24/03/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXIV)

(continuação da LXIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XXXII

Negar-se a Si Mesmo e Despojar-se de Toda a Cobiça

1. Cristo - Filho, não podes possuir uma perfeita liberdade, sem que renuncies inteiramente a ti mesmo. Todos os proprietários da sua alma, que estão possuídos do amor-próprio, vivem em prisões e em ferros. Eles estão cheios de desejos e paixões, curiosos e errantes; buscam as coisas que lhes podem dar prazer, e não as de Jesus Cristo. Fazem muitas vezes esforços por levar uma vida mais pura, mas começam o edifício sem alicerces, e a sua construção não permanece.
Tudo o que não vem de Deus não pode ser firme e perdurar. Não te esqueças desta palavra breve, mas cheia de sentido: "Deixa tudo e acharás tudo". Renuncia aos teus vãos desejos e acharás o verdadeiro descanso. Considera bem esta verdade e, praticando-a, saberás tudo.

2. Alma - Senhor, uma piedade tão pura não é obra de um dia nem o brinquedo de um menino. Neste breve ditame, que foste servido dar-me, se encerra tudo o que há de mais perfeito na vida religiosa.

Cristo
- Filho, quando te é proposto o caminho dos perfeitos, não deves apartar-te dele, nem logo esmorecer. Antes, pelo contrário, deves forcejar por conseguir este estado sublime, ou ao menos suspirar por ele, inflamado em santo desejo. Quem dera que chegasses ao ponto de não seres amador de ti mesmo, mas vítima da minha vontade e daquele que te dei por condutor e pai. Então, tu me agradarias muito e toda a tua vida seria acompanhada de gosto e paz.
Ainda te restam muitas coisas para deixar, e, se as não deixas por amor de mim, não alcançarás jamais o que pedes.
Aconselho-te que me compres este ouro provado pelo fogo; quer dizer: esta sabedoria celeste que pisa aos pés do mundo e todas as suas vaidades. Para a possuíres renuncia a toda a sabedoria terrena e a toda a falsa complacência de ti mesmo.

23/03/15

MASTIGÓFORO - INTRODUÇÃO (I)

INTRODUÇÃO
ao
MASTIGOFORO,
ou EXAME DO DISCURSO SOBRE AMNISTIAS,
EMBUTIDO NA GAZETA DE LISBOA

(N.º 25)

por
O Autor do MAÇO FERREO ANTI-MAÇÓNICO [Fr. Fortunato de S. Boaventura]

LISBOA
(1824)

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Venenum aspidum sub labiis eorum.

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Ninguém diga desta água não beberei. Tinha eu já bem adiantado o N.º 1.º do Mastigóforo, em que mostro o verdadeiro sentido das palavras, e frases, tabalioas do Maçonismo, e por ter já definido a palavra Amnistia em o N.º 29 do Punhal dos Corcundas, apenas dizia: "É palavra grega, e bem grega, há-de parecer a muitos, quando eu lha explicar. Amnistia é um acto de clemência da parte dos Reis, ou qualquer outras autoridades superiores, concedido regularmente para sufocar ódios, e partidos, e contemplar o verdadeiro arrependimento; mas depois que os Mações vieram, ou saíram à luz, quer dizer outra coisa mui diferente. Amnistia é uma carta de seguro para trabalhar desafogadamente em novas conspirações, e uma licença para fazerem outra, em que se possam manter, e segurar melhor do que na primeira, de que foram perdoados. Julgava-me pois desaforntado para sempre de tal palavrinha, e neste comenos, fazem-me ler o Discurso embutido na Gazeta de Lisboa (N.º 25) que me desmancharia a igrejinha se eu me não resolvesse logo a bater o campo.

Àlerta, vamos-lhe ao fole. Que brilhante discurso sobre amnistia! Se eu escrevera assim tão culta, e aprimoradamente outro galo me cantaria! Mas infelizmente privou-me a natureza desse dom celeste de abrilhantar os nadas, e de os fazer parecer coisas grandes! Se eu exordiasse na matéria dos perdões, e dos esquecimentos, diria tudo com muita simplicidade, e não me esquecendo do Ex fumo dare Lucem, por certo, que não me arrogaria os plenos poderes do Maçonismo, que fazem acalmar as tempestades do Oceano pela serenidade do Céu, fruto da aparição do benigno Sol vernal... Porém que mais vivo, harmonioso, e retumbante não é o discurso modelado por outro gosto mais fino, e mais depurado.!!. Ainda me não farto de o ler, e se eu fosse homem rico de certo o faria em lâminas de ouro, para servir de norma aos discursos infantinos; pois esta classe gosta muito de ouro pele, de boles boles, e outras semelhantes quinquilharias. Vamos ao caso, e tomemô-lo sério, que bem me custa quando se trata de mais vil canalha, que Nosso Senhor deitou a este mundo.

Seria necessário compor um livro para refutar por inteiro um Discurso, onde formigam os erros políticos, e religiosos, e os maiores desacertos, e falsidades. Por isso eu me restingirei ao que me pareceu mais digno de censura, a que devem estar sujeitos todos os escritos, quando são olhados como peças de eloquência, ou de política. Tratarei de comabeter o que me azedou mais, e que mostrarei ser digna produção do Século Maónico.

Deixando agora de parte essas Virtudes Romanas, que foram muito menos do que o atilado Escritor pensa, ou finge pensar, e que por estatuto da Maçonaria se exaltam acinte, para serem deprimido as virtudes cristãs, que por isso nenhum papel distinto fazem em toda essa perlonga de felicidades para o género humano; começarei por atear, e forçar esse intrincheiramento de amnistias velhas, com que nos mata a paciência, mas que felizmente há-de ir a terra com um sopro, não de embravecidos aquilões, mas de um plácido Zefiretto. Esses homens, a quem foram concedidas as amnistias velhas, eram homens de outra laia, as mais das vezes iludidos, e desencaminhados por intrigantes hábeis, e ardilosos, que lhes pintavam o crime debaixo das sedutoras aparências de um dever sagrado; eram homens capazes de ensino, e de arrependimento, o que não sucede, nem pode suceder com os Revolucionários Pedreiros Livres. Já o grande Burke os definiu maravilhosamente, e os taxou de incorrigíveis. Com ateus não há nem pode haver capitulação; toda a que houver cederá em transtorno, e ruína total de sociedade, e por boas contas a sociedade vem a perder mais em um só realista cobardemente assassinado pelos Mações, do que em milhares destes infames condados à morte por inimigos de toda a Religião, e de toda a Sociedade. Para que o elegante discursador procedesse de boa fé, ou com boa Lógica, devia mostrar-nos primeiramente, que uma sociedade obrigada pelos mais terríveis juramentos a exterminar os Reis, e abolir o Catolicismo, possa abrir mão facilmente destes artigos capitais, que são o móvel, e o último de potência das suas tenebrosas reuniões. Olhando, como de facto olham para Reis, como uns liberticidas, e inimigos dos povos, e para os Sacerdotes, como propagadores do fanatismo; como poderão eles congraçar-se deveras com o trono que detestam, e com a Fé, que desejam exterminada do universo? Uma seita que envolve contradição a tudo, e com tudo, o que nós mais respeitamos, nunca existirá sem urdir novas tramas, e novos meios de suplantar os seus inimigos, e prova de não a conhecer, ou de pertencer a ela, quem abona os seus frutos procedimentos, de leais, religiosos, e irrepreensíveis. Um erro parcial chega a emendar-se, a quinta essência de todos os delírios, e de todos os erros, não dá esperanças de correcção, a menos que esta se digne baixar do alto dos Céus, onde existe a graça, que converteu os Saulos... Mas que digo eu? O próprio Saulo obrava por aferrado à sua lei, obrava com um zelo mal entendido, mas sincero, e mais filho de ignorância que de perversidade; e quem sustentará que os Mações pecam por ignorância, e que por um exaltado amor à justiça têm querido aliviar o género humano, como eles dizem, dos insuportáveis ferros do despotismo... O erro dos Mações é de vontade, e não de entendimento, é só de pura malícia, e em todas as histórias dos grandes crimes, que têm desonrado o género humano, eu não encontro um só comparável a este, e é necessário, que remontando-me a outra classe de seres, eu descubra no pertinaz, e afincado orgulho de Satanás, e dos Anjos rebeldes, uns visos de semelhança com o pecado dos Mações... Observam estes o mau sucesso das teorias modernas, acabam de ver toda a Europa alagada em sangue, e nem por isso deixam de querer tentar em a sempre Leal, e afamada Lusitânia, mais outro ensaio das suas doutrinas, e acarretam sobre nós esse dilúvio de males, que a despeito das clemências, e das amnistias, clamaram sempre vingança justa, e legal contra os seus autores, por ser este o único expediente saudável para empecer à continuação dos mesmos delírios, e para fazer cair em si, os que são inacessíveis à poderosa influência dos remorsos. Todo o Soberano pois que cegamente perdoar aos Mações, levando simplesmente de ideias de clemência, qual Deus não tem, (porque Deus castiga os maus) longe de cumprir os seus deveres, e de ser propício a esses malvados, prejudica-se gravemente a si próprio, fazendo-se responsável por todos os crimes, que eles perpetrarem para o futuro, e estanca-lhes as fontes do conhecimento próprio, da viva consideração de seus erros, e da abominação de seus crimes. Perdoar a um réu de crimes atrocíssimos, e deixá-lo vaguear a seu sabor pelo meio da sociedade, que ele perturbou com as suas intrigas, denúncias, e maldades, é mais um acto de arbitrariedade, que de clemência, e os que são chamados pela Providência para dizerem aos Reis a pura verdade, e a desfiguram a ponto de fazerem consistir a imagem de Deus nos Soberanos, em perdoarem a torto, e a direito, são bem pouco amigos do seu Rei, e da sua pátria. Não merece tal censura o Duque de Sully, arrastado pelo discursador para o indecente papel da campainha das amnistias. já transcrevi em o N.º 29 do punhal dos Corcundas, as suas formais palavras, que nem por isso favorecem a doutrina dos Mações, que é filantrópica todas as vezes que se consideram, ou estão debaixo; assim como é tirânica, e violenta, quando estão em cima... ("Para lhe irmos arrancar as entranhas, beber-lhe o sangue, e lançar aos corvos o imundo cadáver ainda palpitante!!" - Gazeta de Lisboa N.º 32 pág. 131). Vossa majestade, dizia aquele grande homem de estado a Henrique IV de França, tem todas as razões para dar castigos exemplares, e era o meu voto, que se infligissem a essas almas ímpias, que não podem ser metidas na razão, e contidas no seu dever, nem pelo amor, e consideração à vistude, nem por se lhes fazerem benefícios, nem por se lhes perdoarem os crimes, nem pela apreensão do castigo. Parece que o Duque de Sully fazia antecipadamente o retrato dos Pedreiros Livres, e quem depois de ler o seu voto, ousa chamá-lo para defensor das amnistias liberais, e indiscretas, bem mostra ser hóspede nos mesmíssimos factos históricos, de que abusa para sustentar a sua causa... Não é porém de admirar, que o nosso discursador falhe, e claudique perpetuamente no que alega da história dos reinos estrangeiros, quando parece não ter lido nunca a história de Portugal, o que por certo agrava o seu delito, pois não se contentando de ser o advogado dos Pedreiros Livres, corrompe, e adultera os factos de nossa história, como quem diz para os seus botões. Escreveu para um rancho de estúpidos, que ficaram de boca aberta para quanto eu disser, e ninguém ousará contrariar o privilégio de inerrância Maçónica. O ínclito restaurador da Monarquia Portuguesa citado para exemplo dessas amnistias sempre fatais, e desairosas para os Soberanos! O Senhor D. João I disfarçando, e perdoando aos que lhe faltaram à fé!!! É uma afronta mais pesada para ele do que foi a perpetrada pelos Franceses, quando em 1810 lhe despedaçaram o seu jazigo no Convento de Batalha; pois estes lhe espalharam os ossos, e lhe perturbaram o repouso das suas frias, e desanimadas cinzas, e o dicursador ataca-lhe a reputação, e faz quando nele é para que este Soberano deixe de ser entre nós o da boa memória? Ainda mesmo que se concedesse a existência desta sonhada amnistia, nem por isso ganhavam os Pedreiros Livres uma só polegada de terreno. Era tão melindrosa, e sujeita a dúvidas, nesse tempo a questão sobre quem devia suceder na Coroa, se a Filha do último Rei o Senhor D. Fernando, se os filhos do Senhor D. Pedro, e de D. Inês de Castro, se o Mestre de Avis, quando é líquida, e fácil de decidir em nossos tempos já desassombrados daquelas turbulências, e auxiliados do poder em tais lances irresistível dos acontecimentos, que afinal deram a Coroa ao que no princípio da contenda, parecia o último dos pretendentes. Os que seguiam a voz, ou da Rainha de Castela, ou dos Infantes, filhos de D. Inês de Castro, seguiram mau partido é certo, mas quem sabe a fundo o que se passou naquelas eras, quem compara o assentado nas Côrtes de Leiria, anteriores, necessariamente se inclina a favorecer os que deixaram a voz do Mestre de Avis, pelo menos enquanto ao crime de Lesa Majestade, de que podem ser arguidos. ora os Pedreiros Livres estão em um caso mui diferentes; e em comparação destes podem aqueles ser tidos como outros tantos modelos de obediência, e lealdade ao Trono Português. Erravam sim os entendimentos, chamando para a Sucessão um Rei que devia ser excluído, conforme as Leis fundamentais do Reino, porém os corações eram Portugueses, e caminhavam para onde assentaram que existia o direito à Coroa. os Pedreiros Livres conheciam, e deviam conhecer o direito com que reinava em Portugal, e suas conquistas o mui Alto, e Poderoso Rei o Senhor D. João VI, mas fiéis ao ímpio, e sacrilégio juramento de exterminar os Soberanos, tiveram a sacrílega ousadia (ainda hoje me estremece o coração de quanto vi, e ouvi neste assunto!) de o esbulharem do trono, e de o condenarem a ser um simples mandatário dos aresto do Maçonismo!! Tanto maior, e mais punível é este crime, quanto menos razão havia para o cometerem, e para enxovalharem o crédito nacional! mas demoremos este quadro e infâmias, e atrocidades, consultemos os Livros do primeiro ano do governo do Senhor D. João I, e vejamos como ele tratou os que seguiram a voz de Castela. Estremeço de ser fastidioso, mas pede o caso que se patenteie, e desmascare a ignorância do tal discursador. São factos extraídos da Torre do Tombo, pelos Cronistas mores Brandões, em cuja autoridade eu me fio, como se estivera revolvendo os próprios originais.

