06/04/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº1 - Introdução (II)

(continuação da I parte)


NOVO VOCABULÁRIO
FILOSÓFICO-DEMOCRÁTICO


Cum desolationem faciunt, pacem appellant.
TACITO

INTRODUÇÃO

Todos os homens, que em outro tempo habitavam a terra, viviam unidos no campo de Sennaar: tinham todos umas mesmas ideias, a mesma linguagem, e os mesmo costumes. Multiplicados de maneira, que lhes foi necessário separarem-se pela falta de subsistências, empreenderam, antes de o efectuarem, fabricar aquela famosa Cidade, e Torre, que deviam servir de testemunho eterno, não menos de comum origem, que da sociabilidade, cultura e mutuo amor, que desde o principio havia unido a linhagem humana para confusão de alguns abortos da natureza, que com o discurso do tempo haviam querer confundir a origem do homem com a das feras, e deduzir desta suposta original bestialidade humana a liberdade, a sociedade, e os direitos dos homens.

Mas, nem porque estes vissem que lhes era necessária a separação, lhes deixava de ser amarga, e mui de propósito iam dilatando um negócio, donde lhes resultava um desgosto, que assim não podam evitar. Todos se empregavam em celebrar com demonstrações de alegria os últimos momentos de união, fazendo ver com isto que nunca o bem nos causa tão sensíveis, e doces impressões como nos últimos instantes, em que se nos avizinha a sua perda.

Porém, no comenos que os cuidados e trabalhos humanos se prodigalizavam em um só lugar, a terra por todas as partes deserta reclamava habitadores e indústria: e a Providência soube obrigar os homens a separar-se sem lesão do belo desejo de viverem unidos. Chegou finalmente o dia destinado por ela para o complemento de um prodígio, que por modo algum podiam imaginar. Despertam do sono, e se dispõe aos seus costumados mestres: falam uns com outros, os pais, e os filhos, o maridos, e a mulher, os vizinhos, e os parentes; entende-se mui bem; julgam falar a mesma linguagem que dantes, e falam outra inteiramente diferente: chegam à grande fábrica, falam-se; alguns particulares entendem-se; porém a comum confunde-se, e articula vozes sem comunicar pensamentos. A inocente discórdia não ofende a Natureza: todos estão conformes em máximas, em vontade, em amor, em desejos, e somente em vozes discordam. A Providência mesma já tem sinado, os que devem unir-se, e os que devem separar-se. Despedem-se os homens para multiplicar as Nações; e o ultimo adeus, que podem dar-se à despedida, é de mudos abraços, e ternas lágrimas.

Tal foi o prodígio da confusão em Babel; grande na verdade, porém inocente, e útil. Mas, oh! Quam diverso teria sido o resultado, se em vez da mudança das vozes correspondentes às idas, se houvessem mudado as ideias correspondentes ás vozes?! A suceder assim, seguir-se-ia que julgando os homens entender-se, pois não usavam de palavras senão bem conhecidas, nem se entenderiam, nem fariam outra cousa que enganarem-se. E então que confusão! Que discórdia! Que fatais distúrbios se não teriam originado!!...

Pois esta perniciosa confusão de línguas é a que, de algum tempo a esta parte, se há descoberto com surpresa universal em todos os idiomas da Europa! É verdade que as vozes são as mesmas, porem é igualmente certo que muitíssimas delas, e as de mais importância, não significam já o que antes significavam. É verdade, repito, que são as mesmas vozes, porém também é indubitável que um sem número delas, longe de explicar, o que até aqui hão explicado, não têm outro uso que significar o contrario do que soam. Desta confusão pois, tão fatal em ideias e vozes, tem nascido justamente o universal transtorno social, que tanto à nossa custa palpamos. Ela é que tem feito que muitos Povos, enganados por falsos e mal intendidos Vocábulos, hajam corrido direitos àquilo mesmo, que na realidade detestavam; e só hajam encontrado a escravidão a miséria, a desgraça, onde pensavam achar o porto da liberdade, da felicidade, e o supremo poder, com que tantos os lisonjeavam.

É demasiado interessante este acontecimento, para que se esqueça sua história, com razão pode ser considerado como uma espécie de prodígio. Ele é uma nova confusão de línguas, e se não se há obrado instantânea e milagrosamente, como o de Babel, é sem embargo muito mais importante, funesto, e doloroso para todo os Género Humano, do que foi aquele.

