30/04/15
IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXVII)
(continuação da LXXVI parte)
A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis
III Livro
A Fonte Das Consolações
A Fonte Das Consolações
Cap. L
Como o Homem Atribulado Se Deve Entregar Nas Mãos De Deus
1. Alma - Deus, Senhor, Pai santo, sejais bendito agora e em todos os séculos, porque tudo foi feito segundo a Vossa vontade e o que fazeis é bom.
Alegre-se o Vosso servo, não em si, ou em outro, mas somente em Vós, que sois a minha alegria, a minha esperança, a minha felicidade e a minha coroa de glória.
Senhor, que possui o Vosso servo senão o que recebeu de Vós, apesar de não o ter merecido?
É Vosso tudo o que destes e fizestes. Pobre sou e vivo em trabalhos, desde os meus tenros anos.
A minha alma algumas vezes se entristece, até verter lágrimas, e algumas vezes se perturba, vendo-se oprimida pelas paixões.
2. Desejo a alegria da paz, peço a paz de Vossos filhos, que apascentais na luz das Vossas consolações. Se me dais a Vossa paz, se derramais em mim a santa alegria, a alma do Vosso servo de nada mais se ocupará senão de entoar os Vossos louvores. Mas se Vos apartais, como fazeis muitas vezes, ela não poderá percorrer o caminho dos Vossos mandamentos. Restar-lhe-à curvar-se e, ajoelhada, bater no peito, por lhe não ter ido tudo como lhe ia ontem e antes de ontem, quando sobre a sua cabeça brilhava a Vossa lâmpada e debaixo das Vossas asas se sentia ao abrigo das tentações.
3. Pai justo e sempre louvável, é chegada a hora em que o Vosso servo deve ser provado. Pai infinitamente amável, é bem justo que o Vosso servo sofra nesta hora alguma coisa por Vosso amor. Pai soberanamente adorável, eis aqui a hora que previstes desde a eternidade, na qual o Vosso servo deve, por algum tempo, estar abatido exteriormente, para viver sempre Convosco espiritualmente. Seja ele humilhado, seja desprezado, seja aniquilado diante dos homens, seja oprimido de sofrimentos e enfermidades, a fim de que ressuscite Convosco na aurora da eterna luz e entre na posse da glória do Paraíso. Pai santo, Vós assim ordenastes e quisestes, e fez-se o que mandastes.
4. A graça que fazeis aos Vossos amigos é que padeçam e que sejam atribulados no mundo, todas as vezes e por qualquer pessoa que a Vossa sabedoria permitir.
Nada se faz na Terra sem causa e sem que seja regulado pelo conselho da Vossa incomparável providência.
Senhor, é para mim um grande bem haveres-me humilhado para que aprenda a obedecer-Vos e desterrar de mim a soberba e as presunções do meu coração.
É igualmente útil para mim que o meu semblante se tenha coberto de confusão, para que busque o conforto em Vós e não nos homens. Nisto aprendi também a temer os Vossos impenetráveis juízos, pois afligis tanto o ímpio como o justo, sempre com equidade e justiça.
5. Graças Vos dou por me não poupardes as minhas iniquidades, e antes me terdes castigado com duros açoites, mandando-me angústias interiores e exteriores.
Não tenho debaixo do Céu quem me console, senão Vós, meu Deus e Senhor, médico das almas, que feris e sarais, lançando-nos em tormentas e depois nos livrando.
Estendei sobre mim o Vosso braço e a Vossa disciplina será o meu ensino.
6. Aqui me tendes entre as Vossas mãos, Pai amável, e eu me curvo sob a vara da Vossa correcção.
Feri-me as costas e a cerviz, para que sujeite a minha vontade à Vossa. Fazei-me discípulo Vosso, fervoroso e humilde, como para que em tudo Vos siga e obedeça.
Eu Vos faço entrega de mim e de tudo o que há em mim, para que Vós me corrijais, pois é melhor ser corrigido neste mundo do que no outro.
Vós conheceis todas as coisas em geral e em particular e nada se Vos esconde na consciência dos homens.
O mesmo futuro Vos é já presente, nem tendes necessidade de que alguém Vos advirta sobre o que se passa sobre a Terra. Sabeis o que convém ao meu adiantamento e quanto a atribulação é útil para tirar a ferrugem dos nossos vícios.
Cumpri em mim a Vossa vontade e não desprezeis a minha vida pecaminosa, a qual Vos é mais conhecida do que a outro qualquer.
7. Senhor, dai-me graça para que saiba o que devo saber; ame o que devo amar; louve o que Vos é agradável; aborreça tudo o que Vos é odioso. Não permitais que eu julgue das coisas pelas exterioridades que me são patentes, ou pelas informações dos homens ignorantes; mas fazei-me a graça de que julgue das coisas visíveis e espirituais por um discernimento verdadeiro.
8. Os homens enganam-se, de ordinário, julgando segundo os seus sentidos. Os adoradores do século enganam-se também, amando somente os bens visíveis.
Que tem de mais o homem para ser grande no conceito de outro homem? É enganador quem louva o enganador; soberbo quem admira o soberbo; cego quem lisonjeia o cego. Assim, enquanto um lisonjeia o outro, não faz mais que enganá-lo e, louvando-o falsamente, na verdade o desonra. Por esses motivos, disse belissimamente o humilde São Francisco: "O homem não é grande em si, ó meu Deus, senão na proporção que ele o é diante de Vós."
29/04/15
IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXVI)
(continuação da LXXV parte)
A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis
III Livro
A Fonte Das Consolações
A Fonte Das Consolações
Cap. XLIX
Deus Prova A Alma Para A Fazer Capaz dos Grandes Bens Que Lhe Promete
1. Cristo - Filho, quando sentes que o Céu de comunica o desejo de uma eterna felicidade, e apeteces sair do cárcere do teu corpo para poder contemplar a minha luz, sem que se interponha algum véu, que te faça variar de sentimentos, abre o teu coração e recebe esta santa inspiração com todo o afecto.
Rende as maiores acções de graças à minha soberana bondade, que te trata de um modo tão favorável, visita com tanta doçura, desperta por movimentos tão vivos, sustenta por uma tão poderosa mão, para que não tornes a cair, por ti mesmo, no amor das coisas da Terra.
Não deves atribuir estes bons efeitos, nem aos teus pensamentos, nem aos teus esforços, mas só ao favor da minha graça soberana, a fim de que aproveites na virtude em maior humildade, estejas preparado para os futuros combates e trabalhes por te unir a mim, por todos os afectos do teu coração, e servir-me com vontade fervorosa.
2. Filho, muitas vezes arde o fogo, mas não sai a chama sem fumo. Assim, alguns têm ardentes desejos de se elevar ao Céu, mas eles não são livres da tentação do amor carnal. Disto resulta que, ainda que eles peçam, com tanto ardor, os bens do Céu, o seu movimento não é inteiramente puro e ordenado exclusivamente em direcção a mim. O desejo que tendes do Céu é, muitas vezes, semelhante ao destes; por isso ele se mistura a interesses terrenos.
3. Pede-me, não o que é segundo a tua inclinação e a tua comodidade, mas o que é segundo a minha vontade. Se julgas acertadamente das coisas, reconhecerás que sempre deves preferir a minha ordem ao teu gosto e fazer antes o que eu quero do que o que tu queres.
Eu sei a que se dirigem os teus desejos e tenho muitas vezes escutado os teus suspiros. Quererias estar na liberdade da glória dos filhos de Deus. Já aspiras a habitar na casa eterna desta celeste pátria cheia de alegria, mas não é chegada ainda a tua hora; ela deve ser precedida de um tempo de trabalhos e de provas. Desejas encher-te do verdadeiro bem, mas não podes ainda adquiri-lo.
Eu sou o bem a que aspiras; espera-me, diz o Senhor, até que venha o Reino de Deus.
4. Deves ainda ser provado sobre a Terra e passar por vários exercícios. Algumas vezes, misturarei os teus males com as doçuras das minhas consolações, mas isto não será com abundância. Conforta-te, pois, e resolve-te valorosamente a fazer e a sofrer tudo o que é contrário à natureza.
É necessário que te transformes no homem novo, que te mudes em outro homem. É necessário que faças muitas vezes o que não queres.
Pode acontecer que o que agrada aos outros vá por diante e o que te agrada não se realize. Será ouvido o que outros disserem, e o que disseres será desprezado. Outros pedirão e alcançarão, tu pedirás e não conseguirás.
5. Grandes serão os outros na boca dos homens, mas de ti ninguém dirá palavra. A outros será confiado isto ou aquilo; tu, porém, de nada serás julgado capaz. A natureza não deixará de entristecer-se nessas circunstâncias, mas para ti será coisa grande se suportares em silêncio.
Deus costuma, destes e de outros modos, provar a fidelidade do Seu servo, para ver se ele renuncia a si mesmo.´
Não há oportunidade em que sintas mais necessária a mortificação como naquela em que vez e sofres o que é contrário à tua vontade, particularmente quando te ordenam coisas que te parecem inconvenientes ou inúteis. E porque não ousas resistir à autoridade do superior, parece-te coisa dura sujeitar-te à sua obediência e renunciar ao teu próprio parecer.
6. Mas considera, Filho, qual será o fruto destes trabalhos, quanto serão passageiros para uma recompensa infinitamente grande, e não terás de que sentir peso, pois, ao contrário, acharás suavíssimo conforto os teus sofrimentos.
Por um pouco de esforço que faças agora para atender à tua própria vontade, serás completamente satisfeito no Céu. Ali, encontrarás tudo o que quiseres e quanto puderes desejar. Ali é que entrarás na posse de todos os bens, sem temor de os perder. Ali, a tua vontade, estando unida à minha, não desejará nada mais em particular. Ali, ninguém te resistirá, nem se queixará de ti, nem porá obstáculo algum aos teus desígnios; mas quanto desejares te será presente e encherá toda a extensão do teu coração. Ali é que eu recompensarei com soberana glória as injúrias que tiveres sofrido; com abundância de alegria as lágrimas que choraste; com um trono sublime, onde reines para sempre, a humildade que te levou sempre aos últimos lugares. Ali se verá claramente o fruto e o valor extraordinário da obediência. Ali se verão os trabalhos da paciência transformados em fontes de alegria e a sujeição voluntária coroada de glória.
