17/02/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LIX)

(continuação da LVIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XXII
Os Inumeráveis Benefícios de Deus

1. Alma - Senhor, abri o meu coração à Vossa lei e ensinai-me a andar na observância dos Vossos preceitos. Fazei que eu conheça a Vossa vontade; que considere, com grande atenção e diligência, os benefícios, tanto gerais como particulares, que me tendes feito, a fim de que possa por eles dar-Vos as devidas graças.
Sei e confesso que não sou capaz de agradecer dignamente o menor desses dons. Reconheço-me infinitamente inferior a todos os bens que fostes servido fazer-me; e, quando considero o quanto sois superior a mim, fico como que oprimido debaixo do peso da Vossa grandeza.

2. Tudo o que possuímos na alma e no corpo, todos os bens internos e externos, naturais e sobrenaturais, são outras tantas graças e favores que nos tendes feito e outros tantos argumentos que provam a Vossa beneficiência, piedade e bondade, e que mostram, ao mesmo tempo, que sois a fonte de todo o bem que recebemos.
Não há dúvida de que uns recebem mais benefícios e outros menos, mas todos são Vossos e sem Vós ninguém pode possuir o menor dos bens.
Aquele que tem recebido maiores dons não pode gloriar-se de que os mereceu, nem elevar-se sobre os seus semelhantes, nem insultar o que teve menos; porque o maior e o melhor é aquele que menos atribui a si e que é mais humilde e devoto em ser-Vos agradecido. O que se julga mais vil e indigno de todos é o mais capaz de receber maiores dons.

3. O que receber menos favores não deve entristecer-se, nem indagar-se, nem invejar os que receberam mais; antes deve considerar e louvar a Vossa bondade, que reparte, sem distinção de pessoas, os seus dons, com abundância tão liberal e tão gratuita.
Tudo vem de Vós e por isso em tudo deveis ser louvado. Vós sabeis o que convém dar a cada um.
A Vós, e não a nós, pertence discernir porque um é mais favorecido e outro menos. Porque somente Vós tendes a medida dos merecimentos de cada um dos homens.

4. Por isso, meu Deus e meu Senhor, creio que me fazeis um benefício especial em não me conceder aquela abundância de graças que, brilhando externamente, atraem os louvores dos homens.
Assim, todo aquele que se vê destituído destes favores, bem longe de entristecer-se, deve consolar-se; porque Vós, Senhor, elegestes, para Vossos familiares e domésticos, os pobres e os humildes e os desprezíveis segundo o mundo.
Testemunhas me sejam os Vossos apóstolos, feitos por Vós príncipes de toda a Terra. Eles viveram entre os homens sem se queixarem das maiores afrontas que recebiam. Foram tão humildes e tão simples, tão isentos de malícia, que punham a sua maior alegria em sofrer os maiores ultrajes para glória do Vosso nome, e em abraçar com afecto divino tudo aquilo que o mundo aborrece.

5. Nada deve alegrar tanto a quem Vos ama e vive no reconhecimento dos Vossos benefícios, como fazer-se nele a Vossa vontade, executando-se em si as Vossas eternas disposições.
Esse prazer deve ser tão grande que o objecto das disposições divinas procura ser o mínimo, do mesmo modo como outro procure ser o maior; e acha tanta felicidade em ocupar o último assento quanta acharia em ocupar o primeiro; e apetece ver-se tão desprezado e desconhecido de todos como  os ambiciosos gostam de ser reconhecidos e adorados por todos.
A Vossa verdade e o amor a Vossa glória devem elevar-se no espírito humilde acima de tudo e isto deve consolá-lo ainda mais do que todas as graças que tem recebido ou pode receber futuramente de Vós.

16/02/15

CONTRA-MINA Nº 8: Os Maçons Financeiros (III)

(continuação da II parte)

Gritavam nesse tempo, e gritavam mui alto os Bergasses, e os Maurys contra a mais nociva, e mais escandalosa de todas as delapidações antigas, e modernas; porém um Fidalgo, um Marquês, um Montesquieu aplanou todas as dificuldades, trovejou desde a tribuna contra a orgulhosa aristocracia; (porque os Fidalgos Maçons costumam ser os mais abjectos servidores da Seita, para darem provas de adesão sincera) e fazendo subir os milhões da receita (só vocalmente e nada mais) fez uma risonha pinta do excesso da opulência, a que os trabalhos da Assembleia tinham levado a Nação Francesa; e a Nação Francesa ouviu e queixo caído as mais solenes imposturas, que nunca se ouviram, ainda aos mais resolutos, e mentirosos preopinantes. Quem poderá negar, que é esta numa parte dos castigos, que o Céu costuma infligir às Nações, que o têm ultrajado... A Nação Francesa é o povo mais rico do Universo, dizia o tal Montesquieu do alto da Tribuna, depois de ter afirmado, que as Rendas públicas estavam no melhor estado possível....

Enfim, dos Relatórios impressos de Montesquieu, e de Camus, se pode ver, que em lugar do alcance anual de 56 milhões de Francos, motivo este por que se fizera uma Revolução, deixou a Assembleia Constituinte, para demonstração da sua rara perícia, e habilidade em curar as feridas da Pátria, um alcance anual de 300 milhões de Francos!!! E seria mais feliz neste ponto a segunda Legislatura, ou a Assembleia Legislativa? Muito pior, visto que em menos de onze meses fez subir o alcance a mais 100 milhões: - decretou que o papel moeda chegasse a 3$ [ 3 mil ?] milhões; e mais desaforada, e sacrílega, que a primeira, saqueou à cada descoberta, e fez deduzir a moeda os próprios relicários, e urnas em que jaziam os Santos!!!

Luís XV
Porque fatalidade só avultou no conceito dos Franceses o Livro vermelho de onde constavam as tenças, e gratificações, que Luís XVI pagava talvez a sujeitos indignos, porém que lhe tinham sido pintados como credores destes subsídios, e o Livro vermelho não razava senão de 28 milhões anuais de despesas? Porque fatalidade, torno a dizer, se encareceram, a ponto de se fazer a Monarquia odiosa, os gastos de Luís XIV, que tinha em armas 500$ [500 mil ?] homens, e que não deve ser julgado somente pelas obras de luxo, e ostentação, mas pelas de conhecida utilidade, que imortalizaram o seu Governo? Porque fatalidade se engrossaram as depredações cometidas debaixo do nome de Luís XV, sem que do interior da França se levantasse um milhão de homens armados, que apontando as baionetas ao peito dessa cáfila de Maçons, lhes dissesse: "Tendes cara para que tão agramente censureis os vossos Soberanos, pela sua má administração, deixaria absolvido de toda a culpa o vosso Rei Luís XVI, ainda que ele tomasse anualmente do Erário de 28 milhões, para atirar com eles à corrente do Sena? Tendes olhos para ver, e não tendes visto;
que a Assembleia Legislativa em onze meses deixou a perder de vista essas chamadas prodigalidades de Luís XV?
que os gastos anuais do Governo deste Soberano deitavam a 800 milhões de francos, e que a Convenção não só o igualou, mas por certo o excedeu no curto espaço de um mês; pois mês houve, em que ela despendeu 900 milhões de Francos?"

Cheguei às campanhas Financeiras da Convenção, e não só fica dito o necessário para se conhecer, que ela em género de roubos, assim como nas outras violências do estilo, se há posto mui acima da sua antecessora, e predecessora; mas penetrando o coração de muitos dos meus leitores, parece-me que lhes noto uma certa desaprovação, de que eu desça a tantas miudezas Financeiras. Eu sei a razão porque assim o fiz, e tenho esperança firme, de que todos os meus leitores conhecerão em breve, que ainda fui o mais sucinto, e resumido que era possível...

Fizeram os Jacobinos Franceses toda esta série de latrocínios, para aumentarem, ou principiarem a sua fortuna individual, pois bem sabido é, que a maioria destes farrapões nem tinha beira, nem telha, nem ramo de figueira, nem donde caíssem mortos, ou a que pudessem chamar seu. Fizeram é certo. E não se adiantaram a mais as suas vistas, e observaram em si todas essas avultadas somas? Não, não e é necessário emendar certo erro, desgraçadamente mui vulgar, e que pode ser para o futuro de mui perniciosas consequências. Quando ouço dizer que a França já se empobreceu em tão poucos dias de revolução, pois ainda já de sacola na mão a pedir empréstimos, que dizem os papeis Franceses deitaram a 1500 milhões de Francos; e que os novos árbitros de França já roubaram, e converteram para os seus usos os milhões chegados de Argel.... dá-me vontade de rir, pois em que eles sejam, e tenham sido finíssimos ladrões, concordo eu; mas apélo para um certo relatório impresso do sanguinário, e antes monstro de que homem, ou representante de uma Nação polida, quero dizer St. Just. Foi este quem rasgou inteiramente o véu para se conhecer de uma vez qual fosse a principal, e genuína aplicação de tanto dinheiro de metal, que desapareceu de França.

(a continuar)

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LVIII)

(continuação da LVII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XXI
Deve-se Descansar em Deus, Mais do Que em Todos os Bens e Dores

1. Alma - Coração meu, alma minha, em tudo e por tudo descansareis no Senhor, porque Ele é o descanso eterno dos santos.
Amantíssimo e dulcíssimo Jesus, fazei que eu ache mais descanso em Vós do que em todas as criaturas. Mais do que na saúde e na formosura; mais do que no poder e nas dignidades; mais do que nas riquezas e no luxo; mais do que nas artes e na ciência; mais do que nos folguedos e divertimentos; mais do que na fama e no louvor; mas do que nas delícias e prazeres.
Fazei que eu Vos prefira, mesmo a todas as esperanças e promessas que nos dais, a todos os merecimentos e bons desejos que podemos ter; a todas as graças e favores de que podeis encher-nos; a todas as consolações e doçuras que podemos receber de Vós.
Fazei que eu ame descansar somente em Vós, mais do que em todos os anjos e arcanjos e mais do que em todos os Espíritos do Céu; mais do que em todas as coisas visíveis e invisíveis; numa palavra: mais do que em tudo o que está fora de Vós.

