29/01/15

"PORTUGAL EM ROMA" - O REI NO EXÍLIO (II)

(continuação da I parte)

Rei D. Miguel de Portugal, O Tradicionalista
Veja-se agora o que diz J. P. Miguéis de Carvalho a A. J. Freire, em 9 do mesmo mês: "Em primeiro lugar S. A. partiu de Génova com passaporte em que era designado com o título de D. Miguel I chegou de Viterbo na manhã de 3 do corrente, e entrou em Roma na manhã do dia seguinte pelas 9 horas - 4 de Setembro. Apeou-se com a sua comitiva, 16 indivíduos na estalagem da Vila Paris, onde o estava esperando Camilo Luís Rossi, o qual com o Marquês de Lavradio se dirigiu pela volta do meio-dia a casa do Cardial Secretário de Estado.

Pelas duas horas da tarde apresentou-se a S. Alteza o Major da Praça para oferecer-lhe uma Guarda de honra, que não foi aceita, e cumprimentá-lo da parte do General das Armas, o qual mais tarde compareceu em pessoa. Pelas 6 horas veio cumprimentar S. Alteza o Cardial Secretário de Estado, e dizendo-lhe S. A. que tencionava não sair de casa sem primeiramente ver o Santo Padre, respondeu o Cardial que trataria de o livrar da prisão quanto antes. Junto das Avé-Marias jantou S. A. em companhia do Marquês do lavradio à direita, António Joaquim à esquerda, Conde de Soure e D. Bernardo de Almeida. Quando S. A. Começou a jantar apresentou-se Mons. Fieschi, Mestre de Câmara do Papa, para cumprimentar S. A. em nome de Sua Santidade. Alguns Cardiais foram à noite cumprimentar S. A.".

O mesmo ao mesmo no dia 9 de Setembro: "O Cardial Secretário de Estado disse a alguns indivíduos do Corpo Diplomático que o Sr. D. Miguel se achava quase sem meios de subsistência, que lhe não pegavam a sua Pensão, e que tinha vendido uma parte dos seus brilhantes. Corre voz que o Papa mandara pôr à disposição de Sua Alteza 50 mil escudos romanos. Pelo contrário consta que S. A. traz não pequena quantidade de dinheiro consigo, além de que se diz ter à sua disposição em Londres e Paris. Quando S. A. chegou, entre a pouca bagagem que consigo trazia, se viu descarregar uma caixa que com muita fadiga dois homens puderam conduzir para o 1º andar da Estalagem. Esta caixa foi aberta para pagar os Postilhões, e se observou que estava cheia de peças de ouro de 20 francos. Nesta moeda se fizeram aqueles seus pagamentos, e se deram algumas esmolas, assim como se tem subministrado ao Mestre de Casa, Mordomo do Marquês de Lavradio o necessário para as despesas correntes."

Eis como Carvalho e Brito se refere à audiência do Santo Padre: "Sua Alteza entrava na sala onde o esperava o Papa, se prostrou a seus pés para lhos beijar, o que S. Santidade impediu, entendendo o braço com que o levantou. O Sr. D. Miguel começou a falar, mas não entendendo o Papa, entrou o Marquês de Lavradio a dizer: que Sua Majestade não entendia ter renunciado aos seus direitos ao Trono; que a convenção fôra obra da força para salvar a vida, e evitar outros males: que esperava que Sua Santidade continuasse a considerá-lo como Rei de Portugal, que fizesse em seu favor quanto estivesse de sua parte; que em Génova e Milão tinha recebido cartas de Inglaterra, Áustria, Rússia e Prússia em que se lhe assegurava que os Soberanos das três potências do norte não deixariam perder a ocasião para reintegrá-lo.

Diz-se também que pediram ao S. Padre que fulminasse quanto antes a excomunhão, e que o Santo Padre respondera, tanto a este como aos outros artigos, evasivamente, ainda que mostrando-se muito irritado contra o procedimento do governo em matérias eclesiásticas: prometeu contudo de considerar o Senhor D. Miguel como Rei, e o Marquês como seu Embaixador.

O Papa ainda até hoje (12 de Setembro) não pagou a visita ao Senhor D. Miguel, e ainda que se diz por motivo de uma pustula que tem no beiço superior Sua Santidade se acha sempre impedido para sair, contudo crê-se que a moléstia seja mero pretexto para diferir a visita."

D. Miguel partiu para Génova no dia 12 de Setembro, pelas duas horas e meia da tarde, num carro tirado a quatro cavalos de Posta, levando em sua companhia cinco pessoas. Miguéis de Carvalho, curioso, procura Mons. Capaccini que lhe diz:
- Já sei porque vem aqui.
- Qual?
- Saber o motivo da partida de D. Miguel.
- E qual foi?
- Rir-se-á; mas o verdadeiro motivo é a chegada a Génova de uma mulher que foi sua ama de leite, e que ele quer conduzir para Roma onde estará de volta em 8 ou 10 dias. Fez-se o possível para o desviar desta puerilidade, mas todos os esforços foram inúteis.
A família de S. Alteza deixou ontem (15 de Setembro) a Estalagem que ocupava, e passou a alojar-se no palácio Marescotti".

(continuação, III parte)

DO LIVRO DA EMBAIXADA DO PRESTE JOÃO DAS ÍNDIAS (II)

(continuação da II parte)

Cap. II
Como o Patriarca Partiu de Roma, e Veio a Portugal Onde Foi Bem Recebido DelRei D. João III

 De Roma parti para Portugal, onde cheguei estando ElRei seu avó de gloriosa memória em Évora cidade, no ano que acabou de trazer a ela a água da prata. E ele me recebeu com a sua acostumada graça e benignidade que para todos tinha de rei clementíssimo que ele era: e folgou em particular com minha vinda, por dar conclusão, como desejava, àquela embaixada que trouxera o Tagazavo, que havia doze anos que cá estava, e sem negociar coisa alguma por sua mera negligência.  Pelo que o Imperador Onadinguel me mandou que lhe tirasse o cargo de embaixador, e o prendesse, e levasse comigo preso. E para isso havia uma carta do Imperador, a qual lhe dei em Lisboa onde ele estava: e a tomou e beijou, e reconheceu ser verdadeira, e por ela me reconheceu por seu Patriarca e superior, e me beijou a mão, e me deu o seu lugar, sem mais falar palavra. E o mandei prender com duas cadeias de ferro em cada braço seu ao vê-lo da sua terra: as quais lhe tornei a tirar daí  a poucos dias por me rogar sua alteza, posto que era fora da ordenança do Imperador, que mo assim mandara fazer. Naquele comenos veio sua Alteza perante Lisboa, e pousando nos passos do Duque de Bragança o fui ver acompanhado do Núncio de Papa de Jerónimo Ricenas de capite férreo, e D. Martinho de Portugal Arcebispo do Funchal, dando-me sempre o primeiro lugar junto do Núncio como convinha à minha dignidade: e referi a sua Alteza a embaixada do meu Imperador, pedindo-lhe a quisesse aceitar, e despachar com brevidade. Era a embaixada que lhe pedia o dito Imperador sua amizade, e irmandade perpétua: e para isto lhe pedia que casassem seus filhos trocados uns com outros: e que de Portugal fosse um filho casar com sua filha dele, reinasse em seus Reinos por sua morte, para que esta aliança entre portugueses e eles, e também a obediência do Papa fosse mais subida e durasse. E também lhe mandava pedir que lhe mandasse gente para se defender DelRei de Zeyla que lhe tomava seus Reinos: porque ele lhe mandaria um grande número de riquezas, que bem lhas podia mandar. E assim lhe mandasse cavouqueiros para romper uma terra por onde outra vez Eylale belale seu antecessor lançou o Rio Nilo, para também agora o lançar por ali, e fazer dano no Egito.


Cap. III
Como ElRei Despachou Bem o Patriarca e Ordenou Sua Tornada.

Papa Paulo III
Tomado conselho, ElRei vosso avó ouve por bem outorgar-me o que pedia, e mandou que me dessem quatrocentos e cinquenta homens espingardeiros e cavouqueiros, e me despachassem  para me tornar logo aquele ano em companhia de D. Garcia de Noronha que então ia por Vice-Rei da Índia, porque pela Índia me era necessário tornar. Até doutras mercês que me sua alteza fez ficou por mim e pelo meu Imperador, e fez bom tudo o que eu prometi pagar à dita gente, e para mais lhe dar vontade de irem comigo tomou por seis e fez mercês à alguns deles. Sua alteza dom Garcia de Noronha filho de dom Sancho de Noronha meu sobrinho, e Rui Teixeira de Almeida meu cunhado, Henrique de Sampaio, e três seus irmãos, Pero para, Diogo Leitão, Pero Tavares, e outros. Da qual gente logo fiz capitão Pero Borges Henriques irmão de D. Brás Caçador-mór. Estando pois assim, prestes para partir com D. Garcia de Noronha Vice-Rei com muitas graças e poderes que me o Santo Padre Paulo III tinha concedidos pela via do Núncio D. Jerónimo Ricenas capite férreo, e o dito Vice-Rei alegre por me levar consigo, subitamente adoeci, e disseram os físicos que de peçonha: que segundo se suspeitou me mandou dar o tegazavo. Curaram-me o Físico-mór que então era chamado Diogo Lopes, e o que agora é, Leonardo Nunes, e outros que sua Alteza mandou: pelo que fiquei aquele ano neste Reino.
(continuação, III parte)

26/01/15

DA PROVÍNCIA DE GALIZA- AGIOLÓGIO LUSITANO (III)

(continuação da II parte)

Sé de Braga, Primaz das Espanhas
Que seus prelados se chamassem de Galiza, se prova do Concílio já referido d'Aquis Celenis, onde se compôs a regra da Fé, que por mandado do Papa S. Leão se mandou a Balcónio, Bispo de Braga, para que a aprouvesse, por não terem assistido naquele sagrado conclui, a qual anda no I tomo dos Concílios, no fim do 1 Toledano: "ubi: incipit regula fidei, etc. ad Balconium Episcopum Gallariae." A si mesmo chamam os autores comummente a S. Martinho Dumience "Bispo de Galiza", e a Idacio Bispo de Lamego dão o mesmo título por florescer em tempo, que esta cidade era sufragânea a Braga. Ponhamos o selo a este discurso com uma célebre autoridade de Fr. Jerónimo  Roman, que na sua Eclesiástica de Hispanha falando do nosso Paulo Orosio, depois de referidas várias opiniões cerca de sua pátria, diz as seguintes palavras: "Lo cierto es, que fue de Gallicia, i si se mira a la carta, que el Presbe Avito escribio al Arcebispo de Braga Balconio, quando le embiò las reliquias del Proto martyr S. Estevan, se verà que en ella claramente muestra era natural de Braga, i por el conseguiente Gallego, porque el Reino de Gallicia fuera de lo que oi alcança, que es asta el rio Miño, tambien cogia asta el rio Duero, e an sido los Concilio celebrados en Hespanha, se vè como era gran Provincia; i comprendia muchas sillas Obispales, i el districto del Obispado de Braga, se llamava Provincia Galliciana, por esta ciudad ser cabeça de toda ella." E o mesmo Roman na hist. m. f. de Braga 2 c. I refere: "Que viniendo S. Giraldo de Roma con el pallio tomado, celebrandose Concilio en Palencia ado presidia Richardo Cardeal presentò sus breves, à el Legado le puso en posesion, señalando-le estos sufraganeos, Astorga, Lugo, Tuy, Mondoñedo, Orense, Oporto, Coimbra, Viseu, Lamego, Egitania, Britonia, Oviedo."

