30/09/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº3 (IV)

(continuação da III parte)

SUPERSTIÇÃO - Claramente significa em linguagem republicana todo o Culto Religioso, e por antonomásia a Religião Católica, Apostólica Romana. Segundo este significado, o vício, que mais deleita um republicano verdadeiro, é a Superstição: e não há homem mais religioso que um patriota democrático.

JURAMENTO - Em língua antiga significava: chamar a Deus por testemunha de uma coisa verdadeira, justa, e em caso de necessidade. Republicanamente tem diversos significado, e usos. O mais comum é o de espia para descobrir os homens de bem e persegui-los. Não faltam republicanos, que por juramento entendem condimento; e por isso o açúcar e o café tiveram a seu paladar um sabor muito mais agradável, depois de terem jurado não só tomarem toda a sua vida. É o mesmo que dizer: as bebidas de Constituição são algum tanto amargas; mas temperadas com o açúcar de juramento mais facilmente se poderão levar.

TOLERÂNCIA - Grandes trabalhos, e fadigas há custado aos Republicanos a introdução deste Vocábulo. A intolerância Religiosa foi acusada em milhares de escritos e livros, como um monstro, que pusera em combustão a terra, causando infinita efusão de sangue, e perturbando a quietação dos Povos. A tolerância filosófica devia pacificar todo o mundo, e remediar os danos, que aquela havia causado. Sancionou-se pois como lei Sacrossanta, e inviolável. E quem o duvida? Para logo pacificou ela o primeiro estado tolerante com as horrorosas matanças dos Carmelitas e da Abadia, com o desterro e a morte dos Bispos e Sacerdotes Católicos, e com a efusão de sangue de milhares de paisanos, todos vítimas da Consciência, e da Religião. Onde quer que chegou a pôr o pé a pacificante tolerância, houve desterros por dá cá aquela palha, matanças e roubos sem número. E não só não tolerou os Bispos, os Frades, Freiras, ou Sacerdotes, mas nem os Templos, Altares, Culto, e Religião. A tolerância foi de tal qualidade, que chegou a não tolerar nem ainda o mesmo Deus. Os que mais se distinguiram nesta tolerância foram os Clubs Constitucionais, compostos dos mais zelosos, e sobressalientes patriotas, inimigos jurados da crueldade intolerante. Não sabemos como explicar na língua antiga uma tolerância, que não tolera a Deus, que mata os Sacerdotes, que desterra os Bispos, e que rouba, e mete a saco todos os os bens da Igreja. Não sabemos como compor uma tolerância, que persiga de morte quantos professam a Religião, que violente as consciências a jurar contra o justo, e que nada perdoe para riscar dentre os homens quantas ideias podem recordar-nos os deveres para com Deus. Srs. Ateus! Srs. Ímpios! Srs. Tolerantes! Como estamos de Inquisição? A desumana intolerância antiga, por mais intolerante, que Vossas Senhorias a pintassem, jamais atacou senão a sedução e a apostasia; e devem-nos conceder ao menos, que o Católico tolerava o Católico, e o Turco o Muçulmano. Porém, que me quererão VV. SS. dizer de sua humaníssima Tolerância? Fogo com ela. Tolerância, que não tolera senão enquanto clandestina e atraiçoadamente pode arruinar o Trono, e o Altar! que leve milhões de diabos!...

Porém, apesar de tudo, ninguém poderá duvidar que o método filosófico de pôr em paz todas as Religiões e Cultos é excelente, e mui digno do agudo engenho dos Filósofos: em destruindo todos, acabada está a questão. Porque como há-de haver contendas nem litígios sobre Cultos, quando não há ficado um para remédio? Por este modo o específico é admirável. O que tem, é que para aplicá-lo em toda a extensão, é necessário a todo o custo não tolerar nem homens, nem razão, nem consciência; e cuidar em que não fique no mundo nem vestígios se quer de nenhuma daquelas obras Divinas, estupendas, e admiráveis, que obrigam o homem a reconhecer a existência de um Deus, adorá-lo, e respeitá-lo. Porém há coisa tão difícil para um Filósofo, como destruir o mundo inteiro, pôr de pernas para o ar os Céus, e a terra, e reduzir a nada a natureza, e a razão? Oh! Oh! Que esta empresa acobardaria, e desalentaria a um ignorante servil. Porém a um Filósofo inchado, como uma rã, de orgulho e de soberba, e cuja fibra tomou o gás conveniente nas lojas!! Ah! Ah! que para estes é a coisa tão fácil como beber-se uma botelha... Mas atendam: que inépcia?! Entre a gente rústica é um problema; de que é mais digno um Filósofo tão louco como ímpio, que vive persuadido que basta só um Vocábulo nada significante, para destruir e transtornar tudo, aniquilando a Deus, e as suas obras!! Uns dizem que é digno de rizo; ouros, de desprezo; outros, de compaixão; e alguns filosoficamente tolerantes asseveram que só é digno de um pau, (cacete é mais proveitoso) que manejado por mão hábil, lhe faça em estilhas a filosofante cabeça. O Vocábulo de que se fala é "Natura" (que logo se explicará).

(* O que aqui diz o Autor de um Estado o mais tolerante, é a respeito da França, onde amanheceu esta aurora da tolerância política e Religiosa, que os Regeneradores do mundo anunciavam como o presságio de um ameno, e claro dia, mas que em breve se converteu numa borrasca espantosa, que chegou a confundir os mesmos ateus; de tal guiza que o próprio Mirabeau, que por um Decreto mandou que não houvesse Deus no Universo; (que blasfémia ! e ao mesmo tempo que loucura!!) por outro ordenou que tornasse a havê-lo!! ... Para que mais se convençam os Povos sobre a tolerância proclamada pelos Filósofos, escutem o que diz o Abade Barruel na sua História da perseguição do Clero Francês, que em resumo é o seguinte:
"Cento e trinta e oiro Bispos, e Arcebispos, sessenta e quatro mil Curas foram condenados a evacuarem as suas Sedes: todos os Eclesiásticos, todos os Religiosos de um e outro sexo foram privados do património da Igreja, e expulsos de seus asilos: os Templos do Deus Vivo convertidos em vastas prisões de seus próprios Ministros: trezentos Sacerdotes ou decapitados nas guilhotinas, ou varados das baionetas, ou atravessados de punhais, ou consumidos dos opróbrios, e da inédia, e isto num só dia, e nenhuma só Cidade! Todos os Pastores fiéis ao seu Deus sacrificados pelo furor dos Jacobinos, ou banidos da sua Pátria, buscando através de mim perigos algum refúgio nas Nações estrangeiras, obrigados a mendigar o pão aquele, que dantes alimentavam milhares de pobres!... O próprio Rei, o infeliz Luís XVI, sentenciado pela voz da Nação soberana, arrancado do centro de seu Palácio, e do seio de sua família, arrastado a um cadafalso, e decapitado numa guilhotina!... A virtuosa Rainha condenada igualmente à morte, sua cabeça espetada num pau, e conduzida em triunfo pelas ruas de Paris!... A ideia do verdadeiro Deus derriscada da mente dos Franceses até por um Decreto da Nação Soberana; arrancada, e expulsa de seus anais a Era de Cristo, e substituída a Época fatal de sua rebelião!!!"
A pena recua, e o coração estremece quando quer progredir na descrição dos assassinatos, das matanças, e das proscrições, que se nos oferecem no sangrento quadro da França tolerante!... Atendei, Povos, a este quadro ainda mais recente para se entregar ao esquecimento: eis aqui a tolerância, que vos prepararam! sangue, morte, crueldade, sem respeito nem a Deus, nem aos homens, nem à razão, nem à natureza é a sua tolerância!! Nunca de suas proguentas bocas saiu palavra mais ímpia, mais blasfema, ardilosa, e traidora como esta!... Querem a tolerância, mas é enquanto estão debaixo: isto é: atendei; querem que os Povos, e os Governos os tolerem para que possam arranjar os seus planos; e, logo que se acham montados, começam a perseguição: eis aqui qual é a sua tolerância.

Julguemos digna de se acrescentar a este respeito mais uma reflexão bem atendível, para que os Povos se conversam de que estes flagelos, e esta cegueira são permitidos por Deus para castigar os maus Cristãos, os quais previamente tem sido anunciados por um espírito profético, a qual também serve para advertir os verdadeiros Crentes, a fim de que não chamem terroristas e fanáticos a alguns Pregadores verdadeiramente Religiosos, quando lhes ouvem ameaças, e castigos do Céu sobre os Povos corrompidos, que não escutam a voz de Deus, e que, aborrecem os Filósofos, não aborrecem os seus crimes: quem sabe se Deus quererá muitas vezes servir-se de um Ministro indigno para anunciar os males de um Povo, como outrora fez pela boca de Beauregard em França?! É atendível este sucesso, e nunca o folheamos, que se nos não sobressalte o espírito.

