12/02/15

EVANGELIZAÇÃO PELOS PORTUGUESES - AGIOLÓGIO LUSITANO (III)

(continuação da II parte)

Portugal na Etiópia
Para concluirmos o que nos falta da África, nos restam o Patriarcado de Etiópia, e os dois Bispados de Niceia, e Hierapoli; e para in perpetuum tirar prelados para eles, fez ElRei D. João III eleição da religião [refere-se a ordem religiosa] da Companhia, apresentando logo ao Papa Júlio III o Pe. João Nunes Barreto por Patriarca, e os padres Belchior Carneiro, e Andrade de Oviedo para Bispos, que o primeiro sucedesse naquela dignidade por morte do Patriarca, e o segundo ao companheiro na mesma contingência, os quais a Companhia aceitou com a devida submissão posto que repugnavam a seus estatutos; por constar manifestamente, que as honras, e rendas deles haviam de ser até morte excessivos trabalhos, largas peregrinações, e conhecidos perigos da vida. Contudo o Pe. João Nunes não aceitou sem consentimento de Sto. Inácio. De uma e outra coisa se edificou muito Sumo Pontífice, que logo expediu as letras com beneplácito do santo. E no mosteiro da Trindade desta cidade foram sagrados os Patriarca, e Andrade de Oviedo no ano 1555, assistindo a este solene acto o mesmo Rei, e toda a Corte, que o Pe. Carneiro foi sagrado na Índia. os frutos, que destas dignidades, e missões tirou a Companhia foram os mesmos que no princípio prometiam, e mui avantajados, pois amplificaram grandemente a glória de Cristo, e de sua Igreja naquelas dilatadas regiões, e na conversão de muitas almas, até finalmente alguns darem as vidas, como o ilustre Pe. Gonçalo da Silveira, que depois de baptizar ao Imperador da Etiópia, a Rainha sua Mãe, e 300 fidalgos de sua côrte, enganados pelos mouros, deram cruel morte, a quem com tanto zelo lhes tinha mostrado o caminho da salvação. Tem nossos dias o Pe. Apolinario de Almeida, Bispo de Niceia, conseguiu na mesma Etiópia igual aureola (pois testemunhou com o próprio sangue a verdade de nossa Fé, que prégava àquela cismática, e inconstante gente com um prolongado martírio. Porque depois de estar algumas horas no patíbulo despido, e à vergonha (trazendo ditosa companhia outros padres da própria família) antes de expirar, conspiraram contra ele os cismáticos, descarregando tremenda chuva de pedras sobre seus santos corpos, que todos ficaram debaixo sepultados. Esta breve digressão, devemos à boa memória deste bemaventurado padre, pois temos por grande felicidade haver gozado, alguns anos sua santa conversão, e familiaridade; que seus devidos louvores reservamos para o próprio dia.

(a continuar)

11/02/15

NOSSA SENHORA DE LOURDES - 11 de Fevereiro




Música: Magnificat - Fr. Manuel Cardoso (Portugal, séc. XVI/XVII)

10/02/15

ACLARAÇÃO - A "BICOLOR"

Rei D. Miguel, o Tradicionalista
Houve inesperadas reacções ao artigo A Bicolor - Refutação Definitiva. Uma delas veio da parte de um legitimista, situação dialogada; a outra veio por parte de um elemento da Causa Monárquica (mais concretamente da Real Associação da Beira Litoral), reacção que se limitou ao uso do poder, e sem qualquer diálogo. A Causa Monárquica usa a bicolor, e perante certa acusação, de estar ainda em guerra com os "absolutistas", resolveu integrar também a bandeira "branca", mas com coroa ducal (o que tem levado muitos a crer tratar-se da bandeira de Portugal, usada pelos últimos Reis até D. Miguel, inclusivo).

Amigos da Causa Monárquica, que usais da bicolor,

nunca os autores discordaram que a bicolor tivesse sido a bandeira exclusivamente levantada pelo liberalismo em Portugal, e como "bandeira nacional". Por isso, o artigo da Chronica Constitucional de Lisboa, o qual transcrevi no meu mencionado artigo, retrata tal realidade. Por ser isto verdade tão inegável, não se atreverão os da Causa Monárquica entrar em demonstrações contrárias.

A alguém que tentou fazer da Chronia Constitucional de Lisboa um documento de opinião muito particular, e por isso seria nada representativo nestas questões, direi que: é justamente o oposto. A Chrónica Constitucional de Lisboa manteve este nome de 1833 a 1834 (ano da usurpação total) e logo passou a ter o nome de Gazeta Oficial do Governo (*). O Chrónica Constitucional de Lisboa foi o órgão oficial do governo usurpador, desde o seu primeiro número, e nele foram publicadas as "leis" e comunicados "oficiais"; facto que explica a elevação do nome deste jornal, em 1834.

A verdade existe! O contar da história deve resultar da sujeição à verdade, e não aos desejos de quem quer que seja. Neste caso, o da bandeira liberal, os factos claros nunca deixaram espaço à dúvida. A bandeira bicolor é a bandeira liberal, sobre a qual esteve assente e jaze a linhagem de D. Pedro de Alcântara.

Desmotivo a Causa Monárquica a operar como aquele seu calado membro. Não irei motivar a Causa para o abandono da bicolor, visto que, muito ou pouco, defendem ainda as mesmas ideias da facção liberal, contra as quais D. Miguel e Portugal lutaram. Quem sabe... quem sabe, um dia!

(*) - cf. o II volume de "Jornais e Revistas do Séc. XIX", pág. 226.

09/02/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LV)

(continuação da LIV parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XVIII
A Exemplo de Jesus Cristo Sofremos as Misérias da Vida

1. Cristo - Filho, eu desci do Céu à Terra para te salvar. Sofri os males que te eram devidos, não obrigado da necessidade, mas sim do amor, para ensinar-te a saber sofrer e a levar sem indignação as penas e os trabalhos desta vida.
Desde o momento em que nasci até àquele em que expirei na Cruz, não estive sem dores.
Vivi em pobreza extrema, ouvi frequentes queixas contra mim. Sofri murmurações e injúrias atrozes. Vi os meus benefícios pagos com ingratidão, os meus milagres com blasfémias, a minha doutrina com sátiras.

2. Alma - Se Vós padecestes tanto e nisso rendestes a Vosso Pai soberana obediência, justo é que eu a mim mesmo me sofra, segundo a Vossa vontade, e leve, para minha salvação, sobre mim, enquanto quiserdes, o peso desta vida mortal.
Ainda que ela seja pesada, é, contudo, meritória, pelos socorros da Vossa graça, e até os mais fracos devem tolerá-la, depois do Vosso exemplo e daqueles que deram os Vossos santos.
Nela se encontram agora mais consolações do que na Antiga Lei, em cujo tempo a porta do Céu estava fechada e o caminho que a ela conduzia era muito escuro, por haver poucos que o frequentassem. A entrada neste reino eterno era interdita, ainda aos justos e santos daqueles primeiros tempos, porque ela não podia ser aberta senão à custa da Vossa Paixão e Morte.

3. Que graça não devo dar-vos pelo benefício que fizestes, a mim e a todos os fieis, mostrando-nos o caminho seguro que conduz ao Vosso reino!
A Vossa vida santa é o nosso caminho, e, imitando-Vos na paciência, caminhamos para Vós, que sois a recompensa dos nossos sofrimentos. Se Vós não andásseis primeiro por ele, quem se animaria a segui-lo? Quantos ficariam longe de Vós, se não vissem os Vossos nobres exemplos? Depois de tantos milagres e instruções que nos deixastes, ainda somos tíbios; que diria se não tivéssemos essa grande luz para seguir-Vos?

EVANGELIZAÇÃO PELOS PORTUGUESES - AGIOLÓGIO LUSITANO (II)

(continuação da I parte)

Advirto de passo, que os primeiros pregadores, que anunciaram a luz do sagrado Evangelho nas Canárias (depois de descobertas) foram portugueses, que lá passou logo o Beato Tadeu, frade agostinho, que pelo admirável fruto que fez na conversão e doutrina de seus moradores adquiriu o nome de Canário, com que é intitulado (como Cipião o de Africano pelas vitorias que alcançou em África) sendo o santo natural de Lisboa. Nelas havia já prégado, e padecido martírio S. Avito há mais de 1540 anos, pois foi no de Cristo 105. Estas ilhas se largaram depois da concordata a Castela, por cairem na sua demarcação.

Ilhas Canárias
Temos mais em confrontação da consta de África os bispados da ilha da Madeira, e Terceira, que sendo desertas, os nossos povoaram de Cristandade; daquela foi primeiro Bispo D. Diogo Pinheiro, Vigário de Tomar, nomeado por ElRei D. Manuel, e a sua instância, confirmado por Leão X, ano de 1514. Desta o Pe. Agostinho Ribeiro, frade loio, designado por ElRei D. João III, e confirmado por Paulo III, ano 1534. Uma, e outra Diocese tem de seu princípio Religiosos menores; os da Madeira, que são três de frades, e um de freiras, sujeitos à Província de Portugal; os da Terceira (que ano 1639 se desmembrou da dos Algarves) formam uma dilatada Província, intitulada de S. João Evangelista, compreende hoje 14 conventos de frades, e 6 de freiras (de mais de outros tantos sujeitos ao Ordinário) a cabeça de todos é N. Senhora da Guia na cidade de Angra. Nela, em S. Miguel, e Madeira têm colégios a Companhia de Jesus, onde estes religiosos exercitam seus santos ministérios, em ordem à salvação das almas.

