27/02/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LXI)

(continuação da LX parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XXIX
Como Invocar a Deus no Tempo das Tribulações

1. Alma - Senhor, Vós quisestes que viessem sobre mim estas tentações e este trabalho; seja bendito para sempre o Vosso nome. Conhecendo que não posso fugir-lhes, devo necessariamente recorrer a Vós, para que me ajudeis e os convertais em minha utilidade. Senhor, acho-me agora na atribulação, o meu espírito está sem sossego por causa desta paixão que me atormenta vivamente. Que Vos direi agora, ó Pai amabilíssimo?  Vejo-me cativo das maiores angústias. Livrai-me desta hora.
Vós permitistes que eu chegasse a ela para glória Vossa, a fim de fazerdes brilhar o poder da Vossa graça, humilhando-me e librando-me de um tão grande perigo. Agrade-Vos, Senhor, o livrar-me. Eu, pobre, que posso fazer e para onde posso ir sem Vós? Dai-me, Senhor, paciência ainda por esta vez. Ajudai-me, Deus meu, e eu não temerei cair na tentação, por mais violenta que ela se apresente.

2. Que posso dizer-Vos neste estado? Senhor, faça-se a Vossa vontade. Eu bem mereço as angústias e atribulações. Convém que eu sofra. Agrade à Vossa bondade que tudo suporte com paciência até que passe a tempestade e venha a bonança. A Vossa mão é poderosa para me tirar desta tentação e para diminuir a sua violência, a fim de que me vença. Esta graça já me tendes concedido muitas vezes, ó meu Deus, minha suprema misericórdia! E, quanto mais dificultosa é esta mudança para mim, tanto mais fácil é ela para Vós, porque é obra da dextra do Altíssimo.

VIDA DO VENERÁVEL Pe. Fr. TOMÉ DE JESUS (I)

 
VIDA DO VENERÁVEL Pe. Fr. TOMÉ DE JESUS,

RELIGIOSO DA ORDEM DOS ERMITAS DE SANTO AGOSTINHO
DA PROVÍNCIA DE PORTUGAL


Composta pelo Ilustríssimo e Reverendíssimo Senhor

D. Fr. ALEIXO DE MENEZES, ARCEBISPO PRIMAZ DE BRAGA,

do Conselho de Estado de Sua Majestade em Portugal, e Presidente do Supremo do mesmo Reino, Religioso da mesma ordem.

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Foi Fr. Tomé de Jesus filho de Fernando Alvares Andrada, um os principais, e ilustres do Reino de Portugal, do conselho de estado DlRei D. João III, e um dos mais validos, e de mais confiança dos que este Príncipe teve no tempo de seu governo. Esra este cavalheiro mui devoto da sagrada Religião do nosso Padre Santo Agostinho, e estimava em muito a virtude, e santidade do venerável Padre Fr. Luís de Montoia, que então estava ocupado na fundação do Colégio de Nossa Senhora da Graça de Coimbra; e quis, como prudente, e grande cristão, que ele fosse mestre de seus filhos, que pretendia que fossem eclesiásticos, ara que os criassem em sua doutrina. Logo que Fr. Tomé foi de idade que podia já sair de casa de seus pais, o enviou ao Colégio, juntamente com seu irmão Diogo de Paiva de Andrada, cujas letras, virtudes, e pregação são tão conhecidas neste Reino, e fora dele, como o mostram as lições, que leu no Concílio Tridentino, onde assistiu por mandado de ElRei D. Sebastião, e os livros, que compôs contra hereges, e seus sermões, que andam impressos. Era o servo de Deus Fr. Tomé de Jesus de idade de dez anos, quando o entregaram à doutrina, e criação do santo Fr. Luís de Montoia, e ele o criou de modo, que aos quinze de sua idade lhe deu o hábito de nossa Religião no mesmo Colégio, em que se criava.

Foi grande parte desta resolução um milagre, que o glorioso S. José fez por ele pouco depois que veio do Colégio; porque levando o servo de Deus uma tarde os estudantes do Colégio a recrear junto do rio Mondego, o menino Tomé se lançou a nadar; e como sabia pouco daquele exercício, e tinha poucas forças, embaraçou-se de sorte na água, que se ia afogando sem remédio: e vendo isto os Religiosos acudiram ao servo de Deus, que conhecendo o perigo em que o menino andava já sem sentido, porto de joelhos começou a chamar por S. José (a quem tinha grande devoção) que valesse, e salvasse o inocente menino. Ouviu o Santo sua oração, e por sua intercessão chegou o menino às praias do rio, ao lugar onde os Religiosos estavam, que o tiraram da água sem lesão alguma: pelo que o servo de Deus Fr. Luís de Montoia edificou uma capela no Colégio ao glorioso S. José, e o tomou por patrono dele, como hoje o é, e o menino Tomé reconhecendo a merçê que Deus lhe havia feito em dar-lhe vida milagrosamente determinou gastá-la em serviço do mesmo Senhor.

(a continuar)

26/02/15

DO LIVRO DA EMBAIXADA DO PRESTE JOÃO DAS ÍNDIAS (III)

(continuação da II parte)

Cap. IV
De Como Partiu o Patriarca Com a Gente que ElRei lhe deu, e Chegaram à Índia

Preste João das Índias
Logo no ano seguinte estando já são pela bondade de Deus, fui na armada da sua A. de que foi por
Capitão-mor Pero Lopes de Sousa irmão de Martim Afonso de Sousa. Levei em minha companhia per mandado de Sua Alteza, Fr. Pedro Coelho frade da Ordem de S. Domingos com outros três frades da dita ordem, seus companheiros, para me ajudarem a doutrinar o povo daquelas terras, os quais não chegaram lá comigo, por o dito Fr. Pedro ficar em Chaul. Levei também António Fernandes, e Gaspar Suriano ambos Arménios de nação, que por mandado do Preste João vieram em minha busca,aos quais S. Alteza fez muitas mercês e lançou a um deles o hábito de Cristo, e escreveu por eles ao Preste João encomendando-os. Partidos assim todos de Portugal com o favor divino chegamos à Índia em salvo no tempo que o Vice-Rei D. Garcia era vindo de Diu com a vitória que houve dos turcos, sendo capitão daquela fortaleza António da Silveira, o qual Vice-rei nos recebeu com muita alegria, e a mim fez muita honra, o Bispo de Goa me veio receber com seu cabido em procissão com Cruz levantada e me levaram da praia do mar até à Sé numa cadeira que para isso deu o Rei seu avô: indo a meus lados de uma parte o Vice-Rei D. Garcia, e da outra Dom João de Eça capitão de Goa, e conhecendo-me por Patriarca me fizeram a honra devida à minha dignidade.

Cap. V
Como o Vice-Rei Mandou ao Preste Saber se Era a Embaixada do Patriarca.

Daí a dois meses pouco mais ou menos me disse o Vice-Rei que lho não pusesse culpa a ele nem a ElRei seu Senhor, por quanto eles eram grandes meus amigos, mas que havia alguns homens maliciosos que suspeitavam mal, os quais aconselharam a sua Alteza que mandasse fazer uma diligência, a qual era, mandar saber ao Preste João se minha embaixada era verdadeira ou não, e portanto queria mandar lá um homem primeiro que me expedisse. E assim o fez, porque logo mandou armar uma fusta, e mandou nela um seu criado de que se fiava por nome Fernão Farto, e com ele outros portugueses. Os quais foram ao Preste João, e acharam ser certo tudo o que eu dizia: e para mais segurança trouxeram consigo um Capelão daquele Imperador, o qual por si e por cartas de crédito que trouxe, afirmou ser eu seu embaixador enviado por ele a Roma a dar obediência ao sumo Pontífice: e assim ao Reino de Portugal para negociar com o Rei seu irmão certos negócios.E também disse que era verdade ser eu Patriarca daquela terra e suas províncias, conforme a seu costume: e que o seu Imperador dizia que eu era seu pai, e me assentaria na sua cadeira real, e ele aos meus pés. E que quanto era a despesa que ele a faria assim e da maneira que eu assentasse como o Vice-Rei, portanto que não duvidasse sua senhoria, nem deixasse de lhe mandar o socorro de gente e armas que por mim tinha pedido; e que não mandava ao presente nada, assim por ele estar numas montanhas fora de sua casa por respeito da guerra, como porque não havia disposição para ir seguro em tão fraco navio, e com tão pouca companhia. Todavia sem emprego de estar fora de sua casa; do que consigo tinha deu ao dito Fernão santo e a seus companheiros algumas peças, e eles lhe deixaram uma espingarda e pólvora que lhe ele pediu.

(a continuar)

25/02/15

RÁDIO CRISTIANDAD EM LUTO

Faz alguns anos que conheci a Radio Cristiandad (Argentina), era esta emissora patrocinada pela FSSPX (anos depois houve dissidências). Esta rádio, com a transmissão de palestras gravadas nos espaços da FSSPX, com a transmissão de audio-livros e do terço, e tantos outros programas, tinha sido um bom auxílio no complemento dos meus conhecimentos católicos (também não posso deixar de referir nisto a importância da extinta Radio Convicción).

Hoje deparei-me com uma notícia, a qual me deixou praticamente incrédulo por uns instantes: o Director Geral da Radio Cristiandad, Mário Fabián Vázquez, o qual era a voz dessa rádio, faleceu ontem, dia 24 de Fevereiro (2015), depois de ter sofrido um acidente automobilístico.

Embora o blog ASCENDENS não tendo qualquer tipo de vínculo com aquela rádio, não poderia deixar de prestar um sentido e honesto pesar, propondo aos leitores oração pela alma do defunto.