(continuação, V parte)

07/09/15

LIXEIRADA MAÇÓNICA-LIBERAL PELA DEMOLIÇÃO DO PATRIARCADO DE LISBOA (II)

(continuação da I parte)

N. 583
Ordem das Côrtes sobre a Reforma do que pertence à Patriarcal

Para José da Silva Carvalho

"Ill.mo. e Ex.mo Senhor: As Côrtes e Extraordinárias da Nação Portuguesa [até me arrepio em transcrever tão descaradas designações], somando em consideração o plano de Reforma dado pelo Colégio patriarcal da Santa Igreja de Lisboa em 13 de Janeiro do corrente ano, em virtude da Ordem das Côrtes de 22 de Novembro de 1821, e transmitido ao Soberano Congresso pela Secretaria de Estado dos Negócios da Justiça em 16 do referido mês de Janeiro, no qual plano se propõem:

Ruínas da Patriarcal, logo depois do terremoto.
I - Que suspensa a admissão de novos indivíduos, se sujeitem ao pagamento da Décima todos aqueles
Empregados, que a não pagam, exceptuando tão somente os Estrangeiros jubilados; e que os Ofícios e Empregos se vão extinguindo por falecimento, ou promoção dos que actualmente os servem.
II - Que se conserve fechado o Seminário da Música, que faz de despesa inútil a quantia de 4:6000$000 rs., e se dê somente metade dos ordenados aos Mestres de Primeiras Letras, Latim, Música, Reitor e Vice-Reitor, que ficam sem exercício.
III - Que se suspendam as propinas, que se pagavam aos Ministros da Igreja por ocasião das Novenas, as quais deverão continuar como parte do Culto Divino, e a que eles são obrigados; e as venciam os Capelães Cantores, por cantarem as Antífonas; bem como as ajudas de custo e gratificações, que não são determinadas por Lei; donde resultará a economia de 5:780$000 rs..
IV - Que se levantem os trabalhos na Casa das Obras, despedidos os Aprendizes e Oficiais, e conservando-se unicamente o Mestre, o Oficial de Pedreiro, e outro de Carpinteiro, com os ordenados, que têm actualmente, mas sujeitos à Décima.
V - Que cessem as Luminárias na Igreja Patriarcal e na da Memória, Seminário de Música e Congregação Camerária; as propinas, que por qualquer título se pagam por Guarda-cera; as Matinas de Música, que se cantam de noite na Basílica, à excepção das de Defuntos, Conceição, natural e Semana Santa, que se cantam na Capela; e bem assim a propina, que se paga a certos Capelães por cantar os Velhancicos [vilancicos]; e a despesa, que se faz nas Igrejas, a que se dirigem as Procissões; devendo estas reconhecer-se e celebrar-se a Missa na mesma Basílica Patriarcal, de onde saíram.
VI - Que somente assistam dois Ministros de sobrepeliz, em lugar de quatro, ao Santíssimo Sacramento nas ocasiões de exposição.
VII - Que os Armadores e Tapeceiros paguem Décima de seus ordenados, e que sejam despedidos os Aprendizes de um e outro Ofício.
VIII - Que mais se não pague a propina aos Maceiros da Capela, custódios da Basílica e Cursores para voltas e cabeleiras; e a despesa das seges, que se abonava ao Beneficiado Soto-sacrista, o qual deverá fazer os avisos aos Ministros na mesma Igreja com a devida antecipação, ficando porém autorizada esta despesa em algum caso extraordinário e imprevisto.
IX - Finalmente, que se faça o serviço ordinário da igreja com roupa engomada, reservando a encrespada para as funções mais solenes: Resolvem o seguinte:
1º) Que ficam aprovadas todas as referidas economias, propostas pelo Colégio Patriarcal da Santa Igreja de Lisboa; com a declaração porém de que o Seminário da Música se conserve interinamente fechado, enquanto se lhe não der nova forma e Regulamento, para que possa preencher os fins da sua instituição; mas que o Colégio proponha entretanto os meios de continuarem os Mestres a exercitar os seus respectivos empregos fora do Seminário com o total vencimento dos ordenados, que precedem, ficando suspensa a deliberação relativamente aos ordenados do Reitor e Vice-Reitor, por depreender de ulteriores informações; e de que inteiramente cessem as despesas, que se fazem com o Mestre das Obras, que não existem, e com as Oficiais de Pedreiro e Carpinteiro, sem as excepções propostas. 2º) Que fiquem desde já suspensos os pagamentos dos ordenados daqueles, que não residem, sem que para isso tenham licença, ou causa legítima; quais são: o Monsenhor Subdiácono António José da Cunha e Vasconcelos, o Monsenhor Acólito Pedro machado de Miranda Malheiro; os Cónegos José de Sousa Azevedo Pissarro e Araújo e José Maria Vieira Teles de Melo; e os Beneficiados Félix Ferreira do Vale, Manuel Venceslau de Sousa e Vicente José da Silva. 3º) Que sejam absolutamente excluídos dos empregos, ou ofícios, riscando-se os seus nomes da folha dos ordenados, aqueles, que ainda se acham no Rio de Janeiro, ou que tendo regressado, se não apresentaram a continuar no exercício de seus deveres, achando-se em suma, ou outra destas circunstâncias os Músicos António Pedro Gonçalves, António Ciconni, João Mazzioti, Padre José Mendes Sabino, Francisco de Paula Pereira, José Maria Dias e José Maria da Silva; o Organista Simão Vitorino Portugal; o Sacrista Cipriano José de Sousa; o Acólito da Capela Padre José Inácio Lopes, e os Capelães Cantores António Pedro Teixeira, José Joaquim Borges, Frutuoso Rodrigues da Costa e Padre Joaquim Arsénio Lopes Catão. 4º) Que sejam logo despedidos todos os Músicos Estrangeiros, que houveram acabado o tempo de seus contratos; e aqueles, que ainda o não tiverem concluído, não possam igualmente continuar no serviço da Patriarcal, logo que finde o prazo de suas Escrituras. 5) Que além da suspensão de todas as admissões para a Patriarcal, e das reformas, que ficam prescritas, o Colégio vá fazendo todas as mais, que as circunstâncias forem permitindo. 6º) Que na igualdade de circunstâncias tenham no provimento dos Benefícios e Igrejas do Padroado da Coroa, quando houver de ter lugar, os Clérigos e Beneficiados, que estão no serviço da Santa Igreja Patriarcal, ficando todavia em seu perfeito vigor o Decreto das Côrtes de 28 de Junho de 1821 sobre semelhantes provimentos. O que V. Excelência levará ao conhecimento de Sua Majestade.
Deus guarde a V. Excelência. Paço das Côrtes em 2 de Maio de 1822. João Baptista Felgueiras."

(O Decreto de 28 de Junho de 1821, que acima se menciona, vai a pag. 109 n. 172 desta Colecção. - A portaria do Gov. de 6 de Maio de 1822, dirigida ao Colégio Patriarcal, com a cópia da Ordem supra, para a sua inteira observância, no Diar. do Gov. de 1822 n. 113 pág. 798)

Na Sessão de 22 de Novembro de 1821, 1º an. pág. 3191, entre outras Determinações do Soberano Congresso a respeito da Patriarcal, foi que o seu Colégio informasse sobre vários artigos tendentes à sua Reforma, e que se lhe declararam na Ordem, que se lhe expediu, cuja Ordem vai a pág. 284 n. 399 desta Colecção; ao que o mesmo Colégio satisfaz, remetendo o plano da Reforma, que entendia se devia fazer, e que foi remetido ao Soberano Congresso com o Ofício do Ministro da Justiça na Sessão de 18 de Janeiro de 1822, 1º an. pag. 3779, e dirigiu-se à comissão Eclesiástica de Reforma.
Na Sessão do 1º de Maio de 1822 a Comissão deu o seu Parecer, 2º an. tom. VI pág. 13-16, sobre o qual houve leve discussão, e procedendo-se à votação, foi aprovado, excepto naquela parte, em que a Comissão propunha, que o Reitor e Vice-Reitor do Colégio de Música deviam continuar a receber seus ordenados, enquanto se lhes não conferissem outros empregos, que os indemnizassem, ou enquanto por algum justo nesta parte: depois do que se expediu a Ordem supra. No Diar. do Gov. de 1821 n. 278 pág. 820. No de 1822 n. 17 pág. 126, n. 102 pág. 719, e n. 113 pág. 798.