(continuação, II parte)

19/03/15

SAGRAÇÃO DE D. JEAN FAURE, e TODO O ACOMPANHAMENTO

Ontem recebi com alguma surpresa a notícia de que, hoje, dia 19 de Março, dia de S. José, o Senhor Pe. Jean Faure iria ser sagrado Bispo pelas mãos de D. Richard Williamson. E assim foi.

Sagração episcopal de D. Jean Faure
Pelas notícias que têm corrido, o movimento auto-denominado "Resistência" parece satisfeito com a escolha de D. Richard. Pelo crescimento deste movimento, e pela idade de D. Jean Faure, crê-se que está em projecto a sagração de outros bispos para este movimento, num futuro próximo.

Brasão episcopal de D. Jean
Tudo indica que a Santa Sé fará notar a excomunhão (desta vez verdadeiras ou falsas, quem sabe, visto serem elas fruto de um procedimento para o qual a Santa Sé nem sequer foi chamada ao caso).

Sagração episcopal de 1988
Os actuais dirigentes da FSSPX, hoje, a respeito da ocorrência, publicaram um comunicado, onde dizem que aqueles dois Bispos não fazem mais parte da FSSPX devido às críticas que infundadamente terão feito a Roma. No parágrafo maior, diz-se, entre outras coisas, que há diferenças entre estas e aquelas sagrações de 1988: a de agora não contou para nada com a autoridade da Santa Sé (e esta é realmente a única diferença que importa ter em conta). É realmente este um caso significativo e, na minha opinião, preocupante: porque D. Marcel Lefebvre contou com a autoridade, e D. Richard parece tê-la ignorado por prever uma negação de Roma (que é o óbvio), como que agindo apenas movido por efeitos, e não pelos princípios... talvez. Contudo, não há uma entidade criada pela Igreja que equivalha à FSSPX e que permita a D. Richard fazer um pedido com enquadramento aceitável a Roma! Complicada a situação... (mas vamos esperar o desenvolvimento dos próximos dias).

Pe. Régis Cacqueray, antigo superior do Distrito da França da FSSPX
Curiosamente, também hoje o anterior Superior do Distrito de França da FSSPX, o Senhor Padre Régis Cacqueray, retirou-se em permanência ao silêncio da clausura fazendo vida de Capuchinho (Couvent Saint-Antoine à Aurenque).


A Rádio Cristiandad, depois de alguns dias de luto pela morte do seu principal agente, Fabián Vazquéz, retomou a emissão, hoje, dia do seu 11º aniversário.

Também hoje, o blog ASCENDENS comemora S. José, um dos padroeiros do blog.

17/03/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXIII)

(continuação da LXII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XXXI

Desprezar as Criaturas Para Encontrar o Criador

1. Alma - Senhor, eu necessito de mais graça para estabelecer-me em tal estado que nenhuma criatura possa embaraçar-me. Enquanto eu tiver inclinação para alguma coisa terrena, não poderei livremente voar para Vós. Este é o grande voo que desejava o Profeta, quando dizia: "Quem me dera asas como a pomba para poder voar e descansa."
Que coisa mais descansada que a intenção pura, e que coisa mais livre que o coração que nada deseja do mundo? É necessário, pois, que a alma se eleve acima de todas as criaturas e se separe de si mesma, arrebatada e fora de si, compreendendo que Vós sois o Criador do Universo e que nenhuma semelhança tendes com as criaturas, no que elas têm de inferior por se eximirem das Vossas leis.
A alma, não estando assim desembaraçada, não poderá livremente aplicar-se nos objectos celestiais.
O motivo pelo qual existem hoje tão poucas pessoas contemplativas decorre do facto de que poucos sabem separar-se do amor das criatuas e dos bens transitórios.

2. Não se pode chegar a este estado sem uma grande graça, que eleve a alma e a transporte acima de si mesma. O homem que não possui esta elevação do espírito e que não vive desapegado do amor das criaturas, para unir-se perfeitamente a Deus, nenhuma atenção merece pelas luzes e raras qualidades que tiver.
Quem não ama somente o único, imenso e eterno Bem, permanecerá muito tempo no seu estado imperfeito.
Tudo o que não é Deus é nada, e por nada se deve julgar.
Há uma grandíssima diferença entre a ciência de um homem de piedade e a de um hábil teólogo. A luz que vem do Céu, pela influência da graça, é muito mais nobre do que aquela que se adquire pelo trabalho e pelo esforço do espírito humano.

3. Muitos há que desejam contemplação, mas que não trabalham por adquiri-la. O que os impede de chegarem a um estado tão feliz é o contemplarem as coisas sensíveis, tratando pouco de mortificar o espírito e o coração. Não sei que espírito nos conduz, nem tão-pouco o que pretendemos, dizendo-nos espirituais e empregando tanto trabalho e cuidado em tudo o que é vil e transitório, ao mesmo passo que raramente recolhemos os nossos sentidos para meditar sobre o nosso mundo interior.

4. Grande desgraça! Ainda não temos entrado bem em nosso coração, e logo saímos dele para tratarmos das coisas externas, sem fazer um rigoroso exame das nossas obras.
Não atentamos para onde caminham os nossos afectos nem choramos, vendo que tudo em nós é impuro.
A Escritura diz que, havendo toda a carne corrompido o seu caminho, por esta causa inundou o dilúvio toda a Terra. Quando, pois, os nossos afectos se corrompem, logicamente se corrompem as acções que se lhe seguem, o que denota falta de virtude interior. Do coração puro é que procede o fruto da vida pura.

5. Olha-se atentamente a tudo o que o homem faz; mas não se olha do mesmo modo se é sólida a virtude e pura a intenção com que as faz. Examina-se com cuidado se é forte, rico, formoso, hábil nas artes, se escreve ou conta perfeitamente, ou se é bom oficial; mas não se faz conta de saber se é pobre de espírito, sofredor, manso, devoto e espiritual.
A natureza não considera senão o exterior do homem; porém, a graça dirige-se ao seu interior. A natureza engana-se muitas vezes; mas a graça espera em Deus para não ser enganada.