23/02/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LX)

(continuação da LIX parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XXIII
Das Quatro Coisas Que Trazem Consigo a Paz

1. Cristo - Filho, eu quero ensinar-te o caminho da paz e da verdadeira liberdade.

2. Alma - Eu Vos rogo, Senhor, que me concedeis essa graça.

3. Cristo - Filho, cuida em fazer antes a vontade alheia do que a tua. Contenta-te com o pouco e estima sempre ter menos que mais. Procura sempre o último lugar e gosta de ser inferior a todos. Deseja e pede sempre a Deus que cumpra em ti inteiramente a Sua santa vontade. Quem assim se conduzir entrará, sem dúvida, no país da paz.

4. Alma - Senhor, estas breves palavras, que acabais de dizer, contêm a suprema perfeição. São curtas, mas cheias de sentido e abundantes de fructos. Se eu pudesse observá-las fielmente, não me perturbaria com facilidade. Todas as vezes que perco a paz e me inquieto, reconheço que isso acontece por me haver esquecido essa doutrina. Mas Vós, que tudo podeis, e desejais o meu progresso espiritual, fazei que a Vossa graça me socorra, a fim de que, obedecendo aos Vossos preceitos, alcance a minha salvação.

5. Senhor, não Vos aparteis de mim, vinde em meu socorro, porque se levantaram contra mim pensamentos vários e grandes temores agitam a minha alma. Como escaparei ileso? Como poderei vencê-los? "Eu irei diante de ti - dizeis Vós - e humilharei os soberbos da Terra." "Abrirei as portas do cárcere e mostrar-te-ei as saídas mais secretas."
Fazei, Senhor, segundo a Vossa palavra, e fujam da Vossa presença os maus pensamentos que me perturbam.
Toda a minha esperança e a minha consolação nos males que me oprimem é recorrer a Vós, confiar em Vós, invocar-Vos de todo o meu coração e esperar com paciência o Vosso auxílio.

6. Iluminai-me, ó bom Jesus, com a claridade da luz interior.
Fazei brilhar a Vossa luz em meu coração e dissipai as trevas que o escurecem.
Reprimi as distracções ordinárias do meu espírito e quebrantai as tentações violentas que me combatem.
Pelejai fortemente por mim e afugentai as feras malignas que são os pensamentos iníquos, para que haja paz, e a abundância dos Vossos louvores cante em minha alma como num templo puro.
Dominai os ventos e as tempestades. Dizei ao mar: "Sossega"; dizei ao vento: "Não sopres"; e haverá grande bonança.

7. Enviai a Vossa luz e a Vossa verdade para que resplandeçam em minha alma. Sou uma terra estéril e tenebrosa, se me falta a Vossa luz.
Derramai sobre mim as graças do céu; regai meu coração com orvalho celestial; chovam sobre esta terra árida as fecundas águas da piedade, para que produza frutos bons e saudáveis.
Levantai-me o ânimo oprimido com o peso dos meus pecados; transportai todos os meus desejos ao céu, para que, amando as coisas celestes, não possa, sem desgosto, pensar nas terrestres.

8. Arrebatai-me, desprendei-me das fugitivas consolações das criaturas, porque nenhuma coisa criada pode aquietar e satisfazer plenamente o meu coração. Uni-me a Vós, por um vínculo indissolúvel de amor, porque Vós só bastais a quem Vos ama e sem Vós tudo é sombra e nuvens fugidias.

22/02/15

O BRASÃO PELO QUAL SE PODE ORAR CCXLIV


S. FRANCISCO DE ASSIS APROVARIA O PAPA FRANCISCO!?

Já é hora de acabar com ilusórias humilades e pobrezinhices que só servem para alimentar a vaidade dos "humildes" e actos da "pobreza aplaudida".

S. Francisco de Assis escreve:

"A todos os Custódios dos Frades Menores que receberem esta carta, Frei Francisco, pequenino servo vosso em Deus Nosso Senhor, deseja a salvação com os novos sinais do Céu e da Terra, que, grandes excelentíssimos aos olhos do Senhor, são contudo tidos em conta de vulgares por muitos religiosos e outros homens. Peço-vos ainda com mais insistência do que se pedisse por mim mesmo, supliquei humildemente aos clérigos, todas as vezes que o julgueis oportuno e útil, que prestem a mais profunda reverência ao Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo bem como, a seus santos nomes e palavras escritos, que tornam presente o seu Sagrado Corpo. Os cálices e corporais que usam, os ornamentos do altar, enfim tudo quanto se relaciona com o sacrifício, sejam de execução preciosa. E se em alguma parte o Corpo do Senhor estiver sendo conservado muito pobremente, reponham-no em lugar ricamente adornado e ali o guardem cuidadosamente encerrado segundo as determinações da Igreja, levem-No sempre com grande respeito e ministrem-no com muita discrição. Igualmente os nomes e palavras escritos do Senhor deverão ser recolhidos, se encontrados em algum lugar imundo, e colocados em lugar decente. E em todas as pregações que fizerdes, exortai o povo à penitência e dizei-lhe que ninguém pode salvar-se se não receber o Santíssimo Corpo e Sangue do Senhor. E quando o sacerdote o oferecer em sacrifício sobre o altar, e aonde quer que o leve, todo o povo dobre os joelhos e renda louvor, honra e glória ao Senhor Deus vivo e verdadeiro. Anunciai e pregai a todo o povo o seu louvor, de modo que a toda hora, ao dobre dos sinos, o povo todo, no mundo inteiro, renda sempre graças e louvores a Deus omnipotente. E todos os meus Irmãos custódios que receberem esta carta e a copiarem e guardarem consigo e a fizerem copiar para os Irmãos incumbidos da pregação e do cuidado dos Irmãos, e pregarem até o fim o que nela está escrito, saibam que terão a bênção do Senhor Deus e a minha. E isto lhes seja imposto em virtude da verdadeira e santa obediência. Amém." (Cartas de S. Francisco de Assis - Intratext)

Igreja do Convento de  S. Francisco - Porto (Portugal)
S. Francisco não poderia apoiar nunca aquelas atitudes do "pobrezinhismo para Deus".

Igreja do Convento de Sta. Clara  - Porto (Portugal)
Um dos motivos pelos quais as mais humildes Ordens tinham os templos mais ricamente preparados é a pobreza de vida da própria Ordem. Por um lado, os franciscanos, vivendo muito pobremente, guardavam praticamente tudo para gastar com Deus, e por outro lado, este modo de vida inspirava tanta admiração na população que comovia à vida de desapego PRIVADO e atraia os donativos (os quais, como vemos, acabavam em grande maioria no serviço de Deus).

CARTA DE UM VASSALO NOBRE AO SEU REI (I)

CARTA
DE
UM VASSALO NOBRE
AO
SEU REI

Duas Respostas à Mesma,

NAS QUAIS SE PROVA QUAIS SÃO AS CLASSES
MAIS ÚTEIS DO ESTADO.


(pelo Pe. José Agostinho de Macedo)

LISBOA
1820


I CARTA
De Um Vassalo Nobre ao Seu Rei

A Paz geral da Europa, traz consigo o sossego das armas; mas as questões que os sediciosos excitaram, não se decidiram: os males políticos que causaram, não se acabarão, e hão de produzir uma crise violenta, se os Reis, e os Grandes não derem as mãos para dissipar esse fenómeno fatal da dissolução das Monarquias. (Note-se, que a presente Carta, não foi escrita na época da Revolução Francesa, mas [...?] ou 16 anos depois.)

Tratar aos Príncipes com a verdade, é tão rigorosa obrigação, que em quase todos os Códigos se encontra a pena de morte para os que mentem ao seu Rei. Eu bem sei, Senhor, que esta verdade se requer no Vassalo, quando é consultado; mas quando as circunstâncias apertam, quando um verdadeiro zelo fala, não há que recear falar de respeito, porque a grandeza do Reino, não pode manter com o mais escrupuloso acatamento o Autor da ordem Política, que é o Soberano.

Esta preciosa liga do Príncipe, e seus Magnatas, esta dependência mútua dos Reis, e seus imediatos, é um terrível obstáculo para os malvados, que pretendem de salto conseguir as honras, sem trabalho de as merecer; e não querendo subir às Hierarquias pelo antigo, e honrado preço de nossos maiores, intentarão fazer um perigoso cisma entre os Reis, e os primeiros súbditos. Este cisma foi introduzido com muita arte, e este artifício deve descobrir-se ao Pai comum da Nação para que não lavrem entre nós os males que incendiaram a Europa, e abalaram quase todos os Tronos.

Eis aqui, meu Senhor, o que me obrigou a escrever este papel, cheio de lealdade, de respeito, e de amor ao meu Soberano, que, por fortuna nossa, não tem nenhum vício, é cheio de virtudes Reais, e passa a maior parte da sua vida no laborioso exercício do seu Augusto Ministério.

O primeiro artifício consistiu em perseguir as Corporações Religiosas, que são intimamente unidas com a Nobreza, e com ela conspiram ainda para a felicidade temporal dos Povos. A educação Religiosa, e civil, a melhor cultura das terras, a perpetuidade de sua duração, antiguidade de seu estabelecimento, e sobre tudo a Santidade de seu Ministério, tudo convidava a serem perseguidos homens a quem importava a existência da Monarquia. Querendo pôr os Frades em descrédito, notaram os seus abusos, e fraquezas, e viram-se com admiração gentes, que não criam em Deus, serem muito zelosas da observância da Lei, que detestavam. Toquei este objecto neste lugar, o mais digno, e não me demoro neste assunto, porque a Piedade dos nossos Reis afiança nesta parte a nossa fortuna. Além de que os tesouros, o descobrimento do Oriente do Senhor D. Manuel, e as Minas do Senhor D. João V são provas de que o Omnipotente enriqueceu os Fundadores dos estabelecimentos, religiosamente consagrados ao seu Santo Nome.

