27/08/15

O CATÓLICO REGE-SE PELOS PRINCÍPIOS, E NÃO PELOS EFEITOS

Retiro de uma banda-desenhada a D. João I esta que vos mostro, porque são ricos e reveladores os diálogo que ela contem (e quero dar especial realce a um, porque de todos é o que contem o pensamento católico mais necessário para os nossos dias).

"O Reino é pequeno e a nossa riqueza foi gasta em guerras passadas. É loucura conservar a cidade entalada entre outros baluartes de infiéis. Abandonemos a praça aos mouros que não se pode suportar tamanha despesa!" [Enfim...]

" O quê? Eles antepõem as coisas proveitosas às honrosas! Senhor, se quereis largar a cidade, sois corsário e não Rei!"

imag. do blog Acção Integral
"Não tenhais receio, Senhor, que não vos minguará dinheiro para avançar no empreendimento que ora tendes encetado com tanta honra!"

"Senhor, se quereis conquistas, voltai-vos para granada!"

DOM FR. ALEIXO DE MENESES - Anotações


D. Fr. Aleixo de Meneses (Lisboa, 1559 - Madrid, 1617), Frade da Ordem de S. Agostinho, foi Arcebispo de Goa (Primaz das Índias Orientais), Governador da Índia, Arcebispo de Braga (Primaz das Espanhas), e Governador de Portugal.

"... D. Frei Aleixo de Meneses, entretanto, seguiu a rota tradicional dos navegantes portugueses, pelo eixo do Atlântico e do Índico ocidental. Partiu em 13 de Abril de 1595. Como era comum, o novo metropolita atravessou um longo percurso marítimo, pontuado por doenças a bordo,[...]"

A trajectória (...) no Estado da Índia ocasionou a solidificação do projecto, germinado no reinado de D. Sebastião, de construção da missionação agostinha, quando Agostinho de Jesus foi Geral da Província de Portugal. [...]

D. Fr. Aleixo de Meneses, nome secular de Pedro de Meneses, pertencera igualmente a Casa de primeira nobreza do Reino. D. Aleixo de Meneses († c. 1569), seu pai, era o terceiro filho do segundo casamento de Pedro de Meneses, 1º Conde de Castanhede, com D. Beatriz de Soares, viúva do marechal d. Álvaro Coutinho. D. Aleixo foi morRdomo-mor da ainha D. Catarina, entre 1554 e 1559, e Aio de D. Sebastião em 1559. Porém, antes da fixação em ofícios cortesãos no Reino, fez carreira no norte da África e na Índia, o que favoreceu uma combinação de fama e notoriedade nos espaços reais de d. João III.

O amplo verbete sobre D. Aleixo de Meneses na Biblioteca lusitana, de Diogo Barbosa Machado, é eivado de elogios: "foi valoroso capitão, prudente embaixador, consumado político, e em tão diversos ministérios preferiu a honra ao interesse, a benevolência à severidade, e a verdade à lisonja".53 [...]


Por sua vez, a mãe de d. frei Aleixo de Meneses, D. Luiza de Noronha, era filha de D. Álvaro de Noronha, que fora Capitão de Azamor. Filho do segundo casamento de D. Aleixo de Meneses,55 Pedro de Meneses nasceu em 25 de Janeiro de 1559, na cidade de Lisboa.56 Professou no Convento da Graça na capital do Reino e recebeu-o D. Fr. Agostinho de Jesus, em 27 de fevereiro de 1575. Na nova identidade religiosa, mudou o nome para Aleixo de Jesus (...). Passou pela Universidade de Coimbra, entre 1582 e 1586, (...) primeiro por estudante corista e depois já na posição de Sacerdote. Contudo, não chegou a finalizar os estudos académicos.57 Na Província de Portugal dos agostinhos, foi eleito Prior dos Conventos de Torres Vedras, em 1588, de Santarém, em 1590, e de Lisboa, em 1592.

(...) foi elevado ao lugar de Pregador Real de Filipe II, distinção que supriu a ausência da formação formal em Teologia [falso], como [não] destacado nas provas reunidas ao processo consistorial de sua nomeação em Roma: "e embora não tenha nenhuma graduação em Direito Canónico, é insigne em Teologia Sagrada, é um grande teólogo e aplicou-se em letras sacras na Universidade de Coimbra, além de ser insigne pregador. Foi eleito e elevado entre os oradores, pelo Rei".58


Antes da partida para Goa, foi expedido um breve pela chancelaria papalina de Clemente VIII, que concedeu faculdades ministeriais a Fr. Aleixo de Meneses de absolver os religiosos agostinianos da Índia de qualquer pena de excomunhão, se porventura os Dominicanos declarassem algum decreto contra eles.59 Os frades da ordem dos pregadores de Portugal usufruíam, em solenidades públicas e procissões de uma antiga posse de precedência aos eremitas de Santo Agostinho, aos religiosos de Nossa Senhora do Monte do Carmo e da Santíssima Trindade, na capela do Sumo Pontífice, em Roma, e nos limites da cristandade.60 Ademais, entre os termos de praxe do juramento de fidelidade prestado quando da consagração episcopal, Aleixo de Meneses comprometeu-se a perseguir e impugnar hereges, cismáticos e rebeldes. A construção da monarquia católica universal, projecto acalentado por Roma, encontrou no Arcebispo goês um bastião, que aliou à política religiosa um "gosto" pela "conversão do infiel". A experiência do Estado da Índia projectara um universo de "ovelhas de várias cores" que o agostinho, um pastor de almas, comprometera-se a conduzir à obediência ao Papa na Ecclesia romana. Entretanto, não obteve legado apostólico ou a condição de Núncio, apesar de pedidos do Rei católico. Por fim, pelo Breve In specula summi apostolatus, de 22 de fevereiro de 1607,61 o Papa Paulo V, embora não concedesse legado de representação papal, permitiu faculdades diversas, entre as quais as de autorizar a dispensa nos graus proibidos para contrair matrimonio, com a justificativa da distância e da vastidão das regiões atendidas na Índia Oriental. Um segundo Breve, no mês seguinte, em 6 de março,62 acatou a realização do Sínodo Provincial a cada dez anos e não na prática instituída que seguia o intervalo de cinco anos, o que contemplou uma das súplicas do Arcebispo de Goa, que se justificava por causa da distância dos sufragâneos, dificuldades de navegação, ou pelos incómodos que sofriam aquelas "tenras ovelhas por causa de tão contínuas e longas ausências de seus pastores".63 

Fr. Aleixo é Sagrado Arcebispo de Goa
Apesar dos percalços com Roma - em época que sinalizava mudanças quanto à política missionária de Roma e o embate com o Padroado ibérico −, D. Fr. Aleixo de Meneses construiu uma trajectória única e fulgurante na carreira eclesiástica e administrativa no âmbito (...) dos Áustria: Arcebispo de Goa (1595-1610), a partir de 1606, (acrescenta-se) o título de Primaz do Oriente, acumulou a função de Governador do Estado da Índia;64 no retorno ao Reino, exerceu a mitra no Arcebispado de Braga (1612) em substituição ao pai espiritual D. Fr. Agostinho de Jesus e, nos últimos anos de vida, foi Vice-Rei de Portugal e Presidente do Conselho de Portugal.

Fr. Aleixo é Sagrado Arcebispo de Goa (pormenor)
Os vínculos entre as famílias de D. Fr. Agostinho de Jesus e de D. Fr. Aleixo de Meneses com o Estado da Índia são conhecidos (...). Uma breve exploração genealógica indica conexões de linhagem que explicam, em notas biográficas, a alusão de um vínculo familiar, através do emprego do termo "sobrinho" atribuído a Aleixo de Meneses com relação a Agostinho de Jesus. Embora não se confirme o parentesco em linha directa, os ramos maternos dos insignes metropolitas, por exemplo, remetem a um núcleo comum Noronha, de D. Afonso (1350-1395), Conde de Gijón, e Noronha, filho bastardo do Rei de Castela, D. Henrique, e de D. Isabel de Portugal (1364-1435), filha natural de D. Fernando I.

Fr. Aleixo é Sagrado Arcebispo de Goa (pormenor)
Dois agostinhos ocuparam simultaneamente Arcebispados centrais durante a monarquia dos Áustria. Uma combinação de acaso e virtude que consolidou o enraizamento da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho no Estado da Índia. O longo período de duração do arcebispado de Aleixo de Meneses acentuou a expansão e o fortalecimento dos agostinhos nos espaços do subcontinente indiano, na região denominada de províncias do norte, no Gujarate e Bengala, assim como na Pérsia, em áreas de presença de comunidades portuguesas fora da colonização formal do Estado da Índia. Durante o período de seu arcebispado, os agostinhos do Estado da Índia conduziram um movimento para o interior, deslocando-se das partes litorais. Tal configuração sinaliza o desenho da geografia religiosa anunciada por Trento, com ênfase na ampliação da malha diocesana nos territórios submetidos às jurisdições das monarquias ibéricas, e o deslocamento do clero regular para as missões de alargamento das fronteiras da cristandade.