2. Vós, meu Deus, meu Senhor, sois superior a tudo em bondade, em grandeza e poder. Em Vós tendes a força inexaurível da eterna felicidade. Todas as consolações espirituais dimanam de Vós. Sois a única formosura e o único objecto amável. Sois um oceano de majestade e de glória, em que todos os bens estiveram, estão e estarão eternamente juntos, em suma perfeição.
Assim, tudo o que me dais, ou me descobris, ou me prometeis, sem me fazer gozar contemplando-Vos e em Vós mesmo repousando o meu espírito, julgarei insuficiente e incapaz de dar-me inteiro contentamento, porque o meu coração jamais se satisfará senão elevando-se acima de todas as criaturas para se encontrar em Vós.

3. Ó meu Jesus, esposo amabilíssimo das almas, que dominais o Céu e a Terra, quem me dera asas de verdadeira liberdade, para voar e descansar em Vós! Quando me será concedida a felicidade de ocupar-me inteiramente na consideração da Vossa doçura inefável! Quando me recolherei em Vós, de sorte que perca, por Vosso amor, todo o gosto de mim mesmo, para não gostar senão de Vós! Agora passo eu a vida em gemidos e levo com dor o peso da minha infelicidade. Neste vale de lágrimas encontro tantos males que me perturbam, me entristecem e me enchem de escuridão! Embaraçado, distraído, ou preso pela ilusão dos sentidos, não posso chegar a Vós com liberdade nem gozar as divinas consolações com que honrais o espíritos bem-aventurados que assistem na Vossa presença. Ó meu Deus, ouvi os meus suspiros e atendei a tantos males que sofro sobre a Terra!

4. Ó Jesus, esplendor da eterna glória, alívio da alma aflita neste desterro, eu me apresento mudo diante de Vós e o meu silêncio fala por mim! Até quando tardará o meu Senhor a vir a minha alma? Venha Ele a mim, na extrema pobreza em que estou, encha-me de alegria. Estenda a sua mão e tire deste admirável da sua miséria. Vinde meu Deus! Sem Vós não posso ter dia nem hora alegres; porque sois toda a minha alegria e sem Vós nada há que me sustente. Sou miserável e considero-me preso e carregado de ferros, enquanto não concedeis a luz da Vossa presença e não me dais a liberdade, mostrando-me um semblante doce e favorável.

5. Busquem os outros, em lugar de Vós, o que quiserem. A mim, nada me agrada, nem agradará, senão Vós, ó meu Deus, que sois a minha esperança e a minha eterna felicidade. Não deixarei de orar até que a Vossa graça volte a mim.

Cristo - Aqui me tens, filho meu. Venho a ti, pois me invocaste. As tuas lágrimas e os desejos da tua alma, a humildade e a penitência do teu coração inclinaram-me a vir a ti.

Alma - Senhor, eu Vos chamei e desejei gozar a Vossa presença resolvido a rejeitar tudo por amor de Vós. Mas Vós mesmo me induziste a procurar-Vos. Sêde, pois, Senhor, bendito, por haverdes usado, segundo a Vossa infinita misericórdia, de tanta bondade com o Vosso servo.

6. À vista disto, que resta ao Vosso escravo senão humilhar-se profundamente na Vossa presença, sem perder jamais a lembrança da sua maldade e vileza? Em toda esta multidão de maravilhas com que enchestes o Céu e a Terra, nada há que Vos seja semelhante, ó meu Deus! Todas as Vossas obras são perfeitas, todos os Vossos juízos são rectos e todas as criaturas se governam pela Vossa soberana providência. Dê-se, pois, todo o louvor e glória a Vós, que sois a sabedoria do Pai. A minha língua, a minha alma, todas as criaturas juntas Vos louvam eternamente.

15/02/15

CONTRA-MINA Nº 8: Os Maçons Financeiros (II)

(continuação da I parte)

Mirabeau
Necker
Qual era a Dívida Nacional da França no chamamento dos Estados Gerais? Dois mil e seiscentos milhões de Francos, o que certamente exigia um remédio pronto, a fim de se atalhar, quando fosse possível, o progresso do déficit anual de 56 milhões, (que vem a dizer, o excesso da despesa sobre a receita andava por 56 milhões anuais) .... O principal arbítrio, que se tomou para este fim, consistiu em que o Protestante, e destruidor da igreja, e da Monarquia Francesa, o apupado dos Clubs, e das Lojas Mr. Necker, propusesse a venda dos Bens do Clero, que já tinham sido proclamados Bens Nacionais .... Decretou-se pois que se procedesse à venda parcial dos tais Bens Eclesiásticos, que produzisse 400 milhões de Francos, para se extinguir por este modo uma boa parte da Dívida Nacional. Ofereceu-se o Clero a satisfazer esses 400 milhões em dinheiro de contado; porém sendo como era o principal fim dos Conspiradores, como o é de todos os Revolucionários modernos "a extinção do Catolicismo" rejeitaram a proposta do Clero, e efectuaram a seu sabor, e sem a mais leve contradição a venda projetada. E por quanto andava o dinheiro de metal, que nesse tempo girava em França? Por 3 mil milhões de Francos. Enquanto eram avaliados os Bens do Clero? Em 2 mil milhões de Francos. E chegaria todo este dinheiro para satisfazer a insaciável cobiça dos Ladrões Jacobinos, ou Pedreiros? Não, pois logo traçaram o plano de fazerem girar 2 milhões de Francos em papel moeda, a que serviriam de hipoteca os Bens do Clero .... Não faltaram no recinto da Assembleia poderosos antagonistas, de que basta nomear o então simples Clérigo, e o mais ilustra defensor da Causa do seu Rei, e do seu Deus, e que depois já feito Cardeal foi um sórdido incensador de Bonaparte, (que a tanto chega a fraqueza humana!) quero dizer o Cardeal Maury; porém o infame, o adultero, o licencioso, o Ímpio Mirabeau, zombou de tudo, e prevaleceu a tudo, não tanto por força de sua eloquência, mas aparente, que verdadeira, quanto pela mais bem sucedida eloquência dos gritos, e assuadas das Galerias, e ameaças, e gritos de morte, que são uns meios decididos para se conseguir uma votação espontânea, e como se queria, e desejava. Passou a final, e foi aprovado por uma grande maioria de Deputados o Decreto dos assinados, ou papel moeda, que se levou à contra fixa de mil e duzentos milhões de Francos .... Já nesse tempo se tinham recolhido grossas somas da Contribuição chamada Patriótica, e apesar de todos estes grandes recursos, era tal o sumiço, que levava o dinheiro, que no mês de Maio de 1790, se mandaram tirar da caixa do desconto 28 milhões, procedentes do dinheiro de metal, com que aí tinham entrado vários Accionistas, e Particulares, que tinham trocado pelo papel, que corria em Paris ... Não tardou muito que o Banqueiro, e Financeiro Mor. Necker apresentasse o seu Mapa da Receita, e Despesa dos meses de Abril e Maio .... Foi tão bom, ou tão mau, que o fez decair de todo na opinião pública, e ser alvo de injúrias e sarcasmos, quando até esse tempo o havia sido de uma espécie de culto, e dos aplausos gerais da França degenerada. Foi então que a Assembleia proclamou a todos os Cidadãos, e Cidadans, que acudissem à liberdade periclitante, com todos os seus tratasse de ouro, prata, e diamantes, e outras preciosidades; e tal era o delírio dos [maus] Franceses nesta Época, que as Mesas da Assembleia se atulharam destas riquezas, havendo nesta ocasião cenas mui dignas de Plauto, e Molier, principalmente da parte das Cidadãs, que se lhe dá para Constitucionais, costumam ser Megeras ou Furias. Tudo isto porém foi uma gota de água doce que caiu no mar, e que é como se nunca tivera existido, porque daí a pouco, isto é em Agosto do próprio ano de 1790, foi necessário lançar mão de 40 milhões de bilhetes do Banco, para suprimir as despesas do Tesouro Nacional, enquanto não circulavam os assinados; e mal se tinham passado dois meses, tornou a pagar a Caixa de desconto mais trinta milhões; e não chegando esta quantia, voltaram-se à Caixa do extraordinário, que se criara para amortizamento, ou extinção da dívida pública, e daí tiraram 48 milhões em Outubro do próprio ano de 1790, e 80 milhões em Fevereiro do ano seguinte...... Já corriam os assinados, tinha desaparecido o dinheiro de metal... Pediu-se por bem a todos os Cidadãos, que levassem à casa da moeda todos os seus trastes de ouro, e preta para se trocarem por assinados; - e como este meio não produzira efeito, combinou-se a pena de confisco, e ainda outras mais graves, a quem não satisfizesse in continenti os votos da Assembleia. Renovaram-se os tributos abolidos; e em Março de 1791 procedeu-se ao saque geral de todas as pratas das Igrejas, que se reduziram a moeda corrente, e não lhe escaparam os sinos, que foram apeados, e convertidos em dinheiro. Entretanto o número dos assinados verdadeiros, e falsos já tinha subido muito acima do que se dispusera na sua criação, assim como diariamente subiam em descrédito, pois o rebate de 50% não distou muito da sua primeira introdução na França, e bem depressa chegou a 80 e 90%.

(continuação, III parte)

14/02/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LVII)

(continuação da LVI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XX
Da Confissão das Próprias Fraquezas e das Misérias Desta Vida

1. Alma - Senhor, eu vos confesso todas as minhas ofensas e também as minhas fraquezas.
Muitas vezes um nada me abate e me entristece. Proponho-me ser forte, mas, tanto que me investe a tentação, fico logo angustiado.
Algumas vezes, é bem vil a origem de uma grave tentação.
Quando me julgo assaz seguro, porque não vejo o perigo eminente, eis que me acho derrubado por um ligeiro sopro.