Sua origem remota quiçá pode buscar-se nos tempos de Cromwel, ou de Hobes, e Espinosa; porém a mais recente se deve fixar com segurança nos de Rousseau, e sua contraditaria pena.

Havia já muito tempo que certos entes ridículos, que se diziam Filósofos, maquinavam a ruína da Religião, da ordem, dos costumes, e das Soberanias Legítimas; mas esta empresa era mui difícil, e não devia pôr-se em pratica, sem que o engano mais delicado houvesse antes preparado o caminho. É por esta razão que muitos tentaram a carreira, porém com infeliz sucesso. Só Rousseau teve a glória de inventar uma vereda capaz de confundir os cérebros, e de fazer que todos os homens corressem após aquilo mesmo, que mais aborreciam.

Inventou um absurdo agradável, e chamou-se "Pacto Social": fundou este pacto social sobre a liberdade humana: a liberdade humana sobre os direitos do homem: os direitos do homem sobre a natureza; e a natureza sobre o que ninguém entende, nem há podido compreender, senão ele.

Porém como a Religião, a razão, e os deveres estavam em oposição manifesta com a sua liberdade, e seus direitos, deixando a um lado a definição verdadeira daquela, e destes, armou tal confusão de linguagem (algarabia), e faltou tão contradictoriamente da Religião, da liberdade, dos deveres, e dos direitos, que jamais se chegará a saber o que foi, o que ele entendeu por semelhantes nomes. Mas ao mesmo tempo que com estes Vocábulos se confundia a razão, se foi introduzindo uma linguagem doce, que mansamente ia lisonjeando as paixões mais vivas, e despertando o orgulho, e o desejo da independência, e insubordinação. O método foi qualificado de excelente por todos aqueles, que suspiravam por precipitar o género humano em o ateísmo, no desenfreamento, e a libertinagem. O charlatão Filósofo teve infinitos sequazes, discípulos, e defensores; e transtornadas as cabeças, começou todo o mundo a gritar: pacto social, liberdade, igualdade, direitos, sem saber, nem entender o que significavam estes Vocábulos. Ultimamente, a geringonça há sido tal, que não somente se hão transtornado os cérebros dos ignorantes e estúpidos, mas até os de muitos, que se jactavam de doutos e raciocinadores.

Nada menos se pretendia que uma tal confusão, para ir pescando os homens. Falava-se, escrevia-se, e até se apregoava liberdade, soberania, direitos, governo, leis, religião, superstição, fanatismo, e outros infinitos Vocábulo; e falavam-se, e escreviam-se de uma maneira, que perdendo insensivelmente seu verdadeiro significado, e conservando do antigo nada mais que o som, excitaram em os Povos e disparatado entusiasmo, e a extravagante mania de caminhar em direitura à irreligião, à imoralidade, à escravidão e pobreza, imaginando que iam lançar-se em os braços da liberdade, e da ventura.

Atónitos ficaram os homens, quando, instruídos finalmente pela experiência, viram que a liberdade se opunha à razão, os direitos do homem a seus deveres, a natureza a si mesma, sua sonhada soberania à sua felicidade, e as grandiosas promessas aos factos. Foi então quando conheceram de algum modo a inopinada confusão de línguas, sem com tudo descobrir a origem de um tal prodígio.

Já a este tempo estavam repartidos esquadrões de Filósofos, que, reunidos em lugares determinados, trabalhavam com o santo fim de fazer-se tiranos debaixo do nome de libertadores, e de fundar o despotismo, e a escravidão debaixo do nome de Democracia, ou Republica. Mas como a Religião era para isto um estorvo, começaram a combatê-la debaixo do nome de superstição, e a denegri-la cobrindo-a de opróbrios, e dictérios. Assim foram seguindo seu infernal plano de roubar os Estados e os Reinos, debaixo do nome dos fazer livres e felizes; de destruir as propriedades com o pretexto de igualdade, e de induzir os Povos para que preferissem a bestialidade democrática aos pequenos defeitos da Monarquia. Esta perversa linguagem tem chegado a propagar-se de maneira, que não somente é já comum em todas as Republicas democráticas, mas a estas horas se acha espalhada por todo o mundo. Tem-se tornado por tanto necessário formar, e publicar um Vocabulário da língua antiga, e da moderna democracia e republicana, não só para impedir que os Povos, enganados pela semelhanças das palavras, vivam eternamente deslumbrados; mas para que se entendam os republicanos, e para que se destruam os seus embustes.