O segundo artifício dos perturbadores do sossego do Estado consiste em persuadir aos Príncipes, quanto eram intolerantes as etiquetas da Côrte; quanto embaraçavam à popularidade que os Soberanos ganham, cedendo do esplendor do Trono, para se fazerem mais acessíveis a seus humildes Vassalos, e até para se divertirem sem o peso de um triste cerimonial.

Ah! Senhor! Como são astutos os sistemas dos Cortesãos, quando não tem por objecto o sólido bem de quem os honra com a sua privança! O conhecimento do coração humano, e a ordem necessária para a duração do Governo, qualquer que ele fosse, obrigou a dor uma forma Política aos Estados, revestida de certas exterioridades, mais indispensáveis nas Monarquias. Ninguém diz que o que é substancialmente do Caracter do Rei, necessite de externo aparato para a nossa vassalagem, mas também ninguém me pode negar, que é necessário conformar-mo-nos com a debilidade dos nossos sentidos, e fazer-lhes respeitar o que é respeitável. Bem o entenderam assim em todas as idades os espíritos revolucionários, e por isso Gregos, Romanos, e Franceses, depois de pregarem a abolição das etiquetas, vida frugal, igualdade de condições, quando por fruto destas sediciosas práticas destruíram os Governos estabelecidos, apareciam os Imperantes com muito maior cortejo, e o Povo, instrumento cego de todas as desordens, sofria lei mais dura, contente com a mudança de nome. Convencidos todos os homens do quanto importa a cerimonial do Paço; para infundir o maior respeito àquele que nos dá Lei, e que a há de fazer executar, ainda resta mostrar, quanto interessa ao Rei, e à Sociedade, a boa, e invariável regra deste mesmo cerimonial.

O desejo de distinguir-se na Sociedade é paixão comum, e de que pode tirar-se grande partido. O Cofre do Rei mais poderoso, é fácil esgotar-se na menor calamidade: como poderá então um Príncipe Justo ter vassalos beneméritos, sem o tesouro importante das distinções! Os Campos da África alagaram-se de sangue, para que nossos Avós tivessem Comendas, e Governos. Os riscos do Oriente buscavam-se, para entrar depois de serviços próprios, ou herdados na casa do Docel. Um sinal sensível da estima do Rei, é uma autêntica, ou um modo de fazer invariável a avaliação do Público, ou de acreditar quanto reputa com justiça o merecimento do Cidadão. Mas como o que chamamos reputação, sendo o mais nobre preço de acções, não basta para alimentar as virtudes, por isso o Chefe da Nação uniu a estes sinais de distinção algumas utilidades sensíveis. os sinais de distinção consistem especialmente no modo pelo qual o Vassalo é considerado pelo Rei, ou Paço, ou Trono, ou nos Tribunais. Eis aqui pois a origem do cerimonial, e a sua importância; o decoro do Rei o necessita; e como acções nobres nobremente devem pagar-se, sem distinção, o Trono de V. Alteza Real, nem será elevado, nem seguro.

No infeliz século, que há pouco acabou, e que nos quis acabar, convidavam os Filósofos os Reis a serem homens, para os homens serem Reis, e o pior é que o conseguiram. A humanidade, Senhor, é muito diferente da familiaridade, e como a igualdade natural não pode sustentar-se dois dias em qualquer sociedade, devem os Reis, à imitação de Deus, sustentar o seu alto respeito em benefício da Ordem Pública, e promover as Ordens, e Hierarquias do Estado, que não podem durar, sem se conservarem os sítios políticos, e cerimoniais da Côrte, que ainda quando são penosos, custam com tudo mais aos que os não sofrem, e por isso os pretendem destruir, com inveja, ainda mais vil que o seu nascimento.

Vossa Alteza Real, mesmo quando por sua incomparável Generosidade despacha o representante de alguma antiga Família, quase sempre usa da expressão: "Por esperar que me sirva como como aqueles de quem vem", Eu fui Senhor, um destes, e animado do zelo de meus maiores, e do que me inspiram os meus iguais, dos quais em amor, e respeito a Vossa Alteza Real, estimo não me poder distinguir, venho a beijar Seus Reais Pés, e dizer-lhe com juramento, que a Sua causa é a nossa, a Sua Vida a nossa felicidade, e o nosso interesse a segurança da Monarquia.

O Marquês de .....

(a continuar)

18/02/15

ALGUNS AJUSTES PARA O ESTUDO DE D. FR. FORTUNATO DE S. BOAVENTURA

Sobre o Arcebispo de Évora D. Fr. Fortunato de S. Boaventura diz o liberal autor Inocêncio Francisco da Silva:

"D. Fr. Fortunato de S. Boaventura nasceu em Alcobaça à volta do ano de 1778 [seu pai era livreiro da vila]. Professou a Regra de S. Bernardo no Mosteiro de Alcobaça, em 25 de Agosto de 1795. Frequentou, na Universidade de Coimbra, a Faculdade de Teologia, nela se doutorou em 6 de Julho de 1810 [outros autores dizem 8 de Junho de 1811]. Foi professor [regente da cadeira] de História no Colégio das Artes. Em 27 de Agosto de 1831 foi nomeado reformador geral dos Estudos [cargo que até então tinha cabido a D. Francisco Alexandre Lobo, Bispo de Viseu]. Em 29 de Setembro deste mesmo ano, foi apresentado Arcebispo de Évora, e confirmado neste lugar pelo Papa Gregório XVI em 24 de Fevereiro de 1832, e sagrado em 3 de Junho deste mesmo ano [o próprio Rei o tinha nomeado, segundo fez saber, para dar a tão importante diocese um Bispo de grandes virtudes reconhecidas e pessoa digna de muita confiança]. Pouco tempo esteve em Évora. Triunfando a causa de D. Pedro, e "restabelecido" [aspas minhas] o governo constitucional, de cujas doutrinas foi sempre adverso, retirou-se [foi exilado] em 1834 para a Itália, vivendo os últimos anos em Roma, sem conforto e com pouquíssimos recursos económicos [como sempre o fez e faria qualquer bom monge]. Faleceu nesta cidade em Dezembro de 1844, e foi sepultado na igreja de S. Bernardo."

Para que não dê a falsa ideia de que D. Fr. Fortunato tivesse sido abandonado ou esquecido no final da vida, e que esse fosse o motivo da sua vida em pobreza, convirá lembrar que, segundo publicou em 1843 o "Il Mercurio di Roma" o nosso grande português morava no Convento de S. Anderea della Vall.

A biografia é breve porque não conseguiram apagá-la. Que vivas haveriam de querer dar os vencedores liberais a um Monge Arcebispo que durante as invasões francesas escreveu contra elas e contra o que elas representavam? (leia-se o opúsculo "Quando da Infame Conducta de Napoleão Bonaparte para com os Diferentes Soberanos da Europa, desde a sua intrusão no Governo Francês até Junho de 1808")

Em Maio de 1820 Fr. Fortunato foi nomeado correspondente da Academia Real das Ciências, e no ano seguinte nomeado sócio livre. O seu prestígio como historiador profundo e de rigor está também reconhecidos pela nomeação para Cronista da Ordem de S. Bernardo (cargo habitualmente desempenhado por monges que deixaram elevado nome na nossa história).

A grande parte dos sermões proferidos por D. Fr. Fortunato de S. Boaventura, os quais eram proferidos e publicados pela Imprensa da Universidade de Coimbra, foram depois na sua maioria queimados quando a mesma Imprensa foi ocupada pelos liberais (por via da Junta Liberal do Porto); acto do mais invertido critério de censura.

Parte superior da Capela mór da Sé de Évora
D. Fr. Fortunato de S. Boaventura nunca deixou o Arcebispado de Évora, e sempre, como de direito, continuou a agir como Arcebispo de Évora no exílio. Antes da sua partida para Roma, as falseadas novas "autoridades eclesiásticas" sobrepostas por via do ilegítimo governo liberal usurpante violentaram-no a sair da Arquidiocese. Escreveu então duas pastorais aos seus diocesanos a dar conta das ocorrências; uma foi escrita em Pombal a 15 de Setembro de 1833, e a outra em Condeixa a 21 de Outubro seguinte.

Tudo isto é uma pequena mostra para que se entenda porque as biografias que os liberais compuseram são tão reduzidas e pouco claras quando dizem respeito aos seus adversários, e aumentam as páginas aos do maldito liberalismo (pois chegam a colocar diante do Povo estátuas erguidas aos criminosos com o metal roubado de outras tantas estátuas a homens que sempre defenderam o que Portugal sempre defendeu).

Também, para que não se pense que D. Fr. Fortunato de S. Boaventura foi um caso isolado (embora seja personagem peculiar), ou que tivesse uma causa e visão muito originais (coisa que os liberais sempre tentam fazer crer: assim pareceria que a causa não foi nacional, mas sim de um grupo minoritário de indivíduos), devo lembrar ao, no texto transcrito, o liberal Inocêncio Francisco da Silva trata por "retirou-se em 1834 para a Itália" o que na verdade foi exílio forçado. O próprio D. Pedro de Alcântara, em carta a Gregório XVI, em Outubro de 1831, insurge-se contra o reconhecimento dado por Sua Santidade ao Rei D. Miguel, e ameaça que não aceitaria nunca a nomeação dos novos Bispos por D. Miguel. Caso ele tirasse o Rei D. Miguel do Trono, dizia que expulsaria do Reino a tais Bispos como rebeldes e traidores. O que é certo é que, passados alguns meses, o Santo Padre confirma tais Bispos, entre eles D. Fr. Fortunato de S. Boaventura. Assim que D. Pedro usurpou o Trono cumpriu com a ameaça.

