu Tratado Histórico, e Jurídico).

Foi arrombado o Sacrário, e foram roubados dois Vasos Sagrados, um de prata sobre-dourada, com as Fórmulas consagradas, e outro de prata lisa. Foram roubadas outras muitas coisas, e ornamentos das Imagens dos Santos, e Altares.

Por Decreto do Príncipe Regente, foi nomeado para Juiz da devassa deste delito o Regedor das Justiças, Conde de Vilar maior, e Escrivães os Desembargadores Diogo Marcão Temudo, Corregedor do Crime da Côrte, e João Leitão de Andrade. Descobriu-se o delinquente, e foi condenado a ser arrastado pelas ruas públicas até à Praça do Rossio, e ali depois de cortadas as mãos em vida, e queimadas à sua vista, morrer de garrote, e seu corpo reduzido a cinzas.

Por este motivo se fizeram muitas demonstrações públicas, e Procissões de Penitência, e Desagravo. A primeira foi desde a Sé até à Freguesia de Santa Engrácia, em que foi o Príncipe Regente, toda a Côrte, o Clero, e todas as Comunidades Religiosas. Seguiram-se Procissões semelhantes em todas as Freguesias de Lisboa, e outros muitos actos públicos de piedade, e Religião.

E 16 de Junho do mesmo ano foram achados casualmente no caminho de Odivelas para Lisboa, no silvado de uma vinha os dois Vasos Sagrados embrulhados num lenço, e um embrulho com muitos dos ornamentos roubados, o que tudo foi levado ao Juiz da devassa.

Fizeram-se novas diligências, tendo-se já feito muitas, e prometido o Príncipe Regente grandes prémios a quem descobrisse o delinquente; mas tudo em vão, até que na noite de 16 de Outubro, sentindo uma criada do Mosteiro de Odivelas andar gente na cerca, pelas dez para as onze horas da noite, deu parte, chamaram-se os Religiosos, e criados do Mosteiro, que fica contíguo ao das Religiosas, entraram na cerca, e encontraram um homem, que declarou ter entrado com intento de furtar galinhas, como já tinha feito mais vezes. Foi preso, e sendo buscado pela Justiça, entre outras coisas que se lhe acharam, foi dentro de uma bolsa com algum dinheiro, uma Cruz de prata dourada, embrulhada num papel, que, sendo reconhecida, achou-se ser aquela, que fôra quebrada do Vaso do Sacrário.

O que tudo sendo levado ao Conde Regedor, e fazendo-se exame judicial da Cruz com o Vaso por dois Ourives, se achou ser a mesma que ali faltava; e por este indício se presumiu ter sido este preso o autor do roubo. Acharam-se depois num embrulho de fato do mesmo réu o resto dos ornamentos roubados, que ainda faltavam; e fazendo-se-lhe perguntas, suposto negou ao princípio, veio por fim a confessa ter sido o autor, e perpetrador daquele roubo, por cuja confissão foi condenado na forma que já se disse.

Em 1744 um devoto, chamado António dos Santos, erigiu um Oratório, em memória deste acontecimento, no sítio onde apareceram os Vasos Sagrados, cujo se chama hoje o Senhor Roubado.


Sucedeu na Vila de Palmela, na Igreja da Freguesia de Nossa Senhora do Castelo, que hoje existe na Ermida de S. João Baptista, extra muros da mesma Vila.

Eis aqui o caso, conforme a conta, que deu o Presidente do Real Convento, e Ordem de Palmela, Clemente Monteiro Bravo, à Rainha Fidelíssima a Senhora D. Maria I:

"Senhora,
na noite de 13 do corrente mês de Maio, dia da Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo, para o dia 14, a Ermida denominada de S. João Baptista, fronteira a este Convento, e contígua a esta Vila, que há muitos anos serve de Freguesia de Santa Maria, Matriz da mesma; se achou roubada, segundo dizem, por três ladrões, que espoliando-a quase de toda a prata, e alfaias, e por ela difundindo os Santos Óleos, deixando as Âmbulas com as bocas em terra, passaram ao horrendo atentado de abrirem o Sacrário, donde levaram um Cofre com uma Hóstia, e cinco Fórmas consagradas, nele depositadas, e uma Pixide com cento e três Partículas consagradas, deixando além disso muitas dispersas pelo altar do mesmo Sacramento. Peço a V. Majestade a sua Real Resolução, com a brevidade que o caso pede, para a minha última, e acertada determinação. Convento Real de S. Tiago da Espada de Palmela 15 de Maio de 1779.
O Presidente do Real Convento da Ordem de S. Tiago: Clemente Monteiro Bravo."