7. Na esperança de tão grande felicidade, humilha-te agora nas mãos de todos. Não cuides em saber quem disse ou quem manda o que te é ordenado. Cuida só em fazer de boa vontade o que te é ordenado, seja o prelado, seja o mais moço do que tu, seja o teu igual quem te ordena.
Busque um isto, outro aquilo; glorie-se este nisto e aquele naquilo e seja mil vezes louvado; tu, porém, deleita-te no desprezo de ti mesmo e na minha vontade e glória.
Em resumo: o que deves desejar é que Deus seja glorificado em ti, assim na vida como na morte.
1. Cristo - Filho, quando sentes que o Céu de comunica o desejo de uma eterna felicidade, e apeteces sair do cárcere do teu corpo para poder contemplar a minha luz, sem que se interponha algum véu, que te faça variar de sentimentos, abre o teu coração e recebe esta santa inspiração com todo o afecto.
Rende as maiores acções de graças à minha soberana bondade, que te trata de um modo tão favorável, visita com tanta doçura, desperta por movimentos tão vivos, sustenta por uma tão poderosa mão, para que não tornes a cair, por ti mesmo, no amor das coisas da Terra.
Não deves atribuir estes bons efeitos, nem aos teus pensamentos, nem aos teus esforços, mas só ao favor da minha graça soberana, a fim de que aproveites na virtude em maior humildade, estejas preparado para os futuros combates e trabalhes por te unir a mim, por todos os afectos do teu coração, e servir-me com vontade fervorosa.
2. Filho, muitas vezes arde o fogo, mas não sai a chama sem fumo. Assim, alguns têm ardentes desejos de se elevar ao Céu, mas eles não são livres da tentação do amor carnal. Disto resulta que, ainda que eles peçam, com tanto ardor, os bens do Céu, o seu movimento não é inteiramente puro e ordenado exclusivamente em direcção a mim. O desejo que tendes do Céu é, muitas vezes, semelhante ao destes; por isso ele se mistura a interesses terrenos.
3. Pede-me, não o que é segundo a tua inclinação e a tua comodidade, mas o que é segundo a minha vontade. Se julgas acertadamente das coisas, reconhecerás que sempre deves preferir a minha ordem ao teu gosto e fazer antes o que eu quero do que o que tu queres.
Eu sei a que se dirigem os teus desejos e tenho muitas vezes escutado os teus suspiros. Quererias estar na liberdade da glória dos filhos de Deus. Já aspiras a habitar na casa eterna desta celeste pátria cheia de alegria, mas não é chegada ainda a tua hora; ela deve ser precedida de um tempo de trabalhos e de provas. Desejas encher-te do verdadeiro bem, mas não podes ainda adquiri-lo.
Eu sou o bem a que aspiras; espera-me, diz o Senhor, até que venha o Reino de Deus.
4. Deves ainda ser provado sobre a Terra e passar por vários exercícios. Algumas vezes, misturarei os teus males com as doçuras das minhas consolações, mas isto não será com abundância. Conforta-te, pois, e resolve-te valorosamente a fazer e a sofrer tudo o que é contrário à natureza.
É necessário que te transformes no homem novo, que te mudes em outro homem. É necessário que faças muitas vezes o que não queres.
Pode acontecer que o que agrada aos outros vá por diante e o que te agrada não se realize. Será ouvido o que outros disserem, e o que disseres será desprezado. Outros pedirão e alcançarão, tu pedirás e não conseguirás.
5. Grandes serão os outros na boca dos homens, mas de ti ninguém dirá palavra. A outros será confiado isto ou aquilo; tu, porém, de nada serás julgado capaz. A natureza não deixará de entristecer-se nessas circunstâncias, mas para ti será coisa grande se suportares em silêncio.
Deus costuma, destes e de outros modos, provar a fidelidade do Seu servo, para ver se ele renuncia a si mesmo.´
Não há oportunidade em que sintas mais necessária a mortificação como naquela em que vez e sofres o que é contrário à tua vontade, particularmente quando te ordenam coisas que te parecem inconvenientes ou inúteis. E porque não ousas resistir à autoridade do superior, parece-te coisa dura sujeitar-te à sua obediência e renunciar ao teu próprio parecer.
6. Mas considera, Filho, qual será o fruto destes trabalhos, quanto serão passageiros para uma recompensa infinitamente grande, e não terás de que sentir peso, pois, ao contrário, acharás suavíssimo conforto os teus sofrimentos.
Por um pouco de esforço que faças agora para atender à tua própria vontade, serás completamente satisfeito no Céu. Ali, encontrarás tudo o que quiseres e quanto puderes desejar. Ali é que entrarás na posse de todos os bens, sem temor de os perder. Ali, a tua vontade, estando unida à minha, não desejará nada mais em particular. Ali, ninguém te resistirá, nem se queixará de ti, nem porá obstáculo algum aos teus desígnios; mas quanto desejares te será presente e encherá toda a extensão do teu coração. Ali é que eu recompensarei com soberana glória as injúrias que tiveres sofrido; com abundância de alegria as lágrimas que choraste; com um trono sublime, onde reines para sempre, a humildade que te levou sempre aos últimos lugares. Ali se verá claramente o fruto e o valor extraordinário da obediência. Ali se verão os trabalhos da paciência transformados em fontes de alegria e a sujeição voluntária coroada de glória.
7. Na esperança de tão grande felicidade, humilha-te agora nas mãos de todos. Não cuides em saber quem disse ou quem manda o que te é ordenado. Cuida só em fazer de boa vontade o que te é ordenado, seja o prelado, seja o mais moço do que tu, seja o teu igual quem te ordena.
Busque um isto, outro aquilo; glorie-se este nisto e aquele naquilo e seja mil vezes louvado; tu, porém, deleita-te no desprezo de ti mesmo e na minha vontade e glória.
Em resumo: o que deves desejar é que Deus seja glorificado em ti, assim na vida como na morte.
28/04/15
27/04/15
IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXV)
(continuação da LXXIV parte)
A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis
III Livro
A Fonte Das Consolações
A Fonte Das Consolações
Cap. XLVIII
A Paz do Céu e As Misérias Desta Vida
1. Alma - Ó feliz habitação da cidade celeste! Ó dia claríssimo da eternidade, que não é escurecido por nenhuma noite, mas que brilha sempre com os raios da soberana verdade! Dia sempre alegre, sempre seguro, cuja felicidade não está exposta a mudanças! Quem me dera ver amanhecer esse dia e passarem logo as sombras das coisas perecedouras! Esse ditoso dia já brilha para os santos, no seu eterno esplendor, mas para os peregrinos da Terra apenas se entremostra como as luzes distantes de uma cidade através das sombras nocturnas.
1. Alma - Ó feliz habitação da cidade celeste! Ó dia claríssimo da eternidade, que não é escurecido por nenhuma noite, mas que brilha sempre com os raios da soberana verdade! Dia sempre alegre, sempre seguro, cuja felicidade não está exposta a mudanças! Quem me dera ver amanhecer esse dia e passarem logo as sombras das coisas perecedouras! Esse ditoso dia já brilha para os santos, no seu eterno esplendor, mas para os peregrinos da Terra apenas se entremostra como as luzes distantes de uma cidade através das sombras nocturnas.
2. Os cidadãos da Jerusalém Celeste sabem quanto ela é resplandecente, mas os filhos de Eva gemem na amargura e no tédio desta vida.
Os dias deste mundo são poucos e maus, cheios de dores e misérias. Neles se mancha o homem com muitos pecados, enreda-se nas paixões, perturba-se pelos temores, distrai-se pelos cuidados, dissipa-se pela curiosidade, cega-se pelo erro, desalenta-se pelo trabalho, oprime-se de tentações, afrouxa-se pelas delícias, atormenta-se pela pobreza.
3. Oh! Quando virá o fim destes males? Quando me verei livre da infeliz escravidão dos vícios? Quando me lembrarei, Senhor, somente de Vós? Quando me alegrarei completamente em Vós? Quando gozarei da verdadeira liberdade, sem impedimento nem embaraço de corpo e espírito? Quando possuirei a paz imperturbável e segura, a paz interior e exterior, paz, em todos os sentidos invariável e firme?
Bom Jesus, quando irei à Vossa presença? Quando contemplarei a glória do Vosso reino? Quando sereis para mim tudo em todas as coisas? Quando entrarei nesse reino, que preparaste, desde toda a eternidade, para os que Vos amam? Ai! Como me sinto abandonado, pobre e banido, numa terra cheia de inimigos, onde a guerra é contínua e os males inumeráveis.
4. Consolai o meu desterro, mitigai a minha dor, porque por Vós suspira todo o meu desejo, e toda a consolação que o mundo me oferece é pesada. Desejo unir-me intimamente Convosco, mas não posso conseguir. Desejo apegar-me às coisas do Céu, mas o amor das coisas temporais e as minhas paixões, não mortificadas, arrastam-me para a terra.
Pelo espírito procuro elevar-me acima de tudo, mas sou obrigado, pela fraqueza da carne, a sujeitar-me contra a minha vontade. Deste modo, eu, homem infeliz, pelejo comigo mesmo e a mim mesmo me faço insuportável. Forceja meu espírito sempre para cima; inclina-me a carne sempre para baixo.
5. Quanto não padeço eu, quando, meditando nas coisas celestes, sinto a minha alma sitiada por uma multidão de pensamentos terrenos!