Fr. Aleixo é Sagrado Arcebispo de Goa (pormenor)
No diapasão trentino, o célere metropolita conduziu visitas pastorais; promoveu o Sínodo de Diamper (1599) de romanização dos cristãos sírios de São Tomé do Kérala, na costa do Malabar; realizou o 5º Concílio Provincial de Goa em 1606 (...).

Fr. Aleixo é Sagrado Arcebispo de Goa (pormenor)
No período em que permaneceu na mitra goesa, Aleixo de Meneses deu cumprimento às orientações do Concílio de Trento de disciplinamento das ordens regulares e de expansão da rede diocesana.67 [...]

Fr. Aleixo é Sagrado Arcebispo de Goa (pormenor)
Entretanto, a morte por enfermidade de D. Martim Afonso de Castro, em seguida ao confronto com a armada holandesa, elevou à cabeça do Estado da Índia, com o título de Governador, D. Fr. Aleixo de Meneses. Primeiro Arcebispo de Goa até então a ocupar o governo do Estado da Índia, permaneceu no cargo por dois anos e meio. No exercício do mando temporal, acumulou experiência de governo, em período de crescente desestabilização das possessões portuguesas no Oriente com as singraduras de embarcações das companhias das Índias Orientais inglesa e holandesa, fundadas em 1600 e 1602 respectivamente. A prática de governança, unindo o trato dos dois poderes, seria reconhecida por Filipe III em futuro próximo, na nomeação a postos cimeiros da burocracia do Reino: Vice-Rei (6/7/1614 a 11/7/1615) e primeiro Presidente do Conselho de Portugal (1615-1617).74 Sem avançar no aprofundamento da trajectória político-administrativa de Aleixo de Meneses, cabe atentar para a relevância de um estudo da dimensão política e religiosa de sua actuação que escape ao relato edificante.

Fr. Aleixo é Sagrado Arcebispo de Goa (pormenor)
[...]

A abertura de um convento na capital da Pérsia, em Ispahan, envolveu a actuação dos agostinhos em um contexto político internacional que combinava [intervenientes] diversos − persas, turcos e europeus (representados no papado, monarquia Habsburgo e nas novas companhias orientais de comércio inglesa e holandesa). A região foi central na condução da política da Igreja, presente no intento explicitado em cartas por Aleixo de Meneses, de conquista das "almas perdidas" da Igreja da Arménia − cristianizadas, segundo a tradição registrara, pelo Apóstolo são Judas Tadeu −, e dos cristãos evangelizados pelo Apóstolo "São João", na região de Baçorá ocupada pelos otomanos. A actuação do metropolita na Pérsia de xá Abbas I colocava em acção o empreendimento de universalização da cristandade pela [conversão] dos cristãos cismáticos, entendidos por perdidos nos "erros nestorianos" das igrejas do Oriente. Um modelo da cristandade já perseguido por Aleixo de Meneses na realização do Sínodo de Diamper entre os cristãos do Kerala. O avanço dos agostinhos, iniciado no início do século XVII durante o arcebispado de Aleixo de Meneses, pelos espaços do golfo Pérsico, Arménia e Geórgia, nos diversos contextos de guerras na região, culminaria na abertura de conventos na década de 1620 (Baçorá e Xiraz, em 1624; na cidade de Gori, no Gorgistão, em 1624). Acrescente-se ao peso das guerras a crescente disputa entre as missões do Padroado de Portugal e os religiosos enviados pela Propaganda Fide.

Fr. Aleixo é Sagrado Arcebispo de Goa (pormenor)
Não obstante, pouco mais de um ano após a carta acima indicada, Aleixo de Meneses, no seu empenho pela introdução do Rito Latino à Igreja arménia, em nova epístola ao Arcebispo de Braga, em 2 de fevereiro de 1604, manifestava o desejo de pessoalmente empreender a redução dos "cismáticos" à autoridade de Roma: "ir-lhes eu fazer um synodo, como foi na Serra - com maior fundamento e clareza da confutação de seus erros, para isto ficar fixo".77 Nessa ocasião, em seu lugar, foi mandado pela segunda vez à Pérsia o agostinho Fr. António de Gouveia. Saliente-se, no contexto das guerras perso-turcas, a migração em massa de arménios para a Pérsia promovida por xá Abbas I. Uma área vizinha a Ispahan abrigara os contingentes de arménios, a Nova Julfá.

O estudo de John Flannery sobre a actuação dos agostinhos na Pérsia aponta as dificuldades e os percalços no plano diplomático da mediação entre Roma, Filipe III e xá Abbas I, como também o contexto da fixação da actuação missionária na região.78 Nesse panorama, localiza-se o malogro de romanização da Igreja arménia. Não obstante, a cronística agostinha retém a fabricação de uma memória edificante do ato de submissão do Patriarca arménio David IV (1587-1627) ao papa Paulo V em maio de 1607. A participação de ordens religiosas nas relações diplomáticas, como nesse exemplo dos agostinhos na Pérsia de xá Abbas I, encontra ainda, na experiência das embaixadas conduzidas pelos jesuítas na corte mogol de Akbar, indicadores de acções controversas, em que o proselitismo e a compulsão religiosa certamente assombreavam a dimensão cultural de compreensão da alteridade. Cabe assinalar, em ambos os casos, a valorização das disputas teológicas entre vertentes abraamicas no ambiente das côrtes persa e mogol, enredando-se as querelas políticas e as rivalidades comerciais entre impérios. (...) No nosso exemplo, a ilusão dos agostinhos na conversão do rei da Pérsia, xá Abbas I.

(...) Acrescente-se ademais a frustrada tentativa agostinha de evangelização da ilha de Socotorá mais um dos pontos vinculados ao (...) Apóstolo são Tomé. (...)" (Margareth Gonaçalves)

 D. Fr. Aleixo de Meneses foi o 7º Arcebispo de Goa Damão.

26/08/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XCVIII)

(continuação da XCVII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. XII
Quem Houver de Comungar o Corpo de Jesus Cristo, Deve Preparar-se com Grande Diligência

1. Cristo – Eu sou amigo da pureza, e a origem de toda a santidade. Busco o coração puro e ali é o lugar do meu descanso.
Preparar-me uma sala grande e adornada e celebrarei em tua casa a Páscoa com os meus discípulos.
Se queres que venha a ti e fique contigo, lança fora o velho fermento e limpa a morada do teu coração.
Desterra de tudo o que é do século e o tumulto dos vícios. Assenta-te como o pássaro solitário no telhado e recorda as desordens da tua vida na amargura do teu coração.
O amigo prepara sempre para o amigo o melhor aposento, e assim é que dá a conhecer com que afecto o recebe.

2. Sabe, porém, que não podes, por mais esforços que faças, preparar-te dignamente, ainda que para isso empregasses um ano inteiro sem te ocupar de outras coisas.
No entanto, por minha graça e minha bondade, é-te permitido sentar à minha mesa, como se um rico convidasse e fizesse comer com ele a um pobre mendigo que não tivesse outra coisa a pagar senão humildade e agradecimento.
Faz o que está da tua parte e fá-lo com muita diligência. Recebe, não por preencher um costume, ou cumprir um dever rigoroso, mas com reverência, temor e amor, o corpo do teu amado Deus e Senhor, que se digna vir a ti. Eu sou quem te chama à minha mesa, quem te manda que venhas. Vem e recebe-me; eu suprirei o que te falta.

3. Quando eu te inspiro movimentos de devoção, dá graças a Deus, não porque sejas digno desse dom, mas porque tive misericórdia de ti.
Se não sentires devoção e te achares apático, preserva na oração, suplica, clama e não descanses, até que me mereças receber uma migalha da minha mesa, ou uma gota de águas saudáveis da graça.
Tu precisas de mim e eu não preciso de ti. Não és tu que vens santificar-me, a mim; sou eu que venha a ti fazer-te melhor e santificar-te.
Tu vens para que eu te santifique, para te unires a mim, para receberes uma graça nova e te abrasares no ardente desejo de adiantar na virtude. Não desprezes, pois, esta graça, mas prepara com toda a diligência o teu coração e recebe em teu seio aquele a quem amas.

4. Mas não basta apenas excitar a devoção antes de comungar; deves cuidado de a conservar, depois da comunhão. Nem é menos necessário, depois, o recolhimento e a vigilância, como o é, antes, a devota preparação; porque o cuidado que depois se tem é a melhor disposição para receber novamente maior graça. ao contrário, indispõe-se para ela o que logo se entrega com excesso às seduções do mundo exterior.
Guarda-te de falar muito, recolhe-te a algum lugar retirado e goza a companhia do teu Deus.
Tu possuis Aquele que o mundo inteiro não pode roubar-te. Sou eu a quem te deves entregar sem reservas, de sorte que, desembaraçado de todos os cuidados, não vivas mais em ti, mas em mim.