SERMÃO DE QUARTA FEIRA DE CINZAS - Pe. António Vieira




Pe. António Vieira


A CONTRA-MINA Nº 19: A Tripeça Liberal (I)

CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,

por

Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.

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Nº 19
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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A Tripeça Liberal

Ninguém há de dizer,ou adivinhar facilmente, o que seja este Número, que em meu conceito é o mais terrível, que tenho escrito contra a Maçonaria. ora vejamos se assim é ou não. Uma tripeça, como indica o seu próprio nome, consta de três pés, e os que eu chamo de tripaça Liberal, são estes:

1º Pé - O Cidadão Mirabeau;
2º Pé - O Cidadão Volney;
3º Pé - O Cidadão Benjamin Constant.

Se fosse possível, que os Maçons Portugueses deitassem ao menos um rabo de olho para este misérrimo Periódico, estou certo que ao verem tais nomes, ficariam transportados de gosto, e mui pagos de tão oportuna lembrança. Mirabeau, o digno Mestre das revoluções modernas, o tipo de Fernandes Tomas! Volney, o preconizado Mestre da Nação Portuguesa, cujos batanetes Procuradores deixaram sair na Gazeta Oficial um pomposo anúncio das Ruínas postas em linguagem! Benjamin Constant, o autor moderno mais dilatado dos Maçons, o seu desperdiçado, o seu Benjamim! Que pedreiro haverá neste Reino de Portugal, e Algarves, que não seja tentado a beijar humilde, e respeitosamente ao menos o pescoço, onde se escreveram tais nomes, para cujo mister se deveriam procurar expressamente letras iluminadas, cujo brilho nos mostrasse uns longes desse clarão, que os mais conspícuos ilustradores da espécie humana derramaram por toda a circumferência da terra!

Vejam pois se eu sei escolher as autoridades, ou não; e pr ver que são estas absolutamente irrecusáveis, é que me atrevi a explorar as doutrinas de tão egrégios, e campanudos varões; porque me lembrou, que só eles poderiam varões; porque me lembrou, que só eles poderiam convencer alguns Portugueses, que mais facilmente acreditam, que há bruxas, do que na existência de Pedreiros Livres.

Mirabeau
Começando por Mirabeau, deve-se notar, que este Corifeu da Revolução Francesa [diria "Revolução na França"] residiu algum tempo em Berlim, onde apesar de que não era o Embaixador Francês, tinha muitos ares deste Olheiro, para cujo desempenho escrevia repetidas vezes ao Ministro Francês daquela Época. Divulgou-se esta correspondência em 1789, sem a mais leve nota de Cidade, ou lugar de impressão, mas é sabido, que foi em Alençon, e que a obrinha deu muito grande brado, por seu muito análoga à situação actual da França. O Grande Historiador Filippe de Comines afirma, que um Embaixador é sempre um espião honrado; o caso é, que ou Mirabeau fosse espião honrado, ou malévolo, como era mais do seu génio, e carácter, não é todavia de presumir, que sendo ele ávido por extremo de honras, quisesse enganar torpemente a sua Côrte, expondo-se por esse modo a ser apanhado em mentira, e a perder as boas gages do seu Ofício.... Participa ele em diversas cartas o progresso, que fazia em Berlim a Seita dos Iluminados, a que pertenciam os Secretários de Estado, e até os Principais de Sangue Real, havendo nesta Classe um de tal peso, e consideração para a Irmandade, que esta, por agradecida a seu Protector, lhe dava anualmente uma pensão de seis mil escudos!!! Ora estes factos não são verdadeiros, porque Mirabeau os contra; são verdadeiros, porque não há História de causas, ou de Pessoas da Côrte de Prússia, durante o Reinado dos Fredericos, Tio, e Sobrinho, que os não confesse de plano; e assim descobre-se mui facilmente o principal motivo, porque Bonaparte, dentro de uma semana desmanchou, e arrasou a obra de Frederico o Grande, e fez murchar os laureis de seus antigos Generais. Deixando de propósito muitas espécies tão curiosas, como instrutivas, para que não se diga, que eu me proponho insultar as Testas Coroadas, só aproveitarei o que Mirabeau nos conta dos projectos, e destinos da Maçonaria, e se lê na Carta 52, escrita em Berlim a 2 de Dezembro de 1786 a pág. 106 do 2º Tomo da Obra citada:

(a continuar)

A CONTRA-MINA Nº 8: Os Maçons Financeiros (V)

(continuação da IV parte)

D. Miguel, o Tradicionalista.
Aqui têm os meus Leitores qual seja o destino do ouro e prata naquelas infelicíssimas Nações, onde chegam a dominar os Financeiros Mações. O dinheiro de Espanha veio comprar os Maçons Portugueses, para fazerem quanto antes a primeira Revolução moderna da Cidade já antiga, e bem conhecida por estas manhas. O de Portugal teve um semelhante destino; e se hoje estivesse recolhido no Erário de Lisboa, o que saiu deste Reino, a fim de suplantar o Colosso Anti-maçónico, ou se figura o Senhor D. MIGUEL I, teríamos agora com que pagar em dia a todas as Repartições Civis, Militares, e Literárias deste Reino.

Para último e cabal desengano de qual tem sido, e costuma ser aplicação de Finanças, governadas por Maçons, ou Jacobinos, basta dizer, que já circula na Polónia o dinheiro apanhado pelos Franceses em Argel; e o próprio, a quem se deveu a Conquista mais importante para a humanidade, e que fez o que não puderam fazer Carlos V, e Luís XIV, quero dizer o novo Cipião, ou Marechal Bourmont, vive desterrado da Pátria, que ele honrou, e acreditou em extremo: e quem sabe se ele carecerá até do mais necessário para a vida!!

E que depressa esqueceram os insurgentes Polacos a boa lição, que num dos arrabaldes de Varsóvia lhes deu o General Souwarow em 1794? Deu-lha em quatro horas, e sem lhe custar muito; e a casta dos Souwarows não findou na Rússia. A sua Ordem geral ao Exército era "Stupai i be" em Russo, que vem a dizer pouco mais ou menos em Português "Adiante, e a matar" que deve ser nas actuais circunstâncias o grito geral da Europa contra os rebeldes e ...... Ai que aí se levanta contra mim a venerável Seita dos Moderados [são os constitucionais, porque usam o argumento de que o Rei não tem poder limitado e assim poderem alterar a Monarquia no seu mais profundo] (tão daninha e prejudicial aos Reis, e à crença verdadeira, como a dos Maçons) e me lança em rosto que sendo eu Ministro de um Deus de paz, advogo a causa do chamado por ele o Carniceiro de Varsóvia, e não respiro se não morte, e carnagem..... Concedo totum, nem eu quero desfazer em palavras tão honrosas. Sei o que digo..... e ao querer a destruição total da Maçonaria, conformo-me com as preces da Santa igreja, que sendo como é a verdadeira Mestra da Caridade, assim mesmo pede mais de uma vez, durante o Sacrifício dos seus Altares, que a mão direita do Todo Poderoso humilhe, prostre, e aniquile a soberba dos hereges..... e que hereges há, ou tem havido, que mais danosos fossem para a Religião, e para o Estado, do que os Pedreiros Livres? Quanto eu tivesse a eloqu~encia, e a virtude de meu Pai S. Bernardo, não julgaria ofender, nem ainda levemente, a caridade, e até folgaria muito de prégar uma Cruzada contra as Luzes do Século, muito piores que a barbaridade Maometana, ou contra os Pedreiros Livres, em comparação dos quais a Soldadesca de Omar, ou do Saladino, ou de Maomé II, era uma boa gente.

Colégio do Espírito Santo em Coimbra
9 de Maneiro de 1831

Fr. Fortunato de S. Boaventura.

HARMONIA POLÍTICA DOS DOCUMENTOS DIVINOS (VII)

(continuação da VI parte)

REPUTAÇÃO
Para Com os Estrangeiros

15. Ou são notoriamente menores, ou maiores, ou iguais em poder. Favorecer aos primeiros, é obrigá-los, pois não podem atribuir o favor senão à generosidade do Príncipe. Aos maiores, ou iguais (principalmente sendo gentes do Norte) nem se há de fazer injustiça nem graça; porque vingativos e soberbos, nem sofrem injúria nem reconhecem benefício, antes avaliam a cortesia por temor, e assim aquele que devera provocar gratidão provoca o desprezo; uma gravidade afável os conservará; e pecará menos quem inclinar a severo. Recebendo-se agravos, examinem-se as forças: se se pode tomar satisfacção, justifiquem-se as armas precedendo bons termos; mas não se dilate a emenda, por não ocasionar insolências.

16. Assim o fizeram os Sereníssimos Reis de Portugal em várias ocasiões que notaremos quando tratarmos da Fortaleza.

17. Sendo a força inferior, é inútil com eles a razão; menos prejudica dissimular que não vingar o que se mostra sentir; o primeiro se atribui a remissão, o segundo a atrevimentos.

D. João III
18. Em outro lugar [da obra] veremos um exemplo desta Política em nosso Rei D. João III. É verdade que a dissimulação se deve limitar, como abaixo diremos.

19. Mandar Embaixadores serve para criar homens que tenham visto muito (qualidade precisa para conselheiros de Príncipes); mas não conduz para a Reputação. Quem os manda, mostrasse dependente; sendo contínuos, são menos estimados: e recebendo afrontas, causam empenhos. Para alcançar notícias (que verdadeiramente são necessárias), e acudir a os negócios ordinários, é melhor com menor título uma pessoa inteligente; principalmente nas partes do Norte, onde as resoluções dos Conselhos saem logo a público, e se negoceiam mais por brindes, e tratos que a gravidade de Embaixador não permite. Só a concluir uma negociação gravíssima deve ir um Embaixador extraordinário, estando preparado pelo menor ministro; não concluindo logo, não se deve deter; se deste modo não persuadir, menos fará com se dilatar. São também necessários para dar pezames, ou parabéns, com muita ostentação, e pouca detença.