Meu Deus, não Vos aparteis de mim nem Vos afasteis, irado, do Vosso servo. Lançai os Vossos raios e dissipai todas estas ilusões; despedi as Vossas setas contra os artifícios do meu inimigo; recolhei em Vós todos os meus sentidos; fazei que eu me esqueça de todas as coisas do mundo; que rejeite e despreze as tristes imagens que o pecado imprime em meu espírito. Socorrei-me, Verdade Eterna, para que eu seja insensível a todos os movimentos da vaidade. Descei ao meu coração para que dele fuja toda a impureza.
Perdoai-me Senhor, e tratai-me segundo a Vossa misericórdia, todas as vezes em que, na oração, eu pense em alguma coisa fora de Vós. Confesso que frequentemente estou distraído quando oro; o espírito afasta-se do corpo, mas é levado pela desordem dos pensamentos. Na verdade, estou onde está o pensamento, mas ele corre para aquilo que funestamente me atrai. O que mais facilmente me atrai é o que naturalmente me deleita, ou que o costume faz mais agradável.
6. Vós, claramente, nos ensinastes esta verdade, dizendo: "Onde está o vosso tesouro, está o vosso coração." Se amo o Céu, de boa vontade penso nas coisas celestes. Se amo o mundo, alegro-me com as suas felicidades e entristeço-me com os seus males. Se amo a carne, a minha imaginação apresenta-me coisas carnais. Se amo o espírito, em coisas do espírito é que me deleito.
Eu sinto em mim uma inclinação a falar e a ouvir falar de tudo aquilo que amo, e conservo no meu coração as imagens dessas coisas. Feliz aquele homem, ó meu Deus, que por amor de Vós desterra da sua lembrança todas as criaturas; que faz violência à natureza; que sacrifica todos os maus desejos da carne pelo fervor do espírito, para oferecer-Vos uma oração pura, elevando-se na serenidade da sua consciência, a fim de que, despojando-se de tudo o que é terrestre, interior e exteriormente, se faça digno de adorar a Deus, em espírito, na companhia dos Seus anjos.
26/04/15
IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXIV)
Thomas de Kempis
III Livro
A Fonte Das Consolações
A Fonte Das Consolações
Cap. XLVII
Sofrer Todos os Males na Esperança Dos Bens Eternos
1. Cristo - Filho, não esmoreças nos trabalhos que empreendeste por mim. Que as atribulações não te desanimem e as minhas promessas te fortaleçam e consolem em todos os sucessos da vida. Eu sou assaz poderoso para pagar-te quanto fizeres por mim, dando-te uma recompensa sem limites e sem medidas.
Os trabalhos que padeces agora não serão dilatados, nem sempre viverás oprimido de dores. Espera um pouco e verás depressa o fim dos teus males. Virá brevemente o momento feliz em que hão-de cessar todos os trabalhos e fadigas. É sempre breve tudo o que passa com o tempo.
2. Faz com cuidado e trabalha fielmente na minha vinha; e eu mesmo serei a tua recompensa.
Escreve, lê, canta, geme, cala, ora e sofre varonilmente todos os trabalhos. A vida eterna merece ser comprada por estas e outras maiores pelejas. A paz virá no dia em que o Senhor sabe, e este dia não será como o dia deste mundo, que é seguido da noite, mas será um dia eterno, uma luz infinita, uma paz firme e um seguro repouso. Tu, então, não dirás: "Quem me livrará deste corpo de morte?» Nem exclamarás: "Ai de mim, quão dilatado é o meu desterro!"
A morte será destruída e entrarás numa vida imortal, isenta das inquietações, para então gozares da alegria dos bem-aventurados, da doçura da sociedade celeste, da formosura do Paraíso.
3. Se visses as coroas que os santos possuem no Céu e a glória que gozam aqueles que passavam no mundo por desprezíveis e por indignos da vida, certamente te humilharias. Preferirias obedecer a todos que governar um só. Não desejarias os passatempos desta vida, gostarias de padecer por amor de Deus e terias por lucro grandíssimo ser avaliado por nada entre os homens.
4. Se gostasses destas verdades e elas penetrassem até ao fundo do teu coração, como te atreverias a manifestar uma só queixa, quando oprimido pelos teus males? Que coisa existe tão penosa, que se não deva sofrer de bom ânimo pela vida eterna? Achas de pouca importância ganhar ou perder o reino de Deus?
Levanta os olhos ao Céu. É aí que habito, com os meus santos, que, depois de tantos combates no mundo, se alegram agora, cheios de consolações, de segurança e de descanso, e permanecerão comigo para sempre, no reino de meu Pai.
Sofrer Todos os Males na Esperança Dos Bens Eternos
1. Cristo - Filho, não esmoreças nos trabalhos que empreendeste por mim. Que as atribulações não te desanimem e as minhas promessas te fortaleçam e consolem em todos os sucessos da vida. Eu sou assaz poderoso para pagar-te quanto fizeres por mim, dando-te uma recompensa sem limites e sem medidas.
Os trabalhos que padeces agora não serão dilatados, nem sempre viverás oprimido de dores. Espera um pouco e verás depressa o fim dos teus males. Virá brevemente o momento feliz em que hão-de cessar todos os trabalhos e fadigas. É sempre breve tudo o que passa com o tempo.
2. Faz com cuidado e trabalha fielmente na minha vinha; e eu mesmo serei a tua recompensa.
Escreve, lê, canta, geme, cala, ora e sofre varonilmente todos os trabalhos. A vida eterna merece ser comprada por estas e outras maiores pelejas. A paz virá no dia em que o Senhor sabe, e este dia não será como o dia deste mundo, que é seguido da noite, mas será um dia eterno, uma luz infinita, uma paz firme e um seguro repouso. Tu, então, não dirás: "Quem me livrará deste corpo de morte?» Nem exclamarás: "Ai de mim, quão dilatado é o meu desterro!"
A morte será destruída e entrarás numa vida imortal, isenta das inquietações, para então gozares da alegria dos bem-aventurados, da doçura da sociedade celeste, da formosura do Paraíso.
3. Se visses as coroas que os santos possuem no Céu e a glória que gozam aqueles que passavam no mundo por desprezíveis e por indignos da vida, certamente te humilharias. Preferirias obedecer a todos que governar um só. Não desejarias os passatempos desta vida, gostarias de padecer por amor de Deus e terias por lucro grandíssimo ser avaliado por nada entre os homens.
4. Se gostasses destas verdades e elas penetrassem até ao fundo do teu coração, como te atreverias a manifestar uma só queixa, quando oprimido pelos teus males? Que coisa existe tão penosa, que se não deva sofrer de bom ânimo pela vida eterna? Achas de pouca importância ganhar ou perder o reino de Deus?
Levanta os olhos ao Céu. É aí que habito, com os meus santos, que, depois de tantos combates no mundo, se alegram agora, cheios de consolações, de segurança e de descanso, e permanecerão comigo para sempre, no reino de meu Pai.
25/04/15
25 de ABRIL - A NOSSA RAINHA D. CARLOTA
![]() |
| D. Carlota, Rainha de Portugal, Consorte de D. João VI |
Era espanhola de origem, e faz parte daquelas nossas Rainhas que, tendo nascido no reino vizinho, foi firme em auxiliar determinantemente o Rei e o Reino de Portugal.
Por algum motivo, foi a Rainha contra a qual mais difamações houve em Portugal; qual Maria Antonieta!
Aqui fica uma humilde homenagem a tão brava e justa Rainha.
23/04/15
IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXIII)
Thomas de Kempis
III Livro
A Fonte Das Consolações
A Fonte Das Consolações
Cap. XLVI
Da Confiança que Devemos Ter em Deus Quando Nos Disserem Palavras Afrontosas
1. Cristo - Filho, vive firme e espera em mim. Que coisas são as palavras dos homens, senão palavras? Elas voam pelo ar, mas não podem ferir a firmeza da pedra. Se, com efeito, és culpado, serve-te do que dizem contra ti para te emendares. Se o não és, alegra-te de sofrer essa injúria pelo amor de Deus. Bem é que sofras, pelo menos, a tortura das palavras injustas, já que não podes sofrer graves tormentos.
Porque motivo as palavras da incompreensão ou da injustiça te penetram até ao íntimo do teu coração, senão porque és ainda carnal e dás ainda aos homens uma importância que não merecem? Porque temes ser desprezado, não queres ser repreendido pelos teus defeito e procuras encobri-los com a sombra de algumas desculpas?
2. Entra bem no conhecimento de ti mesmo e verás que o mundo ainda vive em ti, pelo desejo que tens de agradar os homens. Fugindo de ser abatido e confundido por causa dos teus defeitos, é visível que não és verdadeiramente humilde, nem verdadeiramente morto para o mundo, e que o mundo não está verdadeiramente morto para ti.
Ouve as minhas palavras e não farás caso das palavras que os homens disserem. Quando eles dissessem contra ti tudo quanto a malícia pode inspirar, que danos receberias dessas injúrias, se as desprezasses como palha que voa pelo ar?
Elas todas juntas não teriam força para fazer saltar-te da cabeça um só fio de cabelo.
3. Quem não anda recolhido interiormente e não traz Deus diante dos olhos, irrita-se com a menor palavra que o ofende. Mas quem confia em mim e não se aferra ao próprio juízo, nada teme da parte dos homens.
Eu sou o juiz que conhece todos os segredos do coração humano. Eu sei como as coisas se passaram. Conheço, perfeitamente, quem faz a injúria e quem a sofre.
Por minha ordem é que sofres. Por permissão minha é que este mal te sucede, para que se descubram os pensamentos ocultos no coração de muitos.
Eu julgarei algum dia o inocente e o culpado; mas, por um juízo secreto, quero primeiro provar um e outro.
4. O testemunho dos homens é muitas vezes falso; o meu juízo, porém, sempre é verdadeiro, firme e incapaz de mudança. É ele muitas vezes oculto e poucos penetram as suas particularidades. No entanto, nunca erra, nem pode errar, ainda que não pareça correcto aos olhos dos néscios.
A mim, pois, deves recorrer, em face de todos os juízos que se formem sobre a terra, e não fundar-te sobre o teu.