25/08/15

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº2 (VII)

(continuação da VI parte)

Dizei-me por último, e não vos importuno mais: um armistício entre duas potências beligerantes deixou jamais de ter o fim de se armarem com mais força, e deixou jamais de terminar por uma guerra encarniçada, em que uma delas fica superior, e outra arruinada??.. Pois eis aqui o fiel retrato das vossas Cartas Divinais: é um perfeito armistício entre o Soberano Legítimo, e o Povo Soberano: neste tempo só se trata de dar armas ao Povo Soberano, e para isso é que servem as Lojas Maçónicas; e quando este segundo Soberano estiver com forças para começara a lutar, tira-se-lhe o obstáculo intermédio, que é a Câmara dos Pares, e começa a guerra contra o Legítimo Soberano, o qual atraiçoado, ou iludido terá que ceder indispensalmente ao seu rival, o Soberano Povo, que lhe dará a corte, que deu a Luís XVI!!

Talvez aos nossos leitores pareçam exageradas estas consequências; mas para se desenganarem lancem uma vista de olhos pela Europa no momento actual, e vejam onde tem rebentado a Revolução!! Não tinha a França uma Representação Nacional, uma Carta, e duas Câmaras?! Mas foi bastante que o Rei quisesse conter a desenfreada liberdade da imprensa para se fazer uma Revolução! e uma Revolução, que depois de ter devorado milhares de vítimas, ameaça envolver no seu vórtice a Europa inteira!! Então onde está esse preservativo das Revoluções democráticas?! Então porque não susteve a Câmara Alta as erupções populares, para que não chegassem ao Trono?! Não é ela o antemural da Realeza?! Tudo isto assim se diz; mas na prática o que se vê é, que onde há Cartas Constitucionais, há mais facilidade, e mais destreza em se fazer a Revolução: os actores desta comédia estão a postos, corre-se o pano, aparece a cena: em duas palhetadas tiram-se Rels, põe-se Cidadãos Reis, proscreve-se uma Religião, que data com a Monarquia, desriscam-se os nomes de Pares, nomeiam-se outros, que são partidários, destrói-se a Dignidade Hereditária de Par, e em poucos meses se destrói o que fôra obra de séculos!!

Não tinha a Bélgica sua Carta, sua Representação, e seus Deputados?! Em que alterou o Rei dos Países Baixos a Constituição?! Não tinha a Polónia a sua Carta, e uma Representação Nacional tão honrosa, que merecia que o mesmo Autocrata de todas as Rússias viesse muitas vezes presidir às suas deliberações?! E em que faltou este Monarca aos ajustes, e convénios de seu Magnânimo Irmão, o Grande Alexandre?!!... Em anda alteraram estes Soberanos a forma de governo estabelecida. Mas como estas Cartas não eram senão umas tréguas entre o Povo, e os Soberanos, logo que o Grande Oriente de Paris deu o sinal para a batalha, começou-se a peleja, e a guerra democrática aparece em todo o seu furor!!...

Não tem a velha Inglaterra a sua antiquíssima Magna Carta, e não deveria por isso mesmo estar isenta dos males, que os outros Impérios sofrem?! Mas ai mesmo se nota uma guerra intestina, uma exaltação de partidos, uma pertinácia radical, que espanta, e que deverá tarde ou cedo trazer a decadência, e a ruína daquele Colosso Marítimo!! E se não vemos ali o mesmo que na França, Bélgica, e Polónia, é porque a Carta não é feita no século das luzes, é feita quando ainda haviam honra, e Religião, é porque as eleições não são simplesmente populares, e feitas na razão do grande número, mas sim pelos Privilégios Municipais, em que os Nobres têm a maior influência: cedam estes, e deixem os Lords passar o Bill da reforma, que não consiste senão nisto, e verão em quanto lhe sucede o mesmo, que aos outros países, onde existe a Carta Constitucional à moderna. É necessário fazer uma distinção verdadeira entre o Governo Representativo Inglês, e o Governo Representativo da França, e mais outros à moderna; nestes a Câmara, que tem mais influência no Governo, e que é perfeitamente deliberante, é a Câmara Baixa, porque a dos Pares é nula, e sempre arriscada a ser destruída; naquele, a Câmara insolente, e deliberantes é a dos Lords, porque a dos Comuns é inteiramente subordinada, e dependente, e pode-se quase chamar nula; porque a maioria é sempre movida pelos Lordes: esta é a razão única por que a Magna Carta tem durado tanto, quando as outras Cartas estão sempre em desordem; mas se passa o Bill da reforma veremos incendiado na guerra civil aquele país, que parece ser o Mestre da política governativa.

Vejam-se ao contrário os países, que chamam despóticos, e absolutistas, contra quem tanto gritam os Filósofos moderadores, e que dizem estar sempre arriscados a revoluções, como se tornam sobranceiros à mania revolucionária!.. Veja-se a Rússia, a Prússia, e a Alemanha, como se apresentam impávidas borbulhando em armas, que todas se apontam para a Revolução de Julho! Admire-se a Holanda, que tendo pouco mais de dois milhões de almas, subjuga em menos de quinze dias quatro milhões, que tem a Bélgica; e de todo os desbarataria se a França não mandasse cinquenta mil homens, etc. mas o Príncipe de Orage despediu-se até à volta: e talvez não tarde...

Apareceu, é verdade, a Revolução nos Estados Pontifícios, e na Baixa Itália; mas foi sol de pouca dura; porque as Águias Austríacas fizeram debandar aquele bando de estorninhos. Assomou-se, é verdade, às fronteiras de Espanha, desse Reino, a quem os Liberais descrevem com cores mais escuras, e medonhas do que o Império de Nero, ou Calígula; mas como lá não havia Carta Divinal, nem lá governam os Moderadores hipócritas, afogou-se à nascença: e os planos Minescos tão cheios de alabancias fugiram atropelandamente, quando viram una foerca trabalhando provisoriamente, e quando ouviram os canhonaços, que al infierno mandavam seus autores. (Bem hajas Fernando VII).

Contra Portugal luta há mais de três anos esta hidra medonha, mas que partido tem tirado?!... É para nós admirável que esta luta tenha durado tanto, quanto por via de regra há muito deveria ter acabado. Qual será a razão? Será porque os Liberais Portugueses são mais valentes, e mais espertos?! Não sem dúvida: ao contrário são os mais fracos, e mais tolos do mundo. Será porque os Realistas de Portugal são fracos, e ignorantes?.. Nós os sabemos, e a causa desta prolongada campanha nos é tão clara como a luz do meio dia. Não podemos por outra manifestá-la, porque não convém fazer público o segredo de quem governa "Sacramentum Regis abscondere gonum est".

Desenganem-se portanto os Povos que não há outro governo, em que estejam mais isentos das Revoluções, do que no Governo Paternal de seus Reis: o contraste, que oferece a Europa é visível, e palpável: convençam-se os Nobres que os Governos Representativos é uma cilada, que lhes armam os Democratas seus inimigos jurados, para melhor os atraiçoarem: conheçam por uma vez os Soberanos que dar uma Carta é o mesmo que meter em casa um criado ladrão, e falsário, o qual logo que toma posse da casa abre com toda a facilidade a porta aos seus companheiros, para o roubarem a seu salvo: o mesmo acontece a respeito dos Revolucionários num Governo Carteiro. Desenganem-se finalmente os mesmos Moderadores, e partidários deste Governo, que se é indispensável que a Carta é uma estado de tréguas entre os dois partidos; e se é igualmente indubitável que o grande Oriente Parisiense rompeu, e mandou romper a guerra, já não há meio, há-de correr-se a sorte das armas; e se quem tem mais força é quem vence, fácil é prever que as Águias do Norte, e os Leões da Península hão-de esmagar o Colosso revolucionário, que apesar de ter cabeça de ouro, braços de prata, e peito de bronze, tem contudo os pés de barro: e então, adeus Carta, adeus Divinal, lá vai a obra mais perfeita, que produziu o século das luzes.

Para concluirmos esta Nota, que antes parece uma dissertação, juntaremos aqui uma valente Ironia do nosso Macedo, talvez a melhor de tantas, em que abundam os seus escritos, e que ainda não apareceu em público, porque a possuímos numa Carta particular, que ele mesmo nos dirigiu quando o consultámos sobre certos livros no ano 1826. Diz assim "o Livro dos livros, o Codex por excelência é a nossa Divinal Constituição; fonte próxima, ou vertente de toda a felicidade, manancial de todas as luzes, ilustração do Mundo, desvelo dos sábios, parto único da humana sapiência, raio brilhante, e quase emanado da luz celeste; e como Horácio com os exemplares Gregos, a volvo, e revolvo com mão divina, e nocturna: com ea me amanhece, com ela me anoitece, nela medito, nela aprendo, e digo com o mencionado Horácio "Totus in hoc sim". Todo eu estou nela, e ela em mim; com ela vejo, como me ensinam os papeis públicos, abertos os canais, e abertos para a Agricultura, e para o Comércio, que são os nossos verdadeiros nervos, e do Estado, ela nos tirou do abismo, como dizem os mesmos papeis, e pôs esta mesquinha Hora dos Portugueses na linha, e na lista das Nações; só me escandaliza dizerem os sobreditos papeis que sou da quarta ordem, como na Constituição passada, e demagógica dizia o sábio Couto do Juiz do Povo, e seu Escrivão, chamando-lhe Magistrado da quarta ordem." Se a força da Ironia é mostrar o contrário do que se diz, vejam os Senhores Carteiros que conceito nos merece a sua Divinal!!) D. Tr.