Parece-nos que bastantemente deixamos provado que foi Braga no espiritual, e temporal cabeça da Província de Galiza, na qual se incluíam as cidades do Porto (chamada dos Suevos Festabole) Britonia, Cinánia, Flavia Lambria, Bragança (que conforme Juliano, foi a antiga Iuliobriga) Forum Limicorum (que é Ponte de Lima) Tuy, Iria Flavia (que é o Padrão) Orense, Lugo, Astorga, e outras, que ainjúria dos tempos assolou, e muitos ligares de menos nome, cujos antigos Santos, a saber os Pedros, os Torcatos, os Basileus, os Epitácios, os Frutuosos, os Ataulphos, os Rosendos, os Victores, as Vuilgefortes, as Eufêmias, as Engrácias, as Faras, e Senhorinhas nos pertencem, pelas razões apontadas, sem ficarem por isso defraudadas as pátrias, que os procriaram de os três por seus próprios, como no princípio defraudadas as pátrias, que os procriaram de os três por seus próprios, como no princípio propusemos. Vejam-se dos autores castelhanos Tarrafa de rebus Hispaniae fol 55 Florião do Campos l. 3 c. 36 Morales l. 11 c. 71 Loaifa sobre os Concílios de Hispanha, Padilha na Ecclesiastica cent. 4 c. 46. Vafaeus in Chronica, Gil Gonçalvez de Ávila no Theatro de Astorga c.; dos nossos, Fr. Bernardo de Brito em vários lugares na 1 e 2 p. da Monarqchia Lusitana, Fr. António Brandão na 3 l. 8 c. 18 D Fr. Amador Arraes Dialogo 4 c. 18 D. Rodrigo da Cunha, e outros que cita, e segue na 1 p. da história de Braga c. 1.

DO LIVRO DA EMBAIXADA DO PRESTE JOÃO DAS ÍNDIAS (I)

Segue uma série de transcrições do livro "Esta he hua breve relação da embaixada q o Patriarcha dom João Bermudez touxe do Emperador da Ethiopia, chamado vulgamente Preste João, ao christianissimo, e zelador da fee de Christo Rey de Portugal dom João o terceiro deste nome: dirigida ao muy alto & poderoso, de felicissima esperança, Rey também de Portugal dom Sebastião o primeiro deste nome. Em a qual também conta a morte de dom Chrsitovão da Gama: & dos sucessos que aconteceram as Portugueses que forão em sua companhia", (ano de 1565 - Lisboa, em casa de Francisco Correia, Impressor do Cardeal Infante):

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Carta do Patriarca D. João Bermudez a ElRei Nosso Senhor

Muito alto e muito poderoso Rei, vossa Alteza me disse os dias passados que folgaria de saber a verdade do que acontecera a um Capitão e gente que me ElRei vosso amo que está em glória deu para levar em socorro do Imperador da Etiópia Onadinguel chamado preste João, por desfazer os erros que algumas pessoas disto escrevem, em tanto que até o nome do dito Capitão erram, chamando-lhe D. Paulo, sendo ele D. Cristóvão seu irmão: e outros escrevem, e dizem algumas coisas que passaram na verdade, nem eles as viram. Portanto eu que tudo vi, lhe contarei brevemente o que passou nesta pequena escritura. Nosso Senhor guarde sua pessoa, acrescente sua nova idade, e prospere seu real estado. Ámen.

Foi examinada por o R. P. F. Manuel da Veiga, examinador dos livros: por o sereníssimo Cardeal Infante D. Henrique Inquisidor-geral nestes Reinos e Senhorios de Portugal.


Cap. I
Como D. João Bermudez foi Eleito Patriarca do Preste e Foi Enviado a Roma a Dar a Obediência ao Santo Padre.

Sendo Imperador nos reinos da Etiópia, a quem vulgarmente chamam do Preste João é fiel e bom Cristão chamado Onadinguel: e estando em passamento de morte um Patriarca daquela terra de nome Abunamarcosino, ano de 1535 de nossa redenção: o dito Imperador disse aquele Patriarca, que lhe rogava, que conforme ao seu costume ele antes de falecer me instituísse em seu sucessor e Patriarca daquela terra como ele até então fôra. E o dito Patriarca o fez assim, ordenando-me primeiro de todas as ordens sacras. o que eu aceitei com tal condição que havia de ser confirmado pelo Sumo Pontífice Romano sucessor de S. Pedro, ao qual todos haviam de dar a obediência. o dito Imperador me respondeu que era muito conveniente: e mais me rogava que por mim, e por ele, e todos seus reinos fosse a Roma a dar a obediência ao Santo Padre: e daí viesse a Portugal a dar conclusão a uma embaixada que tinha mandado por um homem daquela terra chamado Tegazauo, em cuja companhia veio o Padre Francicalvarez. Depois de passados pelo caminho muitos trabalhos, cheguei a Roma presidindo na Sá Apostólica o Papa Paulo III, o qual me recebeu com muita clemência e favor, e me confirmou tudo o que de lá trazia feito, a meu requerimento tornou a retificar tudo, e me mandou assentar na cátedra de Alexandria, e que me intitulasse Patriarca, e Pontífice daquela Sé.

(a continuar)

DA PROVÍNCIA DE GALIZA- AGIOLÓGIO LUSITANO (II)

(continuação da I parte)


Bem claramente ao propósito do que fica dito de Braga falou João Gerundenseno seu Paralipomenon: "Bracharii a Brachada urbesicdicti, et protenduntur in oppidum Baiona, et Pontevedra, includentes Tydures qui incolae Tudenses sunt. Et quoniam Brachariorum incidimus mentionem, haec Gallae Tudenses sunt. Et quoniam in Brachariorum incidimus mentionem, haec Gallaeciorum regio, et Provincia magna est, et adeo magna quod refert Strabo continere in se triginta populos, etc." A nosso intento baste-nos saber que a Província Bracarense se estendia no temporal até Baiona, e Pontevedra, onde com suas vitoriosas armas chegou depois conquistando ElRei D. Afonso Henriques no tempo que teve desavenças com D. Afonso VII chamado Imperador de Hispanha.

Esta verdade se corrobora mais com outro sólido fundamento, porque Braga foi Côrte dos Reis Suevos, que reinaram em Galiza do ano 410 per 163, conservando sempre sua antiga grandeza. F. Prudêncio de Sandouval nos Bispos de Tuy diz: "Es cierto que los Suevos poblaran por reedificacion Lugo por estar en medio de su Reino, que llegava desde Braga por lo más de Portugal a Leon hasta el rio Cea, i aun por algunas partes a Bisuerga,Ávila, Salamanca, etc.." Donde se vê o muito a que no tempo dos Suevos se estendia a jurisdição temporal de Braga; porque pela invasão dos Godos, posto que perdeu a dignidade, e grandeza de Côrte (pelo grande valor com que contra eles se opôs, e os rebateu) contudo nela se celebraram em seu tempo alguns Concílios, que lhe não adquiriram pequena glória. A esta calamidade particular se seguiu a comuna de toda a Hispanha no ano 714, na entrada dos Mouros de África, os quais entrando pelas terras da Lusitânia, e Galiza, destruindo tudo, chegados a Braga, a investiram com o mesmo bárbaro furor, fazendo nela grande estrago, como nas mais cidades de Galiza. Mas por singular privilégio da divina providência, em meio desta misera sujeição conservou, e teve sempre Prelado.

Nesta Província Bracarense se conservam os antigos solares deste Reino, e o que mais nela teve princípio o nome do próprio Reino, pois (segundo a verdadeira opinião) do nome de Cale, lugar assentado nas ribeiras do Douro, e de seu porto, se formou o de Porto de Cale, e por decurso de tempos o de Portugal. A língua, que por muitos séculos falaram nossos antepassados era mui semelhante à Galega, como se vê de nossas antigas escrituras. Por todas estas razões trazemos nesta obra os antigos santos desta Província, como tão justamente nossos.