(continuação, III parte)

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (CIII)

(continuação da CII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. XVIII
Não Se Deve Aprofundar Acerca do Mistério da Eucaristia, mas Sujeitar à Fé os Sentimentos e a razão

1. Cristo – Guarda-te do desejo curioso e inútil de sondar este profundíssimo mistério, se não queres submergir-te num abismo de dúvidas. Aquele que quiser sondar a majestade do Altíssimo será oprimido de sua glória.
Deus pode obrar mais do que o homem pode compreender. Porém, não se proíbe o devoto e humilde desejo de alcançar a verdade, àqueles que sempre estão prontos a ser instruídos e a seguir a doutrina dos santos padres.
2. Bem-aventurada a singeleza que deixa a vereda das questões difíceis para caminhar na estrada larga e segura dos mandamentos de Deus.
Se tu não compreendes o que está debaixo de ti, como compreenderás o que está acima da esfera de teu alcance?
3. Alguns padecem graves tentações sobre a fé neste sacramento; porém, isto não se deve amputar a eles, mas ao seu inimigo. Não te perturbes nem disputes com os teus pensamentos; não respondas às objecções que o demónio te sugere; mas crê firmemente na palavra de Deus, nos oráculos dos profetas e na autoridade dos santos e, assim, fugirá de ti o malvado inimigo.
É muitas vezes útil ao servo de Deus ser tentado desta sorte. O demónio não tenta assim os infiéis e os pecadores, porque já os possui com segurança; mas tenta e vexa de mil modos os que são fiéis a Deus e que O servem com devoção.
4. Não te detenhas, pois, nestas coisas, mas chega à santa mesa com uma fé firme e simples e uma piedade cheia de respeito.
Comete a Deus tudo o que não compreendes neste mistério e descansa no seio grandioso de Deus, que tudo pode.
Deus não engana a quem Nele confia, mas o homem engana-se a si mesmo, se confia em si.
Deus anda com os simples, manifesta-se aos humildes, dá inteligência aos pequenos, descobre o sentido às almas puras e oculta a Sua graça aos curiosos e soberanos.
A razão humana é fraca e pode emanar-se, mas não a fé verdadeira.
5. A razão e a luz natural devem seguir a fé, e não precedê-la nem diminui-la.
A fé e o amor mostrarão neste mistério a sua excelência e, para isso, agem de modo oculto e inefável.
Deus eterno, cujo poder não tem limites, opera maravilhas incompreensíveis no Céu e na Terra; e a grandeza das suas obras é impenetrável ao espírito do Homem. Se o Homem pudesse facilmente compreendê-las, pela luz da sua razão, elas não poderiam dizer-se maravilhosas inefáveis.

FIM DA OBRA

LIXEIRADA MAÇÓNICA-LIBERAL PELA DEMOLIÇÃO DO PATRIARCADO DE LISBOA (I)

A ala liberal-maçónica, com apoio internacional constituiu um ilegítimo "poder" e fez leis que impôs ao Reino de Portugal.

O que segue é tirado das "Côrtes Gerais" que essa gente fez para exigir a extinção da Santa Igreja Patriarcal de Lisboa:

N.394
Ordem das "Côrtes", para o Governo impetrar da Sé Apostólica uma Bula para a extinção da Patriarcal, e restabelecimento da antiga Igreja Metropolitana de Lisboa, e da Capela Real.

João Baptista Felgueiras
Para José da Silva Carvalho:

"Ill.mo e Ex.mo Senhor: As Côrtes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa mandam dizer ao Governo, que trata de impetrar, quanto antes, da Sé Apostólica uma Bula para a extinção da Santa Igreja Patriarcal, e restabelecimento da antiga Igreja Metropolitana de Lisboa, e da Capela Real; cometendo-se a alguém o prévio exame sobre o modo por que se deve fazer esse estabelecimento, a fim de que vá expresso na súplica. O que Vossa Excelência levará ao conhecimento de Sua Majestade.
Deus guarde a Vossa Excelência. Paço das Côrte em 15 de Novembro de 1821. João Baptista Felgueiras." pag. 3100

A portaria do Governo nomeando as Pessoas, que haviam de aprontar o determinado exame sobre o modo do restabelecimento: no Diar. do Gove. N. 282.

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Na Sessão de 22 de Agosto de 1821, pág. 1936, o Sr. Macedo expôs haver bastante tempo que a comissão Eclesiástica fora encarregada de apresentar o Plano a respeito da reforma da Patriarcal, e que requeria ao Sr. Presidente que dissesse à Comissão, que apresente o Parecer. Ao que o Sr. Presidente satisfez, recomendando à Comissão, que tomasse em lembrança aquela Indicação, e apresentasse o mais breve que pudesse esse Parecer.
Manuel Borges Carneiro
Na Sessão de 27 do dito mês, o Sr. Borges Carneiro fez uma Indicação, pág. 2028, em que depois de expor a origem da Patriarcal, e a despesa, que ela faz, propôs: 1ª) Que se revogue o Beneplácito Régio concedido ao famoso Motu próprio de Clemente XI, para o fim de se instaurar o antigo Arcebispado de Lisboa, e se reduzir a Capela Real ao que antes era, derrogados todos os Alvarás, Decretos e mais Disposições relativas a esta matéria. 2.ª) Quanto aos actuais Prelados, Beneficiados e Empregados da dita Igreja Patriarcal, que se peça ao Governo uma relação deles e de seus vencimentos, para se designar quais devam ser, em quanto não o forem ocupados em outros empregos. Cuja Indicação, pág. 2029, ficou reservada para segunda leitura.
Na Sessão de 25 de Outubro de 1821 se fez segunda leitura de referida Indicação, e logo, pág. 2794, houve alguma discussão, e o Sr. Presidente, pág. 2795, propôs a votos, se a Indicação devia ser admitida à discussão. Decidiu-se, que sim. Se devia pedir ao Governo as informações das despesas da Patriarcal, e uma relação de todos os Empregados com a maior brevidade. Decidiu-se, que sim, e que o Autor da Indicação a redigisse na forma de Projecto para se imprimir. Expediu-se a Ordem, pág. 2804, para o Governo dar aquela relação.
Na Sessão de 6 de Novembro de 1821 o Sr. Borges Carneiro, pág. 2956, apresentou o Projecto do Decreto, ali logo principia a discussão, onde se expedem gravíssimas reflexões de muitos dos Srs. Deputados, e pedindo votos o Sr. Presidente, pág. 3093, diz: "Não tenho dúvida em que esta matéria em geral está discutida, tenho sim uma dúvida, que devo propor ao Congresso. Há uma questão interessante, que na minha opinião não me parece essa discutida, e é, quem deva agora continuar a exercitar a Jurisdição Espiritual. Se o Congresso o julga conveniente, peço licença para sair do meu lugar, quando chegar a este Artigo, para expor a minha opinião. (era o Sr. Trigoso o Presidente)
O mesmo Sr., dita pág. 3090, propôs: Se a matéria em geral estava suficientemente discutida? Resolveu-se, que sim. Se se deveria extinguir a Santa Igreja Patriarcal? Resolveu-se, que sim. Se se imperaria uma Bula para a extinção da Patriarcal e restituição da antiga Igreja Metropolitana, e da Capela Real, no estado em que se achava antes da fundação daquela, cometendo previamente a alguém o exame do modo porque se pode fazer esse restabelecimento, a fim de que isso vá expresso na súplica? Venceu-se, que sim. Se em quanto ao presente se dariam providências relativamente à Santa Igreja Patriarcal, antes que chegue a Bula de sua supressão? Decidiu-se, que se deem estas providências. Sendo estas providências relativas ou ao Ofício Sagrado, ou aos bens e rendimentos destinados a esta Igreja, se se hão-de desde já fazer reformas sobre estes bens e rendimentos, que depois se especificaram quais hão de ser? Resolveu-se, que sim. "Antes de se propor quais hão-de ser especificamente estas reformas, seria necessário discutir primeiro outra questão, de que esta depende, que vem a ser" Se se devam dar algumas providências a respeito do Ofício Sagrado? Neste ponto é que o mesmo Sr. Trigoso pediu licença para deixar a cadeira, e expor a sua dúvida, e tendo-lha concedido o Soberano Congresso, deixou-a: passou a ocupar seu lugar o Sr. Margiochi, Vice-Presidente, e foi-se colocar entre os Srs. Deputados. Expôs, pág. 3093, os seus sentimentos sobre a questão; e os mais Srs., pág. 3094 - 3096, em que por Parecer do Sr. Vaz Velho, que pediu o adiamento do negócio, posto a voto pelo Sr. Vice-Presidente, foi aprovado. Expediu-se com tudo a Ordem deste número, como matéria já vencida e determinada. Continuou a discussão antecedente, pág. 3128, ficou adiada. Continuou a discussão, pág. 3128, ficou adiada. Continuou a discussão, pág. 3161, na Sessão de 20 do dito mês, e, pág. 3165, tornou a ficar adiada; e se determinou que viessem as Bulas da Patriarcal.
Na Sessão de 22 do dito mês continuou, pág. 3179, a discussão adiada, sendo longo o debate, até pág. 3191, onde o Sr. Presidente propôs, se a matéria estava suficientemente descuidada? E venceu-se, que sim. Pôs a votos as seguintes questões: 1.ª) Se inteiramente tudo ou parte da Patriarcal se há-de conservar na Capela Real da Ajuda, ou se se há-de trasladar para a Basílica de Santa Maria da Sé? Resolveu-se, que ficasse na Capela Real da Ajuda. 2.ª) Se interinamente há de ficar a Santa Igreja Patriarcal reduzida ao Colégio dos Principais, e aquele número de Ministros, que o mesmo Colégio designar de acordo com o Congresso? Vendeu-se, que sim. "Venceu-se igualmente, que se mande ao Colégio Patriarcal, que não só consulte o Congresso sobre o número dos Ministros colados, com que há de interinamente formar a Santa igreja Patriarcal; mas também consulte o número de empregos e ofícios, que devem subsistir interinamente na mesma Igreja; e o ordenado, que cada um deles deve conservar: assim como o orçamento de despesa necessária para o guisamento da Igreja; tendo entendido, que é da mente do Congresso, que por uma parte se não falte ao essencial, e ainda à decência do Culto, e que por outra parte se extingam todos os ofícios, e se cortem todas as despesas, que para aquele fim não forem absolutamente necessárias." Em consequência do que se expediu a Ordem, que vai no n. 399 desta Colecção. E porque o Colégio Patriarcal se demorou na execução dela, se expediu outra Ordem, pág. 3598, suspendendo-lhe o pagamento dos seus ordenados, cuja Ordem se mandou executar por Portaria do Governo, que se acha no Diar. do Gov., de 1822, n. 9 pág. 66, e n. 10. E como tivesse cumprido o que lhe fora determinado, se lhe mandou continuar com os respectivos pagamentos, pelas Portarias do Governo, no dito Diar. N. 47.
No Diar. do Gov. n. 203, 254 pág. 654, n. 264 pág. 718 e 719, n. 272 pág. 776-778, n. 282, 276 pág. 809, e n. 278 pag. 818.