20. Os Sereníssimos Reis de Portugal não costumavam ter nas Côrtes Estrangeiros Embaixadores Ordinários; negociavam melhor empregando em navios essa despesa.


SENHOR

21. A Restituição de V. A. Real a este Reino foi não só justa, mas também milagrosa; contudo maior segurança terá V. A. R. na Reputação de suas acções, que nas maravilhas com que o vimos favorecido do Céu. Saúl advertido que poderiam mais por David os aplausos do Povo, que por ele a eleição de Deus. O mesmo Cristo cuidadoso de sua fama perguntava aos discípulos que opinião tinham os homens dele. Sei que uns Políticos modernos põem a honra na conveniência; mas o seu venerado Tácito lhes adverte que quando isso tenha lugar nos particulares, não procede nos Príncipes, cuja condição os obriga a ter por fim principal, e desejar insaciavelmente a glória. Quem diz ao Príncipe que não faça caso da murmuração, que resultar de alguma acção sua quer destruí-lo, diz-lhe que despreze as virtudes, que se mostre dissoluto, e insano. Impossível parece que se não modere quando sentir que é geralmente condenado; mas se não temer o juízo comum, quem o reprimirá nas paixões? Os particulares costumam idolatrar seus vícios, não só os dissimulam com silêncio, mas os canonizam com silêncio, mas os canonizam com aplauso, e aos que podem pecar sem castigo, o remédio é mais necessário. Que vantagem há de viver no mundo se se há de morrer na memória dos homens? Tantas vezes se morre quantas se perde a imortalidade, e o Príncipe a perde todas as vezes que a não merece; porém, merecendo-a, que coisa há maior que ter segurança quase Divina entre a fragilidade humana? Não há coisa que valha a perda da fama; Só então entesouram os Reis quando a melhoram; e é o tesouro mais durável; mas como o fogo que facilmente se conserva, se de apaga, e apagado não torna a acender com facilidade; é a Reputação flor delicada que perde a graça se se toca, ou sol pela oposição da nuvem fica escuro para nós, posto que claro em si mesmo; pelo que V. A. R. não somente evite o que pode ofendê-la com realidade, mas também o que poderia opor-se-lhe com suspeita, tendo sempre na memória o conselho da Divina Política pelo Apóstolo: "Cuidai no que é de boa fama." (Paul. ad. Philipp. 4 n 8)

(continuação, VIII parte)

17/02/15

CONTRA-MINA Nº 8: Os Maçons Financeiros (IV)

(continuação da III parte)

Foi necessário aos Jacobinos, e Maçons o dinheiro de metal para os fins seguintes:

1º - Comprar o Exército, e por isso começaram em 1790 por lhe dobrarem o soldo. Os Exércitos são os defensores naturais dos Reis, e das Monarquias. A maior parte da Oficialidade era sinceramente Realista, e bem o mostrou na emigração, por isso foi necessário espalhar grossas somas entre os Oficiais inferiores, para que estes desencaminhassem os Soldados, e assim mesmo custou muito a pervertê-los, o que ainda tractareis mais difusamente, quando me suceda falar no Exército Português;

2º - Assalariar os indivíduos, a quem a fome escaldava os cérebros, e fazia gritar sem tom, nem som pela igualdade, e que diariamente concorriam nas lojas, e clubs, para assim o dizer de capa em colo, e de barriga aventureira. Ora uns destes eram destinados para corromper o povo miudo, já da Capital, já das Províncias, e por isso careciam de seu trem, e aparato, e que nada lhes faltasse para desempenharem as suas comissões à vontade dos seus constituintes;

3º -  Para se dar um tanto por dia aos gritadores das galerias, e aos bandos armados, que vagavam pelas ruas de París, e por todos os Departamentos à caça dos Nobres, e dos Padres, e para outras comissões do mesmo jaez;

4º - Para semear a discórdia entre as Potências, que se tinham aliado contra a França, compras de Generais, de Ministros de Estado, já para ajudarem a Revolução, já para dormitarem nos seus respectivos empregos;

Propriedade privada do Banco privado Reserva Federal
5º - Para abonarem as grandes despesas da Propaganda Revolucionária, que tinha o seu sito principal nas Côrtes, e Cidades mais populosas, e Universidades, onde espalhava as suas doutrinas, e promovia o azedume dos Povos contra os Reis. N. B. Foge-me aqui da pena o emissário Barbanção, que se degolou em Lisboa com a navalha de barba, e outro de marca maior, o que escapou aos malsins do Intendente Pina Manique, de industria das pessoas, que menos o deviam proteger; e até me foge o Negociante Alemão da calçada de Coimbra, onde se alistaram Pedreiros Livres alguns Estudantes, que assim o têm consignado em letra bem redonda;

6º - Para satisfazerem as avultadíssimas somas prometidas aos Regicidas; pois que foi esta uma das primordiais aplicações do dinheiro Francês, colhe-se a posteriori de morte violenta de Gustavo III Rei da Suécia, e de outros que fizeram menos estrepitosamente, quero dizer, com veneno, de que por ora bastará somente pôr o ramo em Viena de Áustria, e na Pessoa do Imperador Leopoldo; e caso houvesse neste particular a mais leve hesitação, o sobredito relatório do Ministro St. Just é capaz de abrir os olhos a quem os não quiser ter fechados inteiramente à Luz: "O dinheiro mais bem empregado é o que se destina para nos desfazermos dos tiranos, e restituirmos ao Povo o direito imprescriptível de escolher quem os governe.".

Por mais espantoso, e horrível que tudo isto pareça aos meus Leitores, devem saber, que não se limitou somente ao que deixo expendido a insaciável cobiça que atormentava os rebeldes Franceses [um rebelde francês não é já um verdadeiro francês]. Bem sabem eles o poder dessa arma, que tem ganhado muitas batalhas, e rendido muitas praças, (que já dizia um bom entendedor antigo, que nenhuma era inconquistável, quando lá pudesse entrar um jumento carregado de ouro) e por isso tentando eles nada menos que republicanizar o mundo, forçosamente haviam de extorquir para este fim todas as riquezas Nacionais. De muito lhes entendiam à maneira de um antigo tirano, que estendia as suas victimas sobre um leito de ferro, mutilando umas, e deslocando os ossos a outras, para chegarem à perfeita igualdade, (e assim lho deitou na cara um ilustre Preopinante Mr. Vergignaud) e daqui veio que um certo Jan Fernandes, ou Cambon, Presidente do Tesouro Nacional de França, blasonava de cunhar moeda nas praças, onde se arvorara a Guilhotina, e que estas praças faziam as vezes de Casas da Moeda, onde as cabeças dos ricos eram outras tantas barras de prata.

(continuação, V parte)

1ª VIDEOCONFERÊNCIA ASCENDENS - Notícias


Esta sexta-feira, dia 20 de Fevereiro de 2015, haverá uma videoconferência experimental: a 1ª videoconferência ASCENDENS.

Esta videoconferência experimental surge para colmatar uma outra que o autor do blogue ASCENDENS tinha marcada, e que por diferença de fusos horários dos vários interessados houve que adiar a conferência para melhor ocasião. Pelo interesse manifesto, e também pelo teor dos temas mais procurados, achou-se por bem fazer agora uma conferência ASCENDENS acertada pelo horário do Brasil.

Tema da conferência: Perguntas Fundamentais Entre a Civilização Lusa e o Brasil Intemporal.
Meios: Pretende-se apenas identificar e levantar questões centrais.
Objectivos: Possibilitar a anulação do efeito das campanhas liberais, maçónicas, e modernistas (e outras dificuldades), na relação do Brasil com a Civilização Lusa.

Sem dúvida que esta conferência, ainda que experimental, é fruto da experiência obtida ao longo deste últimos anos, e no que toca a estas matérias. É tema mais que interessante, é tema importante, e até urgente.

Os assistentes serão convidados escolhidos em pouca quantidade, estão também convidados a colocar as suas questões durante a conferência, em tempo para isso destinado. Evidentemente, são convidados a assistir outros tradicionais católicos de várias nacionalidades.

Contacto: ascendensblog@gmail.com

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LIX)

(continuação da LVIII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XXII
Os Inumeráveis Benefícios de Deus

1. Alma - Senhor, abri o meu coração à Vossa lei e ensinai-me a andar na observância dos Vossos preceitos. Fazei que eu conheça a Vossa vontade; que considere, com grande atenção e diligência, os benefícios, tanto gerais como particulares, que me tendes feito, a fim de que possa por eles dar-Vos as devidas graças.
Sei e confesso que não sou capaz de agradecer dignamente o menor desses dons. Reconheço-me infinitamente inferior a todos os bens que fostes servido fazer-me; e, quando considero o quanto sois superior a mim, fico como que oprimido debaixo do peso da Vossa grandeza.

2. Tudo o que possuímos na alma e no corpo, todos os bens internos e externos, naturais e sobrenaturais, são outras tantas graças e favores que nos tendes feito e outros tantos argumentos que provam a Vossa beneficiência, piedade e bondade, e que mostram, ao mesmo tempo, que sois a fonte de todo o bem que recebemos.
Não há dúvida de que uns recebem mais benefícios e outros menos, mas todos são Vossos e sem Vós ninguém pode possuir o menor dos bens.
Aquele que tem recebido maiores dons não pode gloriar-se de que os mereceu, nem elevar-se sobre os seus semelhantes, nem insultar o que teve menos; porque o maior e o melhor é aquele que menos atribui a si e que é mais humilde e devoto em ser-Vos agradecido. O que se julga mais vil e indigno de todos é o mais capaz de receber maiores dons.