Isto quanto ao temporal, que ao espiritual sabida coisas é, que o Apóstolo Santiago vindo por mar de Jerusalém a Hispanha [ou seja, "Península Ibérica"] deu princípio à prégação Evangélica, como diz F. Fernando Oxea em sua história, seguindo as lições que (em d[?] do S. Apóstolo) traz o Breviário Arménio. E que nela escolheu os discípulos, que referes o P. Calisto no prólogo do livro de sua translação, a quem seguem todos os historiadores de Hispanha [Península Ibérica], suas palavras: "Novem vero in Gallaetia (dum adhuc vineret) Apostolus elegisse dicitur, quorum septem (aliis duobus in Gallaetia praedicandi causa remanentibus) cum eo Hierosolyma perrexere, etc.." Estes foram Atanásio, e Teodoro, que os sete Torcato, Desifom, Secundo, Indalcio, Cecílio, Eusiquio, Eufrásio levou consigo, os quais trouxeram depois o tesouro de seu sagrado corpo a Iria Flávia. S. Pedro de Rates não entra no número destes 9 porque tinha vindo diante (como precursor) mandado por seu mestre, o S. Apóstolo. Não obstante o número (que fica dito) Servando Bispo Aurense, diz que foram 38 os discípulos, que escolheu nesta Província, e traz os nomes de todos; muitos dos quais tiveram outros companheiros, que os seguiram no ministério da pregação,como se contem nas lâminas do Monte Santo de Granada. E depois que o Santo Apóstolo tornou a Jerusalém, ficando S. Pedro Bispo de Rates em seu lugar em Braga (como cabeça, e primaz) criou, e consagrou Bispos, os quais constituiu nas Igrejas de Galiza: "Hic vir Apostolicus (diz S. Atanásio Bispo de Saragoça) acceptis a S. Iacobo institutionibus Apostolicis. Evangelio, et ordine Missae ac celebratione Sacramentorum, venit Bracharam. Epistolas Apostolico plenas spirit scriptu ad Eclesias, in quibus Episcopos institur, ut Iriensem, Amphilochensem, Eminiensem, Portuensem, ubi S. Basileum condiscipulum posuit (qui, illi per martyrium sublato successit in Sede Bracharensi) Epitatium in Tudensi. Isti viri divini, planeque Apostolici (instar Apostolorum) non in una semper urbe morabantur sed quo rapiebat illos Spiritus Sanctus ferebantur, ut Epitatius qui non solum in Tudensi Diocaesi sed in urbe Lusitaniae Ambratia praedicant qui signis, et varietate liguarum : : : : : praedicationem illustrabant, necsoli ibant praedicantum sed multis discipulis comitati, ut fecit Cristus, Petrus, Jacobus, et Apostoli caeteri," etc. As quais igrejas referidas sempre conheceram a de Braga por Motropoi acudindo os Prelados delas (como sufragâneos) a todos os Concílios, que nela se celebram, já no reinado dos Suevos, já no dos Godos, como deles consta, e se pode ver em Loaisa. E nas repartições, que em tempo de Constantino, Ariamiro, e Vuamba se fizeram das igrejas de Hispanha, assinando-lhes sempre as mesmas sufragâneas, a saber: Astorga, Tuy, Lugo, Iria, Britonia, Porto, e Orense. No tempo dos Suevos (por erigirem Lugo em Metropolitana) lhe tiraram algumas destas, e lhe substituíram outras da Lusitânia; mas os Godos lhe assinaram outra vez as mesmas, acrescentando-lhe Dume, com que permaneceu até à entrada dos Árabes. Com esta verdade concorda o mouro Rafes, e a General de Hispanha. De mais, que a dita Igreja de Lugo, depois de feita Metropolitana (por decreto do Concílio, que nela se celebrou no ano 569) ficou sempre com sujeição à de Braga, como dele consta: "Elegerunt in Synodo, ut Sedes Lucensis esset Metropolitana subjecta tamen Bracharae". A qual posse se conservou tão uniformemente, que muitos séculos depois (ainda nos primórdios dos Reis de Portugal) vinha o Prelado de Lugo, e os mais de Galiza tomar juramento de fidelidade nas mãos do Arcebispo de Braga, assim o refere Cunha no tratado da Primazia cap. 17 e na 2 p. da história de Braga cap. 3. E é esta demarcação no espiritual tão antiga, que diz o nosso João Gerundense, que no C. Eliberitano, o primeiro de Hispanha, foi repartida ela em 5 províncias: Terraconense, Cartaginense, Bética, Lusitânia, e Galia. De Hispanha Citerior foi metrópole Tarragona; de Carpetânia, Cartagena; de Bética, Sevilha; de Lusitânia, Mérida; de Galiza, Braga; a qual divisão refere também Garibay, Vaseo, e outros historiadores da Hispanha.

(continuação, III parte)

21/01/15

IMAGEM DA VIDA CRISTÃ (I)

(da obra "Imagem da Vida Cristã", de Fr. Heitor Pinto)

DIÁLOGO DA VERDADEIRA FILOSOFIA
(adaptação nos diálogos, por Ascendens)

I
Capítulo

Da excelência da vista sobre os outros sentidos, e da descobrimento da verdade.

Indo praticando pelos cemceirais de Coimbra ao longo do Mondego dois amigos, que saíram da cidade, um deles dado muito ao estudo da humanidade, que presumia excessivamente de discreto e grande filósofo, e queria antes parece-lo, que sê-lo, da condição dos que escolhem antes latão lustroso, que prata sem lustro, outro menos humanista, mas mais humano, encontraram com um ermitão, homem religioso e letrado, de que tinham conhecimento doutro tempo, em que todos naquela universidade estudaram e conversaram. E depois de sandados, e passarem ante si algumas amorosas palavras, perguntou o filósofo ao ermitão como estava, e que anos tinha de idade, porque lhe parecia mais velho do que ele julgava ser:

- Ermitão: Eu não estou, nem tenho nem um só ano de idade; e o mesmo podem com verdade dizer de si todos os homens.

- Filósofo: É nova opinião, essa.

- Er: Nem é nova nem opinião, se não antiga e manifesta verdade. Que se fora nova começara há pouco, mas ela é sentença dos sábios antigos, que de si deixaram gloriosa memória: e se fôra opinião fôra de coisas contingentes e incertas, mas ela é necessária e certíssima.

- Fi: E eu tenho-a por falsíssima. E é ou tão são dúvida, que a não terá nisso, se não quem segundo o costume dos académicos, quiser em tudo duvidar.

- Companheiro: Aí há verdades que não parecem, não por não serem, mas por não entendermos a diversidade do estilo em que são ditas. Digo isto, porque o padre, como se desnaturou do mundo, para que quanto dele estivesse mais apartado, tanto estivesse com Deus mais unido, e quanto mais longe estivesse da terra, e de si ainda mais longe, tanto mais perto estivesse do céu, tem outro estilo tão diferentes do nosso, que havemos de entender: que se o não estendemos é porque passa ele além das balisas do nosso entendimento, mas não porque em suas palavras haja erro, nem falsidade.

- Fi: Não sei porque sem razões, para escusar uma sem razão: pois de querer escusar uma nascem muitas. Assim, como lançando uma pedra num grande poço se faz um círculo na água, e dele procede outro maior, e este maior faz outro mais estendido, após o qual vem outro e outros cada vez maiores, quase em infinito, assim de um erro nasce outro, e este traz outro consigo maior, após o qual vem muitos outros cada vez maiores, quase em infinito, se lhe não atalham logo no princípio. Fácil coisa seria atalhar logo no princípio a um rio, entupindo-lhe a fonte, donde nasce, ou lançando-lha por outra banda: mas depois que nele entrada de muitos rios se faz poderoso e profundo, não há quem lhe possa resistir. Isto é o que diz Aristóteles, que pequeno erro no princípio se faz grande no fim, e que dado um inconveniente se seguem muitos. E às vezes de não apagar uma palha, se vem atear o fogo numa e noutra até que se vem a queimar toda uma casa, e de pequena faisca se faz grande incêndio.

- Co: Eu não me determino logo tão asinha como isso a condenar, o que não acabo de entender. E sempre tive para mim que as coisas se haviam de julgar com deliberação. Que como diz Bias o filósofo, segundo refere Laercio, nenhuma coisa é mais contrária a deliberar que a ira e a pressa. E não vos pareça que repreendo a diligência nas obras, antes tenho para mim que não há coisa que ela não vença. Porque assim como a negligência é mãe de todas elas. Ela é uma mina de bens, e a negligência um pego sem fundo, em que todos se alagam. Mas a diligência há-de ser pesada, e levando nos pés as esporas da ligeireza e velocidade, há-de levar na mão as rédeas da razão e do conselho: de maneira que na deliberação há de ver tardança, e na execução da boa obra pressa. Donde veio aquele tão antigo como famoso proverbio: Apressa-te devagar. O que também quis significar o Imperador Tito Vespasiano, filho do grande Vespasiano, quando mandou pôr por divisa nas suas medalhas um golfinho velocíssimo, enrodilhado numa âncora vagarosa.

- Fi: É verdade que pela âncora se entende a tardança, e pelo golfinho a pressa: porque Aristóteles afirma que é ele ligeiríssimo. E opinam no seu segundo livro da natureza dos peixes diz, que nadam os golfinhos tanto pela água, como voam as aves pelo ar. E Plínio no seu nono livro da história natural diz, que são os mais ligeiros de todos os animais, assim aquatiles [aquáticos], como terrestres, como volátiles [voadores]. E não somente Tito Vespertino, mas Octaviano Augusto se soía muito deleitar com esse provérbio, como conta Aulo Gelio no décimo das suas noites Aticas, e Macróbio no sexto dos Saturnaes. Mas isso se entende, quando se representam algumas dúvidas, que fazem distrair o ânimo em diversos pareceres. Entram há dever deliberação vagarosa, e maduro conselho, o qual há-de ser secreto: e por isso edificaram os antigos romanos o templo de Conso, a quem eles chamavam deus dos conselhos, debaixo da terra. E após o conselho se há de seguir a execução com tanta diligência, que pareça que o efeito precedeu à deliberação, de maneira que primeiro pareça feito, que cuidado. Mas quando as coisas são tão manifestas, que nelas não há que deliberar, de que serve gastar o tempo em conselhos: e ocupar o juízo em escolher quantas coisas a vária fantasia lhe representa, e o pensamento em fazer dificuldades, onde as não há? Quando os erros são tão claros, como é este do padre, para que é senão condená-los logo sem mais?

- Co: Eu, todavia suspendo o entendimento, até ver como vós padre provais, que nem vós, nem homem algum está, nem tem anos de idade. Folgaria muito em saber como pode isso ser.

- Fi: Isso, disse o filósofo, não sabereis vos nunca.

- Co: Porquê?

- Fi: Porque o que nem é não se pode saber.

- Er: Eu vos provarei o que digo, se vós não tiverdes os ouvidos entupidos e opilados.

- Fi: Antes creio eu que no-los entupireis vós com palavras, e enfim não a dareis a vossa empresa.

- Co: Coisa é esta que eu em estremo folgaria de ouvir. E para isto assente-mo-nos.

- Fi: Assente-mo-nos, que eu estarei aqui encostado a esta verde e sombria árvore, e ouvi se vos bem parecer.

- Co: Vós padre podeis dizer o que quiserdes, sem nos pedirdes as vontades, em especial a minha, que não discrepará da vossa.

(a continuar)

20/01/15

D. MANUEL III E A TERTÚLIA MAÇONICA!!!

A notícia não é nova (11/11/2014), mas divulgo-a, para que se diga "aí", e assim evitar um "ai, ai, ai" futuro!

D. Manuel III, Cardeal Patriarca de Lisboa
(O Sol) - Patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, vai falar sobre o Papa Francisco no Bar do Além, em Alenquer [aí que bem escolhido...], onde se debatem temas esotéricos e que é frequentado por maçons. O promotor do evento é Luís Nandim de Carvalho, que foi grão-mestre da Grande Loja Legal de Portugal (GLLP), de 1996 a 2001.