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N.399
Ordem das Côrtes para o Colégio patriarcal da Santa Igreja de Lisboa consultar com a maior brevidade sobre os objectos na mesma Ordem declarados.

José da Silva Carvalho
Para José da Silva Carvalho

"Ill.mo e Ex.mo Senhor:As Côrtes Gerais e Extraordinárias da Nação Portuguesa Ordenam, que o Colégio Patriarcal da Santa Igreja Patriarcal de Lisboa consulte com a maior brevidade este Soberano Congresso não só sobre o número dos Ministros colados de que há de interinamente formar-se a Santa Igreja Patriarcal, mas também sobre o número de Empregos e Ofícios, que na mesma Igreja devem subsistir interinamente, e o ordenado, que cada um deles deve conservar: assim como o orçamento das despesas necessárias para o guisamento da Igreja: tendo entendido, que é da mente do Augusto Congresso, que por uma parte se não falte ao essencial, e ainda à decência do Culto, e que por outra se extingam todos os Ofícios, e se cortem todas as despesas, que para aquele fim não forem absolutamente necessárias. O que V. Excelência levará ao conhecimento de Sua Majestade.
Deus guarde a V. Excelência. Paço das Côrtes em 22 de Novembro de 1821. João Baptista Felgueiras." Pag. 3191


(continuação, II parte)

06/09/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (CII)

(continuação da CI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. XVII
O Grande e Ardente Desejo de Receber Jesus Cristo

1. Alma – Senhor, eu desejo receber-Vos com suma devoção, com amor ardente e com todo o afecto do meu coração, assim como desejaram receber-Vos muitos santos e almas puras, que se tornaram agradáveis aos Vossos olhos, pela santidade de suas vidas e pelo apego à sua devoção.
Ó meu Deus, amor eterno, que sois o meu bem e a minha soberana felicidade, eu desejo receber-Vos com o afecto mais ardente e com o respeito mais profundo, qual jamais teve nem pôde sentir nenhum dos Vosso santos.

2. Ainda que eu seja indigno de ter aqueles admiráveis sentimentos de amor, ofereço-Vos todo o afecto do meu coração, como se em mim se concentrassem todas aqueles inflamados desejos.
E quanto pode conceber a alma piedosa, tudo Vos apresento e ofereço, com entramanhado amor. Nada desejo reservar para mim senão oferecer-me em sacrifício, com tudo o que possuo, voluntariamente, e vibrando no maior afecto.
Senhor Deus, meu criador e Redentor, desejo receber-Vos e hoje com tanta dedicação, reverência, honra e louvor; com tanto agradecimento, dignidade e amor; com tanta fé, esperança e pureza - como Vos desejou e recebeu Vossa Mãe Santíssima, a gloriosa Virgem Maria, quando, anunciando-lhe o anjo o mistério da encarnação, respondeu, humilde e devotamente: "Eis aqui a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra."

3. E como o bem-aventurado São João Baptista, Vosso precursor e o maior dos santos, quando ainda estava encerrado no ventre materno, deu saltos de alegria em Vossa presença, com o gozo do Espírito Santo; e, depois, vendo-Vos, meu Jesus, conversar com os homens, exclamou, devota e humildemente: "O amigo do Esposo, que está em sua presença e o ouve, regozija-se ao ouvir a voz do Esposo", assim desejo eu estar inflamado de grandes e santos desejos e oferecer-me a Vós com todo o afecto do meu coração.
Por isso Vos ofereço e dedico todos os meus transportes de amor e alegria, os êxtases, os raptos, as revelações, as visões celestiais de todas as almas santas, com os acatamentos e tributos que Vos rendem eternamente todas as criaturas no Céu e na Terra; eu Vo-los ofereço, assim, como as suas virtudes e merecimentos, por mim e por todos os que se recomendaram às minhas orações, para que sejais por todos dignamente louvado e para sempre glorificado.

4. Recebei, Deus e Senhor meu, os meus votos e desejos que me animam de Vos louvar, de Vos bendizer, com amor imenso, infinito, devido à Vossa inefável grandeza.
Eis o que Vos ofereço agora e desejo oferecer-Vos em cada dia e cada momento; e convido e rogo a todos os espíritos celestiais e a todos fiéis servos, para que, unidos a mim, Vos louvem e dêem dignas acções de graças.

5. Louvem-Vos todos os povos, todas as tribos e línguas, e engrandeçam o Vosso santo e dulcíssimo nome com o sumo regozijo e inflamada devoção.
Mereçam achar a Vossa graça e misericórdia todos os que, com reverência e devoção, celebram o Vosso altíssimo sacramento e, com inteira fé, o recebem; e roguem a Deus humildemente, por mim, pecador.
E quando, depois de se terem unido a Vós, segundo os seus piedosos desejos, se retirarem da mesa celestial, saciados e maravilhosamente consolados, tenham por bem lembrar-se deste pobre desvalido.

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCLXII

05/09/15

ANTÓNIO DE OLIVIERA SALAZAR - "O MEU DEPOIMENTO"


"Sabes? Sinto que a minha vocação é a de ser Primeiro-Ministro de um rei absoluto." (palavras ditas por Salazar ao Card. Cerejeira)

04/09/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (CI)

(continuação da C parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. XV
Pedir, Esperar, Receber e Conservar a Graça

1. Cristo – Deves procurar a graça da devoção com perseverança, pedi-la com ardor, espera-la com paciência e confiança, recebê-la agradecido, conservá-la com humildade, e ter grande cuidado de obrar com ela, cometendo a Deus o tempo e o modo em que lhe agradar visitar-te.
Humilha-te, quando em ti sentires pouco ou nada de devoção, sem que entretanto, desanimes ou te entristeças excessivamente.
Muitas vezes dá a Deus, em um breve movimento, o que durante muito tempo parecia ter negado, e muitas vezes concede no fim da oração o que recusou dar no principio.

2. O homem é tão fraco nesta vida que, se alcançasse sempre a graça e, em pouco tempo, na medida do seu desejo, não poderia suportá-la. Por isso deves esperar a graça da devoção com segura confiança e humilde paciência; ou, quando não te for concedida ou te for tirada secretamente, lança a culpa em ti mesmo e nos teus pecados.
Algumas vezes é bem pequena a coisa que impede ou enfraquece a graça, se, todavia se puder chamar coisa pequena o que prova de tão grande bem. Se removeres este obstáculo, seja ele grande ou pequeno, e o venceres, certamente terás o que pedires.

3. Porque logo que te entregares a Deus de todo o teu coração, e não buscares coisa alguma por teu próprio gosto, mas de todo te puseres nas Suas mãos, tu te acharás recolhido e sossegado, pois nada te será tão grande e tão jucundo como o beneplácito da divina vontade.
Aquele, portanto, que elevar a sua intenção pura ao Senhor, e tiver a sua alma desocupada de todo o afecto desordenado às criaturas, estará em condições de receber a graça e será digno de receber o dom da devoção.
O Senhor derrama as suas bênções onde acha vasos desocupados e, à proporção que o homem renuncia às coisas terrenas, e morre mais para si, pelo desprezo de si mesmo, a graça mais prontamente e em maior abundância se lhe comunica e a sua alma se eleva a uma mais alta liberdade de coração.

4. Então, transportado de admiração, verá o que não tinha visto, estará na abundância e o seu coração se dilatará, porque o Senhor está com ele e ele mesmo se pôs inteiramente nas mãos de Deus.
Deste modo, será abençoado o homem que busca a Deus, de todo o coração, e que fecha a entrada da alma a tudo o que é inútil e ilusório.
Este discípulo fiel, quando recebe a sagrada comunhão, merece a graça singular de uma união mais íntima, com o Senhor, porque não considera tanto a sua devoção ou a sua consolação particular; é a glória de Deus que ele prefere a todo o fervor e alegria espiritual que recebe neste sacramento.