3. O que receber menos favores não deve entristecer-se, nem indagar-se, nem invejar os que receberam mais; antes deve considerar e louvar a Vossa bondade, que reparte, sem distinção de pessoas, os seus dons, com abundância tão liberal e tão gratuita.
Tudo vem de Vós e por isso em tudo deveis ser louvado. Vós sabeis o que convém dar a cada um.
A Vós, e não a nós, pertence discernir porque um é mais favorecido e outro menos. Porque somente Vós tendes a medida dos merecimentos de cada um dos homens.

4. Por isso, meu Deus e meu Senhor, creio que me fazeis um benefício especial em não me conceder aquela abundância de graças que, brilhando externamente, atraem os louvores dos homens.
Assim, todo aquele que se vê destituído destes favores, bem longe de entristecer-se, deve consolar-se; porque Vós, Senhor, elegestes, para Vossos familiares e domésticos, os pobres e os humildes e os desprezíveis segundo o mundo.
Testemunhas me sejam os Vossos apóstolos, feitos por Vós príncipes de toda a Terra. Eles viveram entre os homens sem se queixarem das maiores afrontas que recebiam. Foram tão humildes e tão simples, tão isentos de malícia, que punham a sua maior alegria em sofrer os maiores ultrajes para glória do Vosso nome, e em abraçar com afecto divino tudo aquilo que o mundo aborrece.

5. Nada deve alegrar tanto a quem Vos ama e vive no reconhecimento dos Vossos benefícios, como fazer-se nele a Vossa vontade, executando-se em si as Vossas eternas disposições.
Esse prazer deve ser tão grande que o objecto das disposições divinas procura ser o mínimo, do mesmo modo como outro procure ser o maior; e acha tanta felicidade em ocupar o último assento quanta acharia em ocupar o primeiro; e apetece ver-se tão desprezado e desconhecido de todos como  os ambiciosos gostam de ser reconhecidos e adorados por todos.
A Vossa verdade e o amor a Vossa glória devem elevar-se no espírito humilde acima de tudo e isto deve consolá-lo ainda mais do que todas as graças que tem recebido ou pode receber futuramente de Vós.

16/02/15

CONTRA-MINA Nº 8: Os Maçons Financeiros (III)

(continuação da II parte)

Gritavam nesse tempo, e gritavam mui alto os Bergasses, e os Maurys contra a mais nociva, e mais escandalosa de todas as delapidações antigas, e modernas; porém um Fidalgo, um Marquês, um Montesquieu aplanou todas as dificuldades, trovejou desde a tribuna contra a orgulhosa aristocracia; (porque os Fidalgos Maçons costumam ser os mais abjectos servidores da Seita, para darem provas de adesão sincera) e fazendo subir os milhões da receita (só vocalmente e nada mais) fez uma risonha pinta do excesso da opulência, a que os trabalhos da Assembleia tinham levado a Nação Francesa; e a Nação Francesa ouviu e queixo caído as mais solenes imposturas, que nunca se ouviram, ainda aos mais resolutos, e mentirosos preopinantes. Quem poderá negar, que é esta numa parte dos castigos, que o Céu costuma infligir às Nações, que o têm ultrajado... A Nação Francesa é o povo mais rico do Universo, dizia o tal Montesquieu do alto da Tribuna, depois de ter afirmado, que as Rendas públicas estavam no melhor estado possível....

Enfim, dos Relatórios impressos de Montesquieu, e de Camus, se pode ver, que em lugar do alcance anual de 56 milhões de Francos, motivo este por que se fizera uma Revolução, deixou a Assembleia Constituinte, para demonstração da sua rara perícia, e habilidade em curar as feridas da Pátria, um alcance anual de 300 milhões de Francos!!! E seria mais feliz neste ponto a segunda Legislatura, ou a Assembleia Legislativa? Muito pior, visto que em menos de onze meses fez subir o alcance a mais 100 milhões: - decretou que o papel moeda chegasse a 3$ [ 3 mil ?] milhões; e mais desaforada, e sacrílega, que a primeira, saqueou à cada descoberta, e fez deduzir a moeda os próprios relicários, e urnas em que jaziam os Santos!!!

Luís XV
Porque fatalidade só avultou no conceito dos Franceses o Livro vermelho de onde constavam as tenças, e gratificações, que Luís XVI pagava talvez a sujeitos indignos, porém que lhe tinham sido pintados como credores destes subsídios, e o Livro vermelho não razava senão de 28 milhões anuais de despesas? Porque fatalidade, torno a dizer, se encareceram, a ponto de se fazer a Monarquia odiosa, os gastos de Luís XIV, que tinha em armas 500$ [500 mil ?] homens, e que não deve ser julgado somente pelas obras de luxo, e ostentação, mas pelas de conhecida utilidade, que imortalizaram o seu Governo? Porque fatalidade se engrossaram as depredações cometidas debaixo do nome de Luís XV, sem que do interior da França se levantasse um milhão de homens armados, que apontando as baionetas ao peito dessa cáfila de Maçons, lhes dissesse: "Tendes cara para que tão agramente censureis os vossos Soberanos, pela sua má administração, deixaria absolvido de toda a culpa o vosso Rei Luís XVI, ainda que ele tomasse anualmente do Erário de 28 milhões, para atirar com eles à corrente do Sena? Tendes olhos para ver, e não tendes visto;
que a Assembleia Legislativa em onze meses deixou a perder de vista essas chamadas prodigalidades de Luís XV?
que os gastos anuais do Governo deste Soberano deitavam a 800 milhões de francos, e que a Convenção não só o igualou, mas por certo o excedeu no curto espaço de um mês; pois mês houve, em que ela despendeu 900 milhões de Francos?"

Cheguei às campanhas Financeiras da Convenção, e não só fica dito o necessário para se conhecer, que ela em género de roubos, assim como nas outras violências do estilo, se há posto mui acima da sua antecessora, e predecessora; mas penetrando o coração de muitos dos meus leitores, parece-me que lhes noto uma certa desaprovação, de que eu desça a tantas miudezas Financeiras. Eu sei a razão porque assim o fiz, e tenho esperança firme, de que todos os meus leitores conhecerão em breve, que ainda fui o mais sucinto, e resumido que era possível...

Fizeram os Jacobinos Franceses toda esta série de latrocínios, para aumentarem, ou principiarem a sua fortuna individual, pois bem sabido é, que a maioria destes farrapões nem tinha beira, nem telha, nem ramo de figueira, nem donde caíssem mortos, ou a que pudessem chamar seu. Fizeram é certo. E não se adiantaram a mais as suas vistas, e observaram em si todas essas avultadas somas? Não, não e é necessário emendar certo erro, desgraçadamente mui vulgar, e que pode ser para o futuro de mui perniciosas consequências. Quando ouço dizer que a França já se empobreceu em tão poucos dias de revolução, pois ainda já de sacola na mão a pedir empréstimos, que dizem os papeis Franceses deitaram a 1500 milhões de Francos; e que os novos árbitros de França já roubaram, e converteram para os seus usos os milhões chegados de Argel.... dá-me vontade de rir, pois em que eles sejam, e tenham sido finíssimos ladrões, concordo eu; mas apélo para um certo relatório impresso do sanguinário, e antes monstro de que homem, ou representante de uma Nação polida, quero dizer St. Just. Foi este quem rasgou inteiramente o véu para se conhecer de uma vez qual fosse a principal, e genuína aplicação de tanto dinheiro de metal, que desapareceu de França.

(a continuar)

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LVIII)

(continuação da LVII parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XXI
Deve-se Descansar em Deus, Mais do Que em Todos os Bens e Dores

1. Alma - Coração meu, alma minha, em tudo e por tudo descansareis no Senhor, porque Ele é o descanso eterno dos santos.
Amantíssimo e dulcíssimo Jesus, fazei que eu ache mais descanso em Vós do que em todas as criaturas. Mais do que na saúde e na formosura; mais do que no poder e nas dignidades; mais do que nas riquezas e no luxo; mais do que nas artes e na ciência; mais do que nos folguedos e divertimentos; mais do que na fama e no louvor; mas do que nas delícias e prazeres.
Fazei que eu Vos prefira, mesmo a todas as esperanças e promessas que nos dais, a todos os merecimentos e bons desejos que podemos ter; a todas as graças e favores de que podeis encher-nos; a todas as consolações e doçuras que podemos receber de Vós.
Fazei que eu ame descansar somente em Vós, mais do que em todos os anjos e arcanjos e mais do que em todos os Espíritos do Céu; mais do que em todas as coisas visíveis e invisíveis; numa palavra: mais do que em tudo o que está fora de Vós.

2. Vós, meu Deus, meu Senhor, sois superior a tudo em bondade, em grandeza e poder. Em Vós tendes a força inexaurível da eterna felicidade. Todas as consolações espirituais dimanam de Vós. Sois a única formosura e o único objecto amável. Sois um oceano de majestade e de glória, em que todos os bens estiveram, estão e estarão eternamente juntos, em suma perfeição.
Assim, tudo o que me dais, ou me descobris, ou me prometeis, sem me fazer gozar contemplando-Vos e em Vós mesmo repousando o meu espírito, julgarei insuficiente e incapaz de dar-me inteiro contentamento, porque o meu coração jamais se satisfará senão elevando-se acima de todas as criaturas para se encontrar em Vós.