(continuação, IV parte)

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº1 (VII)

(continuação da VI parte) 

SANS-CULOTTES – É o mesmo que sem calções. Nasceram com a Revolução, e de repente se viram ditos e feitos os mais excelentes patriotas, os mais insignes assassinos, e os mais famosos ladrões, incendiários, espiões, e caluniadores. É coisa decidida entre eles, que todos devem habitar magníficos palácios, andar em coches, e mandar os outros com imperio e autoridade. Sem se saber como, tem desaparecido da História Republicana estes Figurões. Talvez seja, por se terem feito mais famosos debaixo de outro nome, cousa não desusada na História e Nomenclatura Democrática. Porém seja como for, o certo é que ainda têm posta a pontaria ao mando, aos palácios, e aos coches. Para conseguir tudo isto não basta ser um Sem-calções, é necessário também ser um Sem-Religião, um Sem-consciência, um Sem-pudor, e um completo, e consumado tunante! Que lástima! ser esta a única cousa que falta aos Sans-culottes!...


Family of Sans Culotts
(* Também tivemos os nossos Sans-culottes, a que se chamava o respeitável Público, que aparecia nas Galerias aprovando, ou desaprovando conforme se lhe dava ao registo; que gritava nas praças, que proclamava os Governos, que vociferava nos cafés, que aplaudia os Sermões Constitucionais que conduzia em triunfo o Juiz do Povo, que transportava a figura da Fé no meio de apupadas, que apedrejava e cobria de impropérios os Prelados, e Ministros da Igreja, e que na célebre archotada quis dirigir os Negócios do Estado, pedindo Generais, e Ministros, que eram convenientes à baixa Maçonaria, mas que a Aristocracia Maçónica não admitia. Só lhes faltou o gostinho de empunharem o Timão da Nau do Estado.) Do Tr.

ALARMISTA – Assim chamam os Democráticos aos que descobrem suas maranhas, ou contam suas derrotas. Todos os Democráticos são homens de benéfica e santa intenção, e todos são mais invencíveis em sua fantasia, que foi D. Quixote em suas empresas. É por isso que apenas pensão em algum desastre os revês da fortuna, (que tantas vezes lhe tem sido adversa) imediatamente se deve gritar: Santo, saudável! E ainda quando hajam recebido mais pauladas que o Herói da Mancha, todos devem levantar a voz, e dizer: Victoria para os Democráticos. E aquele, que assim não o faz, é declarado imediatamente Alarmista, que vale o mesmo que ser condenado a prisão, e fuzilatura.

