31/07/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XCI)

(continuação da XC parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. V
A Excelente Dignidade dos Sacerdotes e Quanto a Sua Vida Deve Ser Pura e Exemplar
[refere-se aos sacerdotes]
 
1. Cristo – Se fosses tão puro como os anjos e tão santo como São João Baptista, não serias ainda digno de receber ou de oferecer este santo mistério. É coisa superior a todo o merecimento humano que o homem consagre, tenha nas mãos o sacramento de Jesus Cristo e como o pão dos anjos.
Grande mistério e grande dignidade a dos sacerdotes, que receberam um poder que não foi concedido aos anjos! Só os sacerdotes, legitimamente ordenados pela Igreja, podem celebrar e consagrar o Meu corpo. O sacerdote é ministro de Deus neste sacramento; serve-se da sua palavra segundo a ordem e a instituição deste Sacrifício. Mas Deus é o seu principal autor. Ele é que obra invisivelmente, como quem pode tudo o que quer, fazendo-se obedecer no mesmo instante em que manda.

2. Neste excelentíssimo sacramento, mais crédito deves dar a Deus do que aos teus próprios sentidos e aos sinais externos que Nele vês. Assim, não chegues jamais a Ele senão com um temor cheio de respeito.
Atende bem; vê a grandeza do mistério que te foi confiado pela imposição das mãos do bispo.
Foste instituído sacerdote e consagrado para celebrar este santo mistério. Trabalha, pois, por oferecer a Deus em tempo conveniente, em fé, em devoção, este sacrifício.
Cuida, também, em levar uma vida irrepreensível. Quando recebestes as Ordens, não diminuístes as tuas obrigações, antes te prendeste, com um vínculo mais apertado, a ser mais exacto na sua observância, obrigando-te a aspirar à maior perfeição da santidade.
O sacerdote deve ser ornado de todas as virtudes, para que em si mostre aos outros o exemplo e o modelo de uma vida santa. A sua vida não deve ser semelhante à vida comum dos homens, mas à dos anjos do Céu, ou à dos homens mais perfeitos que há sobre a Terra.

3. O sacerdote, revestido, dos paramentos litúrgicos, ocupa o lugar de Jesus Cristo para oferecer humildemente a Deus as suas orações, por si e pelo povo.
Tem diante e atrás de si a cruz do Salvador, para que, continuamente, se lembre da Sua paixão.
Leva-a diante de si na casula, para que considere atentamente os passos de Jesus Cristo e se anime a segui-los com fervor. Leva-a nas suas costas, para que sofra, por Deus, com paciência, os males que os homens lhe fizeram.
Leva-a diante de si para que chore os seus próprios pecados; leva-a nas costas para que, pela compaixão, chore as culpas alheias, na inteligência de que é constituído mediador entre Deus e os Homens.
Não deverá desistir de oferecer a Deus as suas orações e o seus sacrifícios, até que alcance a graça e a misericórdia que deseja.
Quando o sacerdote celebra, honra a Deus, dá alegria aos anjos, edifica a Igreja, procura a graça para os vivos e o descanso para os mortos e faz-se participante de todo o género de bens.

ASCENDENS - NÃO FAZEMOS BATOTA NAS TRANSCRIÇÕES


Caros leitores,

devido a certos acontecimentos, parece oportuno mostrar um pouco do nosso trabalho a respeito da transcrição textual.

Há quatro pessoas a tratar de transcrições para o blog ASCENDENS. Todas estas transcrições são feitas manualmente, e é regra que não possa ser de outra forma. O motivo deste critério poderia resumir-se a "se por bem mando ler os outros, tenho obrigação de ler também e primeiro".

O autor e responsável do blog ASCENDENS, nestes últimos anos, reuniu uma biblioteca digital de mais de 7000 exemplares (em PDF), na maioria obras antigas  (principalmente anteriores ao séc. XIX) relacionadas com a civilização católica, e em grande parte escritas em português. Desde livros doutrinais, história, leis, liturgia, didáctica das várias disciplinas, documentos papais e régios, apologias, sermões, espiritualidade, geografia, etc...

Como a maior parte das obras transcritas são antigas isso oferece dificuldades:

1 - A legibilidade: com bastante frequências aparecem palavras, frases, e até páginas, que por defeito de impressão, ou má digitalização pública, oferecem grande dificuldade de leitura, ou até mesmo a impossibilidade. Em vários casos destes, é necessário recorrer a uma outra edição, ou a um segundo ou até terceiro exemplar. As buscas por segundos exemplares não é fácil, e na falta disto, a publicação da obra no blogue tem que parar.

eis um exemplo com o nos deparámos ao transcrever uma parte do "Sermão do Desengano" (do Pe. Agostinho de Macedo)
Já aconteceu conseguir recorrer a livros físicos em bibliotecas públicas para obter três palavras seguidas.

Há digitalizações com problemas diferentes. Como foi o caso de faltar uma página à digitalização de uma curta e importante obra de D. José Azevedo Coutinho, que obrigou a fazer vários contactos com a Biblioteca Nacional do Brasil. Felizmente fomos bem atendidos, a Biblioteca agradeceu o aviso e corrigiu a digitalização, colocou-a online e enviou-no-la.

2 - A escrita: todas as obras cujo o português seja um pouco menos recente, depois de transcrita passa por uma adaptação. Exemplificando: o colaborador "Luís" transcreveu um capítulo de uma obra do séc. XIX, passa-a depois ao responsável do blog ASCENDENS. Nesta fase a ortografia pode em certos casos ser alterada sempre com a intenção de guardar o máximo que se possa da versão original, mas não de tal forma que em algumas ocasiões o leitor comum pudesse ficar confuso e perder-se no texto. Em obras do séc. XVIII, ou anteriores, há casos em que algumas frases têm de ser reestruturadas. E noutros casos há em que os erros de impressão ausentam palavras que temos de encontrar por suposição. /

Não é impossível contar o número de obras e de páginas transcritas e já  publicadas no blog ASCENDENS... quem achar pouco que as conte e nos diga (são mais de 2700 publicações). Há artigos e transcrições que estão na memória do blog, e por isso não são visíveis ao leitor, mas também há transcrições prontas ou interrompidas que nem sequer deram entrada na memória do blog.

Não trabalhamos por remuneração, e Deus nos continue a dar possibilidade de fazer um trabalho que outros não fazem tão bem e tanto mesmo pagos.

Fantasia - VINDE ESPIRITO SANTO (BWV651)


Tenho sempre receio de colocar algo de Bach, sobretudo música religiosa ou sacra. Considero o Bach um católico enganado, que praticava o catolicismo, mas localmente dirigido pelo protestantismo que então se apresentava com um catolicismo contrário aos supostos abusos da hierarquia da Santa Igreja.

Os músicos contratados para os templos tomados e edificados pelos seguidores de Lutero ficavam incumbidos de musicar e executar os hinos traduzidos e reformulados por Lutero; pois assim conseguiam fazer participar os assistentes ao culto.

O hino "Komm, Heiliger Geist, Herre Gott" ("Vinde, Espírito Santo, Senhor e Deus") é uma adaptação, em alemão, da oração católica "Vinde Espírito Santo, enchei o coração dos vossos fiéis .." (que por sua vez é baseada no hino católico "Veni Creator Spiritus", composto no séc. IX). J. S. Bach para este hino compôs uma maravilhosa fantasia, a qual julgo dever ser escutada com o pensamento no sentido do hino "Veni Creator Spiritus". Estamos perante música religiosa, e não música sacra.

Eis a dita fantasia (BWV651):


24/07/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (XC)

(continuação da LXXXIX parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. IV
São Concedidos Muitos Bens Aos que Comungam Devotamente

1. Alma – Senhor Meu Deus e meu Senhor, preveni o Vosso servo, com as bênçãos da Vossa doçura, para que possa chegar com devoção e dignamente ao Vosso grande sacramento. Excitai o meu coração a que Vos ame e livrai-me da tibieza em que vivo. Derramai em mim a Vossa graça saudável para que goste, em espírito, da doçura celeste, cuja abundância se encerra neste sacramento, como em sua fonte.
Alumiai também os meus olhos, para que contemplem tão grande mistério. Fortalecei-me para que eu o creia com uma fé firmíssima.
Este mistério é obra de um poder não humano, mas divino; não foi o pensamento do homem, mas a Vossa sabedoria que o instituiu. Não há homem capaz de compreender, por si mesmo, a excelência e grandeza deste mistério. É objecto que excede a própria luz e penetração dos anjos. Que posso conceber de um segredo tão sublime e sagrado, eu que sou um pecado indigno e um punhado de terra e cinza?