3. Ó meu Jesus, esposo amabilíssimo das almas, que dominais o Céu e a Terra, quem me dera asas de verdadeira liberdade, para voar e descansar em Vós! Quando me será concedida a felicidade de ocupar-me inteiramente na consideração da Vossa doçura inefável! Quando me recolherei em Vós, de sorte que perca, por Vosso amor, todo o gosto de mim mesmo, para não gostar senão de Vós! Agora passo eu a vida em gemidos e levo com dor o peso da minha infelicidade. Neste vale de lágrimas encontro tantos males que me perturbam, me entristecem e me enchem de escuridão! Embaraçado, distraído, ou preso pela ilusão dos sentidos, não posso chegar a Vós com liberdade nem gozar as divinas consolações com que honrais o espíritos bem-aventurados que assistem na Vossa presença. Ó meu Deus, ouvi os meus suspiros e atendei a tantos males que sofro sobre a Terra!

4. Ó Jesus, esplendor da eterna glória, alívio da alma aflita neste desterro, eu me apresento mudo diante de Vós e o meu silêncio fala por mim! Até quando tardará o meu Senhor a vir a minha alma? Venha Ele a mim, na extrema pobreza em que estou, encha-me de alegria. Estenda a sua mão e tire deste admirável da sua miséria. Vinde meu Deus! Sem Vós não posso ter dia nem hora alegres; porque sois toda a minha alegria e sem Vós nada há que me sustente. Sou miserável e considero-me preso e carregado de ferros, enquanto não concedeis a luz da Vossa presença e não me dais a liberdade, mostrando-me um semblante doce e favorável.

5. Busquem os outros, em lugar de Vós, o que quiserem. A mim, nada me agrada, nem agradará, senão Vós, ó meu Deus, que sois a minha esperança e a minha eterna felicidade. Não deixarei de orar até que a Vossa graça volte a mim.

Cristo - Aqui me tens, filho meu. Venho a ti, pois me invocaste. As tuas lágrimas e os desejos da tua alma, a humildade e a penitência do teu coração inclinaram-me a vir a ti.

Alma - Senhor, eu Vos chamei e desejei gozar a Vossa presença resolvido a rejeitar tudo por amor de Vós. Mas Vós mesmo me induziste a procurar-Vos. Sêde, pois, Senhor, bendito, por haverdes usado, segundo a Vossa infinita misericórdia, de tanta bondade com o Vosso servo.

6. À vista disto, que resta ao Vosso escravo senão humilhar-se profundamente na Vossa presença, sem perder jamais a lembrança da sua maldade e vileza? Em toda esta multidão de maravilhas com que enchestes o Céu e a Terra, nada há que Vos seja semelhante, ó meu Deus! Todas as Vossas obras são perfeitas, todos os Vossos juízos são rectos e todas as criaturas se governam pela Vossa soberana providência. Dê-se, pois, todo o louvor e glória a Vós, que sois a sabedoria do Pai. A minha língua, a minha alma, todas as criaturas juntas Vos louvam eternamente.

15/02/15

CONTRA-MINA Nº 8: Os Maçons Financeiros (II)

(continuação da I parte)

Mirabeau
Necker
Qual era a Dívida Nacional da França no chamamento dos Estados Gerais? Dois mil e seiscentos milhões de Francos, o que certamente exigia um remédio pronto, a fim de se atalhar, quando fosse possível, o progresso do déficit anual de 56 milhões, (que vem a dizer, o excesso da despesa sobre a receita andava por 56 milhões anuais) .... O principal arbítrio, que se tomou para este fim, consistiu em que o Protestante, e destruidor da igreja, e da Monarquia Francesa, o apupado dos Clubs, e das Lojas Mr. Necker, propusesse a venda dos Bens do Clero, que já tinham sido proclamados Bens Nacionais .... Decretou-se pois que se procedesse à venda parcial dos tais Bens Eclesiásticos, que produzisse 400 milhões de Francos, para se extinguir por este modo uma boa parte da Dívida Nacional. Ofereceu-se o Clero a satisfazer esses 400 milhões em dinheiro de contado; porém sendo como era o principal fim dos Conspiradores, como o é de todos os Revolucionários modernos "a extinção do Catolicismo" rejeitaram a proposta do Clero, e efectuaram a seu sabor, e sem a mais leve contradição a venda projetada. E por quanto andava o dinheiro de metal, que nesse tempo girava em França? Por 3 mil milhões de Francos. Enquanto eram avaliados os Bens do Clero? Em 2 mil milhões de Francos. E chegaria todo este dinheiro para satisfazer a insaciável cobiça dos Ladrões Jacobinos, ou Pedreiros? Não, pois logo traçaram o plano de fazerem girar 2 milhões de Francos em papel moeda, a que serviriam de hipoteca os Bens do Clero .... Não faltaram no recinto da Assembleia poderosos antagonistas, de que basta nomear o então simples Clérigo, e o mais ilustra defensor da Causa do seu Rei, e do seu Deus, e que depois já feito Cardeal foi um sórdido incensador de Bonaparte, (que a tanto chega a fraqueza humana!) quero dizer o Cardeal Maury; porém o infame, o adultero, o licencioso, o Ímpio Mirabeau, zombou de tudo, e prevaleceu a tudo, não tanto por força de sua eloquência, mas aparente, que verdadeira, quanto pela mais bem sucedida eloquência dos gritos, e assuadas das Galerias, e ameaças, e gritos de morte, que são uns meios decididos para se conseguir uma votação espontânea, e como se queria, e desejava. Passou a final, e foi aprovado por uma grande maioria de Deputados o Decreto dos assinados, ou papel moeda, que se levou à contra fixa de mil e duzentos milhões de Francos .... Já nesse tempo se tinham recolhido grossas somas da Contribuição chamada Patriótica, e apesar de todos estes grandes recursos, era tal o sumiço, que levava o dinheiro, que no mês de Maio de 1790, se mandaram tirar da caixa do desconto 28 milhões, procedentes do dinheiro de metal, com que aí tinham entrado vários Accionistas, e Particulares, que tinham trocado pelo papel, que corria em Paris ... Não tardou muito que o Banqueiro, e Financeiro Mor. Necker apresentasse o seu Mapa da Receita, e Despesa dos meses de Abril e Maio .... Foi tão bom, ou tão mau, que o fez decair de todo na opinião pública, e ser alvo de injúrias e sarcasmos, quando até esse tempo o havia sido de uma espécie de culto, e dos aplausos gerais da França degenerada. Foi então que a Assembleia proclamou a todos os Cidadãos, e Cidadans, que acudissem à liberdade periclitante, com todos os seus tratasse de ouro, prata, e diamantes, e outras preciosidades; e tal era o delírio dos [maus] Franceses nesta Época, que as Mesas da Assembleia se atulharam destas riquezas, havendo nesta ocasião cenas mui dignas de Plauto, e Molier, principalmente da parte das Cidadãs, que se lhe dá para Constitucionais, costumam ser Megeras ou Furias. Tudo isto porém foi uma gota de água doce que caiu no mar, e que é como se nunca tivera existido, porque daí a pouco, isto é em Agosto do próprio ano de 1790, foi necessário lançar mão de 40 milhões de bilhetes do Banco, para suprimir as despesas do Tesouro Nacional, enquanto não circulavam os assinados; e mal se tinham passado dois meses, tornou a pagar a Caixa de desconto mais trinta milhões; e não chegando esta quantia, voltaram-se à Caixa do extraordinário, que se criara para amortizamento, ou extinção da dívida pública, e daí tiraram 48 milhões em Outubro do próprio ano de 1790, e 80 milhões em Fevereiro do ano seguinte...... Já corriam os assinados, tinha desaparecido o dinheiro de metal... Pediu-se por bem a todos os Cidadãos, que levassem à casa da moeda todos os seus trastes de ouro, e preta para se trocarem por assinados; - e como este meio não produzira efeito, combinou-se a pena de confisco, e ainda outras mais graves, a quem não satisfizesse in continenti os votos da Assembleia. Renovaram-se os tributos abolidos; e em Março de 1791 procedeu-se ao saque geral de todas as pratas das Igrejas, que se reduziram a moeda corrente, e não lhe escaparam os sinos, que foram apeados, e convertidos em dinheiro. Entretanto o número dos assinados verdadeiros, e falsos já tinha subido muito acima do que se dispusera na sua criação, assim como diariamente subiam em descrédito, pois o rebate de 50% não distou muito da sua primeira introdução na França, e bem depressa chegou a 80 e 90%.

(continuação, III parte)

14/02/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LVII)

(continuação da LVI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XX
Da Confissão das Próprias Fraquezas e das Misérias Desta Vida

1. Alma - Senhor, eu vos confesso todas as minhas ofensas e também as minhas fraquezas.
Muitas vezes um nada me abate e me entristece. Proponho-me ser forte, mas, tanto que me investe a tentação, fico logo angustiado.
Algumas vezes, é bem vil a origem de uma grave tentação.
Quando me julgo assaz seguro, porque não vejo o perigo eminente, eis que me acho derrubado por um ligeiro sopro.

2. Lançai, pois, Senhor, os Vossos olhos sobre a minha baixeza e sobre este abismo de fragilidade que há em mim e que Vós conheceis muito melhor do que eu.
Compadecei-Vos da Vossa criatura e tirai-me do meio deste lodo, para que nele não fique submergido.
O que de contínuo me atormenta e confunde na Vossa presença é ver que sou tão fraco, tão enfermo, para resistir às minhas paixões. Ainda que a Vossa graça me livre de consentir nelas, contudo aflige-me vivamente ver-me delas sempre combatido.
Enfastia-me já o viver nesta guerra interior que não acaba. O que descobre mais a minha fraqueza é que os pensamentos ignominiosos, que me acometem, entram em mim mais facilmente do que saem.