(* Atendam bem os Portugueses a este modo de proceder dos Liberais sempre uniforme, sempre o mesmíssimo: morrem de fome, e de desespero nos rochedos da Terceira [Ilha Terceira] os foragidos Portuenses, mas veem o Paquete Português, e instantemente com umas caras deslavadas nos dizem: "há uma fartura imensa, nada falta, etc.: descompõe-se, desafiam-se, jogam ao soco uns com outros, Palmela com Saldanha, Villa Flor com Taipa, etc. etc.," mas chega a mala: "que unidade!" (dizem) que firmeza! Que constância em suportar trabalhos! Que harmonia! Parece um paraíso aquela vivenda..... Sofrem enxovalhos, grosserias daqueles Israelitas sórdidos Cambiadores de Londres, que só lhes olham para as mãos a ver se trazem  algum diamante; mas chega o Novo Precursor Português — que empréstimos! Que milhões! Dinheiro a rodo, já se compram Naus, e Fragatas, milhares de Suíços marcham ás ordens de um General tão aguerrido, e desinteressado, que deixa Coroas e Sceptros para sustentar a espada! ..... já sulcam os mares formidáveis lenhos pejados de braços, e canhões, saem das Dunas, tocam em Brest, aportam do Império Insultar, ameaçam Lisboa, costeiam o Algarve, bloqueiam o Porto, insta por momentos o dia afortunado, em que o grande Milionário, insta por momentos o dia afortunado, em que o grande Militar diga como César: Veni, vidi, vici.... Quem poderá ser insensível a esta fanfarronada, que não desate uma gargalhada de riso?! Empresas militares por mar e terra, exércitos marchando, esquadras velejando, etc. mas o Constitucional, Periódico infalível, porque o órgão do Ministério Perrier, diz-nos que o novo Quixote Brasiliense (Português  não, porque ele mesmo disse que a sua pátria era o Brasil) acabava de sofrer uma incivilidade do Cidadão Picador pertencente à família do Cidadão Rei Luís Filipe! .... risum teneatis amici?....Aprendam daqui os Portugueses a entender o seu dialeto, e as suas visagens. Quando mudos e sombrios, temam-nos: alguma andam eles armando: quando fanfarrões e notificadores, olhem-lhe para as caras, e nelas, apesar de estranhados, e incapazes de lhes assoma a côr ao cor, (a não ser por borracheira, em que são eminentes!) lerão o contrario do que dizem; o cunho da perfídia, e da mentira é o que se descobre naquelas frontes, em que sem duvida se não divida – o Signa Tau – (que é o Sinal de Cristão.) Se hoje Descartes compusesse o seu Tratado de Fisionomias, teria que acrescentar uma nova categoria; e não sei que pudesse achar um símbolo em o reino animal para indicar um Pedreiro malvado, incorrigível, e embusteiro, senão o da onça suspensa nas árvores para surpreender os viandantes incautos, o do lobo vestidos de pele de ovelha para a seu salvo dilacerar um rebanho inteiro; ou o da raposa, que se finge de morta depois da barriga cheia, para escapar à morte, mas que logo depois começa a imitar as cantigas do galo, para atrair, e devorar as galinhas. Quantas destas onças suspensas nas árvores das Dignidades!... quantos destes lobos mais mansos que um cordeiro no meio dos Vassalos fiéis! ... e quantas destas zorras malhadiças [maçónicas]  e matreiras se não vêm deitadas por terra, que parece não respiram, mas sujo ventre está impando com o sangue inocente!...e outras entoando a linguagem realista, para seduzir incautos, e a seu salvo segurarem a preza?!) D. Tr

(Fim do Nº1)
(o n.º2, aqui)

14/04/15

OS NOTÁVEIS DESACATOS OCORRIDOS EM PORTUGAL (II)

(continuação da I parte)

BREVE NOTÍCIA

Dos desacatos e roubos do Sacrário, cometidos em Portugal desde a sua fundação até ao ano 1779.

A Religião é a base, de que depende a segurança do Trono, e a tranquilidade dos povos: ela é o freio moral do coração do homem, onde não podem chegar as Leis civis, que somente podem regular, e punir as acções externas. Destruída ela, ou desprezada, serão relaxados todos os vínculos da sociedade, todos os deveres, toda a Moral; perder-se-ia a civilização, e os homens seriam reduzidos ao estado da barbaridade, e quase ao dos brutos, e das feras.

É portanto do maior interesse público, e particular de cada Reino, que a Religião seja respeitada, conservada, e defendida. É isto o que fizeram sempre todos os Políticos, e todos os Legisladores, estabelecendo, e autorizando um Culto público, e uma Religião de Estado, honrando-a, consagrando-a com sábias Leis, e defendendo-a de todos os ataques e insultos, com severas penas, que se acham estabelecidas nos Códigos de todas as Nações civilizadas.

Pela Lei das doze Tábuas todo o sacrilégio indistintamente era punido com pena capital. Esta se ficou sempre conservando entre os Romanos, no tempo da República; porém no tempo dos Imperadores se modificou nos casos menos graves, ficando conservada só nos outros.