“O patriarca vem cá no próximo dia 22. Mas o bar é pequeno e por isso as inscrições para o almoço  já estão esgotadas há algum tempo” [veja-se a raridade da atracção], avança ao SOL Nandim de Carvalho, explicando que Manuel Clemente aceitou participar num almoço-debate para analisar a mensagem do Papa. “É uma iniciativa integrada num conjunto de debates sobre religião”, esclarece Nandim de Carvalho, acrescentando que a organização está a cargo de um clube, a Tertúlia do Além, que ele próprio coordena e que funciona uma vez por mês num bar que existe no Parque de Campismo de Alenquer.

“Há 14 anos que esta tertúlia funciona”, adianta, rejeitando a ideia de ser um evento maçónico: “vêm pessoas que nada tem a ver com a maçonaria”, garante, recordando que recentemente os oradores-convidados foram José Ruah [este nada tem que ver com a maçonaria?!...], para debater o judaísmo, nomeadamente as festividades desta religião, e o Coronel João Fernandes, para falar dos Templários. Tanto um como o outro constam da lista de maçons da GLLP: Ruah é da Loja Afonso Domingos e João Fernandes  foi afastado, há cerca de quatro anos, da loja a que pertencia na mesma obediência.

Ao longo dos anos têm sido vários os debates sobre a maçonaria, com a presença de muitos membros desta irmandade e até altos responsáveis, como Pedro Rangel que lidera a  Grande Loja Simbólica Portuguesa, uma obediência recente no país (2008).

Nandim - que há algum tempo se afastou dos trabalhos na loja maçónica a que pertencia -  rejeita, porém, a ideia de o bar ser para maçons. “Aqui debatem-se assuntos espiritualistas e esotéricos. Só não se debate política, economia, futebol e telenovelas”, refere.

Ao todo serão 40 participantes, entre maçons e não maçons, que vão ouvir o líder da Conferência Episcopal Portuguesa. “Muitos ficaram admirados, Mas é muito bom o Patriarca ter aceite participar” - considera um maçon da GLLP que vai participar no evento, que começa com uma palestra do religioso, seguindo-se o almoço. Depois, frisa Nandim, “haverá uma tertúlia entre todos os presentes”."

MAÇONARIA APROFUNDA CORRUPÇÃO EM ÁFRICA

(20 de Janeiro de 2015) - Entrevista da jornalista Catarina Guerreiro à Voz da América, no programa "Agenda Africana":

Voz da América - A maçonaria portuguesa tem recrutado altos dirigentes dos países lusófonos, expecialmente em África, onde está a infiltrar-se em força. Actuais e antigos lideres políticos, como Pedro Pires, o falecido guineense Luís Cabral, e o são-tomense Manuel Pinto da Costa, além do angolano Rui Mingas e vários homens de negócios, são mações: segundo um texto da jornalista portuguesa Catarina Guerreiro, publicado no semanário O Sol.

Este é o tema da "Agenda Africana" de hoje.

Falei com a jornalista Catarina guerreiro para entender a maçonaria na sua expansão pelos países africanos de língua portuguesa. Comecei por lhe pedir que explicasse o que é a maçonaria e como ela funciona.

Catarina Guerreiro - A Maçonaria é um grupo supostamente secreto, de pessoas, na sua genes apenas homens, apesar de haver já em Portugal, e noutros países algumas maçonarias femininas, e outras mistas, e que a ideia é encontrarem-se em Lojas, que chamam também "templos maçónicos", nos quais fazem rituais e aprofundam-se como seres humanos. Isto é aquilo que dizem que é a maçonaria e que fazem. No entanto, ao logo da história, têm sido também activos politicamente e conquistado algumas ideias mais radicais. Ao longo da história vão aparecendo e desaparecendo segundo o poder político que exista em cada país. No fundo é uma organização que tem obviamente alguma influência na sociedade, mas quem mostrar que se baseia em reuniões pacíficas onde debatem temas esotéricos e ganharem um pouco mais como seres humanos.

V.A. - Esses interesses políticos enquadram-se em que âmbito? ... mais à direita... mais à esquerda!?

C.G. - Antigamente, aqui em Portugal, começou mais ligada ao Partido Socialista. Foi alargando e, hoje em dia, já existem pessoas de outros quadrantes políticos. Mas é óbvio que é uma associação que está mais ligada com a esfera socialista. Entretanto foram surgindo outras maçonarias mais actuais, e há já gente ligada ao PSD, até ao CDS.

V.A. - E essa expansão para a África Lusófona é decorrente das relações históricas e culturais que existem entre os países, ou há outros objectivos?

C.G. - São duas questões interligadas. Por um lado, a expansão para África tem a ver com uma maçonaria mais recente, que é a Maçonaria Regular (que é uma maçonaria em que supostamente os maçons acreditam num Deus ou outro, ou no Arquitecto - enquanto que na outra maçonaria, que é a Maçonaria Irregular, não consideram necessário acreditar), mas é esta maçonaria, a Regular, que existiu mais recentemente, é essa que se está a expandir para estes países africanos. A nível internacional o número de maçons que falam português terá maior importância, e por outro lado permite-se assim que estas maçonarias ganhem importância. Isto permite a quem é maçom depois ter assento em lugares ... Se eles,ao recrutarem conseguem importantes em cada país, terão maior poder nesses países.


V.A. - E esses interesses, esses relacionamentos entre eles, como acaba de dizer, vazam para o dia a dia... por exemplo no caso de opções económicas, opções políticas, indo procurar parceiros pertencentes às mesmas Lojas ou que pelo menos sejam maçons?

C.G. - Eles dizem que não! Normalmente, quando perguntamos a algum deles se escolhe alguém para um cargo por ser maçom, dizem que isso não é uma característica determinante. O que é verdade é que há muita gente que vê na maçonaria um seguro de vida... ou seja, uma forma de arranjar emprego. Muitas pessoas aderem nesta espectativa, para elas ou para os filhos. Portanto, há aqui a ideia de que ...

V.A. - Uma solidariedade!?...

C.G. - Solidariedade!... Pelo menos foram várias as pessoas que declararam publicamente que, no caso de haver uma pessoa que é [maçom] e outra que não é, para o mesmo lugar seria natural darem preferência ao que é [maçom] porque lhe garante maior confiança na medida que sabe quais os valores que transmite!

V.A. - O teu texto fala na situação dos países de língua portuguesa. Moçambique já tem maçonaria independente, parece que Cabo Verde é o que está um pouco mais avançado, ainda é incipiente na Guiné-Biçau, tem algumas dificuldades em São Tomé, e em Angola também está a enfrentar grandes dificuldades. Enquadra-nos por favor: há maçonaria nesses países?

C.G. - No Brasil e em Moçambique há maçonarias próprias que têm liders, chamados "grão-mestres" que são eleitos pelos maçons desses países, e não dependem de grão-mestre em Portugal. Nos outros países as Lojas são dirigidas por elementos em Portugal. Ou seja, o grão-mestre da Loja de cá, cá eleito, também decide o que é feito aí. E depende dos países e da sua natureza, porque nuns é mais fácil infiltrarem-se, digamos assim. Em Angola já à bastante tempo que o Rui Mingas é um dos principais motores, e tem ajudado aqui em Portugal a recrutar, e algumas coisas em Angola. Mas como eu disse no texto, houve alguma dificuldade, na medida em que aqui em Portugal houve uma polémica com a Loja Mozart, em que havia lá uma mistura de espiões e pessoas ligadas a empresas e também políticos, e que deu polémica e originou muitos ataques em jornais, e isso intimidou um pouquinho os angolanos que não gostam de se ver envolvidos nestas questões, preferem estar longe disto. Há lá uma loja [Angola], e ainda há possibilidade de fazer outra, mas está assim "devagar". Na Guiné, devido à situação política, não há neste momento uma loja activa, havendo lá maçons que querem participar mas não têm onde se reunir e pertencem a lojas aqui em Lisboa, ou Porto, e quando estão cá ver - é esta a região que parece estar mais receptiva... Em S. Tomé também há, com as suas características próprias. Mas em todos [estes países] há lojas da maçonaria vinda de Portugal.

V.A. - Porque é que geralmente os alvos são políticos e homens de negócios?

C.G. - Porque são aqueles que têm mais poder político e poder económico. São sempre aqueles dois poderes que têm mais força na sociedade. Quanto maior o número de pessoas tiver [a maçonaria] maior poder tem.

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É evidente que esta notícia só vai aliciar os africanos de ambição grande e de moral pequena, e lá se vão enchendo as fileiras da maçonaria.

Mais sobre este tema, AQUI

SERMÃO - DE FR. FRANCISCO FOREIRO NO CONCÍLIO DE TRENTO (II)

(continuação da I parte)

I

Concílio Ecuménico de Trento
Comecemos, pois, por aqui o nosso sermão: pelos critérios de Deus, não merecem consideração esses títulos (que a parecer também se compraram por bom preço, que muitos amiúde conservam e contemplam com grande ambição, escogitados por alguns por adulação e por outros supersticiosamente guardados), mas sim a fé constante e com amor não fingido, a justiça incorrupta e não ensombrada por quaisquer vantagens próprias de favor. Tudo isso deve ser considerado como névoas que os raios do sol ou leve brisa fazem desaparecer num ápice. Daí estar escrito com muita clareza. "vi o ímpio sobremaniera exaltado e elevado acima dos cedros do Líbano; passei e já não existia; procurei-o e não se encontrou o seu lugar"; e "não temais quando alguém enriquecer e a sua casa se multiplicar de glória; pois ao morrer nada levará consigo nem a sua glória descerá com ele". E Job: "a sua confiança é como casulo de aranha. Apoiar-se-á nele e não se aguentará"; "tais são os caminhos de quantos dizem esquecer Deus". Mas com toda a razão se diz que esquecem a Deus os que de tal modo procuram brilhar junto dos homens que não se horrorizam esperando o juízo divino; mas, inanes como fábulas, o recordam. Levam a vida como o desvarios de velhinhas; e pensam das suas coisas como se estas durassem sempre.

Ó vãos cuidados humanos! ó trabalhos em vão suportados! Ó casas erguidas em lassidão e magnificência, decoradas a tapetes de ouro e seda! Ó famílias seguidas de longo cortejo atrás! Ó átrios ressoantes de rumor de criados e cavalos. Com que nome (por favor) vos marcou o Espírito Santo? Casulo de aranha a sua confiança; apoiar-se-á nele e não se aguentará.