2. Lançai, pois, Senhor, os Vossos olhos sobre a minha baixeza e sobre este abismo de fragilidade que há em mim e que Vós conheceis muito melhor do que eu.
Compadecei-Vos da Vossa criatura e tirai-me do meio deste lodo, para que nele não fique submergido.
O que de contínuo me atormenta e confunde na Vossa presença é ver que sou tão fraco, tão enfermo, para resistir às minhas paixões. Ainda que a Vossa graça me livre de consentir nelas, contudo aflige-me vivamente ver-me delas sempre combatido.
Enfastia-me já o viver nesta guerra interior que não acaba. O que descobre mais a minha fraqueza é que os pensamentos ignominiosos, que me acometem, entram em mim mais facilmente do que saem.

3. Ó fortíssimo Deus de Israel, zelador das almas fiéis, ponde os Vossos olhos nos trabalhos e dores do Vosso servo e dai-lhe assistência em tudo o que ele empreender.
Animai-me, infundindo-me uma força celeste, para que esta carne, ainda rebelde ao espírito, não me domine e para que eu possa pelejar contra ela em todo o tempo desta miserável vida.
Vida infeliz, na verdade, em que se encontram tantas atribulações e misérias e onde tudo se acha enredado de armadilhas e repleto de inimigos que a cercam por todos os lados.
Ainda uma atribulação não é passada, já outra está connosco. Mal saímos de um conflito, temos outro pela frente, sem que o suspeitássemos.

4. Isto considerado, como pode ser amável uma vida tão cheia de amarguras e sujeita a tantas misérias e calamidades? Como pode ela chamar-se vida, sendo um oceano de pestes e de mortes? No entanto, muitos a amam, e trabalham por descobrir nela as suas delícias.
O mundo esta cheio de enganos e vaidades; porém, os que o acusam dificilmente o deixam, por causa do grande império que a concupiscência carnal exerce sobre a alma.
Assim nos achamos atraídos por duas forças: uma que nos leva a amar o mundo, outra que nos convida a aborrecê-lo. De um lado, os atractivos da carne, os divertimentos dos olhos, a soberba do século, incitam-nos a que o amemos; do outro, as horrorosas misérias que acompanham tais deleites, e que são o seu justo castigo, no-lo fazem insuportável.

5. Mas ai!, o amor do mundo triunfa das almas de muitos e estes se deleitam nos espinhos que os penetram, porque não conhecem nem gozaram jamais a suavidade de Deus, nem a beleza interior da virtude.
Os que renunciaram ao mundo e trabalham por viver segundo Deus, não ignoram a doçura que é concedida aos verdadeiros desprezadores do século, conhecendo o erro e a ignorância dos que o amam.

13/02/15

CONTRA-MINA Nº 8: Os Maçons Financeiros (I)

CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,

por

Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.

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Nº 8
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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Os Maçons Financeiros


Melhor se pusera a este nº o título de Maçons Salteadores, e salteadores sem vergonha, e sem remorsos. Nunca me sucede ler as sentidas queixas destes piedosos restauradores do Crédito público, sobre as depredações dos Áulicos, e excessivas profusões dos reis, que não me sinta provocado a endereçar-lhe, ou acomodar-lhes a própria invectiva, que os Seítas pregaram na bochecha de Alexandre Magno, quando este famosos conquistador lhes deitava em rosto o seu modo de vida, e as suas continuadas rapinas; pois vós tendes cara para doestar os que são melhores, e muito melhores do que vós, e não vos lembrais de que sois uns desaforados ladrões, que assim o provam documentos solenes, que precederam a vossa elevação, o que por certo não mereceis, e que só vos podia ser conferido pela Maçonaria, que fecha os olhos a tudo, que os bons chamam defeitos, ou vícios intoleráveis, ou, para melhor dizer, que os aplaude, e canoniza por virtudes? Apesar de todos esses cordiais, e incendidos amores pelo bem público, e desse empenho de restaurar o Crédito, e pôr em tal andamento as Finanças, que mui prestes se extinga a dívida pública; ousarei afirmar, que nunca os Pedreiros Livres chegarão a ser Administradores de um Erário qualquer, sem que o levem a pique, e subam de ponto os males, que diziam querer desterrar, ou emendar. Das maravilhas, que fizeram neste ramo de indústria os nossos degeneradores, já por outras vezes tenho falado; e cumpre agora mudar de rumo, sem todavia perder de vista os raros talentos financeiros, que abundam, e formigam na vasta Maçonaria Europeia... O dinheiro é a principal divindade dos Maçons, por isso que sabem perfeitamente o que já bons 400 anos, antes que Nosso Senhor Jesus Cristo viesse ao mundo, fazia por toda a parte a infame e danada sede de ouro, que foi a chave, com que Filipe de Macedónia abriu as portas da Grécia, e anulou todo o empenho das forças humanas, quando a principal destas era certamente a vigorosa eloquência de um Demosthenes.... Por causa do dinheiro se tem feito grandes Revoluções antigas, e por causa do dinheiro se fazem todas as Revoluções modernas.... Já disse, que o espantoso deficit das Finanças Gallicanas moveu os generosos restauradores da Monarquia Francesa à convocação dos Estados Gerais, que pintaram a um Rei amante do seu Povo, mas tímido e indeciso, com a única tábua de Salvamento para a Nau do Estado, e para se atalhar uma bancarrota geral, com todos os efeitos desastrosos, que a costumam acompanhar, e seguir.... Quando falta o dinheiro haja uma Revolução, e torne a haver outra quando há fartura de dinheiro... Bem se vê que no primeiro destes casos, o dinheiro é um pretexto, e no segundo a causa verdadeira. Ora, descortinemos para utilidade dos bons portugueses, o que nos depõe a História da Revolução Francesa, sobre estas habilidades Financeiras ou furtadeiras dos tais Maçons, ou Pedreiros Livres....

(continuação, II parte)

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LVI)

(continuação da LV parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XIX
O Sofrimento de Injúrias e a Prova da Verdadeira Paciência

1. Cristo - Filho, que é que dizes? Deixa-te de queixas, considerando a minha paixão e o sofrimento dos santos. Ainda não resististe, até derramar o teu próprio sangue. Pouco padeces em comparação de tantas e tão diversas atribulações e que foi exercitada a paciência dos meus servos. Lembra-te, pois, da grandeza das suas penas para que mais docemente suportes as tuas, bem menores. E, se pequenas não as julgas, é a tua impaciência que te persuade. Mas, seja pouco ou muito o que sofres, sofre-o com paciência.

2. É grande sabedoria dispor-te para o sofrimento. Quando te resolveres a sofrer, os males representar-se-ão mais leves e o merecimento que terás em sofrê-los será maior. Não digas: "Eu não posso tolerar que um tal homem me trate desse modo; isso me é inteiramente insuportável. Ele faz-me grande dano, arguindo-me de coisas que nem ao meu pensamento vieram. Eu sofreria facilmente outras pessoas e outras ofensas menos sensíveis." Este discurso é producto de uma imaginação vã, pois nele não se considera o que significa a paciência nem quem vai recompensar, mas só a pessoa que ofende e a ofensa recebida.

3. Não é verdadeiro sofredor quem sofre só o que lhe parece e a quem lhe parece. Quem possui a virtude da paciência não olha se aquele que o persegue é seu prelado, seu igual ou seu inferior; se é santo e bom ou se é mau e indigno. Ele recebe indiferentemente todo o mal que lhe fazem e as vezes que lho fazem, como se viera de Deus, julga isto de grande utilidade, pois vive persuadido de que o mal, por leve que seja, sofrido por amor de Deus, não fica sem merecimento.

4. Aparelha-te para combater, se queres sair vitorioso. Sem peleja não podes alcançar a coroa da paciência. Se rejeitas o sofrimento, é sinal de que não queres ser coroado. Mas, se desejas essa coroa, combate varonilmente e sofre com paciência. O descanso é prémio do trabalho e a vitória é recompensa do combate. 

Alma - Meu Deus, faça-me possível a Vossa graça aquilo que naturalmente me parece impossível. Vós sabeis a pouca força que tenho para sofrer, pois qualquer mal pequeno basta para derrubar-me. Fazei, pois, que eu deseje e abrace com ardor o exercício das atribulações, para glória do Vosso nome, já que de tão grande proveito me é sofrer e ser perseguido por amor de Vós.

12/02/15

NOVAS SOBRE A ABDICAÇÃO DE BENTO XVI

Mons. Leo Cushley
O Catholic Herald (UK), a 2 de Fevereiro de 2014, publicou o relato de Mons. Leo Cushley, Arcebispo de St. Andrews e Edimburgo, a respeito do momento da abdicação de Bento XVI. Ontem, dia 11 de Fevereiro de 2015, justamente dois anos depois da abdicação, o Catholic Herald volta a publicar o mesmo testemunho.

Deste testemunho recolho dois dados sumamente importantes, os quais levam a concluir que:

1 - Nenhum dos dois secretários privados do Papa sabiam o que iria passar:

"O meu estômago virou-se do avesso quando percebi que aqui diante de nós estava uma coisa que não se via há séculos: a resignação voluntária do Romano Pontífice.

Parecia que, em câmara lenta mesmo diante de mim, um cameraman assistente da televisão levou a sua mão à boca num gesto de espanto tipo desenho-animado, o monsenhor sentado ao meu lado começou a soluçar devagar, os ombros do Arcebispo Gänswein pareceram cair. Os cardeais inclinaram-se para a frente para ter a certeza de que tinham percebido exactamente o que estava a ser dito e eu apercebi-me que me estava a certificar se que a minha boca não estava totalmente aberta. Depois fez-se silêncio."