ETERNIDADE - Quer dizer: coisa de um ano até dois, quando a eternidade é uma eternidade desesperada. Pode ter-se por milagre quando algum regulamento democrático chega a esta eternidade.

INDIVISÍVEL - Até agora significava o que não se pode dividir; porém em língua moderna significa o que se pode, e deve dividir. Por isso não é para admirar que as indivisíveis Cispadana, e Traspadana se dividissem in infinitum, e deixassem sua indivisibilidade a sua filha Cisalpina.

(* O que o Autor diz a respeito das Constituições da Itália, em referência ao Piemonte, é  que nós podemos dizer da nossa Olisiponense relativamente à Gaditana, de quem era filha.) D. Tr.

(Fim do Nº2)
(o nº3, aqui

24/08/15

1892 - DIÁRIO DE NOTÍCIAS e etc...


O Diário de Notícias sempre o mesmo!...
"A hostilidade contra os talmúdicos filhos de Israel, reis da finança, inimigos figadais dos cristãos, segundo os ensinamentos do Talmud, e fautores principais da maçonaria e do socialismo, manifesta-se por toda a parte. No entanto alguns membros da sociedade dos três pontinhos correm em seu socorro, chamando-lhes "cavalheiros muito respeitáveis e homens de caracter quando tudo está pervertido em volta deles",,, ("força de caracter digno de elogio, verdadeiramente fenomenal, e que contraste com a dobrez de caracter da actualidade" - Diário de Notícias de 30 de Junho [1892]). (Novo Mensageiro do Coração de Jesus nº139, ano 1892)

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XCVII)

(continuação da XCVI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. XI
O Corpo de Jesus Cristo e a Sagrada Escritura São de Grande Necessidade à Alma Fiel

1. Alma – Ó Jesus, dulcíssimo Senhor, que delícias inundam a alma fiel admitida ao Vosso banquete, onde Vós, mesmo sois o alimento e o mais caro objecto de seus desejos! Quão suave seria para mim derramar na Vossa presença copiosas lágrimas de amor e com elas regar os Vossos divinos pés, como fez Madalena! Mas onde se achará esta devoção tão viva, esta efusão tão copiosa de lágrimas santas?
Na verdade, o meu coração deveria arder e desfazer-se em lágrimas diante de Vós e dos Vossos anjos, pois que no Vosso sacramento Vos tenho verdadeiramente presente, posto que oculto debaixo das sagradas espécies.

2. Meus olhos não poderiam suportar-Vos se me aparecêsseis na divina luz que Vos é própria; e todo o mundo junto não poderia subsistir na presença da Vossa gloriosa majestade.
É por uma graça, concedida à minha fraqueza, que Vos escondeis neste sacramento.
Eu possuo e adoro verdadeiramente na Terra Aquele que os anjos adoram no Céu; mas eu O possuo, por obra, debaixo de véus, ao passo que eles O possuem vendo-O claramente. Contudo, devo contentar-me com o lume da verdadeira fé e caminhar com Ele até que amanheça o dia da claridade eterna e se dissipem as sombras das figuras.
Quando chegar esse perfeito estado, cessará o uso deste sacramento, porque os bem-aventurados, na glória celestial, não necessitam desta medicina sacramental. Eles gozam sem fim da presença de Deus, contemplando, face a face, a Sua glória; penetrados da Sua luz e como que abismados em Sua divindade, gozam do verbo de Deus encarnado, como foi no princípio e será eternamente.

3. Ao lembrar-me destas maravilhas, até mesmo as consolações espirituais me causam fastio, porque, enquanto não vejo o meu Deus e Senhor no resplendor de Sua glória, me nada estimo tudo o que neste mundo vejo e ouço.
Vós, meu Deus, sois testemunho de que nada me consola e de que não acho descanso na criatura, mas somente em Vós, a quem desejo contemplar eternamente. Isto, porém, não me é possível, enquanto me durar esta vida mortal. Por isso, devo ter muita paciência e sujeitar-me a Vós em todos os meus desejos. Porque, também, Senhor, os Vossos santos, que exultam agora, Convosco no reino dos Céus, quando viviam neste mundo esperavam, com grande fé e paciência, a vinda da Vossa glória.
Eu creio o que eles creram; espero o que eles esperam; e confio que pelo Vossa graça chegarei algum dia aonde eles chegaram. Entretanto, caminharei com fé, confortado com os seus exemplos.
Os livros sagrados serão minha consolação e o espelho da minha vida; o Vosso corpo santíssimo será o meu refúgio e o meu soberano remédio.

4. Conheço que duas coisas me são necessárias, sem as quais esta miserável vida me seria insuportável. Preso no cárcere deste corpo, confesso que necessito de duas coisas: alimento e luz. Vós destes a mim, enfermo, a Vossa sagrada carne para ser o sustento da minha alma e do meu corpo; e destes-me a Vossa divina palavra para me servir de luz a guiar os meus passos.
Sem estas duas coisas não poderia eu viver; porque a palavra de Deus é a luz da alma e o Vosso sacramento o pão da vida. Também as podemos considerar como duas mesas, colocadas de um e outro lado no tesouro da Santa Igreja. Uma é a mesa do altar sagrado, onde se encontra o pão do Céu, isto é, o precioso corpo de Cristo. A outra é a mesa da lei divina, que encerra a doutrina sagrada, ensina a verdadeira fé, levanta o véu do santuário e nos leva, com segurança, ao Santo dos santos.

5. Graças Vos dou, Senhor Jesus, resplendor da luz eterna, por nos terdes favorecido, pelo ministério dos profetas, dos apóstolos e dos doutores, com a mesa da santa doutrina. Graças Vos dou, ó Redentor dos homens, porque, para manifestar ao mundo a Vossa caridade, preparastes um grande banquete, no qual nos ofereceis, como alimento, não o cordeiro, que Vos figurava, mas o Vosso corpo e o Vosso sangue.
Neste banquete, do qual participam os anjos, mas de cuja suavidade gozam mais vivamente, alegrais a todos os fiéis e os inebriais, dando-lhes a beber do cálice da salvação, que contém todas as delícias do Paraíso.

6. Oh! Quão grande e honroso é o mistério dos sacerdotes, aos quais é concedido consagrar com palavras santas o Deus da suprema Majestade, bendizê-Lo com os seus lábios, tê-Lo em suas mãos, recebê-Lo, em sue peito e distribui-LO, a todos os fiéis! E quão limpas devem estar as mãos do sacerdote, quão pura a sua boca e como deve ser casto e santo o seu coração, para receber tantas vezes em sua alma o Autor da pureza!
Da boca do sacerdote não deve sair palavra que não seja santa, honesta e útil, pois tão frequentemente participa do sacramento de Cristo.

7. Sejam, pois, simples e castos os olhos que contemplam habitualmente o Corpo de Cristo. Sejam puras e levantadas aos Céus as mãos que tantas vezes tocam Aquele que criou os Céus e a Terra. Aos sacerdotes é que se dirigem particularmente estas palavras da Lei: "Sede santos, porque eu, Vosso Deus e Senhor, sou santo."

8. Ó Deus todo poderoso! Ajude-nos a Vossa graça, aos que somos revestidos do sacerdócio, para que Vos possamos servir digna e devotamente, com exemplar, piedade e consciência pura.
E já que não podemos viver com tanta inocência como devemos, concedei-nos, ao menos, a graça de chorar sinceramente as nossas faltas e formar, em espírito de humildade, o firme propósito de Vos bem servir, daqui por diante, com mais fervor e devoção.