Seguem-se as de Cabo Verde com seu primeiro Bispo D. Brás Neto, erecto no ano 1533. Nelas prégou o Pe. Baltasar Barreira da Companhia com admirável fruto, pois trouxe ao grémio da Igreja Católica inumeráveis gentios, que converteu, e baptizou, e entre eles a dois Reis: o da Serra Leoa e o de Tora. Após este o de S. Tomé eleito muito antes, na pessoa de D. Digo Ortiz de Vilhegas, cuja jurisdição por muitos anos se estendeu a todo o Reino do Congo, e como o principal fim dos descobrimentos dos Sereníssimos Reis de Portugal foi a conversão da gentilidade, e propagação do sagrado Evangelho, tanto que os nossos descobriram este Reino, mandaram logo pregadores, que o instruíssem nos mistérios de N.S. Fé; e seu Rei (movido por divina inspiração) foi as primícicias, que os nossos converteram naquele Reino no ano 1491. Em prova de sua conversão mandou este, D. Henrique, seu filho, com alguns vassalos seus, que aprenderam a doutrina Cristã e sagradas letras no mosteiro de S. Eloi de Lisboa, onde residiram 13 anos com grande exemplo e louvor. E feitos Sacerdotes, renunciou D. Diogo Ortiz o Bispado de S. Tomé no dito Príncipe D. Henrique. Tornado à pátria, seu pai o mandou a Roma no ano 1513 acompanhado de outros senhores, e fidalgos de seu Reino a dar obediência ao papa Leão X esujeitar à Sé Apostólica ceptro e coroa. E por ser Bispado de S. Tomé mui dilatado, e constar ao Papa Clmente VIII que havia 128 anos, que em Congo se conservava a Fé, depois que os nossos ali a pregáram, à instância o Prudente no ano de 1590 se desmembrou daquele Bispado o de Congo (que hoje separado se chama de Angola) em que o primeiro eleito foi D. Fr. Miguel Rangel, Capucho da província de Sto. António. Todos estes Bispados ultramarinos são sufragâneos à Metrópole de Lisboa. E tornando aos primeiros prégadores, que foram a S. Tomé, e Congo, achamos serem Monges de S. Bernardo do convento de Alcobaça, depois os Franciscanos, e Dominicanos, seguiram-se os Loios, e Gracianos, e os Padres da Companhia, e Carmelitas descalços, e ultimamente os Terceiros de S. Francisco, que todos têm feito copiosa sementeira para os celeiros da Igreja na conservação das almas, acabando os mais deles gloriosamente nesta santa empresa.

(a continuar)

05/02/15

A BANDEIRA BICOLOR - REFUTAÇÃO DEFINITIVA

Bandeira de Portugal
Anda a girar certa teoria segundo a qual contra a liberal bandeira azul e branca teria lutado a bandeira azul e vermelha (que querem atribuir a D. Miguel). Portanto, novidade das novidades, a bandeira de Portugal usada por D. Miguel não teria sido então a branca, segundo nos querem agora fazer crer, e teria sito bicolor.

Já que contra tal teoria não vi nenhum dos descontentados portugueses, eu mesmo proponho-me dar o argumento definitivo.

Para o meu propósito bastará tão somente transcrever a Chronica Constitucional de Lisboa (nº1, quinta feira, 25 de Julho de 1833), que é propaganda liberal-constitucional-maçónica. Embora este documento seja uma maléfica estratégia propagandística, a parte que nos importa agora, a da bandeira, pelos motivos mais óbvios é inteiramente fiável:

"LISBOA 24 de Julho: Graças ao Supremos Árbitro das Nações, ao Protector Indefectível da inocência oprimida, ao Defensor Eterno da justiça ultrajada [já se configura aqui o "deus Arquitecto"], quebrou-se finalmente, reduziu-se a pó, esse tirânico jugo de ignomínia, que há mais de cinco anos a aleivozia e o perjúrio auxiliados pela mentira, e escoltados pelo terror haviam feito pesar sobre os nossos ombros: derribou-se, ei-lo enfim por terra, esse despotismo de espécie nova na história moderna, complexo informe de insania e de ferocidade, de ignorância e de imoralidade, que nada menos se propunha que fazer-nos recuar pela ignorância à barbáries, perpetuando-nos na excomunhão política, em que nos havia posto a Europa civilizada.

Já respiramos a aura benéfica da liberdade legal; caíram os patíbulos, fugiram os verdugos; escravos ontem, somos homens Cidadãos; já não é crime a lealdade, e a honra; já podemos dar desafogo aos sentimentos da nossa fidelidade à nossa Augusta e Legítima Rainha, a Senhora D. Maria II, e da nossa firme adesão à Carta Constitucional, Código precioso das nossas liberdades, dom espontâneo e generoso do Invito e Magnânimo DUQUE DE BRAGANÇA, nosso Incomparável Libertador. Mudou repentinamente a cena; e as lágrimas que ainda ontem nos arrancava a derradeira vítima de uma ferocidade tão criminosa, como inútil, continuaram ainda hoje a correr, não já de dor, mas de júbilo pela restauração da Legitimidade, e pela conquista dos nossos foros.

Bandeira liberal em Portugal, "a bicolor"
Através de todos os obstáculos dos nossos opressores tinha há dias chegado a nós a noticia de que uma porção da Divisão do Exército que libertara o Algarve, por meio de uma hábil manobra tinha atravessado o Alentejo, e resgatado Alcácer, e Setúbal: desde então a margem esquerda do Tejo era o fito contínuo de nossos olhos, para ao menos com eles, saudarmos a Bandeira Bicolor, caro pendão do nossos resgate. Durante a tarde de ontem um renhido Combate, que pouco e pouco se aproximou de Almada, nos anunciava a Victoria e aproximação dos nossos; mas a noite veio atalhar-nos o prazer, a que aspirávamos, de ver arvorar a Bicolor sobre os muros do Castelo daquela Vila.


Como a ninguém consentiu sono a esperança impaciente da manhã, por toda a parte se pressentiu que as tropas da Usurpação, penetradas de terror, largando a defesa, e a guarnição da Capital, fugiram em silêncio dos nossos muros, esquecidas já da bárbara arrogância com que durante o dia haviam escoltado o algoz, e proclamado novos suplícios em nome da Religião Santa que profanavam, e da Legitimidade que atacavam.

Então, e pela primeira vez então, olhámos para os pulsos, e já não vimos as algemas: ainda mal raiava o dia, e já as ruas estavam cheias de Cidadãos armados, correndo uns a soltar das masmorras as inumeráveis e inocentes vítimas da fidelidade que nelas gemiam, outros a arvorar no Castelo de S. Jorge, e nos fortes que estavam construidos na margem do Tejo em diferentes sítios da Cidade as Bandeiras da Liberdade, que de improviso se aprontaram; outros finalmente a aclamar por toda a parte a Rainha, a Carta, e a Regência do seu Augusto Legislador.

Este movimento foi espontâneo, e universal; todas as Hierarquias, todas as Classes de Cidadãos rivalizavam à porfía em ostentar fidelidade; praças, ruas, tudo se viu inundado repentinamente de Povo armado, que mutuamente se abraçava, dando-se recíproco parabem da recobrada Liberdade, e pedindo ser conduzido sobre as tropas do Usurpador [D. Miguel], que fugindo da Cidade haviam feito alto no Campo Grande. Acudiram logo a organizar-se a Guarda nacional do Comercio, e os outros Corpos Militares que a Usurpação havia licenciado; e todos os outros Cidadãos se organizaram em Companhias, e Batalhões, e correram a fazer guarda ao Erário, ao Banco, à Tesouraria, e aos mais Estabelecimentos Públicos, que tinham ficado desguarnecidos, ou foram ocupar para manter a ordem, os diferentes postos que o próprio instinto lhes designou.

No entanto arvorou-se a Bandeira da Legitimidade no Castelo as Bandeiras Britânica, e Francesa; e os Navios destas Potências surtos no Tejo juntaram a sua salva às que a terra dava ao Estandarte da Rainha.

Já então um número infinito de habitantes de Lisboa, atravessando o Tejo, haviam antecipado o prazer de abraçar os nossos Bravos Libertadores, e de congratular os seu Glorioso Chefe, o Invicto Duque da Terceira, convidando-os a não demorar igual prazer aos seus Considadãos.

À uma hora da tarde, no meio dos transportes do mais vivo entusiasmo, principiaram a desembarcar as Tropas da Rainha no Terreiro do Paço: depois de tantos anos de exílio, e de combates de todo o género; depois de tantos dias de marchas violentas, derrotados na esquerda do Tejo os últimos satélites da tirania, que ouraram temerariamente arrastá-los, puderam enfim restaurar a Capital, e o Tesouro da nossa Augusta Rainha, e receber nas Aclamações, nos abraços, e até nas lágrimas de gratidão, a que a sua heroicidade podia aspirar. não há termos para exprimir o entusiasmo, com que foi recebido o moderno Nuno Alvares, o indefeso Campeão da Legitimidade, e da Carta, o Victorioso Duque da Terceira: por muito tempo não lhe foi dado pisar o terreno; era transmitido de braços para braços, e ninguém se fartava de abençoar o Regente Augusto, que soube fazer justiça a tanta honra, depositando nele a sua confiança.

As Casas da Municipalidade desde o começo do dia tinham sido inundadas de Cidadãos, muitos deles pertencentes às mais elevadas hierarquias, que tinham aclamado ali solenemente o Governo Legítimo, lavrando disso Auto: agora o Duque da Terceira no meio de muitos Oficiais Generais, e acompanhado de um novo e numeroso concurso, foi pessoalmente ratificar aquele acto, entre o aplauso de uma população imensa; e não se recolheu ao seu Quartel General senão depois de dar as necessárias ordens, e adoptar as mais oportunas medidas para afiançar a organização civil da Capital, e manter a ordem pública, e a marcha regular da Autoridade em circunstâncias que seriam perigosas em qualquer Capital que não fosse Lisboa.

A proclamação que se segue foi logo publicada:

HABITANTES DE LISBOA

"A Divisão do Exercito Libertador, de cujo Comando Sua Majestade Imperial o Duque de Bragança, Regente em Nome da Rainha, Houve por bem encarregar-me, com a mira unicamente em libertar-vos, atravessou as Províncias do Sul do Tejo, e veio sobre a margem deste Rio fazer tremular diante de vós o Estandarte da Rainha, e da Liberdade; mas este Estandarte, a cuja sombra se abrigam no meio das perseguições do exílio, e dos combates, os Leais Sustentadores do Trono, e da Carta, jamais foi o Emblema da Guerra, e da Vingança, mas sim o da Paz, da Concórdia, da Reconciliação de toda a Família Portuguesa, e da Clemência, e Perdão para os iludidos, e desgraçados: portanto, Habitantes de Lisboa, a Ordem, o respeito aos Direitos de todos, a tranquilidade, e o sossego da Capital, é o que eu de vós espero, e exijo: eu tenho dado, e continuarei a dar as providências para o vosso regular Armamento, restabelecendo os mesmos Corpos, que em outro tempo foram o Sustentáculo da Rainha, e da Carta: neles, e naqueles, que passarei a organizar, tereis ocasião de partilhar a Glória de restaurar a Nação, de manter a ordem, e a tranquilidade dos nossos lares.
Quartel General em Lisboa aos 24 de Julho de 1833 - Duque da Terceira."