16/03/15

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCXLVI


2ª VIDEOCONFERÊNCIA ASCENDENS - Notícias


Caros leitores,

tal como tinha sido anunciado, decorreu no dia 20 de Fevereiro a 1ª Videoconferência ASCENDENS.

A apreciação global foi boa, a contar também pela opinião de todos os participantes.
As nossas videoconferências ainda são feitas em modo privado, o que trouxe alguns problemas de ligação; deste vez, com algumas melhorias feitas, esperamos não deixar de fora a nenhum dos convidados.

O ambiente da palestra foi bom, houve depois questões e opiniões, e assim aconteceu que o tempo previsto para a conferência ficou sobejamente prolongado e, sem qualquer desagrado.

A surpresa maior neste acontecimento experimental foi que, sendo a conferência dividida em duas partes, o primeiro "capítulo" da conferência acabou por ocupar todo o tempo e empurrar o segundo para uma próxima conferência. Contudo, teme-se agora que esta segunda parte tenha de ser também ela repartida por outras conferências. A ver vamos.

Surge assim a 2ª videoconferência ASCENDENS, onde os temas principais irão ser tratados (a matéria tratada na 1ª videoconferência foi apenas introdutória).

Portanto, voltamos a apresentar a mesma temática e intenção apresentadas no anúncio da videoconferência anterior:

Tema da conferência: Questões fundamentais entre a Civilização Lusa e o Brasil. (Pretende-se apenas identificar e levantar questões centrais.)
Objectivos: Diminuir o efeito das campanhas liberais, maçónicas, e modernistas (e outras) contra a relação do Brasil com a Civilização Lusa.

Pretende-se ainda que o número de assistentes na palestra seja pequeno, contudo vamos alargar um pouquinho o número de convidados. Os que não receberem convite, podem, desde já, manifestar o seu interesse de assistir à 2ª Videoconferência ASCENDENS, bastando que nos comuniquem através do mail ascendensblog@gmail.com.

Depois de uma breve sondagem, o dia e a hora da conferência será anunciado a cada um dos convidados.

13/03/15

SENHORES E ESCRAVOS NOS ENGENHOS PORTUGUESES DO Séc. XVII (I)

(Fonte: Cultura e Opulência do Brasil...; André João Antonil. LISBOA, 1711)


CAPÍTULO IX
Como se há-de haver o Senhor do Engenho com seus Escravos

Os Escravos são as mãos, e os pés do Senhor do Engenho; porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar, e aumentar a Fazenda, nem ter Engelho corrente. E do modo, com que se há-de com eles, depende tê-los bons ou maus para o serviço. Por isso é necessário comprar cada ano algumas Peças, e repartí-las pelos Partidos, Roças, Serrarias, e Barcas. E porque comummente são de Nações diversas, e uns mais boçais que outros, e de forças muito diferentes; se há-de fazer a repartição com reparo, e escolha, e não às cegas. Os que vêm para o Brasil, são Ardas, Minas, Congos, de S. Tomé, de Angola, de Cabo Verde, e alguns de Moçambique, que vêm nas Naus da Índia. Os Andas e os Minas são robustos. Os de Cabo Verde e S. Tomé são mais fracos. Os de Angola criados em Luanda são mais capazes de aprender ofícios mecânicos que os das outras partes ja nomeadas. Entre os Congos há também alguns bastante industriosos, e bons, não somente para o serviço da Cana, mas para os Ofícios, e para o maneio da casa.

Uns chegam ao Brasil muito rudes, e muito fechados, e assim continuam por toda a vida. Outros em poucos anos saem ladinos, e espertos, assim para aprenderem a Doutrina Cristã, como para buscarem modo de passar a vida, e para se lhes encomendar um barco, para levarem recados, e fazerem qualquer diligência das que costumam ordinariamente ocorrer. As Mulheres usam de foice, e de enxada, como os Homens: porém nos Matos, somente os Escravos usam de machado. Dos ladinos se faz escolha para Caldeireiros, Carapinas, Calafates, Tacheiros, Barqueiros, e Marinheiros; porque estas ocupações querem maior advertência. Os que desde novatos se meteram em alguma Fazenda, não é bem que se tirem dela contra sua vontade; porque facilmente se amofinam, e morrem. Os que nasceram no Brasil, ou se criaram desde pequenos em casa dos Brancos, afeiçoando-se a seus Senhores, dão boa conta de si; e levando bom cativeiro, qualquer deles vale por quatro boçais.

Melhores ainda são para qualquer ofício do Mulatos: porém muitos deles usando mal do favor dos Senhores, são soberbos, e viciosos, e prezam-se de valentes, aparelhados para qualquer desaforo. E contudo eles, e elas da mesma cor, ordinariamente levam no Brasil a melhor sorte; porque com aquela parte de sangue de Brancos, que têm nas veias, e talvez dos seus mesmos Senhores, os enfeitiçam de tal maneira, que alguns tudo lhes sofrem, tudo lhes perdoam; e parece, que se não atrevem a repreendê-los; antes todos os mimos são seus. E não é fácil decidir coisa, se nesta parte são mais remissos os Senhores; pois não falta entre eles, e elas, quem se deixe governar de Mulatos, que não são os melhores: para que se verifique o proverbio, que diz: Que o Brasil é Inferno dos Negros, Purgatório dos Brancos, e Paraíso dos Mulatos e das Mulatas; salvo quando por alguma desconfiança, ou crime, o amor se muda em ódio, e sai armado de todo o género de crueldade, e rigor. Bom é valer-se de suas habilidades, quando quiserem usar bem delas, como assim o fazem alguns; porém não se lhes há-de dar tanto a mão, que peguem no braço; e de Escravos se façam Senhores. Forrar Mulatas desinquietas, é perdição manifesta; porque o dinheiro, que dão para se livrarem, raras vezes sai de outras minas, que dos seus mesmos corpos, com repetidos pecados: e depois de forras, continuam a ser ruína de muitos.

Opõem-se alguns Senhores aos casamentos dos Escravos e Escravas; e não somente não fazem caso dos seus amancebamentos, mas quase claramente os consentem, e lhes dão princípio, dizendo: Tu Fulano a seu tempo casarás com Fulana; e daí por diante os deixam conversar entre si, como se já fossem recebidos por Marido e Mulher: e dizem que os não casam, porque temem que enfadando-se do casamento, se matem logo com peçonha, ou com feitiços; não faltando entre eles Mestres insignes nesta Arte. Outros, depois de estarem casados os Escravos, os apartam de tal sorte por anos, que ficam como se fossem solteiros: o que não podem fazer em consciência. Outros são tão pouco cuidadosos do que pertence à salvação dos seus Escravos, que os têm por muito tempo no Canavial, ou no Engelho sem Baptismo: e dos batizados muitos não sabem, quem é o seu Criador, o que hão-de crer, que lei hão-de guardar, como se hão-de encomendar a Deus, a que vão os Cristãos à Igreja, porque adoram a Hóstia consagrada, que vão a dizer ao Padre e ajoelham ou lhe falam aos ouvidos; se têm alma e se ela morre ou para onde vai quando se aparta do corpo. E sabendo logo os mais boçais, como se chama, e quem é seu Senhor; quantas covas de Mandioca hão-de plantar cada dia; quantas mãos de Cana hão-de cortar; quantas medidas de lenha hão-de dar; e outras coisas pertencentes aos serviço ordinário de seu Senhor: e sabendo também pedir-lhe perdão, quando erram, e encomendar-se-lhe, para que os não castigue, como prometimento da emenda, dizem os Senhores, que estes não são capazes de aprender a confessar-se, nem de pedir perdão a Deus, nem de rezar pelas contas, nem de saber os dez Mandamentos: tudo por falta de ensino, e por não considerarem a contra grande, que de tudo isto hão-de dar a Deus, pois (como diz S. Paulo) sendo Cristãos, e descuidando-se dos seus Escravos, se hão com eles pior, do que se fossem Infiéis. Nem os obrigam os dias Santos a ouvir Missa; antes talvez os ocupam de sorte, que não têm lugar para isso; nem encomendam ao Capelão doutriná-los, dando-lhe por este trabalho, se for necessário, maiores estipêdio.

(a continuar 25)

CURIOSIDADES - DA DEFESA DE PORTUGAL

Hoje comecei a ler "Memoria Da Disposição das Armas Castelhanas, Que Injustamente Invadiram o Reino de Portugal no Anno de 1589. Despertadora do valor Portuguez para não temer; da prudencia, e conselho para ordenar o presente; da preenção, e cautela para dispôr o futuro, ..." (do Pe. Fr. Manuel Homem), obra publicada em 1763. Achei tão curioso o texto introdutório, chamado "A Quem Ler", que o ou transcrever:

"Também (benévolo Leitor) os ameaçados comem pão, e nem sempre se logram os intentos da vingança. Uma vez, o Imperador Carlos V empenhou-se tanto contra Francisco Rei de França, que, com indignação grande, prometeu que lhe havia de tomar o Reino. Ao sabê-lo, disse o Francês: Não prometa Carlos, o que não pode cumprir, que para tirara um homem morto de sua casa às vezes não bastam dois, quanto mais um vivo com a espada na mão, defendendo sua vida, a mulher, filho, fazenda, e a liberdade.

Se o inimigo nos buscar, lembra-mo-nos que é obrigação da alma, e da honra defender os penhores referidos. Costumado está vir a Portugal com as mãos nas barbas, mas voltando com elas na cabeça. Nesta Memória se mostra por onde nos sujeitaram, que foi falta de união nos ânimos, e nas vontades. Conheçamos os lanços de clemência, que com os Castelhanos usaram, são tiros fraudulentos, que nos fazem, e prévia disposição de seus enganos. E se no infausto ano de 1580 tão cruelmente nos trataram, sem termos sombra de culpa, (antes obrigação precisa de sustentar nosso Direito, e liberdade) hoje, que nos publicam traidores rebelados, (mas dizem mal) que mortes, que violências, que destruições, que tiranias não executaram nos Portugueses? Abrir os olhos importa, e a união de todos, que com ela se conservam os Impérios, e sem ela tudo perece, e arruína, diz a Verdade Eterna: Omne Regnum in se divisum desolabitur, etc.