2. Senhor, meu Deus, eu chego a Vós, na simplicidade do meu coração, com uma fé firme e sincera. Chego, porque Vós me mandais que chegue com confiança e respeito; e creio verdadeiramente que estais presente, como Deus e como Homem, no Vosso divino sacramento. Vós quereis que Vos receba e que me una a Vós pelos laços da caridade. Imploro, pois, a Vossa bondade, e peço-Vos a graça especial de que a minha alma seja absorvida por Vós e se abisme de tal sorte no Vosso amor, que jamais cuide em procurar consolações senão em Vós.
Este sacramento tão sublime é a salvação da alma e do corpo e o remédio para todas as enfermidades espirituais: ele cura os nossos vícios; refreia as nossas paixões; vence ou enfraquece as tentações que nos combatem; infunde em nós maiores graças; faz crescer a virtude nascente; firma a fé; fortalece a esperança; activa e dilata o fogo da caridade.

3. Ó meu Deus, que sois o salvador da minha alma, o recuperador da fraqueza humana, o distribuidor de todas as consolações do espírito, Vós tendes dado, e dais ainda, muitas vezes, neste sacramento, muitas graças àqueles que Vos amam e Vos recebem dignamente. Estas graças, que neles infundis, servem-lhes de consolação nas diferentes atribulações em que se acham.
Vós tirais do fundo das suas amarguras para a esperança da Vossa protecção e, derramando, neles uma nova graça, os encheis de luz e alegria.
Assim, aqueles que, antes da comunhão, se achavam inquietos e aflitos, sem devoção e sem afecto, depois de nutridos por este alimento celeste tornam-se melhores e mais fervorosos. Vós que tratais assim os Vossos escolhidos por uma ordem admirável da Vossa sabedoria, para que reconheçam verdadeiramente, por sua própria experiência, quanta é a sua fraqueza e quais são as graças e as virtudes que não podem ter senão vindas de Vós.
Eles experimentam que, de si próprios, são frios, duros, indevotos, e que de Vós é que recebem o fervor, a piedade e a alegria.
E, com efeito, quem é aquele que, chegando, com humildade, à fonte das delícias celestes, não recebe dela, ao menos, uma pequena doçura? Quem é que, estando junto a um grande fogo, não recebe calor algum? Vós sois, ó meu Deus, esta fonte cheia e superabundante; sois este fogo, que sempre arte e nunca se extingue.

4. Se, pois, não me é concedido beber da abundância desta fonte, até saciar-me, ao menos permiti que chegue a minha boca à corrente dessa água divina, para que me refrigere e não morra de sede.
Se eu ainda não posso ser tão celestial como os querubins e os serafins, procurarei, contudo, animar-me por movimentos de piedade e preparar o meu coração para que, recebendo humildemente este sacramento de amor, sinta ao menos em mim algumas faíscas do divino incêndio.
Dignais-Vos, meu bom Jesus e Salvador Santíssimo, suprir pela vossa bondade infinita tudo o que me falta para receber-Vos condignamente. Vós Vos oferecestes para isto mesmo, quando chamastes todos os homens, dizendo-lhes: "Vinde a mim todos, os que trabalhais, e estais oprimidos, e eu vos consolarei."

5. Eu, na verdade, trabalho com o suor do meu rosto. Sinto penas que me atormentam o coração; pecados que me oprimem: tentações que me inquietam; paixões que me prendem nos seus laços; e não vejo quem, no estado em que me encontro, possa ajudar-me, ou livrar-me, ou salvar-me, senão Vós, meu Deus e Salvador. Eu me ponho, com tudo o que me pertence, entre as Vossas mãos, para que me guardeis nesta vida e me conduzais à eterna. Recebei-me favoravelmente, já que preparastes o Vosso corpo para alimento e o Vosso sangue como bebida da minha alma. Ó meu Salvador e meu Deus, fazei-me a graça de que, à proporção que eu chegar a esta santo mistério, cresça em mim o afecto da devoção e da piedade.

A RESPEITO DA ASSINATURA DE CRISTOVÃO COLON (II)

(continuação da I parte)

Como bem se tem dito, o "Xpo" da assinatura é uma forma breve de "Cristo". Acrescento que esta forma é conhecida, e que os caracteres são grego ( X, Khi maiúsculo; p, rho minúsculo; o, omicrón minúsculo). Mais recentemente "Cx" é a forma breve mais acostumada.

Alfabeto grego
Contrariamente a certa tese muito difundida, não há motivos para saltar da palavra evidente "Cristo" para uma equivalência "Salvador", e assim fazer ali caber o nome de Salvador Fernandes Zarco.

Quanto  ao "Ferens" da parte final da assinatura, não é mais que o particípio presente do verbo fero (latim - fero, fers, ferre, tuli, latum), que significa "portante". Em suma, montando agora as partes, o Xpo Ferens é literalmente "portante de Cristo", que é justamente o significado que sempre teve o nome Cristóvão.

Contrariamente ao que se tem andado agora a difundir, o "Xpo Ferens" não significa "membros que vão com Cristo", pois o particípio presente não permite tal leitura, nem o latim é dado à muitas largueza interpretativa.

A Sagrada Família, de Rafael
É certo que "X M Y" significa "Cristo, Maria, José", como têm dito também as teses, portanto trata-se
de uma invocação à Sagrada Família, e que popularmente mais costumamos invocar "Jesus, Maria, José". O motivo pelo qual Colon coloca "Cristo" por "Jesus" é apenas um caso curioso que não coloca o todo em questão.

No melhor pensamento católico, Colon dispõe a sua construção sempre por ordem hierárquica: a Santíssima Trindade, depois a Sagrada Família (também com três pessoas), e depois a ele na base o portador de Cristo.

Parece que são as próprias teses recentes as originárias da complicação. Os autores delas parecem fugir a tudo o que lhes cheire a ortodoxia e tradição católica, parece até haver esforços em fazer vingar teses que faça de Colon um judeu perseguido pelos Católicos e membro de algum clube secreto! ...

Em suma, o que nos aponta a assinatura de Colon: um edifício teológico aliado a uma missão cristã da qual se sente portador.

PARA NÃO DESCRIMINAR ACABARIAM COM "MARIDO" E "MULHER"

TENTATIVA DE PROIBIÇÃO DAS PALAVRAS "MARIDO" E "ESPOSA" NOS U.S.A. PARA NÃO DISCRIMINAR AS UNIÕES MARICAS

Lois Capps
"Depois do escândalo da Corte Suprema nos U.S.A para a legalização do "casamento homossexual", um grupo de congressistas do Partido Democrático introduziram um projecto-lei para a proibição das palavras "marido" "esposa" nas leis federais, porque estas palavras serem designações sexuais que acabam por descriminar os "homossexuais".

As palavras "marido" e "esposa" já foram retiradas das leis estatais na Califórnia, no ano passado, para acomodarem as leis do "matrimónio" entre pessoas do mesmo sexo.

Segundo o recente projecto-lei, proposto por mais de duas dezenas de democratas, aquela alteração estatal deveria agora ser estendida a toda a federação. Assim, segundo Lois Capps, representante do projecto-lei, deveriam ser introduzidos conceitos neutros como "casal casado"!

A emenda em favor de uma igualdade "matrimonial" reconhece que as palavras têm significados e que representariam prejuízo e descriminação mesmo se fossem declaradas nulas pela Suprema Côrte, diz Capps. "Os nossos valores como país encontram-se reflectidos nas nossas leis. Eu sou autora deste projecto-lei porque é imperativo que o nosso código federal reflicta a igualdade para todos os matrimónios", declara.

Warner Todd Huston diz que "agora que o casamento gay foi imposto como lei, graças à Côrte Suprema dos Estados Unidos, os liberais estão a tentar explorar a decisão para ver como poderão reforçar a agenda do lobby gay no nosso país".

Entretanto, o juiz municipal de Toledo [U.S.A.] recusa-se a "casar" um par do mesmo sexo por motivos pessoais de crença religiosa, e solicitou à Côrte Suprema de Ohio facultarem-lhe enquadramento legal para o dispensarem de celebrar tais actos.