Este sistema se tem seguido nas Legislações modernas de todas as nações, e sobretudo na nossa de Portugal, que nesta parte [neste tema] é muito severa e rigorosa (Vejam-se os primeiros cinco Títulos da Ordem. do L. 5º, e nos Títulos 14, 15, 40, e no § 4º do Tit. 60 do mesmo L. 5º).

Embora diga Montesquieu que a Divindade deve ser honrada, e não vingada, esta máxima nunca foi seguida na prática pelos Legisladores de todas as Nações; e quando tratamos de questões em Direito, devemos regular-nos pelas disposições das Leis positivas, e não pelas máximas arbitrárias dos Filósofos; e muito menos em matérias de Religião.

À vista do exposto já se vê que os crimes, que ofendem a Religião, e contêm sacrilégio, são por esta circunstância muito mais graves, tanto por sua natureza, e considerados em si mesmos, como politicamente, em relação à Sociedade Civil. São crimes de Lesa majestade Divina, que atacam o respeito que devemos à Santidade, majestade, e Real presença de Deus; mostram um indigno desprezo daquilo, que todos os homens mais respeitam, e até dos primeiros ofícios da Lei natural.

Todo o homem pois, penetrado dos sentimentos de Religião, se horroriza naturalmente com estes crimes, principalmente quando são atrozes; e o mais atroz de todos é sem dúvida o desacato, roubo, e violação dos Divinos Sacrários, chegando os agressores a profanar com ímpias e sacrílegas mãos o Augusto e Divino Mistério da Eucaristia.

A Nação Portuguesa, e os nossos Maiores, olharam sempre com horror estes sacrilégios, e deram nestes casos as maiores e mais públicas demonstrações de sentimento; distinguindo-se entre todos os nossos Augustos e Fidelíssimos Monarcas, cuja piedade e respeito para com a nossa Santa Religião formou sempre o seu distinto carácter, e de toda a Real Família Portuguesa; dando não só públicas demonstrações do seu sentimento nos actos religiosos que praticaram, mas manifestaram no maior zelo no descobrimento, e castigo dos delinquentes.

Assim mesmo estes atentados contra o Augusto Mistério da Eucaristia eram tão raros nos antigos tempos, que se passavam séculos, sem que acontecesse um só; pois desde a origem de Portugal até ao Reinado da Senhora D. Maria I contam-se os sete mais notáveis.


Em Santarém viviam uns casados pelos anos de 1266, e pela má vida que o marido dava à mulher, se queixou esta a uma sua amiga de Nação Hebreia, a qual lhe levasse a Partícula Consagrada, porque com ela lhe faria um especial remédio, com o qual obrigaria o marido a querer-lhe bem: assim o fez a pobre mulher, escondendo a Sagrada Partícula numa toalha na ocasião, em que fingiu que comungava; mas milagrosamente, quando caminhava pela rua, lhe viram correr sangue do seio, onde levava o Sacrossanto Depósito; e assustada com a novidade, em que todos reparavam, voltou para casa, e meteu o Corpo de Cristo numa arca.

Na noite seguinte viu-se a casa toda iluminada, respirando suaves aromas, e suando Angélico Cânticos. Divulgou-se o caso, e então a Santa Partícula foi levada para a Paróquia de Santo Estêvão, onde depois se achou metida numa Âmbula de cristal por mão Superior.

Até hoje se conserva incorrupta, obrando prodígios tão frequentes e públicos, que a devoção dos fiéis lhe chama por toda a parte o Santo Milagre.


(Refere este caso Jorge Cardoso no Agiológio Lusitano Tom. 3º) Aconteceu no ano de 1362 na Cidade de Coimbra, no Reinado do Senhor D. Pedro I, suposto o Autor citado o atribua ao Senhor D. João I, o que se deve reputar erro de imprensa, por que ElRei D. Pedro I reinou até ao princípio do ano de 1367, seguindo-se o Senhor D. Fernando, e depois o Senhor D. João I (Mestre de Avis), que foi aclamado Rei nas Côrtes de Coimbra em 1385.

