29/06/16
NA SERRA ALTA - UNIÃO EUROPEIA !?...
"Aos que não têm simpatia pela entidade que alguns quiseram denominar de "União Europeia", digo-lhes que esta não é tanto uma "desunião europeia", mas sim, e principalmente, uma "União Deseuropeia"".
(na serra alta - J. Antunes)
22/06/16
CONTRA-MINA Nº 40: A Estátua da Fé (a)
CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,
Periódico Moral, e Político,
por
Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.
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Nº 40
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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A Estátua da Fé
Não tem os Demónios do Inferno mais aversão, e horror ao sinal da Cruz, do que os Pedreiros Livres deste Reino aos dois "I. J." vogal, e consonante. E que mistério se envolverá debaixo destas duas letras do Alfabeto, que possa atemorizar peitos destemidos, e afrontadores de toda a sorte de contradições, e de tormentas? Um "J" consonante é inicial de certo nome, que passava neste Reino por injuriosíssimo; e este nome era o de Judeu, que ainda sem ter havido o grande esforço, que houve, para se lhe tirar neste Reino, pelo menos, alguma parte do que nele era mais odioso, já se teria verificado em nossos dias, em que o afrontado nome de Judeus, perdendo 50% da sua natural enormidade, arreasse bandeira diante do nome de Pedreiro Livre; e com efeito, chamando-se a um homem Pedreiro Livre toca-se o último ápice da injúria; e se no entender do Príncipe da Eloquência Romana faltavam a esta as devidas expressões, que designassem a torpeza de um atentado, que era "Crucificar um Cidadão Romano" também cá em meu tão pobre, como fraco entender, quanto disseram os nossos antepassados, até das Cadeiras da verdade, sobre o epíteto "Judeu" pareceria facilmente um elogio quando nos lembrássemos de o recomendar aos Pedreiros Livres. Não tem pois a Língua Portuguesa cores assaz negras, com que pinte uma classe de animais, incógnita neste Reino até 1750, e que de então para cá nos tem feito maiores estragos, do que fez a invasão de Átila nos diferentes Estados da Itália, nos princípios do quinto século da Igreja. Disse que pareceria facilmente um elogio, porque dizer hoje aos Pedreiros Livres deste Reino, que elas acreditem a Divina Legação de Moisés, e que só pela mais cega de todas as pertinácias deixem de acreditar a outra Divina Legação mais sublime, e autorizada, qual é o próprio Filho de Deus, que outra coisa era se não dizer-lhes, que acreditavam uma parte da Revelação, desdenhando, e rejeitando outra? E não seria isto fazer-lhes um desmesurado elogio? Um Pedreiro Livre, merecedor desta, no seu conceito, honrosíssima qualificação, despreza tudo quanto lhe cheire a sobrenatural, e Divino, até o nome Revelação lhe faz nojo; não admite senão uma coisa vaga, a que ele chama natureza, tudo o mais lhe parece um refinado servilismo intelectual, que se deve eliminar para sempre da face da terra.... Ora desempate-nos já, Senhor Contra-Mineiro, que temos mais que fazer, e diga-nos por uma vez, que nome é esse começado por "J" que faz medo aos Pedreiros Livres deste Reino? Ainda que por esta impaciência, como que me deitaram água na fervura, quando eu estava para lhe referir uma história galante de um Judeu Português, que no séc. XVIII deu novo ser às próprias Lojas Maçónicas de França.... que para tudo há homens em Portugal!!... não há outro remédio senão contentar o Povo.... Esse nome, que faz arrepiar os cabelos, e gelar todo o sangue aos Pedreiros, é o nome "Jesuíta" para o que bastaria entrar na sua composição o Santíssimo, e por extremo adorável nome de Jesus; porém acrescem outras razões ponderosíssimas, e gravíssimas, por que este nome se faz insuportável, e até impronunciável a um Pedreiro Livre. Pois que mal faz aos Pedreiros Livres uma Sociedade de homens, qual é a dos Jesuítas, que toda se emprega em assuntos de caridade, ora educando os Meninos, ora chamando os Selvagens ao próprio ser humano. Nestes "oras" é que se encerra a verdadeira água tofana, que mata os Pedreiros Livres, e por isso eles não podem levar à paciência, que se instaure em qualquer Estado Católico uma Ordem Religiosa, que tanto custou a derrubar, sendo necessário, que três numerosíssimas Legiões de Demónios combinassem os seus esforços, para que fosse abatida uma coluna da Fé, e a principal dos Tronos da Europa.... Visto isso não há neste mundo senão Jesuítas, que possam educar a mocidade, e tudo o mais é ocioso, e inútil na Igreja de Deus! Tal não digo, nem direi nunca; mas direi, e clamarei, sendo necessário, que a esta Ordem, tão célebre pelos seus grandes serviços, como pelos seus grandes desastres, foi concedida uma graça, e vocação especial para certos fins, que até para castigo das gerações humanas foi subtraída a outras normas de ensino público, que sucedeu progressivamente umas a outras, sem nunca pararem, nem aquietarem, deram a conhecer todos os dias as sua insuficiência, e nulidade.... O caso é este, e não é difícil pôr em toda a luz a mira principal dos Pedreiros Livres... Porque aborrecem eles figadalmente os Jesuítas, que nem escudados pelo Nome, e Protecção a mais Augusta podem escapar à virulência de suas peçonhentas línguas? Porque uma vez que se lhes entregue a educação da Mocidade Portuguesa, adeus esperança de inocular, ou enxertar o Maçonismo nos Colégios, onde até agora se fizeram abundantíssimas colheitas; adeus esperanças de se plantarem, e arraigarem nos corações ternos, para nunca mais saírem deles, as Ideias Liberais. Que será do género humano se perecerem as ideias Liberais? Até aqui, por mais activas que fossem as diligências do Governo, para que se limpassem as Escolas, já de Mestres Pedreiros, já de Doutrinas Maçónicas, tivemos quase sempre a fortuna de vermos empoleirados alguns dos nossos, que, por baixo de mão, nos ofereciam a sua para nos resgatarem da opressão, e do abatimento.... Quantas vezes conseguimos intermear de Católicos, e Pedreiros as funções do Magistério... Quantas vezes alcançámos introduzir no Magistério da primeira infância homens provados, e de nossa escolha, que havia muitos anos eram recrutadores para a Seita, e que a tinham enriquecido de centenares de ilustres mancebos? Não tivemos nós um Aristides encarregado de instruir, ainda mais no Sistema Constitucional, do que nos princípios da Latinidade, um crescido número de jovens, que até em seus temas semanais bebiam a longos sorvos as Ideias Liberais? E não tivemos nós a fortuna, ainda maior, de contarmos um Frade Preceptor, e Educador Público, que não exortava aos seus Discípulos outra lição, que não fosse Rousseau, de Voltaire, e do Barão de Holbach, e de outros da mesma farinha? Ora vão lá esperar, que um Frade Jesuíta se preste a obrar por nós tamanho sacrifício...... Poder-se-hão contar vinte e depois Jesuítas, que na primeira Revolução Francesa deram a vida por Jesus Cristo, porém não se conta um só Jesuíta Pedreiro!!! Ideia por certo a mais desalentadora para quem se interessa no bem estar dos homens, na queda ruidosa dos Tronos, e na total extinção do Cristianismo.... Aqui temos pois o cardo rei, e como a peanha, em que assenta o figadal, e mais que vaticiano ódio aos Jesuítas, que é soprado constantemente dos Infernos, que bramem de que lhes possa escapar uma geração nova, que só teria de beber em charcos imundos, caso triunfasse a Constituição de 1826.
Mas que é feito da Estátua da Fé, ou que ligação pode ter o caso dos Jesuítas com a Estátua da Fé, que é o indicado, e prometido sujeito deste Número?... Valha-me Deus! Aí tornam a quebrar o fio das minhas ideias, e no melhor da festa, quando eu me enfeitava para perguntar aos Sabichões deste Reino, (que são exclusivamente, e como de juro, e herdade os Jansenistas) se por acaso seria possível, que escapasse aos Mestres Jesuítas uma História de Filosofia, uma Ética do Protestante Heinécio, que tantas vezes se tem impresso neste Reino, e a segunda até em linguagem [português], onde aparecem erros monstruósos, e formais heresias? Porém não tenho remédio senão fazer a vontade aos Leitores Portugueses, e Cristãos, cuja impaciência é agora muito, e muito de louvar, porque talvez já estivessem receosos, de que até em meus Escritos padecesse a Estátua da Fé algum sumiço, que rivalizasse com o próprio, que lhe deram os Pedreiros em 1823... Ódio aos Jesuítas é ódio formal à propagação da Fé, e dos bons princípios Religiosos; e onde quer que lance profundas raízes este ódio, seguir-se há necessariamente o ódio a todos os Símbolos, a todos os Emblemas, e a todas as Figuras, que de algum modo a façam lembrar. Suponhamos, que em todo este Reino se procedia a uma cotação geral sobre estes dois pontos:
1º Deverá levantar-se, e repor-se no seu antigo pedestal a Estátua da Fé?
2º Deverão reestabelecer-se os Jesuítas em Portugal?
Sairão estas duas votações uniformes, ou quase uniformes. Dois milhões, ou a grande maioria dos Portugueses a favor; e o resto, e bem resto contra; e por isso, no meu entender, o objecto da renovação dos Jesuítas, para assim o dizer, compenetra-se com o da Estátua da Fé, para o que me ocorrem certas analogias, que me cumpre tocar, e aproveitar.
Há mais de dois anos, que os Jesuítas foram chamados a Portugal, por Quem tinha sobeja autoridade para dispensar todas as formas, e certas legalidades, com que os Sabichões, ou Jansenistas nos fazem tanta bulha, e nos matam o bichinho do ouvido. Simulam, ou fingem o mais vivo interesse por eles, os que mais entranhadamente aborrecem o seu Instituto; e pode ser, que mostrem cá por fora os mais ardentes, e empenhados, porque se execute a vontade do Soberano, esses próprios, que ocultamente lhes promovem o descrédito, e lhes empecem um asilo, onde mostrem ser, que são ainda uma Comunidade Religiosa. O certo é, que depois de vaguearem por muitos domicílios, conseguem, e não foi sem mistério, um Coleginho, onde existem restirados, e ainda como feridos da antiga maldição, e sem ousarem dizer, ou proferir, o que são actualmente nestes Reinos... Mas que disse eu, movido de uma temerária impaciência de ver os Jesuítas geralmente acatados, e respeitados.... Porventura não são eles já o melhor, que podiam ser, porque são tudo, o que deles queria dispor o mui Alto e mui Religioso Soberano, que já honrou com a sua presença, e com as mais edificantes provas do seu afecto, e cordial interesse pela Santa Religião dos nossos Maiores, a sua nova residência, que foi o berço dos Jesuítas em Portugal? Estão abraçados com o Trono Português, e caindo este, (o que Deus nem por longe mostra querer, antes bem de perto, e como que pelos olhos nos mete o contrário) cairá necessariamente a Fé nestes Reinos. Caindo a Fé, como que se executa neste Reino antecipadamente o Juízo Universal, e os Jesuítas hão de ter um sem número de companheiros, quer seja na morte, quer seja na fugida....