O justo não se turbará com o que lhe suceder com permissão de Deus. Ainda que o condenem injustamente, não se há-de afligir; nem também entregar-se a uma vã alegria, quando tenha quem racionalmente o defenda. Ele considera que eu sou o perscrutador dos corações e que não julgo segundo as aparências.
5. Alma - Meu Deus, juiz justo, forte e sofredor, que tanto conheceis a fragilidade e a corrupção do homem, sede a minha fortaleza e a minha confiança. Não basta que a minha consciência não me acuse.
Vós conheceis o que eu não conheço; por isso devo humilhar-me nas repreensões recebidas, sofrendo-as com mansidão.
Perdoai-me as vezes que não procedi deste modo e dai-me a graça de um maior sofrimento no futuro.
Mais útil me é o perdão das minhas culpas e a Vossa abundante misericórdia do que uma consciência que não me acusa mas que eu não conheço perfeitamente.
Ainda que ela não me repreenda, nem por isso devo julgar-me justificado, porque, se Vós julgardes com rigor, sem a Vossa misericórdia não se achará quem se considere justo aos Vossos olhos.
NOTÍCIA ASCENDENS - Problemas Informáticos
Caros leitores,
Devido a problemas informáticos, o blogue ASCENDENS estará em andamento lento. As publicações serão suportadas por algum dos elementos da "equipe" ASCENDENS.
Esta situação começou há dias, e prevê-se que continue pelo menos por mais uma semana.
Pedimos a todos as nossas desculpas pelo incómodo.
Em breve daremos novidades.
O responsável do blogue ASCENDENS,
Pedro Oliveira.
Pedro Oliveira.
SOBRE O ACOLITAR (II)
(continuação da I parte)
11. Chegados a tempo competente à Sacristia, lavam as mãos, e vestidos de sobrepelizes, ajudam a vestir os Ministros sagrados, e vão acender as velas do Altar, do modo que acima se disse, e depois as dos seus castiçais: um deles leva para a Credência o pratinho com as galhetas de vinho, e água, cobertas com um manutérgio dobrado, e o põem ao lado do Cálice, na parte direita da Credência; põe também aí uma campainha, para tocar a Sanctus, e à elevação.
12. Quando é tempo de partir, os Acólitos se põem de uma, e outra parte, tendo os castiçais na mão, do modo que acima se disse, e fazendo linha recta com os mais Ministros (se a capacidade da Sacristia o permitir), de maneira que o primeiro Acólito fique à direita do Celebrante, e o segundo à esquerda do mesmo, um, e outro em último lugar de todos; e feita a inclinação profunda à Cruz da Sacristia com os Ministros sagrados, saúdam o Celebrante com inclinação medíocre, e vão juntos atrás do Turiferário, o primeiro Acólito à direita, e o segundo à esquerda, e para isso mudam de lugares, passando o segundo por trás do primeiro, e mudando a postura dos castiçais, como acima se disse; o que sempre hão de observar em semelhantes casos.
13. Se indo para o Coro passam por algum Altar, em que se diga Missa depois da Consagração até à Comunhão, ou esteja exposto o Santíssimo Sacramento, fazem genuflexão, estando o Turiferário no meio deles; no primeiro caso com um só joelho, no segundo com ambos, ajuntando inclinação profunda; depois levantando-se, vão para o Coro. Se a Missa se houver de celebrar em Capela particular, e hão de passar diante do Altar mór, fazem genuflexão: e devem fazer uma inclinação medíocre aos Sacerdotes vestidos dos sagrados paramento, que encontram no caminho.
14. Entrando no Coro se põem aos lados do Turiferário, e saúdam o Clero com inclinação medíocre, principiando pela parte do Evangelho, excepto se encontrassem primeiro a parte da Epístola (como pode suceder, quando a entrada é por algum dos lados do Coro), porque entram esta se deveria primeiro saudar, e em segundo lugar a do Evangelho, e depois vão para os dois lados do Altar, sem fazer reverência alguma, quando chegam, e ficam voltados um para o outro, até que cheguem os Ministros sagrados, e então com eles fazem genuflexão no plano, em linha recta (ainda que alguns dizem que há de ser mais atrás, não achamos razão alguma, salvo se a estreiteza do lugar assim o pedir). Tanto que tem genuflectido, o segundo, sem fazer nova genuflexão no meio, vai pôr-se ao lado do primeiro, o qual o espera imóvel, e vão juntos à Credência, sobre a qual põem os seus castiçais: o que feito, ajoelham junto da mesma Credência, e respondem em voz baixa (alguns Rubricistas não aprovam a acção de responderem os Acólitos; mas não temos por inconveniente que eles façam o seu ofício) aos Sacerdote, como na Missa rezada, fazendo os sinais da Cruz, as inclinações, etc., como os Ministros sagrados.
15. Se a entrada se fizer processionalmente com o Clero, o que só se pode trazer nos dias de maior solenidade, os Acólitos vão atrás do Turiferário, fazem genuflexão diante do meio do Altar, perto do último degrau, com o Cerimoniário, e Turiferário, que estão no meio dos mesmos Acólitos, separam-se, e põem-se de frente dos lados do Altar, e ficam voltados um para o outro, até que cheguem os Ministros sagrados.
16. Quando o Celebrante sobe ao Altar, depois de ter dito o Confiteor, os Acólitos levantam-se, cruzam os braços, e ficam voltados em Coro, em quanto dura a incensação do Altar; mas quando principia o Introito, voltam-se para o Altar, juntas as mãos até que tenha acabado os Kyrios: o que feito, voltam-se me Coro, como antes.
(Continuação, III parte)
§ II
Ofício Dos Acólitos na Missa Cantada
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| Castiçais processionais da Capela do Divino Espírito Santo e S. João Baptista, na igreja de S. Roque, em Lisboa. |
12. Quando é tempo de partir, os Acólitos se põem de uma, e outra parte, tendo os castiçais na mão, do modo que acima se disse, e fazendo linha recta com os mais Ministros (se a capacidade da Sacristia o permitir), de maneira que o primeiro Acólito fique à direita do Celebrante, e o segundo à esquerda do mesmo, um, e outro em último lugar de todos; e feita a inclinação profunda à Cruz da Sacristia com os Ministros sagrados, saúdam o Celebrante com inclinação medíocre, e vão juntos atrás do Turiferário, o primeiro Acólito à direita, e o segundo à esquerda, e para isso mudam de lugares, passando o segundo por trás do primeiro, e mudando a postura dos castiçais, como acima se disse; o que sempre hão de observar em semelhantes casos.
13. Se indo para o Coro passam por algum Altar, em que se diga Missa depois da Consagração até à Comunhão, ou esteja exposto o Santíssimo Sacramento, fazem genuflexão, estando o Turiferário no meio deles; no primeiro caso com um só joelho, no segundo com ambos, ajuntando inclinação profunda; depois levantando-se, vão para o Coro. Se a Missa se houver de celebrar em Capela particular, e hão de passar diante do Altar mór, fazem genuflexão: e devem fazer uma inclinação medíocre aos Sacerdotes vestidos dos sagrados paramento, que encontram no caminho.
14. Entrando no Coro se põem aos lados do Turiferário, e saúdam o Clero com inclinação medíocre, principiando pela parte do Evangelho, excepto se encontrassem primeiro a parte da Epístola (como pode suceder, quando a entrada é por algum dos lados do Coro), porque entram esta se deveria primeiro saudar, e em segundo lugar a do Evangelho, e depois vão para os dois lados do Altar, sem fazer reverência alguma, quando chegam, e ficam voltados um para o outro, até que cheguem os Ministros sagrados, e então com eles fazem genuflexão no plano, em linha recta (ainda que alguns dizem que há de ser mais atrás, não achamos razão alguma, salvo se a estreiteza do lugar assim o pedir). Tanto que tem genuflectido, o segundo, sem fazer nova genuflexão no meio, vai pôr-se ao lado do primeiro, o qual o espera imóvel, e vão juntos à Credência, sobre a qual põem os seus castiçais: o que feito, ajoelham junto da mesma Credência, e respondem em voz baixa (alguns Rubricistas não aprovam a acção de responderem os Acólitos; mas não temos por inconveniente que eles façam o seu ofício) aos Sacerdote, como na Missa rezada, fazendo os sinais da Cruz, as inclinações, etc., como os Ministros sagrados.
15. Se a entrada se fizer processionalmente com o Clero, o que só se pode trazer nos dias de maior solenidade, os Acólitos vão atrás do Turiferário, fazem genuflexão diante do meio do Altar, perto do último degrau, com o Cerimoniário, e Turiferário, que estão no meio dos mesmos Acólitos, separam-se, e põem-se de frente dos lados do Altar, e ficam voltados um para o outro, até que cheguem os Ministros sagrados.
16. Quando o Celebrante sobe ao Altar, depois de ter dito o Confiteor, os Acólitos levantam-se, cruzam os braços, e ficam voltados em Coro, em quanto dura a incensação do Altar; mas quando principia o Introito, voltam-se para o Altar, juntas as mãos até que tenha acabado os Kyrios: o que feito, voltam-se me Coro, como antes.
(Continuação, III parte)
19/04/15
OS NOTÁVEIS DESACATOS OCORRIDOS EM PORTUGAL (IV)
(continuação da III parte)
Empregadas todas as diligências para o descobrimento dos delinquentes, ficaram compreendidos quatro. Francisco Rodrigues, Manuel da Silva, João Baptista Cardoso, e José António da Luz. Foram sentenciados por Acórdão de 17 de Maio de 1780: os primeiros três a serem arrastados com braço e pregão até ao Campo de Santa Ana, e ali serem-lhe cortadas as mãos em vida, e queimadas, e depois morrerem de garrote, e ultimamente serem seus corpos queimados, com perda de todos os seus bens para a Irmandade do Santíssimo Sacramento da Freguesia, onde cometeram o delito. O último réu, que tinha ficado fora a vigiar armado, em quanto se fazia o roubo, foi condenado a ser enforcado, e cortada a cabeça, para ser posta no lugar do delito, e em cem mil réis para as despesas da Relação.