O Vaso Sagrado foi roubado do Sacrário da Catedral da dita Cidade, com cinco Formas Consagradas, por um mancebo induzido, e comprado por um Judeu. Descobriu-se o delinquente, e foi punido com a morte. [o punido com morte foi o cristão, e não o judeu]

Fez-se por este motivo uma solene Procissão, em que o Bispo levou para a Sé as Sagradas Formas, tiradas do lugar onde tinham sido enterradas pelo Judeus. Uma Portuguesa rica, chamada Ana Afonso, fundou ali uma Capela, com uma Irmandade, e Hospital; e, para ficar em memória, lhe deu a invocação do Corpo de Deus (Ficava esta Capela nas costas do Mosteiro de Santa Cruz).


Aconteceu em Lisboa a 11 de Dezembro de 1552. Estando um Sacerdote a celebrar Missa, na Real Capela, na presença DelRei D. João III, entrou um Inglês herege, e tanto que o Sacerdote Consagrou a Hóstia, se arremessou ao Altar, e a tirou das mãos do Sacerdote, vertendo o Vinho do Cálice, que ainda estava por consagrar.

Apenas isto se observou, desembainharam os Fidalgos, e Criados do paço as espadas para matarem ao herege; mas ElRei os suspendeu, ordenando que unicamente lhe tirassem das mãos sacrílegas o Santíssimo Sacramento. Foi o réu preso, e castigado como merecia tão horrendo atentado. A Côrte, e o Reino se cobriram de luto, fizeram-se penitências, e muitas demonstrações públicas de sentimento: ElRei mandou fechar todas as janelas do Paço, e todos os Tribunais da Côrte, e até à sua morte sempre ficou conservando o luto.

(continuação, III parte)

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXX)

(continuação da LXIX parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XLIII
Da Ciência que Deus Inspira Aos Humildes

1. Cristo - Filho, não te deixes namorar da formosura e subtileza dos discursos dos homens.
O Reino de Deus não consiste em palavras, mas em virtudes.
Considera atentamente os meus conselhos, que acendem o coração, iluminam a alma e a compungem, ao mesmo tempo consolando-a de mil modos.
Nunca leias com desígnio de parecer mais sábio e letrado.
Aplica-te seriamente às mortificações das paixões, porque esse exercício mais útil te há de ser que o conhecimento das questões mais intrincadas.

2. Por mais estudo que faças, por mais ciência que tenhas, sempre deves voltar a mim, como àquele que deve ser o princípio e o fim dos teus conhecimentos.
Eu sou quem ensina aos homens o que sabem e quem dá mais luz e inteligência aos simples do que lhes poderiam dar todos os homens juntos.
Aquele a quem falo, depressa possuirá sabedoria e se adiantará maravilhosamente na vida do espírito.
Infelizes aqueles que buscam na ciência dos homens o de que nutrir a sua curiosidade e tratam pouco de saber o que devem praticar para Me servir.
Tempo virá em que Jesus, Rei dos Anjos, há-de aparecer como Doutor dos Doutores, para examinar o estudo e a ciência de cada um, sondando o fundo dos corações e das consciências. Então é que, segundo a linguagem do Profeta, Ele levará a luz das Suas lâmpadas até aos lugares mais ocultos de Jerusalém e, manifestando o que estava envolto em trevas, fará mudas as línguas e confundirá todos os vãos discursos.

3. Eu sou quem, em rápido instante, escuta o espírito humilde e o faço entender as razões divinas das verdades eternas, melhor do que aqueles que se instruíram nas escolas por espaço de dez anos.
O meu modo de ensinar não é misturado do estrondo das palavras, nem da confusão que produz a diversidade das opiniões. Nele não entra o fausto da ambição e da honra, nem o calor das disputas e dos argumentos.
Eu ensino a desprezar os bens terrenos, e a aborrecer os presentes, a buscar e amar os bens eternos; a fugir das honras; a sofrer as injúrias; a pôr somente em mim toda a esperança; a não desejar, fora de mim, coisa alguma e a amar-me ardentemente sobre todas as coisas.

4. Pessoas há que, amando-me do íntimo do coração, aprenderam segredos divinos dos quais falam de modo admirável. Elas se adiantaram mais, tudo renunciando, do que estudando subtilezas.
Mas eu não me comunico igualmente a todos. A uns digo coisas comuns; a outros ensino coisas particulares; descubro-me a alguns através de sombras e figuras; e revelo a outros, com muita clareza, os meus mistérios.
Os livros dizem todos a mesma coisa, mas não fazem em todos a mesma impressão.
Mas eu ensino a verdade, indago o coração, penetro os pensamentos, interpreto as acções, distribuindo pelos homens os meus dons, segundo me agrada.