03/09/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº3 (III)

(continuação da II parte)

Porém, valha-nos Deus; para que fim tanto empenho em inventar disparates? Tanto deleite se acha no delírio, que cheguemos a enojar-nos com a verdade, e com a razão?! Quando a um sabiosito da moda se lhe enchem de repente os cascos de ideias romanescas, e extravagantes, e se lhe vai de todo o juízo, é tido logo por um louco perfeito. E então só a Filosofia há de delirar à sua vontade, não só sem quebra, mas com honra e aplauso?! Com que só ela há de fazer alarde de toleima e loucura; e a verdade, a razão, e a justiça hão de estar como escravas atadas ao carro de seu triunfo?! Apostemos nós que há aqui oculto algum fito, ou alvo, muito mais agradável, que o deleite de agradar?!

Muitos, sim, muitos disparatam de boa fé, por orgulho, por presunção, por ligeireza de miolos, e porque são loucos e estonteados à nativitate. Porém entre os principais, e pela maior parte, o seu delírio é filho de um refinada malícia, e de um plano infernal de corromper à força de disparates o entendimento do homem, e dispô-lo desta quiza, a que arroje de si a Moral e a Religião. Estes pérfidos sonhadores, são os que descaradamente se chamam:

FILÓSOFOS, LIBERAIS-MAÇÕES, ESPÍRITOS-FORTES, DESPREOCUPADOS, ILUSTRADOS, etc. – Todos são sinónimos. Fingiam os antigos Poetas, que houveram uns gigantes, que declararam guerra a Júpiter com intenções de o precipitarem do Trono. Filhos da terra e de Titã, tanto confiaram em suas próprias forças, que não temeram declarar-se contra o Supreno Numen; e pondo montes sobre montes pensaram escalar o Céu, donde, feitos os Soberanos, governassem o Mundo a seu capricho. O raio de Júpiter desconsertou seus planos, e limpou a terra de semelhantes monstros. Não parece que esta fábula se fez de propósito para pintar ao vivo os Filósofos, gigantes verdadeiros de nosso dias? Filhos da vaidade, e do orgulho não só intentarão destruir todos os Tronos dos Príncipes da terra, mas até tem tido a descarada ousadia de declarar a guerra ao mesmo Omnipotente; e amontoando uns sobre outros falsos, e absurdos raciocínios, mais grosseiros ainda que as montanhas do gigantes, formam deles a escada para assaltar o Céu, e proclamarem-se deuses, e dar a lei ao Mundo. É já hoje bem conhecido qual seja o plano diabólico destes malignos e abomináveis monstros. Erigir o Ateísmo sobre a consoladora crença de um Deus; abater na terra a Autoridade Divina, exterminar a Religião, riscar de entre os homens os conselhos e preceitos da Moral Cristã, obscurecer até as mesmas inspirações da Natureza, tirar de todo a subordinação, a ordem, a obediência, alvorotar e pôr em combustão todas as Sociedades, erigir uma cadeira pestilente, em que se ensine a infame Moral Filosofia, fazer da ruína e perdição dos outros sua felicidade própria, e fazerem-se os Senhores absolutos do Mundo para o manejarem a seu modo: eis-aqui o delicioso objecto de todos os seus suores, e fadigas. Segundo eles, uma razão escravizada de antemão pelas paixões mais vergonhosas, obcecada pelo orgulho, e cheia de presunção, e ignorância, é a que deve governas a terra com muito mais acerto que ambas as Autoridades, Divina, e humana. Para humilhar sua presunçosa soberba, permitiu a Eterna Sabedoria, que suas infernais máximas triunfassem em alguns países; porém seu triunfo foi sua maior humilhação. Podia mui bem o Omnipotente disparar um raio exterminador contra estes hediondos, e abomináveis monstros, e precipita-los em os abismos; porém deste modo seria fastigada sua presunção e temeridade, mas não confundida sua soberba. Que fez pois? Vibrou o Eterno um raio, que a um mesmo tempo fez dos Filósofos os escárnio e o ludibrio do Mundo, e abriu aos homens os olhos, para que vissem a falsidade, e abominação de suas sedutoras doutrinas. Apenas se puseram em prática as máximas, que segundo os Filósofos deviam preferir-se à Religião, e que muito melhor que esta haviam de fazer feliz a linhagem humana, imediatamente de todos os Estados, que as praticavam, desapareceram os costumes, a segurança, a liberdade, o amor, a boa fé, a probidade, a justiça, e a compaixão. Desde logo se convertam os homens em verdadeiras feras, e apareceram triunfantes e reinantes os blasfemos, os ladrões, os traidores, os embusteiros, e quanta vil canalha, que se abrigava em a Sociedade. Os vícios mais detestáveis foram qualificados de virtudes, e as mais acrisoladas virtudes passaram a ser vícios. Desde aquele fatal instante nenhum homem de bem teve segurança, nem em sua vida, nem em sua honra, nem em seus bens. A prometida  liberdade converteu-se em escravidão; a igualdade tão decantada deixou cair o véu, que lhe cobria o rosto, e apareceu o orgulho mais insultante: a humanidade ou filantropia filosófica causou horror e espanto, ainda aos mesmos tigres; e a irmandade e fraternidade universal se converteu, e declarou em a universal guerra, em roubar descaradamente todos os bens Eclesiásticos, e profanos, e em não respeitar lei alguma, nenhum Direito, nem Divino, nem humano. Desta maneira se hão coberto os Filósofos, na presença de todo o mundo, da ultima confusão, e à vista igualmente da Lei Divina, e da Moral Cristã. Se eles ainda tem prosélitos, é porque nunca faltaram no mundo homens diabólicos, e obstinadamente ímpios, que fazem suas delicias em tiranizar e roubar, e a quem as iniquidades e vícios sempre são amáveis. A Filosofia moderna é uma ciência destes tunantes, e ninguém lhe disputará a honra de formar tais discípulos, apaniguados, e defensores. O raio desenganador não se há feito para estes energúmenos; porém os ameaça e espera o exterminador, que nunca falta, quando se há enchido a medida.

OPINIÃO - No idioma antigo tinha este Vocábulo uma significação geral; porém na linguagem republicana tem sido reduzido a um sentido bem estreito. Por exemplo: liberdade de opinar, que na língua antiga significava poder pensar cada um como lhe agradasse, significa agora em língua republicana, que só, e unicamente se deve pensar por ateísmo, incredulidade, e libertinagem. Opinar doutro modo, não o permitem os Republicanos senão àqueles, a quem não alcançam com o punhal, e a quem despojaram, assassináram, ou mandaram pelos desterros.

RELIGIÃO - Em língua democrática denota expressamente o Ateísmo. Em tantos e tão infinitos proclamas, edictos, e decretos, como os Republicanos têm feito circular nas Cidades, e Províncias, e em que sem cessar se repete, que a Religião será protegida, conservada, e respeitada, se por Religião se entende ateísmo, não há que pedir; a promessa tem-se cumprido à risca. Porém se se entende outra coisa, tem sido um soleníssimo embuste, e escandalosa impostura. Segundo este procedimento, que é palpável, ninguém hoje duvida que proteger a Religião, e destruir a superstição não quer dizer outra coisa em língua democrática, senão proteger o ateísmo, e destruir a Religião.

(* Nós, os Portugueses, que o digamos: não havia papel de Governo do Porto, nem Proclamação, nem Juramento, em que os Revolucionários não enchessem a boca de "Viva a Religião" misturando-os com os de "Viva o Rei" e como estes Vivas ao Rei eram só até que ele pudesse ser morto; assim os Vivas à Religião, eram até que o Povo estivesse ilustrado, para então se abolir: e a sentença fatal, e tantas vezes repetida pela blasfema boca de um Pai da pátria, que em nome era Carneiro, e nas obras tigre, de "desfaçamos-nos deles!" não tardaria em seu converter em "desfaçamo-nos dela" isto é, da Religião! Algumas vezes lhes escapava da boca "Viva a Nossa Religião!" e sendo eles ímpios, ateus, blasfemos; que queria isto dizer, senão "Viva a impiedade, o ateísmo, e a libertinagem, porque esta é a nossa religião"!? Na célebre archotada, encontrando-se um daqueles bandos assalariados com uma Comunidade Religiosa que voltava de um enterro, soaram muitas vozes de blasfémia, mas entre elas se distinguiu muito uma, que dizia "Viva a Religião, morram os Clérigos, e dos Frades!". Claro está que a Religião que devia viver não era aquela, de quem eram Ministros os Clérigos, e os Frades, isto é, a de Jesus Cristo, porque esta não pode existir sem Culto, e não pode haver Culto sem Ministros; era portanto a Religião deles, que devia viver sobre as ruínas do Catolicismo: isto é, o Ateísmo, e Materialismo enfeitado com as ridículas cerimónias das lojas maçónicas, é que devia viver; cujos mistérios deviam ser os de Adonirão; Ministros os Grão-Mestres, e Rosa-cruzes; hierarquia os graus de Cavaleiro Tudesco; acólitos os serventes e adeptos; emblemas as caveiras, túmulos, e luzes sepulcrais; vestes os aventais, e as mitras bicórneas; enfeites significativos, a trolha, o martelinho, a esquadria, o compasso, o triângulo, etc. cuja empresa é a mudança total do mundo moral, refundindo os homens para aparecerem outros tantos Vaninis, e cujo timbre é o não desistir para se chegar a levantar o Templo de Jerusalém; isto é, o Ateísmo e a libertinagem sem freio, nem respeito algum divino, ou humano. Eis aqui a Religião, que eles apregoavam, e por isso lhe chamavam "a nossa Religião". É necessário portanto que os Povos se não iludam quando os ouvem falar em Religião; e quando em suas papeletras (que ainda hoje com tanto escândalo se espalham entre nós) lerem, ou ouvirem ler essa perlenga de Religião, etc. entendam sempre o contrário "Religião na boca deles é Ateísmo", proteger dito por eles é "destruir": viva a nossa Religião, quer dizer viva a Maçonaria com todos os seus apêndices. Mais adiante aparecerá uma tradução exacta das Proclamações Democráticas, e anti-religiosas.) D. Tr.