VOCABULÁRIO DEMOCRÁTICO Nº2 (VI)

(Continuação da V parte)

Mas os Grão-mestres, e grandes Dignitários, que desde muitos tempos assistem aos Conselhos dos Soberanos, e que por detrás da cortina, e em nome dos mesmos Monarcas têm destruído os diques, que continham a libertinagem, mais manhosos que uma zorra, buscaram outro caminho para chegarem aos seus fins, e descobriram outras côrtes para formarem o novo quadro Constitucional, sendo ele o mesmíssimo na sua essência, já rejeitada pelo Universo, e maculada com o saque de seus mesmos apaixonados: disseram no seu tenebroso conselho: "Não busquemos a Constituição pela revolução dos Povos; porque eles já nos conhecem, estão escarmentados com as nossas promessas, e quando menos o pensamos dão-nos com os pratos pela cara, e atiram com a nossa obra, que nos tem custado tantas vigílias, pelos ares, ou ao meio do chão, ficando talvez muitos de nós incolvidos em suas ruínas; não será assim daqui para diante: a Revolução deve começar de cima para baixo, e para isto diremos aos Reis, que os Povos não estão contentes, que estão inquietos, que querem Representantes, que advoguem a sua Causa perante as leis, será fácil convidar Juristas e Publicistas, que escrevam neste sentido, e que mostrem como Filangieri o Governo Representativo misto como o Paraíso em Política, e se isto não basta, e se isto não bastar, finjam-se conspirações, e revoltas, umas feitas pelo Povo contra a Tropa por ser opressora, outras pela Tropa, porque está disposta a pugnar pela liberdade; atormente-se o espírito do Rei até o convencermos da necessidade de Reformas na Administração Política, e será muito fácil achar um Governo, ou Gabinete Estrangeiro, que apoie as nossas Propostas, e que inste com o Soberano para que acuda, e concorde, a fim de que não hajam Revoluções Populares, e distúrbios, os quais são mui prejudiciais ao seu Comércio, etc. etc.; e logo que o Rei estiver disposto, e tiver caído no laço, diremos aos Nobres, que a Constituição Democrática, ou feita pelo Povo é inteiramente oposta aos seus interesses, e representação, que tende a confundir as raças, e a roubar-lhes os bens; mas que se houver um Governo, em que eles Nobres sejam não só ouvidos, e consultados, mas até deliberantes, de cuja vontade penda a maior parte do regímen político, e que reunidos em Supremo Congresso decidam as grandes questões de Estado, como os antigos Senadores, e a Ordem Equestre em Roma: esta forma de Governo tão longe está de degradar a sua grandeza, que ao contrário a eleva e exalta, porque com um Rei Absoluto não passam de criados, e o mais a que chegam é a Conselheiros de Estado, mas isso é uma cerimónia, e apenas são chamados para casos extraordinários; que, ainda que sejam muito sábios, e eloquentes, nunca têm ocasião de o mostrar em público, o que não acontece no Governo Representativo; porque ali ostentam uma dignidade quase, senão maior, que Real; o Rei apenas confirma o que eles sancionam: ali têm ocasião de mostrar o seu saber, e até advogar os seus direitos, etc. etc. . Por este modo fascinados os Nobres, o que é facílimo, porque uma grande porção deles é pouco instruída, e contentam-se em contar tantos Avós, que fizeram o que eles não são capazes de fazer; a estes em lhe acenando com as peles estão caídos; outra porção deles lhe tão ímpia como os mesmos, não têm outro Deus senão a sua barriga, e esses nada lhes importa senão as suas comodidades, e todo o Governo para eles é bom, uma vez que os deixem viver sentados em suas poltronas; outra porção deles há, que são mais espertos, e alguma coisa entendem, mas estes não nos metem medo; porque se ordinário lêem pelos nossos livros, tiveram Mestres que nós inculcámos, e que souberam inspirar-lhes veneração ao nosso Voltaire, e Rousseau, Raynal, Mabli, e Volnei; o exemplo de um Mirabeau comove-os muito, e a lição das Ruínas lhes tem inspirado um certo susto, e receio de que é necessário contratar connosco, porque a nossa Ordem é respeitabilíssima, e que nas nossas mãos está dar volta ao mundo social quando nos aprouver, e as sua sorte dependente da nossa vontade, e isto é bastante para os termos da nossa parte, além de que nos nossos Orientes muitos destes já viram a luz, e estão prontos a ser outros tantos Cidadãos Manuel; uma parte deles ainda há, que seguem o fanatismo dos seus Avoegos, mas esses tomam o partido de não aparecerem, nem aceitarem os Títulos, e desses não temos receio, porque os seus colegas lá se haverão com eles; e uma vez que a maioria siga a Causa, ou por fas ou por nefas, está o negócio arranjado, e pode cuidar-se da organização deste tal Governo. Far-se-há então um extracto de todas as nossas Constituições, corrigindo ou mudando (em quanto às palavras, mas conservando sempre a essência) aqueles artigos, em que os fanáticos têm implicado muito: na parte que tratar do Rei, digam-se mil bens, desse-lhe o Voto, ou Veto decisivo, diga-se que ele tem autoridade para dar o que quiser, fazer a paz, declarar a guerra, etc.... dêsse-lhe mais um poder imaginário, a que chamaremos moderador, etc. etc.; mas logo mais abaixo, na parte que pertence à Câmara estabeleça-se, que o Orçamento da Receita e Despesa pertence a ela, bem como a iniciativa das leis, e que o Ministério é responsável perante as Câmaras, para que ele faça o que elas quiserem, e não o que o Rei disser: na parte que pertence aos Nobres, digam-se-lhes grandes fanfarronadas, que é de que eles gostam, muitos privilégios, etc. porque ao depois eles se lhes tirarão: na parte que diz respeito à Religião, fale-se da Católica, mas não se diga Apostólica, nem única verdadeira; a tolerância de Cultos não deve esquecer, nem a Liberdade da Imprensa; porque uma vez que estes artigos vão no tal compêndio, e uma vez que se consiga haver eleições populares, tudo está concluído, tudo está vendido; porque o mais a seu tempo, e não resta senão um pequeno passo, mui fácil a fazer: depois de assim combinadas as ideias, dispostas as figuras, aplanadas as dificuldades, levar-se-há à assinatura Real, dizendo-se que é a mesma Lei Fundamental da Monarquia na sua essência, com algumas pequenas alterações acidentais, e só revestida daquele colorido político, que o Século das luzes, em que nascemos, nos ministra, e que tem hoje tão fatal império, que nenhum homem ilustrado pode resistir à sua sedutora influência: logo depois far-se-há público à Nação, para lhe mostrar o que S. M. Quer o bem de seus Povos, etc. etc.; nomear-se-hão Comissões, já se sabe dos nossos, para dirigir as eleições pela maneira invariável das nossas leis, e a todo este processo, aliás penoso, e demorado, (mas é necessário assim para ir adiante) chamar-se-há Carta Constitucional, para lhe tirar o odioso; e ainda que alguns fanáticos e absolutistas gritem, pouco nos importa, porque a estes tratamos de rebeldes e revoltosos, e com o mesmo Ceptro de ElRei os esmagaremos; e se alguma Nação Estrangeira, ou vizinha quiser intrometer-se, dir-lhe-emos com toda a paz de espírito, que isto não é um acto revolucionário, produzido pelo espírito democrático, é sim um acto espontâneo do Soberano, que esta é a Legitimidade proclamada pelos Soberanos, que podem dar Cartas, ou Leis a seus súbditos; e por esta forma nem o Diabo, que é nosso mestre, é capaz de lhe dar volta; chamar-lhe-emos a Divinal Carta, porque só Espíritos Angélicos poderiam meditar, e levar a efeito um tão sublime, e transcendente plano". Se esta não é a linguagem da alta Maçonaria quando medita, e prepara os planos de suas empresas, não saibamos que possa ser outra; e o que é certo, é que os factos públicos correspondem exactamente a esta hipótese. Este é um laço armado aos Reis, em que tantos desgraçadamente têm caído: é uma rede estendida, que apanha os Nobres e os plebeus, os ricos e os pobres, os Frades e os Clérigos, ilude a uns, atraiçoa a outros, a estes lisonjeia, àqueles oprime, e por fim a todos tiraniza, rouba, e degrada: eis-aqui o que nós chamamos Constituição Carteira: este segundo parto da Sapiência Maçónica é mil vezes mais monstruoso, mais terrível, e mais nefando do que o primeiro: no primeiro aparecia o Diabo, que é o mestre e autor de todas as obras das trevas, nu e cru, tal, qual ele é; mas no segundo aparece o mesmo Diabo, porém vestido com roupas Majestáticas, e com os enfeites de Anjo: quem não conhece ser mais terrível o inimigo, quanto ele é mais disfarçado? Quem é que não conhece, que um cão que não ladra é mais difícil evitar-se, do que o que primeiro nos avisa com os seus latidos?? É verdade, que nestes últimos tempos tem aparecido uma certa classe de gente, que se chamam moderadores, os quais têm querido ensinar, (o caso é que entre nós tem tido muitos discípulos) que este Sistema Carteiro é o único meio de equilibrar os poderes, concedendo alguma coisa ao Povo, para que ele se não inquiete, e modificando o absolutismo dos Reis, chegando até a dizer com um tom infundado "são as ideias do século, é necessário reconhecer o seu império", os Reis não têm outro remédio para se livrarem das invasões populares, este é preservativo das Revoluções, o país que gozar desta ventura estará isento dos flagelos da guerra democrática. Muito bem discorreis, meus amigos moderadores, mas a vossa lógica tem tanta solidez, como a leve palha, que o vento agita. Vamos a contas: dizei-me: quando um Monarca dá uma Carta Constitucional, cede de alguma qualidade Majestática, que recebeu de seus maiores, e que data com a Lei Fundamental da Monarquia?... Não o podeis negar, e direis que sim, porque se Ele não cedesse de algum privilégio ou prerrogativa, e conservasse a mesma integridade governativa, para que quereis vós semelhante Carta? Logo, por uma forçosa consequência, a que não podeis escapar, este acto é atentatório contra a Suprema Autoridade Real, que é sempre permanente, uma, a mesma, e indivisível, independente das pessoas dos Reis, e da qual se não podem afastar sem serem traidores à lei Fundamental, pela qual imperam, são falsário ao juramento por Eles dado quando sobem ao Trono, e incorrem nas maldições de seus Maiores; e vós, que assim os aconselhais, sois os primeiros traidores, e revolucionários: ainda mais: quando o Rei tem caído na fraqueza de dar essa Carta, e depois, ou se arrepende, ou quer desmanchar o que fez, o que deve ser lícito segundo a regra antiquíssima de Direito "cujus est dare, cujus est tollere" o que fazeis vós?... Gritais "traição; perjúrio!!" Arguis o mesmo Rei, inquietais um Reino inteiro, e fazeis uma reacção, que chamais justa, porque é para manter a ordem estabelecida e jurada: e então porque se não levantaram os homens de bem, honrados, e verdadeiros patriotas, quando virem aparecer uma Carta Constitucional? Porque razão não gritaram "traição! Perjúrio!!". Porque motivo não farão uma reacção, tão justa como a vossa, para manter a ordem estabelecida, e jurada há tantos séculos?! Tereis vós mais direito para sustentar uma ordem de coisas, que ainda está em coeiros, e não haverá direito para sustentar e defender outra ordem de coisas cheias de cãs?! Eis, aqui tendes a vossa lógica convertida contra vós mesmos, e eis a conclusão necessária segundo os vossos princípios "a Carta Constitucional, que devia de facto evitar as Revoluções, é quem as estabelece de direito". Dizei-me ainda mais: já vistes alguma Carta Constitucional, em que deixasse de aparecer aquela tolerância de Cultos, que a Filantropia do nosso século tem descoberto para dar a mão a todos os inimigos da Religião Católica; e em que não visse sancionada a Liberdade de Imprensa??... Sem dúvida que não: logo, a Carta é ímpia, e revolucionária contra Deus; porque, se a pluralidade dos deuses, segundo a linguagem dos mesmos pagãos, é a nulidade de Religião, Deorum pluritas est Deorum nullitas: ela por meio da Imprensa Livre abre a porta ao Ateu, ao Deísta, ao Libertino, ao Judeu, ao Muçulmano, ao Cismático, ao Herege, ao Protestante, ao Indiferentista para que publique os Livros da sua Lei, e as suas costumadas invectivas contra o Catolicismo: abre um caminho franco ao democrata, ao traidor, ao malévolo para despender as suas ideias a respeito de governo, para espalhar a zizania e a discórdia no meio dos Povos, e para derramarem todo o fel e todo o veneno dos áspides oculto debaixo de suas perversas línguas sobre o Cidadão honrado, o Artista pacífico, o Nobre benfazejo, e mais que tudo, sobre os Ministros de J. C.!! E será isto o Código Sublime, Divinal, que arranca pela raiz o gérmen das Revoluções, como vós dizeis?! Não: é ao contrário o pomo da discórdia, e a semente fecunda de contínuas Revoluções, que começando por palavra, e por escrito acabarão por sangue e ruínas!! Dizei-me ainda mais: já apareceu alguma dessas Divinais, sem que aparecessem igualmente eleições populares? Sem dúvida que não; porque nem vós a quereis, sem que trouxesse este tempêro: logo, eis a porta aberta para a venealidade, eis o Povo tomando parte nas Deliberações Governamentais, eis a Câmara baixa reagindo contra a alta, os Nobres odiados, e malquistados perante o Povo, o Rei em colisões, sem saber muitas vezes que partido deve tomar, a maça geral, a que vós chamais Respeitável Público, em contínua fermentação, os terroristas espalhando o alarme, os Periódicos endoidecendo as cabeças, os Oradores assalariados incendiando os ânimos, o espírito de partido tomando a dianteira em todos os negócios, o bem da Nação convertido sempre em interesse pessoa, a Força Armada dividindo-se, os negócios de Estado conhecidos de todo o Mundo, e o que é mais espantoso, a guerra civil incendiando-se, invasões iminentes, e as Câmaras disputando com os Ministros se se deve tomar o partido da guerra ou da paz, se o exército deve ser de guardas cívicas, ou de tropas regulares!!... E achareis vós neste vórtice espantoso a paz, e a tranquilidade?!... Ah! se tal disserdes, é o argumento mais positivo de que sois perfeitos diabos, que só nas chamas vivem satisfeitos. Dizei-me ainda mais: quem faz a festa quando aparece uma dessas Divinais, que vós dizeis partir da Legitimidade?! Não podeis negar que os mesmos que festejaram a primeira, os mesmos bandidos, caixeiros, franxinotes, etc. etc. aparecem a aplaudir a Divinal, levantam-se pirâmides, iluminações, logo aparecem os mesmos Periodistas, os mesmos Deputados, em uma palavra, a mesma fáfila republicana, e mais alguma, que se lhe agregou ejusdem furfuris ac farinae, e nós que o digamos, que até  mesmo Frade Bento, que foi o caixa da primeira, aparece o chefe em a segunda; e qual é a consequência, que deve tirar um homem, que não seja pedreiro?! esta, e somente esta "é a mesma obra, tem os mesmos mestres, tende ao mesmo fim" e a razão desta consequência funda-se em um princípio universal de que as mesmas coisas produzem os mesmos efeitos: uma pereira não pode nunca dar maçãs: uma ginjeira não pode dar marmelos: pois seria mais fácil que uma pereira desse maçãs, e um ginjeira marmelos, do que um pedreiro, um ímpio, um revolucionário produzir uma só palavra, que tenda à felicidade de uma Nação.

