12/01/13

"FIDALGOS DA CASAMOURISCA" - "ABSOLUTISMO PORTUGUÊS" (I)


Júlio Dinis, liberal, escreveu a obra "Os Fidalgos da Casa Mourisca" como forma didática de incutir e justificar o liberalismo e denegrir os absolutistas.

Recortei este capitulo da obra para mais tarde tecer-lhe alguns comentários:

"Em uma das espaçosas salas da Casa Mourisca, alumiada por três rasgadas janelas ogivais e mobilada ainda com certa opulência, vestígios do esplendor passado, esperavam a hora de jantar o velho fidalgo e o seu capelão-procurador frei Januário dos Anjos.

Não foi rigoroso o emprego no plural do verbo da última oração.

Frei Januário era quem esperava, porque essa era também a principal ocupação dos seus dias. Os gozos do paladar mal lhe compensavam as amarguras destas longas expectações. Eram elas talvez que não o deixavam medrar na proporção dos alimentos consumidos, porque frei Januário era magro. O mistério fisiológico desta magreza ainda não era para se devassar de pronto.

D. Luís lia as folhas absolutistas, que lhe mandavam da capital e do Porto, e dava assim em alimento ao seu ódio contra as instituições liberais um dos frutos mais saborosos delas - a liberdade de imprensa -; fruto, em que os seus correligionários mordem com demasiada complacência, apesar de ser para eles frutos proibido.

De quando em quando D. Luís interrompia a leitura com uma frase de aprovação ao artigo que lia ou de censura a qualquer medida promovida pelo governo, que nunca tinha razão.

Frei Januário secundava, com toda a força do seu obscuro credo político, as reflexões de s. exc.ª, e requintava na intensidade dos anatemas, com que eram fulminados os homens da época.

Mas, solta a frase que o caso pedia, e as competentes exclamações, voltava o padre a consultar o relógio, a abrir a boca, a suspirar; dava dois ou três passeios na sala e terminava por is inspecionar a cozinha. os intervalos das refeições eram para ele séculos!

- Humh! - disse D. Luís naquela manhã, poisando a folha, como enojado com o que lera - Lá foi concedido um subsídio para a construção do lanço de estrada de Vale-escuro!
- Fartos sejam eles de estradas! - acudiu logo frei Januário - Para esta gente a moralidade e a ventura de um país consciente em ter estradas e diligências, e acabou-se. Olhem lá se eles levantam sequer uma igreja? Isso sim!O dinheiro do clero sabem eles roubar! E que pena não terão por não deitarem a baixo os templos que por aí ainda há! Mas atrás do tempo tempo vem. Vontade não lhes falta.

Não sei se foi esta última frase que recordou ao padre que também a ele não faltava vontade... de comer. O certo é que, mudando de tom, acrescentou:

- Querem ver que o Bernardino se esqueceu hoje do jantar? Isto não quase duas horas, e eu não ouço tugir nem mugir na cozinha! Nada, aqui anda coisa. Com licença, eu vou ver e volto já.

E frei Januário saiu da sala para ir para a vigésima vez à cozinha, que ele suspeitava abandonada pela incúria do cozinheiro, estando pois a família toda ameaçada com a tremenda catástrofe duma retardação do jantar.

D. Luís pegou de novo nas folhas e deixou-se ficar lendo até à volta do padre, que entrou indignado.

- Eu que dizia?! Posto  à taramela com o hortelão, sem se lembrar do jantar? Olhem se eu lá não ia! Não que dizem que uma pessoa pode descansar nos criados. Há de poder! São uma corja! E, v. exc.ª não quer crer, aquele excomungado daquele hortelão há de ser a ruína desta casa. Foi uma imprudência da parte do Sr. D. Luís meter em casa um libertino daqueles, mação nos ossos e no sangue. Foi um passo muito errado... Aquilo é um péssimo exemplo para os outros. Sabe v. exc,ª em que ele estava falando? Não cantiga do costume. No desembarque do Mindelo. Quando eu cheguei ainda lhe ouvi dizer que eram sete mil e quinhentos bravos que vieram pôr fora da cidade os oitenta mil lobos que andavam lá, e coisas assim. E o cozinheiro a dar-lhe ouvidos, e o leitão a queimar-se e a sopa a pegar-se no fundo da panela, que logo me cheirou a esturro. É preciso que v. ex.º dê as providências, quando não...

D. Luís, tomando menos a peito do que o capelão os destinos do jantar e da sopa, e fiel ao hábito de nunca falar, nem em mal nem em bem, do hortelão, não respondeu e prosseguiu a leitura das folhas.

Daí a pouco referiu ao padre a notícia que tinha lido do desastre sucedido a uma diligência ao passar em uma ponte que na ocasião abatera, resultando muitas vítimas.

A indignação do padre exaltou-se.

- Pois se esta gente que nos governa deixa as estradas e pontes em um abandono desses! Vejam que tempos os nossos! Em que país do mundo se veem estradas assim arruinadas como as nossas? São os bens que nos trouxeram os homens da Carta! Isto é bonito!

E o padre Januário continuou ainda por algum tempo a condenar, pelo crime de desleixo e de falta de protecção à viação pública, os mesmos governos que, momentos antes, acusara de conceder para esse fim subsídios e de lhe dar importância demasiada.

A política de frei Januário é vulgar na nossa terra.

D. Luís, tendo concluído a leitura da folha, pô-la de lado e resumiu a série de pensamentos que essa leitura lhe sugeria, na seguinte e contraída síntese:

- Isto vai cada vez melhor, frei Januário.
- Isto vai bonito, não tem dúvida nenhuma - secundou o padre.
- Enfim, quem viver verá onde isto vai parar, onde nos leva esta torrente.
- E não é preciso viver muito, mais dia menos dia temos aí os espanhóis, ou então passamos a ser ingleses. Não há que ver; da maneira por que vão as coisas...
- Ai, pobre Portugal! - exclamou melancolicamente D. Luís.
- Que vais à vela - concluiu o padre. - Desde que puseram a cabeça à roda a esta gente com liberalismos... ficou tudo transtornado. Agora todos mandam, todos falam, e não há quem governe. isto de não haver um que governe... Estes patetas não se desenganam de quem um país em uma cozinha, sem ninguém que os vigie, e verão o que vai! esperem por o jantar, que hão de achar-se servidos!

O simile fôra sugerido a frei Januário pela sua constante preocupação.