3. Ó fortíssimo Deus de Israel, zelador das almas fiéis, ponde os Vossos olhos nos trabalhos e dores do Vosso servo e dai-lhe assistência em tudo o que ele empreender.
Animai-me, infundindo-me uma força celeste, para que esta carne, ainda rebelde ao espírito, não me domine e para que eu possa pelejar contra ela em todo o tempo desta miserável vida.
Vida infeliz, na verdade, em que se encontram tantas atribulações e misérias e onde tudo se acha enredado de armadilhas e repleto de inimigos que a cercam por todos os lados.
Ainda uma atribulação não é passada, já outra está connosco. Mal saímos de um conflito, temos outro pela frente, sem que o suspeitássemos.

4. Isto considerado, como pode ser amável uma vida tão cheia de amarguras e sujeita a tantas misérias e calamidades? Como pode ela chamar-se vida, sendo um oceano de pestes e de mortes? No entanto, muitos a amam, e trabalham por descobrir nela as suas delícias.
O mundo esta cheio de enganos e vaidades; porém, os que o acusam dificilmente o deixam, por causa do grande império que a concupiscência carnal exerce sobre a alma.
Assim nos achamos atraídos por duas forças: uma que nos leva a amar o mundo, outra que nos convida a aborrecê-lo. De um lado, os atractivos da carne, os divertimentos dos olhos, a soberba do século, incitam-nos a que o amemos; do outro, as horrorosas misérias que acompanham tais deleites, e que são o seu justo castigo, no-lo fazem insuportável.

5. Mas ai!, o amor do mundo triunfa das almas de muitos e estes se deleitam nos espinhos que os penetram, porque não conhecem nem gozaram jamais a suavidade de Deus, nem a beleza interior da virtude.
Os que renunciaram ao mundo e trabalham por viver segundo Deus, não ignoram a doçura que é concedida aos verdadeiros desprezadores do século, conhecendo o erro e a ignorância dos que o amam.

13/02/15

CONTRA-MINA Nº 8: Os Maçons Financeiros (I)

CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,

por

Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.

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Nº 8
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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Os Maçons Financeiros


Melhor se pusera a este nº o título de Maçons Salteadores, e salteadores sem vergonha, e sem remorsos. Nunca me sucede ler as sentidas queixas destes piedosos restauradores do Crédito público, sobre as depredações dos Áulicos, e excessivas profusões dos reis, que não me sinta provocado a endereçar-lhe, ou acomodar-lhes a própria invectiva, que os Seítas pregaram na bochecha de Alexandre Magno, quando este famosos conquistador lhes deitava em rosto o seu modo de vida, e as suas continuadas rapinas; pois vós tendes cara para doestar os que são melhores, e muito melhores do que vós, e não vos lembrais de que sois uns desaforados ladrões, que assim o provam documentos solenes, que precederam a vossa elevação, o que por certo não mereceis, e que só vos podia ser conferido pela Maçonaria, que fecha os olhos a tudo, que os bons chamam defeitos, ou vícios intoleráveis, ou, para melhor dizer, que os aplaude, e canoniza por virtudes? Apesar de todos esses cordiais, e incendidos amores pelo bem público, e desse empenho de restaurar o Crédito, e pôr em tal andamento as Finanças, que mui prestes se extinga a dívida pública; ousarei afirmar, que nunca os Pedreiros Livres chegarão a ser Administradores de um Erário qualquer, sem que o levem a pique, e subam de ponto os males, que diziam querer desterrar, ou emendar. Das maravilhas, que fizeram neste ramo de indústria os nossos degeneradores, já por outras vezes tenho falado; e cumpre agora mudar de rumo, sem todavia perder de vista os raros talentos financeiros, que abundam, e formigam na vasta Maçonaria Europeia... O dinheiro é a principal divindade dos Maçons, por isso que sabem perfeitamente o que já bons 400 anos, antes que Nosso Senhor Jesus Cristo viesse ao mundo, fazia por toda a parte a infame e danada sede de ouro, que foi a chave, com que Filipe de Macedónia abriu as portas da Grécia, e anulou todo o empenho das forças humanas, quando a principal destas era certamente a vigorosa eloquência de um Demosthenes.... Por causa do dinheiro se tem feito grandes Revoluções antigas, e por causa do dinheiro se fazem todas as Revoluções modernas.... Já disse, que o espantoso deficit das Finanças Gallicanas moveu os generosos restauradores da Monarquia Francesa à convocação dos Estados Gerais, que pintaram a um Rei amante do seu Povo, mas tímido e indeciso, com a única tábua de Salvamento para a Nau do Estado, e para se atalhar uma bancarrota geral, com todos os efeitos desastrosos, que a costumam acompanhar, e seguir.... Quando falta o dinheiro haja uma Revolução, e torne a haver outra quando há fartura de dinheiro... Bem se vê que no primeiro destes casos, o dinheiro é um pretexto, e no segundo a causa verdadeira. Ora, descortinemos para utilidade dos bons portugueses, o que nos depõe a História da Revolução Francesa, sobre estas habilidades Financeiras ou furtadeiras dos tais Maçons, ou Pedreiros Livres....

(continuação, II parte)

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LVI)

(continuação da LV parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XIX
O Sofrimento de Injúrias e a Prova da Verdadeira Paciência

1. Cristo - Filho, que é que dizes? Deixa-te de queixas, considerando a minha paixão e o sofrimento dos santos. Ainda não resististe, até derramar o teu próprio sangue. Pouco padeces em comparação de tantas e tão diversas atribulações e que foi exercitada a paciência dos meus servos. Lembra-te, pois, da grandeza das suas penas para que mais docemente suportes as tuas, bem menores. E, se pequenas não as julgas, é a tua impaciência que te persuade. Mas, seja pouco ou muito o que sofres, sofre-o com paciência.

2. É grande sabedoria dispor-te para o sofrimento. Quando te resolveres a sofrer, os males representar-se-ão mais leves e o merecimento que terás em sofrê-los será maior. Não digas: "Eu não posso tolerar que um tal homem me trate desse modo; isso me é inteiramente insuportável. Ele faz-me grande dano, arguindo-me de coisas que nem ao meu pensamento vieram. Eu sofreria facilmente outras pessoas e outras ofensas menos sensíveis." Este discurso é producto de uma imaginação vã, pois nele não se considera o que significa a paciência nem quem vai recompensar, mas só a pessoa que ofende e a ofensa recebida.

3. Não é verdadeiro sofredor quem sofre só o que lhe parece e a quem lhe parece. Quem possui a virtude da paciência não olha se aquele que o persegue é seu prelado, seu igual ou seu inferior; se é santo e bom ou se é mau e indigno. Ele recebe indiferentemente todo o mal que lhe fazem e as vezes que lho fazem, como se viera de Deus, julga isto de grande utilidade, pois vive persuadido de que o mal, por leve que seja, sofrido por amor de Deus, não fica sem merecimento.

4. Aparelha-te para combater, se queres sair vitorioso. Sem peleja não podes alcançar a coroa da paciência. Se rejeitas o sofrimento, é sinal de que não queres ser coroado. Mas, se desejas essa coroa, combate varonilmente e sofre com paciência. O descanso é prémio do trabalho e a vitória é recompensa do combate. 

Alma - Meu Deus, faça-me possível a Vossa graça aquilo que naturalmente me parece impossível. Vós sabeis a pouca força que tenho para sofrer, pois qualquer mal pequeno basta para derrubar-me. Fazei, pois, que eu deseje e abrace com ardor o exercício das atribulações, para glória do Vosso nome, já que de tão grande proveito me é sofrer e ser perseguido por amor de Vós.

12/02/15

NOVAS SOBRE A ABDICAÇÃO DE BENTO XVI

Mons. Leo Cushley
O Catholic Herald (UK), a 2 de Fevereiro de 2014, publicou o relato de Mons. Leo Cushley, Arcebispo de St. Andrews e Edimburgo, a respeito do momento da abdicação de Bento XVI. Ontem, dia 11 de Fevereiro de 2015, justamente dois anos depois da abdicação, o Catholic Herald volta a publicar o mesmo testemunho.

Deste testemunho recolho dois dados sumamente importantes, os quais levam a concluir que:

1 - Nenhum dos dois secretários privados do Papa sabiam o que iria passar:

"O meu estômago virou-se do avesso quando percebi que aqui diante de nós estava uma coisa que não se via há séculos: a resignação voluntária do Romano Pontífice.

Parecia que, em câmara lenta mesmo diante de mim, um cameraman assistente da televisão levou a sua mão à boca num gesto de espanto tipo desenho-animado, o monsenhor sentado ao meu lado começou a soluçar devagar, os ombros do Arcebispo Gänswein pareceram cair. Os cardeais inclinaram-se para a frente para ter a certeza de que tinham percebido exactamente o que estava a ser dito e eu apercebi-me que me estava a certificar se que a minha boca não estava totalmente aberta. Depois fez-se silêncio."

2 - Depois do comunicado da abdicação, apenas o Card. Sodano reagiu sem surpresa.

"Após uma pausa, o decano do Colégio de Cardeais, o Cardeal Ângelo Sodano, levantou-se e começou a falar. Não me lembro precisamente do que ele disse, mas foi breve, calmo e adequado. Estava claro que ele tinha sido informado antes e tinha preparado algumas palavras.
Pelo contrário, as caras dos cardeais mostravam que não tinham tido nenhum aviso do que se ia passar naquela manhã."

Infelizmente não se pode concluir com certeza que o cair de ombros do Secretário papal indique que este foi apanhado desprevenido com a notícia; ainda mais que não se diz que caíram realmente, mas sim que "pareceram cair". Também, relativamente ao Cardeal Ângelo Sodano dizer que "estava claro que ele tinha sido informado", não mostra tantas evidências quanto necessáro.

Contudo, se é certa a interpretação de Mons. Leo Cushley estamos então perante algo muito significativo:

- Quanto antes o Card. Sodano sabia da abdicação?
- Qual a necessidade do Card. Sodano saber antecipadamente, se nem os secretários do Papa souberam?

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