A experiência, que é a mestra mais segura em todas as coisas, é mui especialmente sobre isto que nos fala com toda a clareza: sirvamo-nos de um exemplo: um cão, que logo depois da voz "pau" provou os seus repetidos golpes, chega perfeitamente a entender o que significa, e foge apenas ouve a tal palavra "pau". E se isto assim é, porque razão a experiência não há de ter ensinado aos homens o verdadeiro significado dos Vocábulos republicanos? Por ventura não tem eles palpados o que constantemente se tem seguido às palavras dos republicanos liberdade, propriedade, soberania, etc.?!

Algumas objecções se podem fazer a este Vocabulário, a que convém responder. Dir-se-há, por exemplo, a língua republicana se irá enriquecendo cada dia mais: logo o presente Vocabulário é imperfeito. Não temos a menor duvida a este respeito; porém isso quer dizer que haverá matéria para novos Tomos; e por esta causa poremos em frontispício deste = Tomo primeiro.

Um agudo Jacobino sustentou em um Café, que um Vocabulário Republicano era inútil, pois que daqui a duzentos anos, e talvez antes, teriam voltado os Vocábulos a seu antigo significado; e se agora p. ex. Felicidade dos Povos, significa extrema ruína e miséria, daqui a dois séculos significará, ainda que republicanamente, o que antes significava.

Porém apesar de tudo, sobram-nos fundamentos para crer que os sucessores dos ilustres autores da linguagem republicana, se existe (o que Deus não permita) por todo esse tempo, terão sumo cuidado de conservar a língua em sua primitiva pureza. Além de que, como a presente geração não há de ter a honra de falar com os Republicanos, que hão de viver daqui a dois séculos, a deseja vivamente entender aos que agora vivem, por esta causa o presente Vocabulário não pode deixar de ser de suma utilidade.

(continuação, III parte)

05/04/15

TE DEUM (1769) - de João de Sousa Carvalho


Por ocasião deste dia de Páscoa, um pouco de música religiosa: um fragmento do Te Deum composto por João de Sousa Carvalho, em 1769.


ASCENDENS - Páscoa 2015

A Ressurreição de Cristo (Rubens)

SANTA PÁSCOA 2015,
são os votos do blog ASCENDENS para todos os leitores católicos.

04/04/15

SEXTA FEIRA SANTA 2015


O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCL


VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº1 - Prólogo do Tradutor (I)

NOVO VOCABULÁRIO
FILOSÓFICO-DEMOCRÁTICO

INDISPENSÁVEL
PARA TODOS OS QUE DESEJEM ENTENDER
A
NOVA LÍNGUA REVOLUCIONARIA.


ESCRITO EM ITALIANO
E
TRADUZIDO EM PORTUGUÊS

TOMO PRIMEIRO

==============
N.° 1
==============


LISBOA
1831

É tão fera a perfídia
De hum cruel, e vil Mação,
Que a paz nos apregoa
Quando faz a desolação.

Cum desolationem faciunt,
Pacem appellant.
(Tacito)



PROLOGO DO TRADUTOR

Como um dos maiores empenhos dos Revolucionários seja impedir, como circulem Papeis, e Escritos a favor da Sagrada Causa do Altar, e do Trono, o que se comprova no Art. 12.º da ultima Reunião das Lojas Maçónicas de Espanha em Congresso Geral no ano de 1823; e como se eclipsasse entre nós aquele Astro Luminoso, que no meio do túrbido Horizonte Político sabia marcar o rumo invariável da Opinião Publica, e a morte nos privasse daquele Macedo, que com mais graça do que Juvenal sabia reduzir a pó, e a cinza os mais soberbos Colossos, que a mão inimiga podia contra nós levantar; pareceu acertado e conveniente, que se publicasse pela Prensa um daqueles Livros, que o mesmo José Agostinho de Macedo lia com admiração, e que ele se tinha proposto a traduzir, e que mais de uma vez disse: "é digno que ande nas mãos de todos os Portugueses, uns para que não se enganem, e outros para que se desenganem". É para lamentar que ficássemos privados de uma tradução, que seria escrita na língua dos Sousa, dos Vieiras, e dos Bernardes; e não menos é para sentir, que este Livro não apareça com o nome de Macedo Traductor; porque não só isto daria mais merecimento à Obra, mas faria além disse que chegasse com mais velocidade às mãos dos seus ávidos Leitores, que sendo grandes em número, e não poucos em saber, gozariam desta produção de uma alma fecunda, e previdente, e não resultaria daqui pequena utilidade à Santa Causa, que defendemos. 