O conflicto entre o novo "direito ao casamento gay" e os "direitos de liberdade religiosa", de consciência, e de expressão já tinham sido invocados por vários juízes que desaprovam a decisão da Côrte Suprema." (Agência La Voz; tradução: ASCENDENS blog)

A RESPEITO DA ASSINATURA DE CRISTOVÃO COLON (I)

Olhando o que vários investigadores têm dito a respeito da assinatura de Cristóvão Colon, é perceptível o esforço de alguns deles em obter os resultados que gostariam, mais do que submeterem-se à realidade. A fantasia, o gosto quase cabalístico que é moda, o crescente fascínio pelo mistério, entre outras coisas do género, não têm estado ausentes como seria necessário no âmbito da investigação histórica.

Tento então fazer algumas correcções às mais difundidas interpretações da assinatura de Cristóvão Colon.

(1) Assinatura de Cristóvão Colon usada como referência no estudo da tese mais difundida
Um dos erros das investigações é o estranho critério de selecção das fontes. A assinatura que vemos na imagem (1) é uma entre outras, e por isso não pode ser fixada como única, e há que ver nela as diferenças entre as outras.

Certa tese achou em "Xpo FERENS" o nome "Salvador Fernandes Zarco", fazendo do S final um Z (de Zarco) pelas semelhanças! Contudo, ao olharmos outras assinaturas de Colon, com a mesma configuração, vemos que tal S não pode ser entendido como Z (imagens seguintes):



Por outro lado, o S e o Z têm curvaturas opostas. Para ver um Z num S há que estar realmente bastante motivado...

O triângulo formado por três S é uma representação CONHECIDA entre os católicos que simboliza o nome três vezes Santo de Deus, em louvor da Santíssima Trindade, portanto "Santo, Santo, Santo", que é o início da oração litúrgica do "Sanctus" ("Sanctus, Sanctus, Sanctus Dominus Deus Sabaoth. Pleni sunt caeli et terra gloria tua. Hosanna in excelsis. Benedictus qui venit in nomine Domini. Hosanna in excelsis."). Esta representação é conhecida sem o "A" central também, e principalmente. O "A", não acompanhado de pontos, pertencente a "sAnto"; os dois pontos ao lado de cada S, que nem sempre aparecem, são o local de outros S, porque assim se expressa melhor o mistério do dogma da Trindade (conf. a doutrina da Trindade no Catecismo de S. Pio X).

Portanto, não é verdade que o significado seja "Salve, Ave, Salve", ou algo parecido, como se tem difundido!

(continuação, II parte)

23/07/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXIX)

(continuação da LXXXVIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. III
A Grande Utilidade de Comungar Frequentemente

1. Alma – Senhor, eu chego à Vossa presença com o fim de participar das Vossas bênçãos e das Vossas graças e para que me encha de alegria no banquete sagrado, que tendes preparado para o pobre, na abundância da Vossa doçura. Em Vós se acha tudo o que posso ou devo desejar. Vós sois a minha salvação , a minha redenção, a minha esperança, a minha fortaleza, a minha honra, a minha glória.
Derramai, pois, hoje, a Vossa alegria na alma do Vosso sereno, porque a Vós, Ó Jesus, meu Senhor, levanto o meu espírito.
desejo de receber-Vos com devoção e respeito. Desejo que entreis na minha casa, para que mereça, como Zaqueu, a Vossa bênção e seja posto no número dos filhos de Abraão.
A minha alma suspira por alimentar-se do Vosso corpo e o meu coração deseja unir-se a Vós.
 
2. dai-Vos a mim, Senhor, e isto me basta. Fora de Vós, todas as consolações são falsas. Não posso estar sem Vós; sem Vós não posso viver. Por este motivo, convém que eu me chegue a Vós muitas vezes e Vos receba como remédio da minha salvação, para que não desfaleça no caminho por falta deste alimento celeste.
Isto mesmo nos ensinastes, misericordioso Jesus, quando, pregando aos povos e curado-os das suas diferentes enfermidades, dissestes, aos Vossos discípulos: "Não quero que vão em jejum para suas casas, pois temo que desfaleçam no caminho."
Fazei, agora, o mesmo comigo, já que Vós deixastes ficar entre nós, no sacramento instituído para consolo dos que Vos seguem.
Sois o delicioso sustento da alma e quem Vos receber dignamente torna-se participante e herdeiro da glória eterna. Caindo eu em pecando tantas vezes e, por insignificantes dificuldades, lanço-me no desânimo e no relaxamento, é necessário que me renove, e purifique, e me reanime de novo, por meio de orações, confissões e comunhões frequentes, pois receio que, abstendo-me por muito tempo destes santos exercícios, venha a esfriar nos meus bons propósitos.
 
3. Todos os sentidos do homem tendem para o mal, desde os verdes anos, e o homem irá cada vez pior, se a Vossa graça o não socorrer. A Santa Comunhão, portanto, nos aparta do mal e nos fortifica no bem.
Se agora, que eu comungo, ou, se sou sacerdote, celebro, tantas vezes me sinto frouxo ou negligente, que seria se eu não tomasse um tal remédio e não recorresse a tão grande protecção? Ainda que eu, se for sacerdote, não celebre todos os dias por qualquer indisposição, deverei, pelo menos receber a Santa Comunhão, para ter parte em tão grande graça.
A principal e quase única consolação da fiel, durante a sua peregrinação neste mundo, é lembrar-se muitas vezes do seu Deus e receber, como todo o fervor, o dilecto do seu coração.
 
4. Ó bondade prodigiosa! Vós, que sois o Criador e a vida original de todos os espíritos, dignai-Vos de vir a uma pobre alma e empregar todas as riquezas da Vossa Divindade e da Vossa humanidade, para enchê-la de bens, na sua indigência! Ó feliz alma, que tens a dita de receber devota e santamente o teu senhor e teu Deus e que, recebendo-O, te enches de uma alegria espiritual! Quando é grande o Senhor que te visita! Quanto é amável o hóspede que recebes! Quanto é doce aquele que vem fazer-te companhia! Quanto é fiel o amigo que te vem ver! Quanto é belo o Esposo que vem unir-se a ti! Quanto é grande e digno de ser amado, pois que excede infinitamente tudo o que se pode amar ou desejar nesta vida!
Emudeçam, diante de Vós, dulcíssimo amado meu, o Céu e a Terra, com todos os ornatos de que os vestistes, porque tudoo que ele têm, de glória e de beleza, foi por munificiência da Vossa liberalidade, nunca chegando a igualar a formosura do nome daquele cuja sabedoria é infinita.

22/07/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXVIII)

(continuação da LXXXVII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. II
Neste Sacramento Manifesta Deus ao Homem a Sua Bondade e o Seu Amor

1. Alma – Confiado, Senhor, na Vossa bondade, na Vossa misericórdia infinita, chego a Vós, como enfermo ao seu médico e salvador; como faminto e sequioso à fonte da vida; como pobre ao Rei do Céu; como escravo ao Senhor Soberano; como criatura ao meu Criador; como aflito Àquele que, por sua piedade, me consola em todas as minhas penas.
Mas de onde me vem, meu Deus, a graça de virdes a mim? Quem sou eu para que Vós mesmo Vos entregueis a mim? Como se atreve o pecador a aparecer na Vossa presença? Como Vos dignais chegar a um pecador?
Vós conheceis o que eu sou e sabeis que em mim não há bem algum que Vos obrigue a dar-me a graça. Confesso a minha vileza; reconheço a Vossa bondade; louvo a Vossa misericórdia; rendo graças à Vossa caridade infinita.
Certamente, por Vós mesmo o fazeis, e não por meus merecimentos, para que eu compreenda mais clara e sensivelmente a grandeza da Vossa bondade, a extensão do Vosso amor, o excesso da Vossa humildade neste grande mistério.
Pois que assim Vos agrada, mandais que assim se faça, recebo com alegria o favor com que me honrais e desejo que os meus pecados não me façam indigno dele.

2. Ó Jesus, cuja doçura é inefável! Que respeito, que louvores, que acções de graça não devemos dar-Vos pela participação do Vosso santo corpo?
Não há homem sobre a Terra que possa dignamente explicar a excelência deste sacramento.
Mas que posso eu pensar nesta comunhão, chegando-me a Vós, meu Senhor, para quem não posso ter o devido respeito e a quem desejo, entretanto, receber dignamente?
Que posso eu pensar melhor e mais saudável do que humilhar-me profundamente diante de Vós e adorar a Vossa bondade infinitamente elevada acima de mim?
Louvo-Vos, ó meu Deus, e desejo que sejais bendito para sempre. Desprezo a mim mesmo e humilho-me diante de Vós, até ao profundo abismo da minha vileza.