Mui parecidos com este destino dos Jesuítas hão sido os destinos da Estátua da Fé. Grande, e por certo nunca visto, e que parece impróprio de almas grandes é o modo, que os Pedreiros Livres têm à Estátua da Fé.... Se fosse alguma Estátua de Vénus, a mais lúbrica, que adornasse o frontispício de algum Palácio, nem se quer lhes passaria pela imaginação os fazerem-na apiar. Os homens tinha bôjo para causas ainda maiores, como de feito eles tiveram para o transporte, mutilação, e profanação das Imagens dos Santos... porém Estátua da Fé, nem sonhada! A totalidade dos ilustres Preopinantes tinha mais, ou menos com a Estátua da Fé, que lhe desse muito que recear, e que entender. Uns tinham aprendido nos Livros Elementares da universidade de Coimbra, que a Inquisição se devia extinguir, como aposta, que diziam ser, ao espírito de mansidão, que prevalece no Evangelho; e quando já no presente século se adoptou para texto das Prelecções de História Ecclesiástica um novo Compêndio, aí se propinou logo aos Estudantes do primeiro ano Teológico a venenosa frase "O Tribunal horrendo da Inquisição"; outros, e não poucos tinham aparecido nos bancos do Tribunal, dando razão da sua Fé, e explicando-se sobre várias proposições, mais que suspeitas, que lhes tinham escorregado imprevistamente do coração para fora, e não queriam passar outra vez por outra surra do mesmo jaez.... Outros finalmente deram as mãos a estes inimigos da Fé, talvez por julgarem ociosa, e inútil de todo a peleja; porém destes é que eu sempre me queixarei ainda mais amargamente, que dos primeiros, e segundos. Pois há de haver em Portugal um chamado Congresso, (que duvido fosse pior sendo composto de Demónios) há de propor-se a abolição de um Tribunal erecto por Autoridade Apostólica, e aprovado legalmente pelos Senhores Reis de Portugal... dizem à boca cheia os Membros deste Congresso, que são Católicos, que o seu Rei verdadeiro, e Legítimo, é o Senhor D. João VI; há entre os Membros do Congresso muitos Bispos, e muitos Sacerdotes, e depois dos mais caluniosos, e falsos relatórios, que nunca se ouviram neste mundo, bastou a autoridade de um leigo, e bem leigo em tais matérias, e que foi sustido do célebre Inquisidor Castelo-Branco, para que não faltasse nesta Cena, mais que trágica, o decantado - (Tu quoque Brute) e seguiu-se em continente, por unanimidade de votos, a extinção do Tribunal do Santo Ofício!!! Moura ou Argelina foi a decisão de um Califa, que se podia chamar Abukeker, depois do Maomé Fernandes, e que reprovou afinal a Inquisição, por ser uma coisa inútil! Outros que tal conceito haviam merecido ao furibundo sequaz de Mafoma [Maomé] os numerosos Livros da Biblioteca da Alexandria; e bom é que notemos de passagem estes pontos da semelhança entre os Sarracenos do séc. VI, e os do séc. XIX. Inútil chamavam, (e nesse ponto eram coerentes) chamavam, digo, um Tribunal, que o era com efeito para os adiantamentos da Maçonaria, pois em tudo quanto respeita à Venerável Ordem é precioso, que nos sirva como de farol esta observação, tirada como das próprias entranhas do primordial, e nunca desmentido Regimento da Seita. O mundo só é feito para o gozarem plena, franca, e ilimitadamente os Pedreiros Livres. Os que o não forem, isto é, os Profanos, são todos uns Idiotas, uns escravos. Nós, dizem eles à boca cheia, nós é que somos talhados para o governo; tudo quanto se fizer, ou dispuser sem o nosso influxo é ocioso, é inútil, e até prejudicial ao género humano; somos nós, e somente nós a medida do bem, e do mal, e o verdadeiro contraste das acções, que só da sua maior, ou menor tendência para os fins da Seita, é que podem tirar a sua verdadeira moralidade. Toda a hora, todo o posto Militar, toda a autoridade Civil, toda e qualquer dignidade, que se confira a um dos não iniciados na nova Eleusis, está fora do seu lugar, e parece estar gritando por seu dono, isto é, por algum Pedreiro, que as ocupe, e que as desempenhe. Quando exaltamos o bem desta, ou daquela Instituição só temos em vista os progressos da Maçonaria. Liberdade de Imprensa quer dizer, Liberdade somente para nós; que se algum profano tiver a ousadia de querer atribuir a si este nosso inauferível privilégio, e armando-se com ele tentar descobrir os pés de barro, ou as misérias do nosso Grão Mestre, ou Nabuco, será acusado, preso, e posto a tormento, por abusar da Liberdade de Imprensa; que se fosse dos nossos, ainda que blasfemasse de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou canonizasse o próprio adultério, chamando-lhe virtude, ou menoscabasse as mais insignes virtudes Cristãs, havia de conseguir um passe, uma inteira absolvição; e para que nenhum dos meus leitores, ou por esquecido, ou por minimamente favorável ao seu Próximo, entre em alguma suspeita, de que estou a fazer arguições temerárias, e infundadas, aí tem nos Diários do Governo plenamente justificado, e absolvido o Autor do Retrato de Vénus, e lá mesmo encontrará, que os ilustres Jurados de Lisboa eram sobremaneira escrupulosos, e inexoráveis, contra quem havia dado a entender, que o Patriarca da regeneração já se esquecia do tempo, em que fora Sopista dos Frades, a quem nesse tempo (1822) fazia a mais crua guerra.
(continuação, parte b)
Mas que é feito da Estátua da Fé, ou que ligação pode ter o caso dos Jesuítas com a Estátua da Fé, que é o indicado, e prometido sujeito deste Número?... Valha-me Deus! Aí tornam a quebrar o fio das minhas ideias, e no melhor da festa, quando eu me enfeitava para perguntar aos Sabichões deste Reino, (que são exclusivamente, e como de juro, e herdade os Jansenistas) se por acaso seria possível, que escapasse aos Mestres Jesuítas uma História de Filosofia, uma Ética do Protestante Heinécio, que tantas vezes se tem impresso neste Reino, e a segunda até em linguagem [português], onde aparecem erros monstruósos, e formais heresias? Porém não tenho remédio senão fazer a vontade aos Leitores Portugueses, e Cristãos, cuja impaciência é agora muito, e muito de louvar, porque talvez já estivessem receosos, de que até em meus Escritos padecesse a Estátua da Fé algum sumiço, que rivalizasse com o próprio, que lhe deram os Pedreiros em 1823... Ódio aos Jesuítas é ódio formal à propagação da Fé, e dos bons princípios Religiosos; e onde quer que lance profundas raízes este ódio, seguir-se há necessariamente o ódio a todos os Símbolos, a todos os Emblemas, e a todas as Figuras, que de algum modo a façam lembrar. Suponhamos, que em todo este Reino se procedia a uma cotação geral sobre estes dois pontos:
1º Deverá levantar-se, e repor-se no seu antigo pedestal a Estátua da Fé?
2º Deverão reestabelecer-se os Jesuítas em Portugal?
Sairão estas duas votações uniformes, ou quase uniformes. Dois milhões, ou a grande maioria dos Portugueses a favor; e o resto, e bem resto contra; e por isso, no meu entender, o objecto da renovação dos Jesuítas, para assim o dizer, compenetra-se com o da Estátua da Fé, para o que me ocorrem certas analogias, que me cumpre tocar, e aproveitar.
Há mais de dois anos, que os Jesuítas foram chamados a Portugal, por Quem tinha sobeja autoridade para dispensar todas as formas, e certas legalidades, com que os Sabichões, ou Jansenistas nos fazem tanta bulha, e nos matam o bichinho do ouvido. Simulam, ou fingem o mais vivo interesse por eles, os que mais entranhadamente aborrecem o seu Instituto; e pode ser, que mostrem cá por fora os mais ardentes, e empenhados, porque se execute a vontade do Soberano, esses próprios, que ocultamente lhes promovem o descrédito, e lhes empecem um asilo, onde mostrem ser, que são ainda uma Comunidade Religiosa. O certo é, que depois de vaguearem por muitos domicílios, conseguem, e não foi sem mistério, um Coleginho, onde existem restirados, e ainda como feridos da antiga maldição, e sem ousarem dizer, ou proferir, o que são actualmente nestes Reinos... Mas que disse eu, movido de uma temerária impaciência de ver os Jesuítas geralmente acatados, e respeitados.... Porventura não são eles já o melhor, que podiam ser, porque são tudo, o que deles queria dispor o mui Alto e mui Religioso Soberano, que já honrou com a sua presença, e com as mais edificantes provas do seu afecto, e cordial interesse pela Santa Religião dos nossos Maiores, a sua nova residência, que foi o berço dos Jesuítas em Portugal? Estão abraçados com o Trono Português, e caindo este, (o que Deus nem por longe mostra querer, antes bem de perto, e como que pelos olhos nos mete o contrário) cairá necessariamente a Fé nestes Reinos. Caindo a Fé, como que se executa neste Reino antecipadamente o Juízo Universal, e os Jesuítas hão de ter um sem número de companheiros, quer seja na morte, quer seja na fugida....
Mui parecidos com este destino dos Jesuítas hão sido os destinos da Estátua da Fé. Grande, e por certo nunca visto, e que parece impróprio de almas grandes é o modo, que os Pedreiros Livres têm à Estátua da Fé.... Se fosse alguma Estátua de Vénus, a mais lúbrica, que adornasse o frontispício de algum Palácio, nem se quer lhes passaria pela imaginação os fazerem-na apiar. Os homens tinha bôjo para causas ainda maiores, como de feito eles tiveram para o transporte, mutilação, e profanação das Imagens dos Santos... porém Estátua da Fé, nem sonhada! A totalidade dos ilustres Preopinantes tinha mais, ou menos com a Estátua da Fé, que lhe desse muito que recear, e que entender. Uns tinham aprendido nos Livros Elementares da universidade de Coimbra, que a Inquisição se devia extinguir, como aposta, que diziam ser, ao espírito de mansidão, que prevalece no Evangelho; e quando já no presente século se adoptou para texto das Prelecções de História Ecclesiástica um novo Compêndio, aí se propinou logo aos Estudantes do primeiro ano Teológico a venenosa frase "O Tribunal horrendo da Inquisição"; outros, e não poucos tinham aparecido nos bancos do Tribunal, dando razão da sua Fé, e explicando-se sobre várias proposições, mais que suspeitas, que lhes tinham escorregado imprevistamente do coração para fora, e não queriam passar outra vez por outra surra do mesmo jaez.... Outros finalmente deram as mãos a estes inimigos da Fé, talvez por julgarem ociosa, e inútil de todo a peleja; porém destes é que eu sempre me queixarei ainda mais amargamente, que dos primeiros, e segundos. Pois há de haver em Portugal um chamado Congresso, (que duvido fosse pior sendo composto de Demónios) há de propor-se a abolição de um Tribunal erecto por Autoridade Apostólica, e aprovado legalmente pelos Senhores Reis de Portugal... dizem à boca cheia os Membros deste Congresso, que são Católicos, que o seu Rei verdadeiro, e Legítimo, é o Senhor D. João VI; há entre os Membros do Congresso muitos Bispos, e muitos Sacerdotes, e depois dos mais caluniosos, e falsos relatórios, que nunca se ouviram neste mundo, bastou a autoridade de um leigo, e bem leigo em tais matérias, e que foi sustido do célebre Inquisidor Castelo-Branco, para que não faltasse nesta Cena, mais que trágica, o decantado - (Tu quoque Brute) e seguiu-se em continente, por unanimidade de votos, a extinção do Tribunal do Santo Ofício!!! Moura ou Argelina foi a decisão de um Califa, que se podia chamar Abukeker, depois do Maomé Fernandes, e que reprovou afinal a Inquisição, por ser uma coisa inútil! Outros que tal conceito haviam merecido ao furibundo sequaz de Mafoma [Maomé] os numerosos Livros da Biblioteca da Alexandria; e bom é que notemos de passagem estes pontos da semelhança entre os Sarracenos do séc. VI, e os do séc. XIX. Inútil chamavam, (e nesse ponto eram coerentes) chamavam, digo, um Tribunal, que o era com efeito para os adiantamentos da Maçonaria, pois em tudo quanto respeita à Venerável Ordem é precioso, que nos sirva como de farol esta observação, tirada como das próprias entranhas do primordial, e nunca desmentido Regimento da Seita. O mundo só é feito para o gozarem plena, franca, e ilimitadamente os Pedreiros Livres. Os que o não forem, isto é, os Profanos, são todos uns Idiotas, uns escravos. Nós, dizem eles à boca cheia, nós é que somos talhados para o governo; tudo quanto se fizer, ou dispuser sem o nosso influxo é ocioso, é inútil, e até prejudicial ao género humano; somos nós, e somente nós a medida do bem, e do mal, e o verdadeiro contraste das acções, que só da sua maior, ou menor tendência para os fins da Seita, é que podem tirar a sua verdadeira moralidade. Toda a hora, todo o posto Militar, toda a autoridade Civil, toda e qualquer dignidade, que se confira a um dos não iniciados na nova Eleusis, está fora do seu lugar, e parece estar gritando por seu dono, isto é, por algum Pedreiro, que as ocupe, e que as desempenhe. Quando exaltamos o bem desta, ou daquela Instituição só temos em vista os progressos da Maçonaria. Liberdade de Imprensa quer dizer, Liberdade somente para nós; que se algum profano tiver a ousadia de querer atribuir a si este nosso inauferível privilégio, e armando-se com ele tentar descobrir os pés de barro, ou as misérias do nosso Grão Mestre, ou Nabuco, será acusado, preso, e posto a tormento, por abusar da Liberdade de Imprensa; que se fosse dos nossos, ainda que blasfemasse de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou canonizasse o próprio adultério, chamando-lhe virtude, ou menoscabasse as mais insignes virtudes Cristãs, havia de conseguir um passe, uma inteira absolvição; e para que nenhum dos meus leitores, ou por esquecido, ou por minimamente favorável ao seu Próximo, entre em alguma suspeita, de que estou a fazer arguições temerárias, e infundadas, aí tem nos Diários do Governo plenamente justificado, e absolvido o Autor do Retrato de Vénus, e lá mesmo encontrará, que os ilustres Jurados de Lisboa eram sobremaneira escrupulosos, e inexoráveis, contra quem havia dado a entender, que o Patriarca da regeneração já se esquecia do tempo, em que fora Sopista dos Frades, a quem nesse tempo (1822) fazia a mais crua guerra.