2 - Depois do comunicado da abdicação, apenas o Card. Sodano reagiu sem surpresa.

"Após uma pausa, o decano do Colégio de Cardeais, o Cardeal Ângelo Sodano, levantou-se e começou a falar. Não me lembro precisamente do que ele disse, mas foi breve, calmo e adequado. Estava claro que ele tinha sido informado antes e tinha preparado algumas palavras.
Pelo contrário, as caras dos cardeais mostravam que não tinham tido nenhum aviso do que se ia passar naquela manhã."

Infelizmente não se pode concluir com certeza que o cair de ombros do Secretário papal indique que este foi apanhado desprevenido com a notícia; ainda mais que não se diz que caíram realmente, mas sim que "pareceram cair". Também, relativamente ao Cardeal Ângelo Sodano dizer que "estava claro que ele tinha sido informado", não mostra tantas evidências quanto necessáro.

Contudo, se é certa a interpretação de Mons. Leo Cushley estamos então perante algo muito significativo:

- Quanto antes o Card. Sodano sabia da abdicação?
- Qual a necessidade do Card. Sodano saber antecipadamente, se nem os secretários do Papa souberam?

EVANGELIZAÇÃO PELOS PORTUGUESES - AGIOLÓGIO LUSITANO (III)

(continuação da II parte)

Portugal na Etiópia
Para concluirmos o que nos falta da África, nos restam o Patriarcado de Etiópia, e os dois Bispados de Niceia, e Hierapoli; e para in perpetuum tirar prelados para eles, fez ElRei D. João III eleição da religião [refere-se a ordem religiosa] da Companhia, apresentando logo ao Papa Júlio III o Pe. João Nunes Barreto por Patriarca, e os padres Belchior Carneiro, e Andrade de Oviedo para Bispos, que o primeiro sucedesse naquela dignidade por morte do Patriarca, e o segundo ao companheiro na mesma contingência, os quais a Companhia aceitou com a devida submissão posto que repugnavam a seus estatutos; por constar manifestamente, que as honras, e rendas deles haviam de ser até morte excessivos trabalhos, largas peregrinações, e conhecidos perigos da vida. Contudo o Pe. João Nunes não aceitou sem consentimento de Sto. Inácio. De uma e outra coisa se edificou muito Sumo Pontífice, que logo expediu as letras com beneplácito do santo. E no mosteiro da Trindade desta cidade foram sagrados os Patriarca, e Andrade de Oviedo no ano 1555, assistindo a este solene acto o mesmo Rei, e toda a Corte, que o Pe. Carneiro foi sagrado na Índia. os frutos, que destas dignidades, e missões tirou a Companhia foram os mesmos que no princípio prometiam, e mui avantajados, pois amplificaram grandemente a glória de Cristo, e de sua Igreja naquelas dilatadas regiões, e na conversão de muitas almas, até finalmente alguns darem as vidas, como o ilustre Pe. Gonçalo da Silveira, que depois de baptizar ao Imperador da Etiópia, a Rainha sua Mãe, e 300 fidalgos de sua côrte, enganados pelos mouros, deram cruel morte, a quem com tanto zelo lhes tinha mostrado o caminho da salvação. Tem nossos dias o Pe. Apolinario de Almeida, Bispo de Niceia, conseguiu na mesma Etiópia igual aureola (pois testemunhou com o próprio sangue a verdade de nossa Fé, que prégava àquela cismática, e inconstante gente com um prolongado martírio. Porque depois de estar algumas horas no patíbulo despido, e à vergonha (trazendo ditosa companhia outros padres da própria família) antes de expirar, conspiraram contra ele os cismáticos, descarregando tremenda chuva de pedras sobre seus santos corpos, que todos ficaram debaixo sepultados. Esta breve digressão, devemos à boa memória deste bemaventurado padre, pois temos por grande felicidade haver gozado, alguns anos sua santa conversão, e familiaridade; que seus devidos louvores reservamos para o próprio dia.

(a continuar)

11/02/15

NOSSA SENHORA DE LOURDES - 11 de Fevereiro




Música: Magnificat - Fr. Manuel Cardoso (Portugal, séc. XVI/XVII)

10/02/15

ACLARAÇÃO - A "BICOLOR"

Rei D. Miguel, o Tradicionalista
Houve inesperadas reacções ao artigo A Bicolor - Refutação Definitiva. Uma delas veio da parte de um legitimista, situação dialogada; a outra veio por parte de um elemento da Causa Monárquica (mais concretamente da Real Associação da Beira Litoral), reacção que se limitou ao uso do poder, e sem qualquer diálogo. A Causa Monárquica usa a bicolor, e perante certa acusação, de estar ainda em guerra com os "absolutistas", resolveu integrar também a bandeira "branca", mas com coroa ducal (o que tem levado muitos a crer tratar-se da bandeira de Portugal, usada pelos últimos Reis até D. Miguel, inclusivo).

Amigos da Causa Monárquica, que usais da bicolor,

nunca os autores discordaram que a bicolor tivesse sido a bandeira exclusivamente levantada pelo liberalismo em Portugal, e como "bandeira nacional". Por isso, o artigo da Chronica Constitucional de Lisboa, o qual transcrevi no meu mencionado artigo, retrata tal realidade. Por ser isto verdade tão inegável, não se atreverão os da Causa Monárquica entrar em demonstrações contrárias.

A alguém que tentou fazer da Chronia Constitucional de Lisboa um documento de opinião muito particular, e por isso seria nada representativo nestas questões, direi que: é justamente o oposto. A Chrónica Constitucional de Lisboa manteve este nome de 1833 a 1834 (ano da usurpação total) e logo passou a ter o nome de Gazeta Oficial do Governo (*). O Chrónica Constitucional de Lisboa foi o órgão oficial do governo usurpador, desde o seu primeiro número, e nele foram publicadas as "leis" e comunicados "oficiais"; facto que explica a elevação do nome deste jornal, em 1834.

A verdade existe! O contar da história deve resultar da sujeição à verdade, e não aos desejos de quem quer que seja. Neste caso, o da bandeira liberal, os factos claros nunca deixaram espaço à dúvida. A bandeira bicolor é a bandeira liberal, sobre a qual esteve assente e jaze a linhagem de D. Pedro de Alcântara.

Desmotivo a Causa Monárquica a operar como aquele seu calado membro. Não irei motivar a Causa para o abandono da bicolor, visto que, muito ou pouco, defendem ainda as mesmas ideias da facção liberal, contra as quais D. Miguel e Portugal lutaram. Quem sabe... quem sabe, um dia!

(*) - cf. o II volume de "Jornais e Revistas do Séc. XIX", pág. 226.

09/02/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LV)

(continuação da LIV parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XVIII
A Exemplo de Jesus Cristo Sofremos as Misérias da Vida

1. Cristo - Filho, eu desci do Céu à Terra para te salvar. Sofri os males que te eram devidos, não obrigado da necessidade, mas sim do amor, para ensinar-te a saber sofrer e a levar sem indignação as penas e os trabalhos desta vida.
Desde o momento em que nasci até àquele em que expirei na Cruz, não estive sem dores.
Vivi em pobreza extrema, ouvi frequentes queixas contra mim. Sofri murmurações e injúrias atrozes. Vi os meus benefícios pagos com ingratidão, os meus milagres com blasfémias, a minha doutrina com sátiras.

2. Alma - Se Vós padecestes tanto e nisso rendestes a Vosso Pai soberana obediência, justo é que eu a mim mesmo me sofra, segundo a Vossa vontade, e leve, para minha salvação, sobre mim, enquanto quiserdes, o peso desta vida mortal.
Ainda que ela seja pesada, é, contudo, meritória, pelos socorros da Vossa graça, e até os mais fracos devem tolerá-la, depois do Vosso exemplo e daqueles que deram os Vossos santos.
Nela se encontram agora mais consolações do que na Antiga Lei, em cujo tempo a porta do Céu estava fechada e o caminho que a ela conduzia era muito escuro, por haver poucos que o frequentassem. A entrada neste reino eterno era interdita, ainda aos justos e santos daqueles primeiros tempos, porque ela não podia ser aberta senão à custa da Vossa Paixão e Morte.

3. Que graça não devo dar-vos pelo benefício que fizestes, a mim e a todos os fieis, mostrando-nos o caminho seguro que conduz ao Vosso reino!
A Vossa vida santa é o nosso caminho, e, imitando-Vos na paciência, caminhamos para Vós, que sois a recompensa dos nossos sofrimentos. Se Vós não andásseis primeiro por ele, quem se animaria a segui-lo? Quantos ficariam longe de Vós, se não vissem os Vossos nobres exemplos? Depois de tantos milagres e instruções que nos deixastes, ainda somos tíbios; que diria se não tivéssemos essa grande luz para seguir-Vos?

EVANGELIZAÇÃO PELOS PORTUGUESES - AGIOLÓGIO LUSITANO (II)

(continuação da I parte)

Advirto de passo, que os primeiros pregadores, que anunciaram a luz do sagrado Evangelho nas Canárias (depois de descobertas) foram portugueses, que lá passou logo o Beato Tadeu, frade agostinho, que pelo admirável fruto que fez na conversão e doutrina de seus moradores adquiriu o nome de Canário, com que é intitulado (como Cipião o de Africano pelas vitorias que alcançou em África) sendo o santo natural de Lisboa. Nelas havia já prégado, e padecido martírio S. Avito há mais de 1540 anos, pois foi no de Cristo 105. Estas ilhas se largaram depois da concordata a Castela, por cairem na sua demarcação.