A Rainha Fidelíssima, a Senhora D. Maria I, imitando a piedade e zelo dos seus Augustos Predecessores, deu muitas providências para o descobrimento dos delinquentes; e, para desagravar a Jesus Cristo, ofendido na sua mesma Divina e Adorável Presença, fez muitas demonstrações, e actos religiosos de sentimento.
Ordenou ao Senado da Câmara que assistisse a uma Procissão de Desagravo, assim como toda a Côrte, e que se observasse um rigoroso luto para nove dias, cujos se acabaram no dia da Procissão, a que foram Suas Majestades (Aviso de 23 de maio de 1779).
Ordenou que a Igreja Matriz da Vila de Palmela se cantasse anualmente uma Missa em Desagravo do Santíssimo Sacramento pelo desacato ali cometido (Aviso de 11 de Maio de 1781).
Aqui [se verá] que no decurso de quatrocentos e dezassete anos, que tantos vão desde 1362 até 1779, só se viram em Portugal cinco desacatos. Feliz Reino, ditoso Povo, onde a Religião, e a impiedade não impera!
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| Igreja Matriz de Palmela |
Não é possível na brevidade do meu intento dar ao público uma exacta notícia de todos os desacatos cometidos neste Reino desde 1779 até ao presente; porque têm sido tantos, e tão frequentes, que por si somente fariam um grande volume. Mas não deve admirar-se, se nos recordarmos que tudo isto são efeitos da primeira explosão da impiedade no Reino de França. as doutrinas anti-religiosas e anti-sociais, que tanto se têm propagado, a desmoralização dos povos, e o fanatismo da liberdade, são a origem funesta de tantos crimes, e tão horrendos atentados contra a Religião, e contra aquilo que nela há de mais sagrado.
Contento-me pois em dar ao público a notícia dos três últimos, acontecimento no decurso de poucos meses; e com isto fecharei a boca à torrente da impiedade, que raivosa, e exasperada por ver os frequentes actos de Religião, com que os verdadeiros Portugueses pretendem desagravar a Jesus Cristo, quer persuadir às almas piedosas, e simples - que a história dos desacatos é falsa, e que são invenções do fanatismo para iludir os povos, e fazer-lhe criar ódio contra o Rei, e seus Ministros.
Desengane-se pois o Mundo todo, de que a impiedade e filosofia do século só no meio da intriga, e da cavilação pode propagar suas ideias, e concluir seus projectos. Vejamos pois a história dos desacatos.
1ª
Na noite da antevéspera de Natal do ano passado de 1824 foi roubada a Igreja da Colegiada de Santa Maria de Alcáçova da Vila de Monte-mór o Velho, situada no centro do Castelo da mesma Vila. Entraram os malvados pela torre, subindo aos telhados pela parte mais baixa; arrombaram algumas portas do interior, e a do Sacrário, donde tiraram o Vaso Sagrado, despejaram as Sagradas Formas sobre o Altar, e as cobriram com a toalha; levando ao mesmo tempo uma rica Imagem de Jesus Cristo Crucificado, que estava na Sacristia. Não se sabe por ora quem foram e quantos os cúmplices deste delito, apesar das devassas, e averiguações que sobre este facto se têm feito.
Informado disto, D. Fr. Joaquim da Nazaré, fez convocar os Párocos e Eclesiásticos daquela Vila e suas vizinhanças, e os Pais de família com seus filhos desde oito até doze anos, e fez uma pública Procissão de Penitência, acompanhando ele mesmo este acto com os pés descalços, e hábitos de humilhação!!! Ao outro dia se fez uma Festa de Desagravo, em que o mesmo Religioso Prelado fez uma Homilia análoga às circunstâncias; subindo ao púlpito o seu Secretário, que prégou sobre o mesmo objecto.
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| Igreja de Sta. Maria da Alcáçova, dentro do castelo de Montemor-o-Velho |
2ª
Sucedeu na noite de vinte e dois para vinte e três de janeiro deste ano na Igreja de S. Pedro de Queimadela, Arcebispado de Braga. Arrombaram os agressores o Sacrário, donde levaram o Vaso de prata, em que estavam as partículas consagradas, sem que aparecesse uma só, assim como uma Hóstia consagrada em maior forma, que ali ainda se conservava, depois de ter servido para a Exposição na Festividade de S. Sebastião, no dia 20 do mesmo mês de Janeiro. Roubaram igualmente dois Cálices, um todo de prata, e outro só com a cúpula dela, duas Patenas, uma Colherinha, e Chave do Sacrário, e duas Coroas de prata de Imagens de Nossa Senhora, que tudo estava fechado num armário na parede da Sacristia.
ElRei Nosso Senhor, cuja piedade é bem pública e notória, querendo desagravar a Divina majestade ofendida, e castigar os iníquos agressores de tão horrendo desacato, ordenou ao Corregedor do Crime da Cidade do Porto fizesse as mais exactas averiguações, prometendo prémio a quem denunciasse os criminosos (Carta Régia de nove de Fevereiro de 1825).
Na tarde de 7 de Março do corrente ano, das seis para as sete horas, na Capela de Nossa Senhora da Lapa, sita no Campo de Santa Ana da Cidade de Burgos, onde tinha estado Exposto naquele dia o Santíssimo Sacramento em Lausperene, no momento em que o Sacerdote tirava da Custóodia a Hóstia consagrada, para a depositar no Vaso sagrado, e recolher ao Sacrário; quando o povo todo de joelhos fazia em profunda reverência a sua adoração, foi vista com geral espanto ser lançada uma porção de lama ou imundicia em direcção ao centro do Altar, que manchando em parte os Corporais, a Toalha do Altar, a Murça e Sobrepeliz do Sacerdote, a Sacra do lado do Evangelho, uma parte da Banqueta, e Cortina do mesmo Altar, não chegou a tocar, e ofender contudo, pela Divina Providência, nem a Hóstia sagrada, nem a Custódia, nem o Caso sagrado.
Um tão sacrílego, inaudito, e horroroso atentado tocou vivamente o coração de todos, e o do nosso amável Rei, que para descobrir o malvado e nefando autor de tão enorme sacrilégio, ordenou aos seus Ministros que procedessem a todas as diligências possíveis para o castigar como merece (Carta Régia de 16 de março de 1825).
A tal ponto tem chegado a impiedade, a ireligião, e o desprezo daquilo, que a nossa Santa Religião tem de mais respeitável!
Apesar disso ainda existem neste Reino verdadeiros Católicos, e amantes da Religião. Sucessivamente, depois destes desacatos, se têm observado por toda a parte públicas demonstrações de sentimento, para desagravar a Divina Majestade ofendida; sobre tudo nesta Capital, onde se tem observado, para confusão dos ímpios, repetidas Provisões de Penitência, Tríduos, e Festas de Desagravo, tendo eu mesmo sido por muitas vezes o intérprete dos sentimentos do público, prégando em diversas Igrejas desta Capital, sendo uma delas a Paroquial Igreja de Santa Isabel Rainha de Portugal, onde, no dia 17 de Abril, préguei os seguinte Discurso:
(continuação, V parte)
3ª
Na tarde de 7 de Março do corrente ano, das seis para as sete horas, na Capela de Nossa Senhora da Lapa, sita no Campo de Santa Ana da Cidade de Burgos, onde tinha estado Exposto naquele dia o Santíssimo Sacramento em Lausperene, no momento em que o Sacerdote tirava da Custóodia a Hóstia consagrada, para a depositar no Vaso sagrado, e recolher ao Sacrário; quando o povo todo de joelhos fazia em profunda reverência a sua adoração, foi vista com geral espanto ser lançada uma porção de lama ou imundicia em direcção ao centro do Altar, que manchando em parte os Corporais, a Toalha do Altar, a Murça e Sobrepeliz do Sacerdote, a Sacra do lado do Evangelho, uma parte da Banqueta, e Cortina do mesmo Altar, não chegou a tocar, e ofender contudo, pela Divina Providência, nem a Hóstia sagrada, nem a Custódia, nem o Caso sagrado.
Um tão sacrílego, inaudito, e horroroso atentado tocou vivamente o coração de todos, e o do nosso amável Rei, que para descobrir o malvado e nefando autor de tão enorme sacrilégio, ordenou aos seus Ministros que procedessem a todas as diligências possíveis para o castigar como merece (Carta Régia de 16 de março de 1825).
A tal ponto tem chegado a impiedade, a ireligião, e o desprezo daquilo, que a nossa Santa Religião tem de mais respeitável!
Apesar disso ainda existem neste Reino verdadeiros Católicos, e amantes da Religião. Sucessivamente, depois destes desacatos, se têm observado por toda a parte públicas demonstrações de sentimento, para desagravar a Divina Majestade ofendida; sobre tudo nesta Capital, onde se tem observado, para confusão dos ímpios, repetidas Provisões de Penitência, Tríduos, e Festas de Desagravo, tendo eu mesmo sido por muitas vezes o intérprete dos sentimentos do público, prégando em diversas Igrejas desta Capital, sendo uma delas a Paroquial Igreja de Santa Isabel Rainha de Portugal, onde, no dia 17 de Abril, préguei os seguinte Discurso:
(continuação, V parte)
A IGREJA - MATRIMÓNIO DOS ESCRAVOS

TITULO LXXI
Do Matrimonio dos Escravos
303. Conforme a direito Divino, (1) e humano os escravos, e escravas podem
casar com outras pessoas cativas, ou livres, e seus senhores lhes não podem
impedir (2) o Matrimónio, nem o uso dele (3) em tempo, e lugar conveniente,
nem por esse motivo os podem tratar pior, nem (4) vender para outros lugares
remotos, para onde o outro por ser cativo, ou por ter outro justo impedimento o não possa seguir, e fazendo o contrario pecam (5) mortalmente, e tomam sobre
suas consciências as culpas de seus escravos, que por esse temor deixam muitas
vezes estar, e permanecer em estado de condenação. Pelo que lhe mandamos, e
encarregamos muito, que não ponham impedimentos a seus escravos para se
casarem, nem com ameaças, e mau tratamento lhes encontrem o uso do Matrimónio
em tempo, e lugar conveniente, nem depois de casados os vendam para partes
remotas de fora, para onde suas mulheres por serem escravas, ou terem outro
impedimento legitimo, os não possam seguir. E declaramos, que posto que casem,
ficam escravos (6) como de antes eram, e obrigados a todo o serviço de seu
senhor.