(continuação, parte b)
A LETRA DA 9ª SINFONIA DE BEETHOVEN
sinfonia de L. van Beetohven. Aguardamos que o Sr. Bispo Conde de Coimbra trave a tempo tal iniciativa. Aproveito para corrigir, que não é a 9ª aquela que foi dedicada a Napoleão, mas sim a 3ª... Contudo, a letra da 9ª é igualmente reveladora das ideias heterodoxas hoje tão acarinhadas no mundo, mas tão contrárias ao catolicismo. A letra está pejada de naturalismo e paganismo: como adequar isto a um templo católico?!
Baixo
- Ó, amigos, não nesse tom!
- Em vez disso, cantemos algo mais delicioso
- cantar e sons alegres
- Alegre! Alegre!
- Alegria, formosa centelha divina,
- Filha do Elíseo,
- Ébrios de fogo entramos
- Em teu santuário celeste!
- Tua magia volta a unir
- O que o costume rigorosamente dividiu.
- Todos os homens se irmanam
- Ali onde teu doce voo se detém.
- Quem já conseguiu o maior tesouro
- De ser o amigo de um amigo;
- Quem já conquistou uma mulher amável
- Rejubile-se conosco!
- Sim, mesmo que ele chama de uma alma
- Sua própria alma em todo o mundo!
- Mas aquele que falhou nisso
- Que fique chorando sozinho!
- Alegria bebem todos os seres
- No seio da Natureza;
- Todos os bons, todos os maus,
- Seguem seu rastro de rosas.
- Ela nos deu beijos e vinho e
- Um amigo leal até a morte;
- Deu força para a vida aos mais humildes
- E ao querubim que se ergue diante de Deus!
- Alegremente, como seus sóis voem
- Através do esplêndido espaço celeste
- Se expressem, irmãos, em seus caminhos,
- Alegremente como o herói diante da vitória.
- Abracem-se milhões!
- Enviem este beijo para todo o mundo!
- Irmãos, além do céu estrelado
- Mora um Pai Amado.
- Milhões, vocês estão ajoelhados diante Dele?
- Mundo, você percebe seu Criador?
- Procure-o mais acima do Céu estrelado!
- Sobre as estrelas onde Ele mora!
21/06/16
ANIMAÇÃO DIDACTICA - "O HITLER CONVERTIDO"
Peço aos leitores que difundam este vídeo. Não tenho dúvida que este tipo de animação, fará pensar no quão absurdas são as ideologias falsas que hoje dominam! Ao trocar os cenários, o espectador tem a possibilidade de encarar a realidade destas ideologias, sem estar tão atado. Creio que este vídeo só poderá fazer bem a qualquer pessoa que seja.
20/06/16
NA SERRA ALTA - ANTÓNIO SARDINHA, Q.B.
![]() |
| António Sardinha |
"Para que se desengane um punhado de exagerados, diante de um Fr. Fortunato de S. Boaventura, e outros eclesiásticos defensores da fé, os quais sentiram na pele a perseguição, e foram testemunhas, um António Sardinha não passaria de menino de Coro (mas nem a infância lhe deu convivência com tal privilégio). Não necessito de opiniões assim; quero doutrina inteira, legada de séculos em séculos, o testemunho... e só muito depois as opiniões deste ou daquele bem-intencionado, caso reste tempo! Contudo, aos náufragos uma pequena prancha servirá até encontrada outra mais sólida que os leve a bom porto."
(na serra alta - J. Antunes)
(na serra alta - J. Antunes)
19/06/16
TRADICIONALISMO TEM QUE VIR DA TRADIÇÃO
"Por ocasião da publicação de certas proposições, e por uma incompreensível má inteligência, para não dizer intencional, os jornais disseram e repetiram, com inaudita prontidão, que Roma, a Santa Sé e a Igreja condenaram o tradicionalismo; o que equivaleria a dizer , que a Igreja católica condenou o princípio fundamental do Catolicismo e condenou a si mesma; porque no fundo, o Catolicismo não é mais que a tradição apostólica, que nos garante a autenticidade da Escritura, da qual a Igreja é fiel e infalível depositária." (Pe. Ventura de Raulica, in La Tradición y los Semipelagianos de la Filosofia .... Madrid, 1862)
16/06/16
CONTRA-MINA Nº 50: Os Jesuítas em Coimbra!!!!
CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,
Periódico Moral, e Político,
por
Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.
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Nº 50
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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Os Jesuítas em Coimbra!!!!
E como efeito parece mais sonho do que realidade, que se conseguisse a tantas vezes desejada restituição do Colégio das Artes aos seus antigos possuidores. Eram tantas, e tão graves as dificuldades, que se opunham à existência deste sucesso! Era tanto, e tão inveterado o ódio, que se concebera neste Reino por sinistras, e dolosas informações, à Companhia de Jesus! Era tanto o afinco, era tal a pertinácia do Jansenismo, e Maçonismo por arredarem de Portugal os seus antigos, e verdadeiros ilustradores! Por certo que aos mais desejosos, de que os Padres da Companhia voltassem a estes Reinos, e recobrassem a sua perdida influência, já se representava como impossível a execução de tais intentos. Nem a saudosíssima, e piedosíssima Rainha D. Maria I, que tomava a peito o restabelecimento dos Jesuítas em Portugal, porque tomava a peito a verdadeira felicidade dos seus Povos, conseguiu trazer novamente a este Reino, e suas Conquistas os Filhos de Santo Inácio! Viu-se necessitada a conter, ou reprimir os seus votos, e a deixá-los como abafados, e sepultados em seus Régios Corações.... Tanta era a força das prevenções, ou das calúnias, que ardilosamente se haviam espalhado neste Reino contra os Jesuítas!
Quando o Sumo Pontífice Pio VII instaurou a Companhia de Jesus, revogando o Breve do Santo Padre Clemente XIV, que os extinguira... desde logo os Pedreiros Livres do Rio de Janeiro estremeceram, clamaram, e fizeram protestos em nome do Rei Fidelíssimo contra os novos auxílios, que Deus prodigalisava, e oferecia por mãos do seu Vigário na Terra aos Países Católicos!!!
Seguiu-se o tempo mais infausto, e desastroso para a Monarquia Portuguesa, quero dizer, o tempo Constitucional; e quando os Maiores da Seita Maçónica, lançando as ousadas, e sacrílegas mãos às rédeas de um Governo, que lhes não pertencia, juravam destruir, e abolir todas as Corporações Religiosas [o que veio a acontecer em Portugal, depois por mão de D. Pedro I do Brasil], como poderiam tolerar um só instante a simples ideia, de que os Jesuítas poderiam voltar a estes Reinos? Nada por tanto era mais próprio de um Soberano destinado pelos Céus para restaurar o Trono Português, do que chamar em seu auxílio, como tropas escolhidas, que combatessem, debelassem os dois Monstros Jansenismo e Maçonismo; quero dizer, os sucessores desses Apóstolos, que tinham preservado no séc. XVI estes Reinos das pestes do Luteranismo, e Calvinismo... À chegada do nosso Libertador tudo neste Reino oferecia a imagem do caos...! Para desviar este, e pôr as coisas na devida ordem, bastou que o Todo Poderoso dissesse um Fiat, faça-se, e tudo se fez!! Agora semelhantemente bastou que um Rei Cristão dissesse "Apareçam os Jesuítas neste Reino", e apareceram os Jesuítas. Não blasfemo, e nem sequer adulatório este modo de pensar, ou de escrever. O chamamento dos Jesuítas a este Reino foi obra de Deus, assim como é bem clara, e manifesta obra do mesmo Senhor a entrada destes Regulares no seu Colégio das Artes. Conheceu perfeitamente o Mui Alto, e Poderoso Senhor D. Miguel I, que sem Jesuítas era impraticável a mil vezes procurada, e outras tantas desmentida restauração dos bons costumes; e que por mais planos, que se traçassem, por mais brilhantes, e risonhas teorias, que há meio século a esta parte se houvessem excogitado, nenhum proveito, nenhuma utilidade real se descobria, antes cada vez mais tudo se precipitava, e caminhava de mal para muito pior. Teorias sobre teorias, planos sobre planos agravaram a doença moral a ponto de fazerem cada vez mais sensível, a patente a grandeza da ferida, que Portugal recebera ao fatalíssimo ano de 1759... Assim mostrava um Deus vingador dos ultrajes feitos à inocência, e à virtude, punir estes Reinos pelo crime da expulsão dos Jesuítas....
Que resta pois? Que se devia fazer para obstar a que a Mocidade Portuguesa caísse toda nos laços do Maçonismo? O que fizeram até os Reis Cismáticos, e Protestantes, e o que fazem agora todos os Soberanos Católicos, pois meio século de desastres, e calamidades meteu-lhes pelos olhos, que o Instituto da Companhia é sumamente necessário para o bem, e tranquilidade de seus Povos... E o Rei mais amante dos seus Povos, que excede até neste particular aquele próprio Rei, que tomou por divisa o Pelicano, em acção de rasgar o peito para nutrir os seus filhinhos: e o Rei mais amante dos seus Povos, digo, havia de consentir, que estes Povos fossem desgraçadas vítimas do erro, da sedução, e do infatigável proselitismo das Sociedades Maçónicas?
E um Rei plenamente convencido, penetrado das Verdades Católicas, e nomeadamente das mais terríveis, poderia ver com indiferença o quase total naufrágio da Educação Religiosa em seus Estados? Como se negaria ele a buscar todos os meios conducentes para a desejada reformação dos costumes, e que outro se lhe poderia oferecer, ou melhor, os mais prontos, do que entregar aos Padres da Companhia o Real Colégio das Artes?
Foi Coimbra, e o foi por muitos anos a Cidadela do Jansenismo. Este acolheu benignamente, como sempre costuma, o seu Irmão gémeo, quero dizer, o Maçonismo; e ambos entrincheirados nesta, como Fortaleza das Ciências, prometiam guardar para sempre o seu ponto central, donde se repartiam para toda a Monarquia, e suas Possessões Ultramarinas os mancebos de esperanças, os homens de bem, as luzes, e as trolhas Maçónicas... Tinha-se chegado a tais pontos de perversidade, e desenvoltura, que já os recrutamentos para a Ordem dos Pedreiros Livres se tratavam, e faziam a cara descoberta, e até se oferecia dinheiro aos Estudantes pobres, que ainda fiéis aos sentimentos religiosos, hesitavam, ou repeliam indignados a mais infame, e atraiçoada proposta....
Enfim a urgentíssima necessidade de Educadores, e Mestres Jesuítas nunca foi tão palpável neste Reino, como durante o que, sem exageração, se pode chamar o Reinado das trevas, o qual principiado em 24 de Agosto de 1820 [mas pode considerar-se definitivamente o ano de 1834, em Portugal], só começou de cavilar, e fraquejar a 22 de Fevereiro de 1828....
Desde então, e no brevíssimo espaço de quatro anos, tem-se feito mais do que nos vinte, ou trinta anos dos Reinados mais gloriosos da Monarquia, pois a malvada, e numerosíssima Seita dos Pedreiros Livres é mais forte, do que as Praças de Ceuta, e de Arzila; e a expugnação do Grande Oriente de Lisboa mais difícil, e arriscada, que a expugnação de Ormuz, e Goa; assim como a defesa, e sustentação dos Direitos da Realeza em Portugal, é mais árdua, e mil vezes mais perigosa, que a conservação da Praça de Diu contra o maior poder dos Soberanos da Ásia...