3. Vós sois o Santo dos santos e eu sou a escória da escória dos pecadores. Vós não Vos dedignais de abaixar-Vos até mim, que não sou digno de levantar os olhos a Vós.
Vindes a mim, quereis estar comigo; convidais-me à Vossa mesa; quereis dar-mea comer o manjar celeste; quereis dar-me o pão dos anjos, que não é outra coisa senão Vós mesmo, pão vivo, que descestes do Céu e que dais a vida ao Mundo.

4. Eis aqui o excesso do Vosso nome, do vosso abatimento e da Vossa bondade. Quem poderá, por tão grandes benefícios, dar-Vos as graças e louvores que Vos são devidos? Oh! Quão salutar e proveituoso foi vosso desígnio, ao instruirdes este sacramento! Suave e delicioso banquete em que Vós mesmo Vos deste em alimento! Como são admiráveis as Vossas Obras! Quão grande o Vosso poder, queão inefável a Vossa palavra! Falastes e tudo foi feito. O que mandastes, executou-se logo.

5. É maravilha que transcende o conhecimento humano, mas digna de todo o crédito, que, sendo Vós verdadeiro Deus e verdadeiro homem, estejais todo inteiro nas pequenas espécies de pão e vinho, sendo comido por quem Vos recebe, sem que sofrais a menor destruição. Vós, Senhor de todas as coisas, e que de nada necessitais, quisestes habitar connosco, por meio deste Vosso sacramento.
Conservai, pois, sem mancha, o meu coração e o meu corpo, para que, com alegre e pura consciência, possa celebrar, frequentemente, os Vossos mistérios e recebê-los para a salvação da minha alma, visto que os instituístes e ordenastes, principalmente para Vossa glória e memória do Vosso amor.

6. Alegra-te, alma minha, e dá a Deus graça por um dom tão grade e por esta consolação tão singular que Ele te deixou neste vale de lágrimas.
Todas as vezes que celebras este mistério e recebes o corpo de Jesus, renovas a obra da tua redenção e participas de todos os merecimentos do Salvador.
A caridade deste Senhor não padece diminuição alguma e as riquezas da redenção que Ele adquiriu, em nosso benefício, jamais se esgotam. Prepara-te, pois, para este acto, com uma renovação espiritual constante e considerando este mistério com uma renovada atenção.
Todas as vezes que celebres, ou assistas à missa, faz como se fora pela primeira vez e como se Jesus Cristo, nesse momento, baixasse à Terra e encarnasse no sei da Virgem, ou então, que estivesse sofrendo e morrendo na cruz pela salvação de todos os homens.

20/07/15

AO PAIS E MÃES DE FAMÍLIA - POR S. CARLOS BORROMEU (I)

DOCUMENTOS COMPOSTOS POR S. CARLOS BORROMEU,
Arcebispo de Milão,

Para os Pais e Mães de Famílias,
para criar seus filhos honrando a Deus: com as bênçãos dadas por Deus para os bons, e maldições para os maus que não honram a seus pais e mães.
Tirados da sua santíssima vida por um devoto seu.

Ano de 1631
Con licença em Barcelona

[tradução: ASCENDENS]


DOCUMENTO I
Dos Pais e Mães de Famílias, Para Conservar a Paz Entre Si e a Família

Ofício do Pai de Família

Seja Cristão de nome e de obras. Honre e reverencie aos grandes, aos Sábios, aos Legisladores e às Leis;
Nas conversas, considere o tempo, o lugar, e as pessoas;
Procure não desagradar aos maus, procure agradar aos bons e prudentes;
Antes de travar amizade, considere com quem e qual o motivo;
Em todas as ocasiões, diga a verdade, e com poucas palavras;
Tenha á mulher para a geração e companhia; durante o dia não esteja triste nem alegre [mas sereno];
Não ponha a descoberto os seus segredos, nem os alheios;
Seja senhor absoluto de tudo o que tiver;
Não seja pródigo, por não ser vituperado;
Não seja avaro, para não ser blasfemado;
Estime a mulher nas coisas necessárias;
Não trave com ela contenda, nem a advirta em público;
Seja prudente no contratar, concluir, e obrar;
Não consinta que sua mulher vá ou se encontre "em velas", festas, e jogos;
Seja para sua mulher não apenas marido, mas também amoroso pai, irmão e mestre;
Supra no governo da família a falta da mulher;
Não torne a mulher demasiado rigorosa e desesperada, mas também não permita que ela esteja entregue aos seus gosto e seja dissoluta;
Não beije nem mime sua mulher na presença dos filhos ou filhas;
Não seja cruel em castigar, nem fácil em perdoar o erro cometido;
À mulher e família, torne-as mais temerosas com palavras do que com feridas e golpes;
Faça por vezes uma vistoria para ver se na sua casa e seus haveres não há perigos;
Dê a toda a sua casa o devido mantimento, assim como aos servos, ou o devido prémio acordado;
Ponha fora de sua casa o servo, ou criado que persevera em pecado, ou haja caído noutro mais feio que o primeiro;
Provenha adequadamente, e o mais necessário em casa, deixando-o então à custódia da mulher;
Não se ocupe tanto em juntar riquezas que chegue a esquecer-se daqueles a quem deve deixá-las;
Em ocasiões de floresta, festas, ou regozijos, não deixe tudo a cargo da mulher;
Fuja da inveja e dos zelos, e não se deixe vencer pela ira;
Levante-se cedo, e deite-se tarde;
Não se habitue, nem consinta que em sua casa haja costume de manjares regalados;
Recorde-se que antes de ser pai foi filho;
Crie seus filhos com temor e reverência;
Repare o escândalo de sua casa;
Esquive, ou prive os seus filhos de serem conversa e trato de muitos;
Adorne seus filhos de santa doutrina e de cortesia de criança;
O governo e criança [criação] de seus filhos, deixe-os apenas às pessoas doutas e de bom exemplo;
Busque ou procure  o dote para as filhas, e a mulher o procure para os filhos;
Nos feitos prósperos não se tenha elevado, nem pelos adversos fique abatido ou se faça vil;
Não ande nem consinta andar à noite;
Seja a sua regra: desejo de honra e temor de infâmia;
Como o mar desgasta a rocha ferindo-a e batendo nela, assim o marido vagabundo faz com sua mulher;
É melhor mandar em mulher feia, que obedecer a mulher formosa.


DOCUMENTO II

Da Mãe de Família

Fazer todos os dias oração a Deus rogando pelo marido e pelos filhos;
Ler livros apurados pela Igreja;
Contentar-se pelo marido que Deus lhe deu;
Sujeitar-se ao marido como sua cabeça;
Amar o marido, e não formosura, força, ou riqueza dele;
Amar no marido a bondade, a modéstia, e a prudência;
Imitar o marido, não cuidando senão das coisas lícitas aos dois;
Não fazer coisa fora do cuidado da família sem licença do marido;
Não fazer, nem dizer uma coisa por outra ao marido [enganar];
Nunca responda mandando à cara do marido ........ [?];
Na conversação não ultraje nem faça vil o marido;
Ao marido e aos maiores não interrompa ou impeça o raciocínio ou prática;
Para o seu marido seja mansa, amorosa, e constante;
Às questões do marido responda com verdade e prontidão;
Olhe o marido e os filhos com rosto alegre;
Alimente os seus filhos com leite próprio;
Quando não há obrigações de preceito e o marido está enfermo, não deve ir à igreja;
Guarde os segredos do marido e não os conte a pessoa vivente;
Não tenha trato, nem conversações, senão com o marido e filhos;
Seja amorosa e agradável, tanto no fazer como no dizer e no ordenar;
Estime e respeite o marido ausente, como se estivesse presente;
Não aceite presentes senão dos parentes não afastados;
Fuja da curiosidade de saber dos feitos alheios;
Não fale dos homens sem que disso haja concreta necessidade;
Quando não é escusado falar, que seja com poucas palavras;
Não fale, nem consinta que se fale em segredo;
Não se afeiçoe mais a um filho que a outro;
Nunca diga nem ensine a dizer "isto é meu, isto é teu";
Ensine com o próprio exemplo, e não com gritos e ameaças fora da necessidade;
Não consinta praticar, ou que entrem em casa pessoas infames, de má vida e más mãos;
A criada que uma vez "errou", ou "caiu em erro", não a tenha em casa;
Não faça cara de esquiva, ou de melindrosa, e muito menos de desavergonhada;
Não escarneça, nem zombe de ninguém, fazendo gestos ou cara feia;
Não demande nem pergunte ao marido mais do que aquilo que ele possa e queira dizer;
Não escute nem fale de coisas ilícitas;
Não creia em superstições, encantamentos ou "sonhos";
Não vá a diversões, porque nem voltará melhor;
Leve cara limpa, não depilada, vestindo-se em conformidade com o seu estado;
Nunca deixe que as filhas e criadas andem ociosas, mas sim exercitadas em alguma actividade.