- O que me custa é lembrar-me de que meus filhos têm de viver nesta sociedade assim organizada. Quem sabe a sorte que lhes está reservada, aos pobres rapazes! - disse o fidalgo, suspirando com escuras apreensões sobre a posição precária da família.
- Os filhos de v. exc.ª não devem transigir em caso algum com estes homens! - exclamou com veemência o padre - É não fazer como a sobrinha de v. exc.ª, a snr.ª D. Gabriela, que já é baronesa das feitas por eles. Quando se é fidalgo é preciso ser fidalgo.
- É bem negro o futuro que espera as casas como a nossa, e sabe Deus se em parte preparado por nós - insistia o fidalgo. - Também pecamos.
- Pois é uma triste verdade, mas isso não é razão para que os que nasceram nessas casas se abaixem diante dos que nem sabem onde nasceram. Deixe v. exc.ª medrar quanto quiser o Tomé da Herdade, que no fim de tudo sempre há de mostrar que andou descalço em criança e que foi levar a beber o gado desta casa. Há certas coisas que  não dá o dinheiro.
- O Tomé da Herdade! - repetiu D. Luís com amargura - Esse é que prospera, os tempos estão para ele. Quem o viu e quem o vê aquilo!
- Então que quer? Inda mais havemos de ver. E então não sabe v. ex.ª que o homem mandou educar a filha na cidade, como se fosse a filha de alguém?
- A Berta?
- Sim, a que é afilhada de v. exc.ª Com que fim faz aquele toleirão uma coisa dessas? Veja a parlapatice daquele homem. Não repara na posição falsa em que coloca a rapariga. Meteu-se-lhe talvez na cabeça que ainda a casava com algum fidalgo! Pode ser. Veja v. exc.ª se ela serve para algum dos seus filhos.

D. Luís sorriu, encolhendo os ombros.

- Ora para que precisa a mulher de um lavrador e, que é afinal o que ela tem de ser, das prendas e da educação que o pai lhe mandou dar? Não me dirá v. exc.ª?
- Todos hoje têm aspiração a subir - reflectiu D. Luís com ironia. - A maré sobe.
- Eu bem sei o que é que dá causa a estas toleiras. Tudo isto vem da barulhada que estes liberalões fizeram na sociedade. Tudo está remexido e ninguém se entende. O sapateiro que nos vem tomar medida de umas botas parece um visconde. Onde isso é bonito, segundo dizem, é em Lisboa. Hoje todos por lá tem excelência!

Nestes sediços comentários sobre o estado do século deixaram-se ficar os dois por muito tempo, desafiando assim a sua má vontade contra as instituições modernas. O padre Januário porém não perdia com isso a  ideia do jantar, e de quanto em quando voltava os olhos para o relógio, cujos lentos ponteiros não correspondiam nunca à impaciência dos seus desejos. Enfim deu uma hora e frei Januário erguei-se instintivamente para ir ver se o jantar estava servido.

Passado pouco tempo tocava a sineta, tão grata aos ouvidos do reverendo. Vibraram pelos desertos aposentados e extensos corredores da Casa Mourisca aquele sons, que em felizes tempos punham em movimento uma numerosa e esplêndida côrte, que os ventos da adversidade tinham dispersado.

D. Luís entrou nasala de jantar, onde com impaciência o aguardava já o capelão.

Aquela grande sala vazia, aquela extensa mesa, apenas servida com quatro talheres, falava tanto do esplendor passado e da decadência presente, que poucos lugares havia na casa que deixassem no fidalgo mais melancólicas impressões. Nunca se lhe anuviava tanto o coração como ao sentar-se-à cabeceira da mesa, em torno da qual outrora vira rostos conhecidos e amigos, hoje tão solitária e abandonada.

. Luís, reparando que o escudeiro principiava a servir, perguntou, apontando para os lugares dos filhos, que ainda estavam de vago.
- Então os senhores não ouviram a sineta?
- Os senhores ainda não vieram.
- Nem Jorge?  - perguntou D. Luís, como se estranhasse menos a ausência de Maurício.
- Nem um, nem outro.
- O snr. D. Maurício - observou o padre, que temia um adiamento do jantar - saiu para a caça; quando virá ele agora?

E dizendo isto, fazia sinal ao criado para que servisse o fidalgo.

- E Jorge? - insistiu o pai.
- O snr. D. Jorge... esse não sei... talvez esteja aqui por alguma parte.

O fidalgo, evidentemente contrariado com a ausência dos filhos, que ainda mais aumentava a solidão daquela sala, resignou-se a principiar a jantar sem eles.

O jantar correu em silêncio.

O humor negro de um dos comensais e o apetite do outro não davam azo ao diálogo.

Estaca o padre deliciando-se com uma farta posta de assado e o cometente acessório de massas, quando Jorge entrou na sala.

D. Luís não lhe dirigiu a palavra, nem sequer um olhar.

Jorge formulou uma vaga desculpa, que o pai interrompeu, com o gesto a mandá-lo sentar; e, passados momentos, levantou-se ele e saiu silencioso.

Frei Januário, tendo já satisfeito as primeiras e mais urgentes exigências do seu estômago, achou-se disposto a continuar o diálogo. Por isso, ao encetar a sobremesa, dirigiu por comprazer a plavra a Jorge:

- Com que vem do seu passeio, hein? A manhã estava bem bonita. E então o que viu por esses campos?
- Muito trabalho, snr. frei Januário, muita vida rural - respondeu Jorge.
- Sim, agora é o tempo das colheitas, Anda por aí tudo azafamado.
- Mas porque é, snr. frei Januário, que nos campos da nossa casa não vejo o movimento dos outros?

A imprevista interpelação do adolescente ia entalando o padre.

- Causou-me sensação isto hoje - prosseguiu Jorge.
- Quem subir ao alto do outeiro da Faia, por exemplo, e olhar de lá, em roda de si, para o vale, pode marcar as propriedades da nossa casa; onde vir um campo quase maninho, um muro a cair, umas paredes negras, um aspecto de cemitério, tenha a certeza de que nos pertencem esses bens.
- Não é tanto assim... É verdade que... meu rico filho, que quer? depois que os homens do liberalismo tomaram conta deste país, as coisas mudaram. Quem não está por o que eles querem...
- Não vejo em que eles influam para isto, snr. frei Januário. Quem nos impede de fazer o que os outros fazem? de cultivar os nossos campos? de pôr homens a trabalhar nossas terras incultas?
- O que os outros fazem, diz ele! Os outros... os outros... e quem são os outros? Uns miseráveis que eu conheci de pé descalço, a limpar os cavalos e a cavar nos campos desta casa.
- Tanto mais para admirar e para louvar o esforço que os tirou dessa posição humilde e os elevou àquela, que hoje ocupam.
- Olhem que grande milagre! Homens que não devem respeito a si mesmos, para quem todo o trabalho está bem,como não hão de enriquecer? Ora essa é muito boa!
- E os que devem respeito a si mesmos estão pois condenados à miséria?
- À miséria... à miséria!... Que palavra! Ora para o que lhe deu hoje! Foi sobre que se lhe pegou? Se ela anda por aí tão acesa! O menino ainda é muito criança para pensar nessas coisas. Coma e beba e...