(continuação, VII parte)

AO PAIS E MÃES DE FAMÍLIA - POR S. CARLOS BORROMEU (II)

(continuação da I parte)

DOCUMENTO III
Das Bênçãos Dadas Por Deus Aos Filhos Que Honram a Seus Pais, e Mães.


Primeira Bênção

Honra teu Pai e a tua Mãe, para que tenhas larga vida, como se lê em Êxodo 20. Esta primeira bênção é sobre a longevidade, da qual foi exemplo Sem, filho de Noé, de quem a  vida não se acha princípio nem fim na Escritura: pelo contrário Cam, viveu poucos dias, por ter desonrado seu pai, como se vê no cap. 9 dos Génesis.

Segunda Bênção

Aquele que honra Pai e a Mãe será alegre e contente, e seus filhos serão ouvidos em tempo de oração, como está escrito no cap. 3 do Eclesiástes.

Esta bênção é sobre a alegria e contentamento que se tem relativamente aos filhos, da qual nos é dado o exemplo de José filho de Jacob, que por obediência a seu pai e pela honra que lhe prestou o fez alegre e contente entre seus filhos ... como se lê no Génesis cap. 18.

Terceira Bênção

Aquele que honra Pai e Mãe, acumula um tesouro no Céu, e na terra, como se lê no Eclesiástes cap. 3.

Esta bênção é sobre os bens Espirituais e temporais, os quais concede Deus aos bons, dos quais temos como exemplo a Salomão, o qual não apenas honrou muito seu pai como também sua mãe, e por isto viveu felizmente no Reino até muito velho, tal como se lê em Reis III cap. 2.

Mas, pelo contrário, Absalão que perseguia seu pai, foi morto com três dardos de Joab, Príncipe do exército, como se vê em Reis II cap. 18.

Quarta Bênção

Aquele que honra Pai e Mãe serve ao Senhor com todos seus bens, como se lê no Eclesiastes cap. 3.

Esta bênção é relativa aos bens Espirituais, da qual é exemplo Jacob filho de Isaac, o qual foi eleito de Deus, e bendito do pai. Pelo contrário, Ezaul foi reprovado, como o indica o Génesis cap. 27.

Quinta Bênção

Honra teu pai, para que venha sobre ti a bênção de Deus, e serás bendito, como está dito em Eclesiastes cap. 27.

Esta Bênção dá-se principalmente por Deus aos filhos bons, e obedientes. O que significa ser bendito de Deus, senão outra coisa que a Graça divina que Dele se recebe?

DOCUMENTO IV
Das Maldições Dadas Por Deus Aos Filhos Que Desonram Seus Pais e Mães

Primeira Maldição

Aquele que a seu pai, ou mãe, maldisser, seja morto, e morrerá seu sangue... como se lê em Eclesiastes cap. 20.

Esta maldição está confirmada por Deus em Deuteronómio cap. 20, onde manda Deus que se alguém engendrar um filho desobediente e perverso, que os homens da Cidade o matem com pedras, e morra, para que saia do caminho tal pestilência do meio deles, como se lê no dito capítulo.

Segunda Maldição

Maldito seja aquele que não honra a seu pai, e sua mãe, e diz todo o povo, assim seja, como se lê em Deuteronómio cap. 27.

Esta maldição foi dada por Deus, e por isso é de grande importância.

Terceira maldição

Aquele que afligir Pai ou Mãe será afrontado, e infeliz, como se lê em Provérbios cap. 19.

Esta maldição se manifestou em Absalão, coisa que já foi  dita e que agora se vê cumprida em todos os outros filhos que afligem o pai ou a mãe.