(continuação, II parte)

A VERDADE E O ABORTO - Cardeal Arinze

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Do vídeo apenas quisemos publicar a parte que vai até aos 2:42 min.

18/07/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXVII)

(continuação da LXXXVI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

IV Livro
O Augustíssimo Sacramento do Altar


Cap. I
A Extrema Bondade que Jesus Cristo Nos Manifesta Dando-nos o Seu Santo Corpo

1. Cristo – Vinde a mim todos os que estais fatigados e oprimidos, e eu vos consolarei. O pão que eu vos dera é a minha carne, a qual devo sacrificar pela vida do mundo. Tomai e comei; este é o meu corpo, o qual será entregue por amor de vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue vive em mim e eu viverei nele. As palavras que vos digo são espírito e vida. 

Alma – Estas Vossas palavras, Ó Jesus, são a verdade eterna, posto que não fossem proferidas em um mesmo tempo nem escritas em um mesmo lugar. Pois que elas são Vossas e são verdadeiras, eu as devi receber com acções de graça e fielmente. Elas são Vossas, porque Vós as proferistes, e também são minhas, porque as dissestes para minha salvação. Como alegria as recebo da Vossa boca, para que se imprimam profundamente no meu coração. Palavras cheias de tanta piedade, de tanta doçura e de tanto amor, elas me estimulam, mas os meus próprios delitos me enchem de temor e a impureza da minha consciência me proíbe de participar de tão grade mistério. A doçura das Vossas palavras me convida a Vos receber, mas o peso e o número dos meus pecados me apartam de Vós.

2. Mandais que chegue a Vós, com confiança, se quero ter parte Convosco, e que receba o alimento da imortalidade, se desejo alcançar uma vida e uma glória que durem para sempre. "Vinde a mim, vós que estais fatigados e oprimidos, e eu vos consolarei."
Ó palavra, a mais doce, a mais amável, que um pecador pode ouvir! Por ela vos dignais, o meu Deus e meu Senhor, convidar o pobre e o necessitado à participação do Vosso corpo santíssimo! Mas, quem sou eu, Senhor para que me chegue a Vós? Toda a imensidade dos Céus não Vos pode conter; e Vós dizeis: "Vinde a mim."

3. Quem pode conceder esta piedosíssima bondade e este amoroso convite?
Como me atreverei a chegar a Vós, eu que não sinto em mim bem algum que possa dar-me confiança bastante para ir a Vós?
Como não temerei fazer-Vos entrar na casa da minha alma, depois de Vos haver ofendido tantas vezes?
Os anjos e os arcanjos Vos reverenciam; os santos e os justos temem a Vossa presença, e Vós dizeis: "Vinde até mim todos."
Quem creria isto, se Vós, Senhor, o não dissésseis? Quem se atreveria a chegar a Vós, se Vós mesmo o não mandásseis?
Noé, que era tão justo, trabalho cem anos na fábrica da arca, a fim de nele salvar-se com poucas pessoas. Como poderia eu preparar-me em uma hora, para receber com reverência na minha alma o criador do Mundo?

4. Moisés, Vosso grande servo e Vosso amigo especial, fez uma arca de madeira incorruptível e cobriu-a de ouro puríssimo, para nela colocar as tábuas da Lei; e eu, que não sou senão uma criatura corrupta, atrever-me-ei a receber na minha alma o próprio legislador e supremo autor da vida?
Salomão, que foi o mais sábio dos reis de Israel, empregou sete anos para edificar um templo magnífico, à glória do Vosso nome; celebrou a sua dedicação pelo espaço de oito dias; ofereceu mil hóstias pacíficas: colocou solenemente a Arca da Aliança no lugar santo que lhe tinha sido preparado, ao som de trombetas e aos gritos de alegria de todo o seu povo. E eu, infeliz, o mais pobre de todos os homens, como Vos introduzirei na minha casa, se apenas posso aplicar a Vós escassa meia hora? Oxalá que, ao menos uma vez, empregasse dignamente esse tempo.

5. Ó meu Deus, quanto trabalharam estes santos para agradar-Vos! Ai de mim, que tão pouco faço e tão pouco tempo gasto em dispor-me para a Santa Comunhão! Raramente me recolho por completo e raríssimas vezes desterro do meu espírito todas as distracções. Seria justo que, na presença da Vossa Majestade, não atendesse eu a pensamentos pecaminosos, pois não é um anjo que devo receber no meu coração, mas o Rei dos anjos.

6. Há uma grandíssima diferença entre a Arca da Aliança, com tudo o que ele continha, e o Vosso Corpo puríssimo, com todas as graças e dons inefáveis de que é revestido. Grandíssima diferença existe entre os sacrifícios da Lei, que não eram mais do que uma figura das maravilhas futuras que devíeis fazer, e a verdadeira hóstia do Vosso Corpo, que vem completar todos os sacrifícios antigos. Porque, pois, não me abraso no Vosso amor, à vista da Vossa adorável presença? Porque não me preparo com mais cuidado para receber os Vossos santos mistérios, considerando quanto os antigos patriarcas, profetas, reis e príncipes mostravam tanta paixão rendendo o culto que Vos é devido?

7. David, o piedoso rei, dançou diante da arca, lembrando-se dos benefícios concedidos antigamente a seus pais; fez diversos instrumentos de música; compôs salmos; ordenou que se cantasse com pela graça do Espírito Santo. Ensinou os filhos de Israel a louvar a Deus, de todo o seu coração, e a aplaudi-lo todos os dias por um era reverenciada com tanta devoção; se houve tanto cuidado de louvar a Deus diante dela, que respeito e que devoção não devo ter eu e todo o povo fiel, quando nos achamos na presença do augustíssimo sacramento ou recebemos o corpo de Jesus Cristo?

8. Muitos correm diversos lugares para visitar as relíquias dos santos, para admirar as acções de suas vidas, contemplar com assombro a grandeza e magnificência de suas igrejas, e beijam os seus ossos sagrados, envoltos em ouro e seda.
E eu Vos vejo, meu Deus, que sois o Santo dos santos, o Criador dos homens, o senhor dos anjos, presente sobre o altar.
Os homens muitas vezes vão às igrejas, chamados pela curiosidade ou pela novidade, e tiram pouco proveito de emenda, principalmente quando nelas entram por motivos tão levianos, sem ser tocados por verdadeira contrição. Esquecem que, no sacramento do altar, estais presente como Deus e como Homem e, quando Vos visitamos dignamente, nos encheis de graças que nos fazem eternamente felizes. Não é um movimento de leviandade, de curiosidade ou de sensualidade que nos atrai a Vós, mas uma fé firme, uma esperança viva e uma caridade sincera.

9. Ó Deus, criador invisível do Mundo, quem não admirará o modo com que procedeis a nosso respeito? Quem pode suficientemente descrever esta doçura e bondade, que tendes com os Vossos escolhidos, aos quais ofereceis como alimento este augusto sacramento? Isto é o que transcende a nossa compreensão. Isto é o que mais atrai as almas que Vos são consagradas e que mais acende os seus afectos. Neste sacramento inefável é que os Vosso fiéis servos, que trabalham, de contínuo, em purificar-se de todos os seus defeitos, recebem a grande graça da devoção e um novo amor da virtude.

10. Ó graça admirável e oculta neste sacramento, conhecida só dos fiéis de Jesus Cristo, mais ignorada dos infiéis e dos escravos do pecado! Este mistério infunde em nossa alma a graça do Espírito Santo; recupera-lhe as forças perdidas; restitui-lhe a formosura que a fealdade do pecado lhe tinha roubado. Esta graça é, algumas vezes, tão abundante e dá ao homem um tão grande fervor de devoção, que não só a sua alma, mas o seu mesmo corpo sente, apesar da sua fraqueza, haver recebido maiores forças.

11. Nós deveríamos sentir e chorar a nossa negligência e tibieza, vendo o pouco fervor com que recebemos a Jesus Cristo, que é toda a esperança e fez todo o merecimento dos Seus escolhidos. Ele é a nossa santidade e a nossa redenção. Ele é a nossa consolação no deserto desta vida, como é no Céu a eterna felicidade dos santos.
Deve, pois, para nós, ser grande motivo de dor ver que tantas pessoas têm tão pouco afecto a este santo mistério, que é a alegria do Céu e a salvação do Universo.
Ó cegueira e dureza do coração humano, que tão pouco atende a um dom tão inefável e que, pelo uso de o receber, se distrai na inadvertência de que o recebe!