Vistes alguma vez, ó Padre, um aranhiço trémulo, que pela fraqueza das tíbias mal pode assentar os pés no seu casulo? Tais são "os caminhos de quantos esquecem a Deus". Daí o que foi dito por David com muita sabedoria: "ruiu a memória deles com o fragor". E em Job que citei há pouco: "se for precipitado do seu lugar, pode dizer-se contra ele: não te vi".

II

Mas venha o nosso sermão ao dia do juízo. E tratemos do que sobre este assunto parece poder dizer-se sem esforço.

"Se todos nós temos de comparecer perante o tribunal de Cristo", será de homem prudente e acautelado elaborar mentalmente como vai ser esse juízo futuro, e com tal realismo e exactidão o elabore que quase o apalpe à mão; ou empregue alguma consideração para que se conserve como reparado e coberto; disponha as suas palavras ou as suas coisas para o julgamento, como se diz no Salmo, não aconteça que, semelhante às virgens loucas, fechada a porta, se exclua da boda. Ao buscar estas coisas no evangelho de hoje, só encontro nele alguns sinais que precedem o julgamento. Fiquemos então de bom grado por aqui mesmo.

Ou favemos de entender por esses sinais que tal será o juízo, ou certamente perceberemos (o que é capital e diz respeito maximamente à salvação) que haverá com absoluta certeza um juízo futuro e que o Filho de Deus e Senhor nosso de novo voltará ao mundo para julgar os homens. Por minha parte, caríssimos Padres, eu que gastei algumas horas com este pensamento muito agudo e muito atento, nada achei que mais diga respeito à salvação do que meditar estas coisas com frequência. Deus é quem julgará o mundo, mas "deu todo o julgamento ao Unigénito"; este "virá outra vez com majestade". Que mais desejareis saber? É Deus: "não perverterá o julgamento" (como está escrito em Job), "nem torcerá o direito". Julgará com verdade o que remiu com misericórdia. Dirá talvez alguém: que havemos de desesperar ou temer? É nosso advogado - o nosso sacerdote e pontífice, que intercede por nós, que se deu por nós como "preço", "redenção", "justiça" e "santificação". "Se, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte do seu Filho, muito mais, já reconciliados, seremos salvos da ira na sua vida." Se é Deus que justifica, quem é que condenará? Sei, ó Padres, e tenho-o verificado na prática, que muito disto é aduzido por alguns da Escritura Sagrada, sem dúvida, mas instruídos pelo espírito do diabo. Tirem, com isso, o medo aos homens para que, quando pensam ter paz, se preocupem com a morte repentina. Quem duvidará de que "nenhuma condenação afectará os que estão com Jesus Cristo", se é o mesmo Paulo a testemunhá-lo? Mas para que não se pensasse impiamente que se podem dizer estar em Cristo os que só estão imbuídos da fé de Cristo, acrescenta prudentemente: "que não andam segundo a carne". os que andam segundo a carne (como ensina o Apocalipse noutra passagem) perecerão. E, não fosse alguém enganar-se, enumera as "obras da carne". Quem negará, pois, que para aqueles para quem Cristo se tornou "santificação e justiça", e por ele mesmo foram reconciliados com Deus, se retiverem esta justiça e santificação na vinda do Senhor, nenhum perigo de ira do poderosíssimo juiz ocorrerá? Por isso é que eu, pelo contrário, interrogo essa gente, de bom grado, é certo, mas não sem horror e temor: se o advogado, se o sacerdote, se o pontífice que está em favor dos homens condenar os homens, quem haverá de interceder por eles? Se os que foram reconciliados com Deus pela morte do Filho de Deus de novo quiserem exercer inimizade com o Pai e o Filho, que lhes aproveitará a recenção comprada a tão grande preço? Quem será o patrono daqueles a quem Deus rejeitar? Pois, como mui sabiamente dizia Job, "se for questão de força, ele é fortíssimo; e se se tratar de justiça, quem me servirá de patrono?" Pois "quem Deus tiver justificado ninguém certamente poderá condenar; mas aos que condenar quem livrará do juízo? Ó desvario de homens imprudentes! Que não pensam que são inumeráveis os que entram pela via da perdição, até elo testemunho do próprio Senhor nosso, e com a tempestade fortíssima desabando sobre eles ainda se prometem serenidade. Pois se os que não acreditam já estão julgados, o juízo de Deus virá sobretudo para aqueles que "confessam a Deus com a boca mas o negam com os factos". Eles que ensinam os outros (como diz Paulo) e a si mesmos não ensinam; que pregam contra o roubo e eles mesmos roubam; que dizem ser ilícito o adultério e eles mesmos cometem adultério; que abominam os ídolos e cometem sacrilégio; que se gloriam da Lei e desonram a Deus prevaricando a Lei. São os que (como se lê em David) enumeram as benemerências do Senhor e assim em a sua aliança com a sua boca, mas porque aborreceram a disciplina e deitaram para trás das costas as advertências do Senhor, esses têm de ouvir: "hei-de denunciar-te e lançar-te em rosto".

Por isso os adverte deste modo: entendei isto, vós que esquecei a Deus! Que sem dúvida conheceis a Deus, mas não glorificais como sendo Deus! Que honrais a Deus com os lábios, mas de coração estais longe de Deus! Que tendes "uma aparência de piedade", mas renegais "a sua virtude". Entendei estas palavras, insisto, ou seja, que haveis de ser acusados e julgados; para que, "quando arrebate", "não haja quem liberte". A esses costumo dizer muitas vezes, ò Padres, a sentença de Tertuliano: o juízo do Senhor não se exara nos grilhões nem no barrete da liberdade, isto é, se o servo deve receber carta de alforria e ser restituído à liberdade ou retido como escravo nas cadeias, exara-se na eternidade da pena ou da salvação. Para evitar tal severidade ou conseguir misericórdia, tão grande é o cuidado a ter quando são grandes ou a severidade que ameaça ou a misericórdia que promete. nem o Apóstolo de balde aconselhava a que operássemos a nossas salvação com temor e tremor?

(a continuar)

HARMONIA POLÍTICA DOS DOCUMENTOS DIVINOS (V)

(continuação da IV parte)

PARTE II
DA JUSTIÇA PARA CONSIGO MESMO

Parágrafo I
Reputação

Segunda parte respeitante à Justiça (que é para consigo mesmo), pede na Política Evangélica que:

"Cada um, além de ser em particular virtuoso, procure ser em público bem reputado; não basta cingir-se interiormente com virtudes, sem trazer nas mãos tochas acesas de boas obras."

1. Porque, sendo o homem nascido para sociedade, se, contentando-se com o testemunho de sua consciência, desprezar o comum, será injusto consigo, privadamente da honra devida ao virtuoso: com o próximo, negando-lhe o bom exemplo: e com a virtude, tirando-lhe o meio de se comunicar. Por isto o homem não é Senhor absoluto, mas dispenseiro fiel da sua Reputação; pois se a quiser estragar pelo que lhe toca, a deve conservar pelo que pertenceu ao público, e à mesma virtude, que da fama receba mais lustre, posto que não recebe mais perfeição; e quando seja Senhor, as leis proíbem usar mal dos bens próprios.

2. A natureza na composição do universo, e do homem, mostrou que esta obrigação é maior nos que têm superior lugar, quando fez os corpos celestes mais claros que os terrestres: o fogo mais puro que os outros elementos: o rosto mais gracioso que todos os membros: os olhos mais resplandecentes que todas as feições; e a razão dita, que sendo o Príncipe um exemplar para os súbditos, como já dissemos, faria mais prejuízo aos próximo, e à virtude, se ele privasse do melhor exemplo, e a ela do mais certo meio de comunicação. Seria um fole que negasse ao mundo a luz que se lhe deu para alumiar; e deve ter o Príncipe maior cuidado de sua fama, porque o resplendor que acompanha sua pessoa, descobre mais seus procedimentos; a terra (dizem os poetas) se fez fecunda de línguas, para publicar o defeito DelRei Midas; qualquer fama que alcance há-de ser grande, não à proporção de sua dignidade, dizendo-se muito mais do que for, ou no bem, ou no mal.

MEIO PARA ALCANÇAR
Boa Reputação

3. A Política Evangélica ensina que para alcançar Reputação boa, são necessárias obras exteriores, quando diz, "Pelos frutos os conhecereis"; porque os homens não podem louvar senão o que estimam, nem podem estimar senão o que conhecem, nem conhecer senão o que se lhes descobre; e a presença das substâncias espirituais não se descobre senão pelos efeitos; a de Deus no mundo, por sua providência: a dos Anjos no lugar, por suas maravilhas: a da alma no corpo, por seus discursos: a da virtude na alma, por suas obras.

4. Nem basta que estas sejam indiferentes; quem não é vicioso deixou um estremo, não chegou ao outro, e assim como não é vituperável, não é louvável; dir-se-há dele, que é mais sem vícios, que com virtudes. O estado dos Príncipes não permite juízo indiferente; ou hão- de ser amados, ou odiados; não são grandes senão para obrarem coisas grandes; sua vida será desprezada, se não for virtuosa; pelo que lhes é necessário fazerem obras tão generosas que seu louvor se não possa dissimular. Epiteto e Agesilão com o lume da razão o alcançaram quando, ainda aos particulares que pretendiam ser bem reputados, aconselhavam que falassem, e obrassem; pois, consistindo o hábito na potência, e a virtude na acção, justamente se julga por morta a virtude que não obra, como o coração que não se move, o fogo que não queima, a árvore que não brota.

5. Não deixo de condenar a ostentação vangloriosa; faz mal quem contenta a fama, e não a consciência, mas advirto que se a providência contra a vaidade chegar a medo (principalmente nos que governam) fera reprovável; cada um evite seu dano, mas satisfaça a sua obrigação; a prudência o conseguirá, não encobrindo, nem descobrindo tudo; Sejam mais as obras boas que as manifestadas, para que nas ocultas se conserve a modéstia, e nas públicas se alimente a fama; neste sentido granjear o Príncipe com honesta diligência bom nome, lhe é tão importante para governar o Estado, como ao sol espalhar sua luz para alumiar o mundo.