As faces de Jorge tingiram-se de um rubor intenso, e redarguiu com energia e irritação:

- Não sou criança, frei Januário; acredite que o não sou. Tenho mais de vinte anos e estou resolvido a ser homem. Córo da minha ociosidade, quando vejo que somente as nossas terras fazem vergonha à actividade deste povo. Tenho anos para viver, deveres de honra a cumprir, um nome para conservar sem mancha, e quero saber que futuro me preparam os gerentes da nossa casa, quero desviar a tempo de mim a tremenda responsabilidade de ser na minha família talvez o primeiro a faltar um dia aos seus compromissos. É por isso que falei e que desejo que me responda, snr. frei Januário.
- Ai. menino; isso não é seu! Aí anda doutrina liberal. Eu cheiro-a à distância de léguas. Então quando o senhor seu pai me honra com a sua confiança, é acaso justo, é acaso bonito que eu seja suspeito e interrogado por uma criança, que ainda nada sabe do mundo?
- E quando hei de aprender? Querem-me estúpido, como esses morgados que por aí se arruínam?
- Mas que quer o snr. Jorge afinal? Então não sabe que desde que os lavradores se fizeram fidalgos, ninguém luta com eles? O dinheiro está de lá; para lá vão os trabalhadores; senhor. Ora é boa! Eu acho graça a certa gente!
- O dinheiro está lá! Mas como conseguiram eles enriquecer? Pois não diz que eram uns miseráveis?
- Ah! então quer principiar como ele principiaram, cavando com uma enxada todo o dia e furtando à boca para juntar ao canto da caixa com o fim de comprar uns bois? etc. etc. Veja se quer.
- Não principiávamos de tão longe como eles, escusávamos de tantos sacrifícios. Bastava que olhássemos com atenção para o muito que temos ainda, e que tentássemos desenredar, a pouco e pouco, esta meiada, que nos enleia e que nos há de afogar a todos.
- Ora é boa! E então o que é que eu faço, o que é que estou fazendo há quase trinta e oito anos em que o snr. D. Luís me distingue com a sua confiança? Mas a coisa não é tão fácil, como lhe parece. É boa!
- Mas quais são os seus plano, padre Januário, qual é o seu sistema de administração?
- Os meus planos?!... Ora essa!... Então que planos quer que sejam os meus? Sistema de administração!... isso é frase de cortês... Humh! tenho entendido... É o que eu digo... Ó snr. Jorge, ora fale-me a verdade, aí andam ideias de liberalismo. Com quem falou esta manhã! ora diga.
- Venham de onde vierem as ideias. A origem pouco importa, a questão é que elas sejam boas. Eu não trato de liberais nem de absolutistas agora. Vejo que a minha casa se perde, vejo caírem os muros e nunca se repararem; vejo campos e campos sem menor cultura, encontro em tudo quanto nos pertence profundos sinais de decadência, e quero saber a grandeza do mal que nos oprime.
- E se for grande o mal, o que quer que se lhe faça?
- Quero que se trabalhe para remediá-lo; que se façam sacrifícios úteis, que deixemos a louca vergonha e o orgulho enfuatuado que nos faz viver hoje ainda uma vida que não é destes tempos. Desengane-mo-nos; a época não é de privilégios nem de isenções nobiliárias, é de trabalho e de actividade. Plebeu é hoje só o ocioso, nobre é todo o que se torna útil pelo trabalho honrado.
- Jesus! O que aí vai! O que aí vai! Eu bem o digo! Há liberal na costa! Isso é tão certo como dois e dois serem quatro. Se o pai  o ouvia!
- Há de ouvir-me, porque tenciono hoje mesmo falar-lhe.
- Que vai fazer, snr. Jorge?
- O meu dever. Eu e meu irmão seremos um dia os representantes da nossa família. Para que nos orgulhemos do nome que herdamos, é necessário que esse nome não tenha manchas e que nós lhas não lancemos.
 - Mas quem lhe diz, quem lhe fala em manchas? Ora... ora... ora... ora esta não está má!
- Frei Januário, eu não sou criança, repito-o. Sê-lo-ia ontem, hoje não o sou já. Faça de conta que o sol desta manhã me amadureceu. Por isso não me iludo enquanto à natureza dos meios com que se sustenta ainda nesta casa um resto de esplendor de antigos tempos. Pois mais valeria comer em louça nacional e vender as matilhas e os dois cavalos de luxo, que ainda temos, para comprar dois bois.
- Mas...
- Até logo, frei Januário, conversaremos mais de espaço sobre isto.
- Mas...

Jorge, sem o atender, dispunha-se a sair, quando o padre, puase assustado, o chamou.

-Mas venha cá. Ouça-me valha-me Deus! Olhem que homem este! Tem muita razão no que diz. Sim senhor. As coisas não vão bem. Hoje não é ontem; e esta casa já viveu melhores tempos do que os que correm. Mas de quem é a culpa? É de mim ou do senhor seu pai? Pois não foste! Para remediar o mal trabalhamos nós há muito. A culpa é desta gente que nos governa, destes homens que juraram perder tudo quanto era nobreza para poderem à vontade fazer das suas, sem ter quem lhe vá à mão. Percebe agora? Desde que os liberais...
- Por quem é, frei Januário, não me venha outra vez com os liberais. Eu tenho a razão bastante clara para ver as coisas como elas são, e não me deixar levar por essa cantiga do costume. Os liberais!... Os liberais o que fizeram foi aliviar a agricultura dos enormes encargos que dantes pesavam sobre ela e que não a deixavam prosperar, foi criar leis e instituições que facilitássemos esforços dos laboriosos e castigassem se veramente a incúria e a ociosidade. Quando ao de oprimir-se o lavrador de tributos pesados e iníquos e dos odiosos vexames do fisco, ao tornarem-se-lhe mais fáceis os contactos e as transmissões da propriedade, ao criar-se-lhe recursos para ele tirar do seu trabalho e da sua inteligência dez vezes mais do que antes podia obter, quando na época em que tudo isto se realiza, uma casa como a nossa, em vez de prosperar como tantas, vê apressada a sua decadência, é porque tem em si um velho e incurável cancro a roê-la. E é esse cancro que eu quero conhecer, para extirpar-lo, se ainda for possível.
- Eu estou pasmado! Pelo que ouço, acha o menino que todas essas fornadas de leis, que esta gente tem feito, são muito boas e que a sua casa devia ser muito bem servida com elas?
- Essas leis de que se queixa, são racionais; uma casa racionalmente administrada não pode pois perder com elas.
- Sim, senhor! Visto isso, o menino, que depois da morte dos manos, ficou sendo o filho mais velho da família, gostou talvez muito de ver acabar com os morgados? Sim, como as leis modernas são tão boas, havia de gostar - Argumentou o procurado, com ares de finura, como de quem apanhava em falso o seu adversário.