(continuação, IV parte)

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (C)

(continuação da XCIX parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. XIV
O Desejo de Receber o Corpo de Jesus Cristo Arrebata As Almas Santas

1. Alma – Senhor, quanto é grande e inefável a doçura que haveria reservado para os que Vos temem! Quando me lembro de algumas almas devotas, que se chegam ao Vosso sacramento com tão fervoroso afecto, envergonho-me de mim mesmo e invade-me a confusão se considero a tibieza fria e frouxa com que me aproximo do Vosso altar e da mesa sagrada da comunhão. Envergonho-me de chegar tão seco e tão pouco movido de afecto. Envergonho-me de não sentir abrasado na presença de Deus e de não experimentar aquela amorosa atracção que experimentam tantas almas santas que, transportadas pelo desejo de comunhão e do amor sensível que arde no seu peito, não podem reprimir as lágrimas; e que, alteradas deste modo, o ardor da sua sede lhes faz abrir a boca do seu coração e do seu corpo, para Vos receber como fonte de águas vivas; pois que de outra sorte não podem aplacar a fome que as oprime, senão recebendo o Vosso corpo sagrado com toda a ânsia e alegria espiritual.
2. Ó fé verdadeiramente fervorosa! Como ela é uma prova sensível de que estais, Jesus, realmente presente neste santo sacramento! Estas almas reconhecem, na verdade, o Senhor, ao partir do pão, como os dois discípulos cujo coração estava todo abrasado quando o Mestre caminhava com eles.
Quão longe está muitas vezes de mim tão terna afeição, tão delicado amor! Sede-me propício, ó bom Jesus, benigno e misericordioso! Compadecei-Vos deste pobre mendigo e permiti que experimente, ao menos alguma vez, na comunhão um raio de fogo do Vosso amor, para que a minha fé se fortaleça, cresça a esperança em Vossa bondade e, fazendo-me conhecer as delícias desta maná celeste, jamais se extinga a minha caridade.
3. A Vossa misericórdia, Senhor, é assaz poderosa para me conceder esta graça, para encher-me do espírito do fervor e visitar-me, cheio de clemência, no dia que entenderdes dever fazê-lo. E ainda que eu não sinta os ardentes transportes dessas almas que são verdadeiramente Vossas, fazei-me, contudo, a graça de ser possuído destes desejos.
Por este motivo Vos peço me façais participadamente do merecimento das almas que tão fervorosamente Vos amam, unindo-me à sua sociedade santa.

01/09/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº3 (II)

(continuação da II parte)


Se todos os animais perecerão em o diluvio, e seus cadáveres flutuantes foram transportados pelas aguas de uma a outra parte; que cousa mais natural e consequente, que depois de se retirar as aguas aos seus leitos, acharem-se os seus ossos disseminados pelos globo? E por este modo é algum milagre, que se encontrem ossos de elefantes na Sibéria, e cabeças de crocodilo em a Germânia? Mas um fundamento tão singelo, e tão natural dará pouca margem para formar contos; e a Filosofia quis antes (sem outra causa que seu capricho) pôr o primeiro assento dos elegantes e crocodilos em suas então sonhada cálida Sibéria, ei-la chegando com o tempo à dantes inabitável Zona tórrida, a fim de que désse lugar aos frios ursos e lobos, que ião suceder-lhes em os gelados pólos. Nada importa que no entanto estivessem os pobres lobos suspensos em as nuvens em lugar de estarem na terra; porque primeiro está levar adiante a disparatada mania de endoidecer-nos a cabeça com irrisória hipótese, de que todos os animais racionais, e irracionais nascerão dos esterco (ex putrescente matéria) como os insectos. (*)
* (Nada cobre tanto de opróbrio a razão humana como o estohdissimo e abominável Materialismo. Talvez agradará mais palpar sua necedade ridícula em uma:

NOVELA

Um navegante, depois de ter naufragado, foi lançado em terra numa grande Ilha povoada de grosseiros, e rudes habitantes, que nenhuma comunicação tinham com o resto do Continente. Antes de se encostar este desgraçado, para recobrar com o sono as forças perdidas pela vigília, e desfalecimento, em que se achava, tirou da algibeira o relógio, deu-lhe corda, e o pôs junto a si. Mas surpreendido pelas feras no tempo, em que dormia, foi por elas morto e conduzido a suas cavernas. Pela manhã os Ilhéus acharam por casualidade o relógio; e movidos da curiosidade de ver o que era que se movia dentro, tanto estudaram e trabalharam, que por fim conseguiram atinar com o segredo de abri-lo. Porém, que espectáculo tão maravilhoso a seus olhos! De repente foi ele o objecto de todos os discursos. Nenhum deles podia compreender como, ou por onde houvesse vindo ali, qual fosse seu uso, e muito menos quem houvesse sido o artista de uma maquina tão delicada e admirável. Todos admiraram a delicadeza, e finura de seu trabalho, a harmoniosa disposição de suas partes, a exacta, e ajustada correspondência das mesmas, a direcção universal encaminhada a produzir o movimento, e a caixa exterior feita com toda a previsão para o conservar. Porém, o que excedeu sobre tudo suas inteligências, foi a primeira força motriz, em quanto a mola esteve oculta a seus olhos. Nenhum duvidava, que quem fizera tal maquina era em sumo grau superior a eles em conhecimentos, e maquinismo. A nenhum lhe passou ao menos pela imaginação, ou que se houvesse ela produzido a si mesma, ou que fosse obra do acaso; e nenhum se fartava de admirar e celebrar o seu artífice. Sem embargo alguns sabiositos, que se tinham por mui superiores aos demais Ilhéus, começaram a contradizer a opinião geral, dizendo: que não se podendo dar a razão de como tivesse ali vindo a máquina, se podia afirmar muito bem que a terra a havia produzido. O mesmo foi ouvirem isto os outros, que começarem ás gargalhadas; e por modo de escárnio lhes começaram a perguntar: como acontecia, que a terra não produzia casas, chapéus, vestidos, e utensílios? Mas esta réplica capaz por si mesma de fazer entrar em juízo a qualquer, que ande em dois pés, foi justamente a que mais empenhou os tais doutores em acharem o modo, com que a terra houvesse produzido o relógio. Eis aqui como discorriam: “Os metais acham-se na terra: um fogo eléctrico ou vulcânico pode tê-lo fundido: a fermentação, que precisamente se haverá ocasionado, pode ter feito singulares combinações, e talvez poderá ter-lhe posto o ultimo perfil.”

Outro mais eruditos imaginavam, que muitos, e diversos metais se haviam derretido, e envolvido uns com outros, e que a simpatia deles, juntamente com a atracção, etc. etc. facílimamente, e como quem nada faz, teria traçado o plano, com que um metal com outro formassem diversas figuras de rodas dentadas, pêndulas, cadeias, etc. etc. E pelo que pertencia à igualdade perfeitíssima dos dentes, à finíssima proporção das partes, ás figuras exactíssimamente feitas umas pelas outras, e à evidente disposição de tudo a um fim maravilhoso, o atribuíam a um acaso, que, apesar de difícil, não tinha alguma impossibilidade. Porém o Povo, a quem é mui difícil (se não é impossível) fazer-lhes perder os estribos dos primeiros ditames da razão, se ria igualmente das explicações de uns, como das dos outros.