6. Assim o fizeram os Sereníssimos Reis de Portugal; porque não só fugiram dos vícios, nem só abraçaram as virtudes, mas também deram disso as demonstrações mais abalizadas, de que estão cheias as histórias. o Excelente Camões advertiu judiciosamente que ElRei D. Sancho Capelo não foi vicioso, antes valoroso defendeu dos Mouros Alcácer, e lhes tomou Mértola, e liberal fez doação desta praça aos Cavaleiros da ordem de Santiago; Só por uma pouca remissão o não puderam sofrer os Portugueses, porque só a reis por eminência virtuosos obedecerem seus ânimos; com o que bem se mostra quais foram seus reis.

(continuação, VI parte)

FLORES DE HISPANHA, EXCELÊNCIAS DE PORTUGAL (XVII)

(continuação da XVI parte)

Em fecundidade não dão vantagem em Portugal os animais àquele fatídico tratado por Virgílio, que trazia consigo trinta filhos. Quatrocentos mil bois, e vacas sustentam a província de Entre Douro e Minho (ainda que Gaspar Estaço as ponha em menor número) e mais de um milhão de ovelhas, carneiros, e outros gados miúdos deste tipo, segundo Duarte Nunes no dito lugar, e sobre esta carne escreve Marco Varron (g) que um Atílio Romano, de muita erudição e verdade, que residia na Hispânia, contava que na Lusitânia ulterior (que devia ser ao que hoje chamamos de Alentejo, ou mesmo no Algarve) se matou um porco do qual foi enviado um pedaço a Lúcio Velumnio Senador Romano, que andava pela Hispânia, o qual pedaço era formado somente de duas costelas e pesou vinte e quatro libras, porque do coro até ao osso tinha um pé e três dedos de alto. Isto pode ser acreditado, tal como respondeu Marco Varron, que ele sabia certamente que na Arcádia, província grega no Peloponeso viu-se uma porca tão grande que não só não se podia levantar do chão, mas que um rato lhe comeu um pedaço do couro e carne, e ali fez ninho no qual ficou com seus ratinhos, sem que a porca por muito corpulenta ser, e grossa, os pudesse espantar.

Que as terras que em Portugal que são regadas pelo Guadiana dão gado em tudo muito excelente, que outras muitas, testemunha-o Rei D. João I de Castela pelo que ordenou na cidade de Toro no ano de 1406, que são do nascimento de Cristo o ano 1378, que nenhum boi fosse vendido em Castela por mais de 180 maravedís, a não ser que fosse da ribeira do Guadiana, porque neste caso poderia ser vendido por 200 maravedís. (h)

[(a) - Duar. Nunes descript. de Portug. cap. 28 e 29. Vasconsel. in descript. Lusit, Estaço nas antiguidad. cap. 56;
(b) - Homer. Iliad. li. 16. Plin. lib. 8 c. 42 & lib 4 c. 22. Gerundas lib. I. Volat. lib. 25. Virg. geor. 3. Syl. Italic. lib. 3. Duarte Nunes d. cap. 29. Lope de Vega al fin dela Arcad. verbo (Tajo);
(c) - Fr. Bernar. Monar. Lusit. l. 1 c. 7;
(d)- Diego de Fun. e Mendoça hist. de anes, e animal. l. 1. cap. 6 e 7;
(e) - Damião de Góis in Olysip.;
(f) - Virg. AEnead. lib. 8;
(g) - Marc. Varr. lib. 2 de rerust.;
(h) - Duarte Nunes su prac 13]


EXCELÊNCIA III
Abundância de Pão

De pão [cereais] há grande abundância em Portugal, e cada vez há mais, e mais houvesse, se todas as terras férteis fossem cultivadas. Fr. Nicolau de Oliveira (a) refere que o ano de 1608 só duas vilas, Serpa e Moura, renderam ao dízimo 1470 moios de trigo, que são 22.050 "hanegas" a 15 "hanegas" cada moio, não contando a cevada, o centeio, e o milho, e deixadas muitas herdades de privilegiados (os quais são Cavaleiros do hábito de Cristo, Clérigos, e mosteiros, que não pagam o dízimo). Somente a paróquia da Igreja Catedral de Évora dá ao dízimo cada ano cerca de 700 moios. Finalmente há em Portugal terras tão boas, que muitas dão dois e três frutos num ano, e algumas (como é um grandíssimo campo que os Duques de Caminha, Marquês de Vila Real tem junto à cidade de Leiria) por uma "hanega" de trigo que nele semeiam colhem 60, e assim também noutros lados. Este pão [cereal] é tão excelente que dele disse o Infante D. Pedro de Aragão, que esteve neste Reino no tempo do Rei D. João I, que tinha visto em Portugal bom pão e bom Capitão: isto dizia do Conde de Abranches D. Álvaro de Almeida, que era Capitão maior de Lisboa.(b)

[(a) - Fr. Nicolau grandezas de Lisboa. trat. I cap. 4;
(b) -  Duar. Nunes descripcion de Portugal c. 35]


EXCELÊNCIA IV
Azeite em Quantidade

De azeite também há grande quantidade, principalmente nos termos de Coimbra, Tomar, e Lisboa, e mais que em qualquer outra parte em Santarém, que há tanto que gastando-se muito no Reino, e conquistas dele, vão somente para Flandres mais de 3000 pipas anualmente;(a) e assim para encarecer uma coisa grande costuma dizer-se "olivais de Santarém". Algo a este respeito trata Duarte Nunes na descrição de Portugal.(b)

[(a) -  Fr. Nicolau no dito lugar;
(b) - Nunes descript. de Portug. c. 25]


EXCELÊNCIA V
Vinho, Mel e Cera

Também de vinho há grande cópia, e tão bom que costuma ser enviado para terras ultramarinas muitos milhares de lagoas, passando por vezes a linha Equinocial sem corromper-se, que é suficiente prova da sua bondade. Disto trata Duarte Nines, e o Padre António Vasconcelos, (a) e da abundância de mel, e cera mais largamente. E por experiência vemos não ser verdadeiro o que diz João Boemo que a Lusitânia é falta de vinho. (b)

[(a) - Duar. Nunes descript. de Port. cap. 26 e 27. Vascnsel. e descript. Lusi.;
(b) - Boem de marib. gent. lib. 3 c. 24]


EXCELÊNCIA VI
Linho

Linho em Portugal há muito, e de grande excelência, e assim aquele que é feito em linhaço, ou em fio, é muito estimado em toda a parte. Por isso os homens que vendem fio nos outros Reinos da Hispania, ainda que não sejam de Portugal, dizem, e apregoam que assim é. E é tanto que só a vila de Guimarães rende a S. majestade de direitos de fio 7000 e 8000 ducados anualmente, como o regista Vasconcelos. (a)

[(a) - Vasconcelos no lugar citado]


EXCELÊNCIA VII
Muita Fruta

Lisboa tem a 5 léguas uma ribeira, que chamam de ribeira de Colares, sendo de menos de uma légua de comprimento, e a sexta parte de légua de largura, e que vende a Lisboa anualmente mais de 20.000 cargas de fruta,(a) além de outra fruta que tem e que não a vai vender [a Lisboa], e também muita dela se perde por não se conseguir dar aproveitamento a toda ela. É fruta de toda a sorte e tanta. Trata disto Duarte Nunes. (b)

[(a) - Fr. Nicolau grandezas de Lisboa trat. 5 cap. 1;
(b) - Duart. Nunes descript. de Portug. cap. 33]

(a continuar)

19/01/15

IMITAÇÃO DE CRISTO - Thomas de Kempis (LII)

(continuação da LI parte)

A IMITAÇÃO DE CRISTO
Thomas de Kempis

III Livro
A Fonte Das Consolações

Cap. XV
Como Se Haver e Falar das Coisas Desejadas

1. Cristo - Filho, eu quero que em tudo me fales assim: "Senhor, se Vos agrada o que Vos proponho, faça-se. Se a Vossa honra tem nisso interesse, em Vosso nome se faça. Senhor, se o que eu vos peço Vos convém, concedei-me. Se entendeis que é nocivo à minha salvação, tirai-me semelhante desejo."
Porque nem todo o desejo é inspirado pelo Espírito Santo, ainda que ao homem pareça bom e útil.
É difícil julgar se é o bom ou o mau espírito que te leva a desejar isto ou aquilo, ou se é o teu próprio espírito que se move em teu desejo.
Muitos, que no princípio se julgavam inspirados pelo bom espírito, verificaram, no fim, que foram enganados.

2. Deves sempre oferecer-me as tuas petições e os teus desejos, com temor e humildade, remetendo tudo à minha disposição, renunciando inteiramente à tua própria vontade e dizendo: "Senhor, Vós sabeis o que é melhor. Fazei tudo como melhor Vos agradar. Dai-me o que quiserdes, como quiserdes e quando quiserdes. Tratai-me como sabeis e do modo que Vos for mais agradável e conforme a Vossa glória. Ponde-me onde quiserdes. Disponde de mim em tudo com inteira liberdade. Eu estou na Vossa mão. Farei de mim o que melhor Vos parecer. Como Vosso servo, estou pronto para tudo, pois desejo viver para Vós e não para mim. Que a Vossa bondade me faculte cumprir este desejo de modo digno e perfeito."

3.Alma - Ó Jesus de bondade infinita, derramai a Vossa graça em meu coração, a fim de que ele seja comigo, trabalhe comigo e persevere até ao fim! Concedei-me que sem demora deseje e queira o que Vos for mais aceite e amável! A Vossa vontade seja a minha, e a minha em tudo conforme a Vossa. Não tenha eu mais que um querer e não querer, e um e outro seja Vosso, de sorte que não possa eu querer senão o que Vós quereis, e não querer senão o que Vós não quereis.

4. Fazei que eu morra por tudo o que é do mundo e que ame ser desprezado e desconhecido por amor de Vós. Fazei que eu descanse antes em Vós do que em tudo o que posso desejar e que o meu coração ache no Vosso o abrigo à sua paz. Vós sois o meu verdadeiro e único descanso. Fora de Vós tudo me é penoso e inquieto. Fazei-me pois gozar esse sono divino que se acha na soberana paz, isto é, em Vós, ó meu Deus, que sois o bem único, soberano e eterno.

INSÓLITO - ASCENDENS

Hoje, dia 19 de Janeiro de 2015, das 02:00 até às 11:00 de Lisboa, o blog ASCENDENS registou mais de 5500 visitas, esmagadoramente provenientes dos U.S.A.

Parte do painel de control do blog ASCENDENS
Sem dúvida.... um record!

18/01/15

CONTRA-MINA Nº 12: Liberalismo Contra a Restauração de Luís XVIII ... (I)

CONTRA-MINA
Periódico Moral, e Político,

por

Fr. Fortunato de S. Boaventura,
Monge de Alcobaça.