Qual outra linguagem podia ser a de um tal Português aos seus Compatriotas? Ser livre, é ser amante da ordem, e escravo da Lei: quem quiser cometer crimes; quem quiser ostentar valor diante de vítimas desarmadas: não se engane com as bandeiras, siga as da Usurpação e do Despotismo: as da liberdade, as da honra, e da civilização termolam só entre Soldados que não conhecem inimigo senão armado.

Prossigamos a gloriosa marcha que temos principiado, defendendo a liberdade, continuemos a mostrar à Europa que somos dignos dela; e conservando a ordem, e a obedecendo às Autoridades Legítimas, evitemos o flagelo da anarquia; e não cedamos em glória cívica a nenhum povo civilizado: continuemos a dar ao mundo admirado o raro exemplo de fazer revoluções sem as mancharmos de outro sangue que não seja o derramado no combate. (Vende-se na Loja da Administração, aos Mártires N.º 12)"

Portanto... está claro que os liberais lutaram com a NOVA bandeira, a azul e branca, à qual chamavam de "a bicolor" (entre outros nomes), não podia o inimigo contra quem lutavam ter bandeira de duas cores como os da recente teoria creem. Portanto, caindo por terra a teoria recente, resta apenas a tranquila opinião e conhecimento acostumado, e nunca antes colocado em causa: o Senhor D. Miguel, como Rei de Portugal, lutou com a bandeira do Reino de Portugal, que é de fundo branco.

É digno de nota: à "bicolor" chamavam também "da liberdade", e lutavam com ela os que chamavam de "tiranos" e lutavam pela tradicional e centenária bandeira branca.

(Posterior aclaração, aqui)

04/02/15

D. FR. FORTUNATO DE S. BOAVENTURA EM ROMA

D. Fr. Fortunato de S. Boaventura, Arcebispo de Évora.
"Ao lado de D. Miguel estava D. Fr. Fortunato de S. Boaventura, Arcebispo eleito de Évora, homem de fogo e de talento, pessoa com natas qualidades de condutor e muito da confiança do papa Gregório XVI. Um homem de ideias claras e palavras claras. Foi a ele que o Papa, por um breve, concedeu todos os poderes para as graças espirituais que de Portugal se solicitavam enquanto durou o estado das coisas políticas e religiosas, já se vê, sempre de acordo com o Cardial De Gregório, então o Penitenciário-Mor. Foi portanto D. Fr. Fortunato o Delegado Pontifício para os negócios espirituais de Portugal, como em certo modo o era D. Miguel junto dos emigrados que em Roma embalados de esperanças se iam, sabe Deus como, aumentando. Mas não era D. Fr. Fortunato homem para enganar os outros. Em 1837, em face do que sabia, era o primeiro a aconselhar os portugueses emigrados na Cidade Eterna a procurar suas vidas, pois que não seria possível continuar-lhes por mais tempo os socorros que estavam recebendo.

Porque eles, os emigrados, passaram verdadeiras necessidades. Não no princípio quando o dinheiro não era muito escasso e a certeza de uma próxima vitória e de uma volta breve à terra saudosa lhes alimentava o coração e a vaidade de sofrer e servir um ideal, e lhes robustecia os ímpetos de aniquilar os adversários liberais quer de dentro que de fora do país." ("Portugal em Roma", Vol. II. Pe. José de Castro; Lisboa, 1939, pág. 257 - com "nihil obstat" e "imprimatur")

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LIV)

(continuação da LIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XVII
Em Deus Todo o Nosso Cuidado

1. Cristo - Filho, deixa-me fazer de ti o que eu quiser. Eu sei o que te convém. Discorres como homem e julgas muitas coisas pelo afecto humano.

Alma - Senhor, o que dizeis é verdade; maior é o cuidado que tendes por mim do que aquele que a mim mesmo posso dedicar. Fazei de mim, Senhor, o que quiserdes, contanto que me façais a graça de permanecer firme em Vós. É impossível que não seja bom tudo o que fizerdes de mim.

2. Ou queirais que viva em trevas, ou que viva na luz, sede sempre bendito. Ou Vos digneis consolar a minha alma, ou Vos digneis afligi-la, sede sempre louvado.

Cristo - Filho, é assim que deves conduzir-te, se queres andar comigo. Deves estar igualmente disposto para o sofrimento e para a alegria. Deves, de boa vontade, ser pobre e necessitado, como rico e abundante.

3. Alma - Senhor, eu sofrerei de boa vontade, por Vosso amor, quanto quiserdes que eu padeça. Quero receber, indiferentemente, da Vossa mão, o bem e o mal, a doçura e a amargura, a alegria e a tristeza, e, por tudo isso, rendo-Vos contínuas acções de graças. Preservai-me só de ofender-Vos, e eu não temerei então a morte nem o Inferno. Não me rejeitando Vós eternamente nem me riscando do Livro da Vida, não me será nocivo tudo o mais que me acontecer.

CONTRA-MINA Nº 12: Liberalismo Contra a Restauração de Luís XVIII ... (III)

(continuação da II parte)

Clemente XII
Os discípulos de Voltaire, de Volney, e de Rousseau, estão dando as cartas em Paris, e o mesmo tem sucedido em outras cidade principais da França. O mesmo se viu em Turim pelos anos de 1820, e o mesmo se viu em outras cidades da Itália, como por exemplo em Alexandria, na mesma época; e ainda haverá quem diga, que a seita Universitária é um sonho dos Bispos de Roma; assim como já o foi em o Santo padre Clemente XII, o acreditar a existência de Padeiros Livres? Haverá sim, porque há homens para tudo; porém os factos repetidos, constantes, e indubitáveis clamam, e provam demonstrativamente a existência de tal "Seita Universitária"; e ditosos por certo são aqueles Soberanos, que têm conseguido atalhá-la, e sopeá-la por quantos modos, e artes cabem no seu poder.... Ainda não ouvi que os Estudantes de Alcalá, de Granada, ou de Salamanca fizessem ajuntamentos proibidos, e quisessem dar a Lei a seu Soberano; e porque será isto? Porque a Teologia estudada por S. Tomás, que ainda não decaiu, nem decairá jamais do seu bem merecido título de Anjo das Escolas, porque o direito canónico [refere-se ao direito canónico em geral, na sua Tradição, e não a uma codificação deste direito, que veio a acontecer só no séc. XX por mãos de S. Pio X], estudado pelas doutras preleções do Prelado Devoti, nunca há-de fazer os estudantes ingratos, e rebeldes para com os seus legítimos Soberanos.

Não fosse tão acrisolada a vigilância do Governo Hespanhol [refere-se aos dois Governos na Península Ibérica] sobre a entrada de Livros estrangeiros, mormente desde 1823 até ao presente, e veríamos o que já teria sucedido a estas horas. Bem sei, e não me foge, que os anos constitucionais alagaram à Península com uma enxurrada de livros franceses [vindos da França, entenda-se], ou castelhanos [vindos de Castela, entenda-se] estampados em França; porém os voluntários Realistas, e as diferentes autoridades civis, e eclesiásticas de Hespanha têm dado uma caça geral aos possuidores de tais livros; e graças a N. Senhora, ainda os bons poderão ter a consolação de verem tais pestes desterradas para sempre da Península, o que nos afiança a piedade, e zelo incansável dos Reis Fidelíssimo, e Católico; que se o Rei Carlos X tivesse governado à castelhana, assim como governou à francesa, isto é, debaixo de ideais de tolerância, e amalgamento, ainda hoje estaria assentado no Trono dos seus Maiores. E cuidará talvez o Rei Cristão, porque vê os estudantes da Polytechica mui dóceis à sua voz, que está mui bem seguro no Trono, e que o há de transmitir aos seus descendentes? Quanto se engana! Os Estudantes liberais não querem nem sombras de título de Rei; e mais dia menos dia mostrarão os seus verdadeiros intentos; pois já não pode ficar em problema, quais sejam os da "seita universitária", que têm duas bases, ou princípios fundamentais: 1º o Ateísmo, 2º Atravessar o coração de todos os reis. Quem se espantar do negrume de tão abomináveis princípios, ou é estúpido, ou também folga na taberna, e é como eles.

Colégio do Espírito Santo em Coimbra
22 de Janeiro de 1831.

Fr. Fortunato de S. Boaventura

"PORTUGAL EM ROMA" - O REI NO EXÍLIO (III)

(continuação da II parte)

Depois que D. Miguel regressou de Génova, foi a Pádua, partindo na tarde de 11 de Outubro, levando em sua companhia D. Bernardo de Almada e Pinetti, dentro do carro, e na almofada e traseira três criados. No segundo carro ia o Marquês de Lavradio e Guião, e todo o resto da Família de Sua Altesa ficou em Roma. Mas às portas da cidade Guião e Almada desceram e ficaram em Roma.

Roma
A propósito de D. Bernardo de Almada, camarista dedicadíssimo de D. Miguel, direi que no dia 8 de Maio de 1839 foi vítima de uma grande desgraça que o matou. Não se sabe como isto se passou, havendo-se ele separado naquele dia das outras pessoas com as quais tinha ido à caça das codornizes, e continuando só neste divertimento enquanto os companheiros voltavam para casa em Porto d'Anzio. Foi encontrado pelo boticário daquele lugar que também andava à caça e ao qual D. Bernardo pediu àgua para beber, e não a trazendo ele consigo lhe indicou a fonte que se achava a pequena distância, e para ali D. Bernardo se dirigiu. Passados coisa de dez minutos ouviu o boticário um tiro de espingarda que supoz dirigido por D. Bernardo contra alguma condorniz, e portanto não fez disto o menor caso, e de nenhum modo lhe veio ao pensamento o infortúnio acontecimento provavelmente aquele momento.