O zêlo, e natural afecto da conservação de nossa liberdade nos obrigaram fazermos nestes escritos presente o cuidado, com que este inimigo nos buscou da outra vez, e o nosso grande descuido, com que nos deixámos achar, sem nos armar, e defender. E se então a ambição, e cobiça de uma herança mal entendida o fez contra Portugal tão apostado; hoje, que o arguem, e a criminação (mas falsamente) com espécie de traição, e esbulho, quem pode duvidar que lance não das armas com maior indignação, e fúria? O escudo, e o reparo dela é toda a necessária fortificação, assim na terra, como no mar. Esta segunda, que nos falta, deve efectivamente obrara a lembrança das Armadas contínuas deste Reino, as quais a este fim numeramos, esperando que possa mais conosco a necessidade, e aperto para as refazer, do que pode com os nossos Portugueses antigos a conveniência, e opinião para as conservar. Advertimos o conveniente, e necessário, para que se obre, e se no arbitrar houver erro, esperamos que o faça venial o fiel ânimo, com que escrevemos."

Trata-se de uma obra que está altamente aprovada pelas autoridades régias e eclesiásticas.

BATALHA DE TOLOSA - SINAL DA CRUZ

Brasão dos Almada
"... na guerra de Tolosa [batalha das Naas de Tolosa - 16 de Julho de 1212] apareceu o sinal da Cruz no céu. Daqui tomou a Cruz floreada por armas o Conde D. Rodrigo Frojaz, e os Almadas, Albergarias, e Farinhas. Autorizaram-se estas famílias em tomar por armas a Cruz sagrada;" (Tractado Panegyrico Em Louvor da Villa de Barcelos ... . Pe. Fr. Pedro de Poiares. Coimbra 1672)

Brasão dos Albergaria

Brasão dos Farinha

10/03/15

Notícia ASCENDENS: Interrupção da publicação CARAMUEL


Caros leitores,

a publicação da obra de Sousa Macedo, a qual refuta os erros difundidos por Caramuel, deixará de ser publicada no blog ASCENDENS.

Escrita em castelhano antigo, tal obra requer grande "malabarismo" na tradução, o que nem sempre é possível sem alguma perca de informação. Assim, aconteceu que, a respeito da primeira e única publicação aqui feita, alguns leitores sentiram dificuldade na leitura.

O original em Castelhano antigo não é acessível ao público em geral, mesmo aos conhecedores dessa língua. A tradução da obra revela-se quase tão acessível quanto o original. Mas, porque se trata de uma obra muito oportuna na defesa da nossa pátria, e contra as incensáveis tentativas e má-língua e da inveja, pondero resumir esta obra, ou aplicá-la num outro contexto.

Amar a Pátria e honrá-la por bons meios, é uma extensão do mandamento "honrar pai e mãe, e outros legítimos superiores".

09/03/15

CARAMUEL DESILUDIDO - Prólogo (I)

Em defesa da honra de Portugal:

JUAN CARAMUEL
LOBKOWITZ

Religioso de La Orden de Cister Abbad de Melrosa, etc.

CONVENCIDO en su libro intitulado, Philippiis prudens Caroli V Imper. filius, Lusitaniae, etc. Legitimum Rex demonstratum. Impresso en el año de 1639.

Y
En su respuesta al manifiesto del Reyno de Portugal, Impressa en este año 1642

DEDICADO

A Don Anton. d'Almada embaixador extraordinário del sereníssimo Principe DON JUAN Rei de Portugal, al serenissimo Principe CARLOS Rey de la Gran Bretaña.

POR

El Dotor ANTÓNIO DE SOUSA DE MACEDO, del supremo Senado de Justicia de su Magestad de Portugal; y su Residente por la Embaxada ordinaria junto a la persona de su Magestad de la Gran Bretaña.



EN LONDRES
Impresso, por Ric. Herne, An. Dom. 1642





A
Dom Antão D'Almada,

Embaixador extraordinário DelRei nosso Senhor em Inglaterra.

A Liberdade, que a pátria deve a V. Excel. na restituição de seu legítimo Rei, fica mais gloriosa justificada pela boca de seus inimigos; o mais pertinaz foi até agora João Caramuel; mas, já convencido da verdade, vem confessar seu erro diante de V. Excel.ª; para que pois V. Excel.ª que deu tão feliz princípio, e tão memorável execução àquela empresa, lhe ponha também este último esmolete, e lhe chamemos obra a toda a sua. Ele se convenceu a si mesmo, como com evidência mostra o papel presente; a mim se deve só a vontade com que desejo fazer avantajados serviços a S. Majestade dedicar maiores trabalhos a v. Excel.ª a qual espero empregar em outras ocasiões, pois nesta me faltou matéria, para satisfazer a minha obrigação. Em Londres, etc.

António de Sousa
de Macedo.


Prólogo

Num livro que chegou ás minhas mãos, intitulado "Respuesta al manifiesto del Reyno de Portugal; por D. Juam Caramuel Lobkowitz, etc.", é visto que seu Autor se queixa em geral dos Portugueses, e em particular de mim, porque não respondíamos a outro livro que tinha impressso no ano de 1639, ao qual chamou "Philippus prudens Lusitaniae, etc., Legitimus Rex demonstratus." Parece-me que esta fama ganha do Maquiavélico aconteceu pelos muitos que escreveram contra ele. Contudo, por não parecer soberba o desprezá-lo, e porque procuro sempre atalhar as queixas que de mim possa haver, me dispus neste breve tratado a responder a ambos, os referidos de Caramuel (que contem tudo a mesma coisa), e porque neles há pontos cuja censura no tinha lugar nos discursos seguintes, e quero dizer tudo o que reparo para dar inteira satisfação à sua queixa, os haverei de referir então aqui.

Não me detenho em censurar a maneira como repartiu o seu Philippe, uma vez por títulos, outra por questões; ou por §§; seja por disputas, intercalando artigos, separando objecções, fazendo notas, dividindo conclusões; e finalmente recompilando naquele livro todas as maneiras de escrever tudo o que se achar no mundo, o que se torna um labirinto tão intrincado que não há fio que possa servir de guia.

Na divisão no fútil Livro I, tanto num e noutro tratado, que passa em notícias gerais os Reis Portugueses, não necessárias para o intento.

Deixo o extraordinário de referir sempre os Fernandos por, Ferrandos, que, se em Latim pode passar, mas no romance é uma impertinência.

Pecados veniais são aqueles e outros, que à vista dos mortais quase não parecem; vejamos estes.

Inadvertência escusada foi ter escrito o seu Philippe para justificar a ocupação da Coroa que o Rei Católico possuía há sessenta anos; quando tinha sido bem mais útil um livro escrito com advertências para o bem governar. E forma-se a culpa da ocasião que o moveu a escrever, querendo persuadir de que o seu Rei tinha direito contra aqueles que temia que murmurassem: que, confiada a Justiça, estes temores não podem ser imaginados senão pelo desespero de tiranos, e usurpadores, que têm sempre diante dos olhos o inoportuno objecto do seu crime, e temem tudo aquilo que merecem (como elegantemente notou o senhor Lesfargues no livro I da Vida Del Grande Alexandro). E deste modo fez tirano e usurpador ao seu Rei; o qual nem devia pensar.

Nesta resposta (pág. 17) comentando o manifesto de Portugal, argui que nosso sereníssimo Rei retirou o tribunal da Santa Inquisição dos seus reinos (se é assim, ou não, não o direi agora); vá Portugal prégar as opiniões que ele escreveu nos seus livros a respeito da Religião, e logo verá se ela existe, ou não. Só advirto que nisto segue a má razão de estado dos ministros Castelhanos que, desesperados de outro caminho, solicitam o ódio dos Católicos contra Portugal, publicando por várias partes, e particularmente na Alemanha entre ignorantes que deixámos a santa Fé da Igreja Romana; néscio que (sem que seus falseadores possam pôr uma pequena mácula no esplendor da religião Portuguesa) acrescentam a ocasião que teve Bocalino en la pietra del parangone (Cap. 4) para dizer da Monarquia Espanhola: "Avanza ogni altra reyna, etc presente, etc. passata nel saper con il manto di doppio brancato ricoprir ogni suo ancorche diabolico interesse.", e no capítulo 3 "Gli uomini tutti vennero in chiara cognitione gli Spagnuoli essere stati primi auttori di quell incendio Francese, che con speciocissimi pretesti di religione, etc. di caritá al mondo tutto s'eran Sforzati dare ad intendere e di voler ismorzare.". E aumentam os motivos com que H. de Rohan, no livro de l'interest des Princes, et Estats discurso 1, referindo as traças de que usa o interesse de Espanha, escreve "La primiere est foundee sur la religion, comme celle qui par consdience fait entreprendre toutes choses aux peuples, il faut tesmoigner um grand zele á la Catholique, a fin de servir d'elle en ses deffeins". E justificam as causas com que o Autor de Catalonia interum ad Lilia perfugiens, § o beatior Fernande, exclama que os Castelhanos por próprio interesse de estado atropelam divino, e humano, simulato religionis conservandae, aut propagandae pretextu; fovendo tamen haerosticos in Francia, utendo Anglis in schismatis ipsius exordio ad Galliae imperium Christianissimum destruendum, et permittendo ut interiu Lutherani in Germania publice praedicarent; unde te, sucessores que tuos Catholici Regis nomen, non propter Religionem, sed ad regni uneversalis ambitionem assumpsisse multi suspicantur. Dixit quae apposite historiae scriptor aliquis instructissimus, regna quaedam ultimo saeculo haeresibus fuisse infecta, sed Hispaniam esse pessima imperii corrumptam ratione, ejusque salutem multo difficilior em videri". Oh, já não néscios, senão maliciosos ministros, que tão infamemente dais ocasião a que maus afectos se atrevam à Cristandade incorruptível de toda a Espanha! Ladrem os apaixonados e estrangeiros quanto queiram, que o Católico zelo dos Reis Castelhanos é Olimpo superior a tais tempestades; e só fica denegrido quem dá causa a calúnias semelhantes.