12. Se este sacramento fosse celebrado num só lugar e consagrado por um só sacerdote em todo o Mundo, que respeito não teriam os homens por este único sacerdote! E com que ardor não assistiram à celebração dos santos mistérios! Mas o amor de Deus quis que houvesse muitos sacerdotes e Jesus Cristo se oferecesse em muitos lugares, para que se estendesse a comunhão do seu Santo corpo por todo o Mundo.
Graças Vos sejam dadas, ó bom Jesus, pastor eterno, que Vos dignastes sustentar os pobres e desterrados, com o Vosso precioso corpo e o Vosso precioso sangue, e convidar-nos com palavras preferidas por Vossa sagrada boca à participação destes mistérios, dizendo: "Vinde a mim, todos os que estais fatigados e oprimidos, eu vos consolarei."

15/07/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXXVI)

(continuação da LXXXV parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO

Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações
 

Cap. LIX
Devemos Pôr Somente em Deus Toda a Nossa Esperança

1. Alma – Senhor, qual é a confiança que posso ter nesta vida?
Ou qual é a minha maior consolação entre todas as coisas que existem debaixo do sol? Porventura não sois Vós, meu Senhor e meu Deus, cuja misericórdia não tem limites? Onde me foi bem sem Vós? Que mal posso eu sentir estando Convosco? Mais quero ser pobre por amor de Vós do que rico sem Vós. Mais quero peregrinar no mundo Convosco do que possuir o Céu sem Vós.
Onde estais, está o Céu; onde não estais, está a morte e o Inferno. Vós sois o objecto dos meus desejos; por isso é necessário que Vos envie os meus gemidos, as minhas orações e os meus clamores.
Em ninguém posso confiar inteiramente, de ninguém posso esperar os imediatos socorros às minhas necessidades, senão de Vós, ó meu Deus.
Sois a minha esperança e a minha confiança; sois em tudo o meu consolador.

2. Todos buscam os seus próprios interesses; Vós, porém, não buscais senão a minha salvação e o meu aproveitamento, fazendo que tudo seja em minha utilidade.
Ainda que muitas vezes me exponhais a tentações e trabalhos, contudo ordenais estes sucessos ao meu bem particular, pois é Vosso costume provar de mil modos os Vossos escolhidos.
Assim, eu não devo amar-Vos e louvar-Vos menos nestas provas do que se me prodigalizásseis as Vossas celestes consolações. 

3. Em Vós, pois, meu Deus, ponho toda a minha esperança e refúgio. No Vosso seio lança todas as minhas tribulações e angústias, pois fora de Vós não vejo senão fraqueza e insegurança.
Não acho amigos que me sirvam, poder que me sustente, sábio que me aconselhe, livro que me console, tesouros que me protejam, retiro que me assegurasse defesa; mas em Vós encontro o amigo que me assiste, o protector que me sustenta, sábio que me ensina, a verdade que me consola, o tesouro que me enriquece, o asilo que me põe em segurança. 

4. Tudo o que parece conduzi-me à posse da felicidade e da paz nada significa sem Vós; nem, com efeito, pode fazer-nos verdadeiramente felizes.
Vós só, ó meu Deus, é que sois o fim supremo de todos os bens, o centro da vida, o profundo abismo da ciência.
A mais completa consolação dos Vosso servos é pôr em Vós toda a sua esperança.
A Vós elevo os meus olhos, me Vós espero, meu Deus e Pai de misericórdia.
Abençoai e santificai a minha alma com a Vossa bênção celeste, para que ele venha a ser a Vossa santa morada, o trono da Vossa eterna glória, e para que não se ache no Vosso tempo coisa que Vos possa ofender.
Olhai para mim segundo a grandeza da Vossa bondade e a amplitude das Vossas misericórdias.
Ouvi a oração deste Vosso pobre servo, que vive desterrado de Vós na região das sombras da morte.
Amparai e conservai a alma do Vosso servo, exposto a todos os perigos desta vida corruptível.
A Vossa graça me acompanhe sempre e ela me conduza, pelo caminho da paz, à pátria da perpétua claridade. Amém.

03/07/15

CANONIZAÇÃO DE ISABEL A CATÓLICA!

Isabel, La Católica

(texto experimental)


Caros leitores,

Isabel de Castela, mais conhecida por Isabel a Católica (título de Católicos atribuído pela Santa Igreja à Coroa castelhana, à perpetuidade), desde o tempo em que reinou, tem tido grupos promotores; a saber:

- O primeiro grupo é principalmente constituído por nobres rebelados contra o rei Henrique IV de Castela, os quais tentaram levar ao trono Isabel de Castela (da forma mais legítima que lhes fosse possível - eis uma preocupação que se deve à irregularidade da sucessão de Isabel ao trono);
- Os restantes grupos, adeptos da "hispanidad", que começaram a formar-se desde o séc. XIX por necessidade de defesa interna de Espanha  (durante e depois da conquista liberal). A criação de uma resistência interna requeriu o esforços de convergência interna (para este efeito era necessário um projecto e modelo de identidade comum, apresentável e simples, digno e que inspirasse. A palavra hispanidad nasce antes da definição do conceito (foi dado para substituição do "dia da raça"). Alguns intelectuais reuniram e interpretaram aquilo que poderíamos chamar de elementos históricos-simbólicos, produziram obras em torno deste conceito; todos os esforço foram feitos na busca dos fundamentos para aquilo que se tinha  como "essência de Espanha". Novos intelectuais surgiram já na linha desta "militância", ou aderiram a ela pela aceitação do seu legado. Como ocorrida a maior parte dos maiores feitos da Espanha em tempo de Isabel a Católica, e como a militância vive em torno do processo de exaltação nacional, nada mais esperado que a gradual "dogmatização" do corpo teórico-sibólico, o qual clama pela canonização da "cara" dos mesmos feitos: Isabel a Católica. Têm sido muitas as tentativas para retomar a beatificação de Isabel, tema que anda impresso em muitas e muitas páginas, difundido em muitas horas em palestras, e espelhado num sem fim de outros esforços.

Em tempos de Isabel a Caótica os acontecimentos de grande destaque estão dentro do que é da providência divina, obviamente! O Papa da época era Alexandre VI, espanhol, tratou das principais disputas relativas às descobertas por mar (e sempre favorável a Castela e Aragão), e atribuiu à Coroa de Castela o título de Católicos, que significa "universais". A documentação dos feitos deste período, depois de selecionada, tem sido o alicerce daquela interpretação simbolica-histórica promovida pelos adeptos da hispanidad, os quais chegam a afirmar que Espanha "é a filha predileta da Igreja".

Isabel a Católica é a cara desses feitos espanhóis, por estar à frente do Reino.

Com uma elevação de Isabel a Católica aos altares os militantes esperam consequentemente uma a "oficialização" da sua interpretação historico-simbólica (ou seja, a confirmação do conceito de "hispanidad" com a sua versão histórico-simbólica, tornar heróis aqueles antigos nobres da  facção, tornar inquestionável a legitimidade da subida de Isabel a Católica ao Trono de Castela, retirar algum peso na má fama do Papa Alexandre VI, e entre tantas outras coisas assegurar como definitivo título de descobridores e evangelizadores da América etc.).

A Santa Igreja tinha já feito Venerável a Isabel a Católica. No entanto o processo de Beatificação foi-lhe encerrado, e nunca mais se voltou ao assunto (como deve ser). Séculos passaram, e eis que os adeptos militantes da "hispanidad" tentam agora abrir novo processo montados em dois argumentos: que o título de Venerável já é confirmação de "virtudes heroicas" (nem todos usam este debilíssimo argumento), e que a Santa Igreja tinha já permitido certo culto não privado a Isabel a Católica, o qual se tem mantido, e que isto dá passo à reabertura do processo. Só alguma matéria credível em contra de Isabel a Católica poderia frustrar as mais acalentadas expectativas.

O desgaste muito tem feito e desfeito, tanto é o empenho dos adeptos da "hispanidad" por elevar a "Espanha" (conceito que usam com contradição, porque o usam conforme as conveniências de momento). Elevando a Espanha, se elevam a si mesmos. Têm uma visão histórica engrandecedora da Espanha, no passado, no presente, e até no futuro. Estas certezas futuras sobre uma missão histórica da Espanha também no futuro, tem reunido os esforços para eliminar todos os elementos que criem dificuldades, ou sejam alternativa à ideia de "Espanha redentora" (que sob si levará os povos à restauração do Cristianismo).