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Nº 12
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O medonho Fantasma se esvaece,
O dia torna, e a sombra se dissipa;
Os Insectos feíssimos de chofre
Entram no poço do afumado Inferno:
Eternamente a tampa se aferrolha.
No meio do clarão vejo no Trono,
Cercado de esplendor, MIGUEL PRIMEIRO.
(Macedo, Viagem Estática ao Templo da Sabedoria, pág. 141)
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Esforços da Impiedade, ou Liberalismo Para Anular os Efeitos da Milagrosa Restauração de Luís XVIII

"Luís XVIII, restituído por 700 mil homens armados ao Trono de seus Maiores, só deveria Reinar como tinham Reinado os seus antepassados, e nunca deveria ter sacrificado ao gosto inglês das suas Câmaras o interesse da sua Família, e a prosperidade da nação ["Reino"] da França. Quando ele sancionou com a sua aprovação a Liberdade de Imprensa, descarregou o primeiro golpe de machado sobre o tronco da Legitimidade, e apressou, quanto nele era, a sua própria desentronização, e a dos seus mais próximos Sucessores. Se toda a Europa em armas ditou leis à França, e humilhou as Águias do Império Francês, não menos temerosas, e formidáveis para as nações, de que tinham sido as Romanas, é certíssimo, que poderia levar ao fim a obra mui felizmente começada, se por acaso não prevalecesse em certo Gabinete a influência das doutrinas Liberais, e o desejo, a meu ver insensato, de se cumprir a ideia primordial do Ministro Pitt; como se fôra possível, que todas as nações da Europa se amoldassem à Constituição Inglesa!

Fosse porém muito embora, ou político, ou necessário, que não se exasperassem os ânimos de uma povoação de trinta milhões de habitantes, e que uma Família até esse tempo errante, e vagabunda, e talvez sem outra esperança, que não fosse a de imediatos auxílios do Céu, houvesse de ceder uma boa porção de suas essenciais prerogativas, para melhor, e mais facilmente se assegurar a paz do mundo; porém logo que raiaram os cem dias, e que o Trono de S. Luís tornou a ficar vago, quase sem o menor indício de resistência desses milhões de habitantes, que até ai juravam morrer em defesa do Rei Legítimo, parece que esta nova, e cada vez mais persuasiva lição da adversidade deveria abrir os olhos de Luís XVIII, e das Potências da Europa, outra vez influentes na própria Capital, e destinos da França. Para que deixar tão cheio de vida, e forças um corpo, que nem cede, nem cederá nunca senão a outras maiores? Deviam contar, que a França acharia em si própria mui fáceis remédios, não só para estancar o sangue, que lhe tiravam, mas também para adquirir, em menos anos do que foram os da sua ocupação pelos Exércitos inimigos, muito maior cópia de santue, do que fôra o perdido. Esta tão boa ocasião, já não digo de se coarctar, ou reprimir, mas de se cortar pela raiz a Liberdade de imprensa! Sofram os meus leitores, que eu me explique nesta grande questão, mais como religioso do que como político. Não entendo que seja possível, que um Rei Cristianíssimo, ficando tal, como efectivamente soa este glorioso título, possa admitir a Liberdade de Imprensa, que de necessidade traz consigo as horrorosas consequências, de que abaixo tratarei... Não me armo com isto em Juiz, ou Árbitro dos Soberanos: expresso, sem os ofender, o que sinto em minha consciência, e já agora assim espero acabar os meus dias.

E que direi da suma indulgência de Luís XVIII para com os rebeldes?Concede-lhes uma inteira amnistia.... (nunca se gastou melhor cera com defuntos mais ruins!) e pela sua vontade quisera perdoar mais outra vez aos que tinham condenado à pena última o desgraçado Luís XVI!.... Foram as Câmaras, e não ele quem exceptuou os Regicidas!! Ah! dispensem-me os leitores certa ordem, que eu me proponha seguir em minhas ideias, pois aqui não é fácil, que eu resista a um súbito, e fortíssimo desejo de lhes interromper o fio.... Um Decreto de amnistia geral concedida no séc. XIX, e concedida a Liberais, ou Pedreiros, faz um sentido equivalente a estas clausulas.... Vendo que não fostes bem sucedidos na vossa empresa, e lastimando a vossa desgraça, eu vos concedo agora o tempo necessário, para que restaureis as vossas perdas, torneis a concentrar as vossas perdas, torneis a concentrar as vossas forças, e vos prepareis ocultamente para algum dia cairedes de chofre em cima dos defensores do Altar, e do Trono, nem podem fazer senão à voz do Soberano. Não obstante a prova antecedente, e claríssima de que todas as amnistias, que até hoje vos foram concedidas, somente vos fizeram cada vez mais atrevidos, e pertinazes em o vosso sistema, hei-de esquecer-me de todo o mal, que tendes feito, porque desta vez chorareis de arrependimentos, e nunca mais tornareis a fazer outra... Basta, basta, que já foi corte demasiado (já, digo, nas minhas ideias, que nos Pedreiros tudo é pouco.)

A estas beneficentíssimas providências de Luís XVIII seguiu-se aquele dizer "o amalgamento dos partidos" Ficarão à testa das Repartições, ou tendo nelas uma parte não secundária, mas principal, as mesmas figuras, que tinham representado os mais hediondos papeis nos diversos Governos da França; e com estes elementos assim disparatados, e heterogeneos é que se pretendeu consolidar o Trono de S. Luís! Os Liceus, e Colégios, em que não basta renovar o toque dos sinos, ou campainhas, e desterrar os tambores, que isso é o menos, ficarão quase sem a mais leve diferença do que antes eram. Trabalhou-se incessantemente por desviar as Corporações Religiosas do ensino da mocidade, desfechando a tormenta sobre os Padres das Escolas Pias, e ainda com mais força sobre os Jesuítas...... Ao ver estes em França trepidou o já triunfante Liberalismo, e arrancando um gemido ab imo pectore, chamou às armas toda a Confraria, à qual pertenceu o segredo, que o trazia perplexo, confuso, e atormentado, como se lhe dissera.... "Se os Jesuítas vão educar a mocidade Francesa temos Cristãos inumeráveis em França, consguintemente adversários nossos também inumeráveis... É necessário acudir-lhes a tempo, se não, choraremos sem remédio a queda total do sistema."

É um Rei, que os chamara, que os protegia, e que neles considerava um dos esteios principais do seu Trono, viu-se obrigado a expulsá-los da França! Respirou por certo o Liberalismo com esta desejada expulsão, e como senhor, que era de todas as molas, que sustentam, e dirigem a máquina do Estado, e principalmente de todos os corações da estudiosa mocidade, fez todos os dias novos prosélitos, e achou-se em 1830 com uma força respeitável à sua disposição, e pronta a investir à primeira voz, e derrubar o Trono de S. Luís. Em vão o famoso Abade La Mennais, a quem os Pedreiros Franceses chamam "Santo Padre dos Molinistas e Ultramontanos", avisou a França inteira do preciício, em que fatalmente se despenhava; em vão alguns Prelados Franceses, com o Cardeal de Clermont à sua frente, expuseram humildemente ao Rei Cristianísssimo, em 1828, os seus bem fundados temores; nem aquele, nem estes defensores da boa Causa foram atendidos; pois o Liberalismo em tais circunstâncias sabe o como, e quando há de impingir a nota de rebeldes, e atentadores contra as Liberdades Galicanas aos Sacerdotes, e Bispos, que mais acatamento, e submissão professarem à Sagrada Pessoa do seu Monarca.

Lamennais
Assim mesmo desatendidos não esmoreceram, antes faziam sem diferença do passado, o que neles era, para manterem o Trono de S. Luís; porém tudo era baldado, e só lembraria o remédio heroico, e decisivo, quando havia de trazer a morte... Pareceu coisa estranha, e mui desusada, que uma Nação aparecesse quase toda Liberal.... que surdissem como debaixo da terra milhares de esquadrões armados, que soubessem enrostar as mais bem disciplinadas tropas; mas quem olhar imparcialmente para a ocasião, que tiveram os Liberais Franceses de minarem o edifício, de trabalharem a coberto de inquietações, e surpresas, no espaço de quinze anos, em que mais de uma vez aprenderam nas concessões, que se lhes faziam, quando era o medo, que eles inspiravam, e quão pouco disputada seria a victoria, quando encetassem a peleja, só terá de admirar, que esta segunda revolução se demorasse até 1830. Ora neste empenho, que era sabido em França, que nem se atalhava, nem já se podia atalhar, foi o Liberalismo poderosamente auxiliado pela sua íntima, e poderosíssima Aliada a "Liberdade de Imprensa" e aqui mesmo vou dar uma noção breve de seus serviços à Revolução de 1830.

(continuação, II parte)

HARMONIA POLÍTICA DOS DOCUMENTOS DIVINOS (IV)

(continuação da III parte)

CONSEQUÊNCIAS
Por Razão

10. De se conhecer no Príncipe recto propósito, lhe resulta ser bem servido. É grande segredo de estado interessar Deus nos desenhos; porque o povo os julga por justos, e lhes prognostica bom sucesso; e sendo certo que todas as acções se encaminham ao fim, é infalível que ele [tal fim] as anima; se o [fim] do Príncipe é uma empresa gloriosa, faz-se apetecer, e assim em nada reparam os Vassalos, por terem parte em se alcançar;  , uma vaidade, uma injustiça; a natureza o aborrece; e assim não pode haver obediência que se delibere em trabalhar, e arriscar por um fim em que não se há-de ganhar senão vitupério. Os Vassalos são víctimas do Príncipe, mas voluntárias e racionais que se deixam sacrificar a ídolos. O povo nunca olha tão puramente ao merecimento do Príncipe, que não busque também nele sua utilidade; cada um julga das acções alheias conforme ao interesse próprio; de modo que a obrigação de obedecer se regula pela glória de ser mandado; até os preceitos rigorosos se avaliam pela recta intenção, levando-se voluntariamente como medicinas amargosas.