Jorge respondeu serenamente:

- E porque não? A abolição dos morgados acho eu que foi um grande acto de justiça e de moralidade; além de ser uma medida de longo alcance político.
- Ai... ai... ai... o que mais terei de ouvir! O menino está perdido!... Pois já me aplaude a maldita lei, que há de dar cabo das famílias mais ilustres do reino... Ai, como ele está!...
- Deixe-se disso. A abolição dos vínculos só trouxe a morte às casas que deviam morrer. O que ela fez foi proclamar a necessidade do trabalho indistintamente para quem quiser prosperar. O esplendor das famílias deve ficar somente ao cuidado dos membros delas e não da lei. Quando esses não tenham brio nem dignidade para o sustentar, justo é que ele se apague, e que o nome dos antepassados não continue a ser desonrado pelos vícios e ociosidade dos descendentes. Mas deixa-mo-nos destas discussões, frei Januário.O meu partido está tomado. mais tarde saberá das consequências dele.

E Jorge que saiu da sala, deixando o egresso apertado com o que ouvira.

- Que anda aqui liberalismo, isso para mim é de fé. Mas que mosca o morderia? Querem ver que já fizeram do rapaz maçon? Pois olhem que não é outra coisa. Eu quando os ouço falar muito do trabalho... já estou de pé atrás. Tem graça! Quem os ouvir, persuade-se de que o trabalho é um prazer. Ora adeus! O trabalho é uma necessidade, o trabalho é um castigo. Para aí vou eu. Que trabalho tinha Adão no paraíso? E não lhe chamam os livros sagrados um lugar de delícias? Amassar o pão com suor do rosto, olhem que título de nobreza! Estes modernismos! Mas é a cantiga da moda. O trabalho enobrece, o trabalho consola, o trabalho é uma coisa muito apetitosa... Será, será, mas eu, por mim, se pudesse deixar de trabalhar... Ah! ah! ah!.

Aqui bocejava o agresso.

- Mas que ali anda liberalismo, isso é tão certo como eu estar onde estou. Como ele falou nos morgados!... Provará que é tão pateta que, sendo ele morgado, diz daquilo. E que cai declarar ao pai... Não declara nada. Um criançóla que não sabe senão passear. Tomara ele que o deixem... O ocioso é que é o plebeu, o nobre é o que trabalha. Sim, sim, contem-me dessas. Aquilo é música de anjos. Diga-se o que é verdade, quem puder queixar de trabalhar...

Frei Januário, nestas graves ponderações, deixou-se a pouco e pouco invadir pelo sono, e acabou por adormecer à mesa, sonhando-se em uma espécie de paraíso, com o tal lugar de delícias de Adão, cuja ociosidade sempre fora objecto muito dos seus enlevos.

Deixe-mo-lo adormecer, e vamos ter com Jorge a um dos menos arruinados ângulos da Casa Mourisca."

08/01/13

CATÓLICOS E EVENTOS FESTIVOS - GRATULAÇÃO PELOS DESPOZÓRIOS DE D. JOSÉ (II)

(continuação da I parte)
D. MariaAna Victoria, em criança.
Com este numeroso e luzido cortejo entrou o Doutor Chanceler Governador na Igreja de S. Domingos e, posto em seu lugar, e os Ministros e Oficiais nos para eles destinados, revestido o Padre Prior e os Acólitos com capa de Asperges de tela branca, e toda a Relação com tochas acesas, se cantou o Te Deum a 6 coros de música excelente acompanhada de todos os melhores instrumentos, com assistência de muita nobreza e povo que concorreu a este vistoso e magnífico acto cuja despesa foi toda do Doutor Chanceler Governador que aos Religiosos de S. Domingos mandou dar toda a cera que serviu nesta solenidade e uma boa esmola para a Sacristia satisfazendo também aos músicos com profusão bem larga.

Destinou o Senado da Câmara o dia de Quinta feira 5 do corrente mês de Fevereiro para o Sermão e Procissão da acção de graças com todo aquele empenho de que eram premissas tão lustrosas antecedências. No dia 4 serviram de solenes Vésperas, não só a repetição de luminárias, mas uma vistosíssima e custosa encamisada, formada toda tanto de Cavalheiros principais da Cidade como de muitos de fora que concorreram a ela. De luzidas galas e brilhantes saezes em fermosos cavalos se compunham todos, assistindo de numeroso esquadrão de lacaios com tochas ardentes e flamantes librés, discorreram pelas ruas principais seguidos de um carro de harmónicas serenatas puxados de poderosos cavalos, fazendo tudo parecer aquela noite um vistoso e alegre dia.

No dia 5 tornou a sair toda a Relação de gala na mesma forma que na função precedente. De custosissímas galas e preciosos adornos a elas correspondentes saíram neste dia o Doutor Manuel Dias de Lima, Corregedor da Comarca, o Doutor Bernardo Ferreira de Vasconcelos, Juiz de fora, os quatro Vereadores Francisco de Sousa Cirne Soares de Madureira,e Azevedo; Pantaleão Alvo Brandão Perestrelo, Luís Brandão Pereira de Lacerda, e Francisco Correia de Lacerda: o Procurador da Cidade José Freire de Sousa, o Escrivão da Câmara Caetano José Leite Pereira, o Doutor Juiz dos Órfãos Estêvão Peixoto Cabral. os seis Cidadãos, que haviam de pegar nas varas do Palio: Dom Bartolomeu de Noronha e Menezes, Diogo Francisco Leite Pereira, Manuel Alvo Brandão, Diogo do Valle Coutinho, Luís de Mello Pereira, e Simão Cardoso Coutinho. Os dois Almotaceis, Luís de Mello da Silva e José de Távora e Noronha, todos Fidalgos, os Cidadãos da Bandeira e Estoque, e os que na Procissão haviam de governar os 8 bailes dela, o Sindico, Tesoureiro da Cidade, Escrevente, Guarda, e Agente da Câmara, e todos os mais Oficiais dela, o Juiz, Procuradores e Meirinhos da Cidade, Escrivães da Almotaçaria e vara, e os do Juízo de fora, compondo tudo um bem luzido e ordenado congresso que, de manhã, assistiu todo com grande afluência de nobreza e povo, na Sé, à Missa solene e ao Sermão Panegírico que recitou o Reverendo Cónego o Doutor Manuel dos Reis Bernardes com aquela vasta erudição que o seu grande talento costuma ostentar em celebridades tão plausíveis.