Já muito escreveram, debateram, gastaram capital, sofreram e fizeram sofrer para colocar Isabel a Católica num pedestal que nunca a Igreja lhe atribuiu até agora. Por isso, nenhum de nós acharia justo calar alguma prova a respeito de Isabel la Católica, tanto para a sua beatificação como para a secessão completa e definitiva destas tentativas.

(incompleto)

02/07/15

DANÇA DOS PAULITEIROS - MIRANDA (norte de Portugal)

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REFUTAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DOS PEDREIROS ILUMINADOS (V)

(continuação da IV parte)

CAPÍTULO V
Se à Pública felicidade contribua mais a Filosofia dos Iluminados, se a Religião.

deus Razão
Os Pedreiros produzem sobre isto o sentimento, o facto, e a razão. Ora sofreram em paz que eu contraponho sentimento a sentimento, facto a facto, e razão a razão. O vosso primeiro sentimento, a vossa primeira persuasão é esta, que a Religião se ajusta pouco à felicidade pública. Eu respeito como devo a vossa autoridade, mas observai, eu vos rogo, uma coisa estupenda. Os Minos, os Licurgos, os Prtágoras, os Sócrates, os Platões, e tantos outros deste carácter, que não eram por certo nem Clérigos, nem Monges, nem Frades, mas que eram Políticos, eram Filósofos, eram Príncipes, eram legisladores, todos eles eram de sentimento oposto, e contrário ao verso, e de tantos homens prudentíssimos, e sempre desejosos do bem público, não houve um só que introduzisse em sua República a irreligião, ou descoberta, e patente, como fazem os Ateus, ou coberta, e embuçada como vós o praticais. Não houve um só de tantos homens famosos, que não constituísse por primeira base de um bom governo aquela mesma Religião, que vós teimosamente rejeitais, quero dizer, Religião fundada sobre a divina remuneração e Providência. Trocava pois a um Epicuro, homem novo no Mundo, e tão alheio dos públicos negócios, como os seus Deuses, e tocava a seus Secretários, com ele tão cabalmente parecidos, iluminar sobre um objecto tão essencial os primeiros homens do Estado, os primeiros sábios, os primeiros legisladores! Grande e estranhíssimo paradoxo! E vós, Iluminados, que tanto procurais engrossar, e reforçar o Exército Epicureu, quem sois? "Homens iluminados, e iluminadores." Sim, isso sabia eu; mas nunca julguei que vos pudésseis medir com as personagens que vos acabo de nomear, exemplos de experiência, de sabedoria, e honrada humanidade. Vós não quereis a Religião como uma coisa prejudicial ao bem público, aqueles pelo contrário, queriam a Religião como uma coisa útilíssima ao bem público. Qual destes sentimentos seja o mais digno de fé, e de apreço, nós o poderemos julgar pelo carácter dos indivíduos, uns Legisladores dos Povos, outros Subvertedores das Sociedades.

Não nos esqueçamos desta primeira parte do paralelo, e avancemos o passo para a segunda muito mais sólida, porque se trata de facto. Em coisa nenhuma são os Iluminados tão eloquentes como em expor os males ocasionados pela Religião. Dirão, com uma erudição espantosa, o que se tem passado no mais recôndito gabinete do Imperador do Mogol, o que se acha dito no conselho privado do Kan da Tartária: nem os obrigue ninguém a lhe produzir os documentos autênticos; tudo é certo, porque só eles o sabem: conservam um copioso depósito de historietas nunca vistas, que se chamam, há pouco tempo, anedotas; sabem mui bem servir-se delas, fazendo com tais notícias, não imagens, mas grotescos da Religião. Não devo perder tempo, combatendo, em tais factos, o muito que neles tem que combater a crítica discreta, e luminosa; nem quero examinar se os verdadeiros males hajam nascido da Religião, ou de algum erro acidental, e particular em matéria de Religião; se hajam nascido da Religião, ou de alguma paixão debaixo do pretexto de Religião; nem quero, outro sim, queixar-me da torpe injustiça de atribuir à Religião em geral, o que é vício de alguma Religião em particular, e, o que é ainda muito pior, de atribuir o vício de uma Religião que o aprova, a outra Religião, que o condena: esqueçamo-nos de tudo isto, e considere-se em si mesma a Religião São acaso muitos, grandes, e horríveis os males, que ela ocasionou? Sejam; eu não contesto um só; mas digam-me os Iluminadíssimos Pedreiros, são mais os males que a Religião causou, ou os que ela impediu? São maiores os males que ela trouxe, ou os bens? É preciso que insistamos nisto para decidir com prudência, se a coisa é útil, ou nociva. Se consideramos os males que acontecem, sem mais nada, que coisa pode haver que se não possa reputar nociva? Quantos estragos tem causado o ferro, e quantos incêndios devoradores o fogo? Este mesmo Céu visível, e mataria, se nos lembramos unicamente dos tufões, dos dilúvios, dos temporais desfeitos; este Céu, que é a honra, e a salvação da Terra, nos parecerá por certo o luto, e o extermínio da mesma Terra. Logo, para julgar das coisas direitamente, se devem balançar os males com os bens, e se se comparam os males com os bens causados pela Religião, que juízo devemos fazer da mesma Religião?

Eis aqui sobre esta matéria dois factos inegáveis, segundo entendo, e por si mesmo: decisivo: o primeiro, que a despeito e todos esses males, ou verdadeiros, ou imaginários, em todos os estados a Religião se tem conservado imóvel, estável, inconcusa, e permanente. Ficam leis abolidas, abolidas as modas, abolidos os costumes; e se alguma vez variou a Religião, nunca foi inteiramente abolida. Os mesmos Políticos mais irreligiosos quiseram sempre em público alguma Religião, temendo que sem ela se subvertesse a sociedade humana. É preciso concluir que a Religião, até politicamente considerada, é um grande sustentáculo dos Estados.

O segundo facto ainda é mais decisivo, pois se observou não só uma vez, mas inumeráveis vezes, quero dizer, a Religião esplendidamente ligada com a felicidade pública Falarei do antigo Egito, tão celebrado por sua glória, e riqueza, como por sua Religião? Quem não conhece a antiga Creta, e a antiga Esparta, ambas conhecidas por sua diuturna felicidade? E quando lhes começou esta felicidade? Quando ambas foram consagradas pela Religião! E quem o disse? Um Filósofo, e talvez o maior que existira entre os Gregos, Sócrates: assim o vemos no Diálogo de Platão intitulado Minos. Eis aqui suas palavras convertidas em latim pelo grande Marcilio Ficino: "Creta per omne tempus est feliz, ac etiam Lacedemon, ex quo iis legibus, utpote divinis uti coepit." E qual foi o tempo em que mais floresceu a Pérsia, Atenas, e Roma? Não foi a primeira no tempo do grande Ciro, a segunda no de Aristides, e a última no de Fabrício até ao Menor Africano? Foram verdadeiramente aquelas as idades de ouro, não, quais vós a imaginais, sem censor sem leis, sem temores, mas idades cheias daquela Religião a quem vós chamais tirania, a qual senhoreava não só espírito dos povos, mas o dos mesmos Soberanos. Apélo para a fé da mais autorisada Histódia: Heródoto, Xenofonte, Políbio, Tito Lívio, C. Nepote andam pelas mãos de todos. Se acabou a felicidade e se extinguiu o a fé pública, e particular, se as dignidades se tornaram veniais, e se transformaram em públicas oficinas de latrocínio, se os Tutores do Estado se fizeram traidores, se, alterada a ordem, perturbado o repouso, quebrada a paz, os Cidadãos voltaram o ferro contra as entranhas da mãe comum, qual foi o motivo? Ouvi, Iluminados, um Epicureu ilustre, tantas vezes escarnecedor satírico da sua Religião, e depois acusador acerbo da irreligião que conheceu tão funesta à sua Pátria, Horácio, o qual, confundido, e magoado à vista de tantas desgraças que oprimiam a sua  Pátria, exclamava: "Para que nos admiramos da aluvião, que nos inunda, se, despedaçado o dique, já não há medo, nem respeito aos deuses? E de que maneira poderemos reparar os danos que nos flagelam? Em vão o esperas, ó Roma, (continua o convertido Poeta) em vão o esperas, se primeiro não espiares os ultrajes feitos aos Numes." Que mais? O grande Lírico, com força, e sublimidade digna do argumento, não duvida atribuir à Religião toda a passada prosperidade, e de inculcar, e criminar a irreligião das presentes desventuras. Epicureus, e Iluminados que respondeis a este Epicureu, a este Romano iluminado?