Se as ditosas dissertações sobre o relógio houvessem caído em nossas mãos, teriam escapado seu avinagrados autores de uma patente de loucos rematados?! Pois meus Senhores Materialistas, mutato nomine, de te fabula narratur. Por mais curiosamente, que esteja formado um relógio, não é comparável sequer com o corpo de um animal. O relógio não é produtivo, nem gera  outros relógios, nem tão pouco tem alma, espírito, ou razão. Logo, todos vós, Senhores Filosofantes, fazeis dissertações muito mais absurdas, que as que faziam os Ilhéus. Portanto, se estes tinham mérito muito de sobejo par serem lidos por loucos, vós sem dúvida o tendes ainda maior. Oh Filosofia moderna! Quando terá luz, sequer ao menos para saberem envergonhar-te de ti mesma?! ...)
Porém que loucura ou absurdo, por mais disparado que seja, não abraça a Filosofia, com tanto que possa fazer-nos delirar?!

Porém a Filosofia se tem feito célebre na Física à força de delírios, e ninharias, não é menos delirante na Metafísica. Seus princípios e axiomas principais correspondem a pedir de boca a seu predilecto prurito de delirar em tudo, e por tudo. Para fazer uma Matemática delirante não se necessitava de mais, que pôr um de seus princípios fundamentais, que um ângulo recto é, ou pode ser menos que um ângulo agudo, e eis-aqui transtornada toda a Matemática, feito o todo menor que a sua parte, e esta maior que o seu todo, e falsificado quanto até aqui era verdade evidente, e vice versa. Em os antigos tempos, em que a razão era o essencial constitutivo do homem, sobre ela se fundavam, e dela fluíam seus direitos, e seus deveres. Mas a Filosofia achou pouco pasto em um principio tão singelo, e tão evidente, para a sua mania de delirar sobre a liberdade, a igualdade, a independência, a sociedade, e os governos, etc. etc.; foi então, que substituindo àquele principio a potência física da natureza animalesca, e formando dela a base dos direitos do homem, não conheceu desde então limites em forjar delírios, que afagassem as paixões. A moderna Metafisica, pois, veio a parar em um caos de direitos contraditórios, quais são: Soberana escravidão, independência dependente, e arrazoamentos absurdos. No entanto delira-se, e delira-se deliciosamente. O que mais abusa da razão, é o mais qualificado de racional; e esta verdade austera, e a sabedoria profunda são olhadas, e tratadas com desprezo, e desdém. O que há ainda mais para admirar, é, que este deleitável delírio não só tem apoderado do cérebros das frágeis damas, dos estonteados petímetres, e dos anciãos deslembrados, e patetas; mas até por uma espécie de encantamento tem feito em todas as cabeças o mesmo transtorno, que os livros de cavalarias fizeram na de D. Quixote. No meio de seus mais sólidos raciocínios entravam como indubitáveis verdades seus caprichos, seus encantadores, e seus cavaleiros andantes. E qual é hoje o literato, que não há enchido suas obras de inundações, épocas, vulcões, aluviões, e terremotos? Qual, o que, como verdura em horta, não nos haja espalhado nelas os direitos do homem, a liberdade, a igualdade, a soberania, a ilustração, e toda a demais sorte de tonteiras? Quem nos diria, que havia chegar tempo, em que fôra vergonhoso não delirar?! Pois isto é o que actualmente está sucedendo. Desditoso o que marcha sobre os verdadeiros princípios da razão, da verdade, e da experiência: não é necessário mais, para ser apontado com o dedo como um supersticioso, e metido à bulha como um ignorantão, e um imbecil.

(continuação, III parte)

OS NOTÁVEIS DESACATOS OCORRIDOS EM PORTUGAL (VI)

(continuação da V parte)

Custódia da Santa Igreja Patriarcal de Lisboa
Ó Fé Divina! Fé Augusta! Autoridade infalível do meu Deus, exercita sobre mim todo o teu império, desvanece, dissipa toda a viva impressão que em mim fazem tais sucessos! Ou de outro modo, tirai deles, Senhor, a justa vingança que merecem! As mãos sacrílegas, que vos tocaram, sêcas, áridas, nunca mais se movam! A terra as trague, como a Coré, e Abirão! E então, Senhor, mais, e até visivelmente vos reconhecerei nesse Sacramento de Amor; porque então de outro modo os vossos mesmos inimigos, insultando a minha crença, poderão perguntar-me: onde, ó simples, onde está aqui o teu Deus neste Sacramento, se eu dele mesmo zombo, e escarneço? Ubi est Deus tuus?


Porém, C. O., não se assuste, nem vacile por isso a vossa Fé, nem o escândalo, que vos dão os vossos inimigos, chegue a pôr em dúvida a vossa crença àcerca da Real presença de Jesus Cristo no Augusto Sacramento dos nossos Altares. Não permitiu ele que os pérfidos Judeus o insultassem por mil nodos, até tirar-lhe inocentemente a vida sobre uma Cruz infame? Não lhe disse ele mesmo, que somente o poder, ou permissão do Alto é que o sujeitava ao seu bárbaro poder? Non haberes in me potestatem, nisi tibi datum esset desuper?


Ali pois, C. O., naquele Augusto Sacramento, Jesus Cristo, e só diferente no diferente modo de existir, ele conserva a mesma paciência no meio dos mais vivos ultrajes que lhe fazem; reduzido à humilde fórma de alimento do mesmo homem, despojado de toda a sua glória, e grandeza, não ostenta de alguma fórma o seu poder, permite não só estes, mas outros quaisquer ultrajes, que lhe façam os seus inimigos, de que ele tirará uma severa, e eterna vingança.


Estes ultrajes, ainda que excitem vivamente a sua cólera, e justiça, atacam menos a sua Divina Majestade, do que nos preparam a nossa desgraça. Jesus Cristo firme, imóvel, e imperturbável no centro da sua mesma felicidade, a qual nada pode nem levemente alterar, ele olha nestes ultrajes, ainda mais a fatal cegueira e desgraça, que o homem com eles se prepara a si mesmo, do que a sua mesma ofensa; por isso as tolera, sofre, e até mesmo chega a perdoar, quando se lhe dá a digna e competente reparação.

Não vos inquieteis pois, ó almas pouco firmes, não vos inquiete o silêncio, e sofrimento, com que o mesmo Deus se há no meio da indignidade, com que o tratam: ali existe, e existia então mesmo, que tão sacrílegamente o tratavam. Tanto é o seu Amor para com os homens, e tanto quer ostentá-lo naquele Adorável Sacramento! os mesmos pérfidos, e bárbaros, que assim o ultrajam, entrarão ainda em sua amizade, se a graça obrar neles, o que obrar pode.

Não vacile pois, ó Fiéis de Jesus Cristo, a vossa Fé, fazei-lhe antes repetidos sacrifícios das vossas luzes, e razão, para reconhecê-lo ali existente, apesar da mesma indignidade com que o vedes profanado. nem por isso também, ó ímpios, triunfa a vossa incredulidade!

Seria este, C. O., um novo mal para temer-se, se destas sacrílegas profanações, cometidas contra o Divino Sacramento, pudesse a impiedade dos nossos dias alcançar algum triunfo, como com efeito pretende alcançar.


Ninguém de vós ignora até que ponto se tem estendido o fatal império da irreligião, da impiedade, e da Filosofia do século, e que desde o passado ela parecia ter conseguido o mais assinalado triunfo sobre a Religião do Evangelho. Chegou a atacar-se a existência do mesmo Deus, e a dogmatizar-se em público o mesmo Ateísmo. Admirou-se sim a sublimidade da doutrina do Evangelho, fez-se dela o mais pomposo elogio, fazendo ver a sua superioridade a tudo que a filosofia tem produzido de melhor: mas a sua Divindade tem sido positivamente atacada por infames e nas, que sabem ajuntar a eloquência, e a impiedade, e que se tem servido de toda a espécie de argumentos para destruírem o Evangelho, e o seu Autor. Os Mistérios tratam-se de fábulas, as práticas mais edificantes do Cristianismo de superstição, as suas Leis de impraticáveis, e até opostas às Leis da decantada natureza, e enfim, Senhores, a filosofia do século tenta, e esforça-se em reduzir o homem ao estado dos brutos, e das feras, sem relações algumas com Deus, nem a algum fim eterno, para que o homem houvesse sido criado.

Ora; neste estado de furor, e quase frenética raiva contra a Religião, sobretudo porque ela põe um estreito freio à liberdade, e licença dos costumes; no estado de perseguição, e pavor, a que se acha reduzida a Esposa de Jesus Cristo nas suas mesmas Verdades, e Moral, quando a impiedade pretende já contar victória sobre ela; que maior ocasião para seus triunfos, do que estas profanações e insultos, livremente, e com tanta frequência, cometidos contra aquilo, que a Religião nos oferece de mais Santo, que é o Divino e Augusto Sacramento dos nossos Altares?

Esta espécie de pretendidos filósofos, guiados somente pelos sentidos, e pela sua razão, e querendo sujeitar a ela todas as demonstrações, nos desafiam muitas vezes para esta sorte de combates; e tratam de convencer-nos de loucos, ou de fanáticos, quando acreditamos verdades, que ou a razão não compreende, ou os sentidos contradizem. É para eles uma destas verdades aquela, que fielmente acreditamos: a existência Real de Jesus Cristo no Augusto Sacramento dos nossos Altares.