Não comparecendo porém D. Bernardo à ceia do dia 28 nem ao almoço do dia seguinte, um dos criados de D. Miguel, o cozinheiro, foi pelas casas que D. Bernardo frequentava em Porto d'Anzio procurar notícias dele, e encontrando o boticário este lhe referiu o que entre ambos se havia passado na precedente tarde, e também lhe falou no tiro que havia ouvido e do juízo que então fizera. o cozinheiro dirigiu-se ao sítio indicado, e ali encontrou D. Bernardo estendido por terra, e o cão deitado ao seu lado. Quis aproximar-se, mas o cão não o permitiu. Voltou a Porto d'Anzio e em companhia de outros criados e pessoas de lugar, entre as quais a autoridade civil do distrito, partiu sem demora para tomar conhecimento do triste facto, e acharam que morrera de um tiro de chumbo que lhe entrara pela parte inferior do queixo do lado direito e caiu pelo alto da cabeça; julgando-se que o tiro fôra da sua própria espingarda pois que se observou que um dos canos desta estava descarregado e armado o cão. Supõem-se que antes ou depois de beber água na própria fonte, o cão de caça que D. Bernardo muito estimava, festejando o seu dono e provavelmente levantando-se para subir por ele acima, como costumam os cães em tais circunstâncias no acto de voltar à sua natural posição, tocaria com uma das patas no gatilho, e fez disparar a espingarda, ainda que custa a conceber a reunião das circunstâncias para que um tiro disparado assim pudesse tomar a direcção observada, que mais parece dada de propósito que acidental.

Uma das coisas que mui preocupou o Marquês de Lavradio foi casar D. Miguel com uma irmã do Rei de Nápoles, tão certo estava do restabelecimento do seu Senhor em Portugal. Mas não estava assim optimista o Soberano irmão da escolhida, nem mesmo quisera concorrer para a subsistência de D. Miguel, com 500 ou 600 ducados mensais, segundo os desejos do Rei da Prússia. O Marquês de Lavradio devia ver o Rei de Nápoles no dia 17 de Janeiro de 1838; mas duvidando se devia apresentar-se de uniforme ou de casaca, escreveu ao Ministro dos Negócios Estrangeiro a este respeito, e neste intervalo o Rei adoeceu de maneira que só mais tarde foi recebido por S. Majestade, a tempo de conhecer os desígnios do embaixador [português], pelo que, ora por um pretexto ora por outro, se eximiu de marcar-lhe audiência, até que o Príncipe de Cassario, numa conversa que teve com o Marquês se referiu aos boatos que corriam a respeito da sua vinda a Nápoles, aos quais não presta o menor crédito, e lhe deu a entender que não convinha falar nesse assunto do casamento de Sua Majestade; e foi depois desta entrevista que o Príncipe de Cassario lhe participou a audiência real para o dia 3 de Fevereiro. Não saiu o Marquês de Lavradio porque tendo sido convidado para um baile da Côrte, ali se apresentou, mas apenas entrou nas primeiras salas, e imediatamente se retirou sem procurar entrar onde estava ElRei e a Família Real.

O Marquês de Lavradio vivia atormentado com a marcha dos assuntos políticos e com a saúde da sua filha mais velha, mui atacada de doença de peito. Em dois anos seguidos, 1838 e 1839, foi passar o verão no Porto de Fermo sobre o Adriático, fazendo no primeiro ano uma romaria a Nossa Senhora do Loreto, acompanhando da Viscondessa de Juromenha e seu marido.

(a continuar)

EVANGELIZAÇÃO PELOS PORTUGUESES - AGIOLÓGIO LUSITANO (I)

Urbano VIII

 §VIII
DA PROMULGAÇÃO DO SAGRADO EVANGELHO FEITA PELOS PORTUGUESES NOS DESCOBRIMENTOS E CONQUISTAS DESTE REINO

Para maior distinção, e clareza da matéria deste parágrafo o dividimos em três partes, segundo outras tantas segundo o orbe a que se estendem nossas conquistas. A primeira de África, a segunda de Ásia, a terceira de América. Quanto à de África, ganhada por ElRei D. João I, a cidade de Ceuta, querendo sublimá-la com Sé Catedral, o comunicou com o Papa Martinho V que por suas bulas deu faculdade aos Arcebispos D. Fernando (de Braga), e D. Pedro (de Lisboa), para a intitularem cidade, e lhe designar diocese própria. Sagrou-se a mesquita em igreja católica, e [teve] por seu primeiro bispo D. Fr. Aimaro, inglês, frade menor (confessor da Rainha D. Filipa que então era titular de Marrocos). A graça se expediu no ano 1421 nomeando-se-lhe em território, todo o Reino de Fez, e lugares mais propinquos, além do Estreito. Depois, no ano de 1444, o Papa Eugénio IV a fez Primaz da África, assegurando-lhe mais para sustento de seus prelados as duas administrações de Valença do Minho, e de Olivença; aquela pertencia a Tuy, esta a Badajoz ficando imediata da Sé Apostólica (passando alguns anos Sisto IV, no de 1474, a fez sufragânea a Braga, e por vários casos ultimamente veio ficar de Lisboa).

D. Afonso V
Foi Tânger fundação do gigante Antheo, e antiga colónia de romanos, em cujo tempo padeceu nela glorioso martírio S. Cassiano, seu natural, e patrono: e não faltam autores que afirmem que foi pátria do Sol dos Doutores, o grande Padre Sto. Agostinho, por muitas conjecturas que nós em seu dia trocaremos. E assim reservou o Céu para o dia do mesmo Santo do ano de 1471 franquearem os mouros a entrada desta quase inexpugnável praça, a ElRei D. Afonso V que então se achava em África com suas victoriosas armas da conquista de Arzila. Entrada a cidade se espiou logo a mesquita, e se arvorou nela o victorioso estandarte da Santa Cruz. E o Prior de S. Vicente de Lisboa, D. Nuno Alvares, Bispo titular da dita cidade (que acompanhava a ElRei) tomou posse dela, aplicando-se-lhe competentes rendas. Tem convento de Pregadores, e Cepta de Franciscanos, Trinos, que todos fazem grande fruto em seus moradores. Este Bispado de Tânger por razões que houve, depois se encorporou no de Cepta. Não falamos de Arzila, que tanto que ElRei D. Afonso a conquistou, se purificou a mesquita em Templo com título de Assumpção de N. Senhora; nem [falemos] de Azamor, dado que tomado aos mouros pelo Duque de Bragança, D. Jaime, no ano 1513, sua mesquita foi purificada e celebrou nela a primeira Missa o Mestre Fr. João de Chaves franciscano, que depois foi Bispo de Viseu; nem menos de Safim, que ganhando com maravilhosa indústria no ano 1506, por Diogo de Azambuja, e feito Bispado durou por alguns anos - ultimamente (por conveniências de estado) se largaram estas praças - e com não termos de presente em África, mais que as de Cepta, Tânger, Mazagão, se conservam neste Reino Bispos titulares de Marrocos, Fez, Salé, Nicomédia, e Targa, nas sés de Lisboa, Braga, Évora, e Coimbra, por serem conquistas desta Coroa, [e foram] deixadas Orão, Tunes, Mámora, e outras, que pertencem à de Castela: o que o Sumo Pontífice Urbano VIII tinha mui presente: pois no ano de 1639 presentando-se-lhe bulas em nome de D. Francisco de Faria para Bispo de Anel de Braga, e a título de Tunes, Sua Sanidade advertidamente não admitiu tal nomeação, dizendo que Tunes era da Coroa de Castela, e em seu lugar substituiu Marrocos, por ser conquista de Portugal.

(continuação, II parte)

03/02/15

REAL CONVENTO, EM MAFRA (Portugal)

HARMONIA POLÍTICA DOS DOCUMENTOS DIVINOS (VI)

(continuação da V parte)

CONSEQUÊNCIAS
Por Razão

D. João II
7. Da reputação resultam ao Príncipe três consequências importantíssimas:

8. A primeira, que seu exemplo regulará os súbditos; fazendo-os bons, os fará obedientes e fáceis de ser governados, fazendo-os maus mais, dificilmente sofrerão governador; a fama de seu brio lhes infundirá valor, e a de sua fraqueza os fará cobardes.

9. Quem duvida que o exemplo dos Sereníssimos Reis de Portugal doutrinava o povo [população] de quem eram (como dissemos) tão obedecidos? E [quem duvida] que a opinião de seu esforço animava nos seus, os corações galhardos?

10. A segunda, que tal qual for a reputação, tal será a autoridade (como o entenderam bem os Governadores daquela república antiga, os quais não quiseram publicar uma lei boa inventada por um homem suspeito nos costumes, sem lhe darem por autor outro [homem] de rectidão conhecida). A reputação é fundamento da estima, a estima o é da obediência; um Príncipe não pode temer que outrem não é estimado melhor que ele.

11. A boa reputação de nossos Reis lhes reforçava a autoridade com que imperavam tão absolutos, como já notámos; largo seria mostrar isto de cada um em particular, bastará por todos o grande D. João II tão cuidadoso nesta matéria, que andava de noite disfarçado informando-se do que se dizia dele; e como foi o mais solícito de seu crédito, foi o que com a autoridade venceu maiores contradições dos seus, como é notório.

12. A terceira, que conforme à reputação lhe deferiam os estrangeiros; um o fará amado, e temido; outro, odioso, e desprezado; pois como a moeda de ouro ou prata não tem comércio sem marca legítima, o não têm as acções e embaixadas poso que úteis, sem viverem marcadas da boa opinião, avaliam-se como presentes de tímidos, ou de inimigos, que se presumem enganosos, o exterior sempre é suspeitoso, ainda que o interior seja cândido; donde nasce que não se admite a liga do fraco, a oferta do interesseiro, nem a promessa do enganador; e assim é o mesmo desprezar a reputação que destruir os súbditos e arruinar o Estado.

13. A reputação que entre os estrangeiros tinha o excelente Rei D. Dinis (escreve Duarte Nunes) o fazia respeitar em todas as partes: pela que tinha o grande Rei D. João II disse Carlos VIII Rei de França que tendo-o por amigo se atreveria contra o mundo todo.