304. Mas para que este sacramento se não administre aos escravos senão
estando capazes, e sabendo usar dele, mandamos aos Vigários, Coadjutores,
Capelães, e quaisquer outros Sacerdotes de nosso Arcebispado, que antes que
recebam os ditos escravos, e escravas, os examinem se sabem a Doutrina (7) Cristã, ao menos o Padre nosso, Ave Maria, Creio em Deus Padre, Mandamentos
da Lei de Deus, e da Santa Madre Igreja, e se entendem a obrigação do Santo Matrimónio, (8) que querem tomar, e se é sua intenção permanecer nele para
serviço de Deus, e bem de suas almas; e
achando que a não sabem, ou não entendem estas coisas, os não recebam até as
saberem, e sabendo-as os recebam, posto que seus (9) senhores o contradigam,
tendo primeiro as diligencias necessárias, e as denunciações correntes, ou
licença nossa para os receber sem elas, a qual lhe daremos, constando que se
lhes impedirá o Matrimónio, (10) fazendo-se as denunciações antes de se
receberem. E conformando-nos com a Bula do Papa Gregório XIII. dada em 25 de
Janeiro de 1585. mandamos que todos os Párocos, quando receberem alguns
escravos dos novamente convertidos, em que haja suspeita de que estão casados
na sua terra, (posto que não sacramentalmente) com eles dispensem no dito
antigo Matrimónio.
fonte: (Constituições
Primeiras do Arcebispado da Bahia, Feitas e Ordenadas pelo Ilustríssimo
e Reverendíssimo Senhor D. Sebastião Monteiro da Vide, Arcebispo do
dito Arcebispado, e do Conselho de Sua Majestade... Lisboa Ocidental, 1719)
18/04/15
A IGREJA - O CLERO E AS DIVERSÕES
TÍTULO VII
Como os Clérigos não podem entrar em comédias, ou danças, nem em festas de cavalo, nem disfarçar-se com máscaras.
467. Porque todas as acçãoes dos Clérigos (1) devem ser apartadas do comum exercício dos homens vulgares, e ordinários, é indecente à ordem, e estado Clerical entrarem os Clérigos em comédias, festas, e jogos públicos, usar de máscaras, e outros trajes desonestos. Pelo que, conformando-nos com a disposição de direito, (2) estreitamente proibimos (3) aos Clérigos de Ordens Sacras, de qualquer grão, ou condição que sejam, entrar em danças danças, bailes, entremezes, comédias, ou semelhantes festas públicas de pé, ou de cavalo, ou andarem mascarados. E qualquer Clérigo que for compreendido, ou convencido de fazer as coisas acima proibidas nesta Constituição, se for Dignidade, Cónego da nossa Sé, ou Vigário confirmado, o havemos por condenado (4) por ele mesmo feito em vinte cruzados, e aos mais Clérigos em dois mil reis pela primeira vez; e pela segunda pagarão uns, e outros a pena em dobro do aljube, metade para o Meirinho, e a outra para a nossa Chancelaria. E se ainda se não emendarem, se procederá contra eles com maior rigor.
TÍTULO VIII
Como os Clérigos não devem jogar jogos proibidos, nem dar casa de jogo.
468. É o Jogo indigna ocupação dos Clérigos, pois além dos muitos males, e pecados que dele se seguem, (1) perde-se nele o tempo, que se podia gastar em ocupação mais lícita, e juntamente os bens que se podiam melhor distribuir em esmolas, e obras pias. E porque o direito Canónico, e Sagrado Concílio Tridentino (2) proíbe aos Clérigos jogar cartas, e dados, conformando-nos com a sua disposição ordenamos, (3) e mandamos, que nenhum Clérigo de Ordens Sacras jogue dados, cartas, ou outro algum jogo de parar, ou invite, nem quaisquer outros proibidos por direito, ou Leis do Reino, (4) sob pena (5) de pagar pela primeira vez seis tostões para o Meirinho geral, e perder o dinheiro que lhe for achado no jogo, o qual se repartirá em obras pias a nosso arbítrio, ou do nosso Vigário Geral: e pela segunda haverá a pena em dobro: e pela terceira, e mais vezes será preso, e castigado com mais rigor, conforme merecer a continuação da culpa.
469. Porém não lhes proibimos que para sua recreação, e alívio possam jogar qualquer jogo lícito, (6) e honesto com outras pessoas Eclesiásticas, (7) ou leigos honrados, e bem acostumados em suas casas, as quais não devem ser públicas de jogo, nem os mesmos Clérigos frequentes neste exercício; e o dinheiro que se julgar não será quantia considerável. E na sua, roças, quintas, ou outros lugares públicos (8) não poderão jogar em público, ainda os jogos lícitos: nem o da péla, bola, toque emboque, laranginha, paus, e outros semelhantes, porque são jogos públicos. E fazendo o contrário (9) encorrerão nas penas acima postas. E os que forem nisso devaços indo a hortas, e lugares públicos jogar a bola com seculares, serão presos, e condenados em maior pena que a dos seis tostões acima ditos.
470. Muito estreitamente proibimos a todos os Clérigos de Ordens Sacras darem casa de jogo, (10) que consiste em dar cartas, dados, tábulas, mesa, e casa para jogarem, e com maior razão se por isso levarem interesse. E fazendo o contrário serão pela primeira vez admoestados da prisão, e condenados em dez cruzados: e pela segunda haverão a pena pecuniária em dobro, e estarão vinte dias no aljube: e sendo mais vezes compreendidos, se procederá contra eles com outras penas mais graves de degredo, suspensão de suas Ordens, e como parecer justiça.
fonte: (Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, Feitas e Ordenadas pelo Ilustríssimo e Reverendíssimo Senhor D. Sebastião Monteiro da Vide, Arcebispo do dito Arcebispado, e do Conselho de Sua Majestade... Lisboa Ocidental, 1719)
fonte: (Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, Feitas e Ordenadas pelo Ilustríssimo e Reverendíssimo Senhor D. Sebastião Monteiro da Vide, Arcebispo do dito Arcebispado, e do Conselho de Sua Majestade... Lisboa Ocidental, 1719)
17/04/15
IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXXII)
Thomas de Kempis
III Livro
A Fonte Das Consolações
III Livro
A Fonte Das Consolações
Cap. XLV
Deve-se Procurar a amizade de Deus e Não a Dos Homens
1. Alma - Socorrei-me, meu Deus, na atribulação, porque é vã toda a segurança que se funda no homem. Quantas vezes me tenho enganado, não achando fidelidade onde contava achá-la! Quantas vezes também a achei onde menos a presumia!
Assim, toda a esperança que se põe nos homens é vã, mas em Vós, meu Deus, é que está a salvação dos justos.
Bendito sejais, meu Senhor e meu Deus, em tudo o que nos sucede. Nós, fracos e inconstantes, facilmente nos mudamos e deixamos enganar.
2. Que homem há que guarda a sua alma com tanta vigilância e circunspecção, que jamais caia em engano algum, ou em alguma dúvida que o embarace?
Aquele que confia em Vós e que Vos procura na simplicidade do seu coração, não está tão exposto a estes tristes incidentes; e se cai, por muito que se haja embaraçado, Vós de tais embaraços o livrareis depressa ou lhe trazeis generosa consolação, porque não desamparais os que esperam em Vós até o fim.
Nenhuma coisa há no mundo mais rara do que um amigo fiel, que persevere firme em assistir ao seu amigo em todos os seus males.
Só Vós, Senhor, sois o amigo único e soberano, e ninguém há que mereça este nome senão Vós.
3. Quão sábia era aquela alma quando, à vista dos maiores tormentos disse: "A minha alma está fundada e solidamente estabelecida em Cristo".
Se eu estivera nesse feliz estado, não fariam impressão sobre mim tão facilmente, os temores humanos e as palavras ofensivas.
Quem pode prever tudo? Quem pode guardar-se dos males futuros? Se os males previstos já fazem sofrer tanto, que dizer dos imprevistos? que tão duramente ferem? Mas, pobre de mim, porque não me acautelei melhor? Porque razão me fiei dos homens? O que é certo é que somos homens, e nada mais que homens fracos, ainda que muitos nos julguem e chamem anjos. A quem, pois, daremos crédito, senão a Vós, que sois a verdade, que não engana nem pode ser enganada?
4. Vós, meu Deus, nos destes um sábio conselho, quando nos dissestes que o homem tem por inimigos os próprios domésticos e que não deveríamos dar crédito quando alguém nos dissesse: Cristo está aqui, ou ali.
Eu aprendi esta verdade por uma triste experiência, e Deus queira que ela sirva para fazer-me mais sábio de futuro do que para convencer-me da minha imprudência passada.
Guarda, diz-me alguém, guarda, nisto que te revelo, inviolável segredo. Calo-me, não digo nada, e, crendo que a coisa está em absoluto sigilo, venho a saber que ela se fez pública por leviandade daquele mesmo que tanto me encomendou sobre ela o silêncio. Livrai-me, Senhor, destes homens faladores e imprudentes, para que não caia em suas mãos e nem cometa tais faltas.
Ponde na minha boca palavras sinceras e verdadeiras e apartai da minha língua a leviandade e o artifício, pois quero evitar em mim o que não quero sofrer nos outros.