Um amigo do P. Macedo, a quem ele muito honrava com a sua costumada franqueza, e que lhe ministrara o presente Vocabulário para ele ver, e que da sua boca escutara, o que acima fica referido, é quem se determina a aprender a sua publicação, não com o fim de se manifestar no Orbe Literário, por isso oculta o seu nome, mais sumamente desejoso que as boas doutrinas, e as verdadeiras ideias realistas se generalizem entre os Portugueses, parte iludidos, parte incautos, e parte menos aptos para folhearem os grandes Livros, em que estas matérias se tratam com toda a profundidade e erudição; começaremos por darmos alguma noticia do Livro, e seu Autor, e da maneira, com que prosseguiremos a sua publicação.  

I. Este Livro foi escrito em Italiano, e impresso em Veneza em o ano de 1799: a forma, que lhe deu seu Autor foi a de Vocabulário; e ainda que parece ser mais razoável a forma de Dicionário, todavia tomou outra vereda, e julgamos ter sido justa; porque o seu fim era classificar os Vocábulos, e como que formar uma genealogia da linguagem Democrática, o que optimamente desempenha começando pelo "Pacto Social": compõe-se de dois Tomos, ainda que mui pouco volumosos; porque apenas chegam a 286 paginas de 8.º [oitava de folha] ambos reunidos: foi traduzido em Espanhol duas vezes, sendo a 2.ª Edição de 1823, Madrid.

II. O autor deste Vocabulário foi incógnito por muito tempo, até que se poderão alcançar noticias verídicas por pessoa, que o conheceu, e são as seguintes, tiradas da 2.ª Edição de Madrid.

No Comboy, em que os desgraçados filhos da extinta Companhia de Jesus saíram de Espanha para a Itália, ia um Navio Sueco, e entre sua tripulação um Mancebo duma família ilustre de Estocolmo. Durante a viagem travou amizade com os Padres; e em pouco tempo lhes ganhou tanta afeição, que resolveu (sem dizer a ninguém sua intenção) ficar com eles. Logo que arribaram à ilha de Córsega, eram todos os dias visitados por D. Lourenço Thiuli, que é o nome do nosso Autor, o qual, apenas soube que seu Navio se fazia de vela, fugiu dele, e foi esconder-se no meio dos montes, por cujo motivo foram baldadas todas as diligências, e pesquisas, que se fizeram para o encontrar. Passados alguns dias apareceu o nosso Mancebo, e apresenta-se aos Padres, lhes descobriu francamente seu desígnio. Alegram-se estes com a vista de quem julgavam perdido, e o acolheram com doçura, carinho, e afabilidade, virtudes, que lhes eram características, e que souberam conservar no meio dos infortúnios, e desgraças.

Não se entristeceram ao ver a nova ajuda de custo, que se agregava à sua curta, e limitada pensão. Ela sufragou também ao sustento, e vestuário do novo hospede, que pouco depois abjurou de boa vontade a heresia, e catequizado pelos Padres nos Mistérios, e Doutrina e nossa Santa Religião, era por sua docilidade, franqueza, e generosidade de seu belo coração as delicias de seus Tutores. Passado algum tempo quis receber a Roupeta, e foi admitido na Companhia, como filho, que já era seu. Durante o curso de seus estudos teve ocasião de manifestar uma grandeza, e generosidade de alma nada vulgar, uma piedade, e pureza de coração, que chamava a atenção de todos, e um talento grande, sólido, e despejado.

Formado já, não menos em a Virtude, que em Ciências, começou a dar ao Publico os frutos de sua assiduidade, e aplicação, conseguindo por todos estes títulos um lugar distinto entre os verdadeiros Sábios.