Não, não tem as Histórias da Monarquia Portuguesa um só Herói, que possa ombrear com o excelso Príncipe, que nos rege, e nos felicita; e quando eu tratasse de buscar um só Português, que me oferecesse alguns longes de tamanha heroicidade, teria de remontar às Histórias antigas, e pode ser que um Viriato, pondo somente os esforçados peitos dos seus Beirões a todo o poderio dos Senhores do Mundo, me oferecesse alguns traços acomodados ao meu paralelo....
Não, não têm os Portugueses um dia mais fausto, e plausível, que o 22 de Fevereiro. É dedicado à memória do Estabelecimento da Cadeira de S. Pedro em Antioquia, onde os Discípulos do Evangelho foram pela primeira vez chamados Cristãos, e deve ser igualmente dedicado à memória de um sucesso estupendo, e milagroso, que nos trouxe a incomparável felicidade de nos podermos chamar Cristãos; nome este, que não tardaria muito a passar como injurioso, e afrontoso.... E ser este dia também o próprio, em que os Jesuítas vão tomar posse do seu Colégio das Artes!! Que assombrosa coincidência de sucessos!! E que turbilhão de agradáveis esperanças deve suscitar-se nos entendimentos, ainda que sejam vulgares, com tanto que sejam Cristãos!! Também hoje é o dia, em que a geração, que nos há de suceder, principia a mais gloriosa de todas as Épocas, e como que principia a ser Cristã com segurança, e firmeza.... Ah! No meio da pompa triunfal, com que os Jesuítas foram recebidos em Coimbra, pompa insólita, e a todos os respeitos maravilhosa, que eu desejaria contar, porque a vi, e que eu não posso contar, porque não tenho nem frases, nem imagens adequadas para a descrever; no meio de toda essa pompa, foram certamente os singelos aplausos da mais tenra infância, ou desses esquadrões de meninos, que saíram ao encontro dos Padres da Companhia, foram, como a dizer, os que me comoveram de Pessoas adultas de todos os sexos, e condições, banhados em lágrimas!.. Parecia que estes inocentes, como se adivinhassem a extensão dos benefícios, que o Céu lhes outorgava pela generosa, e benfeitora mão do seu adorado Soberano, queriam distinguir-se acima de todas as Classes na festival recepção dos que vinham para os doutrinar, para os ensinar, e para os fazer verdadeiros Cristãos! Ah! Nesses ramos de Oliveira, e de Louro, com que vinham encontrar os seus Catequistas, bem claramente se designava, ou simbolizava a Paz Celeste, de que os Jesuítas são anunciadores, e a vitória, que prestes hão de conseguir sobre os inimigos da Fé, que bramem de raivosos ao chegar-lhes a hora, em que serão desalojados da sua mais bem guarnecida, e artilhada Fortaleza.
Que Mestres para a mil vezes ditosa Mocidade destes Reinos! Vingam-se de tantas injúrias recebidas, celebrando em Pombal o incruento Sacrifício pela alma do seu mais encarnecido inimigo!!! Resistem, quanto neles é, a toda a lembrança de serem recebidos triunfalmente em Coimbra, e só a mais forçosa obediência a um dos seus maiores afeiçoados, o Excelentíssimo Senhor D. Fr. Joaquim da Nazaré, Bispo Conde, é que os necessita a desistirem de seus humildades, e louváveis intentos. Aqui mesmo porém é para notar como a Providência dirige todas as coisas, e sucessos humanos, para a devida manifestação dos seus inefáveis acertos. Convinha, que os Jesuítas atravessassem desconhecidos e sem pompa os territórios do Patriarcado, e do Bispado de Leiria, até chegarem à primeira terra do Bispado de Coimbra, isto é, a Pombal, onde jazem os ossos do principal agente da sua extinção, e que aí começasse o desagravo solene do grande crime, que, a despeito dos melhores interesses da Religião, se havia perpetrado neste Reino, e suas Conquistas!
Já foi um Bispo de Coimbra o seu maior amigo, e principal defensor contra as envenenadas setas de inveja, e de maledicência, quando entraram pela primeira vez no Colégio das Artes; e tal predilecção mostrava por eles o Egrégio Padre de Trento D. Fr. João Soares, que, ao ver passar defronte do seu Palácio a grande multidão de Alunos da Companhia, exclamava "Hoc sunt castra Dei" ["este é o castro de Deus"] são estes Padres Jesuítas os Castelos, e Praças fortes do Catolicismo; e por isso também agora é um Bispo de Coimbra, o que mais se distingue em acolhê-los, e favorecê-los, a que dá solenissímas provas daquele amor aos Jesuítas, que o Historiador Pe. Franco chamou hereditário nos Prelados da Igreja Conimbricense; e o caso é, que nunca os Bispos tiveram por Coadjutora uma Ordem Religiosa, que mais direitos, ou brasões oferecesse para ser por eles apreciada, e favorecida. Daqui vem que me pareça bem achada a inscrição, que se lia em um dos arcos triunfais do Lugar de Condeixa: "Euntes ibant et fiebant; .. venientes autem venient cum exultatione". E com efeito os Padres da Companhia de Jesus tinham deixado Coimbra envolta em lágrimas, e suspiros, como de quem sabia, o que eles eram, e o que pediam; e eles próprios ao verem frustrados tantos bens espirituais, de que eram assíduos, e zelosos dispensadores, deixavam saudosos esta outra Sião, onde lhe ficavam as suas maiores delícias, quero dizer, esse Colégio das Artes, donde tinham saído tantos Apóstolos, e tantos Mártires, e onde jaziam as preciosas cinzas de um Sebastião Barradas, de um Luís da Cruz, e de um Cosme de Magalhães, e de tantos Varões assinalados na República das Letras... Voltam agora (e com que júbilo!) a esse como Solar das Virtudes, e das Ciências, porque foi o primeiro Colégio, que tiveram os Jesuítas no Orbe Católico; e se alguma coisa os pode magoar, ou entristecer, é o acharem nuas aquelas paredes, outrora adornadas com os Retratos dos Varões Apostólicos, que os honraram, e enobreceram para sempre... Assim mesmo recobrando a quarta, ou quinta parte do seu Colégio, encontram ainda, posto que já mui amortecidos, alguns Quadros das Acções principais do nono Avô do Senhor D. Miguel I, o Santo Borja, e que foram pintados no séc. XVII pelo jesuíta José Castiglioni....
Se ainda hoje vivesse algum dos Jesuítas expulsos de Coimbra em 1759, e voltasse agora ao seu antigo domicílio, por certo que se deixaria penetrar dos mesmos sentimentos, de que se possuíam os velhos de Israel, quando avistaram o segundo Templo de Jerusalém, tão diferente do primeiro em grandeza e magnificência... mas quem sabe se assim como o segundo Templo, sem embargo da sua pequenez relativamente ao primeiro, se avantajou a esta nas excelências, e na maior de todas as glórias, também este fragmento do Colégio das Artes fará ainda maiores serviços ao Catolicismo em Portugal, do que lhe fizeram os seus primeiros habitantes?
Tudo é possível a um Deus, que suscitou o homem da sua direita, D. Miguel I, para destroçar o Maçonismo, e restabelecer os Jesuítas.
Colégio do Espírito Santo em
Coimbra no dia sinalado de
22 de Fevereiro de 1832
Quando o Sumo Pontífice Pio VII instaurou a Companhia de Jesus, revogando o Breve do Santo Padre Clemente XIV, que os extinguira... desde logo os Pedreiros Livres do Rio de Janeiro estremeceram, clamaram, e fizeram protestos em nome do Rei Fidelíssimo contra os novos auxílios, que Deus prodigalisava, e oferecia por mãos do seu Vigário na Terra aos Países Católicos!!!
Seguiu-se o tempo mais infausto, e desastroso para a Monarquia Portuguesa, quero dizer, o tempo Constitucional; e quando os Maiores da Seita Maçónica, lançando as ousadas, e sacrílegas mãos às rédeas de um Governo, que lhes não pertencia, juravam destruir, e abolir todas as Corporações Religiosas [o que veio a acontecer em Portugal, depois por mão de D. Pedro I do Brasil], como poderiam tolerar um só instante a simples ideia, de que os Jesuítas poderiam voltar a estes Reinos? Nada por tanto era mais próprio de um Soberano destinado pelos Céus para restaurar o Trono Português, do que chamar em seu auxílio, como tropas escolhidas, que combatessem, debelassem os dois Monstros Jansenismo e Maçonismo; quero dizer, os sucessores desses Apóstolos, que tinham preservado no séc. XVI estes Reinos das pestes do Luteranismo, e Calvinismo... À chegada do nosso Libertador tudo neste Reino oferecia a imagem do caos...! Para desviar este, e pôr as coisas na devida ordem, bastou que o Todo Poderoso dissesse um Fiat, faça-se, e tudo se fez!! Agora semelhantemente bastou que um Rei Cristão dissesse "Apareçam os Jesuítas neste Reino", e apareceram os Jesuítas. Não blasfemo, e nem sequer adulatório este modo de pensar, ou de escrever. O chamamento dos Jesuítas a este Reino foi obra de Deus, assim como é bem clara, e manifesta obra do mesmo Senhor a entrada destes Regulares no seu Colégio das Artes. Conheceu perfeitamente o Mui Alto, e Poderoso Senhor D. Miguel I, que sem Jesuítas era impraticável a mil vezes procurada, e outras tantas desmentida restauração dos bons costumes; e que por mais planos, que se traçassem, por mais brilhantes, e risonhas teorias, que há meio século a esta parte se houvessem excogitado, nenhum proveito, nenhuma utilidade real se descobria, antes cada vez mais tudo se precipitava, e caminhava de mal para muito pior. Teorias sobre teorias, planos sobre planos agravaram a doença moral a ponto de fazerem cada vez mais sensível, a patente a grandeza da ferida, que Portugal recebera ao fatalíssimo ano de 1759... Assim mostrava um Deus vingador dos ultrajes feitos à inocência, e à virtude, punir estes Reinos pelo crime da expulsão dos Jesuítas....
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| Colégio dos Jesuítas (em Coimbra), fundado por D. João III de Portugal |
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| Igreja do Colégio dos Jesuítas; hoje é a Sé "nova" de Coimbra. |
Foi Coimbra, e o foi por muitos anos a Cidadela do Jansenismo. Este acolheu benignamente, como sempre costuma, o seu Irmão gémeo, quero dizer, o Maçonismo; e ambos entrincheirados nesta, como Fortaleza das Ciências, prometiam guardar para sempre o seu ponto central, donde se repartiam para toda a Monarquia, e suas Possessões Ultramarinas os mancebos de esperanças, os homens de bem, as luzes, e as trolhas Maçónicas... Tinha-se chegado a tais pontos de perversidade, e desenvoltura, que já os recrutamentos para a Ordem dos Pedreiros Livres se tratavam, e faziam a cara descoberta, e até se oferecia dinheiro aos Estudantes pobres, que ainda fiéis aos sentimentos religiosos, hesitavam, ou repeliam indignados a mais infame, e atraiçoada proposta....
Enfim a urgentíssima necessidade de Educadores, e Mestres Jesuítas nunca foi tão palpável neste Reino, como durante o que, sem exageração, se pode chamar o Reinado das trevas, o qual principiado em 24 de Agosto de 1820 [mas pode considerar-se definitivamente o ano de 1834, em Portugal], só começou de cavilar, e fraquejar a 22 de Fevereiro de 1828....
Desde então, e no brevíssimo espaço de quatro anos, tem-se feito mais do que nos vinte, ou trinta anos dos Reinados mais gloriosos da Monarquia, pois a malvada, e numerosíssima Seita dos Pedreiros Livres é mais forte, do que as Praças de Ceuta, e de Arzila; e a expugnação do Grande Oriente de Lisboa mais difícil, e arriscada, que a expugnação de Ormuz, e Goa; assim como a defesa, e sustentação dos Direitos da Realeza em Portugal, é mais árdua, e mil vezes mais perigosa, que a conservação da Praça de Diu contra o maior poder dos Soberanos da Ásia...
Não, não tem as Histórias da Monarquia Portuguesa um só Herói, que possa ombrear com o excelso Príncipe, que nos rege, e nos felicita; e quando eu tratasse de buscar um só Português, que me oferecesse alguns longes de tamanha heroicidade, teria de remontar às Histórias antigas, e pode ser que um Viriato, pondo somente os esforçados peitos dos seus Beirões a todo o poderio dos Senhores do Mundo, me oferecesse alguns traços acomodados ao meu paralelo....