14. Não é minha intenção negar que a verdade pode mais que tudo, mas digo que a opinião vestida de suas cores lhe usurpa o Império colocando seu trono nos espíritos dos homens, de que perde a posse dificilmente; dali governa sem contradição, levanta e abaixa a seu alvedrio, põem o preço a todas as coisas; de modo que as de muito valor pouco se não levam o seu selo; por isso costuma ser tão poderosa nas ocorrências morais, que só com ela se livra um réu acusado de grandes indícios de delito; só com ela a presença de um républico aplaca um povo amotinado: só com ela a voz de um General repara um exército perdido; que muito? Se estende seu poder às matérias naturais, pois a opinião que o enfermo tem da ciência do médico, lhe aproveita algumas vezes tanto como a bondade dos remédios; a exemplo da imaginação, cuja força produz monstros em partos prodigiosos, quase zombando da natureza; Divinamente considerou tudo a Divina Política pelo Sábio quando disse: "Melhor é bom nome que muitas riquezas".

(continuação, VII parte)

CONTRA-MINA Nº 12: Liberalismo Contra a Restauração de Luís XVIII ... (II)

(continuação da I parte)

Vê-se de um relatório exactíssimo, o qual se dirigiu ao Ministro dos Negócios do Reino, que o número total de obras ímpias, e licenciosas, estampadas em França desde 1817 até ao fim de 1824, deitava a 2.741.400 volumes!!! E que mais poderia trabalhar uma Fábrica de venenos, que se instituísse para se dar cabo da espécie humana! Descansamos todavia a certas particularidades, que não deixam de vir muito ao acaso, para se medirem, e calcularem exactamente as forças deste poderosíssimo agente, e derramador das luzes, ou das ideias Liberais. Dentro daquele breve período de sete anos, publicaram-se doze edições de Voltaire, e treze de Rousseau, e de cada uma se tiraram 2000 a 3000 exemplares; e note-se, que além destas edições completas das obras destes corifeus da Maçonaria, só avulsas do Emílio se fizeram seis, e do Contracto Social nove, entrando nestas umas cinco em castelhano, que se publicaram no intuito de "alumiar" a Península das Hespanhas; o que não admira, pois as versões portuguesas desta obra já são pelo menos três, uma abafada no nascedouro, e as outras duas impressas, uma em Paris, e outra em Lisboa. Contou no mesmo período sete edições o compêndio da obra grande sobre a origem dos Cultos, e oito edições o Systema da Natureza, e dez edições o Livro das Ruínas de Volney.... Deixou esta boa alma um legado de 30 a 40$ [40.000 ?] cruzados, para se divulgar, quando fosse possível, a dita obra, e por isso os executores desta última, e piedosa vontade, mais deram que venderam as tais Ruínas, e bem ruínas! Não devem ficar de parte as Novelas do Ministro do Rei Nerónimo, ou do Pigault-Lebrun, que nos dobreditos anos encheram um total de 128.000 volumes; que muitos destes vieram ter a Coimbra, e aí fizeram os estragos, que eu sei, e que eu deploro.....

"Que Estado, e que Sociedade (assim escrevia em 1825 um Francês Cristão) poderá resistir a uns tais elementos de discórdia, e de ruínas? Quando a revolução rebentou em 1789, o perigo se entoava menos terrível. Não havia nesse tempo mais que duas edições de Voltaire, e outras tantas de Rousseau, e estas edições só chegavam aos homens ricos, ainda não se tinham ideado as edições económicas, que derramam o veneno em todas as condições da Sociedade; ainda não era conhecido o Voltaire das pessoas menos abastadas, o Voltaire das choupanas; ainda não se tinham posto em venda as obras de outros ímpios em um tamanho, e preço, que as fizesse chegar a todos. Se estes livros pois, que ainda não eram vulgares, fizeram tais estragos, e contribuíram muito para o geral transtorno, efectuado naqueles dias, que deverá suceder agora, quando é tão desmedido o seu número, quando não há quem deixe de os ter, uma vez que os queira, e às obras antigas sucedem outras muito mais atrevidas; quando todas as barreiras estão arrombadas, todos os laços quebrados, todas as leis estão nulas, e sem força, quando os papeis volantes, e os periódicos trabalham todas as manhãs por exaltar, e irritar os ânimos; quando enfim tudo conspira para que se desencaminhar a mocidade, e serem os Povos iludidos? Como se há-de resistir a tantos agentes combinados para o mesmo fim, que é a dissolução da Sociedade? E tudo se cala, e olha-se friamente para os trabalhos do crime; e até se mostra um receio de o inquietar nas sua tarefa! Esta insensibilidade dos Governos, esta espécie de tranquilidade na própria boca do precipício, é um fenómeno, que mal se pode explicar humanamente. À vista de um estupor assim tão fora do ordinário, perguntar-se, acaso terão eles ouvido aquela voz, que anuncia às nações o seu fim "Nunc finis super te" (de Ezequiel) e esperamos a tremer aqueles sucessos, que este repouso de terror, e da cegueira nos pressagia?"

Luís XVIII, Rei de França
Ora estes grandes males, tão fielmente descritos, e pintados em 1825, caminharam progressivamente até 1830, a ponto de que neste ano já era mui fácil calcular, ou não tivessem existido as mui tardias providências de Julho passado, em todo o caso, havia de ter o seu complemento, e reduzir o sucessor de Luís XVIII à condição de um simples particular, e de um homem proscripto, e desterrado.

(a continuar)

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LIII)

(continuação da LII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XVI
Só Em Deus Encontro a Verdadeira Consolação

1. Alma - Meu Deus, não é na Terra, mas sim no Céu, que eu espero as consolações que podem ser objectos dos meus pensamentos e dos meus desejos. Os prazeres e as delícias do mundo não passam de um momento. Alma minha, tu não podes achar uma alegria completa e perfeita senão no teu Deus,  que é o consolador dos pobres e a alegria dos humildes.
Espera um pouco as promessas do Salvador e acharás no Céu a abundância de todos os bens.
Se contra a ordem de Deus desejas os bens presentes e terrenos, perderás os celestes e eternos. Usa dos primeiros e deseja os segundos. Nenhuma coisa temporal pode cabalmente contentar-te, porque não foste criado para gozar as coisas sujeitas ao tempo.

2. Tu não serias feliz ainda que possuísses todo o bem que há nas criaturas.
Só Deus é o teu supremo Bem, só Ele pode fazer-te feliz, não do modo que os cegos amadores do mundo imaginam, mas enchendo-te desta felicidades pela qual suspiram os verdadeiros discípulos de Jesus Cristo e que experimentam, algumas vezes, por antecipação, as almas verdadeiramente puras, que, já neste mundo, têm os seus pensamentos no Céu.
Toda a consolação que vem da terra é falsa e pouco durável.
Não há verdadeiro prazer senão aquele que a verdade nos faz sentir no fundo do coração.
O homem devoto leva por toda a parte o seu consolador, que é Jesus, ao qual diz muitas vezes: "Assisti-me, meu Salvador, em todo o tempo e em todo o lugar. Todo o meu prazer consiste em privar-me voluntariamente de todos os prazeres humanos. Quando me falta a Vossa consolação, supra o seu lugar a lembrança de que esta falta é segundo a Vossa vontade, que quer fazer sobre mim uma justa experiência. A Vossa ira não é perpétua nem as Vossas ameaças são eternas."

29/01/15

"PORTUGAL EM ROMA" - O REI NO EXÍLIO (II)

(continuação da I parte)

Rei D. Miguel de Portugal, O Tradicionalista
Veja-se agora o que diz J. P. Miguéis de Carvalho a A. J. Freire, em 9 do mesmo mês: "Em primeiro lugar S. A. partiu de Génova com passaporte em que era designado com o título de D. Miguel I chegou de Viterbo na manhã de 3 do corrente, e entrou em Roma na manhã do dia seguinte pelas 9 horas - 4 de Setembro. Apeou-se com a sua comitiva, 16 indivíduos na estalagem da Vila Paris, onde o estava esperando Camilo Luís Rossi, o qual com o Marquês de Lavradio se dirigiu pela volta do meio-dia a casa do Cardial Secretário de Estado.

Pelas duas horas da tarde apresentou-se a S. Alteza o Major da Praça para oferecer-lhe uma Guarda de honra, que não foi aceita, e cumprimentá-lo da parte do General das Armas, o qual mais tarde compareceu em pessoa. Pelas 6 horas veio cumprimentar S. Alteza o Cardial Secretário de Estado, e dizendo-lhe S. A. que tencionava não sair de casa sem primeiramente ver o Santo Padre, respondeu o Cardial que trataria de o livrar da prisão quanto antes. Junto das Avé-Marias jantou S. A. em companhia do Marquês do lavradio à direita, António Joaquim à esquerda, Conde de Soure e D. Bernardo de Almeida. Quando S. A. Começou a jantar apresentou-se Mons. Fieschi, Mestre de Câmara do Papa, para cumprimentar S. A. em nome de Sua Santidade. Alguns Cardiais foram à noite cumprimentar S. A.".

O mesmo ao mesmo no dia 9 de Setembro: "O Cardial Secretário de Estado disse a alguns indivíduos do Corpo Diplomático que o Sr. D. Miguel se achava quase sem meios de subsistência, que lhe não pegavam a sua Pensão, e que tinha vendido uma parte dos seus brilhantes. Corre voz que o Papa mandara pôr à disposição de Sua Alteza 50 mil escudos romanos. Pelo contrário consta que S. A. traz não pequena quantidade de dinheiro consigo, além de que se diz ter à sua disposição em Londres e Paris. Quando S. A. chegou, entre a pouca bagagem que consigo trazia, se viu descarregar uma caixa que com muita fadiga dois homens puderam conduzir para o 1º andar da Estalagem. Esta caixa foi aberta para pagar os Postilhões, e se observou que estava cheia de peças de ouro de 20 francos. Nesta moeda se fizeram aqueles seus pagamentos, e se deram algumas esmolas, assim como se tem subministrado ao Mestre de Casa, Mordomo do Marquês de Lavradio o necessário para as despesas correntes."