Quarta Maldição

Aquele que maldisser Pai ou Mãe verá apagar-se seu lume no meio das trevas, como se lê  em Provérbios 20.

Todos os filhos temam esta mortal maldição, na qual se mostra, que assim são privados de toda a luz, que é a luz da graça e da glória, porque sempre estarão em trevas enquanto vivam, e na morte ouviram aquela voz de Cristo que diz: deitai-os à escuridão interior.

Quinta Maldição

Aquele que negar seu Pai ou Mãe as coisas necessárias, é um homicida, como se lê em Provérbios cap. 18.

Este foi aquele mau e preverso costume dos Escribas, e Fariseus, os quais mandavam aos filhos que, por voto, obrigasse o Templo à fazenda de seus pais e mães, contra os quais grita e fala Cristo, por S. Mateus cap. 15 dizendo "Vós haveis anulado o preceito de Deus, com vossas ordenações, e constituições".

Os filhos obedientes foram sempre agradáveis a Deus, os filhos desobedientes foram sempre castigados, e muitos deles reprovados.

DOCUMENTO V
Dos Exemplos Para os Filhos Que não São Obedientes a Seus Pais e Mães

I Exemplo
Cesareu escreve que, no monte da Cecília se abrasava uma montanha, cerca da qual havia algumas vilas, e havendo chegado o fogo às casas, fugiam as gentes que nelas havia e alguns (que não podiam fugir) dos filhos deixavam os pais, e outros os levavam às costas; o fogo passava adiante, e abrasava aqueles que fugiam, e deixava seus pais, e aos que livraram os pais, mesmo os que estavam cercados de fogo, não lhe fazia dano algum, porque Deus os preservava, porque guardavam o preceito de honrar pai e mãe.

II Exemplo
Também se lê que uma parte de Itália, um filho por não querer obedecer à mãe, a mãe lhe deu, ou enviou esta maldição "maldição, ou blasfémia) como se disséssemos, convém saber: "Sejas morto, e nem o ar, nem a terra, nem a água, nem o mar te possam receber". E assim não passou muito tempo, que lhe alcançou a maldição. Porque a justiça o enforcou, e não podendo permanecer na forca foi deitado a um rio, o qual não o deteve, nem conservou, pelo qual o tiveram que enterrar, mas aconteceu que pareceu que nem a sepultura o queria dentro de si.

Finalmente o deitaram ao mar, o qual o largava nas margens. Então a mãe lembrou-se da maldição que tinha dado, e lhe fez atar uma grande pedra ao pescoço para que fosse novamente deitado ao mar: mas não foi bastante, pois a força do mar o fez chocar contra umas rochas e o desfez em quatro partes que se foram afastando cada um para seu lado desaparecendo para longe. Eis a maldição lançada por esta mãe.

III Exemplo
Outro houve em Roma, que sendo condenado à força, quando chegou onde havia de morrer, levantando os olhos, reconhecendo o lugar, disse estas palavras: "Aí de mim! Aí de mim. Agora sei que veio a justiça de Deus sobre mim; não pelo mal feito, mas porque neste lugar, quando tive o atrevimento de levantar a mão contra minha mãe, disse-me ela "Que aqui te vejam na força"... e agora vejo cumprida a maldição". E então foi enforcado.

IV Exemplo
Escreve também de alguém que, para deixar o seu filho com vantagem e rico lhe fez uma doação de todos os bens. E assim ficou o pai à mercê do filho, mas o filho fazia-lhe passar extremas necessidades, ao ponto de o não querer mais em casa e passando a viver de esmolas. Um dia, à hora de comer, foi a casa do filho para comer com ele. O criado deu aviso da chegada daquele pai, e aquele filho mandou uma criada retirar da mesa um prato de carne que nela estava, juntamente com o demais, ficando apenas um pão. Diante do filho, sentou-se à mesa, comeu do pão, e no final saiu, ficando o filho a murmurar de enfado e mandando à criada trazer a carne de volta. Mas, esta carne, depois de colocada na mesa volveu-se num hediondo e sujo sapo que logo lhe saltou à cara. Este bicho tinha ácidos, a cabeça era voltada para cima, as patas ácidas . Foram chamados cirurgiões [médicos] para tentar despegar o bicho, o qual parecia enfurecer-se contra eles; visto tal incógnito e horrível prodígio, optaram por abandonar o caso. Viveu durante 13 anos neste estado, e morreu. O Padre de lá foi quem deu a notícia a S. Carlos Borromeu que sucedeu naquela Diocese, quem o mandou ir por todo o Arcebispado dar exemplo disto que tinha visto, desmotivando os tíbios na desobediência aos seus pais e mães.

Laus Deo, et Mater eius.


COMPÊNDIO ESPIRITUAL DA VIDA CRISTÃ (I)

COMPÊNDIO ESPIRITUAL DA VIDA CRISTÃ

Tirado de Muitos Autores,
pelo primeiro Arcebispo de Goa, e por ele pregado no primeiro ano a seus fregueses, pela glória e honra de JESUS Cristo nosso Salvador, e edificação de suas ovelhas.


COIMBRA
1600

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Informação do Padre Revedor:

Examinei este Compêndio da vida Espiritual, por mandado e autoridade do Supremo Conselho da Santa e geral Inquisição: e julgo por digno da Impressão. Frei Bartolomeu Ferreira.

Licença da Mesa Geral da Santa Inquisição:

Pode-se imprimir vista a informação, e um dos novamente impressos tornará a esta Mesa, para se conferir com o original antes de correrem. E este despacho se imprimirá no princípio com a dita informação. Em Lisboa, aos trinta de Outubro, Manuel Antunes Secretário do Conselho Geral o fez, de 1578. Dom Miguel de Castro, António Teles.

Licença do Ordinário:

Pode-se imprimir. Lemos.

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Tabuada do Que se Contem Neste Livro

Em dois Estados se divide esta obra, estado do pecado mortal, e estado da graça: o qual compreende quatro partes. A primeira trata da Doutrina Cristã, a segunda dos pecados, a terceira dos remédios conta eles, a quarta da oração e perfeição espiritual, com devotos exercícios.


Estado de Pecado Mortal
- Do estado do pecado mortal e suas condições
- Que na vontade está a salvação
- Consideração de que bens priva o pecado mortal
- Consideração dos males presentes que traz o pecado
- Consideração da vã esperança da vida
- Consideração dos juízos divinos
- Dos males que o pecado traz depois da vida
- Consideração dos juízos divinos
- Dos males que o pecado traz depois da vida
- Consideração das penas
- Consideração do nada e pouquidade do homem
- Da cegueira do pecado
- Epílogo do dito

Estado da Graça
- Do estado da graça, e sua obrigação
- Da ordem da penitência
- Que é negar a si mesmo
- Da mortificação da vontade
- Da mortificação do entendimento
- Da mortificação da sensualidade e sentidos exteriores
- Da Cruz da penitência
- Que a penitência é leve
- Da sequela de Cristo na sua doutrina
- Em que consiste seguir a Cristo

Primeira Parte da Doutrina
- Do "creio em Deus Pai"
- Do divisão do Credo
- Do primeiro artigo
- Do segundo artigo
- Do terceiro artigo
- Do quarto artigo
- Do quinto artigo
- Do sexto artigo
- Do sétimo artigo
- Do oitavo artigo, e dos sete dons do Espírito Santo
- Do nono artigo
- Do décimo artigo
- Do undécimo artigo
- Do último artigo, e da glória eterna
- Da benaventurança e glória dos justos

Segunda Parte da Doutrina Cristã
- Dos dez mandamento da lei de Deus
- Dos mandamentos em geral
- Do primeiro mandamento
- Do segundo mandamento
- Do terceiro mandamento
- Do quarto mandamento
- Do quinto mandamento
- Do sexto mandamento
- Do oitavo mandamento
- Do nono e décimo mandamento
- Dos seis mandamentos da santa madre Igreja
- Do primeiro mandamento da Igreja
- Dos dias de guarda, e jejum
- Dos segundo mandamento
- Do terceiro mandamento
- Do quarto mandamento
- Do quinto mandamento
- Do quinto mandamento da Igreja
- Dos pecados capitais
- Do pecado em geral
- Como se cometeu o pecado
- Da soberba
- Da luxúria
- Da ira
- Da inveja
- Da gula
- Da preguiça
- Dos pecados contra o Espírito Santo
- Dos pecados da participação, ou alheios
- Dos cinco sentidos
- Das sete circunstâncias dos pecados
- Dos que podem pecar