Não, não têm os Portugueses um dia mais fausto, e plausível, que o 22 de Fevereiro. É dedicado à memória do Estabelecimento da Cadeira de S. Pedro em Antioquia, onde os Discípulos do Evangelho foram pela primeira vez chamados Cristãos, e deve ser igualmente dedicado à memória de um sucesso estupendo, e milagroso, que nos trouxe a incomparável felicidade de nos podermos chamar Cristãos; nome este, que não tardaria muito a passar como injurioso, e afrontoso.... E ser este dia também o próprio, em que os Jesuítas vão tomar posse do seu Colégio das Artes!! Que assombrosa coincidência de sucessos!! E que turbilhão de agradáveis esperanças deve suscitar-se nos entendimentos, ainda que sejam vulgares, com tanto que sejam Cristãos!! Também hoje é o dia, em que a geração, que nos há de suceder, principia a mais gloriosa de todas as Épocas, e como que principia a ser Cristã com segurança, e firmeza.... Ah! No meio da pompa triunfal, com que os Jesuítas foram recebidos em Coimbra, pompa insólita, e a todos os respeitos maravilhosa, que eu desejaria contar, porque a vi, e que eu não posso contar, porque não tenho nem frases, nem imagens adequadas para a descrever; no meio de toda essa pompa, foram certamente os singelos aplausos da mais tenra infância, ou desses esquadrões de meninos, que saíram ao encontro dos Padres da Companhia, foram, como a dizer, os que me comoveram de Pessoas adultas de todos os sexos, e condições, banhados em lágrimas!.. Parecia que estes inocentes, como se adivinhassem a extensão dos benefícios, que o Céu lhes outorgava pela generosa, e benfeitora mão do seu adorado Soberano, queriam distinguir-se acima de todas as Classes na festival recepção dos que vinham para os doutrinar, para os ensinar, e para os fazer verdadeiros Cristãos! Ah! Nesses ramos de Oliveira, e de Louro, com que vinham encontrar os seus Catequistas, bem claramente se designava, ou simbolizava a Paz Celeste, de que os Jesuítas são anunciadores, e a vitória, que prestes hão de conseguir sobre os inimigos da Fé, que bramem de raivosos ao chegar-lhes a hora, em que serão desalojados da sua mais bem guarnecida, e artilhada Fortaleza.
Que Mestres para a mil vezes ditosa Mocidade destes Reinos! Vingam-se de tantas injúrias recebidas, celebrando em Pombal o incruento Sacrifício pela alma do seu mais encarnecido inimigo!!! Resistem, quanto neles é, a toda a lembrança de serem recebidos triunfalmente em Coimbra, e só a mais forçosa obediência a um dos seus maiores afeiçoados, o Excelentíssimo Senhor D. Fr. Joaquim da Nazaré, Bispo Conde, é que os necessita a desistirem de seus humildades, e louváveis intentos. Aqui mesmo porém é para notar como a Providência dirige todas as coisas, e sucessos humanos, para a devida manifestação dos seus inefáveis acertos. Convinha, que os Jesuítas atravessassem desconhecidos e sem pompa os territórios do Patriarcado, e do Bispado de Leiria, até chegarem à primeira terra do Bispado de Coimbra, isto é, a Pombal, onde jazem os ossos do principal agente da sua extinção, e que aí começasse o desagravo solene do grande crime, que, a despeito dos melhores interesses da Religião, se havia perpetrado neste Reino, e suas Conquistas!
Já foi um Bispo de Coimbra o seu maior amigo, e principal defensor contra as envenenadas setas de inveja, e de maledicência, quando entraram pela primeira vez no Colégio das Artes; e tal predilecção mostrava por eles o Egrégio Padre de Trento D. Fr. João Soares, que, ao ver passar defronte do seu Palácio a grande multidão de Alunos da Companhia, exclamava "Hoc sunt castra Dei" ["este é o castro de Deus"] são estes Padres Jesuítas os Castelos, e Praças fortes do Catolicismo; e por isso também agora é um Bispo de Coimbra, o que mais se distingue em acolhê-los, e favorecê-los, a que dá solenissímas provas daquele amor aos Jesuítas, que o Historiador Pe. Franco chamou hereditário nos Prelados da Igreja Conimbricense; e o caso é, que nunca os Bispos tiveram por Coadjutora uma Ordem Religiosa, que mais direitos, ou brasões oferecesse para ser por eles apreciada, e favorecida. Daqui vem que me pareça bem achada a inscrição, que se lia em um dos arcos triunfais do Lugar de Condeixa: "Euntes ibant et fiebant; .. venientes autem venient cum exultatione". E com efeito os Padres da Companhia de Jesus tinham deixado Coimbra envolta em lágrimas, e suspiros, como de quem sabia, o que eles eram, e o que pediam; e eles próprios ao verem frustrados tantos bens espirituais, de que eram assíduos, e zelosos dispensadores, deixavam saudosos esta outra Sião, onde lhe ficavam as suas maiores delícias, quero dizer, esse Colégio das Artes, donde tinham saído tantos Apóstolos, e tantos Mártires, e onde jaziam as preciosas cinzas de um Sebastião Barradas, de um Luís da Cruz, e de um Cosme de Magalhães, e de tantos Varões assinalados na República das Letras... Voltam agora (e com que júbilo!) a esse como Solar das Virtudes, e das Ciências, porque foi o primeiro Colégio, que tiveram os Jesuítas no Orbe Católico; e se alguma coisa os pode magoar, ou entristecer, é o acharem nuas aquelas paredes, outrora adornadas com os Retratos dos Varões Apostólicos, que os honraram, e enobreceram para sempre... Assim mesmo recobrando a quarta, ou quinta parte do seu Colégio, encontram ainda, posto que já mui amortecidos, alguns Quadros das Acções principais do nono Avô do Senhor D. Miguel I, o Santo Borja, e que foram pintados no séc. XVII pelo jesuíta José Castiglioni....
Se ainda hoje vivesse algum dos Jesuítas expulsos de Coimbra em 1759, e voltasse agora ao seu antigo domicílio, por certo que se deixaria penetrar dos mesmos sentimentos, de que se possuíam os velhos de Israel, quando avistaram o segundo Templo de Jerusalém, tão diferente do primeiro em grandeza e magnificência... mas quem sabe se assim como o segundo Templo, sem embargo da sua pequenez relativamente ao primeiro, se avantajou a esta nas excelências, e na maior de todas as glórias, também este fragmento do Colégio das Artes fará ainda maiores serviços ao Catolicismo em Portugal, do que lhe fizeram os seus primeiros habitantes?
Tudo é possível a um Deus, que suscitou o homem da sua direita, D. Miguel I, para destroçar o Maçonismo, e restabelecer os Jesuítas.
Colégio do Espírito Santo em
Coimbra no dia sinalado de
22 de Fevereiro de 1832
Fr. Fortunato de S. Boaventura
12/06/16
CONTRA-MINA Nº 44: Estranhas Multidões, e Gabinetes de Duas Caras
CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,
Periódico Moral, e Político,
por
Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.
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Nº 44
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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Estranha Multidão de Homens, Cidades, e Gabinetes de Duas Caras
Não se publicou até hoje uma Obra, que tanto azedasse, incomodasse, e ferisse o Protestantismo, como foi a de Bossuet sobre as Variações dessa chamada Igreja Verdadeira; e se lhe juntarmos a situação actual do Protestantismo, que saiu incorporada na moderna História das Seitas Religiosas do século XIX, não há mais que desejar nesta matéria; e sem que seja necessário possuir grandes erudicções teológicas, bastará que o Leitor seja entendido, para que tire daquele inexausto armazém, não só cópia de lanças, e dardos, com que atrevesse o próprio coração do Luteranismo, e Calvinismo, porém a clava de Hércules, com que, abatendo-o de um só golpe, o deixe morto, e sem esperanças de nunca mais renascer.... Tal costuma ser o maravilhoso efeito da evidência dos factos que, não se podendo negar, forçosamente hão de concorrer para a destruição da Seita, que não se envergonha de andar com todos os ventos, a fim de captar a benevolência dos Grandes, e especialmente dos Soberanos do Norte. Estava um destes já enfadado de sua legítima Consorte; e desejando por isso contrair novo matrimónio, que seria, exactamente falhado, um verdadeiro concubinato, faz uma Petição aos novos Reformadores, que presavam de seguir o puro Evangelho; e, não é nada, concedem-lhe um despacho favorável; e por este modo tão adulatório, como escandaloso, e ofensivo dos princípios Religiosos, autorizam a Bigamia simultânea, e já desde o berço da pretensa Reforma se dão a conhecer por homem de duas caras, que nunca poderiam chamar ao seu partido, senão outros que tais como eles.... Já por vezes me tem lembrado escrever uma História sucinta das Variações dos nossos grandes Políticos modernos, em que apareceriam tantos homens, não só de duas caras, porém de meia dúzia de caras, à proporção de seus interesses, que é a mola real, até das chamadas grandes virtudes cívicas, ou patrióticas... Um destes Galões de água doce, enfurecido contra os Reis propõe hoje, por exemplo, que nos livremos dessa raça maldita, e amanhã quer, insta, forceja porque se levantem Estátuas a um Rei, ou Imperador; e assim Republicano desenfreado em 1822, apareceu um advogado pertinaz da Realeza em 1826! Se por ventura quisermos apontar um Unicáristas de 1822, que se fizeram Biscamaristas em 1826, seria uma lista de nomes tão prolixa, como enfadonha, e o mais é, que na primeira destas datas, só a lembrança de que se instituíssem duas Câmaras fez das tais badaladas ao sino grande das Côrtes, que parecia vir abaixo a Sala das Conferências; e nessa parte lhe fizeram boa companhia as mais sinetas, e garridas do Congresso, que na de 1826 tocaram diferentemente em aplauso das duas Câmaras, que era um dos mais bem traçados alçapões da Divinal Cartilha.