Eis como Carvalho e Brito se refere à audiência do Santo Padre: "Sua Alteza entrava na sala onde o esperava o Papa, se prostrou a seus pés para lhos beijar, o que S. Santidade impediu, entendendo o braço com que o levantou. O Sr. D. Miguel começou a falar, mas não entendendo o Papa, entrou o Marquês de Lavradio a dizer: que Sua Majestade não entendia ter renunciado aos seus direitos ao Trono; que a convenção fôra obra da força para salvar a vida, e evitar outros males: que esperava que Sua Santidade continuasse a considerá-lo como Rei de Portugal, que fizesse em seu favor quanto estivesse de sua parte; que em Génova e Milão tinha recebido cartas de Inglaterra, Áustria, Rússia e Prússia em que se lhe assegurava que os Soberanos das três potências do norte não deixariam perder a ocasião para reintegrá-lo.

Diz-se também que pediram ao S. Padre que fulminasse quanto antes a excomunhão, e que o Santo Padre respondera, tanto a este como aos outros artigos, evasivamente, ainda que mostrando-se muito irritado contra o procedimento do governo em matérias eclesiásticas: prometeu contudo de considerar o Senhor D. Miguel como Rei, e o Marquês como seu Embaixador.

O Papa ainda até hoje (12 de Setembro) não pagou a visita ao Senhor D. Miguel, e ainda que se diz por motivo de uma pustula que tem no beiço superior Sua Santidade se acha sempre impedido para sair, contudo crê-se que a moléstia seja mero pretexto para diferir a visita."

D. Miguel partiu para Génova no dia 12 de Setembro, pelas duas horas e meia da tarde, num carro tirado a quatro cavalos de Posta, levando em sua companhia cinco pessoas. Miguéis de Carvalho, curioso, procura Mons. Capaccini que lhe diz:
- Já sei porque vem aqui.
- Qual?
- Saber o motivo da partida de D. Miguel.
- E qual foi?
- Rir-se-á; mas o verdadeiro motivo é a chegada a Génova de uma mulher que foi sua ama de leite, e que ele quer conduzir para Roma onde estará de volta em 8 ou 10 dias. Fez-se o possível para o desviar desta puerilidade, mas todos os esforços foram inúteis.
A família de S. Alteza deixou ontem (15 de Setembro) a Estalagem que ocupava, e passou a alojar-se no palácio Marescotti".

(continuação, III parte)

DO LIVRO DA EMBAIXADA DO PRESTE JOÃO DAS ÍNDIAS (II)

(continuação da II parte)

Cap. II
Como o Patriarca Partiu de Roma, e Veio a Portugal Onde Foi Bem Recebido DelRei D. João III

 De Roma parti para Portugal, onde cheguei estando ElRei seu avó de gloriosa memória em Évora cidade, no ano que acabou de trazer a ela a água da prata. E ele me recebeu com a sua acostumada graça e benignidade que para todos tinha de rei clementíssimo que ele era: e folgou em particular com minha vinda, por dar conclusão, como desejava, àquela embaixada que trouxera o Tagazavo, que havia doze anos que cá estava, e sem negociar coisa alguma por sua mera negligência.  Pelo que o Imperador Onadinguel me mandou que lhe tirasse o cargo de embaixador, e o prendesse, e levasse comigo preso. E para isso havia uma carta do Imperador, a qual lhe dei em Lisboa onde ele estava: e a tomou e beijou, e reconheceu ser verdadeira, e por ela me reconheceu por seu Patriarca e superior, e me beijou a mão, e me deu o seu lugar, sem mais falar palavra. E o mandei prender com duas cadeias de ferro em cada braço seu ao vê-lo da sua terra: as quais lhe tornei a tirar daí  a poucos dias por me rogar sua alteza, posto que era fora da ordenança do Imperador, que mo assim mandara fazer. Naquele comenos veio sua Alteza perante Lisboa, e pousando nos passos do Duque de Bragança o fui ver acompanhado do Núncio de Papa de Jerónimo Ricenas de capite férreo, e D. Martinho de Portugal Arcebispo do Funchal, dando-me sempre o primeiro lugar junto do Núncio como convinha à minha dignidade: e referi a sua Alteza a embaixada do meu Imperador, pedindo-lhe a quisesse aceitar, e despachar com brevidade. Era a embaixada que lhe pedia o dito Imperador sua amizade, e irmandade perpétua: e para isto lhe pedia que casassem seus filhos trocados uns com outros: e que de Portugal fosse um filho casar com sua filha dele, reinasse em seus Reinos por sua morte, para que esta aliança entre portugueses e eles, e também a obediência do Papa fosse mais subida e durasse. E também lhe mandava pedir que lhe mandasse gente para se defender DelRei de Zeyla que lhe tomava seus Reinos: porque ele lhe mandaria um grande número de riquezas, que bem lhas podia mandar. E assim lhe mandasse cavouqueiros para romper uma terra por onde outra vez Eylale belale seu antecessor lançou o Rio Nilo, para também agora o lançar por ali, e fazer dano no Egito.


Cap. III
Como ElRei Despachou Bem o Patriarca e Ordenou Sua Tornada.

Papa Paulo III
Tomado conselho, ElRei vosso avó ouve por bem outorgar-me o que pedia, e mandou que me dessem quatrocentos e cinquenta homens espingardeiros e cavouqueiros, e me despachassem  para me tornar logo aquele ano em companhia de D. Garcia de Noronha que então ia por Vice-Rei da Índia, porque pela Índia me era necessário tornar. Até doutras mercês que me sua alteza fez ficou por mim e pelo meu Imperador, e fez bom tudo o que eu prometi pagar à dita gente, e para mais lhe dar vontade de irem comigo tomou por seis e fez mercês à alguns deles. Sua alteza dom Garcia de Noronha filho de dom Sancho de Noronha meu sobrinho, e Rui Teixeira de Almeida meu cunhado, Henrique de Sampaio, e três seus irmãos, Pero para, Diogo Leitão, Pero Tavares, e outros. Da qual gente logo fiz capitão Pero Borges Henriques irmão de D. Brás Caçador-mór. Estando pois assim, prestes para partir com D. Garcia de Noronha Vice-Rei com muitas graças e poderes que me o Santo Padre Paulo III tinha concedidos pela via do Núncio D. Jerónimo Ricenas capite férreo, e o dito Vice-Rei alegre por me levar consigo, subitamente adoeci, e disseram os físicos que de peçonha: que segundo se suspeitou me mandou dar o tegazavo. Curaram-me o Físico-mór que então era chamado Diogo Lopes, e o que agora é, Leonardo Nunes, e outros que sua Alteza mandou: pelo que fiquei aquele ano neste Reino.
(continuação, III parte)

26/01/15

DA PROVÍNCIA DE GALIZA- AGIOLÓGIO LUSITANO (III)

(continuação da II parte)

Sé de Braga, Primaz das Espanhas
Que seus prelados se chamassem de Galiza, se prova do Concílio já referido d'Aquis Celenis, onde se compôs a regra da Fé, que por mandado do Papa S. Leão se mandou a Balcónio, Bispo de Braga, para que a aprouvesse, por não terem assistido naquele sagrado conclui, a qual anda no I tomo dos Concílios, no fim do 1 Toledano: "ubi: incipit regula fidei, etc. ad Balconium Episcopum Gallariae." A si mesmo chamam os autores comummente a S. Martinho Dumience "Bispo de Galiza", e a Idacio Bispo de Lamego dão o mesmo título por florescer em tempo, que esta cidade era sufragânea a Braga. Ponhamos o selo a este discurso com uma célebre autoridade de Fr. Jerónimo  Roman, que na sua Eclesiástica de Hispanha falando do nosso Paulo Orosio, depois de referidas várias opiniões cerca de sua pátria, diz as seguintes palavras: "Lo cierto es, que fue de Gallicia, i si se mira a la carta, que el Presbe Avito escribio al Arcebispo de Braga Balconio, quando le embiò las reliquias del Proto martyr S. Estevan, se verà que en ella claramente muestra era natural de Braga, i por el conseguiente Gallego, porque el Reino de Gallicia fuera de lo que oi alcança, que es asta el rio Miño, tambien cogia asta el rio Duero, e an sido los Concilio celebrados en Hespanha, se vè como era gran Provincia; i comprendia muchas sillas Obispales, i el districto del Obispado de Braga, se llamava Provincia Galliciana, por esta ciudad ser cabeça de toda ella." E o mesmo Roman na hist. m. f. de Braga 2 c. I refere: "Que viniendo S. Giraldo de Roma con el pallio tomado, celebrandose Concilio en Palencia ado presidia Richardo Cardeal presentò sus breves, à el Legado le puso en posesion, señalando-le estos sufraganeos, Astorga, Lugo, Tuy, Mondoñedo, Orense, Oporto, Coimbra, Viseu, Lamego, Egitania, Britonia, Oviedo."

Parece-nos que bastantemente deixamos provado que foi Braga no espiritual, e temporal cabeça da Província de Galiza, na qual se incluíam as cidades do Porto (chamada dos Suevos Festabole) Britonia, Cinánia, Flavia Lambria, Bragança (que conforme Juliano, foi a antiga Iuliobriga) Forum Limicorum (que é Ponte de Lima) Tuy, Iria Flavia (que é o Padrão) Orense, Lugo, Astorga, e outras, que ainjúria dos tempos assolou, e muitos ligares de menos nome, cujos antigos Santos, a saber os Pedros, os Torcatos, os Basileus, os Epitácios, os Frutuosos, os Ataulphos, os Rosendos, os Victores, as Vuilgefortes, as Eufêmias, as Engrácias, as Faras, e Senhorinhas nos pertencem, pelas razões apontadas, sem ficarem por isso defraudadas as pátrias, que os procriaram de os três por seus próprios, como no princípio defraudadas as pátrias, que os procriaram de os três por seus próprios, como no princípio propusemos. Vejam-se dos autores castelhanos Tarrafa de rebus Hispaniae fol 55 Florião do Campos l. 3 c. 36 Morales l. 11 c. 71 Loaifa sobre os Concílios de Hispanha, Padilha na Ecclesiastica cent. 4 c. 46. Vafaeus in Chronica, Gil Gonçalvez de Ávila no Theatro de Astorga c.; dos nossos, Fr. Bernardo de Brito em vários lugares na 1 e 2 p. da Monarqchia Lusitana, Fr. António Brandão na 3 l. 8 c. 18 D Fr. Amador Arraes Dialogo 4 c. 18 D. Rodrigo da Cunha, e outros que cita, e segue na 1 p. da história de Braga c. 1.