(continuação, III parte)

CATÓLICOS E EVENTOS FESTIVOS - GRATULAÇÃO PELOS DESPOZÓRIOS DE D. JOSÉ (I)

RELAÇÃO
DOS
FESTIVOS APLAUSOS,
COM QUE NA CIDADE DO PORTO SE CONGRATULARAM
os felizes despozorios dos Sereníssimos Senhor

DOM JOSÉ
PRÍNCIPE DO BRASIL, E SENHORA
D. MARIA ANA VICTORIA
INFANTA DE CASTELA, e DOS

Sereníssimos Senhores
D. FERNANDO
PRÍNCIPE DAS ASTÚRIAS, E SENHORA
D. MARIA BARBARA
INFANTA DE PORTUGAL


LISBOA OCIDENTAL
1728

D. José

RELAÇÃO

Participando S. Majestade, que Deus guarde, por cartas assinadas da sua Real mão aos magistrados desta Cidade do Porto, e ao Reverendo Cabido como era servido, que nela, e em todos o Reino se fizessem as maiores demonstrações de alegria pelos felizes despozorios do Sereníssimo Senhor D. José Príncipe do Brasil com a Sereníssima Senhora D. Maria Ana Victoria Infanta de Castela, e do Sereníssimo Senhor D. Fernando Príncipe das Astúrias com a Sereníssima Senhora D. Maria Barbara Infanta de Portugal: logo na manhã de 19 de Maneiro de 1728 comunicou em Relação esta alegre notícia a todos os Ministros dela o Doutor Francisco Luís da Cunha de Ataíde  seu Desembargador do Paço, Chanceler, e Governador das Justiças na mesma Relação, dando feriados os seis dias desta semana dedicados todos a plausíveis luminárias, e dispondo que no Sábado 24 dia último delas se cantasse solenemente na Igreja dos Religiosos de S. Domingos o Te Deum em acção de graças com assistência de toda a Relação em público dela.

Na mesma manhã de 19 mandou o Senado da Camera publicar a som de clarins com assistência do Alcaide, e Meirinho da Cidade montados a cavalo, e vestidos de gala, a mesma notícia, e disposição de luminárias por toda ela, o que também anunciaram alegres os festivos repiques dos sinos.

A todo o Clero ordenou também plausíveis iluminações o Reverendo Doutor João Guedes Coutinho Governador deste Bispado, e aos Militares o Coronel do Regimento pago da Guarnição desta Cidade, e Governador das Armas António Monteiro de Almeida, que alem de dispor que em todas as seis noites o Regimento formado nas praças dela desse repetidas salvas de mosquetaria, mandou ordem aos três Castelos de S. João da Foz, S. Francisco Xavier do Quejo, e Matosinhos, para que nas mesmas noites se dessem alternadas salvas de artilharia; e assim o fizeram executar os Tenentes Governadores deles António de Almeida Carvalhais, Martim Afonso Barreto, e Francisco da Silva Malafaia; sendo ao mesmo tempo em toda a Cidade, e Castelos tudo iluminação, e salvas tudo, a que correspondia sonoro o geral harmónico aplauso dos repiques.

No Sábado 24 estava a Igreja de S- Domingos toda adornada de damascos, e a Capela mor de vistosas tapeçarias, em cujos lados se viam os retratos dos quatro Príncipes desposados debaixo de meios doceis. Junto da mesma Capela e via o retrato de S. majestade debaixo do rico docel da Relação com todos os paramentos daquele sublime lugar, a que se seguia a cadeira do Doutor Chanceler Governador das Justiças, e a ela as dos Ministros do Desembargo em vistoso circulo, que rematava o lugar dos Doutores Corregedor da Comarca, Juiz de Fora, e Juiz dos Órfãos.

No retábulo do Altar mor, que estava todo iluminado de luzes, se via um quadro com as armas Reais de Portugal, e Castela, e no mais corpo da igreja, além dos lugares destinados para os Oficiais da Relação, se achavam formados para os músicos seis coros. Neste dia saiu o Doutor Chanceler Governador vestido de gala com beca de veludo forrada de glacè de prata, e  todos os Ministros com várias e vistosas galas, chapéus adornados de broches e joias de diamantes. De gala saíram também todos os Escrivães, e Oficiais da Relação com capas forradas de seda de outro, e prata,chapéus emplumados, e de broches guarnecidos em forma, que tudo fazia o mais vistoso aparato.

(continuação, II parte)

07/01/13

"MISSA" - NO DICIONÁRIO


"Missa. Incruento sacrifício da Lei da Graça, no qual debaixo das espécies de pão e do vinho, por mãos de Sacerdotes, se oferece a Deus Pai o corpo e sangue de seu Filho unigénito, Jesus Cristo. As partes essenciais da Missa são três: a consagração, a ablação, e a consumpção. Os efeitos da Missa são quatro: o perdão dos pecados, enquanto é sacrifício propiciatório; a remissão das culpas veniais, enquanto é sacrifício expiatório; a remissão das penas, que merecem as culpas perdoadas, enquanto é sacrifício satisfatório; e a impetração dos benefícios de Deus espirituais e temporais, enquanto é sacrifício impetratório. Segundo Reuclino, e outros, a palavras Missa se deriva do hebraico Missach, que quer dizer Oblata, ou oferta voluntária; ou se deriva do nominativo plural, Missa, missorum, porque antigamente, quando depois do Sermão e da ligação da Epístola e do Evangelho dizia o Diácono, Ite Missa est, se lançavam fora da igreja os catecúmenos e excomungados, porque lhes não é lícito assistir à consagração. No seu etimológico declara Vossio miudamente as duas derivações desta palavra Missa. Una est (diz este autor) ut Missa dicatur, quia uti apud Graecos... [...etc].
Fem. e o termo de que ordinariamente usa a Igreja. Também lhe poderás chamar, Magnum Christianae religionis sacrificium, ii. Neut. ou Sacrum, i. Neut. ou no plural, Sacra, orum. Neut. ou resdivina, rei divinae. Fem.

Missa rezada. Sacrorum privatum, ou sacrificium sine cantu, ou citra cantum.

Missa cantada. Sacrum, ou sacrificium cum cantu.

Missa conventual. É aquela que todos os dias se diz no altar mor, imediatamente depois de Treça, nos Conventos, Colegiadas, etc. Sacrum, universocaetui commune;  ou mais claramente, Missa Conventualis. Em abono desta expressão diz Boldonio na sua Epigraphica, pag. 199, Non improbanda vox nova Conventualis, vulgo etiam usurpata, sed per analogiam ducta a Conventu, sicut a Censu censualis apud veteres Jurisconsulios.

Missa d'alva. Sacrum matutinum.