Ilhas Canárias
Temos mais em confrontação da consta de África os bispados da ilha da Madeira, e Terceira, que sendo desertas, os nossos povoaram de Cristandade; daquela foi primeiro Bispo D. Diogo Pinheiro, Vigário de Tomar, nomeado por ElRei D. Manuel, e a sua instância, confirmado por Leão X, ano de 1514. Desta o Pe. Agostinho Ribeiro, frade loio, designado por ElRei D. João III, e confirmado por Paulo III, ano 1534. Uma, e outra Diocese tem de seu princípio Religiosos menores; os da Madeira, que são três de frades, e um de freiras, sujeitos à Província de Portugal; os da Terceira (que ano 1639 se desmembrou da dos Algarves) formam uma dilatada Província, intitulada de S. João Evangelista, compreende hoje 14 conventos de frades, e 6 de freiras (de mais de outros tantos sujeitos ao Ordinário) a cabeça de todos é N. Senhora da Guia na cidade de Angra. Nela, em S. Miguel, e Madeira têm colégios a Companhia de Jesus, onde estes religiosos exercitam seus santos ministérios, em ordem à salvação das almas.

Seguem-se as de Cabo Verde com seu primeiro Bispo D. Brás Neto, erecto no ano 1533. Nelas prégou o Pe. Baltasar Barreira da Companhia com admirável fruto, pois trouxe ao grémio da Igreja Católica inumeráveis gentios, que converteu, e baptizou, e entre eles a dois Reis: o da Serra Leoa e o de Tora. Após este o de S. Tomé eleito muito antes, na pessoa de D. Digo Ortiz de Vilhegas, cuja jurisdição por muitos anos se estendeu a todo o Reino do Congo, e como o principal fim dos descobrimentos dos Sereníssimos Reis de Portugal foi a conversão da gentilidade, e propagação do sagrado Evangelho, tanto que os nossos descobriram este Reino, mandaram logo pregadores, que o instruíssem nos mistérios de N.S. Fé; e seu Rei (movido por divina inspiração) foi as primícicias, que os nossos converteram naquele Reino no ano 1491. Em prova de sua conversão mandou este, D. Henrique, seu filho, com alguns vassalos seus, que aprenderam a doutrina Cristã e sagradas letras no mosteiro de S. Eloi de Lisboa, onde residiram 13 anos com grande exemplo e louvor. E feitos Sacerdotes, renunciou D. Diogo Ortiz o Bispado de S. Tomé no dito Príncipe D. Henrique. Tornado à pátria, seu pai o mandou a Roma no ano 1513 acompanhado de outros senhores, e fidalgos de seu Reino a dar obediência ao papa Leão X esujeitar à Sé Apostólica ceptro e coroa. E por ser Bispado de S. Tomé mui dilatado, e constar ao Papa Clmente VIII que havia 128 anos, que em Congo se conservava a Fé, depois que os nossos ali a pregáram, à instância o Prudente no ano de 1590 se desmembrou daquele Bispado o de Congo (que hoje separado se chama de Angola) em que o primeiro eleito foi D. Fr. Miguel Rangel, Capucho da província de Sto. António. Todos estes Bispados ultramarinos são sufragâneos à Metrópole de Lisboa. E tornando aos primeiros prégadores, que foram a S. Tomé, e Congo, achamos serem Monges de S. Bernardo do convento de Alcobaça, depois os Franciscanos, e Dominicanos, seguiram-se os Loios, e Gracianos, e os Padres da Companhia, e Carmelitas descalços, e ultimamente os Terceiros de S. Francisco, que todos têm feito copiosa sementeira para os celeiros da Igreja na conservação das almas, acabando os mais deles gloriosamente nesta santa empresa.

(a continuar)

05/02/15

A BANDEIRA BICOLOR - REFUTAÇÃO DEFINITIVA

Bandeira de Portugal
Anda a girar certa teoria segundo a qual contra a liberal bandeira azul e branca teria lutado a bandeira azul e vermelha (que querem atribuir a D. Miguel). Portanto, novidade das novidades, a bandeira de Portugal usada por D. Miguel não teria sido então a branca, segundo nos querem agora fazer crer, e teria sito bicolor.

Já que contra tal teoria não vi nenhum dos descontentados portugueses, eu mesmo proponho-me dar o argumento definitivo.

Para o meu propósito bastará tão somente transcrever a Chronica Constitucional de Lisboa (nº1, quinta feira, 25 de Julho de 1833), que é propaganda liberal-constitucional-maçónica. Embora este documento seja uma maléfica estratégia propagandística, a parte que nos importa agora, a da bandeira, pelos motivos mais óbvios é inteiramente fiável:

"LISBOA 24 de Julho: Graças ao Supremos Árbitro das Nações, ao Protector Indefectível da inocência oprimida, ao Defensor Eterno da justiça ultrajada [já se configura aqui o "deus Arquitecto"], quebrou-se finalmente, reduziu-se a pó, esse tirânico jugo de ignomínia, que há mais de cinco anos a aleivozia e o perjúrio auxiliados pela mentira, e escoltados pelo terror haviam feito pesar sobre os nossos ombros: derribou-se, ei-lo enfim por terra, esse despotismo de espécie nova na história moderna, complexo informe de insania e de ferocidade, de ignorância e de imoralidade, que nada menos se propunha que fazer-nos recuar pela ignorância à barbáries, perpetuando-nos na excomunhão política, em que nos havia posto a Europa civilizada.

Já respiramos a aura benéfica da liberdade legal; caíram os patíbulos, fugiram os verdugos; escravos ontem, somos homens Cidadãos; já não é crime a lealdade, e a honra; já podemos dar desafogo aos sentimentos da nossa fidelidade à nossa Augusta e Legítima Rainha, a Senhora D. Maria II, e da nossa firme adesão à Carta Constitucional, Código precioso das nossas liberdades, dom espontâneo e generoso do Invito e Magnânimo DUQUE DE BRAGANÇA, nosso Incomparável Libertador. Mudou repentinamente a cena; e as lágrimas que ainda ontem nos arrancava a derradeira vítima de uma ferocidade tão criminosa, como inútil, continuaram ainda hoje a correr, não já de dor, mas de júbilo pela restauração da Legitimidade, e pela conquista dos nossos foros.

Bandeira liberal em Portugal, "a bicolor"
Através de todos os obstáculos dos nossos opressores tinha há dias chegado a nós a noticia de que uma porção da Divisão do Exército que libertara o Algarve, por meio de uma hábil manobra tinha atravessado o Alentejo, e resgatado Alcácer, e Setúbal: desde então a margem esquerda do Tejo era o fito contínuo de nossos olhos, para ao menos com eles, saudarmos a Bandeira Bicolor, caro pendão do nossos resgate. Durante a tarde de ontem um renhido Combate, que pouco e pouco se aproximou de Almada, nos anunciava a Victoria e aproximação dos nossos; mas a noite veio atalhar-nos o prazer, a que aspirávamos, de ver arvorar a Bicolor sobre os muros do Castelo daquela Vila.


Como a ninguém consentiu sono a esperança impaciente da manhã, por toda a parte se pressentiu que as tropas da Usurpação, penetradas de terror, largando a defesa, e a guarnição da Capital, fugiram em silêncio dos nossos muros, esquecidas já da bárbara arrogância com que durante o dia haviam escoltado o algoz, e proclamado novos suplícios em nome da Religião Santa que profanavam, e da Legitimidade que atacavam.

Então, e pela primeira vez então, olhámos para os pulsos, e já não vimos as algemas: ainda mal raiava o dia, e já as ruas estavam cheias de Cidadãos armados, correndo uns a soltar das masmorras as inumeráveis e inocentes vítimas da fidelidade que nelas gemiam, outros a arvorar no Castelo de S. Jorge, e nos fortes que estavam construidos na margem do Tejo em diferentes sítios da Cidade as Bandeiras da Liberdade, que de improviso se aprontaram; outros finalmente a aclamar por toda a parte a Rainha, a Carta, e a Regência do seu Augusto Legislador.

Este movimento foi espontâneo, e universal; todas as Hierarquias, todas as Classes de Cidadãos rivalizavam à porfía em ostentar fidelidade; praças, ruas, tudo se viu inundado repentinamente de Povo armado, que mutuamente se abraçava, dando-se recíproco parabem da recobrada Liberdade, e pedindo ser conduzido sobre as tropas do Usurpador [D. Miguel], que fugindo da Cidade haviam feito alto no Campo Grande. Acudiram logo a organizar-se a Guarda nacional do Comercio, e os outros Corpos Militares que a Usurpação havia licenciado; e todos os outros Cidadãos se organizaram em Companhias, e Batalhões, e correram a fazer guarda ao Erário, ao Banco, à Tesouraria, e aos mais Estabelecimentos Públicos, que tinham ficado desguarnecidos, ou foram ocupar para manter a ordem, os diferentes postos que o próprio instinto lhes designou.

No entanto arvorou-se a Bandeira da Legitimidade no Castelo as Bandeiras Britânica, e Francesa; e os Navios destas Potências surtos no Tejo juntaram a sua salva às que a terra dava ao Estandarte da Rainha.

Já então um número infinito de habitantes de Lisboa, atravessando o Tejo, haviam antecipado o prazer de abraçar os nossos Bravos Libertadores, e de congratular os seu Glorioso Chefe, o Invicto Duque da Terceira, convidando-os a não demorar igual prazer aos seus Considadãos.

À uma hora da tarde, no meio dos transportes do mais vivo entusiasmo, principiaram a desembarcar as Tropas da Rainha no Terreiro do Paço: depois de tantos anos de exílio, e de combates de todo o género; depois de tantos dias de marchas violentas, derrotados na esquerda do Tejo os últimos satélites da tirania, que ouraram temerariamente arrastá-los, puderam enfim restaurar a Capital, e o Tesouro da nossa Augusta Rainha, e receber nas Aclamações, nos abraços, e até nas lágrimas de gratidão, a que a sua heroicidade podia aspirar. não há termos para exprimir o entusiasmo, com que foi recebido o moderno Nuno Alvares, o indefeso Campeão da Legitimidade, e da Carta, o Victorioso Duque da Terceira: por muito tempo não lhe foi dado pisar o terreno; era transmitido de braços para braços, e ninguém se fartava de abençoar o Regente Augusto, que soube fazer justiça a tanta honra, depositando nele a sua confiança.