Miseravelmente erra nas histórias portugueses mais notáveis. No seu Philippe em um dos proémios que ele intitulou "Occasio scribendi: versic. Ioannes tertius", diz: Ioannes 3. Lusitanicas quinas (sic ipsi nominant) septem Castellis circum cinxit, Sacramenta Ecclesiae Catholicae singnificantibus. Sendo coisa tão sabida que o Rei D. Afonso III colocou os Castelos trezentos anos antes pelo Reino do Algarve; e assim o mesmo Caramuel olvidado de si, nas esfigies que ali traz dos Reis Portugueses, pinta o próprio Rei D. Afonso, e depois à Rainha Santa Isabel; e ao Rei D. João II com os Castelos, nos escudos das suas armas.

No mesmo Philippe (livro 1), título "Fernandus I", escreve: "Infans Joanes magistre Avi sensium caliditate Reginae Leonorae persuasus uxorem suam esse adulteram leviter credidit, inque Comimbricendi vitate violenta manus interemit"; Sendo que o Infante que matou a sua mulher não foi o Mestre de Avis, senão seu irmão que também se chamava João filho do Rei D. Pedro, e de D. Inês de Castro; como disse o mesmo Caramuel encontrando-se (livro 3, disp. um q. 2 art. i n12) ibi: "ex pulcherrima Agnete succepit Alfonsum qui puer obiit; Ioannem de Portugal qui duxit D. Mariam Tellez, Reginae Leonorae sororem, hujus Regionae consilio Ioannes occidit Mariam." E repete-o (livro 3 disp. um q. 3 n.19) na segunda impressão e emendara esta contrariedade.

No mesmo livro I (título Joannes I: versic, fuerat) diz do Rei D. João I que, erat Diaconus, escutou que o Sumo Pontífice o tinha dispensado para casar (pelo voto que tinha, como os outros Cavaleiros de ordens militares naquele tempo, por ser Mestre de Avis; ) e pensa que é porque tinha ordens de Evangelho.

No mesmo tratado, no livro V, in procem (§ 1 n 3), diz: habuit etiam Emanuel Infantem Henricum Cistersiensem monarchum S. R. E. Cardinalem, etc.. E outra vez no § 2 in rincip. começa assim: Superstite Monacho Rege; nempe Henrico. O pobre religioso escutou que o Rei D. Henrique tinha sido Abade de Alcobaça, no mosteiro de Cister, e pensou que aquela Abadia era como a sua, de Melrosa; e segundo isso dirá também que era Monge Cisterciense o Cardeal Infante D. Fernando porque foi também Abade de Alcobaça.

Mas como pode saber o que passou em Portugal noutro tempo quem ignora o que hoje passa? Na resposta ao manifesto no começo, al que Leyere, por fingir que muita nobreza de Portugal sustentou nesta ocasião as partes do Rei de Castela, em companhia de poucos nomes que foram infiéis à sua pátria (que é impossível faltar alguns em caso semelhante) calúnia outra sem-razão, e nomeia muitos de qualidade muito diferente confundindo tudo com ignorância notável.

(continuação, II parte)

07/03/15

SERMÃO SOBRE O ESPÍRITO DA SEITA DOMINANTE NO Séc. XIX (VI)

(continuação da V parte)

Padre José Agostinho de Macedo, o odiado dos liberais
Antes que adiante o meu discurso, e chegue com ele a pintar-vos os terríveis efeitos deste espírito de partido, não só pelo que pertence à Religião, mas pelo que pertencem à sociedade, deixai que eu vos diga que a maledicência assim como é a arma mais fácil, assim também é a mais comum do espírito de partido. Nem todos têm astúcia, nem todos têm cabedais, nem todos têm amizades poderosas com que façam guerra ao bem público, e sustentem uma opinião, ou persigam a mesma Pátria, que lhes deu o preço; mas todos têm uma língua com que rebatam um mérito, com que obscureçam um nome; e os mais imperitos a costumam ter sempre mais atrevida que os outros, e sem se ocuparem em discursos sobre coisas particulares, que pedem entendimento, e perícia, dirão uma louca malignidade. E tão poucas tenho eu ouvido? Dirão, para irem por diante com o partido, a rebatida fase do concelho dos fatuos nos doirados domicílios da crápula, que nós devemos sucumbir, porque o monstro recruta em toda a Europa, isto que é um perfeitísssimo delírio é o sinal menos equívoco do espírito de partido. Do Redentor do Mundo disseram estolidamente seus inimigos em Jerusalém: Nunquid potest aliquid a Nazareth boni esse? Eis aqui uma maneira bem compendiosa de confutar a santidade, a doutrina, e os milagres do Messias, dizer, que de Nazareth, donde ela era, não podia vir coisa boa. Pois os habitantes de Nazareth não são homens? Não têm entendimento? Não professam também a mesma lei santa, que os de Jerusalém professavam? Isto é verdade, mas de Nazareth não pode vir nem bom zêlo nem boa doutrina, nem causa que boa seja. Dissessem ao menos que um Nazareno, ou dois Nazarenos tinham podido errar como errariam outros tantos, e mais em Jerusalém. Mas dizer que todos! Constituir a todos na absoluta impossibilidade de obrar bem, de pensar bem, de falar bem! Isto que parece um portento de cegueira, e de inveja, tem sido sempre conhecido por um efeito naturalíssimo do espírito de partido. Mas qual é a intenção, ou o fim desta maneira de falar? O seu fim nem é, nem pode ser outro mais que denegrir, e abater a fama alheia, e fazer triunfar a obra da iniquidade. Uns murmuram no Mundo por dicacidade, outros por passatempo para que a conversão não seja muda, nem insípida a companhia; mas nenhum deste motivos obriga a falar, e discorrer esses inimigos do público sossêgo, esses fatais anarquistas, esses voluntários do Tirano, não querem mais que a propagação, e a dilatação do sistema destruidor, que para ser aborrecido basta unicamente ser conhecido, e contemplado. Se vós quiserdes, sem paixão, lançar um instante os olhos sobre seus efeitos, então vós podereis formar uma adequada ideia de sua infernal enormidade.

Considerai a Europa no estado, na situação, na época em que a quiserdes considerar, vós não descobrireis nela um quadro tão horroroso como agora se vos apresenta. Considerai-a naquela já de nós remota, e apartada época, em que se começou a estender, e engrossar o espantoso Império Romano, vós vereis a Germânia quasi vencida, as Gálias avassaladas, a Hespanha depois de pertinacíssimos combates de duzentos anos submetida ao jugo; passai com a imaginação o Adriático, vede o Epiro subjugado, a Grécia dividida, a Macedónia, a Tracia agrilhoadas, a Síria, e seus vastos Reinos assoberbados pelas Águias, tiranizados por orgulhosos Procônsules. Vede Cresso acometendo a Arménia, vede-o infeliz, mas destruidor entre os Partos. Vede Pompeu levando no coração a República, e a conquista, encadeando uma a uma as Ilhas do Mediterrãneo, arvorando as Águias até à vertentes, desfechando raios na aterrada Mesopotânia, e deixando por toda a parte cadeias, e pavor. Retrocedei um pouco com a imaginação, e vede na Mauritânia Tingitana os dois Cispiões, e após eles o ferocíssimo Mário conservando na condição plebeia o coração de César, e a magnanimidade de Alexandre, não deixando uma pedra sobre outra pedra nos levantados muros de Cartago. Vede antes dele a mesma Itália assolada pelas bárbaras Legiões Cartaginesas, comprando os Romanos uma só victória pela ruína de tantas Cidades, pelos lutos de tantas famílias, pela morte de seus ilustres Cônsules.... basta. Considerais a mesma Europa debaixo da dominação Romana no quarto, e quinto século da era Cristã, já dividido o vacilante Império, e oprimido da sua mesma grandeza, e com suas intestinas discórdias, abrindo as portas à aluvião dos Bárbaros, que do norte, e do levante da mesma Europa rebentaram como vulcões, e correram a vingar as não esquecidas, posto que antigas injúrias, que á sua natural liberdade tinha feito a soberba Romana. Vede aqueles densíssimos exames de Gépidas, de Seítas, de Unos, de Hérulos, de Vândalos, de Godos, derramando-se como impetuosas torrente das montanhas da Escandinávia, por onde quer que vem ponto os pés, não deixarem outros vestígios mais do que estragos, e cinzas. Já despedaçam o Império usurpador, e de cada pedaço formam um Reino, querendo a reguladora Província, que onde tinham chegado com o voo as Romanas Águias, aí chegassem também os vingadores dos ultrajes, e afrontas, que os conquistadores do Tibre tinham feito à Natureza, e à sociedade humana. Penetra, e transpõe os mares Genserico, e naquela mesma África, onde tantos troféus tinha levantado a vaidade Romana, levanta sobre suas ruínas um novo, e mais bárbaro Império. Considerai a mesma Europa no começo do oitavo século, e vede a mais espantosa vicissitude nos acontecimentos humanos. Já se haviam amaciado os costumes dos bárbaros; Teodorico, e Amalasunta fizeram leis, que ainda admiramos, e o celeste podre do Cristianismo desarmou a fúria Gótica, e viviam as Nações tranquilas: eis das montanhas, e dos areais da Arábia com a nova seita então levantada correm legiões de novos conquistadores, alaga-se de sangue a terra, e os mais florescentes Impérios da Europa gemeram pisados, e destruídos pela ferocidade dos Sarracenos. Eis os homens sujeitos a novas leis, e a novos dominadores, e passam os séculos sem mudarem de grilhões, e a terra não oferece outro espetáculo mais que o da miséria, e da escravidão. Pois nós podemos chamar a tantas catástrofes os séculos da felicidade, quando as compararmos com o quadro das calamidades, que nos oferece a Europa infelicíssima há vinte anos. Os estragos, que ela sofre, não parecem ser obra das mãos dos homens, mas dos Demónios. Vede a que se reduziu a majestade, grandeza, e constituição do Império Germãnico. Vede como está o poder guerreiro da guerreira Prússia; a independência da Polónia; a majestosa soberania da Holanda; a divisão tranquila, e equilibrada da Itália; o poder pacífico de Roma; a representação de Nápoles, a política, e diutura existente de Veneza, a confederação fraternal da Suíça, a liberdade do Piemonte, o majestoso, e venerável colosso da Monarquia Espanhola, a conservação triunfante de Portugal; vede tudo, e dizei-me, se pode outra, ou mais medonha, e espantosa a imagem, e representação do caos. Horrorizam-vos tantas cabeças decepadas, tanto sangue vertido, tantas lágrimas derramadas, tantos lutos consoantes, tantas prescrições sanguinários, tantos cativeiros injustíssimos, pasmais de ver a natureza ofendida, a liberdade encadeada, a Religião perseguida, os homens transformados em feras indómitas, e carniceiros Abutres? Pasmais de ver cadeias mais grossas, grilhões mais pesados, escravidão mais insuportável do que a que vira, e sentira a mesma Europa nos séculos mais bárbaros? Assombra-vos ver que homens, que se diziam fiéis, e Cristianíssimos, excedam no orgulho os Romanos, na ferocidade os Seítas, nas destruições os Vândalos, na desumanidade os Unos, na brutalidade sensual os Hérulos, no fanatismo revolucionários os Sarracenos, na conducta, nas blasfémias, nas profanações, nos desacatos, nos insultos feitos aos mortos, e às mesmas sombras dos sepulcros os Demónios? Pasmais de ver Canibais na Europa mais sedentos de sangue, mais vagabundos, mais carnívoros, mais incultos? Admirais-vos ver uma Nova Nação de Caraibas, sem pátria, sem lares, sem relações naturais, e humanas? Transportais-vos de horror vendo não nas bordas do Amazonas, mas nas margens do Tejo uma horda de Topinambás estúpidos, brutos, insensíveis, sem ideias da moralidade, cometendo assassinatos sem remorsos, roubos sem turvação, incêndios sem emoção. Tudo isto existe, tudo isto nós vimos, e sentimos já três vezes. E se vos não horrorisais muito, e quereis ver tudo isto junto em um só quadro, eu vo-lo mostro. Vêde, e observais bem de perto um apaixonado dos Franceses; seria honrá-lo muito dizer que é um Antropófago; se Satanás se torna visível, eu não sem quem seja mais o seu retrato... Perdoai-me mais que não cabe em mim a dor de ver o abismo em que iam lançando a nossa Pátria, o nosso Rei, a nossa Religião... Perdoai-me, e pois já me cansaram, ou se me secaram os olhos de chorar, tenha o meu abafado coração um desafogo pela língua. Eu detestarei, eu ensinarei todos os séculos a detestar estes malvados. Há quatro anos não derramei ainda uma só lágrima, que suas ímpias mãos as não espremessem de meus olhos. E se estes espantosos efeitos vos assustam, fugi, Povos, fugi, fugi da sua causa, que é, e somente é o Espírito de Partido.