5. Quanto é bom e proveitoso à paz não falar dos outros, não crer tudo o que no dizem nem repeti-lo irreflectidamente; abrir-se com poucos, buscar sempre a Vós, que vedes os corações, e não se deixar levar pelos ventos dos discursos humanos, mas desejar que tudo, dentro e fora de nós, se cumpra segundo o beneplácito da Vossa vontade!
Quanto é seguro, para conservar a graça celeste, fugir das pompas do mundo e não desejar aquilo que cause admiração dos homens, e seguir cuidadosamente tudo aquilo que nos dê emenda em nossa vida e concorra para aumentar o nosso fervor!
6. A quantos tem arruinado a virtude conhecida e louvada antes do tempo!
Quanto foi sempre útil conservar a graça no silêncio, no transcurso desta vida frágil, a qual se passa em tentação e peleja!
Assim, toda a esperança que se põe nos homens é vã, mas em Vós, meu Deus, é que está a salvação dos justos.
Bendito sejais, meu Senhor e meu Deus, em tudo o que nos sucede. Nós, fracos e inconstantes, facilmente nos mudamos e deixamos enganar.
2. Que homem há que guarda a sua alma com tanta vigilância e circunspecção, que jamais caia em engano algum, ou em alguma dúvida que o embarace?
Aquele que confia em Vós e que Vos procura na simplicidade do seu coração, não está tão exposto a estes tristes incidentes; e se cai, por muito que se haja embaraçado, Vós de tais embaraços o livrareis depressa ou lhe trazeis generosa consolação, porque não desamparais os que esperam em Vós até o fim.
Nenhuma coisa há no mundo mais rara do que um amigo fiel, que persevere firme em assistir ao seu amigo em todos os seus males.
Só Vós, Senhor, sois o amigo único e soberano, e ninguém há que mereça este nome senão Vós.
3. Quão sábia era aquela alma quando, à vista dos maiores tormentos disse: "A minha alma está fundada e solidamente estabelecida em Cristo".
Se eu estivera nesse feliz estado, não fariam impressão sobre mim tão facilmente, os temores humanos e as palavras ofensivas.
Quem pode prever tudo? Quem pode guardar-se dos males futuros? Se os males previstos já fazem sofrer tanto, que dizer dos imprevistos? que tão duramente ferem? Mas, pobre de mim, porque não me acautelei melhor? Porque razão me fiei dos homens? O que é certo é que somos homens, e nada mais que homens fracos, ainda que muitos nos julguem e chamem anjos. A quem, pois, daremos crédito, senão a Vós, que sois a verdade, que não engana nem pode ser enganada?
4. Vós, meu Deus, nos destes um sábio conselho, quando nos dissestes que o homem tem por inimigos os próprios domésticos e que não deveríamos dar crédito quando alguém nos dissesse: Cristo está aqui, ou ali.
Eu aprendi esta verdade por uma triste experiência, e Deus queira que ela sirva para fazer-me mais sábio de futuro do que para convencer-me da minha imprudência passada.
Guarda, diz-me alguém, guarda, nisto que te revelo, inviolável segredo. Calo-me, não digo nada, e, crendo que a coisa está em absoluto sigilo, venho a saber que ela se fez pública por leviandade daquele mesmo que tanto me encomendou sobre ela o silêncio. Livrai-me, Senhor, destes homens faladores e imprudentes, para que não caia em suas mãos e nem cometa tais faltas.
Ponde na minha boca palavras sinceras e verdadeiras e apartai da minha língua a leviandade e o artifício, pois quero evitar em mim o que não quero sofrer nos outros.
5. Quanto é bom e proveitoso à paz não falar dos outros, não crer tudo o que no dizem nem repeti-lo irreflectidamente; abrir-se com poucos, buscar sempre a Vós, que vedes os corações, e não se deixar levar pelos ventos dos discursos humanos, mas desejar que tudo, dentro e fora de nós, se cumpra segundo o beneplácito da Vossa vontade!
Quanto é seguro, para conservar a graça celeste, fugir das pompas do mundo e não desejar aquilo que cause admiração dos homens, e seguir cuidadosamente tudo aquilo que nos dê emenda em nossa vida e concorra para aumentar o nosso fervor!
6. A quantos tem arruinado a virtude conhecida e louvada antes do tempo!
Quanto foi sempre útil conservar a graça no silêncio, no transcurso desta vida frágil, a qual se passa em tentação e peleja!
SOBRE O ACOLITAR (I)
Esta série é transcrita de um manual português do séc. XVIII, o qual foi devidamente autorizado e impresso pela Régia Oficina Tipográfica (ano de 1781).
Antes de mais, alertamos para o facto de que o Acólito não é uma comum pessoa que costume "ajudar à Missa", pois a este diríamos que está a "fazer a vez de Acólito". O que aqui se transcreve é para Acólitos, o que dará uma justa ideia da função do Acólito nas cerimónias.
Resta assegurar que tudo o que aqui vai ser apresentado está "conforme as Rúbricas do Missal Romano, Decretos da Congregação dos Ritos, e Doutrina dos melhores Autores". Segue-se o Costume Luso, que em algum pequeno ponto pode superar ou divergir de outros também nunca reprovados.
Um último aviso: este manual apenas só pode ser aplicado sem mutilação ao uso Tradicional da Santa Igreja, nomeadamente o Rito Romano (codificado no chamado por S. Pio V, ficando de fora a codificação da invenção recente, que o Missal de Paulo VI contem)
CAPÍTULO V
Dos Acólitos
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| Igreja do Convento da Madre de Deus, Lisboa. |
§ I
Regras gerais
1. Os Acólitos devem portar-se com modéstia, e gravidade, e levar os castiçais direitos, e igualmente levantados. O que está da parte direita pega no castiçal com a mão direita pelo nó, e com a esquerda pelo pé: pelo contrário, o que está da parte esquerda, tem o castiçal com a esquerda pelo nós, e com a direita pelo pé; e se se mudam de lado, juntamente devem mudar o castiçal, de sorte que o sustentem pelo nós com a mão, que fica da parte de fora, e pelo pé com a que fica do parte de dentro, levantando-os de sorte, que o pé do castiçal corresponda à cintura. O mesmo proporcionalmente devem observar, quando levam as tochas: o Acólito da parte direita; e o que está de parte esquerda, deve ter a sua com a mão esquerda, tendo ambos a mão livre encostada ao peito.
2. Cuidarão em fazer juntamente, e com perfeita uniformidade as acções, que lhes são comuns; v. g., levantar-se, assentar-se, andar, fazer genuflexão, pôr-se de joelhos, saudar o Coro, etc..
3. Quando caminham ambos, devem ir sempre em igual linha, e não um atrás do outro, excepto quando não podem ambos passar juntos por algum lugar estreito; porque então o segundo Acólito deve passar primeiro. [O primeiro Acólito é o da direita]
4. Saúdam sempre o Altar, em que se celebra [pois há mais que uma Capela nas igrejas], quando passam por diante dele, fazendo genuflexão no pavimento, ainda que o Santíssimo Sacramento aí não esteja; e no acto de fazer a genuflexão juntam as mãos, excepto quando as têm ocupadas.
5. Quando andam no Presbitério, não levam castiçais, ou outra coisa, devem ter as mãos juntas; e fora do Presbitério têm ordinariamente os braços cruzados diante do peito, excepto no acto de genuflectir, que então as juntam. [O cruzar de braços é em X, sobro o peito, indo o braço direito sobre o esquerdo]
6. Não beijam as galhetas, nem outra coisa das que oferecem ao Diácono, Subdiácono, ou a qualquer outro Ministro do Altar.
7. Antes de qualquer Ofício devem acender as velas da maneira seguinte: saúdam a Cruz da Sacristia, donde partem, cruzados os braços, e vão fazer genuflexão no pavimento, diante do meio do Altar, tendo então as mãos juntas diante do peito: depois tomam as varas preparadas com o rolo; e feita de novo genuflexão no meio, sobem ao subpedânio, e primeiro para a parte da Epístola, o segundo para a parte do Evangelho, e acendem as velas, principiando pelas mais vizinhas à Cruz, e esperando mutuamente para acendê-las ao mesmo tempo cada um de seu lado: depois do que, tornam a pôr as varas no lugar donde as tomaram; e feita a genuflexão, como no princípio, voltam para a Sacristia. Senão houvesse luz na Sacristia, o segundo Acólito a trará para acender as velas dos castiçais.
8. Se um só Acólito houvesse de acender as velas do Altar, deveria principiar pela mais vizinha à Cruz da parte da Epístola, e acender as outras da mesma parte sucessivamente; depois, genuflectindo no subpedânio, acenderia as da parte do Evangelho, começando pela mais vizinha à Cruz, umas, e outras sem interrupção, e continuadamente de qualquer as parte, e com as mesmas genuflexões no pavimento antes, e depois.
9. Acabado qualquer Ofício, os Acólitos, depois de apagadas as velas dos seus castiçais, vão também apagar as do Altar desta sorte: vão juntos com os braços cruzados, e fazem genuflexão no pavimento, diante do meio do Altar. Depois, tendo tomado os apagadores, sobem ao subpedânio, cada um no seu lado, e apagam as luzes; a saber, o primeiro as da parte da Epístola, e o segundo as do Evangelho, principiando ambos no mesmo tempo pelas velas mais distantes da Cruz, e continuando pelas mais; depois, tendo posto os apagadores em seu lugar, fazem genuflexão no plano abaixo do Altar, como fizeram quando chegaram, e voltam para a Sacristia.
10. Se um só Acólito apagar as velas, principia pela mais diferente da parte do Evangelho, e sucessivamente apaga as outras da mesma parte; depois faz genuflexão no meio do subpedânio, e apaga as da parte da Epístola, pela mesma ordem que apagou as do lado do Evangelho: isto feito, desce ao pavimento, e aí faz genuflexão (assim como a devia fazer, quando no princípio chegou ao Altar), e se retira para a Sacristia.