Terceira Parte da Doutrina Cristão
- Do primeiro remédio dos pecados, convém saber, das três virtudes teologais
- Da Fé
- Da Esperança
- Da Caridade
- Do segundo remédio dos pecados, convém saber, das quatro virtudes Cardeais
- Da Prudência
- Da Temperança
- Da Fortaleza
- Da Justiça
- Do terceiro remédio dos pecados, convém saber, das sete Virtudes Morais
- Da Liberdade
- Da Castidade
- Da Paciência
- Da Caridade
- Da Sobriedade e Temperança
- Da Diligência
- Do remédio geral dos pecados
- Dos remédios dos pecados veniais
- Do quarto remédio dos pecados convém a saber, dos sete Sacramentos
- Dos Sacramentos em gera
- Do Baptismo
- Da Confirmação
- Da penitência
- Da contrição
- Da Confissão e suas condições
- Do modo da Confissão
- Do modo da Confissão frequentada que comummente é de veniais
- Da Satisfacção
- Da Restituição
- Porque que coisas se dá a satisfacção da esmola
- Das obras de misericórdia
- Do jejum
- Do sacramento da ordem
- Do sacramento do matrimónio

Quarta Parte da Doutrina
- Da necessidade da oração
- Que é a oração
- Qual deve ser a oração
- Da oração do Pater noster em latim
- Da oração do Pai nosso em linguagem [vernáculo]
- Declaração dele
- Oração para pedir graças à Santíssima Trindade
- Oração para pedir graças ao Padre [Pai]
- Oração ao Filho
- Oração ao Espírito Santo
- Oração à Virgem, para alcançar ajuda e graça
- Da oração da saudação em latim e linguagem
- Da oração da Salve Regina em latim e linguagem
- Oração aos Santos para pedir a graça
- Oração para antes da Comunhão
- Oração a nossa Senhora antes da Comunhão
- Oração depois da Comunhão
- Oração a nossa Senhora depois da Comunhão
- Do fazimento de graças, depois da sagrada Comunhão
- Do modo que se deve ter no ouvir da Missa
- Oração a nossa Senhora antes da Missa
- De como se há de ouvir a primeira parte da Missa
- Da segunda parte da Missa
- Da terceira parte da Missa
- Do fazimento de graças de toda a vida de Cristo depois da Missa, ou em qualquer tempo
- Da perfeição da vida
- Dos graus da vida espiritual
- Da vida do amor pelo entendimento
- Da via unitária
- Das chagas para o amor unitivo
- Da vida unitiva
- Das achegas para o amor unitivo
- Do amor unitivo
- Do exercício das aspirações amorosas
- Dos quatro ramos da árore das aspirações
- Do oferecer, primeiro ramo das aspirações
- Do pedir
- Do conformar
- Do unir
- Do segundo exercício do nome de JESUS
- Do terceiro exercício do fazimento de graças
História da Vida de Cristo
- Anunciação do Anjo a nossa Senhora
- A visitação de S. Isabel
- Da prenhez da Virgem e da revelação feita a José da sua pureza
- O nascimento do Senhor
- A Circuncisão do Menino Jesus
- A vida e adoração dos Reis Magos
- A Purificação de Nossa Senhora
- Da morte dos Inocentes e fuga para o Egipto
- Quando se perdeu o Menino Jesus sendo de doze anos
- Do baptismo de Cristo
- Do jejum, e tentação de Cristo
- A Transfiguração de Cristo
- Dos mistérios da sagrada paixão
- Do lavatório dos pés, e mistério da Cruz
- A oração do horto
- A prisão do Senhor
- A apresentação diante dos juízes
- A coroação de espinhos
- Do lavar a cruz às costas
- De como o Senhor foi crucificado
- Das sete palavras que o Senhor falou na cruz
- O desentimento do Senhor da Cruz
- A ressurreição do Senhor
- De Como o Senhor apareceu aos discípulos
- A Ascenção de nosso Senhor Jesus Cristo
Exercício dos Dias da Semana
- Exercício de segunda feira
- Exercício de terça feira
- Exercício de quarta feira
- Exercício de quinta feira
- Exercício de sexta feira
- Exercício de sábado
- Exercício de domingo
- Exercício de cada dia, que compreende todos os exercícios para os que não têm tanto tempo
- Exercício de cada hora

Fim
(a continuar)

21/08/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XCVI)

(continuação da XCV parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. X
Não se Deve Deixar a Sagrada Comunhão Sem Causa Legítima

1. Cristo – Deves recorrer muitas vezes a mim, que sou a fonte da graça e da misericórdia, a origem da bondade e da pureza das almas, para que possas curar-te de todas as paixões e vícios e venhas a ser mais forte contra as tentações e artifícios do demónio.
O inimigo, sabendo o grande fruto que se tira da santa comunhão e que ela é grandíssimo remédio contra as enfermidades interiores, emprega todas as forças para apartar dela todas as almas fiéis e devotas.

2. Eis porque alguns padecem maiores tentações do demónio, quando se dispõem a receber a sagrada comunhão. Esse espírito de malícia, segundo Job, acha-se entre os filhos de Deus, para os perturbar por sua ordinária malignidade, fazendo-os excessivamente tímidos, ou escrupulosos, para assim esfriar a sua piedade, tirar-lhes o sentimento da fé, a fim de que deixem totalmente a comunhão, ou cheguem a ela com tibieza. Mas o remédio para este mal é não estar atento a tais artifícios e fantasias que o inimigo representa, por mais ignominiosas e horríveis que sejam. Pelo contrário, todas essas abominações devem ser rechaçadas e devolvidas ao inimigo.
É necessário desprezar esse espírito infeliz e escarnecer dele e, ainda que ele excite na alma argumentos e imagens perturbadores, não se deve, sob nenhum pretexto, deixar a sagrada comunhão.

3. Algumas vezes, também, nos apartamos da comunhão, pelo demasiado desejo de uma maior fervor, ou por certa inquietação ou dúvida que nos ficou da confissão. Segue, em tais casos, o conselho dos sábios; desterra de ti as inquietações e os vãos escrúpulos, porque tudo isto é um obstáculo à graça e destrói a sólida piedade da alma. Não deixes de comungar por motivo de qualquer atribulação. Vai logo confessar-te, se estás em pecado; perdoa aos outros as ofensas que deles porventura tiveres recebido. Se ofendeste a alguém, pede-lhe humildemente perdão; e Deus te perdoará os teus defeitos.

4. De que aproveita dilatar por muito tempo a confissão e proceder do mesmo modo quando à comunhão? Purifica, urgentemente, a tua alma; vomita, a toda a pressa, o veneno da culpa; recebe o remédio saudável e achar-te-ás melhor do que se adiares indeterminadamente o seu uso. Se hoje deixares de comungar por uma razão, amanhã deixarás por outra talvez maior. Assim, irás, protelando e cada vez te acharás menos hábil para receber a sagrada eucaristia. Tira-te, o mais breve possível, dessa tibieza, porque de nada aproveita viver tanto tempo na ansiedade e na perturbação pelos obstáculos que todos os dias te serão opostos à participação deste divino sacramento.
É muito nocivo dilatar a comunhão por largo tempo, pois que esta demora ocasiona, de ordinário, na alma, grave frouxidão. Quão doloroso é considerar que existem pessoas tão tíbias, que raras vezes se confessam e vão adiando sempre as suas comunhões por não se verem obrigadas e viver com mais cuidado na guarda da sua alma!

5. Quão pouco é o amor e a devoção dessas pessoas, que tão facilmente se dispensam da santa comunhão! Pelo contrário, quão feliz e agradável a Deus é aquele que viver de tal modo, com tal pureza de consciência, que se acha disposto para comungar todos os dias, se lhe fora permitido, e o pudesse fazer sem nota de parecer afectado ou singular!
Aquele, porém, que algumas vezes, deixa de comungar, por humildade, ou por alguma causa legítima que o impede, é digno de louvor pelo respeito que consagra a este santo mistério. Mas se se sente cair, pouco a pouco, na tibieza, deve despertar a si mesmo e fazer o que, de sua parte, lhe compete; e o senhor o socorrerá no seu desejo, atendendo a sua boa bondade, que é o que ele especialmente considera.

6. Quando estiver legitimamente impedido de comungar, deve, ao menos fazê-lo em espírito, por um desejo interior e uma santa intenção, caso em que não deixará de receber o fruto deste sacramento.
Todo o homem que tem uma piedade, sincera, pode comungar espiritualmente, cada dia e cada hora, sem que nada ou alguém o embarace, colhendo todos os frutos do divino mistério. Deve, contudo, pelo menos em determinados dias e determinados tempos, receber sacramentalmente o corpo do seu Salvador, com um afecto cheio de respeito, e procurar, nesta acção tão santa, mais a glória de Deus, do que a própria consolação. A alma comunga misticamente, recebendo, de modo invisível, verdadeiro alimento, todas as vezes quantas medita, piedosamente, nos mistérios da encarnação e da paixão do Redentor, e se abrasa no seu amor.

7. Quem não se dispõe para comungar senão por ocasião de alguma festa, ou porque o costume o obriga, a maior parte das vezes não estará preparado. Feliz aquele que se oferece ao Senhor em holocausto todas as vezes que celebra ou comunga!
Não sejas muito demorado nem muito apressado na celebração da santa missa. Conforma-te com o uso ordinário e regular daqueles com quem vives.
Não deves ser molesto aos outros nem causar enfado, mas ir pelo caminho comum que seguiram teus maiores, atendendo mais ao aproveitamento alheio do que à tua inclinação ou devoção particular.

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