OS NOTÁVEIS DESACATOS OCORRIDOS EM PORTUGAL (I)

BREVE NOTÍCIA
DOS
DESACATOS MAIS NOTÁVEIS ACONTECIDOS EM
PORTUGAL DESDE A SUA FUNDAÇÃO
ATÉ AGORA, E O
SERMÃO DE DESAGRAVO
PELOS ÚLTIMOS,
COMETIDOS NESTE MESMO ANO
.

Prégado na Igreja Paroquial de Santa Isabel
Rainha de Portugal,

E OFERECIDO
AO EMINENTÍSSIMO E REVERENDÍSSIMO SENHOR
D. CARLOS DA CUNHA
CARDEAL PATRIARCA DE LISBOA

POR
Fr. JOÃO DE S. BOAVENTURA
Monge de S. Bento, Mestre em Teologia,
Pregador DelRei Nosso Senhor nas Reais Capelas da Santa Igreja Patriarcal, e Real Paço da Bemposta, e Examinador Sinodal do Patriarcado.




LISBOA,
Na Impressão Régia, ano 1825.
Com Licença.



----///----

"Erit enim tempus, cum sonam doctrinam non sustinebunt, sed ad sua desideria coacervabunt sibi magistros, purientes auribus: et a veritate quidem auditum avertent, ad fabulas autem convertentur. Tu vero vigila, in oministerium tuum imple."

Epist. II S. Paul. ad Timot. C. IV

"Virá tempo, em que muitos homens não sofrerão a sã doutrina; e não querendo ouvir a verdade, acumularão para si mestres conforme aos seus desejos, e desta sorte apartam os ouvidos da verdade, e os aplicarão às fábulas. Tu porém vigia, trabalha, préga o Evangelho, cumpre o teu Ministério."

Epístola 2ª de S. Paulo a Timóteo Cap. IV



----///----

Eminentíssimo e Reverendíssimo Senhor,

alguns Portugueses honrados, a quem o zelo da Religião inflama, e que com verdadeiras lágrimas de amargura têm ouvido a história de tantos, e tão repetido desacatos, cometidos contra o Santíssimo e Diviníssimo Sacramento dos nossos Altares, me instáram que publicasse pela imprensa o Discurso, que preguei em desagravo à Divina Majestade ofendida na sua mesma Real e Adorável Presença. À vista do que me resolvi desde logo a dedicá-lo a V. Eminência, a quem cordialmente respeito e venero, e a quem os Portugueses, amantes da Religião e do Rei, reconhecem, e adoram como contraste da impiedade, modelo dos Bispos, exemplo da firmeza e constância Pastoral, e um Prelado digno dos primeiros séculos da Igreja.

Se Jesus Cristo foi desacatado e ofendido na sua mesma Divina e Real Presença por malvados e iníquos profanadores; V. Eminência, como verdadeiro Pastor, e Defensor da Igreja, foi ofendido e ultrajado pela mão da impiedade, e falsa filosofia do século.

Para desagravar a Jesus Cristo nós lhe ofereceremos nossos corações cheios de Fé, nossas lágrimas, nossas adorações, nossos cultos, e protestamos reconhecê-lo, e adorá-lo realmente presente no Augusto Sacramento dos nossos Altares: para desagravar a V. Eminência basta o testemunho público, com que o mundo Católico reconhece a firmeza de V. Eminência; e para dar-lhe uma pequena prova do cordial afecto que lhe consagro, e do quanto me interesso no bem da Religião, e no extermínio da impiedade, respeitosamente ofereço a V. Eminência uma breve notícia dos desacatos mais notáveis, cometidos contra a Divina Pessoa de Jesus Cristo, desde a fundação de Portugal até ao presente, e igualmente o Discurso que preguei em desagravo do mesmo Divino Senhor, pelos últimos e nefandos atentados que neste mesmo ano se perpetuaram contra os Senhor Sacramentado.