Nada choca tanto a uma espírito justo, com a hipocrisia, e a traição: e eis aqui a causa verdadeira do ódio, e despique de D. Lourenço contra o moderno Filosofismo. Conhecedor de seus pérfidos, e abomináveis planos, fez patente não poucas vezes a todo o mundo o mistério de iniquidade, que se concebia na Europa, e a horrível tormenta de males, e desgraças, que lhe preparavam os chamados Filósofos. Convencido das pérfidas vistas dos partidários do moderno Democratismo, falava, como de cousa passada e experimentada, de sua imoralidade, de sua libertinagem, do seu latrocínio, e de seus embustes e falsidades. Porém muitíssimos, ou fosse por singeleza, ou pelos poucos conhecimentos, ou (que é o mais comum) porque há homens de certa tempera, que não sabem persuadir-se que seja factível, o que eles não querem que suceda, tiveram por exagerados os avisos do nosso Autor, até que a experiência veio desengana-los.

Expulsos os Franceses da Itália, e conhecendo o nosso D. Lourenço, que a impiedade e tirania eram devedoras de quase todos os seus progressos à traidora falsidade de sua linguagem, determinou escrever o presente Vocabulário, para que instruídos os homens do grande transtorno, que os Filósofos tem feito em o idioma, não se deixem deslumbrar, e lhes entendam a língua. É quanto se sabe do Autor, e objeto da presente Obra.

III. Desejaríamos que este Vocabulário aparecesse logo de uma vez publicado; mas como para isso eram necessárias mais delongas, e despesas, que não podemos adiantar em grande quantidade, preferimos antes publica-lo em Cadernos separados, que irão saindo de 12 a 15 dias; e deverá ser o número destes cadernos de 12, com muito pouca diferença, para mais ou para menos, deste primeiro: seguimos em tudo a mesma forma do Autor; julgámos com tudo conveniente juntar algumas Notas, as quais têm por fim, ou explanar mais a matéria, ou fazer algumas aplicações, do que o Autor diz da sua Itália, aos fatos, que em o nosso Portugal se praticaram pela virtude dos mesmos Filósofos, que são os mesmos em toda a parte, e sempre falando a mesma já ousada linguagem; estar Notas irão imediatas aos artigos do Vocabulário: serão precedidas por este * sinal, e terminarão com este outro  "D. Tr." que vem a dizer "do Tradutor" Far-se-há um Catálogo por forma alfabética de todos os Vocábulos, que se porá no fim do Vocabulário para melhor comodidade dos Leitores quando queiram busca-los.

Esperamos que o Publico receba esta tradução como tendente ao único fim de dar a maior publicidade, que seja possível, ás doutrinas Realistas, de cuja falta muitas vezes ocorrem vários erros, ainda entre pessoas, que amam, e querem o Governo Monárquico; e desejamos que os nossos Leitores desculpem qualquer inexatidão, e menos pureza de linguagem, que nela possam encontrar: e se a falta de uma frase castigada merecer o seu desprezo, ao menos mereça a sua atenção a qualidade da matéria, que sendo útil e necessária, não deixa igualmente de ser jocosa e agradável. 

(continuação, II parte)

03/04/15

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCXLIX



A NOSSA MISSA - O Que Diziam Os Protestantes? (I)

Lutero não aceitava o Rito Romano da Missa, o qual chamava de "missa papista", e da qual dizia que tinha sido composta pelos vários Papas e em resultado de uma colectânea.

Com base num documento, o qual revelarei apenas no final desta nova série de artigos, mostrarei o que pensaram sempre os protestantes a respeito do Rito Romano (codificado no Missal de S. Pio V).


I
A MESA

Ao longo dos séculos a Igreja viu-se afrontada com más interpretações contra as quais levantou definições e deu aclarações.

Em tempos o altar em forma de mesa foi usado, nunca universalmente, de tal forma que no séc. XX houve na Igreja pensadores que tentaram retomar esta forma e generalizá-la. Contra estas tentativas, Pio XII levantou a sua voz na tão conhecida e mal tratada Encíclica Mediator Dei, na qual diz:

"55. É certamente coisa sábia e muito louvável retornar com a inteligência e com a alma às fontes da sagrada liturgia, porque o seu estudo, reportando-se às origens, auxilia não pouco a compreender o significado das festas e a penetrar com maior profundidade e agudeza o sentido das cerimonias, mas não é certamente coisa tão sábia e louvável reduzir tudo e de qualquer modo ao antigo. Assim, para dar um exemplo, está fora do caminho quem quer restituir ao altar a antiga forma de mesa; (...)"


Esta encíclica é a respeito da liturgia a mais importante do séc. XX.

Mas de onde veio essa tentativa de dar hoje ao altar a forma de mesa!?