As Casas da Municipalidade desde o começo do dia tinham sido inundadas de Cidadãos, muitos deles pertencentes às mais elevadas hierarquias, que tinham aclamado ali solenemente o Governo Legítimo, lavrando disso Auto: agora o Duque da Terceira no meio de muitos Oficiais Generais, e acompanhado de um novo e numeroso concurso, foi pessoalmente ratificar aquele acto, entre o aplauso de uma população imensa; e não se recolheu ao seu Quartel General senão depois de dar as necessárias ordens, e adoptar as mais oportunas medidas para afiançar a organização civil da Capital, e manter a ordem pública, e a marcha regular da Autoridade em circunstâncias que seriam perigosas em qualquer Capital que não fosse Lisboa.

A proclamação que se segue foi logo publicada:

HABITANTES DE LISBOA

"A Divisão do Exercito Libertador, de cujo Comando Sua Majestade Imperial o Duque de Bragança, Regente em Nome da Rainha, Houve por bem encarregar-me, com a mira unicamente em libertar-vos, atravessou as Províncias do Sul do Tejo, e veio sobre a margem deste Rio fazer tremular diante de vós o Estandarte da Rainha, e da Liberdade; mas este Estandarte, a cuja sombra se abrigam no meio das perseguições do exílio, e dos combates, os Leais Sustentadores do Trono, e da Carta, jamais foi o Emblema da Guerra, e da Vingança, mas sim o da Paz, da Concórdia, da Reconciliação de toda a Família Portuguesa, e da Clemência, e Perdão para os iludidos, e desgraçados: portanto, Habitantes de Lisboa, a Ordem, o respeito aos Direitos de todos, a tranquilidade, e o sossego da Capital, é o que eu de vós espero, e exijo: eu tenho dado, e continuarei a dar as providências para o vosso regular Armamento, restabelecendo os mesmos Corpos, que em outro tempo foram o Sustentáculo da Rainha, e da Carta: neles, e naqueles, que passarei a organizar, tereis ocasião de partilhar a Glória de restaurar a Nação, de manter a ordem, e a tranquilidade dos nossos lares.
Quartel General em Lisboa aos 24 de Julho de 1833 - Duque da Terceira."

Qual outra linguagem podia ser a de um tal Português aos seus Compatriotas? Ser livre, é ser amante da ordem, e escravo da Lei: quem quiser cometer crimes; quem quiser ostentar valor diante de vítimas desarmadas: não se engane com as bandeiras, siga as da Usurpação e do Despotismo: as da liberdade, as da honra, e da civilização termolam só entre Soldados que não conhecem inimigo senão armado.

Prossigamos a gloriosa marcha que temos principiado, defendendo a liberdade, continuemos a mostrar à Europa que somos dignos dela; e conservando a ordem, e a obedecendo às Autoridades Legítimas, evitemos o flagelo da anarquia; e não cedamos em glória cívica a nenhum povo civilizado: continuemos a dar ao mundo admirado o raro exemplo de fazer revoluções sem as mancharmos de outro sangue que não seja o derramado no combate. (Vende-se na Loja da Administração, aos Mártires N.º 12)"

Portanto... está claro que os liberais lutaram com a NOVA bandeira, a azul e branca, à qual chamavam de "a bicolor" (entre outros nomes), não podia o inimigo contra quem lutavam ter bandeira de duas cores como os da recente teoria creem. Portanto, caindo por terra a teoria recente, resta apenas a tranquila opinião e conhecimento acostumado, e nunca antes colocado em causa: o Senhor D. Miguel, como Rei de Portugal, lutou com a bandeira do Reino de Portugal, que é de fundo branco.

É digno de nota: à "bicolor" chamavam também "da liberdade", e lutavam com ela os que chamavam de "tiranos" e lutavam pela tradicional e centenária bandeira branca.

(Posterior aclaração, aqui)

04/02/15

D. FR. FORTUNATO DE S. BOAVENTURA EM ROMA

D. Fr. Fortunato de S. Boaventura, Arcebispo de Évora.
"Ao lado de D. Miguel estava D. Fr. Fortunato de S. Boaventura, Arcebispo eleito de Évora, homem de fogo e de talento, pessoa com natas qualidades de condutor e muito da confiança do papa Gregório XVI. Um homem de ideias claras e palavras claras. Foi a ele que o Papa, por um breve, concedeu todos os poderes para as graças espirituais que de Portugal se solicitavam enquanto durou o estado das coisas políticas e religiosas, já se vê, sempre de acordo com o Cardial De Gregório, então o Penitenciário-Mor. Foi portanto D. Fr. Fortunato o Delegado Pontifício para os negócios espirituais de Portugal, como em certo modo o era D. Miguel junto dos emigrados que em Roma embalados de esperanças se iam, sabe Deus como, aumentando. Mas não era D. Fr. Fortunato homem para enganar os outros. Em 1837, em face do que sabia, era o primeiro a aconselhar os portugueses emigrados na Cidade Eterna a procurar suas vidas, pois que não seria possível continuar-lhes por mais tempo os socorros que estavam recebendo.

Porque eles, os emigrados, passaram verdadeiras necessidades. Não no princípio quando o dinheiro não era muito escasso e a certeza de uma próxima vitória e de uma volta breve à terra saudosa lhes alimentava o coração e a vaidade de sofrer e servir um ideal, e lhes robustecia os ímpetos de aniquilar os adversários liberais quer de dentro que de fora do país." ("Portugal em Roma", Vol. II. Pe. José de Castro; Lisboa, 1939, pág. 257 - com "nihil obstat" e "imprimatur")

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LIV)

(continuação da LIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XVII
Em Deus Todo o Nosso Cuidado

1. Cristo - Filho, deixa-me fazer de ti o que eu quiser. Eu sei o que te convém. Discorres como homem e julgas muitas coisas pelo afecto humano.

Alma - Senhor, o que dizeis é verdade; maior é o cuidado que tendes por mim do que aquele que a mim mesmo posso dedicar. Fazei de mim, Senhor, o que quiserdes, contanto que me façais a graça de permanecer firme em Vós. É impossível que não seja bom tudo o que fizerdes de mim.

2. Ou queirais que viva em trevas, ou que viva na luz, sede sempre bendito. Ou Vos digneis consolar a minha alma, ou Vos digneis afligi-la, sede sempre louvado.

Cristo - Filho, é assim que deves conduzir-te, se queres andar comigo. Deves estar igualmente disposto para o sofrimento e para a alegria. Deves, de boa vontade, ser pobre e necessitado, como rico e abundante.

3. Alma - Senhor, eu sofrerei de boa vontade, por Vosso amor, quanto quiserdes que eu padeça. Quero receber, indiferentemente, da Vossa mão, o bem e o mal, a doçura e a amargura, a alegria e a tristeza, e, por tudo isso, rendo-Vos contínuas acções de graças. Preservai-me só de ofender-Vos, e eu não temerei então a morte nem o Inferno. Não me rejeitando Vós eternamente nem me riscando do Livro da Vida, não me será nocivo tudo o mais que me acontecer.

CONTRA-MINA Nº 12: Liberalismo Contra a Restauração de Luís XVIII ... (III)

(continuação da II parte)

Clemente XII
Os discípulos de Voltaire, de Volney, e de Rousseau, estão dando as cartas em Paris, e o mesmo tem sucedido em outras cidade principais da França. O mesmo se viu em Turim pelos anos de 1820, e o mesmo se viu em outras cidades da Itália, como por exemplo em Alexandria, na mesma época; e ainda haverá quem diga, que a seita Universitária é um sonho dos Bispos de Roma; assim como já o foi em o Santo padre Clemente XII, o acreditar a existência de Padeiros Livres? Haverá sim, porque há homens para tudo; porém os factos repetidos, constantes, e indubitáveis clamam, e provam demonstrativamente a existência de tal "Seita Universitária"; e ditosos por certo são aqueles Soberanos, que têm conseguido atalhá-la, e sopeá-la por quantos modos, e artes cabem no seu poder.... Ainda não ouvi que os Estudantes de Alcalá, de Granada, ou de Salamanca fizessem ajuntamentos proibidos, e quisessem dar a Lei a seu Soberano; e porque será isto? Porque a Teologia estudada por S. Tomás, que ainda não decaiu, nem decairá jamais do seu bem merecido título de Anjo das Escolas, porque o direito canónico [refere-se ao direito canónico em geral, na sua Tradição, e não a uma codificação deste direito, que veio a acontecer só no séc. XX por mãos de S. Pio X], estudado pelas doutras preleções do Prelado Devoti, nunca há-de fazer os estudantes ingratos, e rebeldes para com os seus legítimos Soberanos.

Não fosse tão acrisolada a vigilância do Governo Hespanhol [refere-se aos dois Governos na Península Ibérica] sobre a entrada de Livros estrangeiros, mormente desde 1823 até ao presente, e veríamos o que já teria sucedido a estas horas. Bem sei, e não me foge, que os anos constitucionais alagaram à Península com uma enxurrada de livros franceses [vindos da França, entenda-se], ou castelhanos [vindos de Castela, entenda-se] estampados em França; porém os voluntários Realistas, e as diferentes autoridades civis, e eclesiásticas de Hespanha têm dado uma caça geral aos possuidores de tais livros; e graças a N. Senhora, ainda os bons poderão ter a consolação de verem tais pestes desterradas para sempre da Península, o que nos afiança a piedade, e zelo incansável dos Reis Fidelíssimo, e Católico; que se o Rei Carlos X tivesse governado à castelhana, assim como governou à francesa, isto é, debaixo de ideais de tolerância, e amalgamento, ainda hoje estaria assentado no Trono dos seus Maiores. E cuidará talvez o Rei Cristão, porque vê os estudantes da Polytechica mui dóceis à sua voz, que está mui bem seguro no Trono, e que o há de transmitir aos seus descendentes? Quanto se engana! Os Estudantes liberais não querem nem sombras de título de Rei; e mais dia menos dia mostrarão os seus verdadeiros intentos; pois já não pode ficar em problema, quais sejam os da "seita universitária", que têm duas bases, ou princípios fundamentais: 1º o Ateísmo, 2º Atravessar o coração de todos os reis. Quem se espantar do negrume de tão abomináveis princípios, ou é estúpido, ou também folga na taberna, e é como eles.