Na história dos desacatos verá V. Eminência quanto a Fé dos Portugueses, comparada com os antigos tempos, ter enfraquecido e vacilado, pelo império quase absoluto que a impiedade, e filosofia do século tem estabelecido no meio de nós: e no Discurso de Desagravo, conhecerá com verdade que com tantas, e tão repetidas profanações dos Lugares Santos, e do mesmo Deus, nem a Fé dos Portugueses pode vacilar, nem a filosofia do século triunfar.

Queira pois, Eminentíssimo Senhor, receber benignamente esta pequena oferta, que, não sendo uma pena eloquente, é dedicada por um coração (ainda que pecador) com tudo fervoroso, e cheio de Fé. Deus conserve a vida de V. Eminência por dilatados anos para honrar a glória de Deus, e satisfazer dos verdadeiros Portugueses, como cordialmente lhe deseja, quem é

de V. Eminência

Súbdito e Orador constante

Fr. João de S. Boaventura.

----///----

(continuação, II parte)

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCLVIII


IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXIX)

(continuação da LXVIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XLII
O Amor de Deus é Fundamento da Verdadeira Amizade

1. Cristo - Filho, se pões a tua paz em alguma pessoa porque achas doçura na sua conversação, e porque pensa da mesma sorte que tu, sempre jazerás na inconstância e no embaraço. Mas, se recorreres à verdade viva e permanente, não sentirás tristeza na ausência nem na morte do amigo.
O amor do amigo deve ser fundado em mim, e por amor de mim é que dever amar todo aquele que te parecer virtuoso e que te for amável nesta vida.
Sem mim, o amor não é verdadeiro nem durável. Não é puro o amor de que eu não sou o nó.
De tal sorte deves morrer para os amigos que, tanto quanto te for possível, não desejes ter comércio algum humano. Quanto o homem mais se aparta das consolações terrenas, tanto mais se chega para Deus; quanto mais desce ao abismo do seu nada e mais vil se considera, tanto mais alto sobe e tanto mais se abisma no seio do seu Criador.

2. Quem atribui a si algum bem, impede que a graça de Deus venha sobre ele, porque a graça do Espírito Santo sempre busca o coração humilde. Se souberes aniquilar-te e despojar-te do amor das coisas criadas, então descerei em ti pela abundância das minhas graças.
Quando tu olhas para as criaturas, ausenta-se da tua vista o Criador. Aprende a vencer-te em tudo pelo amor de Deus, pois assim chegarás a conhecer o teu Senhor.
Quando uma coisa, por pequena que seja, se olha e ama desordenadamente, este amor corrompe o coração e torna-o pesado para se unir ao soberano bem.

13/04/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº1 (VI)

(continuação da V parte)


FLOREAL, FRUCTIDOR, etc. – A confusão da língua tem chegado ao ponto de não se entenderem os mesmos Revolucionários Republicanos no modo de contar os tempos. Sem dúvida a causa desta obscuridade e confusão foi o gostinho, que tomaram ao setembrizar, e que os excitou a setembrizar todo o ano, meses e semanas. Suas verdadeiras vistas, sem embargo, são setembrizar a Religião e suas Festas.

MUNICIPALIDADE – Segundo o puríssimo anagrama quer dizer: Capi mal uniti, cabeças mal unidas. Como quer que seja, ou o anagrama tenha sido formado do vocábulo, ou este do anagrama, o certo é que a Europa não há visto outras Municipalidades que capi mal uniti, cabeças mal unidas, e unidas para o mal. Para que se veja que nem ainda a etimologia dos vocábulos republicanos se deve desprezar.

ORGANIZAR – Significa roubar por princípios, e dispor uma Nação para que seja saqueada com o método.