Estes perversos, que a fim de guardarem os seus poleiros estão sempre como à primeira das duas, tem muito que agradecer aos Escritores, que defendem os interesses de Portugal, e que têm usado para com eles de uma contemplação, respeito, e caridade, que eles por certo não merecem.... Que trabalho mais fácil do que extractar desses montões de papeis da Era Constitucional os respectivos serviços de muitos, agora zelosíssimos, e mui ardentes Realistas? Scripta manent.... Os Diários de Côrtes gritam contra a segunda cara de muitos Empregados Civis; e os Boletins do Exército Constitucional são outros tantos corpos de delito para muitos Empregados Militares, que são hoje muito fiéis ao Senhor D. MIGUEL I, porque assim lhes faz conta, e é necessário conservar, ao todo o custo, a Influência, o Saldo e a P[?]. Não é pois tão d[?] esturro de certos Escritores, que perturbe as cabeças, ou desmanche prazeres.... Ah! se o fosse, e se algum deles escrevesse um Dicionário dos Grimpas Lusitanos, à imitação do Dicionário dos Grimpas de Franceses, que gritarias, que lástimas não iriam pôr essas ruas, indignados de que houvesse entre nós pessoas tão falta de caridade Cristã, que reimprimisse as falas contraditórias dos mais ilustres Corifeus da Liberdade Portuguesa! Continuemos a pôr o ramo em outra parte; e já que assim comecei, assim também hei de concluir a minha tarefa... Que Liberal, e que Realista haverá nas quatro partes do Mundo, que não conheça o nome, e as relevantes prendas de Mr. Canning? Pois este mesmo foi homem de duas caras, e por isso já em outro Número lhe chamei versátil, como quem esperava ser mais largo para outra vez na explanação, ou desenvolvimento de tão amarga, e aparentemente insultadora frase... Em 1794 era ele um esturrado inimigo, não só da Revolução Francesa, porém até dos próprios Franceses. Em 1796, quando saiu sub-Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, requintou em ódio à França; e tal era o seu azedume contra esta Nação perturbadora do repouso, e tranquilidade das outras, que em 1798 se fez parceiro de Mrs. Frer, e Ellis na redacção do Periódico intitulado "Anti Jacobino". Daí a pouco despejou toda a sua cólera sobre o que ele chamou "Ídolo de três dias, ou Bonaparte" e em 1801 tão pouco lhe agradava a Paz de Amiens, que não duvidou apelidá-la "O Suicídio da Inglaterra". Quando chegou ao que ele mais desejava, que era o Ministro dos Negócios Estrangeiros, foi ele quem dirigiu as Expedições contra Copenhague, e Flessinga, o que ainda não prova, que tivessem franqueado, ou minguado os seus primeiros sentimentos de aversão à França.... Porém lá chega o ano de 1816, que na própria França, e numa das suas principais Cidades, (Bordeaux) (e por sinal, que regressava de Lisboa, onde fez um papel de Comédia) depois de um jantar lauto, sem que lhe tivessem encomendado o Sermão, fez um para mostrar, que a boa harmonia entre França, e a Inglaterra era necessária para o sossego da Europa; e o mais é que tinha razão às carradas, pois os mortos não falam, nem brigam; e que melhor, e menos alterável sossego pode haver, que o dos túmulos? Não se opôs à Invasão das Espanhas em 1823, porque, dizia ele, seria mui dispendiosa para a França, quando realmente foi outro o motivo da sua inacção, qual foi contar demasiadamente com o valor dos Patriotas Castelhanos, e talvez assentando, que é o mesmo palrar na Tribuna, que brandir a espada no campo. Só não deu nada pelo valor dos Patriotas Lusitanos, e por isso mandou apressadamente um Corpo de seis mil Ingleses, às Ordens do General Clinton, para defender Portugal de uma Invasão Estrangeira, que nem se quer se premeditava, quando realmente só vinha para defender, e salvar da guerra aberta, que faziam à Constituição os próprios Nacionais deste Reino, e sobre todos o exemplar da lealdade, o ínclito Marquês de Chaves, que, se por acaso não chegasse o socorro Britânico, não se esperaria pelo tão desejado regresso do Senhor D. MIGUEL I, para se desfazerem as Câmaras, as Côrtes, e todas essas armadilhas de embustes, de falsidades, e de traições. Ora aqui têm os meus Leitores mais uma prova, de que até os homens grandes, e os próprios Corifeus do Liberalismo já tiveram cara primeira, e cara segunda, e cara terceira, e contariam até milhares, se as vicissitudes, ou mudanças políticas chegassem a este número. E quantos exemplos do mesmo jaez me oferece, e, para assim o dizer, mete pelos meus olhos a História novíssima deste Reino?.... Seria necessário, pelo menos, um cento de Contra-Minas, só para um Repertório das falas, já em sentido Monárquico, já favoráveis a Pompeu, já favoráveis a César, já de Brutes, já de Marcos Aurélios, de que vêm cheias as numerosas páginas de tantas Colecções in folio, que para mim não têm estado em folha, porque as tenho esquadrinhado, e compilado, para desfazer em tempos conveniente certos Edifícios de lealdade, e patriotismo, que do presente ameaçam tocar as nuvens, mas que, bem examinada a coisa, lá tem no alicerce bastante areia; uma felicitaçãosinha às Côrtes, uma assinatura em papeis Revolucionários, um papel, que correu anónimo, sobre a pretensa Legitimidade de D. Pedro, (o inimigo mais furibundo, que nunca teve este Reino, deve ser apeado até das mais vulgares decências.... Chamei-lhe já muitas vezes Senhor, por obséquio ao Verdadeiro Senhor desta Coroa; porém d'ora em diante só lhe chamarei D. Pedro, em obséquio à justiça, e à verdade) são por certo, são estes homens de duas caras, aqueles com quem D. Pedro conta, para levar ao fim a sua tresloucada empresa; e como ele bem sabe, que são muitos, por isso é que se fortalece cada vez mais em seus propósitos... Mas, felizmente para nós, esse desgraçado Príncipe não sabe ainda o que são os Portugueses.... Deixou-me, quando apenas contava nove anos de idade, e mal podia então conhecer, e avaliar a ingénita coragem, e lealdade dos Portugueses... Esses muitos, com que ele conta, são homens devassos de costumes, homens brutais, e destituídos de sentimentos Religiosos, são homens tão abatidos no moral, como no físico, são verdadeiros paninhos de armar, são esqueletos vivos, são a imagem da fraqueza, e da cobardia, são, direi tudo por uma vez, são Pedreiros Livres; e um Pedreiro Livre é essencialmente cobarde; não é afoito, nem destemido, antes, logo que lhe cheira a combate sério, volta as costas, foge com a ligeireza dos Gamos, encerra-se num Barco de Vapor, e nem sequer espera a notícia de que se possam defender as mais fortes posições.... Ora o Povo Lusitano, a cuja imprevista resistência protestaram eles, que se devia atribuir àquela precipitada fugida, é todavia o mesmo, ou, para melhor dizer, é mais alguma coisa; dobrou em forças, em vigilaneia, em actividade, e no mais que pode constituir um Povo naquela situação, em que se espera somente uma das duas, ou vencer, ou morrer.... Estamos quase reduzidos à própria condição, a que o intrépido Fernão Cortez levou os seus companheiros de armas. Não há Marinha suficiente para resistir a forças Navais muito poderosas, quando estas se lembrassem de coadjuvar a Esquadrilha de D. Pedro; porém há peças de artilharia, há braços robustos, há baionetas bem afiadas, e é quanto nos basta; e no meio de tudo isto, temam, e tremam os homens de duas caras..... que são apontados..... que são geralmente conhecidos..... Vejam lá como fazem a sua, pois os melhores cálculos podem falhar; e, quando menos se cuide, volta-se o feitiço contra o feiticeiro. Deixemos o futuro, e voltemos ao passado.
Pois também há Cidades de duas caras? Há certamente, e eu as conheço por dento, e por fora. Citarei o exemplo de uma, que já não perde o crédito, porque já o não tem, e só por estes sinais parecerá ocioso nomeá-la, o que só faço, por temer, que outras deste Reino, e que não passam de duas, cheguem a presumir, que as denuncio de traidoras ao Senhor D. MIGUEL I. É a Cidade do Porto; mas diga-se primeiro, em obséquio da verdade, que aí mesmo se encontram não poucos verdadeiros Realistas, que apurados nesta espécie de crisol, merecem uma particular distinção; e que assim como se dizia outrora "É Grego, e não é mentiroso" também se diga presentemente "É do Porto, e é afeiçoado ao Senhor D. MIGUEL I" pois dizendo-se isto, chega a dizer-se, que este Portuense já tocou os últimos ápices da lealdade Portuguesa. Ora essa mui famosa Cidade das Revoluções, que noutras eras fez outro papel bem diferente, ainda em 1799 fazia cunhar, para memória do dia, em que o Senhor D. João VI começou a Governar estes Reinos em Seu Real Nome, uma excelente Medalha, onde se lia esta breve, porém expressiva, e bem adequada inscrição:
"Joanni Portug. et Algarb. Principi
Suscepto inter procellas imperii clavo
Civit. Potuc.
D.
Foi apresentada esta Medalha ao Príncipe Regente pelo Desembargador Vicente José Ferreira Cardoso, que fez nesta ocasião arenga do estilo, a qual rematou com estas frases "Se eu não puder contá-los todos, (os benefícios, que o Príncipe fizera à Cidade, e por sinal que os empregou muito bem) posso ao menos afiançar isto a Vossa Alteza Real, e ouso segurar-lhe, que a minha fiança será abonada para com a posteridade a par desta Medalha com a História do Respeito, Amor, e Fidelidade, que à Vossa Alteza Real, e à Real Família há de tributar sempre a Cidade minha Constituinte, em nome da qual tenho a honra de beijar muito reverente a Vossa Alteza Real a sua Real Mão."
Assim dizia o Orador; e já nesse tempo o Grão Tomás, e a Sociedade dos Beneméritos da Pátria se dispunham para serem algum dia os principais pagadores da tal dívida, o que efectuou a 24 de Agosto de 1820, em que a Cidade do Porto abonou solenemente o Profeta, que anunciara de tão longe os heroísmo da sua lealdade à Coroa Portuguesa.... Mais outra vez (quero dizer em 1828) se abonou a veracidade da Profecia, e pode ser que então mais solenemente, que da primeira, Nesta conspirou tudo para se consumar felizmente a projectada rebelião; porém da segunda vez era notável a dissidência de muitas pessoas, e das mais autorizadas; porém nada obstou, para que se realizassem os nefandos intentos da revolução, e do crime... Até as formosas Damas, à força de Vivas à Constituição, enrouqueciam, e ficavam sem voz, e desengonçavam os braços a bandearem os lenços Constitucionais.
Seguia-se falar um pouco dos Gabinetes de duas Caras, que tem sido a peste das Sociedades humanas; porém que Leitor haverá, que não conheça a fraudulência, e traição constante de certos Gabinetes para com os seus mais antigos, e fiéis Aliados.... Ah! Filipe de Macedónia, Filipe de Macedónia, se passaste largos Séculos por modelo, ou tipo dos negociadores pérfidos, e atraiçoados... Já perdeste essa odiosa qualificação.... Eras um Santinho em comparação do que se tem feito nos Séculos modernos, e no tempo da civilização, e das luzes.... Quando poderei eu aliviar o meu coração de um pezo, que o traz comprimido, e como esmagado... Nunca me será lícito definir o que é "A não Intervenção" que se entende somente com os Grandes, que podem voltar dente, e não com os pequenos, que impunemente são maltratados, e espezinhados? Já houve quem ousou escrever uma História dos Conclaves, e que por sinal é um tecido perpétuo de absurdos, e calúnias; e quando haveria um Escritor, que somente com olhos fitos na verdade ponha em pratos limpos a verídica História das patifarias dos Gabinetes de duas Caras, que facilmente se reduzem à História dos Pedreiros Livres, influentes nos Gabinetes da Europa?
É bem natural que os meus Leitores me acompanhem neste momento, e participem comigo da viva mágoa, a que me reduz a necessidade de observar o mais rigoroso silêncio então delicados assuntos; mas para me reanimar juntamente com eles, direi que Portugal tem ainda muitos homens de um só rosto, e que ainda os tem desde as Classes médias até às mais altas condições da Sociedade; e posto que não seja excessivo o seu número, só a lembrança de os possuirmos me reanima, e consola. Homem de um só rosto chamo eu, por exemplo, àquele, que durante o maior, e o mais activo furor da tempestade revolucionária, ousou imprimir a Bula do Santíssimo Cardeal Patriarca desterrado em Baiona, as várias Apologias do procedimento da Senhora D. Carlota Joaquina, e que antes quis ser encerrado nos Segredos do Limoeiro, e ser expulso deste Reino, do que transigir, ou capitular com os mais infames de todos os rebeldes. Este homem, seja qual for a sua presente condição, é para mim, tão respeitável, ou mais, do que se fosse Marquês, Duque, ou Príncipe....
Homem de um só rosto é aquele, que enrostando não só com as vozerías aterradoras de um Congresso ímpio, e malévolo, ergueu a voz para defender a inocência da Rainha mais vilipendiada, que nunca houve em Portugal; e que vendo luzir os punhais, com que devia ser atravessado ao sair da Conferência, nem por isso balbuciou, ou mudou de voz; antes cada vez mais a levantou para defender a maior nódoa, que tem caído sobre o crédito da Nação Portuguesa: homem de um só rosto é aquele, que tem seguido invariavelmente a voz da sua consciência, e que por mais que o acompanhe o glorioso ferrete da maldição Maçónica, antes quisera uma vida pobre, e obscura, do que unir-se a Pedreiros Livres, ou mendigar deles o prémio assaz merecido de seus incessantes, e heróicos trabalhos...
Oxalá que este Reino de Portugal tivesse ao menos quatro ou cinco mil destes, outrora chamados Portugueses velhos!..... Desgraçadamente não os tem, e pode lembrar a este propósito a engraçada anedota do Religioso Francisco, que ao ver meia dúzia de grãos de bico flutuantes numa grandiosa tigela de caldo, exclamou:
Apparent rari nantes in gurgite vasto.
E com efeito, que Corporação há, que menos interessem na intentada ressurreição do Sistema Constitucional, do que os Tribunais, que ele trata de ociosos, e supérfluos, e dá por extintos; do que os Cabidos, para os quais reserva igual tratamento; do que as Ordens Religiosas, que devem ser as vítimas de seus primeiros, e terríveis golpes? Assim mesmo (que tal é o excesso da cegueira humana!) em todas estas Classes há muitos desejosos das Cebolas do Egipto, e que antes querem a mendicidade Constitucional, do que a opulência Monárquica!!! O maior brasão, que pode ter actualmente auqleuqe Ordem Religiosa é este. Quantos Malhados [maçons] tem esta Ordem? Ao que responde afoitadamente qualquer dos Observantes Filhos da Santa Teresa.... Nenhum! Oxalá que todos os mais pudessem responder outro tanto! Porém a grande maioria está sã, e alguns há, que nesta hora estão fazendo os mais assinalados Serviços à Causa do Muito Alto e Poderoso Senhor D. MIGUEL I, ora imprimindo à sua custa os Escritores, que favorecem a boa Causa, ora traduzindo, e ampliando Obras primas de Autores Estrangeiros, como sucede com o Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, que devia espalhar-se neste Reino, o mais que fosse possível, para aumentar o justo, e implacável ódio, que os bons Portugueses já professam, e devem professar à tortuosa, e refalçada linguagem, com que os Pedreiros Livres trataram sempre de nos embaçar, e de nos iludir....