(continuação, II parte)
A CONTRA-MINA Nº 1: Razão do Título da Obra (II)
(continuação da I parte)
Nos 8 anos contados de 1820 fizeram-se as maiores diligências, para que o Povo se embriagasse do cálice da Prostituta, ou, para melhor dizer, da Constituição. Prometeu-se-lhe o que nunca lhe seria outorgado, nem concedido; embalaram as gentes do campo, e os inexpertos Lavradores com a risonha esperança, nem foros, nem rações; pintaram-lhes como Usurpadores os que eram verdadeiros Senhores das terras, de que eles subsistiam, e pareceu a muitos destes miseráveis, assim iludidos, que estariam desligados para sempre das obrigações contraídas pelos seus Maiores; e que mui grande, e boa coisa era uma Constituição Política, que os fazia absolutos Senhores de quanto agricultavam, e recolhiam..... Não passou esta agradável perspectiva de um estéril, e manhoso anúncio... pois logo se conheceu, que se os antigos encargos fossem abolidos, ficariam sem efeito os 4800 rs. diários aos chamados Representantes da Nação, e outras miudezas do mesmo género, que não existem, nem podem existir sem dinheiro. Viu-se que todo, quanto havia no Reino, era pouco para essa alcateia de Tantalos, sequiosos de grandes fortunas, e conheceu-se afinal que os Regeneradores do Tesouro nacional (ou Maçónico), longe de lhe curarem as feridas, parece que só trabalharam para as fazer cada vez mais profundas, ou incuráveis. Tudo era vociferar nos Campeões, nos Brasilienses, nos Portugueses, e outros bota-fogos semelhantes contra as sanguessugas do Estado, contra os mandões, contra os valídos, contra a odiosa acumulação de empregos, etc. e deitando a mão sacrílega ao leme do Estado, e já por eles tão desejada arrecadação das Finanças, seguiu-se um espantoso naufrágio, cresceu desmesuradamente a dívida pública, de que enchiam a boca para menoscavarem o governo precedente, e trabalhou mais nos três infaustos anos, em que estes marinheiros dirigiram a Barca do Estado, para a levarem a pique, e a submergirem, do que nos maus dias de Junot, quando este Próconsul exigia os 40 milhões de cruzados para resgate das nossas fazendas, e propriedades!
Se fizeram maravilhas no artigo "Finanças" em tudo o mais foram coerentes, e sempre iguais a si próprios, o que fez tão viva impressão no ânimo de todos os bons Portugueses, que a sua impaciência, pela chegada de um Restaurador, que pusesse termo a esta medonha série de rapinas, e de sacrilégios, era ao mesmo passo um remédio, e um tormento. Era um remédio, porque só visto de longe animava, e consolava; era um tormento, porque a dilação exacerbava as nossas penas, e fazia que tremêssemos a cada instante pela segurança de um Príncipe, que é, e será as Delícias dos Portugueses, sem diferença do que tremeríamos se víssemos no maior perigo a nossa existência... A compressão, em que vivemos desde 6 de Março de 1826 até 22 de Fevereiro de 1828, só tem paralelo nas agonias da morte; o que era tão conhecido da Maçonaria, que se atreveu como a dar caça aos mais recônditos segredos de nossos corações. Um forro vermelho num chapéu, ser causa bastante para ser fustigado quase até morrer um infeliz Transmontano! O nome do Arcanjo S. Miguel ser evitado cautelosamente, para que não parecesse um crime de Lesa-Nação! Ferverem os insultos na Capital do Reino às pessoas Eclesiásticas, e nomeadamente às que não eram, nem queriam ser da Confraria.... Os Católicos, e amigos do seu Rei detestados, e enxovalhados em pinturas, que eu vi, e de que tantas vezes me horrorizei! Por este violentíssimo estado, muito pior que o dos forçados das galés, ou que os dos escravos de Argel, é que devemos regular presentemente as nossas ideias, para fugirmos até das mínimas aparências de uma Revolução! nem que fossemos bem sucedidos, ou gozássemos delícias inefáveis, nas que dentro em poucos anos tem passado por cima das nossas cabeças, e ameaçado subverter-nos!!
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| "Sua Majestade o Senhor Dom Miguel Rei de Portugal e dos Algarves" |
Ora, de todos estes princípios nasceu a entranhável afeição dos bons Portugueses ao mui Alto, e Poderoso Senhor D. MIGUEL I. Não me cansarei de o repetir; ele é, e tem sido uma vítima generosa pelas felicidades deste Reino... Não seria ele mais ditoso no estado particular do que é cingindo a Coroa destes Reinos? Que lhe faltava na Côrte de Viena de Áustria para ser ditoso, quanto pôde ser um Príncipe aliado da Família Imperial? Faltou-lhe uma só coisa; que os seus Portugueses também o fossem: lá chegaram os clamores da fidelidade Portuguesa, e ao ver que naufragávamos em todo o sentido, que brevemente nem seriamos Portugueses, e, o que é pior, nem ainda Cristãos, estremeceu à vista das nossas desgraças (e mediu a grandeza do perigo), e sem hesitar, sujeitou-se a uma alternativa, que faria vacilar qualquer outro espírito menos alentado, e generoso que o seu,qual era, ou de morrer connosco, ou de nos libertar para sempre do férreo julgo da Maçonaria.
Nunca deveu a Nação Portuguesa a um Soberano, o que ela deve ao actual, e de que nunca se deverá recordar sem lágrimas de ternura, e do mais vivo agradecimento. O Senhor D. João I, o Senhor D. João IV foram os Restauradores da Monarquia Portuguesa; ambos porém encontraram nos Portugueses uma só alma, um só coração, uma só vontade... mas que encontrou o Senhor D. MIGUEL I ao saltar nas praias deste Reino?... Uma democracia furibunda, e tão furibunda, que um Lentezinho desta Universidade de Coimbra protestou, que saberia ensinar o Senhor D. MIGUEL se ele viesse com ideias anti-Constitucionais!!!! Os tais Demagogos faziam-se com terra para ensinarem o próprio Regente da Monarquia; e que respeito, ou consideração teriam eles com os dignos Pares, quando se tratasse de nivelar as condições, e abater os grandes Proprietários?..... Quando este Reino saiu da mão dos Reis Filipes Castelhanos, achava-se o Clero Português com todas as suas honras, e privilégios intactos, como se devia esperar de Soberanos Católicos; porém agora, quando este Reino saiu das impuras mãos, ou antes garras dos Constitucionais, que consideração tinha o Clero, de que liberdade gozava o Pároco, ou o Bispo em ordem a pastorear o seu rebanho.... Ver, e gemer, eis o principal ofício, a qual se reduziram todos... Qual era a veneração dos principais objectos do Culto, e dos Sagrados Templos?Quase não passava uma Semana, em que se não ouvisse "lá furtaram os Vasos Sagrados em tal Igreja, lá arrombaram os Sacrário de outra, lá deitaram no chão, e espezinharam as Sagradas Formas, lá atiraram com lama ao Sacratíssimo Sacramento, caso este nefando, e único na História dos Sacrilégios perpetrados neste Reino! Como eram tratadas nesse tempo estas, e outras que tais violações das coisas Santas? Como rapaziadas, e sucessos de pouca monta; e assim o deviam ser no conceito dos rígidos observadores de uma Constituição." para a qual estes, e outros factos do mesmo jaez, ficavam sem taxa ou nota, por isso mesmo que não perturbavam a ordem pública... Agora outros factos, por exemplo, recomendar-se do púlpito o jejum da Quaresma, e a observância desta, e de outras Leis da igreja, era o mesmo que contrariar abertamente o Sistema Constitucional, e fazer-se credor da odiosa qualificação de Energúmenos, e perturbadores da ordem pública...
Tomara que os Portugueses estudasse de contínuo estes atrasados, não para se vingarem, o que só pertence ao Legislador, e à lei, mas para se fortalecerem cada vez mais nos sentimentos de amor, e lealdade para com um Soberano, que nos preservou de tantos males, e nos acarretou um sem número de bens, que, no meu conceito, o maior de todos é o terem cessado os Sacrilégios, e podermos ser Cristãos à nossa vontade.... Já respira, já não é prisioneira, e condenada a um rigoroso silêncio a palavra do Senhor, espalha-se em diferentes partes deste Reino, que por ter experimentado uma seca de oito anos poria à sede.... e apenas chegou o Senhor D. MIGUEL, e os zelosos operários da Vinha do Senhor começaram os seus tão penosos, como utilíssimos trabalhos, reverdeceram milhares, e milhares de plantas, que já pareciam definhadas, e mortas; receberam nova força as que tinham sido açoitadas de tormenta Constitucional, mas que assim mesmo tinham conservado os sucos vitais da crença verdadeira. Nota-se pois em todo o Reino uma santa avidez das boas doutrinas, que arrasta os Povos de léguas, e léguas para ouvirem as trombetas do Evangelho; e é força que todos estes Povos conheçam e protestem altamente, que é o Senhor D. MIGUEL abaixo de Deus, a quem devem todas estas felicidades. E que outra coisa há-de desta cadeia, a mais extensa, e nunca interrompida de maravilhas do Céu, senão a indestrutível firmeza dos laços que prendem o mais fiel dos Povos do Mundo com o Soberano, que tem feito maiores Sacrifícios, e que mais tem padecido em graça de seus Povos? E quererão estes Povos lançar-se outra vez, e desatinadamente, nesse boqueirão Maçónico, em tudo viva cópia de poço do Abismo, donde só poderiam sair males, e desgraças sem conto, e a própria extinção da Fé Católica neste Reino? Não o creio; porém a sedução é contínua, assim como a estragética dos Mações é a arte mais fecunda em sonhar perigos, que façam estremecer uns, e em prometer grandes venturas, com que possa abalar, ou determinar a simplicidade de outros; e por isso é chegada a ocasião de se acender, mais que nunca, a fatalíssima, para os Mações, guerra da pena, em quanto não principia a outra da espada, cujo efeito será mais pronto, e decisivo, como tratarei de provar no Número seguinte.
Coimbra 2 de Dezembro de 1830.
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