DISSE.

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXII)

(continuação da LXI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XXX 
Como Pedir o Socorro Divino e a Confiança de Recuperar a Graça 

1. Cristo - Filho, eu sou o Senhor que conforta as almas no dia da atribulação. Vem a mim quando te achares aflito. O que mais te impede de receberes as consolações celestes é o recorreres tarde à oração. Antes que ores deveras, procuras consolar-te recreando-te com divertimentos externos. Daqui vem que tudo te aproveita pouco, até que reconheças, por experiência, que eu sou quem livra dos perigos os que esperam de mim, e que fora de mim não há auxílio poderoso, nem conselho útil, nem remédio durável. Mas, recuperando um bom espírito, depois de aplacada a tempestade, reforça-te com a luz da minha misericórdia, entendendo que estou perto de ti para te estabelecer na tua primeira paz e para te encher de novas e abundantes graças.

2. Há porventura alguma coisa que me seja dificultosa? Acaso sou semelhante aos que prometem assistir e não assistem? Tem firmeza e perseverança. Sê homem de grande ânimo e valor, e a consolação te virá a tempo. Espera, espera um pouco, e eu virei curar-te.
O que te aflige é uma tentação que passará; o que te atemoriza é um vão horror. Que ganhas, atormentando o espírito sobre futuros incertos, senão acrescentar tristezas sobre tristezas?
A cada dia basta o seu mal. É pensamento vão e inútil ir buscar no futuro motivos de tristeza ou de alegria, que talvez nem aconteçam.

3. Mas é um efeito da fragilidade humana deixar-se possuir dessas falsas imaginações e é sinal de fraqueza deixar-se o homem enganar tão facilmente pelas persuasões de seu inimigo.
O demónio não se embaraça, se os pensamentos que propõe à alma são ou não verdadeiros, contanto que eles sirvam para enganá-la. Para ele é indiferente enchê-las de um vão amor das coisas presentes, ou de uma vã apreensão das futuras. O que pretende é arruiná-la por um desses caminhos.
Que o teu coração não se perturbe nem tema. Crê em mim e confia na minha misericórdia.
Quando te julgas distante de mim, é quando, muitas vezes, estou mais perto de ti. Quando te parece que a tua perda é inevitável, então, muitas vezes, é tempo de adquirires mais merecimentos.
Não imagines que tudo está perdido quando te ocorrem aflições e males.
Não deves julgar o teu estado pela inquietação presente em que te achas, nem entregar-te, de modo algum, à aflição, de qualquer parte que ela venha, pondo-te em desespero.

4. Não te julgues inteiramente destituído do meu socorro, quando te aflijo por algum tempo, ou te privo da doçura das minhas consolações.
Para entrar no reino do Céu, é necessário passar por este caminho.
É sem dúvida mais útil a ti e a todos os que me servem ser exercitados na adversidade do que suceder-lhes tudo segundo os seus desejos.
Eu conheço a fundo os teus mais ocultos pensamentos e sei que muito convém à tua salvação que algumas vezes não sintas o gosto da minha graça.
Se tudo achasses fácil e sempre te sucedesse bem, era para temer que te enchesses de soberba e presumisses de ti o que não és na realidade.
Eu posso tirar o que dei e tornar a dá-lo quando quiser.

5. Tudo o que dou é meu, e é meu quando tiro a quem o tenho dado; porque de mim é que vem toda a dádiva excelente e todo o dom perfeito.
Se permito que te suceda algum mal ou alguma adversidade, não te entristeças nem percas o ânimo, porque posso aliviar-te depressa e mudar em alegria tudo o que te aflige.
Portando-me deste modo contigo, sou justo e mereço que me louvem todos os homens.

6.
Se julgas das coisas solidamente e as vês à luz da minha verdade, nunca deves entristecer-te ou desanimar-te com os trabalhos, mas antes alegrar-te e dar-me acção de graças.
A tua única alegria deveria estar em que eu te enviasse dores e te afligisse sem reservas. Eu disse aos meus amados discípulos: "Eu vos amo do mesmo modo que o Pai me amou." Entretanto, não os mandei gozar as delícias temporais, mas sustentar grandes combates, não usufruir as honras do mundo, mas sofrer os seus últimos desprezos; não viver na ociosidade, mas trabalhar de contínuo e oferecer-me a conversão do mundo como avultado fruto da sua caridade e da sua paciência.
Grava, filho meu, estas palavras no teu espírito e no teu coração.

06/03/15

ENTREVISTA A CASTELA (I)

alegoricamente: o Rei vai nú
O blogue ASCENDENS deslocou-se a Castela para lhe fazer uma entrevista, e dar assim a conhecer aos leitores quem é quem.