Missa do Galo. que se diz na noite de natal. Sacrum nocturnum, ante natalem Christi Domini diem celebrari solitum. (S. Telésforo Papa, sétimo sucessor de S. Pedro, instituiu esta Missa.)

Missa das almas. ou Missa de requiem (como dizem alguns.) Sacrum mortuale, ou sacrificium pro mortuis; pode-se-lhe acrescentar o adjcetivo Piaculare, porque é Missa para a expiação dos pecados dos defuntos. O P. Boldonio lhe chama Sacrum funebre.

Missa seca. Aquela que algumas vezes diz o Sacerdote no mar sem consagrar, e sem secretas. Chamam-lhe Missa navalis, ou Nautica. Missa seca também é aquela dos que aprendem a dizer Missa, instruindo-se em todas as cerimónias deste sacrifício, sem chegar a consagrar. Os autores eclesiásticos lhe chamam Missa sicca.

Missa votiva. Aquela que diz o sacerdote fora da ordem e disposição do Calendário, mas conforme a sua devoção, ou vontade, de sorte porém que não exceda as limitações da rúbrlica. missa votiva, ae. Fem. Chamam-lhe alguns voluntária, ae Fem. Vid. infra.

Missa quatidiana. Sacrum quatidianum.

Missa perpetua. Sacrum Perpetuum.

Missa Musarábica. ou Mosarabica. Deu-se este nome à Missa dos cristãos da Hispania [Península Ibérica], que por andarem misturados com árabes, eram chamados Musárabes, ou Moçárabes. No tomo 27 da nova Bibliotheca Patrum, pag 665acharás as cerimónias da dita missa, a qual, como também o ofício Moçarábico se continuou nas Espanhas até ao tempo do Papa Gregório VII que estabeleceu naqueles Reinos o rito Romano, reinando Afonso VI no ano de 1080. Ainda hoje em algumas igrejas paroquiais da Cidade de Toledo se celebram os Ofícios Divinos ao modo Musarábico, particularmente na igreja Maior da dita Cidade, e nela foi instituída pelo Cardeal Ximenes a Missa Moçarábica. Missa Muçarábica. Vid. mais abaixo Musarabe.

Missa Calicana.Há opinião, que era uma imitação da Missa Musarábica na Igreja Galicana, até ao tempo de Carlos Magno, e dos seus sucessores, que introduziram em França o rito Romano.

Missa Castrense.Constantino Magno, na guerra contra os persas, levava sempre diante do exercito um tabernáculo em forma de igreja, onde se celebrava Missa, e cada legião tinha um Templo móbil, em que residiam os Sacerdotes; por isso lhe chamavam Missas castrenses.

Dizer missa. Celebrar o sacrifício da Missa. Sacra facere, ou rem divinam sacre, ou peragere, ou sacris operari, ou caelestem hostiam Deo offerre. Sanctissimo Christi corpore, et sanguine, Divinonumini litare, ou sacrificare. Algumas vezes basta que se diga, Facere, como quando dizemos, Facit ad aram maximam, Está dizendo Missa no altar mor.

Ouvir Missa, Sacro, ou sacris, ou rei divinae interesse.

Missa por tua intenção. Sacrum pro se faciendum, ou offerendum.

Dizer Missa cantada. Ad. sacrum, ou ad sacrificium, ou rem divinam cum cantu, ou adbito cantu facere.

No tempo da Missa, Inter sacra. Inter Divinam rem. É de Masseu, lib. I Hist. Indic. Inter Divinam rem peragendam. Idem, in vita S. Ignatii lib. 3 Intersacrificandum. É à intenção de Valer. Max. lib. I cap. I onde diz, falando com Gentio: Suplitio, inter sacrificandum apex e capite prolapsus, sacrificium eidam abstulit.

Depois da Missa. A sacro. Mass, in vida S. Ignatii lib. 3 cap. 12 Sacro Missae peracto. Idem: Re Divina peracta. Ex. Sue[?] in Tiber.

Revestir-se para dizer Missa. Se ornatu Sacrificantis induere, Mass. lib. I Epist. 9

Aparelhar-se, ou preparar-se para dizer Missa.Rei se Sivine comparare.

Ajudar à Missa. Sacrificante ministrare.

O que ajuda à Missa. Sacri minister, sacrificii administer. Tursllin. Hist. Lauret. lib. 5 cap. 2 Duodecim pueris sacrarum ministris rubrae versis insigne dedit.

Dizer Missa nova, ou a primeira Missa. Primam Divinae maiestati hostiam imolare. Sacerdotii primitias Deo libare. Sacrificantiinitium facere. Masseu em vários lugares. Missam novam celebrare. É do Concílio Tridentino fest.2onde diz, Quid quid pro Missis novis celebrandis datur, etc.

Missa votiva. Sacrum votivum. Mass.

Missa votiva de nossa Senhora. Deiparae Virginis votivum sacrum. Mass. Vid. supra.

Missa de Pontifical. Vid. Pontifical.

Adágio Português da Missa. Quando o corsário promete Missas e cera, por mal anda o galeão. Nem tanto Ámen, que se dana a Missa. Ouvir Missa não gasta tempo; dar esmola, não empobrece. Missa, nem cevada, não estorva jornada. Missa caçador."

(retirado do Vocabulário Portuguez & Latino, Tomo V. LISBOA, 1712)

06/01/13

SEDEVACANTISMO MILITANTE E MODERNIMSO - BREVE NOTA

Papa João Paulo II

Pego num texto de auto-defesa do Dr. Arnaldo Xavier da Silveira, que redigiu como resposta a D. Gerhard Müller (Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé):

"Nunca o fui, embora um ou outro comentarista pouco atento tenha pretendido ver traços de sedevacantismo no estudo sobre a possibilidade teológica de um Papa herege que faz parte de meu livro “La Nouvelle Messe de Paul VI, Qu’en Penser?” (Diffusion de la Pensée Française, Chiré-en-Montreuil, França, 1975). Com base na boa e tradicional teologia dogmática, não vejo que, em relação aos Pontificados dos últimos decênios, tenha sido teologicamente possível, em qualquer momento, declarar vaga a Sede de Pedro (ver Paul Laymann S.J., +1635, “Th. Mor.”, Veneza, 1700, pp. 145-146; e Pietro Ballerini, “De Pot. Eccl.”, Roma, 1850, pp. 104-105). Se a Divina Providência me der forças, publicarei em breve um estudo sobre os erros teológicos das teorias sedevacantistas correntes."

É oportuno notar que hoje surge cada vez mais visível o problema da autoridade papal.

Parece-me que o sedevacantismo militante é um fenómeno do modernismo.