Chama-me agora aquele interprete, General, e Censor, o grande Bayle, o qual tem a ousadia de afirmar, que em quanto ao externo viveria uma Comunidade de Ateus do mesmo modo que vive uma Comunidade de homens que professam Religião. Se isto fosse verdade, ó Iluminados, seria falso o que afirmais, que a pública felicidade não se pode concordar com a Religião. Se a vida é a mesma, porque não será a ventura também a mesma? Mas Bayle diz, que seria o mesmo viver; e como o prova? Onde estão os factos, e factos dignos, conspícuos, e autorizados? Eu tenho produzido a favor da Religião, os Egípcios, os Cretenses, os Espartanos, os Persas, os Atenienses, os Romanos; citei os legítimos testemunhos, e posso produzir factos, e testemunhos ainda mais solenes. Onde guarda Bayle seus factos, e seus testemunhos? Decaíram acaso os Romanos do tempo de Horácio juntamente com a Religião? Onde estão os Hotentotes, os Caraíbas, os Topinambás, ou outra qualquer raça de gente, conhecida apenas quanto baste para excitar a nossa compaixão? Dir-se-há que Bayle para prova do seu dito, tem da sua parte a razão? Mas eu respondo, que se exigem factos, e não razões; os factos, cuja linguagem é mais sensível, e mais conveniente; e acrescento, factos de grandes populações inteiras, quais são os que eu alego, e produzo. Que poucos homens escolhidos, conformes de génio, concordes em ideias possam por algum tempo viver civilmente sem Religião, isto não é o ponto aqui controverso; mas um povo sem Religião, se se acha, só poderá ser no meio da mais bestial barbaridade, qual não viu, ou não fingiu Fernão Mendes Pinto. Aí se achará então a idade do ouro, aí a preconizada felicidade, e quem por ela tanto suspira, vá tranquilamente habitar no meio deste povo. Mas já que me provocam ao campo da razão, de bom agrado entro neste campo, pois é confirmadora do facto; e juíza do sentimento. E que grandes objectos devemos tratar! O princípio, a essência, os meios, e os modos da pública felicidade.

(a continuar)

REFUTAÇÃO DOS PRINCÍPIOS DOS PEDREIROS ILUMINADOS (IV)

(continuação da III parte)

CAPÍTULO IV
A Religião Conduz Mais Para a Felicidade Humana que a Filosofia dos Iluminados

Os Pedreiros, segundo eles dizem, são os únicos depositários a verdadeira, e sólida felicidade, e bradam que ninguém a pôde encontrar fora da sua escola. Eu me alegro muito com eles por tão ditosa sorte! Mas é preciso que me digam, se estão bem seguros que felicidade seja esta, onde, e como exista? Sobre este objecto, eu descubro como envoltos em sombras os mais famosos Filósofos, incertos sempre, e sempre discordantes. Epicuro decide tudo, e com ele os Pedreiros tudo decidem, limitando, e circunscrevendo esta felicidade à presente existência; e parecendo-lhe que esta vida só se pode tornar agradável debaixo dos auspícios da sua Filosofia, inferem que para a felicidade é propícia a mesma Filosofia, e que lhe é contrária a Religião. Mas que discorrer é este? Que sabe, exclama o Filósofo, e Poeta Eurípides, se esta vida é morte, e se a morte é uma verdadeira vida? Falemos mais claro. E se existir para nós uma outra vida, e um outro Mundo, onde um Supremo Senhor potentíssimo, que se chama Deus, encher os que o amam, e temem de bens de outra natureza que não são estes que aqui se sentem, e acumular seus ultrajadores, e inimigos, de penas gravíssimas; como, não só Jesus Cristo, mas Tales, Pitágoras, Sócrates, e Platão, e outros Filósofos gravíssimos imaginaram, e julgaram; onde iria topar aquele raciocínio? Onde terminaria, limitando tudo ao tempo presente, onde a felicidade é tão breve, incerta, e precária, como nos mostra não só a Filosofia, mas a quotidiana experiência. Não seria nosso proceder mais imprudente que o dos mais imprudentes meninos dados todos a pueris divertimentos, para caírem depois na idade madura na desonra, e na miséria? É possível que vós tão iluminados e tão sábios, vos entregueis de todo o coração a estas ninharias, sem curar de coisas tão sérias que ainda devem existir?

"Mas a Religião é pesada, e incómoda!" Grande razão, grande coartada! Também para o menino é pesado e incómodo o estudo das boas artes, e lhe são mais agradáveis seus brincos e pueris ocupações; e porventura são para ele felicidade estes brincos, e passatempos? Muito má seria a escolha de rir alguns dias, para chorar depois por muitos meses, e anos. E quem vos diz, ó Iluminados, que esta sorte não seja a vossa? Deixemos esta grande questão, e pois quereis com Epicuro, que nos façamos de alguma maneira meninos, restringindo-nos à felicidade do tempo, e lugar presente, consideremos as pinturas que nos fazeis tanto de nossa Religião, como da vossa Filosofia. A nossa Religião, como já disse, legisladora, e remuneradora das acções humanas, é para vós uma tirania imperiosa, que perturba o espírito, agita a fantasia, inquieta o coração, enche-o de terrores, e o impele e move a acções furiosas, e inumanas, e vós, muito melhor que Epicuro e que Lucrécio, correis a terra, e os mares para fazer uma colheita de quantas extravagâncias, maldades, e atentados se executaram por motivo de Religião, e concluís com o nobre epifonema de Lucrécio: "Tantum Religio potuit suaere malorum!" E entre tantos males poderá haver felicidade? "Logo (continuam os Iluminados), sacudido o jugo desta tirania, tudo será suavidade, e repouso; que ditosa sorte é não ter que pensar mais que nessa terra, e nesta vida! Nós podemos meter debaixo dos pés tudo quanto se nos diz existente além da vida como outros tantos sonhos de enfermos, ou loucas ficções de romances. Peguemo-nos só a este terreno que se nos deu para habitação, e façamos que nele domine a iluminada, e iluminadora Filosofia; ver-se-há à sua sombra renascer a idade de outro, e idade da alegria, e da tranquiliza paz, sem censor, sem leis, sem temores.

Eis aqui os medos com que muitos se apartam da Religião; e eis aqui os atractivos com que tantos se deixam enredar nos laços desta Filosofia, como os companheiros de Ulisses com o canto das Sereias; mas só a chusma incauta se deixa fascinar destes sons lisonjeiros; os Ulisses, e os verdadeiros Filósofos não são de tão bom paladar; escute-se por todos, escute-se não um Padre, um Pastor, um Doutor da Igreja, mas um Político, um Orador, um Filósofo do Paganismo, um Pai, e conservador da Pátria, um Luminar claríssimo da maior República que existiu, um Marco Túlio Cícero, que levanta a douta, e livre voz contra as fascinações Espicúrias: "Que Filosofia é esta que se nos apresenta com tantos atrativos? Promete fazer-me em um instante bem-aventurado; porém que traz ela consigo que seja feliz, e glorioso? Quid habet ista res auto laetabile aut gloriosum?" Palavras de grande, e profundo sentido, e que expedidas darão um decisivo golpe na tão preconizada Filosofia. E o terrível aspecto e que se representa a Religião, não é uma caricatura enorme, ou uma horrível submersão? Considerem os Pedreiros o que dizem, e verão que nos insinuam, que o homem deixado a si só é felicíssimo, mas que perderá repentinamente esta felicidade, uma vez que fizer entrevir a Divindade nas coisas humanas.E não vos horroriza esta proposição? Como! Pois a Providência de Deus é a infelicidade do homem? O homem não poderá ser feliz, se Deus não for ocioso? O Ente que é por essência óptimo, e perfeitíssimo, é um péssimo Regedor do que ele mesmo criou? Podeis chegar a blasfemá-Lo tanto, que indirectamente lhe chameis crudelíssimo Tirano, chamando tirana a Religião que de um Deus tira sua norma, e existência? Ideia horrível da Divina natureza, ou mais depressa estranha ideia de humana felicidade! É preciso que tão grave matéria se exponha em maior luz, e já que é de dois modos a felicidade que se nega à Religião, e se atribui à Filosofia, quero dizer, a felicidade pública, e a felicidade particular, comecemos o exame, e confrontação da primeira para abrirmos passagem à segunda. Como, e porque meios seja o homem feliz, ou desgraçado, são coisas que cumpre muito saber, e é muito nocivo ignorar.

(continuação, V parte)

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