(* Bem organizado foi o nosso Portugal com acréscimo espantoso da divida publica; com os Títulos desta divida, que na mente dos Regeneradores foram preparados para com eles se comprarem os bens dos Frades, que bem depressa iriam à praça, porque eram bens da Nação; e comprados com estes Títulos, ficavam os Frades sem propriedades, o Estado sem dinheiro, e eles senhores de tudo sem nada lhes custarem, ou uma ridicularia, que era a quinta parte do seu valor. Bem organizado ficou o nosso Portugal com dois empréstimos consideráveis, cujos resultados são diminuir consideravelmente os rendimentos do Erário, que se aplicam para a quinta Caixa. Isto é organizar, segundo a linguagem republicana: bela organização!... Quem os não conhecer que os compre.) D. Tr.

Jacobinos
JACOBINO - Vocábulo enérgico, que significa o mais esquisito dos termos, ateu, ladrão, libertino, traidor, cruel, rebelde, regicida, opressor, e revolucionário endiabrado. De maneira que ele só sobrepuja a quanto até aqui se tem visto de ímpio, e de malvado. As Repúblicas Filosofico-Democráticas devem sua origem a estes ilustres fundadores, que podem ser considerados como seus Platões, Solões, e Licurgos. Os Rousseaus, D'Alembert, e Raynal não deram senão os borradores, do que os Jacobinos têm sabido perfeitamente pôr em limpo. Alguma coisa fizeram aquele na especulativa; porém a glória da execução deve-se completamente a estes. Agora já se lamentam os Jacobinos (e creio que com muita razão) da ingratidão republicana, porque depois de terem eles, com tanto suor próprio, e sangue alheio, fundado, e estabelecido as Repúblicas Democráticas, não têm recebido de seus ingratos filhos outro prémio que perseguições, e ódios, chegando ao excesso de arrastarem muitos à guilhotina em recompensa de seu exaltado zelo patriótico. Porém que outro prémio podiam esperar? Porventura não sabem os Jacobinos que as víboras não parem senão viborices, cuja inclinação natural é despedaçar as entranhas de suas mães?! Com que; tenham paciência, porque as lamentações contra a Natureza são inúteis.

FRATERNIZAR: AMOR FRATERNO, ABRAÇOS FRATERNOS, ÓSCULOS FRATERNOS, etc. - A verdadeira, genuína, e autêntica explicação destes termos antonomásticos, genuína, e autêntica explicação destes termos antonomásticos foi dada no dia 18 de Março de 1794 na Convenção Nacional. O Club dos Cordilheiros estava em rotura com os Jacobinos; mandaram estes uma Deputação para concertar o negócio; convieram os Cordilheiros: Fraternizou-se, houve uma inundação de beijos, e de abraços fraternos: no dia seguinte foram presos os chefes dos Cordilheiros, e guilhotinados prontamente. Maravilhado disto um que não entendia a língua, perguntou: como é isto?! Ontem beijos, e abraços, e hoje guilhotina!!.. Mas respondeu-se-lhe concisamente: este é o verdadeiro fraternizar. Hoje beijos, e abraços, e amanhã um punhal, que te vare o coração. Oh! quão fraternalmente beijada, e abraçada tem sido a desventurada Itália!

(* Um facto semelhante a este foi a rotura, que houve em Lisboa, entre a Loja do Grande Oriente, e a da Regeneração, cujo Manifesto corre impresso; e um monumento é este não só da existência dos Mações reunidos, e arregimentados obrando debaixo de plano, mas de que são eles os únicos autores, mestres, e directores de todas as nossas desgraças.... o que só faltou em Lisboa para se copiar o modelo de Paris foi a guilhotina; mas não tardaria este flagelo de humanidade para acabar de fraternizar a nossa desventurada Lusitânia, se acaso a Providência não tivesse marcado os limites à Revolução, além dos quais lhe não seria lícito avançar os seus passos, e se lhe não tivesse intimado, como no começo dos dias ordenou às tumultuosas ondas do Oceano: Usque huc venies, et non procedes amplius. Viva Deus, que suscitou o Nosso Amado Soberano o Senhor D. MIGUEL I para ser a confusão dos Mações, o terror da impiedade, o vingador da Justiça, o defensor da Religião, o Modelo dos Reis, o Pai dos seus Povos, e um Novo David, a cujos pés caiu rendido o soberbo Golias Revolucionário, e que saberá ainda vencer as maquinações de um reprovado Saúl.) D. Tr.

(continuação, VII parte)

TEXTOS ANTERIORES