Acredita-se hoje que o Papa é de tal forma incontestável que se estende a sua infalibilidade para lá do dogma da infalibilidade, pois o não entendimento da natureza deste dogma levou a que, perante a grande crise que hoje os católicos atravessam, se queira atribuir ao Papa a IMPECABILIDADE, a SANTIDADE, e a INERRÂNCIA que, isso sim, são próprias da Santa Igreja. Isto é um "super dogma da infalibilidade papal"!

Os sedevacantistas militantes partindo do "super dogma da infalibilidade papal", ao verem que ele foi quebrado, concluem: "este homem não é Papa, certamente". Os modernistas que deplorem o sedevacantismo militante, partindo do mesmo super dogma e vendo um suposto erro do Papa concluem o contrário dizendo: se o Papa não erra logo o "erro" não é erro realmente, e as suas palavras forma mal interpretadas certamente.

Por agora é tudo...

PEQUENA NOTA - SEDEVACANTISMO DESAMBIGUADO


Que sejam uma ajuda as desambiguações seguintes:

Uma coisa é a hipótese de sedevacância, teoria não condenada, e outra coisa é a defesa daquela mesma ideia já não como hipótese teórica mas sim como algo que pode em dado momento ocasionar-se, e outra coisa é a aplicação desta última posição a um dado momento histórico ou Papa.

Uma coisa é demonstrar a hipótese da sedevacância, outra coisa é demonstrar que a sedevacância pode acontecer realmente, e outra coisa é aplicar a sedevacância a um caso concreto no tempo e no espaço.

O sedevacantismo hipotético deveria ser: corrente que defende a hipótese sedevacante (como hipótese);
O sedevacantismo deveria ser: corrente que defende a sedevacância como exequível, inegavelmente;
O sedevacantismo militante deveria ser: corrente que faz encarnar o sedevacantismo no tempo e no espaço e o vive com as suas consequências.

Nas "disputas de café" que se costumam ter com os sedevacantistas militantes, ocorre escaparem aquelas distinções de que falo e decidi dar nome.

Apenas o que MILITA, É.

Por hoje é tudo...


(P.S. - Não defendo nenhum dos sedevacantismos, e julgo que só deve ser chamado "sedevacantista" aquele que é militante.)

05/01/13

D. ESTÊVÃO BETTENCOURT - A DECADÊNCIA APOLOGÉTICA III



S. Tomás de Aquino
(continuação da II parte)

Será que o autor recorre à Doutrina da Igreja, ao Tomismo, aos Santos Doutores da Igreja para fim de comparar e julgar? Será que recorre ao senso comum e aos textos do Concílio Pastoral tomando-o como tabela Doutrinal?

O “O Caso Lefebvre” distribui-se desta maneira: Em síntese, D. Lefebvre: a pessoa e suas ideias, Reflexões, Conclusão.

O artigo foi para mim uma surpresa logo desde a primeira página. Tão emaranhado de irregularidades e tão carente de argumentação que se me coloca um sério problema metodológico:  Como abordar um texto que, para lá de ter tantos e variados erros, é ele mesmo um desatino? E como se explica que o seja, vindo de quem vem?


I
JUÍZOS ESTRANHOS TORNADOS PREMISSAS FUNDAMENTAIS

Logo nos primeiros passos, lamentavelmente, o autor alarma os seus leitores com falsa e grave notícia: teria havido um cisma com as Sagrações Episcopais dos Bispos da FSSPX (as quais chama de “ordenações”). O motivo das Sagrações, o qual leva à impossibilidade canónica das supostas excomunhões, fica assim ocultado ao “fiel alvo”.

Tamanha omissão falseia toda uma perspectiva.

D. Estêvão, tendo lido obras e sermões do Arcebispo D. Marcel Lefebvre, não não teve cuidado e justiça em apresentar aos leitores os motivos e enquadramento canónico que dão por inexistentes tais “excomunhões”. E este é um ponto FUNDAMENTAL, incontornável, que, sendo omitido, suja a opinião pública face ao bom-nome de D. Marcel Lefebvre. O autor chega assim a um extremo desconcertante, e custa a crer que ignore que, para tratar a vida e obra de outrem, tenha de recorrer às fundamentações e convicções expressas de outrem.

Só por si, sem mais, a apresentação e explicação dos motivos de Mons. Lefebvre a respeito das excomunhões seriam suficientes para anular este “O Caso Lefebvre”. Supondo que o autor, por ignorância, acreditasse ter havido um cisma, porque se preocuparia então em em redigir páginas bastando dizer que os cismáticos não são católicos, não se podem salvar nem podem ser seguidos pelos católicos? Não teria assim bastado um parágrafo em substituição de uma tese que PULA justamente a questão em torno do “cisma”?

(terá continuação s.D.q.)

04/01/13

A VERDADE E O EVOLUCIONISMO (XVII)

(continuação da XVI parte)
"A ciência deve, portanto, começar com a crítica aos mitos" (Karl Popper)

Até aqui desenvolvi o argumento sobre as mutações seguindo o esquema da hipótese evolucionista, para demonstrar que, mesmo assim, é totalmente impossível que elas possam criar novidades biológicas e transformar assim as espécies.

Mas a situação é muitíssimo mais grave. E aqui há que abandonar o dogma darwinista e passar à realidade; ou seja, abandonar o campo da fantasia e passar ao da ciência.

Para os esquemas da pseudociência darwinista não há lugar para o conceito de organismo, ou seja, para um conjunto de estruturas integradas que funcionam como um todo. Herdeira, ao fim e ao cabo, do mecanismo cartesiano, a hipótese evolucionista pensa em termos de partes. E assim os darwinistas acreditam ser possível que um organismo pode ir-se modificando por partes que, ao somarem-se, produziriam a transformação num outro organismo. Mas isto, na verdade, é um completo desatino. Ignoram a grande lei biológica do “tudo ou nada”.

De que serviria a um macaco, por exemplo, desenvolver pernas de homem, sem simultaneamente desenvolver pélvis de homem? De que lhe serviria uma pélvis de homem sem coluna vertebral de homem? Como pode existir mão de homem, com braço, antebraço e ombro de macaco? Como pode haver coluna vertebral de homem, sem crânio de homem, e vice versa?

Todas estas estructuras, ou aparecem simultaneamente e em estado de plena perfeição, ou servem para nada; pelo contrário, são um estorvo para a sobrevivência. Isto aplica-se, certamente, a todos os organismos vivos. E para que isto suceda, tem que ser mudado todo o código genético, em forma simultânea e sem um só erro. Para tal deveria ocorrer uma mutação gigantesca, um reordenamento radical de todo o código genético, dirigido e especificado aos mais mínimos detalhes, para produzir um ser vivo capaz de funcionar, portanto, capaz de viver. Mais isto constitui um milagre maior que a ressurreição de um morto.