O documento, o tal que vos trago, que data de 1668, e tem a aprovação do "Consistório Eclesiástico" (protestantes), diz:

"IV. A Sacrosanta Ceia do Senhor - Cristo, Senhor nosso, fez sua S. Ceia sobre uma Mesa.
- Ceia das Igrejas Cristãs Reformadas: Assim mesmo nós também celebramos a S. Ceia sobre uma Mesa; e não sobre o Altar. O altar é para Sacrificar; os Sacrifícios com a morte de Cristo se acabaram: logo não necessitamos de Altar. A Mesa é para Cear; Ceia do Senhor a chama S. Paulo I Cor. 11.20. Segue-se daqui, que sendo Ceia, em Mesa, e não em Altar, se há-de celebrar. Donde se segue que a nossa Ceia é a mesma S. Ceia do Senhor."

Depois de tantos séculos, na segunda metade do séc. XX as antigas igrejas e catedrais viram uma mesa ser entreposta entre o Altar e os fiéis, a mesa da comunhão ("comungatório", que ignorantemente hoje chamam de "grade divisória") foi arrancada. Séculos e séculos contraditos, como se a Igreja sempre estivesse enganada, e como se Pio XII tivesse errado na correcção propositada que fizera! Grandes mudanças, e com manifestos aplausos dos protestantes.

Aqui, na mesma diocese, sempre que tenho oportunidade sondo algum jovem que tenha acabado de fazer o Crisma. Todos, todos até hoje responderam unanimemente à pergunta "o que achas que é a Missa?". A reposta resume-se a: "é a comemoração da última ceia"! Depois desta faço sempre uma segunda pergunta: "a Missa é a renovação do Santo Sacrifício de Nosso Senhor?". As repostas variam muito, mas todas vão no mesmo sentido: uns dizem que não, outros tentam averiguar se não estão a fazer pouco deles, outros pensam ter ouvido mal, outros acham a pergunta tão estranha que ficam imóveis, outros pedem para repetir a pergunta, outros pedem para explicar melhor; mas todos eles ficam admirados pela tão "estranha" pergunta. Podemos talvez dizer que há entre eles uma ordinariedade doutrinal, e uma oposição ao que creram os nossos antepassados!

A "mesinha", junta de outros elementos como a entrega dos "dons", etc., facilitam a crença de que a Missa é principalmente a comemoração da Ceia.

Na Santa Igreja, que Magistério ordenou as "mesinhas"!?

02/04/15

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCXLVIII


ASCENDENS - Conversa de Última Hora

Ao administrador do blog ASCENDENS foi feito o pedido de abordar as questões seguintes em modo de conferência:

- Os Missais, e o Missal de Paulo VI; o Rito Romano e a reforma de S. Pio V; o Magistério Ordinário e o Summorum Pontificum do Papa Bento XVI e o tipo de autoridade;
- O Tradicionalismo e as mudanças pós 2007; o que é o "tradicionalismo";
- Doutrina e doutrinas - o Sempre e o pós-Concílio;
- Como a Igreja situa o Concílio Vaticano II;
- A Unidade da Igreja; a mesma doutrina!?;
- São nossas dioceses e paróquias;
- Limites do "poder do púlpito" e o Código de Direito Canónico.

 Devido à circunstância de quem pede, o responsável do blogue ASCENDENS aceita contribuir para a reflexão nestes temas, tão ignorados.

Como está já em espera uma outra conferência, pedimos desculpas aos leitores, visto que esta que agora foi proposta será antes.

Devido ao carácter de urgência, e visto que há necessidades, esta conferência será em moldes mais "abertos", ou seja: os assistentes poderão colocar questões durante a conferência e sem ter que guardar-se para o final.

Até breve...

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCXLVII


01/04/15

MASTIGÓFORO - INTRODUÇÃO (IV)

(continuação, III parte)