ASCENDENS - Boa tarde Senhora Dona Castela.
CASTELA - "La Católica". Boa tarde.
A. - As minhas desculpas, Dona Castela La Católica. Há algumas repostas que os leitores de língua portuguesa gostariam de conhecer. Ao entrarmos nestas terras duvidámos se tínhamos vindo a Espanha, ou a Castela. O que é Espanha!?
C. - Espanha é tudo o que eu vejo.
A. - Não será exagero!?
C. - Há partes do mundo que não são Espanha, mas Deus nos abençoou, deu-nos as parte vantajosas do planeta.
A. - Mas Portugal tem um território muito bom, a todos os níveis!
C. - Pois... então é de Espanha!
A. - Mas, logo com o primeiro Rei do Reino de Portugal houve reconhecimento da Santa Sé por Bula papal dada para esse efeito! Logo, Portugal foi reconhecido desde então como Reino, cujo Rei e Senhor era D. Afonso Henriques! Portanto ... Portugal não é vosso!
C. - Uhmm... Então Portugal não é bom território, tem muitos ladrões e rebeldes às nossas leis, os portugueses são meio judeus! Viva España!
A. - Vamos ver se entendi: o que é bom é vosso, o que é bom mas não pode ser vosso, é mau...
C. - É que Deus nos elegeu sobre todas os outros Reinos. Quando Nosso Senhor morreu, morreu com a cabeça virada para Espanha! Viva España!
A. - Bem ... mas para que a Santa Cabeça tivesse ficado voltada apenas para Espanha, Nosso Senhor teria ido morrer ao sul do Egpito (algo assim), segundo nos mostram os bons mapas do séc. XXI!
C. - É que somos um Povo muito abençoado, temos uma essência que o mostra; Deus nos criou assim!
A. - E essa essência é assim tão evidente que a possamos ver, ou é uma interpretação vossa feita no séc. XIX, e acalorada na primeira metade do séc. XX?
C. - Se refere à "Hispanidad"!?
A. - Sim... mas esta questão é melhor lá mais adiante, talvez. Evidentemente que os Reinos católicos têm uma essência, mas onde estão para vós as evidências da essência de Castela, ou Espanha, ou .... sei lá...!?
C. - A Espanha é missionária, é LA CATÓLICA, ou seja, ela foi criada para representar a unidade de todos os povos católicos debaixo de um grande chefe espanhol. Ela é a que congrega e converte. A prova disso é que ela descobriu a América e foi a primeira evangelizadora dos descobrimentos.
A. - Quem deu o título de Los Católicos à coroa castelhana?
C. - Foi o Papa Alexandre VI...
A. - Espanhol!?
C. - Sim...
A. - Conhecido como o Papa mais corrupto da história, e que tinha realmente mulher e filhos a viverem tranquilamente no Palácio Apostólico?
C. - Bem ... sim... Mas, nisso há alguns exageros.
A. - Portanto, como sustenta a Espanha que o título dado é realmente coisa de Deus!? Não é isto sinal de Deus que mostrar que isso que é atribuído à Espanha é mais uma tendência vossa ao auto-favorecimento?
C. - O que prova que isso não é assim é que o título foi dado na ocasião da Digníssima e Santíssima Isabel de Castela, conhecida justamente por Isabel a Católica. Eis a prova, eis o sinal de Deus!
A. - Santíssima!? Então quem a canonizou!? A Igreja!?
C. - ... os espanhóis. A Igreja não a canonizou ainda porque o demónio não permite, temos muitos inimigos que invejam a nossa grandeza. A culpa é dos judeus, porque revoltados com a justa expulsão do nosso território, agora tentam todo o mal contra nós.
A. - E o vosso clero tem essa mesma versão dos factos!?
C. - Sim, claro, eles ensinam isto na formação aos sacerdotes, evidentemente de forma mais refinada e complementada com argumentos teológicos e canónicos.
A. - Mas não é estranho que Isabel a Católica tenha andado 400 anos apartada de uma beatificação, enquanto grandes santos espanhóis foram canonizados e elevados a Doutores da igreja!?
C. - Vocês portugueses sois muito judaizados! É nossa missão trazer-vos para junto de nós, e assim vos salvardes e abandonardes a vossa rebeldia e vício do roubo.
A. - Por falar em roubo... Porque motivo Isabel a Católica mandou ao Capitão Pedro de Covides assaltar os nossos territórios na Mina (África) com dezenas de embarcações castelhanas e algumas genovesas?
C. - Isso não pode ser verdade!... Blasfémias, heresias... Viva España!
A. - É que este acontecimento está registado nas Crónicas reais de Portugal ....
C. - Claro... DE PORTUGAL!
A. - ... e de Castela!...
C. - Ahmm!? Heresias... Meus pais e meus avós sempre me falaram de toda a história de Espanha, e nunca ouvi dizer nada disso. Portanto ...
A. - Portanto!? Eu também já ouvi dizer que os espanhóis são do tipo "como penso, assim existe". Esta também diz a respeito dos franceses "se penso, já o estou a fazer", e sobre os portugueses diz: "se penso.... uhmm interessante.. se penso... tenho que ir ver melhor como é que isso é, e como é que isso não é...!". Mas sim... as nossas, e as vossas crónicas, relatam esse facto, e as vossas ainda dão a desculpa de que o saque era apenas um amigável comércio com os NATIVOS dos nossos territórios, e queixam-se de que fomos tão malvados na nossa defesa que cortámos as mãos a alguns dos castelhanos, e os mandámos depois aos Reis de Castela. Isabel a Católica, não foi por vontade de Deus que mandou assaltar Portugal às escondidas, entrando em águas e território português protegidas por bulas papais...
C. - Cortar as mãos a castelhanos!? Isso é crueldade para punir o roubo!
A. - Como não foi o primeiro caso, embora tivesse sido o maior... Certamente Isabel a Católica pareceria menos cruel quando deu abrigo ao Conde de Penamacor que, depois deste atentar contra a vida do Rei D. João II de Portugal, fugiu para a Côrte da prima Isabel La Católica; e quando este Conde andou viajado pela Inglaterra, e disso foram informados os portugueses, o Rei D. João II escreveu ao Rei de Inglaterra para que mandasse prender o Conde por crime de lesa majestade. Lá foi o Conde de Penamacor encarcerado na Torre de Londres, até que, depois de meses, Isabel a Católica mandou ao Rei de Inglaterra uma pequena embaixada para pagar o resgate do Conde, o qual foi levado para Castela e colocado em liberdade. Muita generosidade...!
C. - Isso não é possível!
A. - Porque julga não ser!?
C. - Porque Roma deu o Título de Los Católicos a esses mesmos reis.
A. - Pois mas tinha dito "O que prova que isso não é assim é que o título foi dado na ocasião da Digníssima e Santíssima Isabel de Castela, conhecida justamente por Isabel a Católica. Eis a prova, eis o sinal de Deus!" .

(a continuar)

SERMÃO SOBRE O ESPÍRITO DA SEITA DOMINANTE NO Séc. XIX (V)

(continuação da IV parte)

É pouco ver, como temos visto, tantos indivíduos tocados deste mal, levando-o consigo por onde quer que dirigem os passos para inficionarem e corromperem os outros. Eu sei de algumas coisas, e o tenho escutado de outras, que seriam por caridade fraternal, e por união de vontades uma viva imagem do Paraíso, e nela não houvera penetrado o espírito de partido. Todos os ânimos aí existiam algum dia concordes; não se escutava a expressão do ódio, e da amargura; o discreto império, e a devida dependência conservavam no seu seio uma traquilíssima paz. Mas a desgraça, ou mais depressa o Demónio, quis que um, ou dois daquela família se deixassem embaír, ou arrastar do funesto partido dominante no Mundo, repentinamente fugiu a paz daqueles ditos lares; o ódio, a alteração, a contumélia transformaram aquela casa num campo de batalha, ou em uma fornalha sempre ardente de desordens, e dissabores, e talvez que não só para a geração presente, mas também para a geração futura. É possível que num Mundo, onde já são tantas as causas, e tão poderosos os motivos dos dissabores, e onde as paixões humanas, e os verdadeiros vícios dos homens semeiam tantas discórdias, e põem tantos obstáculos à caridade fraternal, queiram os homens ácinte com este espírito de partido, chamar sobre si novos desgostos, fazendo nossos os negócios alheios, nossas as causas da iniquidades, e da perturbação pública, e particular dos outros Povos, e Nações estranhas?

Ainda chega a mais sua demência e frenesim: querem fazer próprias as ofensas alheias. Dilatam o excesso, e a loucura de ter, e de tratar como ofensores, e como inimigos aqueles, que ousam doutro partido, ou não são daqueles, que eles seguem. A este cúmulo de mal se chegar em Lisboa, como se chegou em Jerusalém depois que se formou a liga, e o partido contra o Redentor do Mundo: que razão havia para tratar como excomungado o mancebo cego de nascimento, e lançá-lo fora da Sinagoga? Nenhuma outra razão mais do que haver sido restituído por Jesus Cristo como um milagre à luz do dia, de que nunca gozará: Et ejecerunt eum foras. E que razão havia para fulminar a mesma pena contra seus progenitores? Não havia outra mais que haverem estes cedido à evidência, e terem testificado por gratidão aquele milagre. Conspiraverant Judei, ut siquis eum confiteretur esse Christum extra Synagogam fierit. E que razão têm tantos, e tantos em separar-se, não sem escândalo, do ânimo, e da pessoa de um íntimo parente, de um honrado Concidadão, a quem são unidos com os laços de sangue, e a quem devem ser mais estreitamente unidos com as prisões da Caridade Cristã? Não há outra razão senão ser aquele um parente, um amigo, uma família, que não sentem como eles sentem, nem seguem aferradamente o partido que eles seguem. Ora eu creio que algum de vós me queira perguntar se as expostas hostilidades serão escandalosas fraudes, se tantas obras, e tantas palavras de quem é pai o espírito de partido, sejam pecados? Se esta pergunta fosse feita a algum engenho mais agudo, algum entendimento mais ilustrado de que o meu, mas dominado desta paixão, e contaminado desta peste, eu fico que lhe diria que não eram pecados. Eis aqui outra não menos deplorável cegueira, que esta paixão derrama nos entendimentos, que chega a sufocar, e aniquilar neles os últimos vestígios da razão, e da justiça.

Mas se estas coisas são verdadeiras, dirá algum de vós, como verdadeiras se mostram pelos factos, não poderá, nem deverá jamais haver no Mundo diversidade de génios, ou diversidade de opiniões, e pareceres. Respondo, que pode haver opiniões, e pareceres diversos, mas sem espírito de partido, dizer o contrário seria privar a razão humana, e o entendimento humano de sua honesta, e devida liberdade. O Apóstolo não só permitiu a cada um poder sentir nas coisas, e negócios humanos que acontecem, como razoávelmente lhe parecer, mas abundar alguma coisa em seu mesmo sentido, e opinião: Unusquisque suo sensu abundet: só proibiu abundar com aquele calor, pertinácia, e emulação, que apagam, ou que minoram o espírito da caridade: Charitas non aemulatur, non inflatur, non agit perperam. Deus criou o Mundo, como ele protesta no Eclesiástico, o pôs nas mãos dos homens, deixando-o a seus estudos, e a suas disputas. E por isso poder-se-há dizer que ele introduzira no Mundo o espírito de partido? A Igreja permite a diversidade de opinar nas coisas não essenciais, e todavia indecisas, de Religião, e porventura semeou ela entre seus filhos a zizânia da discórdia? O Senhor concedeu, e aprovou a divisão das possessões, a divisão dos domínios, e por isto é Deus acaso o autor das contendas, e dos litígios? As guerras, os litígios, as animosidades, as fraudes que os acompanham, não vêm de Deus, mas das nossas paixões. Unde bella, et lites in vobis? Non ne hic ex concupiscentiis vestris? E verdadeira gerra é aquela que se faz com o espírito de partido, e guerra não  qual a faziam os Monarcas Católicos, mas qual a faz o monstro que quer tiranizar o Mundo, na qual toda a perfídia lhe parece honesta, com tanto que contribua ao fim de suas escandalosas usurpações, usando indistintamente da mentira, e da verdade, da ciência militar, e da traição, e servindo-se de todas as maldades como de coisas indiferentes.

Oh caridade! oh Evangelho! oh entranhas de Jesus Cristo, patentes até àqueles mesmos, que se declaram seus infensissimos inimigos! E podereis vós esperar (perdoai-me este desafogo, esse transporte da minha dor) e podereis vós esperar, que se devesse prégar o perdão, e a paz a quem não foi ultrajado, e ofendido, mas que só a si mesmo se ofendeu, e se ultrajou, ofendendo, e ultrajando sua razão, constrangendo-a a dobrar o pescoço ao jugo férreo das leis, e da tirania de um partido, que o precipita em mil erros, que o contamina com mil culpas? Mas de outra parte são tão fortes as razões contrárias, que vos tenho declarado, e tão medonho, e abominável se mostra por todos os lados o brutal aspecto do espírito de partido, que se à sua vista vós me dissésseis que o não quereis abandonar para sempre, eu o não acreditaria; e tenho por coisa firmíssima, que ajudando-vos Deus, que é um Deus da verdade, e da paz, o espulséreis de vosso coração, se nele lhe tendes dado entrada, ou que lhe fechareis para sempre as portas, e vos não deixareis contaminar de seus hálitos pestífero.