Isto, que já tinha sido abordado na década de 30 pelo insigne biólogo e paleontólogo alemão Otto Schindewolf, encontrou o seu mais acabado expositor em Richard Goldschmidt, um dos três ou quatro genetistas mais eminentes do século.

Por volta dos anos 40, R. Goldschmidt, fervoroso evolucionista, depois de ter dedicado praticamente toda a sua vida ao estudo das mutações, apesar de acreditar na transformação de uma espécie noutra, conclui dizendo que é absolutamente impossível explicá-la mediante o mecanismo das mutações. Publicou um livro The Material Basis of Evolution e um artigo (American Scie., 40:97, 1952) de um rigor científico exemplar, onde demonstra em forma assombrosa o carácter totalmente anti-científico de todo esta mecânica das mutações.

Ninguém, absolutamente ninguém, foi capaz de refutar estas conclusões de Goldschmidt.

A comunidade científica, como geralmente sucede, não fez qualquer caso das conclusões deste investigador. Os mais "campistas" seguiram e seguem dizendo disparates a respeito das mutações, sem sequer terem o trabalho de analisar os próprios escritos, nem muitos outros autores que insistem no mesmo.

CONCLUSÃO

Como vê, caro leitor, nesta sucinta análise do tema, só tratei de esboçar os problemas levantados na transformação de uma macaco em homem, desde o ponto de vista meramente biológico.

Não é mencionado realmente o problema capital da inteligência do homem, que marca uma diferença em relação ao macaco não em grau, como dizem os darwinistas, mas sim de natureza, problema que não pode sequer colocar-se neste contexto.

Pretender explicar a inteligência humana por meio de mutações ao acaso dadas no cérebro do macaco é, evidentemente, não saber o que se diz. Ou, pelo contrário, sabe-lo muito bem…

Em suma: alguns macacos têm incisivos e caninos parecidos aos nossos; outros caminham aproximadamente à forma erecta. Algumas moléculas dos macacos são semelhantes às nossas (e de que outro material os evolucionistas pensam que estivéssemos feitos…? De plástico!?).

A Selecção Natural significa que os indivíduos que sobrevivem são os mais fiéis ao tipo (o qual conserva a espécie, e não a transforma). As mutações são absolutamente incapazes de explicar sequer o suposto aparecimento de órgãos novos (novidade biológica).

Onde está a suposta evidência científica de que o homem foi originado do macaco? Na verdade, em parte alguma. Este é somente um “dogma de fé” da revelação darwinista. Sabemos já que, para esta fé darwinista, nenhum argumento racional será efectivo.

(voltar à I parte)

D. ESTÊVÃO BETTENCOURT - A DECADÊNCIA APOLOGÉTICA II

(continuação da I parte)
Mons. Lefebvre durante o Concílio Vaticano II (Praça de S. Pedro - Vaticano)

Não haja dúvidas de que o emudecimento a respeito da eliminação apologética é coerente com o ataque contra quem aponte as causas da eliminação, ainda que tal emudecimento não obrigue ao ataque. D. Marcel Lefebvre, geralmente apresentado como o denunciador daquelas causas, não será  também uma pedra no sapato dos “mudos”?

O leitor médio, ao iniciar o “O Caso Lefebvre”, certamente esperará conhecer os motivos dados pela personagem em estudo e, em caso do autor querer também fazer os seus juízos, esperará ouvir a argumentação contrária. Mas onde estão nesta obra os motivos apresentados por D. Marcel Lefebvre? Não estão! E onde estão as refutações de D. Estêvão? Não estão!

No momento em que se esperava do “grande apologeta” brasileiro do pós-concílio o maduro uso da Apologética, da lógica, da filosofia, da teologia, a “montanha pariu um rato”. Depara-mo-nos com um texto romanceado, com recurso a alguns factos reais, mais ao gosto do público de tele-novelas e bem adaptado aos tempos “pós-conciliares”. Apologética? Nada… e é realmente uma pena ter havido esta oportunidade de, lado a lado, ficarem expostos os motivos apresentados pelo Arcebispo D. Marcel Lefebvre e as próprias convicções de D. Estêvão.

Na Síntese, no início do artigo, o autor acaba por revelar a sua teoria que consiste em demonstrar que a Action Française ter-se-ia prolongado ideologicamente em D. Marcel Lefebvre. A luta deste Arcebispo não teria sido então negar-se a abandonar a Doutrina, Rito, e filosofia, pela aceitação de elementos a eles contrários, mas teria sido antes a aceitação de elementos contraditórios à Doutrina e filosofia católicas supostamente introduzidas pela Action Française. Esta conotação é tão realçada na obra que "Action Française" são as únicas palavras colocadas a negrito, não fosse ao leitor escapar-se-lhe ideia (confirme aqui).

(III parte)

03/01/13

D. ESTÊVÃO BETTENCOURT - A DECADÊNCIA APOLOGÉTICA I

CONSIDERAÇÕES SOBRE O ARTIGO
“O CASO LEFEBVRE”
de
D. Estêvão Bettencourt


por
Pedro Oliveira


Introdução
Em conversa como uma jovem amiga, com propósito mostrou-me o artigo “O Caso Lefebvre” (redigido por D. Estêvão Bettencourt na sua revista Pregunte e Responderemos - Brasil). Pelo título achei poder valer a pena ler.

D. Estêvão Bettencourt
Conhecido hoje no Brasil pelo seu trabalho apologético, D. Estêvão Bettencourt foi doutorado em filosofia no Pontifício Ateneu de Santo Anselmo, e dedicou-se à defesa da Fé (assim diz: “Esta necessidade de darmos conta da nossa esperança e da nossa fé hoje é mais permanente do que outrora, visto que somos bombardeados por numerosas correntes filosóficas e religiosas contrárias à fé católica. Somo assim incitados a procurar consolidar nossa crença católica mediante um aprofundamento do nosso estudo”).

Já lhe iam avançados os anos quando D. Estêvão redigiu o “O Caso Lefebvre”. Encontrava-se cada dia mais distante daqueles seus tempos de estudante de Teologia, em Roma, tempos nos quais a teologia-filosofia continham obrigatoriamente o estudo da Apologética (defesa da fé). Estranhamente, depois do Concílio Vaticano II, a Apologética foi gradualmente removida dos estudos católicos até ao desaparecimento completo. O insólito facto aconteceu justamente quando a Apologética era mais necessária no dizer de D. Estêvão: “hoje é mais permanente do que outrora [tal necessidade].” Este defensor da doutrina e protector da Apologética nada disse a respeito daquele fogo deitado a ceara própria, mesmo acreditando que “somos bombardeados por numerosas correntes filosóficas e religiosas contrárias à fé católica”, dizia.

(II parte)

TEXTOS ANTERIORES