E não haverá entre nós alguma Cidade unifronte, ou de um só rosto? Custa muito a aparecer quem mereça esta mui honrosa denominação; pois quando a Maçonaria bebida nas Lojas Coimbrãs, por certo as mais daninhas, e fatais de todo o Reino, há conseguido, por indústria dos seus aprendizes, estender-se, e propagar-se nas mais pequenas Aldeias, como será possível designar uma Povoação grande, uma Cidade, onde não haja Pedreiros em grande número? As Cidades Camaleoas, que mostram igual prazer, ou alvoroço, quer seja aclamado Rei o Senhor D. MIGUEL I, quer se proclame à ponta da espada o intruso S. Pedro de Alcantara, não devem lembrar a um Escritor público, senão para serem amaldiçoadas, e confundidas com o pó da terra, a que as tem feito descer a estranha vilania dos seus Moradores.... Porém torno a dizer, nem só quer para mezinha das minhas dores, e amarguras, haverá neste Reino pelo menos uma Cidade, que possa jactar-se de um só rosto? Não vai a ofender nenhuma, pois não é do mesmo ânimo ultrajar-las, ou deprimi-las, nem ainda levemente. Grandes notícias tenho da lealdade da maioria dos habitantes da Guarda, de Leiria, e de Évora, e outras; porém como a própria avidez do Filósofo antigo, que procurava um homem, procuro eu uma Cidade, não menos antiga, do que a todas as luzes respeitável, quero dizer, à Cidade de Braga.... Ao menos esta, quando sucedeu levantar-se, ou sublevar-se a força armada, para fazer a aclamação de um Rei intruso, a despeito dos solenes Juramentos, que prestára ao Legítimo Sucessor da Coroa, portou-se heroicamente, guardando o silêncio próprio dos Tumultos, não rompendo das suas janelas um só Viva, nem à Constituição, nem a D. Pedro, e somente quebrando aquele rigoroso silêncio à prima noite, quando prosseguia em seu louvável exercício da Reza pública do Terço de Nossa Senhora, alternado de umas para outras janelas.... Apesar de tudo isto ficarei ainda perplexo, e indeciso... Talvez a Maçonaria tenha actualmente em Braga um bom trintário de adeptos.... E o tão douto, como virtuoso Bispo de Charres, se ainda vivesse, não me deixaria mentir... [como perdeu ele a vida?]
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| Lamego, Santuário de N. Senhora dos Remédios |
Acaso estará limpa de Mações a Cidade de Lamego? Não sei, porque não tenho, nem uso, nem experiência de tratar com os Moradores desta Cidade, à qual, ou a foice da morte, ou o desterro voluntário tem arrancado uns certos, e não vulgares Agentes da Maçonaria; porém o Batalhão dos seus Voluntários Realistas, recém-chegado a esta Capital, fez amarelecer de tal modo os Pedreiros Livres, que se torna um índice favorável das excelentes disposições daquela Cidade, e de toda a sua Comarca.... Desde que se encetou em 1828 a profusa luta, em que estamos envolvidos, nunca se me tira da memória o denodo, e coragem dos Realistas da Vila de Taboaço, que dirigidos, e capitaneados pelo seu Juiz de Fora (hoje Corregedor de Tomar) apareceram nas margens do Vouga, e na posição do Marnel, e apareceram na Vanguarda e nos Postos avançados, disparando tiros, e fazendo estragos a um inimigo, consideravelmente superior em forças. Mal sabem os da Esquadrilha formada de toda a carta de animal, que sorte os aguarda neste Reino! Ah grande Oriente de Lisboa, grande Oriente de Lisboa, a quem espero chamar ainda em meus dias "Grande Poente de Lisboa", adveria, e repara bem, que já te carrega sobre o espinhaço o Batalhão dos Voluntários Realistas de Lamego, e o Regimento de Caçadores da Beira Baixa.... Faltam-me ainda os Batalhões de Vila Real, Mangualde, e Castro Daire; porém já se colocaram nos lugares, que mais convinham, para o fim de se guardar bem uma Costa dilatada, e em vários pontos acessível.
Desterro, 5 de Janeiro de 1832
Fr. Fortunato de S. Boaventura
"OFENSAS" ou "DÍVIDAS", NO PAI-NOSSO?
Porque o "debita" (dívida), na oração do Pai-nosso, é por alguns tido por "ofensas"? Nunca vi uma fundamentação teológica para o facto de, em Portugal, e noutros lugares, ter sido imposta a "tradução" de "ofensas"; quando antes tínhamos a de "dívidas"! Terá sido um agiornamento, ou seja, que se tivesse achado que a palavra "dívidas" poderia ser confundida pelas mentes cada vez mais oprimidas pelos tempos de materialismo e omni-banca.
Caros leitores, em tempos dissemos "dívidas", sim. E então, nunca se tinha ouvido o "ofensas". Tal como se dizia "Padre nosso", só depois "Pai nosso", justamente porque esta oração SEMPRE existiu em português, ao mesmo tempo que em actos litúrgicos continuava em latim. Isto, reparem, vem do tempo em que ainda a palavra PAI era dita PADRE... por via antiga do latim. Contudo, o caso que nos trás não é este, porque, enquanto que a palavra PAI e PADRE são a mesma, as palavras "dívidas" e "ofensas" não são a mesma, nem o sentido TEOLÓGICO de "debita" cabem na palavra "ofensas".
Quem deve é devedor, tem uma dívida; quem ofende é um ofensor, tem uma ....!? ... tem uma?! .. Tem uma dívida de reparação! A teologia da dívida existe, e existe com este mesmo nome. Como vemos, nem sequer etimologicamente na nossa língua uma palavra pode equivaler a outra!
Ora, pergunto-me se aqueles que rezam "ofensas" pensam teologicamente na dívida, ou ignoram tal matéria, e a deixam pela metade! Se a "debita" tem tradução de dívida, e já foi usada assim traduzida pelos nossos antepassados, porque motivo haveríamos de REDUZIR a uma OUTRA palavra que não comporta o mesmo conceito?! ...
Examinemos um diálogo possível com um defensor das "ofensas":- Sim, é ofensa, porque já ninguém sabe o que é isso da dívida, e ainda acabam por pensar que se trata de dinheiros.
- E "ofensas"!? ... também hoje se entende "ofensas" de forma errada e meramente sentimental: a ofensa, que é um agravo ao SER de quem seja, hoje é interpretado como desagrado ao sentimento de quem seja. Logo, se fizermos como sugeres com "dívidas", nem a palavra "ofensas" já serve (porque leva a erros, e se leva...), e servirá talvez a palavra "desagrado"... E lá vai a oração de Nosso Senhor a reboque da degradante mutilação semântica (que ideologicamente vai sempre no sentido inverso ao que a Civilização tinha apurado e usado). Outros há que mudaram a liturgia com o mesmo argumento: para que se entenda pelas pessoas de hoje, o mesmo disseram para o catecismo. Ora, como sabes, no catolicismo, é o baixo que deve ser ajudado ao alto, e não o contrário (como faz o igualitarismo e o marxismo).
- Sim, é verdade, não me tinha lembrado que existe um sentido teológico próprio para a "dívidas", e vejo agora que, portanto, não cabe a "dívidas" na "ofensas". Com o sentimentalismo, e subjectivismo crescente na Igreja, muitos rezam já "ofensas"até com o sentido de "desagrados"... Falemos baixo para o Papa Francisco não nos ouvir... não vá ele "actualizar" "ofensas" por "desagrados".
Melhor, melhor, é rezar em latim, visto que já estamos em tempos muito evoluídos onde todos aprendemos línguas estrangeiras...
Deixo as questões teológicas, propriamente ditas, para outros que nelas têm mais obrigação... Aqui restringi-me ao suficiente.
NOVAS NOTÌCIAS - A SERENATA DESAFINADA
Ontem, 11 de Junho (2016), sábado, pelo final da tarde, estando sossegado nas minhas transcrições, eis que, pelas portas abertas da varanda, chegou-me um vociferar, ao qual tratei de tomar atenção. Era uma voz jovem, não muito firme, da qual discerni as últimas palavras: "...no lixo é o lugar da Igreja ultra católica." No momento, não dei grande importância, continuei a transcrição; mais tarde, recordando-me, achei que, aos leitores, haveria dar a conhecer mais este episódio. Sugiro aos meus desagradados que podem usar do mail do blog (encontra-se na parte superior da coluna lateral do blog)... Um dia destes, quem sabe, poderei aceitar um cafésinho (não pago), desde que se respeitem as regras do bom senso (por agora, os meus desagradados não estão muito para regras, segundo parece).
Não poderão conseguir nada com intimidações, para já, por um motivo: não fiquei intimidado. Vão aparecendo aqui debaixo da varanda em outras novas "serenatas"... mas cante mais afinado... ok?!
10/06/16
ÍNDICE do "DEFESA DE PORTUGAL"
Desde Novembro de 2013 tínhamos vindo a publicar páginas do semanário "Defesa de Portugal" (ano 1831/33), obra de Frei Alvito Buela Pereira de Miranda. Não se proporcionou deixar aos leitores um índice dos números já aqui publicados, e dos que faltam publicar, coisa já necessária, tanto pela facilidade desejável na consulta, como para unificação dos vários artigos. O mesmo já fizemos com outras publicações do género.
O segundo volume da obra não se encontra disponível online, parece ter sido removido, e é um documento histórico das movimentações da maçonaria em Portugal, e da questão do apoio a D. Pedro por parte da maçonaria e liberalismo militante.
e portanto fica o índice, o qual irá sendo actualizado depois, até que fique completo:
O segundo volume da obra não se encontra disponível online, parece ter sido removido, e é um documento histórico das movimentações da maçonaria em Portugal, e da questão do apoio a D. Pedro por parte da maçonaria e liberalismo militante.