(continuação, VII parte)

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº3 (I)

(anteriormente, o Vocabulário Democrático Nº2)

NOVO VOCABULÁRIO
FILOSÓFICO-DEMOCRÁTICO


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N.° 3
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Cum desolationem faciunt, Pacem appellant.
(Tacito)

*É tão fera a perfídia
De hum cruel, e vil Mação,
Que a paz nos apregoa
Quando faz a desolação. D. Tr
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Vocábulos, que mudaram de sentido, de significação, e de ideia.


FILOSOFIA – Esta antiga, grave, e majestosa Matrona tem sido despojada de seu Trono por certos sofistas ignorantes, que querem cobrir-se com a capa de Filósofos, e tem posto em seu docel um fantasma, a quem se não pode dar outro nome que o de deleitável delírio. A moderna Lógica está reduzida a saber amontoar vagos, aéreos, e falsos raciocínios sobre absurdos, e falsos fundamentos. Daqui tem emanado uma Física estrambótica e delirante, e uma Metafisica, ou Matafísica, que magistralmente conduz a razão ao precipício, e despenhadeiro. A Filosofia moderna é respectivamente à antiga, nem mais nem menos, o que são os livros cavalheirescos respectivamente à verdadeira Historia. Esta, firmando seu pé sobre sucessos [acontecimentos] contestados por todos os séculos e nações, procede com semblante varonil e majestoso a instruir os entendimentos, prescrevendo ao deleite os limites estreitos da natureza e da verdade. Pelo contrario: os Romances cheios de gigantes, ninfas, encantadores, e outras personagens absurdas, somente podem divertir, e deleitar com as suas extravagancias, e loucuras aos petimetres tafues, que nem um grão de sal tem nos miolos. A Filosofia moderna não tem querido sofrer os limites estreitos da verdade, que a impediam de deleitar com engenhosas extravagancias; mas sim, à semelhança de uma desvanecida petimétra, abandonou os princípios sólidos, e foi buscar nas suposições falsas absurdas hipóteses, e invenções gratuitas convertidas em axiomas; e aos eternos princípios substituiu os Cavaleiros andantes, os encantadores, e outros imaginários heróis, para folgar a seu belprazer em os espaçosos campos do Sonho, e do Delírio. Que proposição mais justa, e razoável, que a de quem formou o Sol, e o Cometa, e dirigiu seu curso, formou também os Planetas, e regulou seu movimento? Se o Sr. Buffon houvesse admitido este princípio indisputável, teria raciocinado como Filosofo, ainda que singelo, e chão, porem justo, e coerente. Porém se ele assim houvesse feito, como nos haviam estar a estas horas servindo para o mais ridículo uso tantos volumes de novelas, atestados de delírios maravilhosos, de épocas fictícias, e cálculos agudíssimos à cerca da lã de cabra? Para deleitar com tonteiras engenhosas, era necessário sonhar um ridículo choque entre o Sol e um Cometa, e substitui-lo ao evidente poder do Criador do Sol, e do Cometa. (O amor à verdade, e a honra deste homem, que seguramente foi doutor, nos obrigam a advertir, que antes de morrer se retratou destas extravagâncias. Sua conversão para a razão manchou muito seu nome no pensar dos Filósofos, que nunca a reconhecem, senão quando se trata de abusar dela.) Ainda mais: O diluvio universal funda-se sobre a historia, monumentos, e tradição: a razão demonstra seus efeitos incalculáveis. Porque, quem é capaz de calcular o que há podido produzir não só a detenção da agua sobre a terra, mas um primeiro ímpeto quiçá produzido por um vulcão marítimo?! Quem ajustar a subsequente quietação da agua, e por necessidade o que deveria apertar-se a terra? Quem os novos transtornos ao juntar-se as aguas impelidas pelos ventos, e as enormes massas e terríveis ruínas ao retirar-se? Quem finalmente as demoras ao unir-se a terra em sua dissecação?! A Filosofia moderna substitui à história, e à tradição universal suas gratuitas invenções, fundadas somente em sua bizarra e louca fantasia. Ela calcula os mais incalculáveis efeitos: põe, tira, e até prescreve ás aguas diluvianas que ponham a terra onde estava o mar, e o mar onde estava a terra. Em vez de argumentar da natureza do diluvio pelos seus efeitos, e pelos monumentos, que dele hão ficado, determina sua natureza ainda antes de ver estes; e se depois se acha com o gato ás barbas, de que os efeitos não se ajustam com a natureza, que ela há sonhado, rompe por entre as dificuldades sem nada lhe importar, e, ou nega a pés juntos o diluvio, ou se atira por essas tribos de Israel a imaginar mil causas, qual delas mais disparatada, para embaçar-nos com cataclismos, vulcões, aluviões, terremotos imaginários, e com quanto pode sonha a fantasia mais deslocada, sem atilho nem freio da razão. Pois se chega a ferrar-se em um pequeníssimo e casual acontecimento? Não há quem a saque dali. Uma só ilhota, que desponte em o mar por causa de algum terremoto ou explosão vulcânica, basta para formar os mais amplos delírios atlânticos, e para fazer aparecer, e desaparecer parte inteiras do globo, e que não fique pais sobre a terra, que não haja sido por estes delirantes vulcanizado, electrizado, e posto de pernas ao ar com imaginários terremotos, inundações, fogos subterrâneos, e estremecimentos, até que lhes dá na vontade de pôr tudo em quietação, e compo-lo a seu modo.

Mas delire a Filosofia quanto lhe agrade: espalhe a sua satisfação suas inépcias: divirta-se, e divirta a quantos podem divertir-se com disparates. Um Escritor de Romances (a não ser louco) não pretende que o Público tenha por verdades suas novelas extravagantes, e sucessos fabulosos; só se contenta com que admirem a fecundidade de sua fantasia, o gracioso de seu estilo, e que hajam podido girar em seu cérebro tantas extravagancias. E em quanto a mim, à fé de homem de bem, não tenho a menor dúvida em que conceder outro tanto à Filosofia. Mas o cruel dano consiste, em que não fazendo ela outra cousa senão delirar, e disparatar, e empregando o resto de seus esforços em achar contradições e absurdos nas verdades mais inconcussas, quer depois disto (com uma altivez que só é própria de doidos) que só em seus delírios absurdos se encerre a verdade!

(continuação, II parte)

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XCIX)

(continuação da XCVIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. XIII
Como a Alma Devota Deve Desejar-se Unir-se a Cristo no Sacramento

1. Alma – Quem me dera, Senhor, achar-me só Convosco, para Vos abrir todo o meu coração e gozar da Vossa divina majestade, de sorte que ninguém ponha em mim os olhos, nem se preocupe comigo, mas Vós somente me falásseis, e eu a Vós, como costuma conversar com o amigo com seu amigo! Isto peço, isto desejo: unir-me inteiramente a Vós, desprender meu coração de todas as coisas criadas e, pela sagrada comunhão, ou frequente celebração dos divinos mistérios, aprender a gostar mais das coisas divinas e eternas.
Ah! Senhor Deus, quando estarei tão unido a Vós, tão absorto, que me esqueça completamente de mim? Vós em mim e eu em Vós; concedei que assim permaneçamos eternamente.

2. Vós sois, na realidade, o amigo extremoso, escolhido entre milhares, no qual a minha alma se compraz de habitar todos os dias da sua vida.
Verdadeiramente, Vós sois o meu rei pacífico; em Vós está a paz e o repouso, não havendo fora de Vós senão trabalho, dor e infinita miséria.
Vós sois, verdadeiramente, um Deus oculto e não tendes comunicação com os ímpios, mas sim com os simples e humildes. Como é grande, Senhor, a Vossa bondade, que, para mostrar seu afecto por Vossos filhos, se digna nutri-los com um pão suavíssimo, que desce do Céu! Na verdade, nenhuma nação existiu que tivesse deuses tão próximos dela, como nós, que Vos temos, chegado a todos os Vossos fiéis, aos quais todos os dias Vos dais, como alimento, e confortais com a Vossa presença constante, a fim de que, contentes, elevem as mãos para os Céus.

3. Que povo haverá mais nobre do que o povo cristão? Que criatura existe debaixo do Céu, tão amada, como a alma fiel, a quem Deus se comunica para nutri-la da sua gloriosa carne? Ó graças inefável! Ó admirável bondade! Ó amor infinito, singularmente reservado para o homem! E que darei eu ao Senhor por esta graça, por esta imensa caridade? Não posso oferecer coisa mais grata do que o meu coração inteiro, para que seja unido com ele intimamente. Exultarei de alegria, quando a minha alma estiver perfeitamente unida a Deus. E dir-me-á Ele: "Se queres ficar comigo, também ficarei contigo." E responderei eu: "Dignais-Vos, Senhor, permanecer comigo, pois ardentemente desejo ficar Convosco; outro desejo não tenho, senão unir meu coração ao Vosso."

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