DO LIVRO DA EMBAIXADA DO PRESTE JOÃO DAS ÍNDIAS (I)

Segue uma série de transcrições do livro "Esta he hua breve relação da embaixada q o Patriarcha dom João Bermudez touxe do Emperador da Ethiopia, chamado vulgamente Preste João, ao christianissimo, e zelador da fee de Christo Rey de Portugal dom João o terceiro deste nome: dirigida ao muy alto & poderoso, de felicissima esperança, Rey também de Portugal dom Sebastião o primeiro deste nome. Em a qual também conta a morte de dom Chrsitovão da Gama: & dos sucessos que aconteceram as Portugueses que forão em sua companhia", (ano de 1565 - Lisboa, em casa de Francisco Correia, Impressor do Cardeal Infante):

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Carta do Patriarca D. João Bermudez a ElRei Nosso Senhor

Muito alto e muito poderoso Rei, vossa Alteza me disse os dias passados que folgaria de saber a verdade do que acontecera a um Capitão e gente que me ElRei vosso amo que está em glória deu para levar em socorro do Imperador da Etiópia Onadinguel chamado preste João, por desfazer os erros que algumas pessoas disto escrevem, em tanto que até o nome do dito Capitão erram, chamando-lhe D. Paulo, sendo ele D. Cristóvão seu irmão: e outros escrevem, e dizem algumas coisas que passaram na verdade, nem eles as viram. Portanto eu que tudo vi, lhe contarei brevemente o que passou nesta pequena escritura. Nosso Senhor guarde sua pessoa, acrescente sua nova idade, e prospere seu real estado. Ámen.

Foi examinada por o R. P. F. Manuel da Veiga, examinador dos livros: por o sereníssimo Cardeal Infante D. Henrique Inquisidor-geral nestes Reinos e Senhorios de Portugal.


Cap. I
Como D. João Bermudez foi Eleito Patriarca do Preste e Foi Enviado a Roma a Dar a Obediência ao Santo Padre.

Sendo Imperador nos reinos da Etiópia, a quem vulgarmente chamam do Preste João é fiel e bom Cristão chamado Onadinguel: e estando em passamento de morte um Patriarca daquela terra de nome Abunamarcosino, ano de 1535 de nossa redenção: o dito Imperador disse aquele Patriarca, que lhe rogava, que conforme ao seu costume ele antes de falecer me instituísse em seu sucessor e Patriarca daquela terra como ele até então fôra. E o dito Patriarca o fez assim, ordenando-me primeiro de todas as ordens sacras. o que eu aceitei com tal condição que havia de ser confirmado pelo Sumo Pontífice Romano sucessor de S. Pedro, ao qual todos haviam de dar a obediência. o dito Imperador me respondeu que era muito conveniente: e mais me rogava que por mim, e por ele, e todos seus reinos fosse a Roma a dar a obediência ao Santo Padre: e daí viesse a Portugal a dar conclusão a uma embaixada que tinha mandado por um homem daquela terra chamado Tegazauo, em cuja companhia veio o Padre Francicalvarez. Depois de passados pelo caminho muitos trabalhos, cheguei a Roma presidindo na Sá Apostólica o Papa Paulo III, o qual me recebeu com muita clemência e favor, e me confirmou tudo o que de lá trazia feito, a meu requerimento tornou a retificar tudo, e me mandou assentar na cátedra de Alexandria, e que me intitulasse Patriarca, e Pontífice daquela Sé.

(a continuar)

DA PROVÍNCIA DE GALIZA- AGIOLÓGIO LUSITANO (II)

(continuação da I parte)


Bem claramente ao propósito do que fica dito de Braga falou João Gerundenseno seu Paralipomenon: "Bracharii a Brachada urbesicdicti, et protenduntur in oppidum Baiona, et Pontevedra, includentes Tydures qui incolae Tudenses sunt. Et quoniam Brachariorum incidimus mentionem, haec Gallae Tudenses sunt. Et quoniam in Brachariorum incidimus mentionem, haec Gallaeciorum regio, et Provincia magna est, et adeo magna quod refert Strabo continere in se triginta populos, etc." A nosso intento baste-nos saber que a Província Bracarense se estendia no temporal até Baiona, e Pontevedra, onde com suas vitoriosas armas chegou depois conquistando ElRei D. Afonso Henriques no tempo que teve desavenças com D. Afonso VII chamado Imperador de Hispanha.

Esta verdade se corrobora mais com outro sólido fundamento, porque Braga foi Côrte dos Reis Suevos, que reinaram em Galiza do ano 410 per 163, conservando sempre sua antiga grandeza. F. Prudêncio de Sandouval nos Bispos de Tuy diz: "Es cierto que los Suevos poblaran por reedificacion Lugo por estar en medio de su Reino, que llegava desde Braga por lo más de Portugal a Leon hasta el rio Cea, i aun por algunas partes a Bisuerga,Ávila, Salamanca, etc.." Donde se vê o muito a que no tempo dos Suevos se estendia a jurisdição temporal de Braga; porque pela invasão dos Godos, posto que perdeu a dignidade, e grandeza de Côrte (pelo grande valor com que contra eles se opôs, e os rebateu) contudo nela se celebraram em seu tempo alguns Concílios, que lhe não adquiriram pequena glória. A esta calamidade particular se seguiu a comuna de toda a Hispanha no ano 714, na entrada dos Mouros de África, os quais entrando pelas terras da Lusitânia, e Galiza, destruindo tudo, chegados a Braga, a investiram com o mesmo bárbaro furor, fazendo nela grande estrago, como nas mais cidades de Galiza. Mas por singular privilégio da divina providência, em meio desta misera sujeição conservou, e teve sempre Prelado.

Nesta Província Bracarense se conservam os antigos solares deste Reino, e o que mais nela teve princípio o nome do próprio Reino, pois (segundo a verdadeira opinião) do nome de Cale, lugar assentado nas ribeiras do Douro, e de seu porto, se formou o de Porto de Cale, e por decurso de tempos o de Portugal. A língua, que por muitos séculos falaram nossos antepassados era mui semelhante à Galega, como se vê de nossas antigas escrituras. Por todas estas razões trazemos nesta obra os antigos santos desta Província, como tão justamente nossos.

Isto quanto ao temporal, que ao espiritual sabida coisas é, que o Apóstolo Santiago vindo por mar de Jerusalém a Hispanha [ou seja, "Península Ibérica"] deu princípio à prégação Evangélica, como diz F. Fernando Oxea em sua história, seguindo as lições que (em d[?] do S. Apóstolo) traz o Breviário Arménio. E que nela escolheu os discípulos, que referes o P. Calisto no prólogo do livro de sua translação, a quem seguem todos os historiadores de Hispanha [Península Ibérica], suas palavras: "Novem vero in Gallaetia (dum adhuc vineret) Apostolus elegisse dicitur, quorum septem (aliis duobus in Gallaetia praedicandi causa remanentibus) cum eo Hierosolyma perrexere, etc.." Estes foram Atanásio, e Teodoro, que os sete Torcato, Desifom, Secundo, Indalcio, Cecílio, Eusiquio, Eufrásio levou consigo, os quais trouxeram depois o tesouro de seu sagrado corpo a Iria Flávia. S. Pedro de Rates não entra no número destes 9 porque tinha vindo diante (como precursor) mandado por seu mestre, o S. Apóstolo. Não obstante o número (que fica dito) Servando Bispo Aurense, diz que foram 38 os discípulos, que escolheu nesta Província, e traz os nomes de todos; muitos dos quais tiveram outros companheiros, que os seguiram no ministério da pregação,como se contem nas lâminas do Monte Santo de Granada. E depois que o Santo Apóstolo tornou a Jerusalém, ficando S. Pedro Bispo de Rates em seu lugar em Braga (como cabeça, e primaz) criou, e consagrou Bispos, os quais constituiu nas Igrejas de Galiza: "Hic vir Apostolicus (diz S. Atanásio Bispo de Saragoça) acceptis a S. Iacobo institutionibus Apostolicis. Evangelio, et ordine Missae ac celebratione Sacramentorum, venit Bracharam. Epistolas Apostolico plenas spirit scriptu ad Eclesias, in quibus Episcopos institur, ut Iriensem, Amphilochensem, Eminiensem, Portuensem, ubi S. Basileum condiscipulum posuit (qui, illi per martyrium sublato successit in Sede Bracharensi) Epitatium in Tudensi. Isti viri divini, planeque Apostolici (instar Apostolorum) non in una semper urbe morabantur sed quo rapiebat illos Spiritus Sanctus ferebantur, ut Epitatius qui non solum in Tudensi Diocaesi sed in urbe Lusitaniae Ambratia praedicant qui signis, et varietate liguarum : : : : : praedicationem illustrabant, necsoli ibant praedicantum sed multis discipulis comitati, ut fecit Cristus, Petrus, Jacobus, et Apostoli caeteri," etc. As quais igrejas referidas sempre conheceram a de Braga por Motropoi acudindo os Prelados delas (como sufragâneos) a todos os Concílios, que nela se celebram, já no reinado dos Suevos, já no dos Godos, como deles consta, e se pode ver em Loaisa. E nas repartições, que em tempo de Constantino, Ariamiro, e Vuamba se fizeram das igrejas de Hispanha, assinando-lhes sempre as mesmas sufragâneas, a saber: Astorga, Tuy, Lugo, Iria, Britonia, Porto, e Orense. No tempo dos Suevos (por erigirem Lugo em Metropolitana) lhe tiraram algumas destas, e lhe substituíram outras da Lusitânia; mas os Godos lhe assinaram outra vez as mesmas, acrescentando-lhe Dume, com que permaneceu até à entrada dos Árabes. Com esta verdade concorda o mouro Rafes, e a General de Hispanha. De mais, que a dita Igreja de Lugo, depois de feita Metropolitana (por decreto do Concílio, que nela se celebrou no ano 569) ficou sempre com sujeição à de Braga, como dele consta: "Elegerunt in Synodo, ut Sedes Lucensis esset Metropolitana subjecta tamen Bracharae". A qual posse se conservou tão uniformemente, que muitos séculos depois (ainda nos primórdios dos Reis de Portugal) vinha o Prelado de Lugo, e os mais de Galiza tomar juramento de fidelidade nas mãos do Arcebispo de Braga, assim o refere Cunha no tratado da Primazia cap. 17 e na 2 p. da história de Braga cap. 3. E é esta demarcação no espiritual tão antiga, que diz o nosso João Gerundense, que no C. Eliberitano, o primeiro de Hispanha, foi repartida ela em 5 províncias: Terraconense, Cartaginense, Bética, Lusitânia, e Galia. De Hispanha Citerior foi metrópole Tarragona; de Carpetânia, Cartagena; de Bética, Sevilha; de Lusitânia, Mérida; de Galiza, Braga; a qual divisão refere também Garibay, Vaseo, e outros historiadores da Hispanha.