(continuação, VI parte)

SERMÃO SOBRE O ESPÍRITO DA SEITA DOMINANTE NO Séc. XIX (IV)

(continuação da III parte)

Eis aqui porque eu vos peço, que se vos é amável a verdade, que a todas as vistas vos deve ser amabilíssima, se é para vós apreciável o dote singularíssimo da razão que Deus vos há dado, eu vos peço, que vos nãos alisteis jamais, nem militeis debaixo das revoltosas bandeiras de qualquer partido; vede que se endurecerá de modo tal o vosso coração, que chegareis a ser dominados, e pisados como vis escravos. Vigiai sempre, e não vos deixeis levar senão da equidade; abri os olhos à verdadeira luz, segui sempre seu fulgor, e seus impulsos, por mais que contra vós se arma, e queira guerrear o empenho, a antipatia, ou a amizade, que em nenhum coração deve ter tanta força, e predomínio que o faça inimigo da verdade, ou menos parcial da justiça. Conheço perfeitamente, e até por experiência, que existem entre nós muitos, que querem escusar em si o espírito de partido com as leis da amizade; mas inútil, e indignamente o querem, porque as leis de uma verdadeira amizade são inimigas, juradas de suas acções irracionais, e de seus cegos transportes. Onde, senão entre gente bárbara, e inculta, se viu, ou se escutou jamais este estranho modo de discorrer: aquele é do número de meus amigos, logo é preciso que eu entre sem outra razão em seus sentimentos, e paixões, é preciso que eu me vista de seu caracter, que me ponha de sua parte, e que por ele peleje; é-me preciso perseguir quem o persegue, infamar quem o infama, discorrer como ele discorre: ofenda-se embora a Fé, a justiça, e a verdade. Onde, senão entre gente bárbara, e povos devastadores, se escutou este modo de pensar, e de sentir? E qual é o Povo, até à época do presente Vandalismo, onde se não escutou aquela contrária sentença nascida no mesmo seio da Idolatria: Amigo até aos Altares, que quer dizer que é péssima, e detestável aquela amizade, a qual se sacrifica ou a verdade, ou a caridade, ou como acontece não raras vezes, a mesma Religião.

É neste passo que o zêlo me referve na alma, e todo o me abrasa o coração, e mo devora pelo bem da Pátria, e da Religião, me obriga a clamar contra as contradições em que andam consigo mesmos os modernos Filosofantes, cujo pestífero, e subtil veneno tantos indivíduos têm corrompido até no meio do fidelíssimo Povo Português. Estes Filósofantes com um dilúvio de palavras até corruptoras de nossa maternal linguagem, dizem em todos os lugares, e escrevem em todas as páginas, que o homem deve fazer uso da própria razão até nas mesmas matérias de Fé, e nos mais profundos Dogmas que assim clamam, que assim dogmatizam, e assim se assoalham por gravíssimos pensadores são os mais levados do espírito de partido, que é o maior, e o mais declarado inimigo de toda a razão. E é possível que não conheçam, que discorrendo desta arte fazem da própria razão um uso inútil, e arrogante, devendo fazer da mesma razão uso proveitoso, e necessário! É necessário, e proveitoso o uso que se faz da razão humana nas coisas humanas, mas é arrogante, e inútil o que se faz da razão humana nas coisas divinas, e é tal a cegueira destes soberbíssimos átomos da sapiência gazetal, que quando falam das coisas humanas, falam, e sentem conforme a índole da paixão do partido que tomaram; e quando falam das coisas divinas, não  querem acreditar senão naquilo que chega a compreender um entendimento órfão de luzes, e uma razão sempre envolta nas sombras da ignorância; duas vezes cegos, nas coisas humanas onde poderiam ver, e não querem; nas coisas divinas onde quereriam ver, e não podem: Videntes non vident, et audientes non intelligunt.

Mas tornando a vós com o discurso, e eu vos considero bem alheios de quererdes introduzir o espírito de partido em matérias de Religião; mas se em outras matérias lhe dais lugar, é porque ignorais o que ele seja, e quão impróprio, e indigno pareça da razão humana; se o conheceis, eu fico que não querereis fazer a vós mesmos uma tão grande injúria como é aquela de dever dizer sempre: eu amo, eu aborreço, eu louvo, eu reprovo, eu sigo este parecer, eu refuto aquele outro, mas não sei o porquê, nem outra razão me posso dar mais que um certo instinto semelhante àquele, que move as operações dos brutos, e que lhe moveria a língua, se tivessem o dom da palavra. Mas se quereis desviar-vos desta mancha da natureza, e até do perigo de a contrair, e se quereis para isto aceitar-me um maduro conselho, e escutar, e entender qual seja a prática mais segura, sabei que nas diversas, e encontradas opiniões que todos os dias surgem, e nas contínuas vicissitudes das coisas humanas, que todos os dias vão fazendo tão grande estrépito pelo Mundo, se vos não tocarem por algum respeito do vosso estado, e condição, não tomeis nelas parte nem com a obra, nem com a palavra, nem com o pensamento, se tanto vos for possível, se não quereis perder o tempo, a paz, a consciência, e faltar a vossos essenciais deveres por muito vos intrometerdes nos alheios.

Esta causa que seguis, que em tudo vos impasse; que tanto vos atribula, e vos consome, que tanto baralha vossos pensamentos, que vos faz cometer tantos pecados de ódio, de maledicência, de contumélias, de temerários juízos, e de culpáveis complacências; esta causa, digo, não é vossa, nem vos toca por maneira alguma, mas é causa de um estrangeiro, de uma Nação, de um Príncipe, que não é o vosso, e que o não será jamais. E se eu vos disser ainda mais: Esta causa, porque tantos se decidem, e por quem tem tomado partido, é a causa da iniquidade, da perfídia, da opressão, do roubo, da violência, da irreligião, da ruína total de todos os Povos, de todas as leis, de todas as constituições, que os homens se haviam há tantos séculos formado, e à sombra das quais viviam tranquilos, e descansados? Para que vos martirizais, e consumis tanto? Para que vos privais voluntariamente de tantos cómodos? para que vos expondes com ela, e por ela a tantas desgraças, não sem dano, e dano muitas vezes gravíssimo, e irreparável da vossa mesma Pátria que aborreceis como ingratos, e a quem perseguis como ferozes monstros? Mas inúteis são, e serão sempre meus brados, se eles forem dar nos ouvidos de alguns, que existirem tomados, e possuídos de tão cega, e abominável paixão.  Vão sempre de abismo em abismo, nenhuma razão os convence, nenhuma experiência os desengana, nenhuma desgraça os contém, nenhuma infâmia os envergonha. Mostrai-lhe a Capital em sustos, mostrai-lhes as ruas, e as praças atulhadas de miseráveis desterrados, e fugitivos com os pés descalços, os vestidos imundos, os rostos macilentos, os olhos afogados, e quase extintos de pranto; fazei-lhe escutar os ais, que rompem de seus corações partidos de mágoa, os dolorosos clamores com que pedem um pão, que lhe prologue a imperfeita morte que consigo arrastaram, que já não é via, e existência; mostrai-lhe tantas mães, ambulantes estátuas da desventura, apertando nos descarnados braços os filhos, ou cadáveres, que buscam lânguidos os defecados peitos, donde tiram não o leite, mas as últimas gotas de já nem tépido sangue; abri-lhes aquela porta de pobre casa, onde a meus olhos se ofereceu, e patenteou o mais terrível, doloroso, e sensibilíssimo espetáculo, que os séculos têm visto sobre esta grande cena de horror, e desventuras, que se chama Mundo; uma, e a mais desgraçada mãe, mas já cadáver frio, com a gelada cabeça ainda encostada na descarnada mão, com os olhos mal fechados, os pés descalços, e estendidos, e um triste menino envolto em miseráveis panos, pegado ao frio peito lívido, e horroroso como a sepultura, mal sustendo nos trémulos beiços o último instinto natural conservar a vida sobre um despojo da morte. levai-os aos mais levantados montes desta mesma Capital, e mostrai-lhes os arraiais dos bárbaros, e como indignada a terra debaixo do seus pés infecunda, e abrasada; mostrai-lhe os grossos turbilhões de fumo rasgados pelas labaredas da sacrílega conflagração de tantos Povos, de tantos Templos, de tantos Mosteiros, de tantos monumentos que o valor, e a Religião tinham levantado, e os séculos tinham respeitado, mostrai-lhes tantos campos talados, e ermos, onde nem túmulo encontram os que dele tiveram, e arrancavam com suor o sustento da vida: mostrai-lhes tantas donzelas violadas aos olhos de seus mesmos pais, tantas matronas profanas na presença de seus mesmos esposos: mostrai-lhes os ardentes vestígios da lava, que de seu seio vem vomitando o vulcão vandálico por onde quer que passa; mostrai-lhes... eu direi tudo, mostrai-lhes só Francês, mostrai-lhes o inferno, e ouvir-lhe-heis dizer tranquilos, e barbaramente estúpidos, que tudo é preciso para se ultimar a paz marítima; que o bem da causa continental traz consigo estes ligeiros males, bem como a ordem, e formosura da natureza traz consigo a oscilação da terra, e o pavoroso aparato da tempestade, e do raio; que se os homens conhecessem os seus verdadeiros interesses, que é aceder à causa continental para vir o futuro brilhante, e se começarem os cânones a abrir, e os Poetas a ressuscitar, até haviam de apetecer, que esta conflagração, que reduziu a cinzas duas estéreis, e insignificantes Províncias, se estendesse a todas as manufacturaras Britãncias... Oh Céus! E porque não direi que estas blasfémias contra a razão, e contra a Natureza talvez saíssem de algum daqueles asilos de piedade, que a mão de nosso primeiro Monarca levantara, e tão liberalmente enriquecera! Monstros vomitados pelo Inferno, desonra da espécie humana, e eterno opróbrio do nosso perseguido Império! Corramos um véu espessíssimo, e sombrio sobre estes horrores.

(continuação, V parte)

03/03/15

PENSAMENTO - TRADUÇÃO DO MISSAL DE PAULO VI


"É significativo: os erros das traduções do Missal de Paulo VI, em geral, não apresentam dificuldades técnicas de língua; mas, por outro lado, revelam-se ajustes ideológicos. (by ASCENDENS)

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