11. Em ordem àqueles fins que notamos nos Sereníssimos Reis de Portugal, os Vassalos se arriscavam em batalhas desiguais, em navegações temerárias, em façanhas prodigiosas com a extraordinária obediência que celebra o grande Camões; sendo muito para advertir os que mostraram mais zelo de propagar a fé e fundar templos, D. Afonso Henriques e D. Manuel, foram os melhor servidos; pois para o primeiro ganharam os Vassalos a maior parte de Portugal, e para o segundo quase todas as conquistas; à vista da glória que se alcançava, ninguém duvidava obedecer e servir; todos afectavam participar da honra à custa das fazendas, e das vidas. Desejos que se foram acabando ao passo que se mudou a intenção; porque os bons se abstinham de cooperar no mal, os maus se resolviam em pecar antes por amor de si; deste modo qualquer preceito parecia duro, não tinha execução, porque não achava obediência, sendo notório a todos o que a Política Divina diz pelo Eclesiástico: "Toda a má obra em fim faltará, e quem a faz perecerá juntamente; toda a boa obra se justificará, e quem a faz tirará honra dela."

SENHOR

12. A prova mais ilustre da recta intenção dos Senhores Reis de Portugal são suas conquistas. Ao grande Rei D. João II representaram alguns maus políticos despesas, e outros inconvenientes que se seguiram do descobrimento da Índia; mas desprezou todos por dilatar a Fé. Cristo Senhor nosso enfeudou este Reino ao Santo D. Afonso Henriques, e a seus descendentes com obrigação expressa de propagarem o Evangelho a gentes estranhas. Deve o Feudatário conforme a direito, satisfazer às obrigações do feudo sob pena de privação. Se alguém com qualquer capa, ressuscitar semelhante conselho com que se largue um plano de conquista a inimigos da Religião Católica, sem urgentíssima, e claríssima necessidade, tenham V. A. R. por ministro Diabólico que o quer fazer cair em comisso; o mal de largar o património da Igreja é certo e de presente: as conveniências de discursos falíveis, tão incertas, e de futuro; Cristo Senhor do feudo (diz S. Agostinho) não há de pedir conta do que sucedeu, mas do que se fez. Finalmente em todas as matérias, as colunas de nossos edifícios, são as virtudes, as bases dessas colunas é a recta intenção; o fim é o que dá ser à obra; o de todas as de V. A. Real seja Deus, lembrando-se que diz a Divina Política pelo Apóstolo, "O fim da lei é Cristo".

(continuação, V parte)

CONTRA-MINA Nº 33: Última Esperança dos Pedreiros ... (III)

(continuação da II parte)

D. Miguel I, O Tradicionalista
Cortemos o fio a essa mui nojenta, e fastidiosa série de inepcias, e despropósitos. Não duvido, antes creio firmemente, (e os Pedreiros Livres mais salientes do Grande Oriente de Lisboa estremeceriam, se por acaso eu revelasse ao Público as ditosas casualidades, que me favorecem na minha Guerra Anti-Maçónica), antes creio, sim, firmemente, que o Senhor D. Pedro folgaria muito de reinar em Lisboa a par de sua Filha, e rodeado desses bravos da Terceira, que a benefício das pedras, e dos penhascos têm guardado ilesa a honra pedreiral... porém salvando o seu respeito eu digo, e direi as mais vezes, e o mais alto, que eu possa... O simples intento da Regência é um insulto gravíssimo, que se faz a este Reino, e também é insulto mais que gravíssimo, que os motores de tão insulso, e ridículo projecto fazem ao próprio Senhor D. Pedro de Alcântara. É insulto feito à Nação ["Reino"]:

- Porque nos supõe a todos os portugueses homens de palha, e como paus para toda a colher; que se abordasse às nossas praias essa prometida regência, a deitaríamos logo ao mar com cacetes, foices, chusos, espingardas e com tudo o mais, com que poderíamos receber tão augustos, e honrados hóspedes.

- Porque supõe factível a expulsão de quem reina sobre os corações dos verdadeiros portugueses; e quando o Reinado é assim, forçoso é se conte com todo o sangue, que do coração se reparte para todas as veias do corpo humano.

- Porque nem somos os refugo das nações, nem, para assim dizer, o bem parado de que lancem mão aqueles Príncipes, que forem expulsos de outra parte.

É um insulto ao Senhor D. Pedro de Alcântara:

- Porque se ele mesmo se excluiu de moderar os negócios de Portugal, seria dar à Europa um novo exemplo de inconstância, que necessariamente esfriaria a todos os portugueses costumados, e habituados a verem e admirarem as mais eminentes qualidades régias na Pessoa do seu adorado Monarca o Senhor D. MIGUEL I

- Porque o desejo maçónico de o levarem ao Cargo de Regente, é só por verem a facilidade, com que ele, instando algum risco notável, abdica, e se põe ao fresco, pois qualidade é esta a melhor, que um Regente pode ter no conceito dos Pedreiros Livres.

Enfim receamos ouvir cedo alguma despedida semelhante à brasileira; e se os nossos corações devem passar algum dia, e forçosamente por esse gole, seria melhor que desde já a ouvíssemos; porque felizmente estamos dispostos, e bem preparados para ela... "Adeus meus conterrâneos portugueses, e adeus para sempre" que nós lhes responderíamos. Recebemos esse adeus com especialíssimo agrado, que foi V. Alteza o próprio, que levou as coisas a esse ponto; deixe-nos entregues à nossa miséria... não queremos ver a luz, queremos só ver no Trono o Senhor D. MIGUEL I, e aí o sustentaremos, ajudados pelos Senhor, em quanto ele viver, e ao despeito de quantas meadas se teçam, de quantos tratados, ou tratadas se façam para que ele sem a desentronizado... Não tardará muito, que a sorte do segundo Imperador do Brasil dê muito que entender a V. A., e é melhor fazer interessar as Potências da Europa na conservação da Sua Dinastia no Brasil, a que poderíamos sair com uns certos embargos mui atendíveis, do que usurpar Tronos, e inquietar nações bem tranquilas, e bem governadas.

Julgo não ter ofendido nem levemente o Senhor D. MIGUEL I em todo este número [do jornal]; caso porém dado, que a Europa leve a sua pertinácia, e cegueira até ao ponto de querer verificar a última esperança dos infamentes Pedreiros Livres, esquecerá de todo a Pessoa Real, e o Irmão do Senhor D. MIGUEL I; e como o Salvamento deste adorado Monarca é a lei primeira dos meus Escritos, hei-de conseguir licença para dizer aos Pedreiros Livres de quererem tantas vezes pôr em Sena o Ex-Imperador do Brasil.

Entretanto para que não vá por aí algum Pedreirinho suspeitar, que estes ameaços todos carecem de alicerces, em que se fundamentem, direi em conclusão deste número alguma coisa a este propósito, que os convença de que eu não laboro em falta de razão e Documentos, que os fulminem, e os reduzam a um silêncio absoluto, e inevitável. A quantos se não ouve dizer, que o Senhor D: MIGUEL, que tinha jurado a Constituição de 1826, e que chegando a Lisboa em 1828 logo a quebrantou, e anulou inteiramente, foi um perjuro? Mas que vergonha não é, que assim falem os próprios, que, sabedores de que o Senhor D. Pedro de Alcântara jurou três vezes a Constituição de 1822, assim mesmo o tem na conta de ser o mais honrado de todos os homens, e o a mais fiel à suas promessas?

Saibam pois, e conheçam de uma vez todos os bons Portugueses qual foi a verdade deste caso, a que os Pedreiros chamam perjúrio....

O SENHOR D. MIGUEL NÃO JUROU A CONSTITUIÇÃO DE 1826 PELO MODO, QUE VULGARMENTE SE JULGA.

Demonstrarei esta asserção, e nada menos que por Documento Oficial tirado do Protocolo dos Negociadores Alemães, Portugueses, Brasileiros, e Ingleses, que toda esta cópia de Negociadores foi necessária para regular os destinos do atenuado e insignificantissimo Portugal !!! Nº 2º em data de 20 de Outubro de 1827:

"Os Senhores Plenipotenciários Portugueses tendo pedido ao Príncipe de Metterich, que houvesse por bem reunir uma segunda Conferência, para se comunicarem aos respectivos Negociadores as Cartas, que S. A. Real. o Infante escrevera a seu Augusto Irmão, e à Infanta Regente de Portugal, nas quais o Infante conformando-se com o parecer da Côrte de Viena, toma as duas qualidades de Lugar Tenente, e Regente do Reino; e não se demorando o Príncipe de Metternieh em reunir dentro do seu Palácio, como fez a 20 de Outubro, segundo o desejo dos Plenipotenciários Portugueses, os mais Negociadores; depois que aqueles leram as Cartas sobreditas, e tendo-se inserido cópias no Protocolo, assentaram todos que deviam pagar um tributo merecido de louvores à sabedoria, lealdade, e rectidão, com que foram escritas. Observando-se todavia, que a Carta do Infante ao Imperador D. Pedro não continha reserva alguma de seus Direitos pessoais, ainda que em Londres se tinha julgado que tal reserva era de necessidade; porém o Príncipe de Metternich respondeu, que o Infante, havendo já feito uma reserva explícita de todos os seus Direitos na Carta, que escrevera ao Imperador D. PEDRO, ao mandar-lhe o seu JURAMENTO, uma segunda reserva seria actualmente supérflua; que todavia era mui natural, que em Portugal fosse tida em grande conta essa questão, que se ligava necessariamente com a da confirmação de abdicação do Imperador D. Pedro, e da remessa da Jovem Rainha D. Maria de Portugal, e da inteira separação das duas Coroas, mas que de resto se poderia ficar em perfeito sossego nesta parte, visto que a Áustria, e a Inglaterra estavam convencidas da importância, de não se deixarem por mais largo tempo indecisas umas questões de maior interesse para a tranquilidade interna de Portugal: e que as duas Potências estavam determinadas a unirem os seus cuidados, e as suas diligências para obterem a decisão da Côrte do Rio de Janeiro."

Dadas que foram tais explicações por Mr. de Matternich, e que a reserva em questão era inútil.

À vista de um tão curioso, e memorável Documento, onde estará o perjúrio do Senhor D. MIGUEL I? Quem reserva os seus Direitos, reserva o melhor de todos, qual era o de cingir a Coroa destes Reinos por morte de seu Augusto Pai, e o de anular imediatamente umas instituições por extremo contrárias à Lei fundamental do Reino, e à vontade assaz expressa, e declarada de todos os Portugueses.

Baste por agora este como primeiro traço de um Paralelo o mais vantajoso em todas as suas partes para o Senhor D. MIGUEL ). Tenho sobejos motivos para crer, que a estas honras está sucedendo na Europa, o que nos deve fazer paz e segurança, e tornar ocioso um Paralelo, em que somente a necessidade me faria entrar.

Real Mosteiro de Alcobaça 28 de Agosto de 1831

Fr. Fortunato de S. Boaventura

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