Colégio do Espírito Santo em Coimbra
22 de Janeiro de 1831.

Fr. Fortunato de S. Boaventura

"PORTUGAL EM ROMA" - O REI NO EXÍLIO (III)

(continuação da II parte)

Depois que D. Miguel regressou de Génova, foi a Pádua, partindo na tarde de 11 de Outubro, levando em sua companhia D. Bernardo de Almada e Pinetti, dentro do carro, e na almofada e traseira três criados. No segundo carro ia o Marquês de Lavradio e Guião, e todo o resto da Família de Sua Altesa ficou em Roma. Mas às portas da cidade Guião e Almada desceram e ficaram em Roma.

Roma
A propósito de D. Bernardo de Almada, camarista dedicadíssimo de D. Miguel, direi que no dia 8 de Maio de 1839 foi vítima de uma grande desgraça que o matou. Não se sabe como isto se passou, havendo-se ele separado naquele dia das outras pessoas com as quais tinha ido à caça das codornizes, e continuando só neste divertimento enquanto os companheiros voltavam para casa em Porto d'Anzio. Foi encontrado pelo boticário daquele lugar que também andava à caça e ao qual D. Bernardo pediu àgua para beber, e não a trazendo ele consigo lhe indicou a fonte que se achava a pequena distância, e para ali D. Bernardo se dirigiu. Passados coisa de dez minutos ouviu o boticário um tiro de espingarda que supoz dirigido por D. Bernardo contra alguma condorniz, e portanto não fez disto o menor caso, e de nenhum modo lhe veio ao pensamento o infortúnio acontecimento provavelmente aquele momento.

Não comparecendo porém D. Bernardo à ceia do dia 28 nem ao almoço do dia seguinte, um dos criados de D. Miguel, o cozinheiro, foi pelas casas que D. Bernardo frequentava em Porto d'Anzio procurar notícias dele, e encontrando o boticário este lhe referiu o que entre ambos se havia passado na precedente tarde, e também lhe falou no tiro que havia ouvido e do juízo que então fizera. o cozinheiro dirigiu-se ao sítio indicado, e ali encontrou D. Bernardo estendido por terra, e o cão deitado ao seu lado. Quis aproximar-se, mas o cão não o permitiu. Voltou a Porto d'Anzio e em companhia de outros criados e pessoas de lugar, entre as quais a autoridade civil do distrito, partiu sem demora para tomar conhecimento do triste facto, e acharam que morrera de um tiro de chumbo que lhe entrara pela parte inferior do queixo do lado direito e caiu pelo alto da cabeça; julgando-se que o tiro fôra da sua própria espingarda pois que se observou que um dos canos desta estava descarregado e armado o cão. Supõem-se que antes ou depois de beber água na própria fonte, o cão de caça que D. Bernardo muito estimava, festejando o seu dono e provavelmente levantando-se para subir por ele acima, como costumam os cães em tais circunstâncias no acto de voltar à sua natural posição, tocaria com uma das patas no gatilho, e fez disparar a espingarda, ainda que custa a conceber a reunião das circunstâncias para que um tiro disparado assim pudesse tomar a direcção observada, que mais parece dada de propósito que acidental.

Uma das coisas que mui preocupou o Marquês de Lavradio foi casar D. Miguel com uma irmã do Rei de Nápoles, tão certo estava do restabelecimento do seu Senhor em Portugal. Mas não estava assim optimista o Soberano irmão da escolhida, nem mesmo quisera concorrer para a subsistência de D. Miguel, com 500 ou 600 ducados mensais, segundo os desejos do Rei da Prússia. O Marquês de Lavradio devia ver o Rei de Nápoles no dia 17 de Janeiro de 1838; mas duvidando se devia apresentar-se de uniforme ou de casaca, escreveu ao Ministro dos Negócios Estrangeiro a este respeito, e neste intervalo o Rei adoeceu de maneira que só mais tarde foi recebido por S. Majestade, a tempo de conhecer os desígnios do embaixador [português], pelo que, ora por um pretexto ora por outro, se eximiu de marcar-lhe audiência, até que o Príncipe de Cassario, numa conversa que teve com o Marquês se referiu aos boatos que corriam a respeito da sua vinda a Nápoles, aos quais não presta o menor crédito, e lhe deu a entender que não convinha falar nesse assunto do casamento de Sua Majestade; e foi depois desta entrevista que o Príncipe de Cassario lhe participou a audiência real para o dia 3 de Fevereiro. Não saiu o Marquês de Lavradio porque tendo sido convidado para um baile da Côrte, ali se apresentou, mas apenas entrou nas primeiras salas, e imediatamente se retirou sem procurar entrar onde estava ElRei e a Família Real.

O Marquês de Lavradio vivia atormentado com a marcha dos assuntos políticos e com a saúde da sua filha mais velha, mui atacada de doença de peito. Em dois anos seguidos, 1838 e 1839, foi passar o verão no Porto de Fermo sobre o Adriático, fazendo no primeiro ano uma romaria a Nossa Senhora do Loreto, acompanhando da Viscondessa de Juromenha e seu marido.

(a continuar)

EVANGELIZAÇÃO PELOS PORTUGUESES - AGIOLÓGIO LUSITANO (I)

Urbano VIII

 §VIII
DA PROMULGAÇÃO DO SAGRADO EVANGELHO FEITA PELOS PORTUGUESES NOS DESCOBRIMENTOS E CONQUISTAS DESTE REINO

Para maior distinção, e clareza da matéria deste parágrafo o dividimos em três partes, segundo outras tantas segundo o orbe a que se estendem nossas conquistas. A primeira de África, a segunda de Ásia, a terceira de América. Quanto à de África, ganhada por ElRei D. João I, a cidade de Ceuta, querendo sublimá-la com Sé Catedral, o comunicou com o Papa Martinho V que por suas bulas deu faculdade aos Arcebispos D. Fernando (de Braga), e D. Pedro (de Lisboa), para a intitularem cidade, e lhe designar diocese própria. Sagrou-se a mesquita em igreja católica, e [teve] por seu primeiro bispo D. Fr. Aimaro, inglês, frade menor (confessor da Rainha D. Filipa que então era titular de Marrocos). A graça se expediu no ano 1421 nomeando-se-lhe em território, todo o Reino de Fez, e lugares mais propinquos, além do Estreito. Depois, no ano de 1444, o Papa Eugénio IV a fez Primaz da África, assegurando-lhe mais para sustento de seus prelados as duas administrações de Valença do Minho, e de Olivença; aquela pertencia a Tuy, esta a Badajoz ficando imediata da Sé Apostólica (passando alguns anos Sisto IV, no de 1474, a fez sufragânea a Braga, e por vários casos ultimamente veio ficar de Lisboa).

D. Afonso V
Foi Tânger fundação do gigante Antheo, e antiga colónia de romanos, em cujo tempo padeceu nela glorioso martírio S. Cassiano, seu natural, e patrono: e não faltam autores que afirmem que foi pátria do Sol dos Doutores, o grande Padre Sto. Agostinho, por muitas conjecturas que nós em seu dia trocaremos. E assim reservou o Céu para o dia do mesmo Santo do ano de 1471 franquearem os mouros a entrada desta quase inexpugnável praça, a ElRei D. Afonso V que então se achava em África com suas victoriosas armas da conquista de Arzila. Entrada a cidade se espiou logo a mesquita, e se arvorou nela o victorioso estandarte da Santa Cruz. E o Prior de S. Vicente de Lisboa, D. Nuno Alvares, Bispo titular da dita cidade (que acompanhava a ElRei) tomou posse dela, aplicando-se-lhe competentes rendas. Tem convento de Pregadores, e Cepta de Franciscanos, Trinos, que todos fazem grande fruto em seus moradores. Este Bispado de Tânger por razões que houve, depois se encorporou no de Cepta. Não falamos de Arzila, que tanto que ElRei D. Afonso a conquistou, se purificou a mesquita em Templo com título de Assumpção de N. Senhora; nem [falemos] de Azamor, dado que tomado aos mouros pelo Duque de Bragança, D. Jaime, no ano 1513, sua mesquita foi purificada e celebrou nela a primeira Missa o Mestre Fr. João de Chaves franciscano, que depois foi Bispo de Viseu; nem menos de Safim, que ganhando com maravilhosa indústria no ano 1506, por Diogo de Azambuja, e feito Bispado durou por alguns anos - ultimamente (por conveniências de estado) se largaram estas praças - e com não termos de presente em África, mais que as de Cepta, Tânger, Mazagão, se conservam neste Reino Bispos titulares de Marrocos, Fez, Salé, Nicomédia, e Targa, nas sés de Lisboa, Braga, Évora, e Coimbra, por serem conquistas desta Coroa, [e foram] deixadas Orão, Tunes, Mámora, e outras, que pertencem à de Castela: o que o Sumo Pontífice Urbano VIII tinha mui presente: pois no ano de 1639 presentando-se-lhe bulas em nome de D. Francisco de Faria para Bispo de Anel de Braga, e a título de Tunes, Sua Sanidade advertidamente não admitiu tal nomeação, dizendo que Tunes era da Coroa de Castela, e em seu lugar substituiu Marrocos, por ser conquista de Portugal.