Ora aqui temos descoberto e posto ao sol, o motivo porque os Mações querem amnistias; e por isso os Reis humanos, e indulgentes são os homens de nosso Discursador, e quando eles governam, é que não há turbulências nem desordens! Por isso Luís XVI com a sua indulgência e humanidade salvou a Monarquia Francesa das garras dos Pedreiros! Até estes concedem, que ele foi clemente e benigno por extremo, e que além dos mais benefícios derramados sobre o povo Francês, Também foi tolerantismo na admissão dos Protestantes aos lugares públicos sem falarmos agora no seu perdão da pena última concedido ao ímpio Mirabeau, que em paga disto seria o principal agente da sua desentronização. Quando prevalecem as manhosas ideias de tolerância, e de impunidade, é que se aumenta o número de crimes, perde-se de todo a segurança individual, e vive-se no meio da sociedade como poderão viver os cordeiros no meio de uma alcateias de lobos. não se envergonhe o nosso discursador de revolver os nossos historiadores, por certo mais atilados e mais filósofos, que os seus Rousseaus, Voltaires, e Alaberts, e outros advogados da tolerância. Aí verá mui bem tratadas e expendidas as causas, que infelicitaram os reinados dos Senhores D. Sancho II e D. Fernando, e que os rigores e extremos de justiça, nem por isso obstaram a que o reinado do Senhor D. Pedro I fosse venturoso... creio porém que é estatuto de maçonaria, inverter os factos antigos como quem diz "o povo não averigua isto e o veneno assim propinado bebe-se a longos tragos, e vamos fazendo a nossa fortuna". Mostra-se que não é temerário este juízo, pela confiança que ele toma de nos propor também o Senhor D. João IV por modelo das amnistias. Sim, o Duque de Caminha, o Marquês de Vila Real, o Conde de Armamar, e outros podem ser boas testemunhas de que ele foi Sobre maneira indulgente e compassivo com os que tentaram esbulhá-lo da Coroa. Já que apertam comigo devem saber, que o crime daqueles fidalgos não foi tão abominável como o dos Pedreiros Livres. Por certo que não tinham eles experimentado a beneficiência DelRei D. João IV como estes nossos Pedreiros a experimentaram e bem larga da parte do Senhor D. João VI Assás cleência tem ele mostrado..... e não se fartam nunca estes malvados, ainda querem mais!!

Ora que um Senhor de sua casa expulse um criado por ladrão, perdoe a injúria e não o leve à forca já é muita clemência, porém que se trate de lhe pôr a obrigação de o tornar a admitir para o seu serviço, e de lhe confiar novamente a administração do mesmo, em que ele se houve como infiel a seu amo, é apertar muito os cordéis, é afrontar as ideias mais vulgares até da própria decência, e é um bom Português onde leva a mira o tal discursador desde o princípio até ao fim da sua estada, e bem martelada arenga.

O Segredo de ter os Estado quietos sem castigar os facciosos, é a pedra filosofal descoberta pelos Mações, e por isso tratam de o persuadir e inculcar a todos os Soberanos, que assim lhe faz conta lá para os seus arranjos, e se é pasmoso que eles tenham conseguido pôr uma venda nos olhos a muitos Príncipes não o é menos que ainda se lisonjeiem, de que este modo de vida lhes durará sempre! Assás tem feito das suas... Já basta... não há cão nem gato que lhe não conheça as boas manhas, e habilidades.

Com efeito, o mui Alto e Poderoso Senhor D. João VI deve estar muito contente dessa quasi amnistia, que se dignou conceder a milhares de cúmplices da invasão Francesa. Estes perdoados, e agraciados foram os primeiros que arvoraram o estandarte da rebelião contra o seu benfeitor, e se o grande Filósofo Séneca teve pela mais grave de todas as penas a que é infligida por homens barbados de seu natural, eu acrescento, e digo, que não há debaixo do sol ingratidão nem maior nem mais punível, que a usada com o Senhor D. João VI; mas que há de ser? Estes malditos Pedreiros não têm nem remorsos, nem vergonha, e o caso está em dominar, e empolgar dinheiro, e por isso o corifeu da Seita dizia, e trovejava: "Ninguém pode ser bom Constitucional, sem ter sido bom Jacobino." Ah! que males se teriam poupado, se a decantada Sptembrizaida, de que tanto ralharam e blasfemaram os Pedreiros, fosse mais ao vivo! Infelizmente as medidas tomadas então pelos Governadores do Reino foram taxadas de rigor excessivo e desta arte a Maçonaria daquém e dalém mar foi trabalhando a seu salvo, e preparando a nossa ruína!!