(continuação, III parte)

21/01/15

IMAGEM DA VIDA CRISTÃ (I)

(da obra "Imagem da Vida Cristã", de Fr. Heitor Pinto)

DIÁLOGO DA VERDADEIRA FILOSOFIA
(adaptação nos diálogos, por Ascendens)

I
Capítulo

Da excelência da vista sobre os outros sentidos, e da descobrimento da verdade.

Indo praticando pelos cemceirais de Coimbra ao longo do Mondego dois amigos, que saíram da cidade, um deles dado muito ao estudo da humanidade, que presumia excessivamente de discreto e grande filósofo, e queria antes parece-lo, que sê-lo, da condição dos que escolhem antes latão lustroso, que prata sem lustro, outro menos humanista, mas mais humano, encontraram com um ermitão, homem religioso e letrado, de que tinham conhecimento doutro tempo, em que todos naquela universidade estudaram e conversaram. E depois de sandados, e passarem ante si algumas amorosas palavras, perguntou o filósofo ao ermitão como estava, e que anos tinha de idade, porque lhe parecia mais velho do que ele julgava ser:

- Ermitão: Eu não estou, nem tenho nem um só ano de idade; e o mesmo podem com verdade dizer de si todos os homens.

- Filósofo: É nova opinião, essa.

- Er: Nem é nova nem opinião, se não antiga e manifesta verdade. Que se fora nova começara há pouco, mas ela é sentença dos sábios antigos, que de si deixaram gloriosa memória: e se fôra opinião fôra de coisas contingentes e incertas, mas ela é necessária e certíssima.

- Fi: E eu tenho-a por falsíssima. E é ou tão são dúvida, que a não terá nisso, se não quem segundo o costume dos académicos, quiser em tudo duvidar.

- Companheiro: Aí há verdades que não parecem, não por não serem, mas por não entendermos a diversidade do estilo em que são ditas. Digo isto, porque o padre, como se desnaturou do mundo, para que quanto dele estivesse mais apartado, tanto estivesse com Deus mais unido, e quanto mais longe estivesse da terra, e de si ainda mais longe, tanto mais perto estivesse do céu, tem outro estilo tão diferentes do nosso, que havemos de entender: que se o não estendemos é porque passa ele além das balisas do nosso entendimento, mas não porque em suas palavras haja erro, nem falsidade.

- Fi: Não sei porque sem razões, para escusar uma sem razão: pois de querer escusar uma nascem muitas. Assim, como lançando uma pedra num grande poço se faz um círculo na água, e dele procede outro maior, e este maior faz outro mais estendido, após o qual vem outro e outros cada vez maiores, quase em infinito, assim de um erro nasce outro, e este traz outro consigo maior, após o qual vem muitos outros cada vez maiores, quase em infinito, se lhe não atalham logo no princípio. Fácil coisa seria atalhar logo no princípio a um rio, entupindo-lhe a fonte, donde nasce, ou lançando-lha por outra banda: mas depois que nele entrada de muitos rios se faz poderoso e profundo, não há quem lhe possa resistir. Isto é o que diz Aristóteles, que pequeno erro no princípio se faz grande no fim, e que dado um inconveniente se seguem muitos. E às vezes de não apagar uma palha, se vem atear o fogo numa e noutra até que se vem a queimar toda uma casa, e de pequena faisca se faz grande incêndio.

- Co: Eu não me determino logo tão asinha como isso a condenar, o que não acabo de entender. E sempre tive para mim que as coisas se haviam de julgar com deliberação. Que como diz Bias o filósofo, segundo refere Laercio, nenhuma coisa é mais contrária a deliberar que a ira e a pressa. E não vos pareça que repreendo a diligência nas obras, antes tenho para mim que não há coisa que ela não vença. Porque assim como a negligência é mãe de todas elas. Ela é uma mina de bens, e a negligência um pego sem fundo, em que todos se alagam. Mas a diligência há-de ser pesada, e levando nos pés as esporas da ligeireza e velocidade, há-de levar na mão as rédeas da razão e do conselho: de maneira que na deliberação há de ver tardança, e na execução da boa obra pressa. Donde veio aquele tão antigo como famoso proverbio: Apressa-te devagar. O que também quis significar o Imperador Tito Vespasiano, filho do grande Vespasiano, quando mandou pôr por divisa nas suas medalhas um golfinho velocíssimo, enrodilhado numa âncora vagarosa.

- Fi: É verdade que pela âncora se entende a tardança, e pelo golfinho a pressa: porque Aristóteles afirma que é ele ligeiríssimo. E opinam no seu segundo livro da natureza dos peixes diz, que nadam os golfinhos tanto pela água, como voam as aves pelo ar. E Plínio no seu nono livro da história natural diz, que são os mais ligeiros de todos os animais, assim aquatiles [aquáticos], como terrestres, como volátiles [voadores]. E não somente Tito Vespertino, mas Octaviano Augusto se soía muito deleitar com esse provérbio, como conta Aulo Gelio no décimo das suas noites Aticas, e Macróbio no sexto dos Saturnaes. Mas isso se entende, quando se representam algumas dúvidas, que fazem distrair o ânimo em diversos pareceres. Entram há dever deliberação vagarosa, e maduro conselho, o qual há-de ser secreto: e por isso edificaram os antigos romanos o templo de Conso, a quem eles chamavam deus dos conselhos, debaixo da terra. E após o conselho se há de seguir a execução com tanta diligência, que pareça que o efeito precedeu à deliberação, de maneira que primeiro pareça feito, que cuidado. Mas quando as coisas são tão manifestas, que nelas não há que deliberar, de que serve gastar o tempo em conselhos: e ocupar o juízo em escolher quantas coisas a vária fantasia lhe representa, e o pensamento em fazer dificuldades, onde as não há? Quando os erros são tão claros, como é este do padre, para que é senão condená-los logo sem mais?

- Co: Eu, todavia suspendo o entendimento, até ver como vós padre provais, que nem vós, nem homem algum está, nem tem anos de idade. Folgaria muito em saber como pode isso ser.

- Fi: Isso, disse o filósofo, não sabereis vos nunca.

- Co: Porquê?

- Fi: Porque o que nem é não se pode saber.

- Er: Eu vos provarei o que digo, se vós não tiverdes os ouvidos entupidos e opilados.

- Fi: Antes creio eu que no-los entupireis vós com palavras, e enfim não a dareis a vossa empresa.

- Co: Coisa é esta que eu em estremo folgaria de ouvir. E para isto assente-mo-nos.

- Fi: Assente-mo-nos, que eu estarei aqui encostado a esta verde e sombria árvore, e ouvi se vos bem parecer.

- Co: Vós padre podeis dizer o que quiserdes, sem nos pedirdes as vontades, em especial a minha, que não discrepará da vossa.

(a continuar)

20/01/15

D. MANUEL III E A TERTÚLIA MAÇONICA!!!

A notícia não é nova (11/11/2014), mas divulgo-a, para que se diga "aí", e assim evitar um "ai, ai, ai" futuro!

D. Manuel III, Cardeal Patriarca de Lisboa
(O Sol) - Patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, vai falar sobre o Papa Francisco no Bar do Além, em Alenquer [aí que bem escolhido...], onde se debatem temas esotéricos e que é frequentado por maçons. O promotor do evento é Luís Nandim de Carvalho, que foi grão-mestre da Grande Loja Legal de Portugal (GLLP), de 1996 a 2001.

“O patriarca vem cá no próximo dia 22. Mas o bar é pequeno e por isso as inscrições para o almoço  já estão esgotadas há algum tempo” [veja-se a raridade da atracção], avança ao SOL Nandim de Carvalho, explicando que Manuel Clemente aceitou participar num almoço-debate para analisar a mensagem do Papa. “É uma iniciativa integrada num conjunto de debates sobre religião”, esclarece Nandim de Carvalho, acrescentando que a organização está a cargo de um clube, a Tertúlia do Além, que ele próprio coordena e que funciona uma vez por mês num bar que existe no Parque de Campismo de Alenquer.

“Há 14 anos que esta tertúlia funciona”, adianta, rejeitando a ideia de ser um evento maçónico: “vêm pessoas que nada tem a ver com a maçonaria”, garante, recordando que recentemente os oradores-convidados foram José Ruah [este nada tem que ver com a maçonaria?!...], para debater o judaísmo, nomeadamente as festividades desta religião, e o Coronel João Fernandes, para falar dos Templários. Tanto um como o outro constam da lista de maçons da GLLP: Ruah é da Loja Afonso Domingos e João Fernandes  foi afastado, há cerca de quatro anos, da loja a que pertencia na mesma obediência.

Ao longo dos anos têm sido vários os debates sobre a maçonaria, com a presença de muitos membros desta irmandade e até altos responsáveis, como Pedro Rangel que lidera a  Grande Loja Simbólica Portuguesa, uma obediência recente no país (2008).

Nandim - que há algum tempo se afastou dos trabalhos na loja maçónica a que pertencia -  rejeita, porém, a ideia de o bar ser para maçons. “Aqui debatem-se assuntos espiritualistas e esotéricos. Só não se debate política, economia, futebol e telenovelas”, refere.

Ao todo serão 40 participantes, entre maçons e não maçons, que vão ouvir o líder da Conferência Episcopal Portuguesa. “Muitos ficaram admirados, Mas é muito bom o Patriarca ter aceite participar” - considera um maçon da GLLP que vai participar no evento, que começa com uma palestra do religioso, seguindo-se o almoço. Depois, frisa Nandim, “haverá uma tertúlia entre todos os presentes”."

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