(continuação, II parte)

03/02/15

REAL CONVENTO, EM MAFRA (Portugal)

HARMONIA POLÍTICA DOS DOCUMENTOS DIVINOS (VI)

(continuação da V parte)

CONSEQUÊNCIAS
Por Razão

D. João II
7. Da reputação resultam ao Príncipe três consequências importantíssimas:

8. A primeira, que seu exemplo regulará os súbditos; fazendo-os bons, os fará obedientes e fáceis de ser governados, fazendo-os maus mais, dificilmente sofrerão governador; a fama de seu brio lhes infundirá valor, e a de sua fraqueza os fará cobardes.

9. Quem duvida que o exemplo dos Sereníssimos Reis de Portugal doutrinava o povo [população] de quem eram (como dissemos) tão obedecidos? E [quem duvida] que a opinião de seu esforço animava nos seus, os corações galhardos?

10. A segunda, que tal qual for a reputação, tal será a autoridade (como o entenderam bem os Governadores daquela república antiga, os quais não quiseram publicar uma lei boa inventada por um homem suspeito nos costumes, sem lhe darem por autor outro [homem] de rectidão conhecida). A reputação é fundamento da estima, a estima o é da obediência; um Príncipe não pode temer que outrem não é estimado melhor que ele.

11. A boa reputação de nossos Reis lhes reforçava a autoridade com que imperavam tão absolutos, como já notámos; largo seria mostrar isto de cada um em particular, bastará por todos o grande D. João II tão cuidadoso nesta matéria, que andava de noite disfarçado informando-se do que se dizia dele; e como foi o mais solícito de seu crédito, foi o que com a autoridade venceu maiores contradições dos seus, como é notório.

12. A terceira, que conforme à reputação lhe deferiam os estrangeiros; um o fará amado, e temido; outro, odioso, e desprezado; pois como a moeda de ouro ou prata não tem comércio sem marca legítima, o não têm as acções e embaixadas poso que úteis, sem viverem marcadas da boa opinião, avaliam-se como presentes de tímidos, ou de inimigos, que se presumem enganosos, o exterior sempre é suspeitoso, ainda que o interior seja cândido; donde nasce que não se admite a liga do fraco, a oferta do interesseiro, nem a promessa do enganador; e assim é o mesmo desprezar a reputação que destruir os súbditos e arruinar o Estado.

13. A reputação que entre os estrangeiros tinha o excelente Rei D. Dinis (escreve Duarte Nunes) o fazia respeitar em todas as partes: pela que tinha o grande Rei D. João II disse Carlos VIII Rei de França que tendo-o por amigo se atreveria contra o mundo todo.

14. Não é minha intenção negar que a verdade pode mais que tudo, mas digo que a opinião vestida de suas cores lhe usurpa o Império colocando seu trono nos espíritos dos homens, de que perde a posse dificilmente; dali governa sem contradição, levanta e abaixa a seu alvedrio, põem o preço a todas as coisas; de modo que as de muito valor pouco se não levam o seu selo; por isso costuma ser tão poderosa nas ocorrências morais, que só com ela se livra um réu acusado de grandes indícios de delito; só com ela a presença de um républico aplaca um povo amotinado: só com ela a voz de um General repara um exército perdido; que muito? Se estende seu poder às matérias naturais, pois a opinião que o enfermo tem da ciência do médico, lhe aproveita algumas vezes tanto como a bondade dos remédios; a exemplo da imaginação, cuja força produz monstros em partos prodigiosos, quase zombando da natureza; Divinamente considerou tudo a Divina Política pelo Sábio quando disse: "Melhor é bom nome que muitas riquezas".

(continuação, VII parte)

CONTRA-MINA Nº 12: Liberalismo Contra a Restauração de Luís XVIII ... (II)

(continuação da I parte)

Vê-se de um relatório exactíssimo, o qual se dirigiu ao Ministro dos Negócios do Reino, que o número total de obras ímpias, e licenciosas, estampadas em França desde 1817 até ao fim de 1824, deitava a 2.741.400 volumes!!! E que mais poderia trabalhar uma Fábrica de venenos, que se instituísse para se dar cabo da espécie humana! Descansamos todavia a certas particularidades, que não deixam de vir muito ao acaso, para se medirem, e calcularem exactamente as forças deste poderosíssimo agente, e derramador das luzes, ou das ideias Liberais. Dentro daquele breve período de sete anos, publicaram-se doze edições de Voltaire, e treze de Rousseau, e de cada uma se tiraram 2000 a 3000 exemplares; e note-se, que além destas edições completas das obras destes corifeus da Maçonaria, só avulsas do Emílio se fizeram seis, e do Contracto Social nove, entrando nestas umas cinco em castelhano, que se publicaram no intuito de "alumiar" a Península das Hespanhas; o que não admira, pois as versões portuguesas desta obra já são pelo menos três, uma abafada no nascedouro, e as outras duas impressas, uma em Paris, e outra em Lisboa. Contou no mesmo período sete edições o compêndio da obra grande sobre a origem dos Cultos, e oito edições o Systema da Natureza, e dez edições o Livro das Ruínas de Volney.... Deixou esta boa alma um legado de 30 a 40$ [40.000 ?] cruzados, para se divulgar, quando fosse possível, a dita obra, e por isso os executores desta última, e piedosa vontade, mais deram que venderam as tais Ruínas, e bem ruínas! Não devem ficar de parte as Novelas do Ministro do Rei Nerónimo, ou do Pigault-Lebrun, que nos dobreditos anos encheram um total de 128.000 volumes; que muitos destes vieram ter a Coimbra, e aí fizeram os estragos, que eu sei, e que eu deploro.....

"Que Estado, e que Sociedade (assim escrevia em 1825 um Francês Cristão) poderá resistir a uns tais elementos de discórdia, e de ruínas? Quando a revolução rebentou em 1789, o perigo se entoava menos terrível. Não havia nesse tempo mais que duas edições de Voltaire, e outras tantas de Rousseau, e estas edições só chegavam aos homens ricos, ainda não se tinham ideado as edições económicas, que derramam o veneno em todas as condições da Sociedade; ainda não era conhecido o Voltaire das pessoas menos abastadas, o Voltaire das choupanas; ainda não se tinham posto em venda as obras de outros ímpios em um tamanho, e preço, que as fizesse chegar a todos. Se estes livros pois, que ainda não eram vulgares, fizeram tais estragos, e contribuíram muito para o geral transtorno, efectuado naqueles dias, que deverá suceder agora, quando é tão desmedido o seu número, quando não há quem deixe de os ter, uma vez que os queira, e às obras antigas sucedem outras muito mais atrevidas; quando todas as barreiras estão arrombadas, todos os laços quebrados, todas as leis estão nulas, e sem força, quando os papeis volantes, e os periódicos trabalham todas as manhãs por exaltar, e irritar os ânimos; quando enfim tudo conspira para que se desencaminhar a mocidade, e serem os Povos iludidos? Como se há-de resistir a tantos agentes combinados para o mesmo fim, que é a dissolução da Sociedade? E tudo se cala, e olha-se friamente para os trabalhos do crime; e até se mostra um receio de o inquietar nas sua tarefa! Esta insensibilidade dos Governos, esta espécie de tranquilidade na própria boca do precipício, é um fenómeno, que mal se pode explicar humanamente. À vista de um estupor assim tão fora do ordinário, perguntar-se, acaso terão eles ouvido aquela voz, que anuncia às nações o seu fim "Nunc finis super te" (de Ezequiel) e esperamos a tremer aqueles sucessos, que este repouso de terror, e da cegueira nos pressagia?"

Luís XVIII, Rei de França
Ora estes grandes males, tão fielmente descritos, e pintados em 1825, caminharam progressivamente até 1830, a ponto de que neste ano já era mui fácil calcular, ou não tivessem existido as mui tardias providências de Julho passado, em todo o caso, havia de ter o seu complemento, e reduzir o sucessor de Luís XVIII à condição de um simples particular, e de um homem proscripto, e desterrado.

(a continuar)

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LIII)

(continuação da LII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XVI
Só Em Deus Encontro a Verdadeira Consolação

1. Alma - Meu Deus, não é na Terra, mas sim no Céu, que eu espero as consolações que podem ser objectos dos meus pensamentos e dos meus desejos. Os prazeres e as delícias do mundo não passam de um momento. Alma minha, tu não podes achar uma alegria completa e perfeita senão no teu Deus,  que é o consolador dos pobres e a alegria dos humildes.
Espera um pouco as promessas do Salvador e acharás no Céu a abundância de todos os bens.
Se contra a ordem de Deus desejas os bens presentes e terrenos, perderás os celestes e eternos. Usa dos primeiros e deseja os segundos. Nenhuma coisa temporal pode cabalmente contentar-te, porque não foste criado para gozar as coisas sujeitas ao tempo.

2. Tu não serias feliz ainda que possuísses todo o bem que há nas criaturas.
Só Deus é o teu supremo Bem, só Ele pode fazer-te feliz, não do modo que os cegos amadores do mundo imaginam, mas enchendo-te desta felicidades pela qual suspiram os verdadeiros discípulos de Jesus Cristo e que experimentam, algumas vezes, por antecipação, as almas verdadeiramente puras, que, já neste mundo, têm os seus pensamentos no Céu.
Toda a consolação que vem da terra é falsa e pouco durável.
Não há verdadeiro prazer senão aquele que a verdade nos faz sentir no fundo do coração.
O homem devoto leva por toda a parte o seu consolador, que é Jesus, ao qual diz muitas vezes: "Assisti-me, meu Salvador, em todo o tempo e em todo o lugar. Todo o meu prazer consiste em privar-me voluntariamente de todos os prazeres humanos. Quando me falta a Vossa consolação, supra o seu lugar a lembrança de que esta falta é segundo a Vossa vontade, que quer fazer sobre mim uma justa experiência. A Vossa ira não é perpétua nem as Vossas ameaças são eternas."

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