e portanto fica o índice, o qual irá sendo actualizado depois, até que fique completo:
DEFESA DE PORTUGAL
Semanário
Periódico Político e Moral
Vol. I
(Imprensa Régia, 1833)
ÍNDICE
Nº 3 - Qual era a Revolução que os Pedreiros de Portugal queriam em Portugal com ocasião da chegada da Esquadra Francesa ao Tejo? (21 de Agosto de 1831) [a, b]
Nº 4 - Que pretendiam os Pedreiros de Portugal com a ocasião da entrada da Esquadra no Tejo? (21 de Agosto de 1831) [a, b, c]
Nº 5 - Que pretendiam os Pedreiros de Portugal com ocasião da chegada da Esquadra Francesa ao Tejo? (1 de Setembro de 1831) [a, b]
Nº 6 - A Senhora D. Maria da Glória, Filha do Senhor D. Pedro, Imperador do Brasil, não pode ser Rainha de Portugal. (7 de Setembro de 1831) [a, b, c]
Nº 7 - Que é que pretendem os Pedreiros na Chegada do Senhor D. Pedro à Europa? (12 de Setembro de 1831)
Nº 8 - Que pretendem os Pedrieros de Portugal com a ocasião da Chegada do Senhor D. Pedro à Europa? (22 de Outubro de 1831) [a, b]
Nº 9 - Que pretendiam os Pedreiros de Portugal com o pretexto de se aproximar a Esquadra Francesa ao Tejo? (6 de Novembro de 1831)
Nº 10 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (7 de Novembro de 1831)
Nº 11 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (9 de Novembro de 1831)
Nº 12 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (11 de Novembro de 1831)
Nº 13 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (15 de Novembro de 1831)
Nº 14 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (21 de Novembro de 1831)
Nº 15 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (22 de Novembro de 1831)
Nº 16 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (14 de Dezembro de 1831)
Nº 17 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (2 de Janeiro de 1832)
Nº 18 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (3 de Janeiro de 1832)
Nº 19 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (4 de Janeiro de 1832)
Nº 20 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (6 de Janeiro de 1832)
Nº 21 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (10 de Janeiro de 1832)
Nº 22 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (14 de Janeiro de 1832)
Nº 23 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (26 de Janeiro de 1832)
Nº 24 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (31 de Janeiro de 1832)
Nº 25 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (1 de Fevereiro de 1832)
Nº 25 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (4 de Fevereiro de 1832)
Nº 27 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (10 de Fevereiro de 1832)
Nº 28 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. ( 22 de Fevereiro de 1832)
Nº 29 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (24 Fevereiro de 1832)
Nº 29 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (24 Fevereiro de 1832)
Nº 30 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (25 de Fevereiro de 1832)
Nº 31 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (10 de Março de 1832)
Nº 32 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (18 de Março de 1832)
Nº 31 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (10 de Março de 1832)
Nº 32 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (18 de Março de 1832)
Nº 33 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (29 de Março de 1832)
Nº 34 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (29 de Março de 1832)
Nº 35 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (2 de Abril de 1832)
Nº 36 - A grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. (5 de Abril de 1832)
Nº 37 - Bico d'Obra na Grande Questão Portuguesa sobre a Sucessão ao Trono. ( 9 de 1832)
Nº 38 - O Castigo do Douro. (11 de Abril de 1832)
Nº 39 - A Ilha Terceira. (16 de Abril de 1832)
Nº 40 - As Trevas em Portugal (18 de Abril de 1832)
Nº 41 - A tempestade em Portugal. (12 de Maio de 1832)
Nº 42 - Continua a Tempestade em Portugal. (24 de Maio de 1832)
Nº 43 - Continua a Tempestade em Portugal. (31 de Maio de 1832)
Nº 44 - Continua a Tempestade em Portugal. (5 de Junho de 1832)
Nº 45 - Continua a Tempestade em Portugal. (7 de Junho de 1832)
Nº 46 - Continua a Tempestade em Portugal. (12 de Junho de 1832)
Nº 47 - Continua a Tempestade em Portugal. (25 de Junho de 1832)
Nº 48 - Continua a Tempestade em Portugal. (28 de Junho de 1832)
Nº 49 - Continua a Tempestade em Portugal. (30 de Junho de 1832)
Nº 50 - Continua a Tempestade em Portugal. (3 de Julho de 1832)
Nº 51 - Continua a Tempestade em Portugal. (9 de Julho de 1832)
Vol. II
Nº 52 -
CURIOSIDADES E NÚMEROS - BLOG ASCENENS
Neste mês de Junho, o blog ASCENDENS registou uma movimentação curiosa. Em apenas uma semana, este tornou-se o segundo mês de sempre com maior número de visitantes. Tal é devido a uma coincidência: um dos nossos artigos tornou-se "viral" (aqui), e houve interesse súbito de alguém, ou de pequeno número de pessoas em muitos dos nossos artigos antigos. Outra novidade na semana foi a entrada de dois novos países na lista dos 10+ (Moçambique, e Suíça - mais especificamente, os visitantes das regiões de Maputo e Zurique), e ocupando os dois primeiros lugares em número de entradas. Maputo, quase exclusivamente, leu o artigo já mencionado. Hoje, dia 10 de Junho, Portugal retomou já a primeira posição na lista dos 10+, seguido de Moçambique, Suíça, Brasil, Estados Unidos, França, Alemanha, Reino Unido, África do Sul (esta é também uma novidade na lista semanal), e Espanha. Este acontecimento colocou Moçambique dentro dos 10+ de SEMPRE (eis a lista: Portugal, Brasil, Estados Unidos, Rússia, Alemanha, França, China, Moçambique, Canadá, Espanha).
Bom 10 de Junho (Anjo Custódio de Portugal), e bom final de semana.
08/06/16
REPUBLICANOS VETARAM "BARRIGAS DE ALUGUER"...
Agora, o Presidente da República-em-Portugal vetou a "lei das barrigas de aluguer", apresentando o argumento de ter sido esse o parecer do Conselho Nacional de Ética (tanto em 2012, como em 2016): "não estão salvaguardados os direitos da criança (...), nem é feito o enquadramento adequado do contrato [de gestação]. A esquerda descontentou-se, pois claro, contudo, é triste ver que nestes meios tão artificiais, com sorte, só se conseguem esgrimir argumentos muito "distante", e não se pode falar abertamente como o fizemos sempre (com o argumento simples e directo, apontando o mal e o erro moral ou doutrina). É o tempo em que se "pode falar", mas onde está previamente estabelecido aquilo a que se pode dar passo e ouvidos! ...
06/06/16
ENCÍCLICA - SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS
Para esta altura, recomenda-se a Encíclica Haurietis Aguas (Pio XII), sobre o Culto ao Sacrado Coração de Jesus.
(aqui, a encíclica)
Breve Reflexão - PORTUGAL, E UM MODELO RELIGIOSO
Pergunta-se: como Portugal (cristão) lidou sempre com os grupos religiosos diferentes?!
Resposta: tolerando-os a existir em "modo privado", sendo a esperança de conversão o motivo da tolerância dada.
Os autores espanhóis, os da hispanidad, não aceitam este modelo, porque seguem outra tradição, segundo a qual o território não pode ter inimigos da fé, tal seria ofensa grave a Deus. Esta posição não nos interessa para já, por parecer-nos mais "emotiva", e porque as consequências da sua aplicação integral, e incondicionalmente, levariam até a contradições várias.
Portugal sempre optou por tolerar as comunidades religiosas, mediante certas condições, por proximidade facilitando mais o caminho da conversão, e sempre tendo-as como estrangeiras. Estas comunidades tinham as suas leis internas, os seus tribunais, o seu local de culto, mas tudo em privado. Apenas em grandes questões, no caso de confronto entre um membro da comunidade e um português, havia um representante régio mediador.
Os muçulmanos e os judeus, portanto, existiram em Portugal, não como portugueses, mas como estrangeiros. Os seus templos eram permitidos, desde que privadamente, sem "porta aberta", o mesmo para os seus juízos, suas crenças, seu culto. Evidentemente, tinham autorização régia para falar do seus deuses, e até contra os cristãos, mas na condição de ser em privado. Publicamente, a difusão de ideias e sinais não cristãos, eram severamente punidas. As comunidades aceitavam estas condições de vida, como imigrantes ad tempus (... bem longo).
Ora, há poucos anos, a República-em-Portugal aprovou atribuir nacionalidade a descendentes destes mesmos judeus e mouros. Na verdade, olhando para a nossa longa história, as leis de Portugal sempre tinham sido claras quanto à condição de estrangeiro dos não cristãos. Tal demonstra que nunca Portugal colocou a questão geográfica como factor único de se ser ou não português. Também nos restantes países da Europa, ser católico (e incluindo depois os cismas) era sempre foi uma qualidade sem a qual é impossível verdadeira pertença.
01/06/16
A VERDADEIRA NOBREZA (IV)
(continuação da III parte)
Capítulo III
Quanto o Justo ame a seu Deus mais ardentemente, tanto mais foge de O ofender; como nota o venerável Beda. O amor, e o temor são duas asas com que voa o nosso espírito ao Céu. O temor, ainda que ponha a alma triste, e encolhida, aparelha-a melhor para O amar, que é princípio de todas as suas riquezas. Entendia-o mui bem Tobias, quando industriando a seu filho, dizia: "Filho, pobres somos, porém teremos muitos bens se temermos a Deus". Os que temem, diz o Espírito Santo, buscam aquelas coisas que Lhe são agradáveis. Este temor é a fonte da vida: ele, e o amor são as primeiras letras do abecedário cristão. O temor do Senhor é princípio da sabedoria. Quem mais sábio que o bom? Quem mais prudente que o virtuoso? Quem mais avisado que o temente a Deus? Havendo contado a divina Escritura a alta genealogia, e estremada formosura daquela valorosa Judite, de suas riquezas, de seu admirável recolhimento, jejum, e penitência, diz, que era ela famosíssima em tudo, porque temia muito a Deus, não com o temor (segundo adverte Clemente Alexandrino) com que se foge de uma fera, e se aborrece, senão com o temor filial, e generoso, que se deve a um pai, ao qual se teme e ama juntamente, não para desmedrar, senão para mais valer. Doce, e justo chama David ao Senhor, o qual declara Cassiodoro, para que como a doce amemos, e como a justo o temamos. O amá-Lo, e temê-Lo é ser homem, como diz o Eclesiástico, porque o contrário é de bestas, e demónios, e é ser nada; diz S. Bernardo: "e bem se pode dizer nada a quem lhe falte tanto bem". Vendo-se Caim lançado da presença divina, parecia-lhe, que não haveria lugar, onde se escondesse da face de Deus, e dizia: "Qualquer que me achar, me tirará a vida, e me matará". Porque temia Caim, e temeu toda a vida? senão que, por haver morto ao irmão sem temor do Senhor, era já nada! Deste temor se começa no caminho de Deus para chegar à fortaleza da virtude. O [temor] das coisas da terra causa desconfiança, mas o temor divino concede firmeza de esperança. O juízo de Deus se há de temer, para que não se tema. O homem que desde sua infância (dizia Panuncio) pôs diante de si o temor dos deuses, e a vergonha dos homens, está habituado à virtude, e mantém verdade a todos. O viver sempre com santo temor, e receio, é coisa muito proveitosa para alcançar a graça, e conservá-la. Em qualquer tempo é ele proveitoso, antes que pecar para ser um homem livre do pecado, e ser perdoado. Uns pecadores há, que pecam virando a Deus as costas, outros em sua presença. Não há culpa, que Ele não veja: mas alguns as fazem tão sem temor, e vergonha, como se lhas não viessem, de quem diz Jeremias: "Para ofenderem-Me viram as costas", como os varões que pinta Ezequiel com elas viradas à Sancta Sanctorum, aplicando os ramalhetes de flores aos narizes, que é pecar sem receio, nem modo, como senão houvera Deus. Deste género de pecadores era a Madalena, que vivendo lascivamente, virou as costas a Deus, dando-se aos deleites e prazeres do mundo, sem nenhum temor seu, e assim lhe foi necessário, que se apresentasse com ele ao Redentor do mundo para seu remédio, não de rosto a rosto, senão detrás das suas costas como guiada já do Espírito Santo, temerosa de que Seus olhos a não olhassem de fito, que se um olhar de Deus irado afoga no mar vermelho os carros, e cavalos de Faraó, como não temeria uma mulher fraca? Além de que pelas costas de Deus se entende a humanidade de Cristo, bem nosso. Moisés (disse a Majestade divina falando com ele), "quem me vir o rosto, não poderá viver, contentai-vos com ver minhas costas". Nelas achou a pecadora conveniência seu amparo, porque quando os raios da via de Deus colérico, e inexorável se encaminham a castigar suas culpas, ache perdão delas na humanidade de seu Filho, que com tanta liberalidade a dava aos tormentos, e à morte por redenção dos pecadores. Outros há que pecam considerando que há Deus, e está presente a seus pecados, e que lhos vê. Desta linhagem foi David, e assim disse: "Et malum coram te feci". E o Pródigo: "Pequei em tua presença", e ainda que é ousadia, e atrevimento ofendê-lo à sua vista; contudo isso tiram tão grandes temores de sua presença, que fazem a esperança de sua saúde mais segura. Para contar a divina Escritura a nomeada história da paciência de Job, diz na sua primeira entrada, que era varão simples, recto, e temente a Deus. Tal era aquele honrado velho Simeão, que no fim de sua vida mereceu ver em seus braços o Autor, e princípio dela, de que diz o Evangelista S. Lucas, que era justo, e temeroso; não é este temor, o que os maus têm pelo medo do castigo, mas filial, e amoroso. Daqui é, que muitos efeitos de amor parecera no que de presto se julga do temor, sendo pelo contrário, porque andam eles tão germanados, que os interesses, victórias, e heróicos feitos de um, se reputam, como se fossem do outro. Finalmente são estes os dois pesos, com que se meneia o artifício do Relógio espiritual. Estas as duas portas da escada de Jacob, uma das quais tocava no Céu, e outra estribava na terra. São os dois Querubins, que cobriam a Arca do testamento. São as bases de ouro, sobre quem se levantavam os dois pilares graciosos, a quem comparou o Esposo à sua Esposa. São enfim dois anéis de memória para se trazer no dedo do coração, com que será um homem verdadeiramente nobre, e honrado. Suposto este infalível fundamento, se dificultará brevemente das parte mais essenciais do nosso assunto.
(a continuar)
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