De uma coisa me admiro eu, e vem a ser de que não apareça, em todo o discurso ao menos uma citação do historiador Filósofo (Tácito) que é o desperdiçado dos Pedreiros, e lá para eles coisa muito acima dos nossos Evangelhos... porém os tais heróis costumam fugir às sete partidas de qualquer autoridade, que os possa incomodar, e para a seita é mais pesada, e mais custosa de levar, uma repreensão de Tácito, de que seria uma repreensão de S. Agostinho ou de S. João Crisóstomo, que os Mações quando visitam as livrarias dos Mosteiros ousam denominar estúpidos e materiais... Pois hão-de Levar na bochecha uma repreensão do seu querido Tácito, o qual nos assegura de que nenhum proveito se tira do sofrimento, e dissimulação com os sediciosos, e que se consegue meramente o fazê-los mais atrevidos, e que é uma espécie de ordem para que o sejam "Nihil proficit patientia, nisi ut graviora, tanquam ex facile tolerantibus, imperentur" (In vita Agricolae).

Já entendo porque o Grão Tácito foi posto a um canto, julgou o discursador que nos devia levar pelo mística, e que fazia assim melhor o seu negócio. Já que nos chama para os textos da Sagrada Escritura, novo género de fraude com que intenta deitar poeira nos olhos à simplicidade do vulgo, aprenda a conhecer, e interpretar melhor o texto Sagrado. Nenhum dos que ele aponta é a favor dessa amnistia ou perdão geral, que é o fim a que se endereçam todos os seus capciosos argumentos. Repare que Deus Nosso Senhor perdoa somente aos arrependidos, e castiga inexoravelmente os contumazes, e obdurados. Queremos todos, e quem deixará de o querer? que a paz e a justiça se abracem mutuamente, porém não queremos uma ausência total da justiça, porque neste caso desaparece inteiramente a paz, que dimanara da justiça, e tudo é confusão, perturbação, e anarquia, e temos o homem nesse estado de guerra chamado natural por Hobbes, e outros Políticos. Não sei que possa haver lembrança mais infeliz do que produzir lugares do testamento velho, quando se trata de inculcar amnistios e mansidões de tal jaez. Se o próprio Senhor dos céus, e da terra se dignou ser o próprio Rei de uma nação escolhida, apesar de que tinha em sua mão evitar os crimes com um simples aceno de sua vontade Ominpotente, assim mesmo quis deixar aos Reis uma norma, que pudessem adoptar como base da administração de seus respectivos impérios. Fez um Código penal (que até no sentir do Irmão Diderot é obra prima) e mandou castigar os delinquentes para exemplo de uns, estímulo de outros e segurança de todos. Ora vejam que argumento se tira deste facto contra as benignas e liberais opiniões deste discursador. Quando o mesmo Deus é Rei de uma Nação pequena faz castigar e mui severamente os maus.... Logo que hão-de fazer os Soberanos da terra, que devem ser imagens de Deus não só em misericórdia, mas também na justiça?... Se me replicarem que se tratava do povo Judaico, povo inquieto, e sedicioso, e por isso chamado durae cervicis, eu lhes tornarei, que nunca houve no mundo um povo mais assistindo daquelas prendas que o povo maçónico... Nunca, nunca pisaram a terra maiores criminosos do que os Mações precursores do Anti-Cristo, e se eles devem ficar isentos do rigor da justiça, então despejem-se imediatamente as cadeias todas, e sejam absolvidos todos os salteadores e homicidas... Tão longe está de ser este o carácter das Leis antiga e nova, que o Santo Rei David chega a dizer, que o justo há-de alegrar-se quando presenciar o castigo dos maus, e que lavará as suas mãos no sangue do pecador. Nosso Senhor Jesus Cristo abençoa os que têm fome e sede de justiça; o Apóstolo das nações designa os Príncipes como vingadores do crime, porque de outra sorte era inútil o cingirem uma espada, e até no Céu as ditosas almas dos Santos mártires pedem com instância ao Senhor, que lhes vingue as suas injúrias, e nomeadamente o sangue que derramaram pela palavra Divina.

Os bons Cristãos, e bons Portugueses querem nos Reis uma Clemência razoável, e temperada. Clemência absoluta, e indefinida só querem os Pedreiros, para abusarem dela, para ganharem tempo, e para se rirem depois e mofarem das vítimas que caíram no laço de enfeitados, porém mortíferos discursos.

Ora não seja tudo malhar no pobre homem e faça-se-lhe alguma justiça..... Confesso de plano, que do meio daquela espessa nuvem de falsidades saiu alguma coisa verdadeira. A corrupção dos costumes é sempre a precursora das Revoluções.

(continuação, V parte)

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